Porque as notícias da revolução francesa ainda não chegaram à ilha

Notícia mais que apropriada ao 14 de julho.

Enquanto o Fukuyama tentava convencer os bobos de que a história tinha acabado, a verdade é que ela sequer tinha começado.

Só hoje fiquei sabendo da existência da Ilha de Sark, o último território legititimamente feudal da Europa, com senhor e tudo, além de leis fantásticas como o “Clameur de Haro“, uma espécie de mandado de segurança medieval onde a pessoa, ao julgar que seus direitos individuais estão sendo atingidos, recita na hora e no local — com testemunhas, claro — o Pai Nosso e grita: “Haro, Haro, Haro! À mon aide mon Prince, on me fait tort!“, tendo apenas que registrar a queixa nas 24 horas seguintes, e onde eleições livres serão realizadas pela primeira vez em séculos de história em dezembro de 2008.

Eu não poderia querer um mundo melhor para viver.

Se na Bahia ainda existe gente pobre, fracassada ou de coração partido é porque não lê os classificados d’A Tarde

Classificados do jornal baiano A Tarde do dia 29/06/08, caderno Populares, seção “Místico”.

***

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Blogografia

Na minha caixa de correio apareceu esse pequeno poeminha, enviado por um leitor que, por modéstia ou timidez, sei lá, preferiu ficar anônimo.

É uma pena, porque esse é um bom poema, e eu tenho que confessar que ri muito quando li:

O blogueiro é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é sossego
O sossego que não sente.

E os que lêem o que escreve,
No sossego lido sentem bem,
Não os dois que ele não teve,
Mas só o que eles também não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama enganação.

Manuais Disney

Durante muito tempo, em vez de dormir cedo, me pegava imaginando que para muito pouca gente os manuais Disney foram importantes como para mim. Conhecia pouquíssimas pessoas que lembravam deles com o mesmo fervor que eu.

Isso mudou com a internet. Um bocadinho de gente compartilha suas lembranças. A Wikipedia tem uma lista deles. Infelizmente, ela parece conter alguns erros. Uma lista bem completa — com fotos das capas de cada um — pode ser encontrada aqui.

Os manuais eram livros ilustrados sobre algum assunto específico, pequenas enciclopédias para crianças publicada entre os anos 70 e começo dos 80. É bom descobrir que mais gente gostava daqueles livrinhos.

Mas melhores que essas referências na rede são as lembranças que tenho deles. Tive, e ainda tenho, uma boa parte desses manuais. Fizeram parte da minha infância, como as balas Soft — aquelas que matavam crianças sufocadas —, a Sessão da Tarde e o Sítio do Picapau Amarelo.

Olhando para eles agora, preciso admitir que me forneceram boa parte do conhecimento sobre o mundo necessário a uma criança — e nisso a minha geração foi privilegiada em relação à imediatamente posterior. Eles combinavam, de maneira equilibrada e adequada, lazer e informação. Certamente não entendo muito mais de carros hoje do que entendia depois de ler o Autorama. E quase tudo o que sei sobre esportes e olimpíadas vem do Manual dos Jogos Olímpicos, com o Pateta como protagonista (que comprei uns poucos meses depois das Olimpíadas de Moscou).

Naquela mesma época ainda comprei o Manual do Detetive, que não tinha nada a ver com a Disney e trazia uma lupa como brinde, além de um monte de informações que moldaram a minha paranóia — como nunca andar encostado a muros e prestar atenção a quem anda na mesma rua que eu. Anos antes minha irmã teve o Manual da Mônica, onde aprendi, por exemplo, a história do jogo do bicho. Tive ainda o Manual do Mandrake; hoje nem Mandrake existe mais.

Não tive alguns manuais, como o do Tio Patinhas, que falava de economia; do Mickey, se não me engano sobre polícia e espionagem; do Gastão (que eu nunca soube direito sobre o que era); e do Professor Pardal, sobre invenções. Não os comprei por que não estavam disponíveis na época. Depois foram reunidos numa certa “Biblioteca do Escoteiro Mirim”, mas a minha época já tinha passado.

O Manual do Zé Carioca, lançado para aproveitar a Copa de 1974 e relançado em 1978, falava obviamente de futebol. O Autorama falava de automóveis. O Manual do Peninha era uma aula sobre jornalismo e sua história, e imagino que deva ter inspirado muita gente a se tornar jornalista; o Marmota lembra dele. O Manual da Vovó Donalda era sobre culinária. E não esqueço de comprar o Magirama em 1978, em Aracaju, e começar a leitura sentado na calçada do aeroporto enquanto perdia um vôo para Salvador.

