Um adeus a Easy Rawlins

Meu escritor policial favorito da atualidade é Walter Mosley — mais precisamente a série com as desventuras de Easy Rawlins, como atestam alguns posts antigos neste blog. Seus outros personagens, Fearless Jones e Socrates Fortlow, nunca chamaram minha atenção e eu não sei dizer se são bons ou ruins.

Mosley não é um sujeito conhecido no Brasil como deveria. Dele foi publicado aqui, até onde sei, “O Diabo Veste Azul”, “Uma Morte em Vermelho” e “Quem Matou Nola Payne?”, título idiota para o original Little Scarlet: acredite, o que menos importa em Little Scarlet é quem matou a pobre Nola. Uma pesquisa rápida no Google mostra, pelo menos a princípio, que as únicas pessoas que falaram de Mosley em português, além de resenhas de lançamentos e de referências ao filme “O Diabo Veste Azul”, foram Filthy McNasty e eu.

É uma pena que tão pouca gente pareça conhecer o sujeito. Ainda mais quando damos uma olhada no panorama desse segmento do mercado editorial. A cada ano as editoras jogam para cima dos leitores uma infinidade de livros policiais fracos, apenas porque são novos. Relegam os clássicos a nada; o melhorzinho deles a ser publicado com razoável constância é Rex Stout — mas apesar dos tantos elogios, aquele gordo viado e seboso do Nero Wolfe não é tudo isso que dizem dele; não passa de Agatha Christie depois de duas semanas de férias no Brooklyn. Fariam melhor se apenas publicassem e republicassem a Santíssima Trindade: o Pai Dashiell Hammett, o Filho Raymond Chandler e o Espírito Santo Ross MacDonald.

(Durante anos achei que tinha inventado esse negócio de “Santíssima Trindade” do roman noir. Me achava genial por isso. Mas há algum tempo descobri que o conceito foi cunhado há décadas por um escritor chamado Michael Avallone, exatamente nessa ordem. É tão triste chegar às portas dos 40 anos e descobrir que não se é gênio coisa nenhuma, nem mesmo um gênio de segunda.)

(A propósito, Dashiell Hammet vem tendo alguns de seus romances — que um dia pertenceram à Brasiliense — republicados pela Companhia das Letras; infelizmente deixam de lado os contos do Continental Op, justamente aqueles que definiram, de uma vez por todas, o noir.)

A inspiração óbvia de Mosley é Chester Himes — o mais bem-sucedido autor a misturar a questão racial a romances policiais. Mas enquanto os policiais strictu sensu de Himes com Coffin Ed e Grave Digger Jones tendem ao caricato, uma espécie de Mickey Spillane com mais melanina e protesto social, a série de Easy Rawlins é um pequeno clássico moderno, porque além de razoável qualidade literária dentro dos limites possíveis da literatura policial, atende perfeitamente aos requisitos convencionais do melhor noir, algo que muitas vezes falta a Himes.

A diferença básica entre o roman noir e a tradição inglesa é a ambigüidade moral, a idéia de que o crime é um produto orgânico da sociedade e não uma anomalia dela, como nos quebra-cabeças de Agatha Christie; alia-se a isso uma percepção acurada dessa mesma sociedade, e então temos os elementos que fazem do noir um gênero superior ao modelo inglês tradicional. Mas a qualidade literária é outro grande diferencial. Da extrema limpeza estilística de Hammett à razoável profundidade psicológica de MacDonald, do ponto de vista literário se vai mais além do que nos romances de, por exemplo, Edgar Wallace. Obviamente, o simples fato de ser literatura policial implica uma série de convenções; mas isso não exclui observações mais profundas acerca da sociedade.

(Outro parêntesis em um texto preguiçoso já cheio deles: literatura policial é clichê e convenção, mas nem sempre fáceis. Bukowski, por exemplo, se deu mal com seu Pulp; Luís Fernando Veríssimo também, com seu “Jardim do Diabo”. Boa literatura policial não é tão fácil como parece.)

