Now and Then

Já definiram: Now and Then, a última música de Lennon trabalhada por McCartney, Harrison e Starr, vai ser lançada dia 23. A canção é velha conhecida, embora o autor, sabiamente, não o tenha incluído no Double Fantasy. É uma balada chatinha, embora típica de Lennon, razoavelmente datada em alguns trechos. A capa do compacto é de uma mediocridade impressionante. Seria melhor usar as capas clássicas dos compactos ingleses nos anos 60, apenas um papel preto com um buraco no meio.

Now and Then acompanha o relançamento das duas grandes coletâneas da banda, conhecidas desde 1973 por Álbuns Vermelho e Azul, agora inflacionadas em 50% e e transformadas em álbuns triplos.

Em seu tempo, foram coletâneas importantes, porque ofereciam um resumo razoável da música da banda. Como efeito colateral  cristalizou no imaginário do público a divisão da carreira da banda em duas fases distintas, o que não corresponde exatamente à realidade nem, certamente, era sua intenção original. Hoje, sua única utilidade é garantir mais uns tostões para a gravadora e para a banda. Mas sejamos benevolentes:  são o acompanhamento adequado a uma canção pela qual McCartney briga há quase 30 anos. Eu achava que o Get Back fecharia para eles a porta das lembranças, e com chave de ouro, mas os danados sempre acham um alçapão.

Por coincidência, dia desses entrei num grupo de Facebook dedicado a bootlegs dos Beatles. É impressionante o número de pessoas que ainda colecionam e vendem e trocam discos piratas, mesmo em um tempo de assombros e maravilhas em que grande parte das gravações estão disponíveis gratuitamente e com melhor qualidade de som na internet, ou mesmo em lançamentos oficiais como os Live at the BBC.

Não recrimino ninguém por isso. Um dos primeiros discos dos Bealtes que comprei foi um pirata, o Decca Tapes. Durante anos, busquei sofregamente por qualquer versão alternativa ou inédita em que pudesse pôr as mãos. Até me imaginei um colecionador e um completista por vocação, sem saber que estava muitos, muitos níveis abaixo sequer do aceitável. Eu não tinha muito, mas queria ter, e isso me fazia achar que estava nesse barco.

Mas a chegada da internet e do compartilhamento fácil de arquivos me ajudou a ter uma perspectiva mais estoica diante desse comportamento. Me fez lembrar, em última análise, que o importante é, sempre, a música.

Não eram os discos em si que eu queria. Era a música que eles continham. Todo o resto — capas, encartes, badulaques — era dispensável. Diziam respeito à indústria musical. Libertar a música dos suportes físicos foi revolucionário.

Tudo o que eventualmente é realmente interessante nesse material está disponível na internet há muito tempo; para mim, por exemplo, é o bastante. Mas cada um faz o que quer, ninguém tem nada com isso.

Confesso apenas que costumo rir de colecionadores de vinil que ficam horas discutindo a superioridade do vinil sobre o CD, e isso e aquilo. Primeiro porque essa tara rediviva pelo vinil não passa muito de uma maneira de se diferenciar da choldra que ouve CDs ou mp3 bovinamente. Segundo porque quando a música fez diferença, quando ajudou a tocar o mundo para a frente, ela era ouvida mesmo era em rádios AM.

É mais ou menos como baixistas que juntam em fóruns da internet para discutir qual encordoamento é melhor, a vantagens mínimas de um baixo de 5000 dólares sobre outro de 5,500: nessas horas sempre lembro de Paul McCartney, o homem que revolucionou o papel do baixista. Quando perguntado sobre quais cordas usava, respondeu: “umas compridas e brilhantes”.

A Apple tem feito um dinheiro bom com esse pessoal. Pelas minhas contas, só nos últimos 40 anos esse grupo, que espero ser muito restrito, comprou os mesmos discos pelo menos nove vezes — a remasterização de 1988, os CDs mono, as remasterizações mono e estéreo, de 2009, os CDs mono e estéreo dessas remasterizações, os CDs americanos da Capitol, e agora es caixas de aniversário. Comprar uma coleção remasterizada de uma coletânea, no entanto, quando qualquer um pode montar a sua num pen drive ou no Spotify, me soa excessivo até para esses padrões e para estes tempos tão loucos. Não é a toa que Now and Then será lançada também em fita cassete — a prova derradeira de que essa necrofilia musical passou absolutamente dos limites.

Mas estou curioso. E não apenas para saber qual vai ser o lado B. Nas mãos de McCartney, Now and Then tem potencial para se elevar acima de si mesma. Mas posso esperar para que ela vaze nas redes.

A África não tem culpa de nada

A geração que hoje tem por volta de seu meio século de tribulações cresceu sob uma narrativa bem clara sobre a Guerra do Paraguai: a de que o conflito foi causado pelas maquinações de uma grande potência imperialista, a danada da Inglaterra, em pânico diante de um modelo de desenvolvimento autônomo protagonizado pelo Paraguai progressista de Solano López. A velha Albion então fez com que suas duas marionetes sul-americanas, Brasil e Argentina, atacassem e destroçassem aquele pobre país.

Pelo menos era essa a tese que “Genocídio Americano”, do Julio Chiavenato, defendia.

A verdade estava muito longe disso, e a historiografia brasileira já tornou essa versão apenas uma curiosidade histórica. Para começar, na época o Brasil vivia graves problemas com a Inglaterra, chegando a romper relações diplomáticas. A Guerra do Paraguai foi causada pelos interesses políticos e comerciais do Brasil na região platina, pela necessidade de unificação e consolidação nacional da Argentina e pela estupidez de Solano López, ditador latino típico de filme americano que não soube avaliar o mundo a sua volta e começou uma guerra desnecessária que não poderia jamais vencer. Tudo isso tendo como fundo o destino do Uruguai, uma pequena Tróia com papel decisivo no controle da navegação no rio do Prata.

Mas aquela narrativa vitimista é típica de uma certa visão de mundo encampada por grande parte da esquerda brasileira, que perdura ainda hoje. Para ela, os vilões dos países em desenvolvimento são sempre os outros. Países subdesenvolvidos são invariavelmente vítimas impotentes das grandes potências setentrionais.

Parecem não perceber que essa constante ênfase na atribuição de responsabilidades a um agente externo nega a esses países até mesmo a condição de sujeitos e protagonistas de sua própria história. Mas não é por acaso: essa concepção nos desculpa, sempre: nós não temos culpa de nada. E ao eleger um inimigo externo, nos livra de olhar para dentro e fazer as mudanças necessárias.

Por isso me incomodei ao ver o título dessa matéria publicada no UOL: “Como este povo africano conseguiu fugir dos portugueses durante a escravidão”.

Não é apenas a inverdade histórica. O título incomoda principalmente pelo que estabelece como pressuposto para o debate político. Porque não era dos portugueses que esse povo fugia. Era de reinos como Axante, Daomé ou Oyó, de qualquer povo mais forte que tivesse condições de subjugá-los e vendê-los, em portos com o de Ajudá, a quem desse melhor preço, mais rifles, mais fumo de rolo, mais cachaça, mais seda.