Ver as páginas sobre os manuais confirmou minhas lembranças de que o último lançado — sem contar reedições medíocres — foi o Manual da Televisão, que comprei em 1985. Ainda o tenho e folheio de vez em quando. É excelente. Uma boa aula resumida de como funcionava uma emissora de TV.

E de todos aqueles manuais, o melhor era o Manual do Escoteiro Mirim.

O Manual do Escoteiro Mirim fornecia um amontoado de informações inestimáveis para uma criança; tinha até um pequeno dicionário de inglês, francês e acho que italiano e espanhol. Além disso, criou em mim uma vontade imensa de ser escoteiro, até o santo dia de 1982 em que vi as roupas ridículas que eles usavam, as bermudas, os lenços e os meiões de jogador de futebol de várzea, e decidi que minha auto-estima era muito maior que aquilo. Os escoteiros daqui sequer tinham chapéus de guaxinim, usavam umas boinas de produtor cultural desempregado. Decididamente, aqueles garotos com roupas esquisitas eram terceiro-mundistas demais para mim. Pareciam aprendizes de soldado raso. E mais tarde eu teria uma briga por jornal com o coordenador dos meninos liderados por um imbecil em Aracaju, o que enterrou de vez qualquer ilusão que eventualmente ainda tivesse a respeito deles.

Mas o que importa é que em 1979 aquele manual, junto com “As Aventuras de Tom Sawyer”, era minha leitura preferida. Li tanto que ele se desfez em pedaços, e comprei um novo volume em 1981. Tenho esse até hoje, sem capa, com muitas páginas faltando, mas uma lembrança legítima de que um dia, quem diria, eu fui criança.

O que mais se aproxima daqueles manuais, hoje em dia, é o “Livro Perigoso Para Garotos”. É um bom livro que deveria ser dado para qualquer menino aí pelos seus oito, dez anos. Mas mesmo que eu seja suspeito para falar, porque quase 30 anos já se passaram desde que lia o Manual do Escoteiro Mirim com absoluto deslumbramento, fica em mim a impressão de que a série de manuais Disney acabavam sendo mais completos e mais interessantes.

Em outubro do ano passado, no Rio, achei alguns desses manuais em uns sebos da rua Passos, e estavam em bom estado. No momento em que escrevo isto, eles estão sobre a minha mesa de trabalho, em casa. Estão quase destruídos. Minha filha e meus sobrinhos fizeram um bom trabalho com eles. Normalmente não gosto de ver livros destroçados, mas com esses não me incomodei. Mais uma vez, eles cumpriram seu papel. Não poderiam querer destino melhor que esse.

Tomates podres

Eu não conhecia o Rottentomatoes, site que atribui notas a filmes em votações populares. (Na verdade estou ao largo de boa parte da evolução da internet nos últimos anos, e a propósito uso celular apenas para fazer e receber ligações.) Descobri que ele existia através de um post em que o Hermê falava da aprovação recorde, ali, de “WALL-E”, o novo desenho animado da Disney/Pixar. Depois vi várias referências ao site que tinham passado despercebidas por mim.

Assisti a “WALL-E”, ontem. Ótimo filme, certamente melhor que o “Kung Fu Panda” que vem por aí, com a mesma fórmula batida. Mas é só isso: um bom filme. Uma história previsível — como afinal deve ser em um desenho animado para crianças — com pelo menos um bom elemento narrativo: as idas e vindas do namoro dos dois robozinhos, WALL-E e EVA, são mostradas de maneira sensível e doce.

E isso é tudo. Nenhuma novidade real além da evolução técnica da animação computadorizada. Nenhuma revolução técnica. Nenhuma invenção narrativa. Não é “Rei Leão”. Não é “A Bela e a Fera”. “Branca de Neve”, nem pensar. Não é à toa que a maior parte das resenhas publicadas por aqui fala de questões técnicas como movimento de câmera — assim como falavam da textura dos pêlos dos personagens em “Monstros S.A.”

Mas segundo o Rottentomatoes, esse filme é genial. 96% de aprovação, feito raro naquelas paragens segundo informa o Hermê.

