O ocaso de um homem

De vez em quando a política adquire aquele tom de tragédia universal e homens chegam ao fim de suas carreiras de maneira patética, melancólica. É um momento que adquire proporções épicas, porque então os mecanismos da política não são suficientes para explicar os acontecimentos. Tudo se resume ao homem, ao indivíduo, e é essa dimensão que coloca a política acima de mesquinharias humanas e de quaisquer justificativas históricas.

Nos últimos meses, a grande questão política sergipana era o destino do ex-governador Albano Franco, do PSDB, homem que parecia ser o fiel da balança em uma eleição que se prometia polarizada desde o início. De um lado o governador João Alves Filho, do PFL, em busca de um quarto mandato, tendo ao seu lado a máquina do Estado e uma disposição férrea para desafiar quaisquer limites, éticos ou legais, a fim de garantir sua reeleição. Do outro o ex-prefeito de Aracaju Marcelo Déda, recém-saído de uma administração elogiadíssima e representante de um sentimento de mudança que não é tão forte há exatos 12 anos, quando um fenômeno político chamado Jackson Barreto foi candidato ao governo.

Albano Franco seria o elemento decisivo nessa eleição, e por isso foi cortejado por ambos os lados. Com ele iriam vários prefeitos, vários candidatos que poderiam representar a diferença entre a vitória e a derrota.

Depois de ir e vir durante meses, há duas semanas Albano Franco atendeu à vontade de suas bases, que queriam, em sua absoluta maioria, a adesão do PSDB ao PT de Déda. Anunciou que o PSDB não faria coligação com o PFL e que sairia sozinho, o que na prática significava uma coligação branca com Marcelo Déda. A questão parecia definida.

Mas na semana passada Albano Franco deu para trás em sua decisão, e voltou para os braços de João Alves. E se o povo costuma perdoar pequenas traições, se costuma perdoar até mesmo um certo nível crônico de falta de comprometimento, não perdoa, jamais, que se assuma um compromisso público com ele e depois volte atrás.

Foi ali que Albano Franco morreu. O enterro, no entanto, se deu na última sexta-feira, no dia das convenções partidárias. O deputado federal Bosco Costa, homem que durante toda a vida foi ligado a Albano Franco e já tinha dado provas de lealdade absoluta, como ao renunciar à sua candidatura a governador em 2002, declarou que não aceitaria o que Albano pretendia fazer. Estava abandonando a presidência estadual do PSDB e saindo do partido. A partir dali, apoiaria Marcelo Déda para governador.

Na coletiva de imprensa em que anunciou seu rompimento, Albano estava ao seu lado, chorando e olhando para o céu como em busca de uma resposta que, ele devia saber, jamais viria. Ali, naquele momento, sua carreira política chegava ao fim, pelo menos no que realmente importa: ali Albano deixava de ser um líder político fundamental. Seu poder se esvaía. Ainda deve se eleger; mas a era dos Franco em Sergipe acabou.

Junto com Bosco Costa saíram as principais lideranças do PSDB: José Teles de Mendonça, Jorge Araújo, Ulices Andrade. E assim, em uma tarde, o PSDB de Sergipe implodiu, destruiu-se sozinho. Quando a eleição terminar, vença quem vencer, haverá uma nova ordem política, e o grupo de Albano Franco passará a orbitar necessariamente em torno do novo governador de Sergipe.

O que interessa, aqui, não é uma discussão sobre os tão alardeados republicanismo e unidade ideológica do PSDB, tão fáceis no discurso oposicionista mas tão ausentes da prática política — em Sergipe, como se vê, e também no Ceará, onde Tasso Jereissati abandonou o candidato do PSDB e deverá apoiar o candidato do PSB. Não é sequer a constatação de que Marcelo Déda conseguiu, de mão beijada, tudo o que precisava de Albano Franco — suas bases e prefeituras no interior — sem precisar levar, de contrapeso, a figura controvertida e prejudicial do próprio Albano, cujos oito anos no governo de Sergipe foram marcados por denúncias de irregularidades e uma sensação de desmoralização da própria corrupção.