(A matéria é muito melhor que o título, dando a César o que é de César. Só erra ao colocar o Brasil como mero comprador, quando na verdade tomamos conta do tráfico no século XIX.)

Não se trata de eximir portugueses, brasileiros ou britânicos da imensa responsabilidade e culpa pelo tráfico de escravos. Quando Lula pediu desculpas à África, em seu primeiro mandato, não fazia mais que sua obrigação, a de reconhecer o papel do Brasil no comércio transatlântico de almas e de entender que a demanda gigantesca e inédita por mão de obra escrava ajudou a condicionar a transformação da economia africana. Sem compradores, os escravizadores africanos não teriam motivo para destroçar a estrutura social de tantos povos na proporção que alcançaram. Somos culpados como o diabo.

Mas os europeus “apenas” compravam escravos, em um mercado que já era forte muito antes da descoberta das Américas. Até bem adiantado o século XIX, nunca tinham feito uma incursão de captura.

Alguém capturava tribos inteiras antes disso, faziam-nos andar agrilhoados em libambos por centenas de quilômetros até enterrá-los em porões de navios negreiros, onde 10% deles, na melhor das hipóteses, iriam morrer. E não eram os europeus.

Pensei nisso também quando vi as primeiras notícias sobre o golpe de Estado no Níger, e depois no Gabão. Vi, novamente resgatado do repertório permanente de análises pseudo-dialéticas, um velho conhecido na imprensa progressista: a renovação das esperanças no discurso decolonialista dos golpistas.

Não vou me estender sobre as perspectivas dos golpes porque, mesmo sem conhecer suficientemente sua história, posso apostar que vão terminar como todos os outros na África: mais uma troca de guarda de parte da elite nacional por outra, que vai descambar nos mesmos autoritarismo e corrupção, e tudo isso ancorado na eterna concepção do Estado como algo a ser apropriado pelos indivíduos e famílias de um grupo específico, até que essa casta seja destronada por outro golpe, repetindo o mesmo ciclo ad infinitum que representa a grande tragédia da África e, em menor medida, da América Latina. Sempre foi assim, e nada indica que este vai ser diferente. No caso do Gabão, ao ver os generais responsáveis pelo golpe imaginei ver, também, legendas com o nome de cada um. O da esquerda poderia se chamar Videla; o do centro, Médici; e aquele da direita se chama Stroessner.

As diferenças entre a ocupação europeia do Novo Mundo e da África saltam à vista. Se a escravidão no Novo Mundo foi uma tragédia humana e genocida que nos legou estruturas sociais doentes que não conseguimos superar e nos condena ainda hoje, ainda assim não se compara ao nível hediondo de violência e racismo cometidos pelos europeus na África. O que os portugueses perpetraram em Angola e Moçambique, o que holandeses e ingleses fizeram na África do Sul não deixa absolutamente nada a dever aos campos de extermínio nazistas ou à ocupação israelense da Faixa de Gaza.

Nada disso pode ser esquecido, sequer relevado. Mas tampouco deveria servir como bode expiatório para todas as mazelas africanas.

Concorrendo com o legado colonial, a África de hoje é resultado também das estruturas políticas, relações sociais e de classe anteriores e sobreviventes a essa dominação e exploração. Falta entender isso, colocar essa percepção como elemento principal do debate. Mas parece ser mais confortável partir do princípio de que o continente não tem culpa por ter criado e consolidado o mercado de tráfico humano que possibilitou a compra de milhões de africanos por Portugal, Brasil, Inglaterra, Espanha, França. Assim, se a África é um continente atrasado, é unicamente por ter sido espoliada pelas potências europeias. Da mesma forma que é dos países ocidentais a culpa única pela escravidão, pelo arrasamento da estrutura social africana, no Níger é da França a única culpa pelo subdesenvolvimento atávico, pela entrega dos recursos nacionais, mesmo que o país tenha sido colônia por menos de 60 anos.

Mas não foram os europeus que levaram para lá crenças como a de que um portador de HIV será curado se fizer sexo com uma menina virgem. Nem criaram a perseguição a albinos, ou a mutilação do clítoris das africanas, ou ideia de que se você oferecer farofa, pipoca, galinha e cachaça a um ser inexistente ele vai trazer a pessoa amada em três dias. Acima de tudo, não foram os europeus que ensinaram a África a ganhar dinheiro escravizando outros seres humanos.

A tragédia da África é a manutenção de estruturas sociais ruins e frágeis. Mudá-las é tarefa que cabe, única e exclusivamente, aos africanos. Mas jamais será possível com essa percepção de que a culpa é sempre do outro. No máximo, leva a cartazes como o que um nigerino segurava numa das manifestações de apoio ao golpe: “A bas la France, vive Poutine”. Sem entender seu próprio papel, parecem condenados a só mudar de senhor.

Nós, brasileiros, temos ao menos a sorte de conhecer nossos algozes: uma elite canalha, rentista e entreguista, imersa em uma corrupção atávica e estrutural que não dá mostras de que vá ser superada em futuro recente — e, para ser honesto, também um povo cuja percepção do mundo só difere da percepção da elite pela falta de dinheiro e de poder. A gente sabe que a culpa é nossa, e esse diagnóstico é, talvez, a única coisa a nos dar esperança em um futuro melhor.

Hackney Diamonds

Como era de se esperar, estou ouvindo o último disco dos Stones sem parar. Já vinha fazendo isso com as primeiras faixas liberadas semanas atrás, Angry e Sweet Sounds of Heaven, mas agora vem o pacote completo, a medida que velhos da era do LP usam para medir o mundo, mesmo os metidos a moderninhos de MP3 como eu.

Se tivesse escrito este texto mais cedo, eu diria que esse é o melhor álbum do ano. Agora que as fichas das canções começam a cair, e uma ou outra me soam um mais fracas — Dreamy Skies parece refugo do Some Girls, Whole Wide World é um pop dos anos 80 de mediocridade espantosa —, me sinto mais modesto: é o melhor álbum dos Stones em pelo menos 40 anos, descontando o Blue & Lonesome de 2016 e no mesmo nível do Voodoo Lounge, de 94.

Mas mesmo isso tem que levar o tempo em consideração.

Porque se você não for um fã dos Stones, se você conseguiu superá-los e seguir adiante, se não considera que a música pop está atolada numa lagoa escura e turva há muito tempo, você vai ter razão ao dizer que o disco traz mais do mesmo, o mesmo velho som, a mesma estrutura, e Sweet Sounds of Heaven — que conta com uma participação brilhante de Lady Gaga nos vocais — tem algo de Salt of the Earth, é a mesma tradição da baladona grandiloquente com que Jagger gosta de fechar seus discos, e por aí vai. Aos primeiros acordes, a gente já sabe que é um disco dos Stones.