É esse o problema nesse tipo de site e de atitude: o nível de avaliação crítica do Rottentomatoes é inexoravelmente baixo. É um exemplo já clássico de uma tendência cada vez mais consolidada de utilizar o julgamento comunitário em detrimento da opiniões de “especialistas”. Ou seja, em vez de ler o que uma Pauline Kael tem a dizer, é melhor ver o que cinqüenta Zés da Silva acharam. Se 60% da humanidade gostou de um filme tipo “Homem de Ferro”, é porque o ele é necessariamente bom. É um raciocínio bastante lógico, ainda que simplório: as pessoas tendem a confiar cada vez mais nos seus iguais, porque assim acham que aumentam sua margem de segurança. É um processo análogo ao que faz você ler este blog meia-bomba em vez de castigar um Proust ou Dostoiévski ou o New York Times, mas não serei eu a reclamar disso.

Isso não é uma condenação generalizada do site. Certamente há boas resenhas ali dentro — mas seria preciso paciência de Jó para garimpá-las em meio a uma tonelada de opiniões tolas. Não vale a pena. É por isso que o Rottentomatoes e tudo o que ele representa são um mau sinal. Pode parecer elitismo, mas não é. As pessoas não vão assistir a bobagens como Transformers ou Indiana Jones por causa de suas qualidades cinematográficas, em primeiro lugar. Vão porque ir ao cinema é cada vez mais um evento eminentemente social — e é isso que vai impedir que salas de exibição se esboroem diante de televisores OLED de 60 polegadas. Sua função se limita cada vez mais ao entretenimento puro e simples, deixando de lado outras funções do cinema como arte; a crítica que sempre se fez à televisão, a de que entorpece seus telespectadores, é cada vez mais aplicável ao cinema. A média é ruim, muito ruim; e os nossos padrões estão cada vez mais baixos.

Quem gosta de cinema conhece muito bem a sensação de desconforto ao ouvir aquele amigo de gosto duvidoso elogiar um filme de, digamos, Steven Seagal. Só o fato de saber que são sinceros, que realmente gostam daquilo é o que nos impede de dar uma resposta malcriada. Isso e mais educação e o medo sempre justificado de levar uma porrada nas fuças. É esse tipo de público que está satisfeito com padrões como o do Rottentomatoes.

Sites comunitários como o Rottentomatoes apenas dão uma aparente legitimidade ao senso comum — à mediocridade, no sentido estrito da palavra. Legitima um mundo em que arte é medida em termos quantitativos. Gostamos cada vez mais de não destoar das estatísticas, de gostar do que todos gostam, de ter a força da opinião da maioria como desculpa por não termos mais nenhuma. O nome do site está correto: estamos virando, no fim das contas, um cesto de tomates podres.

Os vãos e desvãos do amor livre, parte 2

Fulana says:
Lembra da história do amor livre?

Rafael says:
Claro.

Fulana says:
bem, acontecia assim…

Fulana says:
Ele é uma pessoa muito respeitada na psicologia, tem uma legião de fãs, etc e tal
querendo dizer: poderia comer mulheres interessantes e bonitas
Mas sempre escolheu feiosas e com problemas emocionais
que se achavam um lixo e o achavam o máximo

Fulana says:
Dizia que era “amor livre”
elas se apaixonavam por ele, ele comia todas, mas elas não davam pra outros, porque estavam apaixonadas..

Fulana says:
Aí veio com esse papo pra cima de mim, de amor livre…
eu A-DO-REI
Nesse meio tempo, como te disse, fiquei com outras pessoas
Mas ele acreditava que, por ser apaixonada por ele, ia ser como as outras…
e manteve o papo do AMOR LIVRE

Fulana says:
Ontem começamos a conversar sobre outras coisas e ele acabou me perguntando e eu falei que fiquei com outras pessoas
ELE ESTÁ COMPLETAMENTE DESESTRUTURADO!!!!
CHORA FEITO UM BEBÊ!!!
DORME CHORANDO, ACORDA CHORANDO, ESTÁ DESESPERADO!!!

Rafael says:
Virou corno. 🙂

Fulana says:
BEBENDO DE DIA, FUMANDO, …!!!!
Mas vê como é ridículo?

Rafael says:
Vejo, claro.
É o velho discurso machista.

Fulana says:
Rapaz…
mas ele não percebe!!!
que é APENAS O VELHO DISCURSO MACHISTA!!!!

Rafael says:
Percebe, sim.
É que é mais cômodo pra ele.

