Por que não vou ao show de Paul McCartney

Eu tenho dois heróis. Um é Al Bundy. O outro é Paul McCartney.

E por isso todo mundo que me encontra pergunta se vou para um dos shows de McCartney no Brasil, mandam notícias e imagens e etc. e etc.

E então tenho que responder que não, eu não vou para o show, não quero ir. É uma longa e triste história, mas com final feliz.

Em abril de 1990 Paul McCartney fez o seu primeiro show no Brasil e eu não tinha dinheiro para ir.

Eu não gosto de megashows. Não gosto de multidão, não gosto de gente suada encostando em mim, não gosto de cotovelos alheios em minhas costelas; como defesa, vou a eles usando umas botas Caterpillar com ponta de aço sob o couro. Meus dedos saem intactos. Não garanto os dos outros.

Mas eu nunca quis tanto ir a um show quanto àquele. 20 anos após o fim dos Beatles, o maior deles finalmente vinha ao Brasil. Era o sonho de qualquer beatlemaníaco, e eu nunca fui tão fã quanto naqueles dias.

Havia um pequeno detalhe, no entanto: eu não tinha dinheiro, e não tem beatlemania que resista à falta de recursos. O resto da história é previsível. Como um menino de rua olha as vitrines das lojas de brinquedos, acompanhei as notícias pelos telejornais, li a resenha do show pelo Jornal do Brasil, vi o compacto exibido alguns dias depois na Globo, comprei posters e revistas. Nada disso serviu como consolo. Eu queria estar no Maracanã, e não pude. Mais de 30 anos depois, ainda não esqueci a tristeza daqueles dias.

Em 1993 McCartney voltou e fez dois shows, em Sumpaulo e Curitiba. Dessa vez, eu continuava sem dinheiro, mas talvez tivesse como conseguir. O que eu não tinha como evitar eram provas na universidade, e já tinha perdido provas demais. Anos mais tarde vi a placa que colocaram na pedreira Paulo Leminski marcando o show de Curitiba, e é claro que eu gostaria de ter estado lá. Ainda mais porque não tinha certeza de que McCartney viveria o suficiente para voltar ao Brasil.

Viveria, claro. A partir de 2010 ele faria do Brasil quase uma segunda casa, iniciando um período pós-crise de 2008 em que o país se tornou uma alternativa lucrativa à Europa e aos EUA em crise. Mas agora o jogo tinha virado. Agora eu podia ir, e estava de tocaia.

As vendas de ingressos teriam início a partir da meia noite. Em um primeiro momento, apenas para clientes do Bradesco e donos de cartões American Express; só depois seriam liberadas para a patuleia.

Eu nunca fui cliente do Bradesco nem tive American Express. E assim, quando as porteiras abriram para o comum das gentes, já não havia mais ingressos para o que chamavam pista prime, diante do palco. Só pude comprar o nível imediatamente abaixo, pista alguma coisa. Odeio o Bradesco até hoje por isso e espero ansioso o dia em que a American Express vai quebrar.

E assim, num belo dia de novembro, me enfiei em um avião rumo a Sumpaulo. Marquei para o dia do show um encontro com blogueiros daquele tempo, como o Doni e o Marmota e a Márcia. Mas encontrei outra amiga antes, e acabei passando o dia com ela e perdendo a hora. Nunca pedi desculpas a eles, por sinal. E já saí atrasado para o Morumbi.

A fila era a mais gigantesca que eu já tinha visto. Parecia não haver jeito de conseguir sequer entrar a tempo para ver o final do show, quanto mais conseguir um bom lugar. Não costumo furar filas, mas naquele momento fiz o que qualquer desesperado faria no meu lugar, certo de que os santos me perdoariam: corri a fila em busca de algum amigo mais próximo da entrada. Não era possível que, de todo o mundo que conheço, não houvesse alguém que também fosse àquele show. E se não houvesse, eu adoraria fazer novas amizades.

Os deuses do fura-filas sorriram para mim e encontrei uma amiga de Fortaleza, que coincidentemente ia para a mesma parte da plateia que eu.

Quando entramos, percebi a estupidez que tinha feito ao comprar a segunda posição mais cara. Era tão longe do palco; vimos o show, na prática, pelos telões. Não demorei a perceber que teria feito muito melhor se tivesse comprado um lugar na arquibancada e, com a diferença de preço, comprado um binóculo. Ainda veria o show sentado.

Saí do Morumbi com uma sensação enorme de desapontamento, quase culpa. Durante o show, ao meu lado, um rapaz de seus vinte e poucos anos chorava enquanto era filmado pelo pai. E eu me perguntava: “Tá chorando de raiva, meu rapaz?”

