Os milagres de Santo ET

Na boca da noite de 18 de setembro de 1982 uma série de fenômenos espaciais aconteceram no céu do Nordeste. Mais ou menos um espetáculo de luzes que lembrava vagamente a aurora boreal.

Os órgãos de pesquisa espacial tinham avisado que aquilo ia acontecer. Não lembro a causa; lembro apenas que esperei ansiosamente por eles.

Naquela noite, uma senhora apavorada foi à casa de minha avó relatar os acontecimentos tenebrosos por que tinha acabado de passar: quando as luzes começaram a bruxulear no céu, uma força começou a puxá-la do chão, e por instantes ela se sentiu flutuando, e algo puxou suas roupas, e ela se desesperou mas não podia gritar, mas os ET’s não a conseguiram levar.

As pessoas acreditam no que quiserem.

(Falando nisso, o Ufo-Gênesis está dizendo que acharam a múmia de um ET na pirâmide de Quéops.)

Quando as escolhas são possíveis

Uma entrevista do Cabo Anselmo em nomínimo termina com uma frase poética: “Viver vale a pena, sempre que as escolhas sejam possíveis.”

Escolhas são complicadas. E a verdade é que eu não queria estar na pele do Cabo Anselmo. Porque não gostaria de ter que fazer as escolhas que ele fez, e muito menos as que ele pode fazer agora.

A história do Cabo Anselmo é uma das mais conhecidas da crônica da ditadura de 64. Nas últimas décadas foi considerado um agente provocador infiltrado nos movimentos de esquerda desde o início. A história que se conta hoje é outra: só depois de preso pelos carniceiros de Sérgio Fleury em 1971 é que passou a ser um agente infiltrado.

Eu não tenho certeza de que dá para julgar um delator, porque só Deus sabe o que a tortura é capaz de fazer a uma pessoa. Não estou convicto de que alguém possa ser condenado por ter dedurado companheiros num pau de arara; mas por outro lado lembro que, quando era militante comunista, eu fazia questão de avisar: “se acontecer um golpe podem me esquecer, porque se eu for preso não precisam nem me bater: é só olhar feio para mim que eu abro o verbo.” Era brincadeira porque acreditava em um golpe tanto quanto acredito em duendes, mas tinha seu fundo de verdade: eu sabia dos meus limites e da minha proverbial frouxidão. E não acho que alguém tenha entrado na guerrilha sem saber no que estava entrando.

O caso do Cabo Anselmo, no entanto, é ainda mais complicado. É difícil absolver alguém que atuou durante tanto tempo em segredo, passando informações, traindo a confiança daqueles que acreditavam nele, e por cuja responsabilidade direta ou indireta tantos morreram. Não dá para deixar de pensar que em algum momento ele poderia ter alertado seus companheiros, exposto sua situação. E então pensamos no medo em que esse homem vivia, na provável sensação de que sua vida pertencia àqueles que o tinham torturado. Mas ele poderia fazer a escolha de tentar fugir a eles, de escapar de algum modo.

Nada disso é fácil ou admite respostas maniqueístas. De qualquer forma, ele fez suas escolhas.

Hoje o cabo Ansemo vive escondido, paranóico, assombrado pela perspectiva de ser identificado e sofrer uma revanche dos guerrilheiros sobreviventes. É improvável, claro, mas isso não impede que sua vida seja definida por uma palavra: medo. Hoje as escolhas possíveis para ele são pequenas, mínimas (e ao mesmo tempo maiores que para aqueles mortos graças às suas informações). É contraditório que, provavelmente, tudo o que ele fez tenha sido numa tentativa insana de preservar sua vida — essa mesma, pequena e oprimida que leva hoje, uma não-vida de medo constante.

Eu não costumo ter pesadelos à noite, e meu leque de escolhas, por mais equivocadas que sejam as que eu faça, é muito grande. E por isso eu não queria ser o Cabo Anselmo. Viver vale a pena quando as escolhas são possíveis.

Malditos ciganos

Durante a Semana Santa tentei ler “Os Ciganos”, de uma tal Nicole Martinez, um estudo sociológico sobre ciganos.

Não sei nada sobre ciganos, e já há algum tempo tinha curiosidade de saber alguma coisa. Só por isso consegui atravessar o que me interessava, a parte histórica do livro. Ele é mal escrito, mal traduzido e mal editado. Faço uma anotação mental de dar uma olhada na Wikipedia quando voltar para casa; é irritante que eu seja obrigado a recorrer à internet como substituto de livros, mas parece que é disso para pior.

Quando dou uma olhada na Wikipedia, vejo informações que, de acordo com o livro que tentei ler, são equivocadas. A Wikipedia os define como um povo, enquanto o tal livro define cigano como vários povos diferentes.

Há uma semana eu não sabia nada sobre ciganos. Agora consegui a proeza de saber ainda menos.

A pílula do dia seguinte

No Texas, farmacêuticos vêm se recusando a aviar receitas da pílula do dia seguinte a vítimas de estupro, com base em suas convicções pessoais.