Fulana says:
Ele deveria admitir que é careta, que quer casar de véu e grinalda, que o que há de mais moderno ainda é um sonho muito antigo…
E SER FELIZ!!!!

Rafael says:
Mas aí ele não ia comer as outras sem culpa. 🙂

Fulana says:
não é difícil?

Rafael says:
Isso depende de cada um.

Rafael says:
E o que você vai fazer?

Fulana says:
rapaz…
Olha homem é coisa difícil, viu?
Tá foda…
Ouvir coisas como …
“Não foi justo”
“Eu te idealizei”
“Eu errei”…
eu disse pra ele que fosse claro…
que ou era MONOGAMIA ou era AMOR LIVRE…
Ele escolheu amor livre de novo…
então agüente…
o que não pode é ser monogamia pra mim e amor livre pra ele…

Rafael says (18:04):
Que idiota. 🙂

Os vãos e desvãos do amor livre, parte I

Rafael says:
E cadê seu namorado?

Fulana says:
Que namorado?

Rafael says:
Ué?
Já terminou?
Mesmo com toda aquela liberdade?

Fulana says:
Diz que não é namorado, é AMOR LIVRE
Embora que…
eu já te disse a minha teoria a respeito do amor livre?

Rafael says:
Qual é?

Fulana says:
1. O amor só é livre enquanto os alternativos agarram CATIROBAS
(Sim, porque toda mulher alternativa é feia de doer. a coitada sai do sistema porque não consegue ser aceita nele)

2. O amor só é livre quando a mulher NÃO QUER SER LIVRE, e por isso se mantém monogâmica enquanto ele come todo mundo

Fulana says:
No meu caso, que sou ajeitadinha e que botava era quente na LIBERDADE, num instante ele desistiu da IDEOLOGIA

Rafael says:
Ah, desistiu, foi?

Fulana says:
Meu filho
Foi engraçado, ó?
quer que eu te conte como foi EM DETALHES?

Rafael says:
Precisa perguntar?

Fulana says:
a lenda é que o contrato era de AMORLIVRE
Aí a gente estava num show do zé ramalho
o zé cantou uma música e ele comentou que ouviu essa música no dia que descobriu que uma namorada que ele teve o chifrou por 6 meses
Não 5, não 4, estou falando SEIS
Aí disse que mesmo assim, continuou com ela por mais de dois anos
Aí se virou pra mim e disse assim:
NÃO QUER DIZER QUE VOCÊ VÁ FAZER A MESMA COISA COMIGO
Aí eu pensei: COMO ASSIM????
Não falei nada
No dia seguinte perguntei: QUAL É O CONTRATO???
Ele veio com uma conversa MUITO TORTA
Que, em suma, caía na velha monogamia
e o pior…
ele acredita que aquele tempo todo que estavamos juntos eu nunca tinha ficado com ninguém…
Mais ou menos assim:
que ele era tão bom, tão bom, que realmente acreditava que eu não tinha ficado com ninguém

Rafael says:
E você ficou com quantas pessoas?

Fulana says:
só 8 🙂
Aí eu pensei: FUDEU!!!
Bem, espero que ele nunca me pergunte

Grandeza e decadência de um forrozeiro

O Forró Caju é hoje um dos maiores festejos juninos do país, se já não for o maior. São 16 noites com público médio de 100 mil pessoas. Só hoje, véspera de São João, a lista de atrações inclui Dominguinhos, Alceu Valença, Zé Ramalho e Calcinha Preta, com shows completos. Espera-se um pico de bem mais de 150 mil pessoas na praça, nesta madrugada.

Hoje também o Forró Caju vai me lembrar mais uma vez, com a falta de piedade dos velhos deuses pagãos que inspiraram o São João, que houve um tempo em que eu era um grande dançarino de forró, e que hoje sou apenas uma ruína decadente, sombra pálida do homem que fui.

Não é que “eu me virasse” dançando forró. Não é que eu “quebrasse o galho”. Eu era bom. Excessivamente bom. Não apenas a ponto de poder ser esnobe, mas bom a ponto de transcender até o esnobismo, e diante de um elogio já ouvido tantas vezes dar um sorriso de canto de boca e balançar a cabeça condescendentemente, sem precisar falar nada por redundante que seria.