Albano Franco morreu politicamente por não ter a coragem de utilizar o poder que tinha em suas mãos. E poder, quando não utilizado, costuma se voltar contra os seus donos, sempre com crueldade e descaso absoluto pelos seus destinos. O poder e a história não perdoam os fracos, os covardes. Homem afável no trato, até mesmo democrático, Albano se revelou pusilânime e inepto na política. Dizem que a indecisão de Albano, homem milionário, se devia à expectativa de que alguém pagasse os custos de sua campanha — e por isso voltava aos braços generosos de João, homem que o humilhou incansavelmente, impondo condições e fazendo declarações que, em outros tempos e para outros homens, seriam motivo de duelos e tiroteios.

A mim a cena lembrou outra, de alguns anos atrás. Uma senhora, que sempre tinha caminhado ao lado de Albano Franco, vendo sua candidatura fazendo água por falta de apoio desse homem por quem tinha sacrificado sua eleição anterior, sentou na minha frente e chorou. Chorou muito, por mágoa, por desencanto. Por uma candidatura que se apresentava derrotada, mas principalmente por uma profunda decepção pela falta de lealdade de alguém a cujo lado caminhava havia 30 anos.

A visão de um homem chorando normalmente inspira pena. É inevitável não sentir dó de um rei Lear em desgraça por decisões equivocadas e pela ingratidão de suas filhas. Mas, ao mesmo tempo, é impossível ter alguma pena de Albano Franco porque, ao contrário do personagem de Shakespeare, ele só pode se queixar de ter abusado da gratidão e da lealdade de seu grupo. A diferença entre a tragédia do rei Lear e a do flébil Albano Franco é que aquele pagou pelas decisões que tomou, enquanto Albano sofre por não ter a coragem de tomá-las.

O maior sintoma dessa tibieza foi o fato de esse choro patético ter sido mostrado no telejornal local de sua própria emissora de TV, retransmissora da Rede Globo. Se um homem não consegue controlar o que é exibido em sua própria televisão, não pode querer que esperem dele pulso suficiente para controlar um partido político, ou que tenha algum controle sobre os votos de centenas de milhares de pessoas.

Foi assim, por suas próprias mãos, que Albano Franco foi enterrado na última sexta-feira. Assistindo de corpo presente e aos prantos à eulogia feita por Bosco Costa, ele não chorava pelo fim de uma amizade ou de um projeto político, e o que poderia ter sido sublime se revelava apenas patético. Albano chorava pela própria incompetência, e não teve sequer a dignidade de enfrentar sua queda com o queixo erguido. Naquele momento, faltou a um humilhado Albano Franco a capacidade exigível a qualquer um: a de ser homem.

A Copa do Mundo de 2006

A Copa do Mundo de 2006 passou em meio a uma bruma de cerveja, camarão, pitu, pilombeta, siri, lambreta, amendoim, grappa, a bunda divina da Chicotão, a risada pantagruélica do pândego Rosalvo, Cauê brigando comigo por causa do Gordo de quem ele não gosta, o outro Rafael a postos para soltar os fogos, o bêbado cantando com voz molente o hino da torcida brasileira com muito orgulho, com muito amor. Se o Brasil fosse para as finais eu provavelmente teria virado um peixe afogado em cerveja — e me afogaria feliz com a bunda da Chicotão diante de mim, a bunda perfeita sob uma cintura irresponsavelmente fina, os seios pequenos com mamilos grandes apertados pelo sutiã de menina-moça.

Agora vêm as desculpas e a divisão de responsabilidades. Vão procurar no último jogo as razões que vieram se estendendo por toda a Copa, vão se perguntar por que um time que não fez um único bom jogo perdeu para a França com direito a chapéu de Zidane sobre Ronaldinho, vão jogar a culpa no Parreira quando ela é também de quase todo o time.

Nada disso interessa, no entanto, porque aos derrotados só interessa mesmo o esquecimento, sem o qual a esperança não se renovará daqui a quatro anos, quando novamente acreditaremos que seremos campeões do mundo porque esse é o nosso destino.