Mas também levando o tempo em consideração, é espantosa a energia e a força da maior parte deste disco. E não importa a artrite do velho e bom Keith, não importa se o velho e bom Jagger corre o risco de precisar de uma prótese de quadril depois de uma rebolada mais forte daquela bunda seca: o que você tem aqui é a alegria e a vitalidade do velho e bom rock and roll, e a banda soa fresca como soava 50 anos atrás. E justamente por causa destes tempos sombrios, essa música familiar e bem-feita soa mais fresca que virtualmente tudo o que possa ser lançado este ano, porque esta é uma grande banda de rock, uma das maiores da história, e nunca mais vai haver alguma que alcance o seu tamanho.

Há mudanças sutis, mas perceptíveis, no som dos Stones. A bateria de Steve Jordan é mais seca e mais pesada que a do velho e bom e finado Charlie Watts, recorre menos aos hi-hats, e isso acaba dando à banda uma força e uma atualidade que não se via, por exemplo, em pastiches vergonhosos como A Bigger Bang, seu último álbum de inéditas lançado 18 anos atrás.

É fácil esquecer que a cozinha dos Stones foi totalmente renovada nos últimos anos: Darryl Jones no baixo, e agora Jordan, deram mais swing e mais sustentação às guitarras de Richards e Wood (compare as outras gravações com Live by the Sword, a única e última faixa gravada pela formação clássica da banda, com Wyman e Watts). Os Stones de Hackney Diamonds não soam simplesmente como os Stones: soam como os Stones deveriam soar em 2023.

E, quase numa nota de rodapé, é uma delícia ouvir o baixo com fuzz de McCartney em Bite My Head Off: um lembrete, mais um, de que o velho e bom Macca é um excelente baixista de rock, sabendo sempre o que tocar para enriquecer uma música. Se você não sabe que é ele tocando, pode visualizar facilmente um menino de uma banda punk em sua primeira turnê. Ou pensar que ele tocou desde sempre com os Stones.

Quer saber? É mais do mesmo, é verdade. Ainda bem que é mais do mesmo.

Fucking foda

Chega de ser velho, decidi me atualizar.

Talvez comece comprando um iPhone. Não vai dar para pagar de uma vez, essas desgraças não cabem no meu orçamento e talvez seja por isso nunca me senti tão idiota a ponto de dar 5 ou 10 mil num celular, mas eles parcelam, boto aí em dez vezes, assim dá. Talvez não dê para comprar um novo, mas iPhone usado também impressiona, ainda mais quando aparece displicente no bolso traseiro das caixas de supermercado que devem ter empenhado o salário de três meses ali. Bem, talvez dê para parcelar um novo em 24 meses — mas aí vou pedir garantia estendida e botar no seguro, porque vai ser triste voltar para casa no ônibus das 22:30 e um mala qualquer me roubar o desgraçado, pelo menos antes de terminar de pagar.

Ao menos vou ter o gosto de dizer: “poxa, roubaram o meu iPhone”. Vai ser assunto para três meses.

Se bem que atualização de verdade, para mim, é atualizar o linguajar.

Eu falo como velho da boca suja, é porra e merda e caralho e puta para tudo quanto é lado, em tudo quanto é tempo, e nem sempre eles querem dizer o seu significado exato. Mas agora quero falar como jovem, man, viciado nas redes e nos streamings da vida, seguindo as trends mais cool que aparecerem por aí — logo eu que não usei jeans verdes nem gel no cabelo nem camisas verde-limão nos anos 80. Ao menos tenho a desculpa da senilidade cada dia mais próxima, tudo me será perdoado.

Tenho 10k razões para não fazer isso (ou são 10k de razões? Me perco nessa mudança de estrutura da língua, como o filho do português que emigrou para a gringolândia, não conseguiu aprender inglês e começou a esquecer o português), e todas elas eu poderia resumir num “foda-se”, o “foda-se” tão meu amigo de tanto tempo. Mas desconfio que isso não seja atitude up to date que se respeite num mundo globalizado e conectado e tão róseo como o que me vendem todo dia. Estou ficando velho e isso é ruim, preciso renovar meu approach, continuar relevante em alguma coisa, não sei para quem. Tenho que fazer isso asap. Acho que vou precisar dar um retrofit nos meus skills.

Também vou estar atualizando o tempo dos verbos, eu que nunca soube bem como conjugá-los. Vou estar me rendendo ao gerúndio totalitário e onipresente, mesmo sem nunca ter entendido como é que alguém se vê tão baixo na escala social que acha bonito estar falando como operador de telemarketing.

Vou também estar cedendo a essa expansão das expressões evangélicas, que repetem a metástase social que o seu pensamento está exercendo na sociedade brasileira. Ô glória. As igrejas evangélicas são o pior câncer que poderia afetar o Brasil, mas e daí, tá amarrado.

Se eu estiver atualizando o linguajar vou estar performando melhor em alguma coisa, é no que quero acreditar. Não sei em quê, mas vou. Vou estar aumentando o meu brand equity, acho, e talvez assim eu jobe melhor. Mas para isso preciso, antes, estar mudando o meu mindset, preciso entrar nessa fria de acreditar e justificar essa exploração canalha do trabalho mal pago e precário. É o preço que vou precisar estar pagando para estar sendo moderno.

Mais tarde estarei dando um follow up a quem leu isso aqui, FYI. Mas já posso estar adiantando que o grande momento vai ser quando eu sacar meu iPhone, fingir uma cara feia diante de uma insignificância qualquer na tela e lascar com o peito estufado: “É fucking foda, viu?”

Keeping Walt in Disney

Fui parar num canal do YouTube que traz um bocado dos filmes que “Disneylândia” — o programa de TV, não o parque — apresentou ao longo desses quase 70 anos.

O Keeping Walt in Disney, já a partir do título, mostra o apego à importância emocional que esses filmes tiveram nas vidas de milhares de crianças, entre as quais nunca tive vergonha de me incluir com saudosismo besta.

Não tem alguns que procuro há tempos, como The Boy Who Talked to Badgers ou A Country Coyote Goes to Hollywood. Mas tem Kit Carson and the Mountain Men; Barry of the Great St. Bernard, Fire on Kelly Mountain; Run, Cougar, Run; tem até filmes dos quais eu só tinha lembranças muito vagas, como Wild Burro of the West. Certamente há outros a que assisti mas do qual não lembro espontaneamente, e filmes dos quais não lembrarei nunca mais.

Ver esses filmes me lembra que houve um tempo em que eu torcia para que “Disneylândia”, em vez de filmes que à medida que eu crescia iam perdendo aos poucos seu interesse, exibisse os desenhos de que eu ouvia falar. As musas ouviram minhas preces e no início dos anos 80 os filmes deram lugar às centenas de desenhos em curta metragem que a Disney fez ao longo de quase 100 anos. Nunca me arrependi tanto de um desejo.