Eu era bom porque precisava. Adolescente, sem dinheiro e sem carro, não me restavam muitas alternativas. Entre ficar trancado em casa vendo mulheres pela televisão e ir atrás delas na rua — nem que isso significasse quilômetros a pé ou de ônibus, com o dinheiro contado para uma coca-cola e para a volta, nem que isso significasse quase uma hora esperando o corujão de madrugada –, eu ficava com a segunda opção. Se ia para a rua, tinha que saber alguma coisa, porque eu sempre fui pragmático, nunca me acostumei a viagens perdidas. E então dançar bem, saber levar uma dama ao longo de uma música e outra e mais outra era fundamental.

Forró era chamar a moça na chincha e deixá-la com o corpo bem colado ao seu. Era encaixar a sua coxa entre as coxas dela, e com um pouco de prática já se podia adivinhar ali a sua consistência e sua rijeza, e com os seios apertados contra o seu peito se podia também sentir o seu real volume e firmeza, porque não há sutiã com bojo, armação ou enchimento que consiga cumprir a sua função de logro enquanto se dança forró.

Era dançando que se descobria tantas coisas de importância fundamental. Era no requebrar e no menear de seus quadris que você sabia o que poderia esperar da moça à sua frente. E então, se ela valesse a pena, você tirava a mão esquerda que guia a dança e colocava em sua cintura, e a apertava um pouco mais, e se ela recostasse a cabeça em seu peito você saberia que ela poderia muito bem estar dizendo em silêncio, como a boa Karolina com K, “é hoje!”, e hoje seria.

Era por saber que era bom que eu me horrorizava quando via cearenses dançando forró. Porque eles dançavam de maneira tão diferente. Afastados, fazendo figuras como um baile qualquer do século XIX, voltas e reviravoltas como se estivessem se apresentando para uma platéia. Aquilo não era dançar forró. Aquilo era teatro, diria Luiz Gonzaga. Exibicionismo bobo, mais adequado a uma gafieira do que a uma sala de reboco sob a luz de um candeeiro.

Forró era outra coisa, era coisa para se dançar a dois, só dois, esquecendo que pudesse existir outra coisa no mundo. Forró era ciência, arte e negociação, um jogo a ser jogado com um sorriso, suor e a determinação firme de fazer daquilo o prólogo de algo melhor. Aquele forró que os cearenses dançavam podia muito bem ser dançado com sua irmã, e ainda não inventaram nada mais sem graça do que dançar com irmã. Eles dançam para os outros; nós, forrozeiros da velha guarda, dançávamos para que a mulher apertada ali continuasse em seus braços depois que o sanfoneiro calasse o seu acordeon.

Aqui, percebo hoje com a sabedoria presenteada a mim pela velhice, está a semente de minha ruína. Para muita gente, dançar é algo que se basta em si mesmo. Pessoas gostam de dançar, como gostam de comer. E eu nunca gostei. A dança não existia por si só, mas apenas como um meio de chegar a algum lugar. Para mim, dançar forró não era “a frustração vertical de um desejo horizontal”, como diz uma boa frase. Era um instrumento, uma ferramenta como um garfo ou uma passagem de avião. Por isso nunca dancei sozinho.

Talvez tenha sido isso, esse desprezo pela dança como um valor intrínseco, como bastante em si própria, que causou minha decadência e minha desgraça. O talento desperdiçado é devida e inexoravelmente castigado pelas Parcas, disso eu sempre soube. E neste Forró Caju vi que não sabia mais dançar como antigamente.

A dor nas coxas sedentárias que, por tantos quilos a mais, já não agüentam muitas músicas seguidas é o de menos, porque isso se resolve em uns poucos dias de volta à prática. Tampouco é problema o fôlego mais curto pelos dois maços diários, isso também é mazela a se resolver em poucos dias. O que dói é a hesitação ante o início, é a falta de certeza e de confiança em levar a moça à sua frente para onde você quiser levá-la.

Não serve de consolo saber que mesmo velho e alquebrado, mesmo desgraçado pelas Musas eu ainda sou um bom dançarino de bolero, porque bolero é diferente, não permite aquele bater de coxas e apertos na cintura, mal permite a mistura de suores. É triste saber que desonrei a herança da família, do meu avô melhor dançarino de tango do Rio de Janeiro, de mim mesmo consciente da felicidade que dava a uma mulher numa pista de dança. É triste saber que se está velho, velho e decadente.

***

A doida estava na praça, ontem, dançando sozinha. Tinha tirado as sandálias e colocado o guarda-chuva do lado, e esquecida de tudo rodopiava contente.