Se fico triste pelo Brasil não ter seguido em frente e feito mais gols não é por um amor desmesurado ao futebol ou por um quadrienal patriotismo de chuteiras. É porque, a cada nova bola na rede adversária, a Chicotão iria pular na minha frente, e aquela visão angélica se repetiria mais uma vez, uma bunda que representaria mais que a vida e ofuscaria aqueles vinte e dois homens suando atrás de uma bola, porque não há escolha a fazer quando você se vê entre a bunda da Chicotão e a cara de bunda do Ronaldinho. A bunda da Chicotão, eu sei, me faria esquecer de pular e comemorar os gols, porque eu me quedaria sentado, olhando embevecido o seu sobe e desce quase impublicável.

Mas o Brasil perdeu e a bunda divina da Chicotão não vai mais subir e descer na minha frente com seu balançar firme, o balançar apenas necessário que lhe conta em segredo que nada vai lhe faltar, e faz um desafio mudo que, ao contrário dos outros desafios, traz um sorriso beatífico e rendido ao seu rosto.

Se aos brasileiros cabe imaginar o que seriam as finais, o meu parco amor ao esporte, amplificado momentânea e artificialmente pelo copo nunca vazio de cerveja e pelos dedos tingidos de vermelho pela queratina do camarão, faz com que a mim reste apenas pensar no que poderia ser a bunda da Chicotão pulando diante de mim depois de cada gol que o Brasil poderia ter feito.

E assim vai ficar a Copa do Mundo de 2006. Com lembranças vagas de cada jogo, com a lembrança alcoolizada de mostrar à Isabel que ela deve escolher o outro sujeito de que me falou, porque aquele em cima de quem ela está dando é inadequado porque não pega na sua bunda do jeito que eu mostro que ele deveria pegar, com a atitude que cobraram aos derrotados por Zidane e a outra mão apertando sua cintura, movimento inocente e apenas pedagógico porque da Copa do Mundo de 2006 o que eu vou lembrar mesmo é da bunda amoral da Chicotão pulando diante de mim.

Quando a ignorância vence

Por acaso, achei um dos primeiros textos que baixei de um BBS, há mais de dez anos: uma lista de livros banidos ou protestados nas bibliotecas americanas. Dali para uma lista mais recente, de livros banidos ou protestados este ano.

A maior parte dos livros foram atacados pelo que se entende como o típico americano médio do meio-oeste, mesmo que as cidades em que os banimentos ocorram sejam as mais diversas; mas é a mesma mentalidade, o mesmo modo de ver a vida. Os censores, ao que parece, são normalmente pessoas que pretendem proteger suas crianças — da exposição a conteúdos sexuais ou meramente profanos. Acreditam que se seu filho não ler “O Apanhador no Campo de Centeio” não vai falar palavrões. Têm a fé dos mais pios em que, se o adolescente que tem em casa não ler Gays/justice: A Study of Ethics, Society, and Law, de Richard D. Mohr, não vai virar viado, uma crença tão válida quanto achar que se sua filha ler “O Diário de Anne Frank” vai se tornar prostituta numa esquina qualquer. É assim que essas pessoas analisam as coisas.

Mas a censura a livros não é prerrogativa exclusiva da direita americana. A esquerda politicamente correta também faz das suas, banindo textos que um ou outro idiota considera racistas (“As Aventuras de Huckleberry Finn” de Mark Twain para os pretos, “O Mercador de Veneza”, do bardo, para os judeus) ou preconceituosos em relação à sociedade de modo geral. Qualquer livro que não passe uma visão ideal da sociedade fundada em Massachussets é perigoso, sempre.

No fim das contas, não é exatamente o espectro político que importa na decisão de decidir o que as pessoas devem ler. O problema é de fundo religioso e histórico: tanto a direita como a esquerda americana têm raízes profundas no puritanismo protestante, e têm em seu destino manifesto a missão de guiar a humanidade em busca de conceitos abstratos como o bem comum e a virtude.