Como acontece com qualquer série, a produção é irregular. Obras excelentes como “O Diabo Veste Azul”, Little Scarlet e Cinammon Kiss convivem com livros bons como A Red Death e A Little Yellow Dog, e fracos como White Butterfly, Black Betty, Gone Fishin’ e Bad Boy Brawly Brown. Mas essa divisão entre obras boas e ruins importa pouco, porque no final das contas o que vemos neles é a evolução do personagem e também da questão racial americana. A série acaba oferecendo um painel interessante sobre a evolução das relações raciais nos Estados Unidos, do racismo claro e declarado dos anos 40 às mudanças acontecidas nos anos 60. Nos primeiros livros da série, ambientados no pós-guerra, Easy Rawlins é um homem cheio de ódio e raiva, atento a pequenas e grandes demonstrações de racismo e preconceito; mas à medida que o tempo vai passando e a sociedade americana vai se moldando ao fato de ser uma sociedade multirracial de classes, essas relações vão se tornando menos conflituosas. O quebra-quebra de Watts é um momento decisivo; mas a ascensão do movimento hippie também. É o acompanhamento dessa evolução que coloca Mosley um pouco acima da média dos escritores policiais. E, claro, o excelente personagem que criou: Easy Rawlins é vivo, conturbado, um herói torturado e trágico que ao mesmo tempo em que resolve mistérios policiais, tem que lidar com uma sociedade conflituosa e com os seus próprios problemas.

Mas este não é um post para falar de Easy Rawlins, porque já falei antes. Este é um texto para carpir a sua morte. Uma espécie de eulogia meio sem graça.

Há algumas semanas li Blonde Faith, publicado ano passado, o décimo primeiro da série de Rawlins. No final do livro há um acidente de carro e Rawlins, sentindo que vai morrer, desmaia, “and then the world turned black“. Mosley já tinha avisado que aquele seria o último livro da série. Pelo visto está cansado de Easy Rawlins, como Conan Doyle cansou de Sherlock Holmes. Dono de uma carreira razoavelmente diversificada e bem-sucedida, Easy Rawlins pode parecer a Mosley restritiva — como os Beatles pareceram restritivos a John Lennon.

Mas Mosley sabe como funciona o mercado, e não teve coragem de matar de maneira irrevogável o seu personagem. Além disso, anunciar um livro como o último de uma série bem sucedida é um truque de marketing já velho, desde que se deixe o final em aberto para a possibilidade de eventualmente retomar a série. Assim como Doyle retomou o viciado em ópio, não seria surpresa se daqui a alguns anos Easy Rawlins voltasse, tendo sido resgatado do acidente feio e mancando da perna esquerda.

Para quem gosta de boa literatura policial, como eu, essa é uma última esperança.

Post pansexual para o Alex

Em um de seus últimos posts, “Elogio à Pansexualidade“, o Alex se lamenta pela sua heterossexualidade:

Minha heterossexualidade mesquinha me impede acesso à metade da raça humana. Meus potenciais parceiros amorosos estão restritos a apenas meio mundo. Eu gostaria de ser livre pra amar qualquer um, pra considerar cada pessoa independentemente, caso a caso, estar aberto para possibilidades românticas com qualquer um. Penso em todas as pessoas maravilhosas com as quais eu nem mesmo considero uma relação mais profunda apenas porque são homens como eu, e lamento minha incapacidade de amar sem preconceitos.

Alex,

Pessoalmente, acho que se preocupar com isso é dar importância demasiada a sexo como um modelo a ser seguido: “eu devo fazer assim, eu devo ser assim”. Sexo não é tão importante assim. Ou é muito mais importante que isso.

Mas a partir do momento em que você acha que a heterossexualidade é uma prisão, demonstra uma relativa abertura (sem trocadilhos, por favor) para relações amorosas e sexuais de caráter homoerótico.

Ou seja, você parte do princípio de que dar a bunda é liberdade.

Eu sou um um heterossexual mesquinho e até meio tosco, mas tento respeitar as preocupações e indagações espirituais dos outros. Por isso fiquei pensando em uma maneira de ajudar você a se libertar dessa prisão. Eu sou uma pessoa boa, você sabe.

E então eu disse eureka! e pensei: “É isso, Alex, já sei como.” Pensando um pouquinho percebi que existe uma maneira de você vencer essa prisão. É uma maneira fácil, comprovada e antiga, embora provavelmente não indolor.

Infelizmente (ou felizmente, eu não sei), ela só se aplica a quem acha a heterossexualidade uma coisa ruim. Não é possível com heterossexuais mesquinhos como eu, porque não lamento o fato de minhas opções se restringirem a metade da humanidade. Em primeiro lugar, porque eu não conseguiria comer metade da humanidade; em segundo, porque eu não quero comer metade da humanidade — tem muita baranga por aí; em terceiro, porque na verdade é bem menos da metade: tem um bocado de lésbicas por aí que jamais me daria uma chance, nem para saber como é.

