No almoço.
— Filha, quem foi que criou o universo?
— Deus.
— E quem criou Deus?
— O Big Bang.
No almoço.
— Filha, quem foi que criou o universo?
— Deus.
— E quem criou Deus?
— O Big Bang.
É a segunda vez que a Lurdinha deixa o mesmo comentário neste blog:
Imbecil, cretino, estou procurando uma maneira rápida e prática para me suicidar e tu me aparece com essa filosofia de barraquinha? Vai te catar, ou melhor vá se….
A Lurdinha se irritou comigo porque eu não sou o CVV. Da primeira vez não falei nada, apenas deixei o comentário pastar ali, no limbo da moderação. Por não gostar da recomendação que me foi dada, sim, mas também por medo: vai que a louca se mata e o comentário me traz complicações. De confusão eu ando correndo, como sempre corri em minha covardia.
Mas dois comentários iguais são demais para uma pessoa boa como eu.
Ao contrário do que se poderia esperar de mim, não vou dizer que a Lurdinha tinha mais era que se matar logo e poupar o mundo de outras bobajadas como esse comentário. Também não vou fazer o contrário, aquele discurso de que não, não faça isso, alguém neste mundo espera por você, a vida vale a pena; porque eu admito, Lurdinha, que nem sempre vale, nem mesmo quando a alma não é pequena — o que, cá entre nós, não parece ser seu caso. Eu continuo achando que melhor que se matar é dar um jeito no filho da puta que está fazendo da sua vida um inferno, mas cada um vive (e morre) como quer.
Não vou dar conselhos, tampouco. Sim, eu conheço várias formas de morrer rapidamente, mas não me engano: a Lurdinha também sabe, e se deixa um comentário aqui não é porque quer se matar, mas porque quer chamar a minha atenção. E isso ela já tem.
Não sei qual é a sua história, Lurdinha, aquilo que te faz namorar a idéia de acabar com tudo isto, não sei por que você quereria morrer. Sei apenas que você estava tão ansiosa para receber um comentário ou um post que já há semanas procura um jeito rápido de se matar, deixando comentários neste blog e talvez voltando de vez em quando para ver se foi notada.
Eu que tenho a mente suja e romântica, se me permite o paradoxo, gostaria de imaginar que você realmente quer morrer; e quer porque um grande amor se acabou, deixando feridas profundas que parecem jamais cicatrizar. Gostaria de ver alguém amar outra pessoa de maneira tão intensa, tão desesperada, que sem ela a vida não faz sentido, e que é melhor morrer do que continuar a viver pensando naquilo que jamais voltará a ter.
Mas essas mortes por amor não existem mais, para desgosto meu, das funerárias e das escritoras de romances baratos. Este é um mundo em que grandes emoções sem esperança não se resolvem mais em uma poça de sangue, mas no divã de um psico-terapeuta; são sempre privadas, e quando se tornam públicas são apenas arremedos sem graça e grosseiros como os comentários que você deixou. Foi isso que restou a nós, românticos desgraçados do século XXI: mortes fuleiras anunciadas em blogs ruins.
Sinceramente, não acho que nada disso valha a pena. Acho inclusive que você poderia fazer coisa melhor em seus últimos momentos — que se alongam fastidiosamente, ao que parece — do que anunciar aqui repetidas vezes que quer morrer de maneira rápida. Nem este blog é lá grandes coisas, nem o meu comentário é bom o suficiente, nem a vida que você diz querer abandonar significa muito. E o máximo a que este blog que não gosta de filosofia se permite é isso mesmo, filosofia de barraquinha, frases fáceis que exigem pouco pensar.
Anunciar sua morte aqui é desgraçar um evento importante, talvez o mais importante de sua vida. Não faça isso. No seu lugar, Lurdinha, da próxima vez eu tentaria mandar um cartão postal para o PostSecret. E por não ousar desejar um próspero Ano Novo, me despeço esperando que você tenha, pelo menos, tido um feliz Natal.
Republicado em 19 de setembro de 2010
A Sky me manda um e-mail dizendo mais ou menos o que já diz em um comercial que veicula insistentemente: que devo me engajar na sua luta pela liberdade na TV, agora que um projeto de lei circula no Congresso obrigando a programação das TVs por assinatura a conter 50% de material produzido no Brasil.
Segundo a Sky, isso é um crime. É uma agressão ao meu direito de escolha. Eu, que hoje escolho a minha programação, vou perder esse sagrado direito.
Não sei o que pensar do projeto de lei, que não li e que a princípio não me parece tão ruim assim. Talvez 50% seja excessivo; mas se a programação dos canais por assinatura perder 50% do material feito lá fora, seriados ruins e programas idiotas tipo Oprah e outros tantos — ou o que parece mais lógico, uns tantos canais estranhos que tumultuam a programação da Sky –, eu vou sair no lucro.