Sempre tive a impressão de que “Disneylândia” fez mais pelo ambientalismo do que esses militantes chatos que vivem dizendo que nós estamos invadindo a casa dos bichos. Vendo a lista de filmes disponíveis, a maior parte deles lidando com crianças e animais, essa impressão aumenta. Mas agora também penso que eles contribuíram muito para a formação de uma geração de pais e mães de pets, de pessoas que pensam que seus bichos são gente, mas que não pegam o cocô de seus cachorros na rua.

Passei os olhos sobre alguns dos títulos disponíveis. Ainda não tive coragem de assistir a nenhum. Procurando a data de estreia do programa, descobri que ele ainda existe e é apresentado pelo Disney+; mas para mim é outro bicho, não pode ser a mesma coisa. Ha um tempo para cada coisa, diz o Eclesiastes; “Disneylândia”, como o “Clube do Mickey”, é o tipo de programa que só se pode ver uma vez, quando se é criança e tudo é novidade e possível.

Mas às vezes é possível entrever esse outro tempo, e quase sempre vale a pena.

Não ser Flamengo

A geração de Zico tinha ódio ao Botafogo. Ela viu vezes Garrinha humilhar o Mais Querido no gramado do Maracanã — tortura que se estendeu por mais alguns anos, com Gérson, Jairzinho, uns tantos aí. Minha mãe ainda me conta da tristeza que era ir ao Maracanã nesse tempo.

A geração seguinte, encarnada por Leandro (o maior lateral direito da história do futebol, é sempre bom lembrar), por sua vez odiava o Fluminense. Ela viu a “Máquina” de Rivelino e Edinho e Paulo César moer o Flamengo costumeiramente.

Eu faço parte de uma geração que não passou por nada disso e que se dá ao luxo de só ter amor no coração. O Flamengo do meu tempo é aquele cujo marco inicial é o gol de cabeça marcado por Rondinelli sobre o Vasco da Gama na final do Carioca de 1978. Começava ali uma hegemonia estadual que dura até hoje. É claro, aqui e ali uns percalços acontecem — grandes fases do Fluminense no meio dos anos 80 e do Vasco no final do século XX, o gol de barriga de Renato em 1995, o chocolate do Vasco na Páscoa de 2000 —, mas o Flamengo dos últimos 40 anos é aquele que ganhou quase metade dos campeonatos cariocas e todos os seus títulos nacionais e internacionais. Nesse período os outros times passaram por altos e baixos, foram todos rebaixados para a série B onde filho chora e a mãe não vê, e uns até para a série C, onde filho chora e a mãe nem liga. Mais importante ainda, nesse período os campeonatos nacionais e internacionais ganharam mais importância que os estaduais. Hoje, um time grande brasileiro enfrenta rivais de outros estados muito mais vezes do que enfrenta a maioria dos adversários locais.

Por tudo isso, nunca consegui entender o ódio que torcedores têm contra outros times. Entendia, um pouco, a raiva que todos parecem ter do Flamengo, mas ela sempre me pareceu semelhante aos latidos de um chihuahua, que late para tudo porque tudo é maior que ele. Os times pequenos precisam odiar os grandes para justificar sua existência.

Talvez seja essa a razão pela qual eu sempre tenha tido alguma simpatia por alguns desses times pequenos. O Fluminense ainda tem em sua alma um resto daquela elegância esnobe que os fazia espalhar pó de arroz nas arquibancadas do Mário Filho. A torcida do Glorioso sempre me pareceu valorosa em sua persistência, porque ao fastígio dos anos 50 e 60 se sucederam 21 anos sem ganhar nem um Carioca, e uma existência que se baseava essencialmente numa nostalgia simpática — o que, claro, não me impediu de, ao ouvir Bebeto de Freitas dizer que “o Botafogo é um estado de espírito…”, completar sua frase com um “…também conhecido como depressão”; ele não riu. E hoje, o único sentimento que se pode ter em relação a um time como o Vasco é pena, talvez uma torcida genuína para que não se apequene demais, porque ele está se tornando o que o América era nos anos 70, o quase grande, o maior dos pequenos, o gigante da colina abaixo, e sinceramente espero que ele não se transforme no São Cristóvão.

Mas domingo passado eu finalmente entendi o que significa o ódio a que me referi no início deste post, e ainda estou assustado, e fui dormir com a luz acesa naquela noite.

O Botafogo tem tudo para ser o campeão brasileiro deste ano. Naquele momento tinha 11 pontos à frente do segundo colocado e enfrentava um Flamengo em crise, que talvez não ganhe absolutamente nada este ano, 14 pontos atrás. Tinha tudo para um jogo tranquilo — disputado, honrado, mas tranquilo.

O que finalmente entendi é que nada disso importa quando o ódio é o que lhe move. Pontos, chances, campeonatos, tudo isso é bobagem. Para o Botafogo, aquele jogo parecia ser outra coisa. Um desavisado que visse o jogo pensaria que ali estava em disputa a final do certame, jogo de vida e morte que significaria a glória imorredoura do campeão ou o opróbrio do rebaixamento.

Foi ao ver o goleiro do Botafogo no ataque, no campo do Flamengo, desesperado para fazer o gol que lhes garantiria ao menos o empate, e então perderem a bola que foi para os pés de Cebolinha, mas para a sorte do Glorioso nós temos o Cebolinha, é, nós temos o Cebolinha, e mesmo assim o goleiro voltou para o ataque, arriscando tudo no desespero dos decaídos, foi só aí que entendi o que significa não ser flamenguista neste mundo.

***

Eu sei que falei, há alguns anos, que não gostava mais de futebol e não pretendia mais falar sobre isso. Mas acontece que logo depois, naquele ano da graça de 2019, encontrei Jesus, e o resto é história.

Por que não vou ao show de Paul McCartney

Eu tenho dois heróis. Um é Al Bundy. O outro é Paul McCartney.

E por isso todo mundo que me encontra pergunta se vou para um dos shows de McCartney no Brasil, mandam notícias e imagens e etc. e etc.

E então tenho que responder que não, eu não vou para o show, não quero ir. É uma longa e triste história, mas com final feliz.

Em abril de 1990 Paul McCartney fez o seu primeiro show no Brasil e eu não tinha dinheiro para ir.

Eu não gosto de megashows. Não gosto de multidão, não gosto de gente suada encostando em mim, não gosto de cotovelos alheios em minhas costelas; como defesa, vou a eles usando umas botas Caterpillar com ponta de aço sob o couro. Meus dedos saem intactos. Não garanto os dos outros.

Mas eu nunca quis tanto ir a um show quanto àquele. 20 anos após o fim dos Beatles, o maior deles finalmente vinha ao Brasil. Era o sonho de qualquer beatlemaníaco, e eu nunca fui tão fã quanto naqueles dias.