No que depender desses zelotes, o resultado será uma sociedade construída sobre a ignorância e a negação da realidade, porque é nisso que se baseia a histeria religiosa. Por desempenharem funções públicas, acham que têm o direito de decidir o que o povo pode ou não ler. Eles têm o direito de querer proteger suas crianças do que bem entenderem; o problema começa quando querem proteger também as dos outros.

Certo, é difícil justificar que o Estado gaste dinheiro disponibilizando em suas bibliotecas, por exemplo, How to Make Love Like a Porn Star: A Cautionary Tale, da atriz pornô Jenna Jameson. Não parece relevante. Ao mesmo tempo, é também difícil justificar que essa opção seja negada, a qualquer um, apenas porque um bando de egressos do culto dominical acha que as pessoas não devem ter o direito de escolher a informação que desejam receber. Se as dicas da Jenna não parecem relevantes para mim, podem parecer para alguém.

As listas de livros banidos impressionam pela diversidade temática e pela extrema suscetibilidade desses censores. No fim das contas, depois que se vê que baniram, tem-se a impressão de que o problema é mais que simples ignorância ou obtusidade. Ao banir livros, quaisquer livros, esses idiotas fazem uma apologia da ignorância e a tentam impor a um povo, negam o direito à informação a uma sociedade; não é à toa que What’s Happening to my Body? Book for Girls: A Growing-Up Guide for Parents & Daughters, de Lynda Madaras, foi banido recentemente.

Julgando-se pela reação causada, o livro disfarçado de educação sexual deve deixar a Adelaide Carraro se achando uma santa. Quase igual a essa gente que, graças aos seus preconceitos, tenta fazer com que se volte à Idade Média. Aqueles bons tempos em que o mundo era simples e a ressurreição no Senhor era o melhor a que se podia aspirar.

1979, o ano em que viramos gente

É curioso que já vá fazer 30 anos, mas 1979 foi o Ano Internacional da Criança.

A ONU tem dessas coisas, de vez em quando escolhe um ano e o dedica a um tema. Só foram acertar naquele ano, quando finalmente conseguiram algo que mobilizasse as pessoas. Mas tentaram muito até lá. Começaram em 1957 e de lá para cá houve anos importantes como o Ano Internacional do Arroz, em 1966 e novamente em 2004, e o Ano Internacional das Montanhas, em 2002.

Em 1979 eu não sabia de nada disso. Não sabia sequer que aquele também era o Ano Internacional de Solidariedade com o Povo da Namíbia, e acho que não havia muita gente mais que soubesse — talvez nem o povo da Namíbia, a quem deveríamos prestar nossa solidariedade inexistente. Não sabia que o secretário geral da ONU era Kurt Waldheim, de passado obscuro sob o signo da suástica nazista. Nada disso importa, no fundo, não a mim. O que interessa, mesmo, é que ainda hoje, quase 30 anos depois, lembro de tanta coisa que às vezes é até difícil admitir que já faça tanto tempo.

Ao contrário dos outros anos — quem em sã consciência pensaria comemorar 2006 como o Ano Nacional dos Desertos e da Desertificação? —, parecia que todos estavam comemorando. Mesmo um país como o Brasil, que naquele ano celebrava algo mais importante, a Anistia, parecia ver o Ano Internacional da Criança como algo único. Ou pelo menos assim parecia a quem, como eu, via na TV e nas revistas uma enxurrada de menções ao Ano, e a Declaração dos Direitos da Criança parecia estar em todo lugar. Declaração que vasculhei para tentar descobrir alguma coisa com que descolar algum dinheiro de meus pais; mas não que consegui mais que alguns argumentos vagabundos para eventuais manhas ineficazes.

As revistas em quadrinhos que eu comprava traziam o selo do Ano, comerciais de TV pretendiam amolecer os corações embrutecidos de adultos, que então deveriam se tornar suscetíveis àquela conversa boba de trazer de volta a criança que há em cada um de nós. Do ponto de vista de quem era criança em 1979, era como se de repente todo o mundo tivesse prestado atenção à nossa condição. Ser criança então parecia ser algo bom, e o mundo voltava seus olhos para nós. Parecia que éramos promovidos repentinamente, e de bibelôs incapazes nos transformávamos, finalmente, em gente pequena.