Por outro lado, sei exatamente o que pensar dessa campanha da Sky.
E o que penso é o seguinte: deixem de tentar me tratar como idiota.
Porque tentar me cooptar para a sua briga dizendo que hoje escolho a minha programação é dizer, na minha cara, que sou um debilóide. Que sou um retardado que engole qualquer besteira que a Sky quiser dizer para mim. Que aceito, sem questionar nada, o seu cinismo e a sua má-fé.
Eu não escolho a programação da minha TV. Sou obrigado a escolher apenas entre pacotes caros e outros ainda mais caros. Não posso escolher apenas os canais a que quero assistir. Não posso dispensar bobagens como Fashion TV e um canal idiota sobre carros, e outro ainda mais idiota sobre golfe: vem tudo em pacotes fechados, que aumentam excessivamente o preço e sobre os quais não tenho direito a opinar. Se eu quiser assistir à HBO tenho que levar de quebra dezenas de canais nada interessantes, que dizem mais respeito a preferências de segmentos de mercado externos do que às minhas. A Sky, essa que agora luta pela “minha liberdade”, não apenas me obriga a comprar também o lixo que produz como, ainda por cima, me faz pagar pelos programas que oferece a americanos e ingleses. Ela pode chamar a isso “liberdade de escolha”; eu chamo de canalhice.
Eu sei disso e em troca de alguns canais aceito essas condições, mesmo sabendo que elas não são exatamente justas. Mas isso não dá direito à Sky a me dizer, com a maior desfaçatez do mundo, que está lutando pela minha liberdade. Ela não está, está lutando é pelos seus interesses. Algo até justo, mas que deveria ser assumido como tal, e não com uma mentira cínica e, acima de tudo, burra.
Por causa desse argumento, mesmo sem ler o projeto de lei que assusta tanto o bolso da Sky que a faz tomar medidas desesperadas e mal pensadas como essa, eu estou seriamente inclinado a defendê-lo. Porque ele pode até ser errado, mas não está tentando me tratar como um idiota.
Morreu hoje pela madrugada, em São Paulo, um morador de rua que teve 85% do corpo queimado.
Embora tenha sido incendiado na madrugada de ontem, só hoje, muitas horas depois de morto, se soube o seu nome. Até então só se sabia que ele era um mendigo, e não um índio. Chamava-se Ivanildo Raimundo.
Por ser um mendigo somente não houve manifestações de rua por sua morte. Não houve militantes pelos direitos humanos tentando chamar a atenção da mídia para a monstruosidade do ato praticado. Não houve debates em jornais e programas vespertinos de TV sobre a violência urbana. Não houve psicólogos questionando a educação e a formação dada aos adolescentes de classe média. Não houve aquelas manifestações de revolta e nojo instintivos da classe média quando se vê ameaçada enquanto testemunha sua apregoada superioridade moral cair por terra.
O mendigo morreu só, diante do silêncio tranqüilo e desdenhoso daqueles que, há dez anos, se esgoelaram em protesto contra a morte do índio Galdino, em Brasília. Morreu só como morreram tantos outros mendigos, queimados numa calçada qualquer em Salvador, em São Paulo, no Rio de Janeiro. Centenas, talvez milhares ao longo da história. Nenhum deles causou repercussão, porque um mendigo que morre queimado, espancado ou enregelado não faz falta, sequer tem família.
A polícia diz já saber quem foi o responsável pela morte do mendigo. Aparentemente foi outro mendigo. E assim como o morto que só agora foi identificado no Instituto Médico Legal, o assassino também não tem nome, ainda. Mas assim que ele for descoberto e preso os juízes serão imparciais e rigorosos, como não foram com os marginais de classe média de dez anos atrás, e talvez isso possa servir de consolo a alguém. Por outro lado, o advogado dativo oferecido pelo Estado não vai se esforçar em defendê-lo.
Ao contrário do índio Galdino, o mendigo que morreu ontem não tinha nome. Não precisava ter. É um entre muitos, quase alguém que não existiu. Porque não é índio, é só um mendigo que deu o azar de ser queimado por outro mendigo.
Republicado em 17 de setembro de 2010
Comentário recebido ao post da Branca de Neve, de uma moça muito indignada chamada Bianca:
Sr. Rafael Galvao vc é um homem sem escrupólus e sem vergonha na cara ,pois sou uma adolescente de 13anos e me assustei quando lhe essa historia ridicula acho q vc n gostaria q um filho seu de menor lêsse essas barbaridades!!!Pense bem antes de fazer outras história assim pois, a minha mente ainda e de criança!!!Tome vergonha na cara!!!