Quer dizer, diziam que ela era doida. Eu não sei. O que eu via era uma mulher feliz e abandonada ao prazer de dançar, despreocupada do que os outros poderiam pensar. Alguém que gostava de dançar por dançar. Disseram que anteontem ela também estava lá, dançando sozinha, fazendo suas piruetas. Mas anteontem não choveu, e todo mundo pode dançar quando chove; ontem, debaixo do temporal, só ela estava ali, dançando sozinha sem precisar do seu guarda-chuvas.

Hoje, tendo que relembrar o passado em busca de momentos de uma glória esvanecida, posso compreender melhor a doida que se entregava à chuva apenas pelo prazer de dançar.

A Mônica apontou a moça e fez o desafio: “Cem reais para você dançar com aquela doida ali embaixo”. A Mônica, mesmo depois de quase um ano, não me conhece. Não sabe que poderia ter me oferecido muito menos, não sabe que só o desafio talvez fosse motivo suficiente para eu me abalar lá embaixo e dançar com a mulher que ela chamava de doida. A Mônica descobriu apenas agora que sou barato, sempre fui barato, e por cem reais eu dançaria até com o diabo, e esqueceria a minha decadência e a minha tristeza.

Lá fui eu. Enfrentei a chuva também, não me importei em me molhar como a moça que dançava. E assim dançamos, ela e eu, ela feliz por estar dançando com alguém, eu feliz por estar ganhando cem reais.

A Mônica fez questão de pedir para  o Sílvio Rocha tirar fotos. Não sei exatamente quais os seus motivos, prefiro não perguntar. Porque independente do que será feito delas, essas fotos servem como um troféu, uma mostra de que no dia 22 de junho um homem que não sabia mais dançar desceu e novamente fez uma mulher feliz, ainda que de maneira insípida, lembrança distante de outros tempos em que, entre as coxas delas, estaria venturosa a sua.

Eu não sou mais um grande dançarino de forró como fui um dia, e esse destino é triste para mim. Mas talvez por um gesto de piedade temporária das Musas, o forró ainda pode me render cem reais, e isso faz de mim um homem um pouco menos triste na véspera de São João.

Santa Dulce da Bahia

Se eu fosse católico — ou melhor, se eu fosse pelo menos cristão —, eu teria um retrato na parede e um escapulário com uma foto de Irmã Dulce.

Bondade é uma virtude que anda meio em baixa em um mundo laico, onde as relações de troca são o principal motor da sociedade e cada dia mais aceitas como padrão. Bondade é vista com desconfiança, muitas vezes como disfarce de um egoísmo profundo — e as pessoas que se recusam a dar esmolas dizem que quem dá é apenas para aliviar a sua própria consciência, para se sentir melhor consigo mesmo.

E no entanto basta um olhar de relance para os olhos da Irmã Dulce, mesmo em fotos, para descobrir o que bondade significa.

Existe pouca gente que eu admire tanto quanto ela. E é na comparação com Madre Teresa de Calcutá que a sua grandeza é reforçada.

Há alguns anos vi um filme sobre Madre Teresa na TV. Um desses telefilmes de fim de noite. E o que mais me impressionou foi a falta de bondade naquela mulher. Ela fazia um serviço social importante, sem dúvida — mas faltava carinho, humanidade, amor. O que em Irmã Dulce era a materialização de uma bondade e misericórdia absolutas, em Madre Teresa parecia ser apenas o cumprimento de um dever amargo. Madre Teresa lutou para conseguir apoio oficial à sua obra — mas a Irmã Dulce fazia o mesmo sem apoio nenhum, fazia ainda que tivesse que invadir casas abandonadas ou ocupar o mercado de peixe.

Christopher Hitchens, que serviu de advogado do diabo no processo de beatificação da albanesa, diz que o buraco é ainda mais embaixo. Acha que ela gostava da pobreza, e não dos pobres: dizia às pessoas para aceitarem seus infortúnios com prazer, enquanto se opunha a políticas de planejamento familiar. Lembra a sua proximidade a gente como os Duvalier do Haiti. E era hipócrita ao atuar politicamente contra um referendo sobre o divórcio na Irlanda, enquanto dizia que sua amiga Lady Diana deveria se divorciar do príncipe Charles porque era infeliz. Acima de tudo, Hitchens diz que o famoso hospital de Madre Teresa não passava de “um manicômio primitivo — um lugar para as pessoas morrerem, e um lugar onde o tratamento médico era mínimo ou inexistente. (Quando ela mesma ficou doente, voou de primeira classe para uma clínica particular na Califórnia.)”