Havia um pequeno detalhe, no entanto: eu não tinha dinheiro, e não tem beatlemania que resista à falta de recursos. O resto da história é previsível. Como um menino de rua olha as vitrines das lojas de brinquedos, acompanhei as notícias pelos telejornais, li a resenha do show pelo Jornal do Brasil, vi o compacto exibido alguns dias depois na Globo, comprei posters e revistas. Nada disso serviu como consolo. Eu queria estar no Maracanã, e não pude. Mais de 30 anos depois, ainda não esqueci a tristeza daqueles dias.

Em 1993 McCartney voltou e fez dois shows, em Sumpaulo e Curitiba. Dessa vez, eu continuava sem dinheiro, mas talvez tivesse como conseguir. O que eu não tinha como evitar eram provas na universidade, e já tinha perdido provas demais. Anos mais tarde vi a placa que colocaram na pedreira Paulo Leminski marcando o show de Curitiba, e é claro que eu gostaria de ter estado lá. Ainda mais porque não tinha certeza de que McCartney viveria o suficiente para voltar ao Brasil.

Viveria, claro. A partir de 2010 ele faria do Brasil quase uma segunda casa, iniciando um período pós-crise de 2008 em que o país se tornou uma alternativa lucrativa à Europa e aos EUA em crise. Mas agora o jogo tinha virado. Agora eu podia ir, e estava de tocaia.

As vendas de ingressos teriam início a partir da meia noite. Em um primeiro momento, apenas para clientes do Bradesco e donos de cartões American Express; só depois seriam liberadas para a patuleia.

Eu nunca fui cliente do Bradesco nem tive American Express. E assim, quando as porteiras abriram para o comum das gentes, já não havia mais ingressos para o que chamavam pista prime, diante do palco. Só pude comprar o nível imediatamente abaixo, pista alguma coisa. Odeio o Bradesco até hoje por isso e espero ansioso o dia em que a American Express vai quebrar.

E assim, num belo dia de novembro, me enfiei em um avião rumo a Sumpaulo. Marquei para o dia do show um encontro com blogueiros daquele tempo, como o Doni e o Marmota e a Márcia. Mas encontrei outra amiga antes, e acabei passando o dia com ela e perdendo a hora. Nunca pedi desculpas a eles, por sinal. E já saí atrasado para o Morumbi.

A fila era a mais gigantesca que eu já tinha visto. Parecia não haver jeito de conseguir sequer entrar a tempo para ver o final do show, quanto mais conseguir um bom lugar. Não costumo furar filas, mas naquele momento fiz o que qualquer desesperado faria no meu lugar, certo de que os santos me perdoariam: corri a fila em busca de algum amigo mais próximo da entrada. Não era possível que, de todo o mundo que conheço, não houvesse alguém que também fosse àquele show. E se não houvesse, eu adoraria fazer novas amizades.

Os deuses do fura-filas sorriram para mim e encontrei uma amiga de Fortaleza, que coincidentemente ia para a mesma parte da plateia que eu.

Quando entramos, percebi a estupidez que tinha feito ao comprar a segunda posição mais cara. Era tão longe do palco; vimos o show, na prática, pelos telões. Não demorei a perceber que teria feito muito melhor se tivesse comprado um lugar na arquibancada e, com a diferença de preço, comprado um binóculo. Ainda veria o show sentado.

Saí do Morumbi com uma sensação enorme de desapontamento, quase culpa. Durante o show, ao meu lado, um rapaz de seus vinte e poucos anos chorava enquanto era filmado pelo pai. E eu me perguntava: “Tá chorando de raiva, meu rapaz?”

Um show de Paul McCartney é o mesmo há 30 anos. Ao contrário de Dylan, que reinventa suas músicas praticamente a cada show, McCartney concebe o seu como uma chance de fãs ouvirem suas canções semicentenárias interpretadas o mais fielmente possível ao original. Ele sabe que é isso que a esmagadora maioria dos fãs quer. A cada turnê McCartney muda apenas uma parte pequena do setlist, geralmente umas cinco ou seis músicas dos Beatles que saem para dar lugar a outras e dar aos fãs a desculpa necessária para assistirem novamente ao que é essencialmente o mesmo show que já viram.

É mais ou menos como ir ao Louvre tentar ver a Mona Lisa. É a mesma coisa há décadas, uma multidão tirando fotos e lhe impedindo de chegar mais perto: só que há 25 anos eram japoneses fazendo clic-clic-clic; agora são chineses. Tudo igual, mas diferente. Do mesmo jeito, o coração do show de McCartney permanece o mesmo, inclusive com as mesmas gracinhas: umas frases em português do local, My Love sendo apresentada como uma canção que ele fez para “mia gatchinha Linda”.

Eu já tinha visto tantos shows de McCartney em VHS, DVD e o escambau que ali não havia nenhuma novidade. E a sensação foi de insuficiência, de decepção. Estar tão longe do palco ajudou, claro, mas a sensação geral era a de que, se não estava arrependido, também não me animava a ir ao próximo, se próximo houvesse. Eu já tinha visto um show de McCartney, obrigação de qualquer beatlemaníaco como é, para um muçulmano, a de visitar a Meca. Não estava exatamente feliz, mas me conformava com realização de um sonho antigo. Era o bastante para tornar tudo aquilo válido, para compensar a decepção que eu disfarçava sob um incômodo que não queria descrever. Não fui aos shows seguintes, mesmo o que aconteceram mais perto de mim.

Mas em 2013 minha filha pediu para ir comigo ao show de McCartney em Fortaleza. Tudo bem. Por mim, eu não iria. Mas o que uma filha pede sorrindo ao pai que ele não faz chorando e fazendo contas?

Acontece que dessa vez consegui o que agora se chamava frontstage. Acho que, como McCartney virou arroz de festa no Brasil (já são oito turnês e 26 shows), a ansiedade havia diminuído.

Já contei parte das desventuras neste show aqui. O mais importante, no entanto, deixei de lado.

Aquele show foi redentor.

Perto do palco, a experiência é totalmente diferente. Chega a ser extática. Você finalmente está próximo da única pessoa no mundo que que lhe faria pedir um autógrafo. E então já não interessa se o show é essencialmente o mesmo, se as músicas são tocadas exatamente da mesma forma há 30 anos. Há uma ilusão de comunhão e de proximidade que, no fundo, é tudo o que você quer em um concerto. Foi assim que tirei as fotos que ilustram este post.

Saí do show feliz, e devo isso à minha filha. Finalmente tive a recompensa emocional e artística que me faltou naquele show no Morumbi. E por ter saído satisfeito do show em 2013, não sinto a mínima necessidade de ir novamente.

Para começar, mil reais, 200 dólares, não nascem nas árvores retorcidas da caatinga. Eu teria pago mais em 2010 para ver aquele primeiro show, mas agora estou satisfeito com o que vi dez anos atrás. De qualquer forma, não é isso o que realmente importa. Além da sensação de que não vai fazer diferença ir ao show que já conheço de cabo a rabo, a voz de McCartney hoje me incomoda. Ela vem em um processo acelerado de degradação desde o início dos anos 2000, mas nos últimos anos parece ter saído de controle. O volume de turnês, a duração enorme de cada show, tudo isso deve ter contribuído para que ele simplesmente perdesse a voz. É meio triste vê-lo usar um arsenal variado de truques para disfarçar as notas que já não consegue cantar. É nítido o esforço que ele faz para emitir suas notas.