Um show de Paul McCartney é o mesmo há 30 anos. Ao contrário de Dylan, que reinventa suas músicas praticamente a cada show, McCartney concebe o seu como uma chance de fãs ouvirem suas canções semicentenárias interpretadas o mais fielmente possível ao original. Ele sabe que é isso que a esmagadora maioria dos fãs quer. A cada turnê McCartney muda apenas uma parte pequena do setlist, geralmente umas cinco ou seis músicas dos Beatles que saem para dar lugar a outras e dar aos fãs a desculpa necessária para assistirem novamente ao que é essencialmente o mesmo show que já viram.

É mais ou menos como ir ao Louvre tentar ver a Mona Lisa. É a mesma coisa há décadas, uma multidão tirando fotos e lhe impedindo de chegar mais perto: só que há 25 anos eram japoneses fazendo clic-clic-clic; agora são chineses. Tudo igual, mas diferente. Do mesmo jeito, o coração do show de McCartney permanece o mesmo, inclusive com as mesmas gracinhas: umas frases em português do local, My Love sendo apresentada como uma canção que ele fez para “mia gatchinha Linda”.

Eu já tinha visto tantos shows de McCartney em VHS, DVD e o escambau que ali não havia nenhuma novidade. E a sensação foi de insuficiência, de decepção. Estar tão longe do palco ajudou, claro, mas a sensação geral era a de que, se não estava arrependido, também não me animava a ir ao próximo, se próximo houvesse. Eu já tinha visto um show de McCartney, obrigação de qualquer beatlemaníaco como é, para um muçulmano, a de visitar a Meca. Não estava exatamente feliz, mas me conformava com realização de um sonho antigo. Era o bastante para tornar tudo aquilo válido, para compensar a decepção que eu disfarçava sob um incômodo que não queria descrever. Não fui aos shows seguintes, mesmo o que aconteceram mais perto de mim.

Mas em 2013 minha filha pediu para ir comigo ao show de McCartney em Fortaleza. Tudo bem. Por mim, eu não iria. Mas o que uma filha pede sorrindo ao pai que ele não faz chorando e fazendo contas?

Acontece que dessa vez consegui o que agora se chamava frontstage. Acho que, como McCartney virou arroz de festa no Brasil (já são oito turnês e 26 shows), a ansiedade havia diminuído.

Já contei parte das desventuras neste show aqui. O mais importante, no entanto, deixei de lado.

Aquele show foi redentor.

Perto do palco, a experiência é totalmente diferente. Chega a ser extática. Você finalmente está próximo da única pessoa no mundo que que lhe faria pedir um autógrafo. E então já não interessa se o show é essencialmente o mesmo, se as músicas são tocadas exatamente da mesma forma há 30 anos. Há uma ilusão de comunhão e de proximidade que, no fundo, é tudo o que você quer em um concerto. Foi assim que tirei as fotos que ilustram este post.

Saí do show feliz, e devo isso à minha filha. Finalmente tive a recompensa emocional e artística que me faltou naquele show no Morumbi. E por ter saído satisfeito do show em 2013, não sinto a mínima necessidade de ir novamente.

Para começar, mil reais, 200 dólares, não nascem nas árvores retorcidas da caatinga. Eu teria pago mais em 2010 para ver aquele primeiro show, mas agora estou satisfeito com o que vi dez anos atrás. De qualquer forma, não é isso o que realmente importa. Além da sensação de que não vai fazer diferença ir ao show que já conheço de cabo a rabo, a voz de McCartney hoje me incomoda. Ela vem em um processo acelerado de degradação desde o início dos anos 2000, mas nos últimos anos parece ter saído de controle. O volume de turnês, a duração enorme de cada show, tudo isso deve ter contribuído para que ele simplesmente perdesse a voz. É meio triste vê-lo usar um arsenal variado de truques para disfarçar as notas que já não consegue cantar. É nítido o esforço que ele faz para emitir suas notas.

Ir a um show de McCartney a esta altura, para mim,provavelmente seria melancólico. E já não tenho um “dever” a cumprir; melhor ficar em casa.

Mas essas são apenas minhas idiossincrasias, uma de minhas pinimbas com o mundo. Não valem para todos. Quem nunca foi a um show de McCartney deveria ir. É um grande show, honesto. É o músico mais importante do século XX. É uma lenda viva. É algo que você contará aos seus netos nos anos que virão. Recomendo apenas que, se não conseguir o fronstage, vá para a arquibancada e compre um binóculo. Seja onde for, essa pode ser uma experiência única. Mas talvez por ser única, eu já a tive. Estou feliz assim. Deixa estar.