Para nós, pequenos periquitos australianos felizes dentro da nossa gaiolinha decorada com fotos da Mulher Melancia, a prisão é um lugar muito bom, agradável e acolhedor e nos seria impossível e impensável viver fora dela; a liberdade nesse caso não nos atrai nem incomoda. Mas se a questão da heterossexualidade passa a perturbar a paz de alguém, ele ou ela tem a obrigação moral de tentar buscar sua felicidade e descobrir se, afinal de contas, poderia ou não gostar da liberdade homoerótica. Não me refiro a sentir interesse; mas a admitir a possibilidade de maneira racional, e experimentar até gostar.

Então lá vai a minha sugestão.

Dê, Alex. Encomende as pregas a Deus e dê muito. Dê até começar a gostar.

Se conseguir gostar, ótimo: você vai ser um homem mais feliz, livre e com 50% mais opções de se dar bem.

Mas se mesmo assim não gostar, pelo menos vai saber que tentou, tentou muito. E então a heterossexualidade vai deixar de ser uma prisão para ser uma opção, e você vai estar dentro da jaula por vontade própria, sabendo como é o mundo lá fora.

O Cavaleiro das Trevas assusta novamente

“O Cavaleiro das Trevas” corrige os erros de Batman Begins e vai além.

Ao contrário da opinião geral, Batman Begins foi um filme medíocre. Se sustentava aparentemente porque a comparação com seus antecessores era muito fácil: os filmes feitos a partir do Batman de Tim Burton eram ruins demais. Batman Begins era melhor que eles — mas não passava muito de um filme mediano, que recorria a elementos fáceis do cinemão comercial, como o aprendizado no gelo citado pelo Bia, onde faltou apenas Pat Morita falando frases de efeito tipo “Falcão, Campeão dos Campeões” para o Karate Kid.

“O Cavaleiro das Trevas”, no entanto, evitou a maior parte dessas armadilhas. Com as bases, boas e ruins, de um possível universo próprio já estabelecido, foi buscar nos quadrinhos pontos de apoio para se transformar no que é de longe a melhor adaptação do Batman já feita para o cinema. Nolan criou esse universo a partir de elementos das principais histórias do Batman. Por todo o filme perpassam referências de momentos importantes dos quadrinhos, principalmente de “O Longo Dia das Bruxas”, do final dos anos 90, uma das melhores histórias do Batman em todos os tempos — enquanto o primeiro foi buscar suas referências em Blind Justice. Um espectador atento encontra também referências a várias outras histórias clássicas, como a motocicleta de “Ano 1”, e tudo isso é combinado de maneira a tornar a história do pesonagem consistente e clara, mesmo para quem o acompanha há muito tempo pelos quadrinhos.

A espetacularização do Batman de que o Bia se queixa não é um defeito. Ela equivale a alguém que, vendo o Batman borderline de Frank Miller, reclama que bom mesmo é o detetive de Dennis O’Neill — ou alguém que diante desse detetive sente saudades do Batman ingênuo de Jerry Robinson. O Batman de Nolan é adequado aos tempos e à audiência; e consegue isso sem abrir mão do caráter soturno e doentio do Batman.

O filme tem falhas, claro. O uniforme de Robocop é a mais grave — “Homem-Aranha” provou há quase uma década que é possível fazer uniformes para super-heróis no cinema condizentes com os quadrinhos (e o Doni, aqui, dá o link para um video que coloca isso na prática), embora o filme perceba isso e tente dar uma solução, ainda longe de ser sequer suficiente. Um Batman que voa — ou melhor, plana — é exagero desnecessário. A mudança na origem do Duas Caras também não faria falta — um apelo fácil ao melodrama típico do cinema. E Bruce Wayne, apesar de bem interpretado por Christian Bale, o Batmãe, é pouco aproveitado e explorado: sua paixão por Rachel Dawes acaba se mostrando superficial e artificial.

O filme tem boas atuações, algo nem sempre comum em filmes de ação. Michael Caine e Morgan Freeman dão o de sempre; mas esses são grandes atores, cujo arroz com feijão costuma ser mais que suficiente. Gary Oldman está adequado como o Comissário Gordon, Aaron Ekhardt não faz feio como Harvey Dent, e Eric Roberts faz um bom vilão — mas ele sempre fez, até porque para isso basta mostrar o rosto na tela; e percebendo o erro grotesco que foi usar Katie Holmes no primeiro filme, substituíram-na por Maggie Gyllenhaal. A surpresa é Christian Bale, que resolve muito bem a dicotomia entre as personalidades distintas de Bruce Wayne e do Batman.