Ir a um show de McCartney a esta altura, para mim,provavelmente seria melancólico. E já não tenho um “dever” a cumprir; melhor ficar em casa.

Mas essas são apenas minhas idiossincrasias, uma de minhas pinimbas com o mundo. Não valem para todos. Quem nunca foi a um show de McCartney deveria ir. É um grande show, honesto. É o músico mais importante do século XX. É uma lenda viva. É algo que você contará aos seus netos nos anos que virão. Recomendo apenas que, se não conseguir o fronstage, vá para a arquibancada e compre um binóculo. Seja onde for, essa pode ser uma experiência única. Mas talvez por ser única, eu já a tive. Estou feliz assim. Deixa estar.

Mercado Municipal, 1977

“Escreva aí: sou mulher da vida, e disso não tenho vergonha, e só eu sei o quanto sofro aqui neste mercado. O povo pensa que é só chegar e ir roubando um e outro, mas não é assim, não: roubar é coisa muito difícil, e não é toda hora que a gente tá a fim. Tá vendo esse menino aí? É meu filho e já tem nove anos de idade. Pode escrever aí que, além da minha boca, tem essa outra pra eu alimentar. Dou até meu endereço, se quiser: moro na rua do Acre, 16, tenho 22 anos e sou filha natural de Estância, onde tenho minha mãe. Alô alô, minha mãe aí na cidade de Estância, dona Carmen Duran de Assis Santos, e meu tio que trabalha no Correio, e todos que estiverem me ouvindo na cidade de Estância: favor avisar minha mãe que eu, Lourdes de Assis Santos, Nega Lia, estou esperando ela no ônibus das seis horas, segunda-feira, na Rodoviária.”
— Nega Lia, a famosa Nega Lia, a Fernando Sávio, 1977.

Autobiografia não-autorizada de um blog

Sem alarde, este blog completou 20 anos em julho.

Comecei porque morava em Niterói e tinha tempo livre demais nas mãos e queria escrever de uma maneira diferente do texto publicitário.

Porque o texto publicitário clássico era assim.

Era curto, “paragrafal”.

E feito de pontos. Fodam-se as vírgulas.

O texto publicitário queria sempre vender alguma coisa a você.

Escrever um parágrafo longo cheio de vírgulas era libertador. Encadear sentenças era tão bom, tão bom. Além disso, eu queria poupar amigos para os quais eventualmente mandava longos emails sobre alguns assuntos aleatórios. Eu simplesmente sentia vontade de escrever sobre qualquer bobagem que me viesse à cabeça. E aquele era o tempo certo.

Embora weblogs fossem notícia desde pelo menos 2001, foi só em 2002 que passei a ler alguns. Na verdade, descobri esse mundo por motivos torpes e errados — nenhuma surpresa nisso, imagino: foi procurando pelas fotos de uma tal festa Giovanna infame, na qual tiraram e divulgaram fotos de gente em posições de safadeza e de ai-meu-Deus, que cheguei ao blog da Lolla Moon. Aquele foi o primeiro que li e gostei; ela tinha um jeito próprio de escrever, um modo inteligente e vívido de descrever — ou reinventar, eu nunca soube — a sua realidade. Lolla Moon era um personagem, aparentemente, mas era muito bom. Tinha vigor e verdade.

E assim chegou a hora em que resolvi escrever o meu próprio blog. Se chamava “Pensamentos Mal Passados”, e tinha um subtítulo: “Um pouco de nada, e nada de muito importante”. Seu endereço era http://rafaelgalvao.blogger.com.br; escolhi o Blogger brasileiro porque na época ele permitia a hospedagem de imagens, ao contrário do Blogspot, cujos usuários tinham que recorrer a coisas como o Photobucket; eu intuía que mais cedo ou mais tarde sumiriam com suas fotos.

Entre primeiros leitores estavam as poucas amigas a quem avisei que tinha começado um blog, a Daniela Parahyba e a Mônica do então Atos Falhos (depois Monicômio). Através da Mônica veio o Biajoni, que então tinha um mini-portal chamado Tiro & Queda em Limeira e se preparava para iniciar uma carreira de escritor.

Foi a Dani quem fez o primeiro tema personalizado do blog, de acordo com um layout que mandei para ela. Ali ele já perdeu o nome — que cá entre nós não valia nada —, dando início à minha pequena egotrip homônima. Ainda mantive o subtítulo por alguns meses, mas mesmo este sumiu nas brumas do tempo.

De certa forma, foi só quando virou “Rafael Galvão”, o nome de guerra desta velha marafona das palavras, que ele passou a fazer algum sentido. Tinha começado tímido, sem cara definida; o primeiro post era uma despedida do browser que tinha possibilitado a minha entrada na internet, o Netscape. Naqueles primeiros meses o blog era composto essencialmente por comentários bobos sobre o que me viesse à cabeça; olhando em retrospecto, era essencialmente um Facebook avant la lettre, como quase todos os outros blogs. Mas aqui e ali havia uma coisinha mais legal, e aos poucos ele foi tomando uma cara própria, os textos foram aumentando de tamanho e diminuindo em quantidade. Em agosto de 2003 publiquei 100 posts, a maioria curtíssimos. Em 2005, a média já tinha passado para um por dia, smepre publicados à meia-noite. Dois anos depois, uns três por semana. Não vou falar da frequência atual.

O Blogger.br era uma droga, e no início de 2004 decidi aproveitar o domínio que já tinha, por causa do e-mail, e passei o blog para hospedagem própria, rodando o Movable Type, um sistema de gerenciamento de conteúdo danado de chique na época mas que se perderia ao tentar descolar um troco de gente que não ganhava nada por escrever. O primeiro provedor era nacional, se chamava Sunhost e era muito ruim. Passei para um pequenininho americano, chamado AddAction, onde fiquei por anos. Finalmente, já nos estertores do que eu chamo de “primeira fase”, passei para o Bluehost, o melhor de todos, até que o dólar disparou e voltei para o Brasil, como emigrante fracassado.

Desde o início no Movable Type eu fazia meus próprios temas. A Dani, que nunca saiu do Blogger, não sabia mexer naquilo e eu tive que aprender na marra. O primeiro foi basicamente uma adaptação do modelo que ela tinha feito no Blogger, mas esses layouts me cansavam e durante algum tempo eu os mudava a três por quatro. Em 2006, o hábito da mudança periódica e a falta de tempo me fizeram, pela primeira vez, pegar um template pronto, embora eu ainda fizesse uma série de alterações. Em 2008, no entanto, um problema interno no provedor me fez migrar para o WordPress. E então a farra dos layouts acabou, porque a estrutura me parecia diferente, e eu já não sabia mexer naquilo nem queria aprender, e o jeito era pegar o que já estava pronto. Os templates posteriores foram gratuitos, encontrados no próprio WordPress, sem modificações. Infelizmente perdi virtualmente todos os primeiros layouts neste blog; alguns sobrevivem no WebArchive.