Para um menino criado no Porto da Barra a mensagem era destinada a gente como eu, que tinha casa, carro e motorista, e que merecia ter seu papel na sociedade reconhecido e valorizado. Sobrevalorizado, na verdade. O que quer dizer apenas que eu não entendia nada, e não sabia do drama das criancinhas africanas ou vietnamitas, não sabia que era a elas que se destinava a iniciativa da ONU. Sinceramente, e que me perdôem o meu coração insensível e cruel, o destino delas pouco me interessava; naquela hora outras coisas me chamavam a atenção, como completar a minha coleção de Playmobil do faroeste. As casinhas — saloon, drugstore — eram caras e eu nunca tive uma delas.

Pode parecer saudosismo bobo, mas nunca mais houve um Ano Internacional como aquele. Dois anos depois foi a vez de se comemorar o Ano Internacional do Deficiente Físico, e houve algumas tentativas de dar a ele algo da importância de dois anos antes. Mas o mundo gosta mais de crianças que de aleijados, porque crianças parecem, para alguns, o símbolo máximo da renovação, uma promessa ainda não cumprida. Essas pessoas que idolatram os párvulos parecem esquecer que Hitler também foi criança, e que Klara Pölzl teria feito um grande favor ao mundo se, ao ver que tinha um pão no forno, se tivesse entregado aos cuidados de uma fazedora de anjos.

Talvez seja. Mas eu, teimoso como todas elas me dizem, continuo achando que nunca mais houve um ano como aquele. E quem quiser provar que eu estou errado tem uma boa chance ano que vem, e pode comemorar, alegremente, o Ano Internacional da Heliofísica.

Bussunda

Agora que se passaram sete dias, dá para falar melhor do Bussunda. O Ina fez um belo post, como sempre; o Hermenauta evocou lembranças pessoais. Eu não tenho tanta coisa boa para falar.

Não da pessoa ou do mesmo do humorista, cujo talento é óbvio. Mas os obituários que correram nos últimos dias fizeram parecer que havia morrido o maior humorista brasileiro de todos os tempos, e isso não é bem verdade.

A Casseta Popular nunca foi grande coisa. Genial, mesmo, foi o Planeta Diário, da mesma época, com um humor mais inteligente e sofisticado. A Casseta Popular fez sucesso porque era escrachada, assumidamente boba, sem nenhuma vergonha do mau gosto. Por si só, jamais teria a capacidade de mudar a cara do humor brasileiro. Mesmo assim, ao lado do pessoal do Planeta Diário, aquela equipe desempenhou um papel fundamental na renovação do humor na TV, com parte do TV Pirata. Isso ninguém tira deles.

Mas essa renovação não durou muito tempo. Já em 1992, a Casseta (não lembro se já era Casseta e Planeta) fez duas piadas em sua revista que, em vista do que viria depois, me impressionaram. A primeira foi uma paródia da campanha da Rider — “Dê um descanso aos seus pés” — ilustrada por Nelson Piquet (que tinha acabado de destroçar o pé em Indianápolis) e Roberto Carlos, que nunca gostou de alusões ao fato de ter perdido um pé em um acidente de trem. Alguns meses depois, trouxe uma capa com o esqueleto de Ulysses Guimarães, recém-desaparecido em um acidente de helicóptero. Piadas de mau gosto? Talvez. Mas o humor não deve, jamais, obedecer a padrões de gosto. Humor é humor. Ponto.

O problema é que logo depois morreu Daniela Perez, e o Casseta e Planeta simplesmente não tocou no assunto.

Aquele era um prato cheio. Artistas. Galeria Alaska. Leopardos. Tesoura. Tatuagens penianas. O caso Daniela Perez poderia alimentar uma publicação humorística por meses. Pelos padrões que vinha mostrando até então, seria de esperar que o pessoal do Casseta e Planeta fizesse um carnaval sobre isso.