E, claro, o Coringa de Heath Ledger.

Há um problema com quase todos os que comentam a história do Batman. Comungam da impressão de que o seriado debochado dos anos 60 praticamente destruiu o Batman. E isso não é verdade. O Batrman vinha em decadência desde os anos 50, em parte por causa da perseguição política de que os quadrinhos foram vítimas, em parte devida à esquisitice hipocritamente puritana daquela década americana. O seriado retomou a popularidade do Batman e reacendeu o interesse pelo pedófilo notívago. Sem o público criado pelo seriado, Dennis O’Neal e Neal Adams não poderiam iniciar a reformulação do Batman, transformação completada por Frank Miller nos anos 80 em “O Cavaleiro das Trevas” e “Ano 1”, e consolidada por Allan Moore em “A Piada Mortal”.

Acima de tudo, aquele seriado deu um grande Coringa. Cesar Romero insistia em não raspar o bigode, para não acabar com sua imagem de amante latino, mas mesmo assim fez um Coringa antológico e definitivo em sua histrionice e teatralidade. Romero definiu o modelo do Coringa para sempre, e Jack Nicholson, no “Batman” de Tim Burton, não conseguiu lhe ser superior.

Heath Ledger consegue. Todo o filme é uma tour de force de Ledger em sua recriação do Coringa. Até agora, a loucura do Coringa era caricata e histriônica; a de Ledger é muito mais que isso, é tão obviamente letal que, antes de despertar interesse, lhe desperta medo. Ledger construiu um Coringa moderno e admirável: baixou o tom de voz, incorporou tiques psicóticos como lamber os lábios todo o tempo e deu ao Coringa aspectos de decadência física que o tornam mais louco ao mesmo tempo que mais real. Esse Coringa é muito mais sério que seus predecessores; mas a morte é algo mais sério do que uma revista quadrinhos. Incrivelmente, é muito mais parecido com o Lon Chaney de The Man Who Laughs que inspirou o Coringa.

Nos quadrinhos, o Coringa não usa mais maquiagem. Sua pele e seu riso foram deformados por elementos químicos no episódio que lhe deu origem, retratado em “A Piada Mortal”. No filme, de maneira quase lampedusiana, isso muda para não mudar. O diretor Christopher Nolan mantém e potencializa esse elemento quadrinístico ao transformar o riso do Coringa em uma cicatriz escarninha, mas ao utilizar a maquiagem que hesita entre o gótico e e circense reforça a idéia do Coringa como espelho invertido do Batman: os dois se disfarçam, cada um de sua própria forma, que afinal de contas não é tão diferente assim. E essa é, afinal, a essência do duelo eterno entre o Batman e do Coringa.

Pequena introdução à discografia de Paul McCartney

E então, sem ter o que fazer, resolvi fazer uma pequena lista dos discos de Paul McCartney.

Coisa chata, mesmo, só para fãs do sujeito.

Na lista não entram discos ao vivo, mesmo que todos eles tenham canções inéditas, nem os discos de música eletrônica ou, ainda, as peças de música erudita — acredite em mim, coisas como Liverpool Oratorio deixam os piores discos desta lista parecendo obras-primas. Além disso, a base são os LPs originais, o que quer dizer que deixa de lado vários compactos, muitos deles brilhantes, que foram mais tarde incluídos como faixas bônus nos CDs. Para mim, incluir esses compactos no disco original é como colocar Penny Lane e Strawberry Fields Forever numa reedição do Sgt. Pepper’s. É a mesma razão pela qual incluo uma coletânea que juntou uma série de compactos de McCartney que não existiam nos LPs.

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As alegrias que o Google me dá (XXXV)

qual o custo de uma operação de hemorroida
É caro. Custa o olho do cu.

pobre pode ter ética?
Pode, sim, mas ela sempre acaba no prego da Caixa Econômica Federal.

comprar citotec com pagamento no boleto
Olha o que é uma moça absolutamente sem-noção. Não é de espantar que ela tenha entrado na esparrela de emprenhar. Mas se eu fosse o farmacêutico venderia quantas caixas ela quisesse, sem pensar duas vezes. Vai que a cria dessa coisa sai igual à mãe. Essas coisas a gente tem que cortar pela raiz.

video de gilvam fazendo sexo com adolescente
Essa é provavelmente a mais encantadora egosearch que eu já vi. Gilvam com M deve ser um coroa com suéter amarelo nas costas, do tipo que aperta o 21. E quer que todos vejam o seu grande momento. Compreensível.