O blog começou a ser notado quando escrevi um post para o Kit Básico da Mulher Moderna. A Maneschy era minha amiga mas não sabia que eu tinha um blog; no entanto, no início de 2004, quando eu já morava em Aracaju, saiu algo sobre ele numa coluna d’O Globo, e ela veio me esculhambar por não ter lhe contado. Pouco tempo depois ela me pediu um post para o seu blog. “Mulheres Imperfeitas” (que depois republiquei aqui) fez um sucesso bem razoável, hoje inacreditável para quem lembra dos problemas graves que tive com um bando de feministas de caixas de comentários. Chega a ser irônico que o post que colocou este blog no mainstream da blogoseira fosse daqueles que agradam a 9 entre 10 mulheres, mas eu ainda não era o porco chauvinista que viria a me tornar pouco depois, e as moças gostavam de mim. Hoje, claro, apareceria alguém para dizer que o tal post é machista hétero patriarcal cis neurótico psicótico, mas naqueles dias o Facebook ainda não existia.

O post chamou a atenção do Alex Castro, que na época se escondia da polícia e tinha outro nome e escrevia o Liberal Libertário Libertino, um blog brilhante de que até hoje sinto falta, porque mesmo quando eu discordava absolutamente dele — e eu sempre discordo em quase tudo —, o Alex era, sempre foi, um grande escritor.

Através do Alex veio o Inagaki, que para mim é o sujeito que definiu o modelo do blog brasileiro, ensaístico, leve, sem um escopo definido e sem a preocupação de parecer uma coluna de jornal. Com o Ina veio uma explosão no número de leitores, o que sempre se dá em progressão geométrica: e em 2006, o blog tinha uma média de 3 mil visitantes únicos diários. De vez em quando fico impressionado ao ver que os anos entre 2006 e 2010 foram talvez os mais produtivos para este blog, e me pergunto onde arranjava tempo para escrever: nessa época, eu trabalhava feito um cão e tinha uma vida pessoal bastante agitada.

Uma “seção” que fazia algum sucesso eram “As Alegrias Que o Google me Dá”, em que eu dava respostas cretinas às perguntas esquisitas em mecanismos de busca que traziam pessoas aqui. O responsável por isso foi o Alex: foi ele quem elogiou a tal seção, e outros se seguiram. E como puta velha publicitário, a gente acaba tentando atender as preferências populares.

O mais curioso é que eu, pessoalmente, gostava mais de escrever as “Notícias Estranhas em um Blog Esquisito”, em que comentava notícias engraçadas. Isso só mostra que nunca consegui ter o dedo no pulso das massas. Eu não sei do que o povo gosta. E a esta altura da vida, isso não me importa.

Aquele período era o auge não apenas deste blog, mas de toda a blogoseira. Os primeiros diarinhos — mais ou menos nos moldes do Facebook de hoje — davam lugar a abordagens mais complexas. Acho que criamos, todos juntos, uma comunidade heterogênea e conflituosa, mas vibrante. Li muita gente boa ao longo daqueles anos; gente criativa, talentosa, gente engraçada e séria. São nomes demais para citar, mas é fácil lembrar da agonia romântica da Daniela Parahyba, da extrema sensibilidade caótica da Mônica do Monicômio; da ironia do seu marido, o Carlos Magalhães; a eterna busca do Marcos Donizetti, outro desses escritores talentosos que encontraram na facilidade de publicação um caminho; o Marcus Pessoa, que um dia ainda me convence a ouvir música eletrônica; a Lucia Malla que tem um dos melhores blogs de viagem ainda hoje; o Marmota e seu deslumbramento nerd diante do mundo; o Alexandre do Pinhead, cujo filho Valdemar eu vi nascer; a Carol do Appothekaryum, companheira de viagem em Botafogo e Copacabana; o Milton Ribeiro, gaúcho atípico; o Bia com um estilo próprio e instigante; o Reginaldo do Singrando, em seu bunker na usina de Paulo Afonso; o Allan com sua Carta da Itália e seus casos do grande Aldo, outro que vi mudar de vida ao longo desses anos; ao Ricardo, que chegou a morar um tempo em Aracaju justamente na época em que estava mais ocupado; Maray com suas reflexões maduras em seu Che Caribe; o Adriano, também chamado de Smart Shade of Blue e Hermenauta (criador, por sinal, do termo “blogoseira”), com sua lógica de engenheiro e seu humor de carioca canalha em Brasília; o Idelber sempre mercurial; a Luciana Rayol e seu lirismo adolescente e a devoção a Roberto Carlos no Cinta-Liga; o Bruno na simplicidade honesta do Ik Haat; a Viva, em blog nenhum e em todos os blogs.

São nomes demais para lembrar de todos. Mas nem eu, nem o Bruno, nem a Márcia vamos jamais esquecer uma belíssima noite de fim de outono no Belmonte. E é por dias como esse que escrever este blog valeu a pena.

Por causa de um post com um filminho meio canalha que o Bia tinha me mandado, arranjei uma briga com o que ainda chamo de pseudofeministas. Me indispus com boa parte da blogoseira de esquerda, que já naquela época caminhava célere para a estupidez comodista que se vê mais claramente hoje; e não esqueço que, naquele momento, o Hermenauta e o Pedro Dória foram os únicos que defenderam os princípios que justificavam aquela publicação. Sou grato a eles até hoje.

Sempre achei curioso que o período mais prolífico deste blog, entre 2005 e 2010, tenha justamente aquele em que mais trabalhei. Mais que isso, em 2006 eu estava comprando fiado e pedindo o troco; um incêndio tinha destruído minha casa, minha filha tinha afogado meu computador pouco antes; e ainda assim eu dava um jeito de escrever aqui.

Isso tem a ver com a única coisa de que realmente me arrependo. Segundo o Idelber, eu era famoso por não responder a comentários e por não comentar em lugar nenhum. É algo de que me arrependo. Hoje tenho a impressão de que isso soava como uma rudeza e uma grosseria desnecessárias. Em parte era pura falta de tempo, mesmo. Outra era a convicção de que os comentários deveriam estar em um espaço com moderação mínima — a única regra era não xingar outros comentaristas — e que não me pertencia. Houve uma época, de absoluto excesso de trabalho, que eu sequer conseguia ler todos. E assim não respondi a pedidos e perguntas que devia ter respondido.

Acho que o fato de eu ser um dos poucos blogueiros daqueles tempos heroicos que ganhavam a vida efetivamente escrevendo ajudou a definir a personalidade deste blog. Passei ileso (e pobre) pela onda de “monetização” de 2008. Nunca estive preocupado em ser cancelado, porque a verdadeira razão deste blog existir era o exercício do direito inestimável de dizer “foda-se” quando quisesse — o que eu certamente não tenho fora daqui. Para não dizer que nunca ganhei dinheiro com o blog, durante uma época coloquei anúncios do Google nos posts. Depois de um ano ganhei uns 200 dólares que foram parar na Amazon.