Não sei se sob a lei americana eles têm esse direito. Mas não parece certo que uma pessoa resolva exercer as suas convicções em cima da miséria dos outros. É nesses casos que se pode ver, com clareza, a hipocrisia e a típica falta de solidariedade humana em pessoas que se acham superiores às outras simplesmente porque acreditam em bobagens diferentes.

Além de tudo, como costuma acontecer a evangelistas cegos, eles são burros. A pílula do dia seguinte não é um abortivo, é um contraceptivo; não funciona em mulheres já grávidas. Mas texanos, como o mundo já sabe, costumam fazer bobagens, pequenas — quando são apenas farmacêuticos de um vilarejo qualquer — ou grandes — quando chegam à presidência.

Jorge Amado

Ler Jorge Amado na adolescência é provavelmente uma das melhores experiências literárias para um brasileiro.

Seus três primeiros livros são muito bons. Lendo-os, pode-se até acreditar que o realismo socialista daria certo. Ainda não são obras primas, mas têm vigor, força, fé. E têm uma ligação profunda com a realidade; são bons exemplares da geração de 1930.

Os livros seguintes são cada vez melhores. Sua melhor obra, de acordo com a crítica em geral, é “Terras do Sem Fim”, mas eu tenho uma preferência pessoal: “Seara Vermelha”.

Esta poderia ser sua obra prima, e o grande romance brasileiro do século passado. É um livro estonteante, verdadeiro, grandioso — mas então vem a última parte e tudo aquilo se perde. Ao sair do sertão e do drama de beatos, cangaceiros e retirantes para exaltar a revolução de 35 em Natal, ele prostitui sua obra e quebra o ritmo admirável do livro, inserindo um elemento estranho e totalmente deslocado. Essa é talvez a grande decepção literária do século. Se eu fosse editor de Jorge Amado simplesmente expurgava a última parte. Estaria fazendo um favor ao livro e ao seu autor.

(Mais engraçado é que quando li o livro tive certeza de que aquele final tinha sido “imposto” pelo PCB, ou pelo menos por um senso de “auto-censura” de Jorge Amado. E que foi por razões como essa que ele abjurou o marxismo. Muito tempo depois vim a saber que foi mesmo, que ele saiu dando aquela desculpa esfarrapada dos crimes de Stálin porque o PCB queria impor “correções” a “Subterrâneos da Liberdade”. Só me pergunto por que ele não rompeu antes de escrever “Seara Vermelha”.)

(E antes que digam que essa minha restrição é ideológica e causada por um confesso horror ao realismo socialista: em “Capitães de Areia” a transformação de Pedro Bala em líder comunista é perfeitamente factível, e bem inserida no contexto do livro. O mesmo acontece com Linda em “Suor”. Não interessa se o personagem revolucionário de “Seara vermelha” é baseado em José Praxedes, personagem verídico; literatura não é a vida real, e se a realidade desafina e soa fora de contexto no mundo criado pelo livro, que se esqueça dela. A inserção da perspectiva da revolução em “Seara Vermelha” tira toda a verdade do livro.)

Depois do rompimento com o PC Jorge Amado mudou de rumo e passou a escrever livros considerados leves, folclóricos, populares. Os críticos datam sua decadência daí.

E essa é, talvez, a maior injustiça que fazem com o escritor. Porque talvez seja a partir daí que Jorge Amado adquire uma dimensão ainda maior. “Gabriela, Cravo e Canela” é um grande livro. Ao retratar a evolução social de Ilhéus e os primeiros indícios da decadência do coronelismo através do fim da tolerância aos crimes de honra, é muito mais verdadeiro e duradouro que ao pintar o paraíso clandestino de “Subterrâneos da Liberdade”.

Nenhum escritor brasileiro conseguiu captar o espírito de seu povo como Jorge Amado fez com o baiano. Nem mesmo Machado de Assis, escritor maior, claro, mas menos carioca do que Jorge Amado é baiano. Ler um livro de Jorge Amado é conhecer os tantos tipos de baianos, o vagabundo que bate na mãe devotada, o malandro esperando um otário para enganar, a balzaqueana com “sexo” escrito na testa, os meninos grosseiros, cruéis mas ainda crianças.

Livros como “Gabriela Cravo e Canela”, “Dona Flor e seus Dois Maridos” e “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” são leves, sim — leves como a alma da Bahia.

MST

Se eu fosse Lula, já teria prendido o Stédile. O sujeito já tem problemas demais com os urubus da direita para ter que se preocupar com um louco incendiário quase dentro de casa.

O engraçado é que me parece que só o Stédile acha que o MST é um movimento socialista. Para os tantos sem-terras que o seguem, o MST diz respeito a propriedade, a ter o seu próprio pedaço de terra. É capitalismo puro, e dos anacrônicos, porque reivindica um direito básico e antigo. É preciso ser um país de estruturas extremamente defeituosas para conseguir gerar um movimento com esse.