vestida de preto e calada toda mulher parece ser inteligente nietzsche
Eu já disse aqui mas não custa repetir: é por essas e outras, como a do chicote, que adoro quando vejo pseudo-feministas metidas a mais intelectuais citando o maluco do bigodão.

simpatia para broxa marido
Ô, minha filha… A sua vida já é difícil. Seu marido chega cansado do trabalho, querendo apenas o chinelo, uma cerveja e o Jornal Nacional. Já é difícil conseguir algo mais. E você ainda quer broxar o sujeito? Você não tem juízo, não?

brasao familia galvão gratis
Então os Galvão, essa raça de miseráveis, têm um brasão. Fico imaginando qual seja. Se for como eu penso, é um sujeito numa rede ganhando cafuné da loura, com um livro de Dashiell Hammett no colo, Beatles no toca-discos e um copo de coca-cola. Acho que vou querer um também, para materializar toda essa nobreza que de repente se apoderou de mim.

qual é a sensação que causa um penis grande numa mulher virgem?
Melhor que a sensação de um pênis pequeno. Pelo menos a moça vai ter retorno garantido pelo seu investimento e um padrão pelo qual julgar momentos semelhantes no futuro.

piriguetes fazendo boquetes
É a beleza da poesia popular, rimas belas e verdadeiras como “A Raposa e as Uvas” de Reginaldo Rossi ou “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar” com Odair José. Eu li isso e já saí cantando um funkzinho tipo Sex Machine: “Piriguetes, papapapá, fazendo boquetes, papapapum”, repetindo essa linhaad nauseam da minha maneira tipicamente compulsiva e tornando o dia de todo mundo próximo a mim um pouquinho mais feliz.

meu penis tem o tamanho de um de uma criança pq?
Porque Deus não gosta de você. (Desculpe. Mas essa é a explicação menos cruel que eu posso te dar.)

simpatias para crescer e endurecer os seios
Ah, minha fofa… Escolha. Ou você tem peitinho duro ou peitão caído, ou um ou outro, e as poucas abençoadas que têm peitos grandes e duros são belas aberrações da natureza e portanto raríssimas, mais raras que hermafroditas e enterro de anão. Sabe, docinho, a gente não pode ter tudo na vida. A única maneira de você ter peito grande e duro não é com simpatia nenhuma, que Oxum está pouco se lixando para os seus peitos: é deixando uma graninha no cirurgião plástico para implantar uns 200ml de silicone.

frases de homem pra fake
Procure em “Nazário, Ronaldo”. Deve ter um monte lá.

poema para parabenizar alguém casado
Procure em “Ionesco” ou ” Absurdo, Teatro do”.

esposa ela é gorda mas é gostosa olha as fotos
É o consolo do sujeito que casou com uma mulher bonita que o tempo embarangou — e o tempo tem dessas crueldades. O sujeito chega em casa e vê o bagulho com que mora, mas se conforma achando que ela é boa de remelexo. O que ele não sabe, coitado dele, é que não é ela é que boa no aiaiai, é ele que é ruim também. Porque desgraça nunca vem desacompanhada, e para cada pé roto sempre há um sapato esfarrapado.

existe algum grupo na itália que defende os animais
Com a palavra, o Allan. Mas antecipando-me ao nobre ítalo-paulista-baiano, eu gostaria de lembrar que o Berlusconi tem muitos eleitores.

qual a diferença do canal do reto com o canal vaginal
O canal vaginal é aquele pelo qual você presumivelmente passou um dia. O canal do reto é como o Ford Ka: feio por fora e apertado por dentro. E não saber a diferença entre um e outro denota incompreensão e despreparo absoluto para a as coisas boas da vida.

estrias em homens musculosos fotos
Mas que viadagem é essa? Depois, quando a gente fala que esses fisioculturistas todos, musculosos e sarados, são todos, err, problemáticos o pessoal reclama, quer dar uma porrada na gente. Você está preocupado com estrias, compadre? Vai arranjar o que fazer. Deixa de puxar ferro e vai logo fazer um curso de cabeleireiro que é melhor para você. Você vai ser mais feliz. E sem estrias.

me decepcionei com o tamanho do penis
Tadinha. Isso acontece, e por caridade não ria, não deboche. Olhe estas Alegrias e você vai ver que esses casos são mais comuns do que parecem. Sei que isso não serve de consolo, nem quero que sirva porque acho que não devemos nos contentar com pouco, mas pelo menos saiba que há mais gente na sua situação, e você vai se sentir menos sozinha neste mundo imenso.