Bianca,
Vergonha na cara é algo que nunca tive. Esse é o meu problema, é o que me faz escrever as bobagens que escrevo aqui. E ter consciência dele é o que me faz ouvir calado insultos como os seus, porque eu posso ser sem-vergonha mas sou justo, e essa é uma das poucas qualidades que não me podem negar.
Por isso me perdoe. Eu sei que a história de uma Branca de Neve filha da puta, que sequer dá para os anões prestimosos e precisados, anões que não comem ninguém além do Dengoso, pode mesmo ofender mentes puras e pueris como a sua.
Para me redimir desse atentado à inocência infantil vou escrever em sua homenagem a história de Rapunzel, pobre vítima de uma bruxa lésbica e malvada que a aprisionou no alto de uma torre para que só ela desfrutasse (no sentido mais baixo e torpe que você puder conceber aí do alto dos seus 13 anos) dos seus encantos.
A bruxa, por sua vez, gostava muito de pêlos, se emaranhava neles e os preferia úmidos, e não permitia que Rapunzel cortasse o cabelo ou fizesse depilação. Rapunzel era linda mas tinha cada sovaco cabeludo que Deus benza.
Isso durou até o dia em que a peludinha se apaixonou por um príncipe bonito e charmoso, e suas pernas tremeram de desejo. Porque embora até gostasse da língua mágica e dos dedos curvos pela artrite da bruxa, Rapunzel não era uma devota fiel da poesia de Safo, e assim como a Xuxa e a Ivete Sangalo ela gostava mesmo é daquilo que balança. E o príncipe, verdade seja dita, balançava bem. Por isso Rapunzel não conseguia mais ouvir outra voz que não a do seu desejo, e o príncipe sequer precisou gastar muita conversa para que ela começasse a jogar suas tranças para ele na calada da noite.
E o príncipe subia pelas tranças louras de Rapunzel, um sacrifício grande que valia a pena pelo que o aguardava. E assim o príncipe se recompensava e recompensava a Rapunzel fazendo com ela coisas indizíveis durante toda a noite, e fazia barbaridades capilares, e ia embora quando a manhã chegava, satisfeito, ainda arrancando pêlos dos dentes.
O resto da história eu conto depois. Mas posso adiantar que o príncipe queria mesmo era fazer um mènage com Rapunzel e com a bruxa má. E é aqui que entra a moral da história, uma moral edificante para orientar a vida e os caminhos de crianças puras como você. Sabe por que o príncipe queria comer a cabeluda e a velha sapata juntas, Bianca? Porque ele não tinha 13 anos. Porque assim como eu, e ao contrário de você, ele não tinha uma mente pura e pueril, e se tinha deixado degenerar e corromper pelo infame mundo que nos cerca.
Por causa disso, por causa do respeito que ainda devo a essa inocência evanescente que pessoas como eu teimam em conspurcar, aceito suas críticas e seus vilipêndios.
A propósito, uma correção. Eu não sou inescrupuloso, nem mesmo em português correto. Eu sou imbecível, e por isso escrevo essas coisas sujas que ofendem mentes pueris como a sua.
Por favor, me perdoe.
Até a segunda.
Post antigo:
Pequeno exercício de lógica
Batata não pensa. Logo, batata não existe.
Comentário novo, de um certo Abel:
comi uma garota chamada batata.logo entao a menina pensa
À sua revelia, o Abel forneceu mais uma comprovação empírica para a minha tese.
Ninguém que pense daria para o Abel. Batata deu para o Abel. Logo, batata não pensa. Logo, batata não existe.
Está ficando difícil encontrar discussões filosóficas à minha altura.
Era o comercial que eu sempre quis fazer.
Comercial de sabão em pó. Certo, há produtos mais glamurosos, mas não é de glamour que se fala aqui. Não se trata do tipo do sensacionalismo do Oliviero Toscani, aquele mondo cane chic que só engana os bobos e os bestas. Um anúncio do Toscani é como um filme de hollywood que denuncia o seu própro star system, sua própria canalhice, mas utilizando-se das mesmas técnicas.
O que eu queria fazer era um comercial revolucionário de verdade. Um comercial de sabão em pó. Criar a grande obra de arte da publicidade moderna, coisa de deixar Ogilvy e Bernbach se remoendo em seus caixões. Uma obra para mudar os conceitos da propaganda, essa vagabunda que vive bajulando uma humanidade burra e, em troca, recebe as mais torpes acusações.
Comerciais de sabão em pó são aqueles em que o menino mal educado entra em casa com os pés sujos de lama, aquele pequeno porco que não recebeu educação. E a mãe olha para ele com um sorriso no rosto e uma expressão de “fazer o quê se eu não dei educação a esse nojentinho?”, o sorriso que bois dariam se conseguissem fazer outra coisa que não babar. E ela pega a roupa imunda do filho porco e bota na máquina, ainda o sorriso bovino no rosto, e mostra a embalagem para a câmera. E depois da assinatura volta à cena a família unida, feliz da vida, sorrindo num grande abraço, o menino quase brilhando de tão limpo, e tão bonito, e os cabelos sedosos como num outro comercial, esse de xampu.