Mercado Municipal, 1977

“Escreva aí: sou mulher da vida, e disso não tenho vergonha, e só eu sei o quanto sofro aqui neste mercado. O povo pensa que é só chegar e ir roubando um e outro, mas não é assim, não: roubar é coisa muito difícil, e não é toda hora que a gente tá a fim. Tá vendo esse menino aí? É meu filho e já tem nove anos de idade. Pode escrever aí que, além da minha boca, tem essa outra pra eu alimentar. Dou até meu endereço, se quiser: moro na rua do Acre, 16, tenho 22 anos e sou filha natural de Estância, onde tenho minha mãe. Alô alô, minha mãe aí na cidade de Estância, dona Carmen Duran de Assis Santos, e meu tio que trabalha no Correio, e todos que estiverem me ouvindo na cidade de Estância: favor avisar minha mãe que eu, Lourdes de Assis Santos, Nega Lia, estou esperando ela no ônibus das seis horas, segunda-feira, na Rodoviária.”
— Nega Lia, a famosa Nega Lia, a Fernando Sávio, 1977.

Autobiografia não-autorizada de um blog

Sem alarde, este blog completou 20 anos em julho.

Comecei porque morava em Niterói e tinha tempo livre demais nas mãos e queria escrever de uma maneira diferente do texto publicitário.

Porque o texto publicitário clássico era assim.

Era curto, “paragrafal”.

E feito de pontos. Fodam-se as vírgulas.

O texto publicitário queria sempre vender alguma coisa a você.

Escrever um parágrafo longo cheio de vírgulas era libertador. Encadear sentenças era tão bom, tão bom. Além disso, eu queria poupar amigos para os quais eventualmente mandava longos emails sobre alguns assuntos aleatórios. Eu simplesmente sentia vontade de escrever sobre qualquer bobagem que me viesse à cabeça. E aquele era o tempo certo.

Embora weblogs fossem notícia desde pelo menos 2001, foi só em 2002 que passei a ler alguns. Na verdade, descobri esse mundo por motivos torpes e errados — nenhuma surpresa nisso, imagino: foi procurando pelas fotos de uma tal festa Giovanna infame, na qual tiraram e divulgaram fotos de gente em posições de safadeza e de ai-meu-Deus, que cheguei ao blog da Lolla Moon. Aquele foi o primeiro que li e gostei; ela tinha um jeito próprio de escrever, um modo inteligente e vívido de descrever — ou reinventar, eu nunca soube — a sua realidade. Lolla Moon era um personagem, aparentemente, mas era muito bom. Tinha vigor e verdade.

E assim chegou a hora em que resolvi escrever o meu próprio blog. Se chamava “Pensamentos Mal Passados”, e tinha um subtítulo: “Um pouco de nada, e nada de muito importante”. Seu endereço era http://rafaelgalvao.blogger.com.br; escolhi o Blogger brasileiro porque na época ele permitia a hospedagem de imagens, ao contrário do Blogspot, cujos usuários tinham que recorrer a coisas como o Photobucket; eu intuía que mais cedo ou mais tarde sumiriam com suas fotos.

Entre primeiros leitores estavam as poucas amigas a quem avisei que tinha começado um blog, a Daniela Parahyba e a Mônica do então Atos Falhos (depois Monicômio). Através da Mônica veio o Biajoni, que então tinha um mini-portal chamado Tiro & Queda em Limeira e se preparava para iniciar uma carreira de escritor.

Foi a Dani quem fez o primeiro tema personalizado do blog, de acordo com um layout que mandei para ela. Ali ele já perdeu o nome — que cá entre nós não valia nada —, dando início à minha pequena egotrip homônima. Ainda mantive o subtítulo por alguns meses, mas mesmo este sumiu nas brumas do tempo.

De certa forma, foi só quando virou “Rafael Galvão”, o nome de guerra desta velha marafona das palavras, que ele passou a fazer algum sentido. Tinha começado tímido, sem cara definida; o primeiro post era uma despedida do browser que tinha possibilitado a minha entrada na internet, o Netscape. Naqueles primeiros meses o blog era composto essencialmente por comentários bobos sobre o que me viesse à cabeça; olhando em retrospecto, era essencialmente um Facebook avant la lettre, como quase todos os outros blogs. Mas aqui e ali havia uma coisinha mais legal, e aos poucos ele foi tomando uma cara própria, os textos foram aumentando de tamanho e diminuindo em quantidade. Em agosto de 2003 publiquei 100 posts, a maioria curtíssimos. Em 2005, a média já tinha passado para um por dia, smepre publicados à meia-noite. Dois anos depois, uns três por semana. Não vou falar da frequência atual.