o que aconteceu com a mae de ritchie valens
Deixa ver: segundo o filme “La Bamba”, o filho mais velho era um maconheiro vagabundo, a filha só fazia filho e quem a sustentava era Valens. Valens morreu. Olha, amigo, acho que a mãe de Ritchie se fodeu.

a cachaça já se apoderou de mim
É por isso que você fica aí, fazendo essas perguntas idiotas ao Google.

eu sou metido
Não sei por quê.

gostaria de saber quanto tempo leva pra receber a bolsa familia
Infelizmente, quando acabar o prazo você já morreu de fome.

eu vi o penis do meu filho
Isso é que é uma mãe desnaturada. Se ela não viu o pinto do filho é porque nunca deu banho, nunca cuidou do menino. Aí depois vem com essa cara de santa puta, “Ah, eu vi o pênis do meu filho!”, e vai para o confessionário pedir perdão ao padre.

quem nunca ficou com um rafael
Você está pensando o quê, vagabunda? Que Rafaéis são assim fáceis, é? Não, minha filha. Tem que pegar na mão. Tem que pedir permissão ao pai. A gente pode ser cafajeste, mas a gente se respeita. (Na verdade a gente é facinho, sim, mas tem que fazer um mise-en-scène básico para não avacalhar.)

mulher gosta de 2 paus
O que é muito triste para você, que só tem um bem pequenininho.

é bom ser corno manso
Você tem razão, segundo o filósofo cearense Falcão. Ele dizia que a alternativa é bem pior. Vê só: você leva um chifre. É corno. Aí mata o sujeito: é corno e assassino. Então vai preso por homicídio: é corno, assassino e presidiário. E na prisão o xerife da cela faz a festa com você: é corno, assassino, presidiário e baitola. Quer saber? O chifre dói menos.

movimento historico nordestino
É o MEDASP — Movimento Em Direção A SumPaulo.

ela se chama vagina
E é uma moça bonita, cheirosa e simpática, naturalmente.

como saber se xuxa e adoradora do diabo
Pare com essa imbecilidade. A Xuxa não é adoradora do diabo. Adoradores do diabo têm chifres e rabos compridos. A Xuxa não tem nem bunda.

mulher evangélica pode fazer sexo oral?
Já tinham perguntado isso antes, mas alguém voltou aqui querendo uma resposta a essa profunda dúvida teológica. Eu imagino a moça com água na boca, engolindo em seco, pensando no volume debaixo das calças do Glenílson e em tudo o que ele pede para ela fazer, e querendo uma resposta rápida, sim, sim, eu posso, por favor diga que eu posso, e se não puder ela vai fazer assim mesmo, e a cabeça subindo e descendo vai balançar para o esquecimento as dúvidas de antes.

google eu te amo!
Rapaz, quem devia amar era eu, porque é graças aos bobos que vêm parar aqui através dele que eu arranjo o que escrever quando estou sem assunto.

putaria entre velhos gays fotos
Deve ser assim, ó:
— Me come.
— Eu não. Me come você.
— Só se você me comer primeiro.
— Então eu te pago um boquete.
— Ah, não, aí eu pago primeiro.
— Não. Eu primeiro.
E assim seguem noite adentro os dois velhos broxas.

O bom, o mau e o feio

Sobre uns blogs de que gosto.

O Biscoito Fino e a Massa — O blog do Idelber foi, provavelmente, o melhor blog brasileiro durante a campanha presidencial de 2006; continua um dos melhores até hoje, com uma abordagem sólida, de vez em quando mercurial, mas sempre honesta. E é um dos blogs que consegue uma variedade sólida de assuntos com uma perspectiva sempre interessante. O único problema do trotskista é a implicância com o Flamengo. Mas essa é a sina de atleticanos que olham além do azul do Cruzeiro. O seu caso específico é ainda mais grave: o trauma do campeonato de 1981, quando o Atlético foi vencido por um time que logo depois seria campeão do mundo dando um chocolate no melhor time europeu daqueles anos, o Liverpool, ainda não foi superado pelo Idelber. Nunca será.

O Hermenauta — O Hermê é implicante. É implicante até dizer chega. É um sujeito doente ao ponto de estar em Paris — em Paris, meu Deus — e comentar notícias da Folha de São Paulo. O Hermê é um velhinho carioca sádico exilado em Brasília que passa os dias babando sobre fotos da Nathalie Portman. E não do Richard Dawkins, como pensam uns desavisados por aí.