E em assim sendo, é tão diferente do Hospital Santo Antônio, que a Irmã Dulce construiu lutando contra tudo e que hoje é o mais importante hospital gratuito do país. O Hospital Santo Antônio sempre foi um reflexo da personalidade de sua criadora. Uma mulher decidida, dona de força insuspeita, mas em cujos olhos podia-se ver uma imagem quase aterradora de doçura e humildade. O Hospital Santo Antônio não era o que “os pobres mereciam”. Era o melhor que se podia oferecer, e foi lá que a Irmã Dulce foi cuidada quando sua saúde, que nunca tinha sido grande coisa, finalmente deu sinais de que ia embora de uma vez. O hospital era bom o suficiente para ela, como era para os pobres. “Ama ao próximo como a ti mesmo”, dizem que Jesus dizia, e foi o que ela fez.

Seu processo de canonização está avançando. O Vaticano já reconheceu a possibilidade de um milagre. Comprovado, será um passo importante para a beatificação e reconhecimento canônico do que um país inteiro já sabe: que a mulher que nasceu Maria Rita, foi ordenada freira no Convento das Carmelitas em São Cristóvão, Sergipe, e rebatizada Dulce em homenagem à sua mãe, era uma santa.

Mas o Vaticano erra duas vezes, e são erros imperdoáveis.

Erra ao nomeá-la “Serva de Deus” (o primeiro passo no processo de canonização). Sim, isso ela era, não é algo que se discuta, e sua fé é motivo de admiração. Mas não é por isso que ela é santa, a única que este blog reconhece. Sua santidade não vem da religião, porque religiosos os padres de Boston também são, como são aqueles que colocam grades em torno de suas igrejas para evitar que os mendigos durmam ali; sua santidade vem do fato de que, antes de qualquer coisa, ela era uma “Serva do Homem”, talvez a maior que a Bahia já conheceu. É a sua humanidade que a santifica.

O Vaticano erra novamente, e esse é o seu pecado mais grave, ao condicionar o reconhecimento da santidade de uma mulher que morreu há quase 20 anos a um “milagre” póstumo. Não é apenas prudência; é desrespeito e menosprezo à sua obra. Porque Irmã Dulce realizou o seu milagre ainda em vida, e isso a torna maior que quase todos os outros santos da Igreja; e se o Vaticano que endossa alucinações de beatas mirins que vêm a Virgem precisa de testemunhas, estão aí milhares e milhares de baianos que passaram pelas mãos de Irmã Dulce, e devem suas vidas a elas, à sua bondade, ao seu amor incondicional, e milagre maior não pode ser feito por nenhum santo.

Esse título a Bahia, sempre sábia em suas ladeiras, já deu ao seu Anjo Bom. Deu há muito tempo, porque não precisava de nenhuma outra prova. É a mesma Bahia que, como intermediário entre ela e as coisas do desconhecido, prefere Exu a qualquer papa, tanto o antigo com cara de bom avô como o novo com cara de velho sibarita. Decida o Vaticano o que quiser, isso não vai importar. A Bahia já canonizou a Irmã Dulce há muito tempo, ainda em vida. E deu a ela o nome de Santa Dulce da Bahia.

O fim da crítica de cinema

Tenho a impressão de que a principal função dos críticos de cinema será avisar aos espectadores se eles devem ou não ficar no cinema até o fim dos créditos de encerramento, para ver ou não aquelas pequenas codas que viraram mania nos filmes e principalmente nos desenhos animados. Será uma função nobre e honrosa, e vai dar a única informação realmente útil em suas resenhas.

Porque o estado da crítica de cinema nunca foi tão ruim. E quando falo em crítica não me refiro sequer a artigos de fôlego médio — tenho em mente um ensaio antológico de Robert Warshow sobre “Luzes da Ribalta”, de Chaplin, ou ainda a belíssima e sensível resenha de “Hiroshima Mon Amour”, por Moniz Vianna, como exemplos. Em vez disso, falo de crítica leve, a resenha diária a ser entregue no prazo de fechamento do jornal, como as pequenas obras-primas de simplicidade e argúcia de Francisco Luiz de Almeida Salles.