O Blogger.br era uma droga, e no início de 2004 decidi aproveitar o domínio que já tinha, por causa do e-mail, e passei o blog para hospedagem própria, rodando o Movable Type, um sistema de gerenciamento de conteúdo danado de chique na época mas que se perderia ao tentar descolar um troco de gente que não ganhava nada por escrever. O primeiro provedor era nacional, se chamava Sunhost e era muito ruim. Passei para um pequenininho americano, chamado AddAction, onde fiquei por anos. Finalmente, já nos estertores do que eu chamo de “primeira fase”, passei para o Bluehost, o melhor de todos, até que o dólar disparou e voltei para o Brasil, como emigrante fracassado.

Desde o início no Movable Type eu fazia meus próprios temas. A Dani, que nunca saiu do Blogger, não sabia mexer naquilo e eu tive que aprender na marra. O primeiro foi basicamente uma adaptação do modelo que ela tinha feito no Blogger, mas esses layouts me cansavam e durante algum tempo eu os mudava a três por quatro. Em 2006, o hábito da mudança periódica e a falta de tempo me fizeram, pela primeira vez, pegar um template pronto, embora eu ainda fizesse uma série de alterações. Em 2008, no entanto, um problema interno no provedor me fez migrar para o WordPress. E então a farra dos layouts acabou, porque a estrutura me parecia diferente, e eu já não sabia mexer naquilo nem queria aprender, e o jeito era pegar o que já estava pronto. Os templates posteriores foram gratuitos, encontrados no próprio WordPress, sem modificações. Infelizmente perdi virtualmente todos os primeiros layouts neste blog; alguns sobrevivem no WebArchive.

O blog começou a ser notado quando escrevi um post para o Kit Básico da Mulher Moderna. A Maneschy era minha amiga mas não sabia que eu tinha um blog; no entanto, no início de 2004, quando eu já morava em Aracaju, saiu algo sobre ele numa coluna d’O Globo, e ela veio me esculhambar por não ter lhe contado. Pouco tempo depois ela me pediu um post para o seu blog. “Mulheres Imperfeitas” (que depois republiquei aqui) fez um sucesso bem razoável, hoje inacreditável para quem lembra dos problemas graves que tive com um bando de feministas de caixas de comentários. Chega a ser irônico que o post que colocou este blog no mainstream da blogoseira fosse daqueles que agradam a 9 entre 10 mulheres, mas eu ainda não era o porco chauvinista que viria a me tornar pouco depois, e as moças gostavam de mim. Hoje, claro, apareceria alguém para dizer que o tal post é machista hétero patriarcal cis neurótico psicótico, mas naqueles dias o Facebook ainda não existia.

O post chamou a atenção do Alex Castro, que na época se escondia da polícia e tinha outro nome e escrevia o Liberal Libertário Libertino, um blog brilhante de que até hoje sinto falta, porque mesmo quando eu discordava absolutamente dele — e eu sempre discordo em quase tudo —, o Alex era, sempre foi, um grande escritor.

Através do Alex veio o Inagaki, que para mim é o sujeito que definiu o modelo do blog brasileiro, ensaístico, leve, sem um escopo definido e sem a preocupação de parecer uma coluna de jornal. Com o Ina veio uma explosão no número de leitores, o que sempre se dá em progressão geométrica: e em 2006, o blog tinha uma média de 3 mil visitantes únicos diários. De vez em quando fico impressionado ao ver que os anos entre 2006 e 2010 foram talvez os mais produtivos para este blog, e me pergunto onde arranjava tempo para escrever: nessa época, eu trabalhava feito um cão e tinha uma vida pessoal bastante agitada.

Uma “seção” que fazia algum sucesso eram “As Alegrias Que o Google me Dá”, em que eu dava respostas cretinas às perguntas esquisitas em mecanismos de busca que traziam pessoas aqui. O responsável por isso foi o Alex: foi ele quem elogiou a tal seção, e outros se seguiram. E como puta velha publicitário, a gente acaba tentando atender as preferências populares.

O mais curioso é que eu, pessoalmente, gostava mais de escrever as “Notícias Estranhas em um Blog Esquisito”, em que comentava notícias engraçadas. Isso só mostra que nunca consegui ter o dedo no pulso das massas. Eu não sei do que o povo gosta. E a esta altura da vida, isso não me importa.