Sítio do Sergio Leo — O Sergio Leo é jornalista, uma dessas escolhas infelizes que a gente faz na vida e depois tem que suportar eternamente. Sua cobertura da crise do gás na Bolívia, há coisa de dois anos, foi brilhante pelo equilíbrio e pela capacidade de separar o joio do trigo — e publicar o trigo: foi uma das raríssimas vezes em que um blog foi muito superior à média da cobertura da grande imprensa brasileira. O Leo também é uma voz ponderada na abordagem da situação venezuelana. Mas o Leo realmente acredita que o diploma de jornalista é necessário, o que mostra que nem sempre ele está correto.

Liberal Libertário Libertino — Assim como este blog, o LLL já teve excelentes momentos e alguns nem tanto. O Alex é melhor quando expõe suas opiniões. É pior quando coloca fotos de mulheres bonitas e focaliza os pés em vez da bunda e dos peitos. Ultimamente tenho acompanhado a fantástica descoberta, por parte do Alex, do racismo — sob um ponto de vista americano, o que é mais interessante. Do ponto de vista literário, a série sobre as Prisões são um grande momento da blogosfera brasileira; muita gente lia esses belíssimos textos — belíssimos, por mais que eu discorde deles — como lia Dale Carnegie. O Alex poderia ser um grande escritor de auto-ajuda se parasse com essa bobagem de ser escritor sério e se dedicasse a ganhar dinheiro.

A memória dos grandes

Das lendas vivas dos anos 60, apenas duas mantêm uma trajetória criativa significativa quase meio século depois: Bob Dylan e Paul McCartney. Os Rolling Stones, a outra lenda, estão no mesmo nível de um Chuck Berry e Little Richard, ou de Elvis em 1975, vivendo de shows em que reapresentam incessantemente um repertório brilhante composto décadas atrás; o que muda é apenas a magnitude. Apenas para comparação, nos últimos vinte e poucos anos os Stones lançaram apenas quatro discos com canções inéditas, todos medíocres, e são três compositores na banda. Nesse mesmo período de tempo McCartney lançou doze, incluindo dois discos de covers e três de música erudita, com alguns pontos altos.

O penúltimo último álbum de McCartney, Chaos and Creation in the Backyard, foi recebido com aplausos generalizados, inclusive por este blog. Menos de dois anos depois, e em meio a um dos divórcios mais públicos e escandalosos dos últimos anos, ele apareceu com um novo disco, Memory Almost Full.

Normalmente as pessoas resenham um álbum assim que ele é lançado. Mas algo de estranho acontece com McCartney: as pessoas elogiam seus discos durante o lançamento enquanto detonam o anterior, e esse processo segue infinitamente: a obvra elogiada hoje é detonada amanhã. Talvez a música de McCartney pareça biodegradável, não sei; por via das dúvidas, resolvi só publicar este texto pelo menos um ano depois do lançamento do disco.

Que a capa tenebrosa, provavelmente a pior de McCartney em quase meio século de carreira, não sirva de prelúdio ao conteúdo do disco: Memory Almost Full é um excelente álbum.

É curioso notar que, do ponto de vista do conjunto, Chaos and Creation é um disco melhor. É mais coeso, é claramente um álbum concebido como uma entidade única e orgânica. Mas Memory Almost Full tem uma vantagem nada desprezível: é um disco com melhores canções pop. Aqui se vê de volta o bom e velho Paul McCartney, com ecos dos Wings e uma capacidade de criar boas melodias que parecia perdida quando ele entrou em sua sétima década de vida.

O mais interessante é que, de repente, as letras de McCartney passaram a ser pessoais. É impossível ouvir o disco e deixar de pensar que algumas das faixas são respostas à crise por que ele passou nos últimos anos.

O disco foi gravado em dois momentos diferentes. O primeiro, em 2003, com a banda que o acompanha em shows e que estava presente em Driving Rain, disco de 2001. O segundo, a partir de 2006, com McCartney tocando todos os instrumentos. Depois do clique segue um comentário faixa a faixa.

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A verdade em tons de cinza

Nos últimos anos, ninguém reclamou das grandes operações da Polícia Federal, como a Sanguessuga, a Navalha e a Pasárgada. Não se falou da espetacularização de suas ações. Não se disse que as prisões eram midiáticas. Não se criticou a humilhação de homens poderosos ao saírem algemados — como o empresário João Alves Neto, filho do ex-governador de Sergipe João Alves Filho, preso na Operação Navalha. Ninguém, claro, além dos diretamente envolvidos.