Não, não. É outro o comercial que eu queria fazer:
Sabão Momo
Institucional
Filme
30″
PorquinhoMenino de cerca de 10 anos entra em casa imundo, pingando lama como João Ratão pingou feijão.
A mãe olha para o garoto e fica transtornada. Segura o menino pelo braço e começa a dar-lhe tapas fortíssimos, e arranca a roupa com alguns safanões.
ATOR: Pára, mãe! Faz isso não, mãe!
ATRIZ: Seu moleque mal educado! Você só se suja assim porque não é você quem lava esta merda! Sabe quanto custou essa camisa, seu bostinha?
ATOR: Ai, mãe! Pára, mãe!
ATRIZ: Estudar que é bom você não quer, né, seu vagabundo? E não é você quem limpa a casa!
E ela vai para a área de serviço, jogando com raiva a roupa no tanque. Close em sua mão pegando o Sabão Momo. Começa a enxagüar a camisa.
ATRIZ: Esse moleque puxou ao desgraçado do pai, ave Maria!
Corta para packshot do produto.
OFF e LET.: Sabão Momo. Limpa até as porcarias do seu filho imundo.
Volta o menino, encolhido sobre sua cama, chorando. A mãe grita em off:
ATRIZ (em OFF): Se você fizer isso mais uma vez, seu relaxado, eu lhe mato de porrada!
Close no olhar assustado do menino.
Republicado em 11 de setembro de 2010
Seguindo o conselho de Anatole France:
Quando algo já foi bem dito, não tenha escrúpulos. Pegue e copie.
Rafael Galvão
Há dois gaviões por aqui. Passam voando diante da janela e então pousam no alto do edifício ao lado, entre antenas de TV e parabólicas e uma enorme caixa d’água.
São pardos, com as pontas das asas em tom mais claro.
Não os vejo de perto mas sei que são animais magníficos. Sei como são seus bicos redundantemente aquilinos, seus olhos também redundantemente de águia. Posso imaginar suas garras fortes, segurando suas presas enquanto seus bicos as dilaceram.
Quando eles passam voando pode-se sentir a sua força e a sua imponência na maneira como extendem suas asas e planam a despeito do vento. Gaviões personificam a única grande combinação de qualidades da Criação, aquela que nenhuma outra pode superar: liberdade e força. Aqui, neste pequeno canto do mundo perto do rio, eles são reis, voam acima de todos os outros, senhores de seus apetites enquanto os outros fazem apenas o pouco que podem: andam nas calçadas desviando das poças de chuva e dirigem seus carros se são humanos, esgueiram-se nos esgotos se são ratos ou baratas. Aos dois gaviões que voam por aqui sobra todo o resto, têm horizontes mais amplos que os de todos nós porque podem voar mais alto e ver mais longe, e mesmo que a maior parte das pessoas não saiba que eles estão aqui, esses dois gaviões são os senhores. Liberdade e força.
A senhora que mora ao lado tem um tucano de madeira em sua varanda. E quantas vezes um desses dois gaviões o atacou, num vôo rápido sobre a vítima putativa, tantas que a obrigaram a colocar uma rede na varanda, dessas que as pessoas, alegando proteger crianças, na verdade colocam para se proteger dos dissabores que um párvulo inconseqüente ou simplesmente bobo pode causar.
Mas ainda ficam os falcões de olho na ave que julgavam apetitosa, porque é isso que eles são, predadores, e é essa a sua missão na vida e porque, como o escorpião da parábola, eles não podem evitá-la.
Ainda há pouco um dos gaviões estava no telhado de uma casa vizinha — a casa que tem uma mangueira no quintal. Segurava uma presa com as garras, presa que estraçalhava com seu bico redundantemente aquilino. Não vi a cena, cheguei tarde, mas posso imaginá-lo há alguns minutos planando calmamente até avistar a presa, mergulhar num átimo e capturar sua vítima, que não deve ter visto nada, não deve ter tido tempo para sentir medo, apenas sentiu as garras penetrando em sua carne.
Ali, no telhado da casa que tem um pé de manga no quintal, o gavião comia a lagartixa que tinha acabado de matar.
E daqui de cima, apoiado sobre as minhas duas pernas medíocres e braços no lugar de asas com pontas mais claras, sorri enquanto pensava que, com toda essa liberdade e com toda essa força, o magnífico predador comia uma lagartixa. Apaguei o cigarro e fui pegar um copo de coca-cola enquanto o gavião imponente se regalava com uma lagartixa, gavião de merda. Liberdade e força. Sei.
Originalmente publicado em 22 de junho de 2006