Mas Daniela Perez e Guilherme de Pádua eram contratados da Globo, como era a turma do Casseta e Planeta. Tudo bem que não tocassem no assunto em seu programa de TV, mas na revista eles teriam, teoricamente, liberdade para soltar o verbo. Mesmo assim jamais tocaram no assunto. A Globo tinha domado aquele pessoal, e eles tinham assumido compromissos demais.

A partir daquele momento eles perderam todo o interesse para mim. É fácil bater em cachorro morto. A palavra “irreverência” já não se aplicava a eles.

O mais grave na retrospectiva que fazem do Bussunda, no entanto, é que o Casseta e Planeta, hoje, estão superados. O novo humor televisivo é feito no Pânico, com seus roberts e mulheres samambaia. O antigo lema do Casseta e Planeta, “Jornalismo mentira e humor verdade” foi posto de cabeça para baixo pelo Silvio e pelo Vesgo. O Casseta e Planeta, com toda a importância que tenham tido nos anos 80, principalmente ao colaborar com um programa fundamental como o TV Pirata, hoje está na mesma situação que Chico Anysio naquela época: vendo que o seu tempo passou, que o futuro é de gente mais ousada e mais debochada.

Hermenauta

Falam que eu sou isso e aquilo, que me divirto enchendo o saco das feministas ativistas do fogão, mas se querem mesmo ver alguém esculhambando as pseudos com mais ironia e rigor, é só dar uma olhada no blog do Hermenauta.

***

Falando nisso, a tartaruga de Darwin morreu. O Hermê deve estar chorando.

Pequena reflexão sobre a natureza das coisas

Há dois gaviões por aqui. Passam voando diante da janela e então pousam no alto do edifício ao lado, entre antenas de TV e parabólicas e uma enorme caixa d’água.

São pardos, com as pontas das asas em tom mais claro.

Não os vejo de perto mas sei que são animais magníficos. Sei como são seus bicos redundantemente aquilinos, seus olhos também redundantemente de águia. Posso imaginar suas garras fortes, segurando suas presas enquanto seus bicos as dilaceram.

Quando eles passam voando pode-se sentir a sua força e a sua imponência na maneira como extendem suas asas e planam a despeito do vento. Gaviões personificam a única grande combinação de qualidades da Criação, aquela que nenhuma outra pode superar: liberdade e força. Aqui, neste pequeno canto do mundo perto do rio, eles são reis, voam acima de todos os outros, senhores de seus apetites enquanto os outros fazem apenas o pouco que podem: andam nas calçadas desviando das poças de chuva e dirigem seus carros se são humanos, esgueiram-se nos esgotos se são ratos ou baratas. Aos dois gaviões que voam por aqui sobra todo o resto, têm horizontes mais amplos que os de todos nós porque podem voar mais alto e ver mais longe, e mesmo que a maior parte das pessoas não saiba que eles estão aqui, esses dois gaviões são os senhores. Liberdade e força.

A senhora que mora ao lado tem um tucano de madeira em sua varanda. E quantas vezes um desses dois gaviões o atacou, num vôo rápido sobre a vítima putativa, tantas que a obrigaram a colocar uma rede na varanda, dessas que as pessoas, alegando proteger crianças, na verdade colocam para se proteger dos dissabores que um párvulo inconseqüente ou simplesmente bobo pode causar.

Mas ainda ficam os falcões de olho de olho na ave que julgavam apetitosa, porque é isso que eles são, predadores, e é essa a sua missão na vida e porque, como o escorpião da parábola, eles não podem evitá-la.

Ainda há pouco um dos gaviões estava no telhado de uma casa vizinha — a casa que tem uma mangueira no quintal. Segurava uma presa com as garras, presa que estraçalhava com seu bico redundantemente aquilino. Não vi a cena, cheguei tarde, mas posso imaginá-lo há alguns minutos planando calmamente até avistar a presa, mergulhar num átimo e capturar sua vítima, que não deve ter visto nada, não deve ter tido tempo para sentir medo, apenas sentiu as garras penetrando em sua carne.

Ali, no telhado da casa que tem um pé de manga no quintal, o gavião comia a lagartixa que tinha acabado de matar.