Ninguém criticou porque essas operações mexiam com um setor bem definido do tecido social brasileiro. Ali estavam apenas políticos corruptos desviando dinheiro de ambulâncias, ou empresários que reinavam no submundo mas eram desconhecidos do grande público, como Zuleido Veras, da Gautama. Todos esses personagens de triste memória operavam sem necessidade do apoio de outras instituições brasileiras, como a imprensa. Só eles eram sujos, não precisavam sujar mais ninguém.

Com a Operação Satiagraha, isso mudou.

A diferença entre a Satiagraha e, por exemplo, a Sanguessuga é que aquela mexe com uma área cinza das relações institucionais brasileiras, que envolve muito dinheiro e muito poder. É uma área em que legalidade e ilegalidade, moralidade e imoralidade são separadas por linhas muito tênues. É uma área mais complexa em que uma peça não funciona sem outra, em que um Daniel Dantas precisa do apoio de jornalistas a seu soldo para influenciar a opinião pública e ter mais capital político para realizar seus negócios. Essa é a grande novidade trazida pela Satiagraha, e é isso que tem gerado as críticas que se vê na mídia nos últimos dias. São críticas tímidas porque estão lidando com uma das instituições mais respeitadas do país cumprindo o seu papel — uma instituição cuja reputação foi criada através de operações “espetaculares” como a Navalha e prisões “midiáticas” de figurões, amplamente repercutidas pela imprensa.

(É preciso lembrar também que essas operações só se tornam espalhafatosas a partir do momento em que a imprensa as cobre e divulga com estardalhaço. Ao reclamar do espetáculo, a imprensa está apenas se recusando a aceitar a responsabilidade pelas suas ações.)

Em relação às operações anteriores da Polícia Federal, a imprensa se sentiu numa posição confortável para elogiar porque em nenhum momento sua própria credibilidade esteve em jogo. Ela não intermediava negociatas. Não participava dos esquemas e dificilmente tinha sequer acesso a esse tipo de informação. Mas agora está diretamente envolvida e o relatório da Polícia Federal mostra os suspeitos utilizando termos que destroem qualquer tipo de respeitabilidade que um jornalista possa aspirar a ter: “matérias por encomenda”, “campanha de difamação”.

De acordo com a imagem rósea que a imprensa projeta de si mesma, esse tipo de coisa ficou para trás, junto aos cadáveres de Assis Chateaubriand e David Nasser. Qualquer pessoa mais próxima de algum nível de poder, no entanto, sabe que não é assim. Esses termos não apenas são utilizados com constância como são moeda corrente das relações de grandes empresas e do Estado com a imprensa.

Ao adentrar essa área cinza em que as coisas são mais complexas do que parecem, a Operação Satyagraha assusta a imprensa porque envolve questões como verdade e ética. Um jornalista não precisa mentir para ser anti-ético, publicando apenas um parte da verdade e influenciando a opinião pública a favor de quem lhe paga ou lhe oferece alguma vantagem. Se recebe algum dinheiro de um empresário bilionário, que mal há nisso, desde que ele não tenha mentido?

Em conversa com o jornalista Sérgio Matsuura, do site Comunique-se, o colunista Diogo Mainardi — o cão de guarda quase hidrófobo da Veja e, segundo o Luís Nassif, de Dantas também — menosprezou o seu envolvimento com o esquema denunciado e o próprio trabalho da Polícia Federal: “Uma investigação que não conhece o funcionamento do jornalismo, não pode saber como funciona uma rede de falcatrua internacional.”

Resta saber agora — e é esse o dever que a imprensa tem no momento — qual é realmente o “funcionamento do jornalismo” a que o Mainardi se refere. Qual o limite que jornalistas devem se impor em suas relações com suas fontes e, principalmente, com as estruturas de poder. A outra alternativa é assumirem-se como eventualmente são. (Por outro lado, vale a pena ler o texto do Sergio Leo sobre o envolvimento da repórter Andrea Michael no relatório.)

A Operação Satyagraha é uma iniciativa corajosa e benéfica. Faz parte de um processo de evolução constante da Polícia Federal e historicamente já representa um grande avanço para o país. Durante anos, reclamou-se que só pobre ia preso. Isso está mudando, como mudaram outras coisas no Brasil. E por si só, isso já é uma grande coisa. Ao criticar aspectos secundários da operação, a imprensa faz um desserviço para o país. Faz isso para se proteger. E ao fazer isso, não cumpre o seu papel.