Quando a Folha de S. Paulo dedicou duas ou três páginas a “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, trouxe entrevistas com o diretor e o ator, valores investidos na produção, repercussão na mídia, o diabo. Talvez aquele não fosse um grande publieditorial, talvez fosse mesmo um bom trabalho de reportagem — mas faltava a ele uma avaliação aprofundada do filme, que se apoiasse numa boa análise da obra em vez de apenas reverberar a opinião da mídia em geral, inclusive usando os mesmos clichês, ou falar do “impacto” social da obra.

É um tipo de abordagem cada vez mais comum, que pouco a pouco veio substituindo a crítica cinematográfica como se entendia. De crítica, mesmo, fica apenas o nome. Se assemelha mais aos resultados de uma campanha de marketing do que à apreciação racional de uma nova obra.

Parece ter havido uma contaminação irreversível e completa do exercício da crítica pelos press releases. É cada vez mais difícil achar uma resenha realmente boa, que permita um olhar adequado ou novo sobre o filme — um exercício de criação sobre uma obra de arte. Todos parecem trabalhar a partir do que a máquina de relações públicas da indústria quer que se diga. Não é implicância minha: pegue qualquer lançamento e procure o que se diz dele. Há sempre referências à indústria, ao mercado — tudo isso mascarando uma profunda indigência crítica.

(Nos Estados Unidos a situação é marginalmente melhor. Ainda há bons criticos como A. O. Scott e Manohla Dargis no New York Times, e o Roger Ebert [de quem nunca consegui saber se gosto ou não] está voltando para a crítica de jornal. Mas lá também a síndrome do press release parece ter tomado conta do cenário.)

Hoje estamos mais para Dulce Damasceno de Brito do que para Moniz Vianna. Ou, para usar figuras mais recentes, e ressalvadas as diferenças e dimensões, mais para Ana Maria Bahiana do que para Inácio Araújo.

Talvez o baixo nível geral do cinema no século XXI contribua para isso. Nunca, no pouco mais de um século do cinema, a produção cinematográfica foi tão homogeneamente medíocre, tão repleta de pequenos nadas repetitivos. Talvez a indústria em si seja mais interessante do que seus produtos. Talvez a formação de grandes estruturas de comunicação e entretenimento tenha feito de nossos críticos seres menos criativos, menos aplicados, menos corajosos. Mas a isso se alia também o baixo nível cultural dos jornalistas, um estado que tende a se espalhar cada vez mais, sem perspectivas de quimioterapia eficiente.

Cinema é uma arte derivada. Para interpretá-lo, é necessário levar em consideração outras artes e disciplinas. Não basta se trancar numa sala com uma pilha de DVDs durante semanas a fio para entendê-lo realmente (embora o conhecimento estritamente cinematográfico seja indispensável, e mesmo esse anda em falta). Não dá para avaliar, por exemplo, “Era Uma Vez no Oeste” tendo em vista apenas a evolução do western, de Tom Mix a John Wayne a Clint Eastwood, embora esse seja o ponto principal: é preciso entender o que era o mundo em 1969, ver por que a abordagem ideológica do processo de colonização do oeste americano sofria, ali, uma mudança importante e sutil.

E no entanto, quando se vê uma resenha de cinema em uma revista ou jornal, não parece haver nada a mais que a simples copidescagem do material de divulgação do filme — quando muito referências aqui e ali a opiniões emitidas lá fora e antes, nem sempre creditadas. Não há idéias, muito menos novas idéias, e o empréstimo de linhas inteiras de pensamento parece ter se tornado a norma. Por exemplo, a crítica a Superman Returns na Veja tinha sido inspirada, nitidamente, na resenha do New York Times — um exemplo de pobreza intelectual ainda pior que a original, que já não era muito boa.

No fim das contas, o único lugar onde ainda se encontra algo aprofundado é na crítica acadêmica — e essa costuma ser chata, pedante, com seus “signos” e “paradigmas”. Apesar de sua pretensão, não costuma formar um público melhor, porque é necessariamente restrita, elitista e inacessível a boa parte das pessas. É a crítica de jornal e revista, aquela mais simples e despretensiosa, que forma bons espectadores, por exercer um papel social mais importante e efetivo. Crítica de cinema não precisa de semiótica e quejandos. Precisa apenas de inteligência e talento. E é da falta disso que quem gosta de cinema tem todo o direito de reclamar.

Republicado em 09 de outubro de 2010