E daqui de cima, apoiado sobre as minhas duas pernas medíocres e braços no lugar de asas com pontas mais claras, sorri enquanto pensava que, com toda essa liberdade e com toda essa força, o magnífico predador comia uma lagartixa. Apaguei o cigarro e fui pegar um copo de coca-cola enquanto o gavião imponente se regalava com uma lagartixa, gavião de merda. Liberdade e força. Sei.

Os anos 90 vêm aí

Terça-feira e eu vou para o cinema com uma missão apenas aparentemente simples: escolher o filme mais bobo em cartaz, apenas para clarear a cabeça — acompanhado de uma senhora que tinha acabado de me mostrar que, com dois pauzinhos na mão e algum sushi diante dos olhos, se transforma na Madame Mãos-de-Tesoura e deixa o Johnny Depp se achando um mero alicate de unhas.

O filme escolhido, de acordo com esses critérios claros mas de difícil realização, foi “Apenas Amigos”, comédia romântica com uma moça que lembra muito a Michelle Pfeiffer quando ela ainda era novinha.

O filme é uma porcaria e, apesar das risadas eventuais, não merece um comentário. Portanto, foi ideal para aquilo a que eu me propunha: sair do cinema dizendo “oba, não pensei por hora e meia”.

Mas uma coisa me impressionou nele, e enquanto escrevo isto um calafrio percorre minha espinha, porque adivinho uma tragédia que já vi antes se desenrolar novamente diante dos meus olhos.

O filme tem início em 1995.

E então está começando. Eu, que ainda não consegui superar o revival dos anos 80 que me fazia ter pesadelos ao som do Menudo em que era perseguido por pares de calças jeans verdes e espancado por tênis quadriculados com cadarços rosa-choque enquanto o Ritchie gargalhava de maneira inequivocamente maníaca, agora me vejo às voltas com os princípios de um nova ressurreição. A dos anos 90, década que não parecia sequer ter acabado. Os anos 90 foram ontem. Mas eles morreram, foram enterrados por Osama bin Laden, e aqueles que cresceram nele se preparam para, como todas as outras gerações antes dela, contar as mentiras de sempre sobre aqueles anos tão dourados.

Foi um começo tímido e incompetente, como costumam ser os começos daquelas grandes ondas — quem levou a sério Ike Turner quando ele gravou Rocket 88? –, mas para alguém que ainda hoje pula assustado e tem convulsões aos primeiros acordes de Jump, do Van Halen, enquanto imagina Dave Lee Roth babando no microfone, os sinais são inequívocos. E aterrorizantes.

Os anos 90 vêm aí.

Vêm com festas ao som do Green Day, com “Almanaques dos Anos 90” contando que Kurt Cobain esbagaçou a própria cabeça e que no dia, sei lá, 12 de março de 1997 o mundo dançava ao som do Hanson e o Brasil batizava suas filhas com o nome da minhoca contorcionista, a Thalia. As pessoas vão lembrar como eram boas aquelas novelas mexicanas, Maria Mercedez, Maria do Bairro, Maria da Casa do Caralho. Os anos 90 vêm com adolescentes vestindo preto e tentando ser tristes no verão brasileiro. Como todas as retomadas, essa virá com o aproveitamento do que a década teve de pior.

Eu gostei tanto dos anos 90. Foram tão bons. A música melhorou, um mundo novo apareceu com o computador e as redes. O futuro era brilhante, e alguém mais otimista poderia dizer que depois do que havia começado ali nunca mais teríamos que voltar os olhos para trás, em busca de uma visão rósea do que teria sido o nosso passado. Recém-adultos mentirão para si próprios e tentarão se convencer de que a sua adolescência não foi tão ruim; pior, tentarão se convencer de que têm uma longa história para contar.

Os anos 80 voltaram ao cinema com Grosse Pointe Black. Era um filme melhor que “Apenas Amigos”. E se a qualidade de suas inaugurações significa alguma coisa, os próximos dez anos de revival dos fabulosos anos 90 serão absolutamente, completamente, desgraçadamente deprimentes.