Mas um tempo é um canalha sádico, e ainda assim, o tom do blog mudou muito com o passar do tempo. Os textos ficaram maiores e mais sérios. Imagino que diante da abundância de textos sobre os mesmos assuntos disponíveis internet afora, eu tenha tentado escrever algo que fizesse alguma diferença, que não apenas repetisse o que se pode encontrar em outros lugares. Além disso, uma certa influência do mundo real que acaba me obrigando a ser um pouco mais cuidadoso, e isso era chato. Acho que já tinha mudado um bocado quando decidi acabar com ele.

Em 2010 tinha se tornado uma obrigação sem sentido, e fora isso eu estava realmente exausto. Não achava que tinha muito mais o que dizer nem me preocupava se alguém estava lendo. Olhando para trás, talvez eu não tivesse mais o que dizer, mesmo; a internet tinha mudado, as redes sociais se afirmavam e o ambiente que tinha possibilitado o surgimento dos blogs estava começando a desaparecer.

Quando anunciei que estava encerrando o blog, o Leo Bernardes, do Reinventando Santa Maria, escreveu um post que me deixa orgulhoso até hoje, apesar do exagero; a Luciana Rayol depois me diria que ficou chocada. Eu jamais imaginaria que havia gente que gostava dele tanto assim.

Mas eu gosto de escrever, e acabei voltando. Depois de tantos anos, o blog tinha passado a ser parte da minha vida; por isso voltei, mas sem a obrigação que eu mesmo me impunha. E ele vai ficar por aqui para sempre, acho; às vezes com um texto, às vezes não. Não precisa de mais que isso. Ele já está vivendo em um tempo emprestado, mas que bom: a este blog, que me deu alegrias, raivas e amigos, basta apenas continuar existindo, tornando possível que eu escreva algo quando quiser, ou não escreva quando não quiser. Não porque é ou deixa de ser lido: mas porque é parte indissociável de mim.

No entanto, há uma diferença entre o Rafael de 30 anos e o de vinte anos depois.

Uma vez, um leitor disse na minha cara que gostava da “arrogância adolescente” deste blog. Se eu tivesse bebido duas doses a mais eu o teria mandado fazer bom uso da sua bunda — mas ele era o governador de Sergipe e doido eu nunca fui. Hoje, muitos anos depois, vejo que ele tinha razão. Mas não é culpa minha: o resto do mundo é que me parece cada vez mais chato, mais sisudo, se leva a sério demais.

Mas não fui imune ao passar do tempo, e é claro que fiquei mais sério e mais chato. Não me incomoda, mas certamente diminui os encantos do blog. Me incomoda mais a falta de vontade de escrever sobre alguns assuntos que me interessam porque ele já foi debatido antes. Eu gosto da minha opinião, mas não a esse ponto. Mas não dá para deixar de notar que o blog perdeu o humor quase adolescente que vejo em posts antigos. Ficou mais sério, mais sisudo. Reclamão, não, que isso eu sempre fui. É como se eu tivesse passado a usar camisas sociais e sapatos o tempo todo.

Acho que tem um pouco de cansaço e de covardia também, mas parte disso é a mudança dos tempos, mesmo. O mundo ficou mais chato, mais policialesco, mais autoritário, e a internet é a grande responsável por isso. Há uma maneira para fazer as coisas, há uma noção de que ideias são certas — noção que me dá calafrios, porque é uma receita para a estupidez.

Vinte anos depois, blogs como este, basicamente conversa jogada fora numa espécie de bar virtual, foram perdendo o sentido. Nunca tive muita certeza da razão. Certo, a profissionalização dos blogs, sua transformação quase em “jornais alternativos”, ajudou. Mas no fundo não sei, de verdade, se é porque as pessoas já não os leem ou porque seus autores não escrevem mais; o fato é que Facebook e Twitter ocuparam esse espaço, e mudaram a forma como a gente se expressa. Não é à toa que todos os atuais leitores do blog o acompanham praticamente desde o início. Esse é o maior elogio que eu poderia receber, mas é também indício que não há novos leitores para esta bodega. O ambiente que criou os blogs acabou, e não volta mais.

Mas ainda acho que blogs foram a melhor rede social que a internet já inventou. O volume de gente talentosa que soube da existência uns dos outros é enorme, e não vai mais se repetir. Era isso que fazia daquele mundo algo que, até hoje, acho sensacional: os diálogos que se estabeleciam, de maneira mais elaborada e instigante que um postzinho no Facebook e comentários rápidos.

O Facebook, e depois o WhatsApp e Instagram, destruíram o que o Hermenauta chamava de blogoseira. A ideia de textos mais densos em ambientes abertos, a que todo mundo poderia chegar por acaso, deu lugar a ambientes controlados, “plataformas”, perfis de Facebook apenas para amigos, newsletters para assinantes. Acabamos dando preferência a lugares onde os leitores são cativos, onde os textos são menores, onde a pressa da informação ou a mera autoexposição são atendidas instantaneamente. Nos conformamos com nichos pré-determinados. Para todo mundo, é mais fácil escrever no Facebook que num blog, que demandava mais tempo, mais pensar. Mas isso colocou as pessoas em guetos particulares minimamente conectados — quase o oposto daquilo que os blogs representavam em seu auge, na segunda metade dos anos 2000. O melhor dos blogs, o diálogo e as conversações que ele possibilitava, desapareceu. Não é à toa esse diálogo de surdos em que se transformou o debate público, das gentes comuns. Cada um falando para sua própria plateia, pregando para convertidos porque não é, no fundo, o debate que importa; e nessas horas eu tenho saudade dos xingamentos que eu recebia.

O mundo, ou ao menos a franja de mundo em que eu me situava, está mais tribal, mais puritano, medíocre. As pessoas têm medo de rir do que os outros definem como impróprio. Algo que acho inadmissível — a ideia de ofensa pessoal a grupos — se tornou a norma. A ideia estúpida de que a vítima tem sempre razão, quando associada à noção de que vítima é todo aquele que se declara como tal, embota a sociedade. Ou seja, ficou feio dizer: “Eu não quis te ofender, sequer sei da sua existência. Se você se ofendeu com o que eu penso, foda-se”.

Para mim, isso é um problema. Eu perdi a conta das pessoas a quem este blog ofendeu. Principalmente goianos, neopolitanos, astrólogos de Maria e garotos de pinto pequeno.

No fim das contas, o que realmente importa neste blog é que eu ri muito. São mais de dois mil posts, dos quais uns 100 são muito bons. E por isso, 20 anos depois, sempre que alguém me pergunta por que não escrevo um livro, a pergunta me soa sem sentido.

Eu já escrevi.