Conheci um sertanejo que, entre outras coisas, fez uns bicos para a filha de João Amazonas em São Paulo — um dos homens a quem mais admiro na história do país –, e que me foi apresentado porque sabiam que fui militante do PCdoB por algum tempo. De volta ao seu sertão, juntou-se a um dos tantos grupos que estacionam à margem das estradas e em volta das fazendas que querem desapropriadas.

Não agüentou muito tempo. Faltava tudo, o mau cheiro do acampamento se tornou insuportável, e ele achou que sua miséria já era grande o suficiente sem que precisasse contribuir com panelas para o movimento, por exemplo.

O engraçado é que, para desgosto do Stédile, assentamentos sem-terras acabam movimentando, de forma tímida, a economia capitalista de uma região. Um grupo de sem-terras em Canindé do S. Francisco, por exemplo, acabou de comprar um lote de cabras na região.

E atravessando alguns assentamentos em Poço Redondo, sertão de Sergipe, uma coisa saltou ao olhos.

Algumas das casas eram mal-cuidadas; a miséria tem um talento especial e praticamente irresistível para degradar aquilo que recebe. Outras, ao contrário, eram bem organizadas, bem cuidadas, com soluções inventivas para a fartura (de “farta tudo”) em que vivem.

De vez em quando acho que o Stédile sabe muito pouco de sua gente.

The eastern trees bear a strange fruit

Blood on the leaves, and blood at the roots...Se esses xiitas iraquianos são selvagens, o que devemos dizer de quem joga bombas e mata milhares de crianças?

Cada vez mais me convenço de que usamos dois pesos e duas medidas para julgar civilizações diferentes. Não que esses iraquianos em questão não sejam selvagens, longe disso. É difícil conceber a alegria que sentiram em torturar e linchar esses americanos, é algo meio irreal e repugnante. Mas a forma como abordamos os atos deles é bem diferente de como abordamos os nossos, da civilização ocidental.

Sua selvageria, se não é justificável, tem uma origem.

E é difícil deixar de pensar que, se bombardeassem minha casa, se invadissem meu país e me tirassem a minha soberania, se matassem aqueles que amo e aqueles a quem admiro, se eu visse crianças mortas e cadáveres espalhados pelas cidades, eu provavelmente me tornaria um selvagem, também.

Notícias estranhas em um blog esquisito (VII)

O presidente do Turcomenistão está exigindo que seu povo deixe de usar dentes de ouro.

Não há surpresa nenhuma nisso. Suas medidas anteriores, entre outras, incluem banir o uso de barba, balé e circos (é preciso ser uma pessoa muito obtusa para banir o balé e muito, muito má para banir o circo).

E esse povo insensível ainda reclama de Lula.

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Pesquisa americana, via Boing Boing, diz que homens com maior média de ejaculação (21 por mês) correm menos risco de desenvolver câncer que aqueles com menor média (4 a 7 por mês).

Duas conclusões: homens casados têm maior chance de desenvolver câncer. Adolescentes com a cara cheia de espinhas ainda estão em dúvida: não têm certeza das condições da já famosa “esporrada da saúde”.

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Um garoto vietnamita de 17 anos ajudou a mãe a cortar fora o pintinho do papai, por ter ciscado em terreiro alheio.

É comprensível a atitude da mãe, embora isso seja cuspir no prato em que comeu. Mas a do filho é assustadora: é o maior caso de complexo de Édipo mal-resolvido que eu já vi.

E quanta ingratidão, meu Deus… Quanta ingratidão.

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Prostitutas lituanas cobram 3 vezes mais dos soldados da OTAN estacionados ali.

Ainda não entendi se é puro capitalismo ou se é uma comovente medida nacionalista de protesto ao imperialismo ianque.

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“É assim… Nos países onde a tolerância é zero!”

Uma menina de 9 anos foi presa por roubar um coelho e 10 dólares da casa de um vizinho.

Foi algemada enquanto liam seus direitos e interrogada na delegacia.

Pelo visto a menina não foi espancada direito, porque confessou o roubo do coelho mas negou ter levado o dinheiro.

A polícia está ficando mole demais.

E se a mãe da menina quiser eu ajudo a tocar fogo na casa da dona do coelho.

Peito de Moça

Chamar o Peito de Moça de acidente geográfico é um desrespeito.

O Peito de Moça são duas montanhas gêmeas em Paulo Afonso, Bahia. Vistas de onde eu estava, a sudeste, parecem dois seios rijos; daí o nome, colocado há séculos pelo povo sertanejo, antes de tudo um sábio.

Geógrafos diriam que o Peito de Moça é um acidente geográfico curioso, fortuito e com um belo efeito visual.

Mas o Peito de Moça não é tão pouco, não pode ser. É um incidente geográfico, uma brincadeira de ventos e chuvas ao mesmo tempo lúbricos e líricos. Não é um imprevisto. É uma aventura.