Aquele período era o auge não apenas deste blog, mas de toda a blogoseira. Os primeiros diarinhos — mais ou menos nos moldes do Facebook de hoje — davam lugar a abordagens mais complexas. Acho que criamos, todos juntos, uma comunidade heterogênea e conflituosa, mas vibrante. Li muita gente boa ao longo daqueles anos; gente criativa, talentosa, gente engraçada e séria. São nomes demais para citar, mas é fácil lembrar da agonia romântica da Daniela Parahyba, da extrema sensibilidade caótica da Mônica do Monicômio; da ironia do seu marido, o Carlos Magalhães; a eterna busca do Marcos Donizetti, outro desses escritores talentosos que encontraram na facilidade de publicação um caminho; o Marcus Pessoa, que um dia ainda me convence a ouvir música eletrônica; a Lucia Malla que tem um dos melhores blogs de viagem ainda hoje; o Marmota e seu deslumbramento nerd diante do mundo; o Alexandre do Pinhead, cujo filho Valdemar eu vi nascer; a Carol do Appothekaryum, companheira de viagem em Botafogo e Copacabana; o Milton Ribeiro, gaúcho atípico; o Bia com um estilo próprio e instigante; o Reginaldo do Singrando, em seu bunker na usina de Paulo Afonso; o Allan com sua Carta da Itália e seus casos do grande Aldo, outro que vi mudar de vida ao longo desses anos; ao Ricardo, que chegou a morar um tempo em Aracaju justamente na época em que estava mais ocupado; Maray com suas reflexões maduras em seu Che Caribe; o Adriano, também chamado de Smart Shade of Blue e Hermenauta (criador, por sinal, do termo “blogoseira”), com sua lógica de engenheiro e seu humor de carioca canalha em Brasília; o Idelber sempre mercurial; a Luciana Rayol e seu lirismo adolescente e a devoção a Roberto Carlos no Cinta-Liga; o Bruno na simplicidade honesta do Ik Haat; a Viva, em blog nenhum e em todos os blogs.

São nomes demais para lembrar de todos. Mas nem eu, nem o Bruno, nem a Márcia vamos jamais esquecer uma belíssima noite de fim de outono no Belmonte. E é por dias como esse que escrever este blog valeu a pena.

Por causa de um post com um filminho meio canalha que o Bia tinha me mandado, arranjei uma briga com o que ainda chamo de pseudofeministas. Me indispus com boa parte da blogoseira de esquerda, que já naquela época caminhava célere para a estupidez comodista que se vê mais claramente hoje; e não esqueço que, naquele momento, o Hermenauta e o Pedro Dória foram os únicos que defenderam os princípios que justificavam aquela publicação. Sou grato a eles até hoje.

Sempre achei curioso que o período mais prolífico deste blog, entre 2005 e 2010, tenha justamente aquele em que mais trabalhei. Mais que isso, em 2006 eu estava comprando fiado e pedindo o troco; um incêndio tinha destruído minha casa, minha filha tinha afogado meu computador pouco antes; e ainda assim eu dava um jeito de escrever aqui.

Isso tem a ver com a única coisa de que realmente me arrependo. Segundo o Idelber, eu era famoso por não responder a comentários e por não comentar em lugar nenhum. É algo de que me arrependo. Hoje tenho a impressão de que isso soava como uma rudeza e uma grosseria desnecessárias. Em parte era pura falta de tempo, mesmo. Outra era a convicção de que os comentários deveriam estar em um espaço com moderação mínima — a única regra era não xingar outros comentaristas — e que não me pertencia. Houve uma época, de absoluto excesso de trabalho, que eu sequer conseguia ler todos. E assim não respondi a pedidos e perguntas que devia ter respondido.

Acho que o fato de eu ser um dos poucos blogueiros daqueles tempos heroicos que ganhavam a vida efetivamente escrevendo ajudou a definir a personalidade deste blog. Passei ileso (e pobre) pela onda de “monetização” de 2008. Nunca estive preocupado em ser cancelado, porque a verdadeira razão deste blog existir era o exercício do direito inestimável de dizer “foda-se” quando quisesse — o que eu certamente não tenho fora daqui. Para não dizer que nunca ganhei dinheiro com o blog, durante uma época coloquei anúncios do Google nos posts. Depois de um ano ganhei uns 200 dólares que foram parar na Amazon.

Mas um tempo é um canalha sádico, e ainda assim, o tom do blog mudou muito com o passar do tempo. Os textos ficaram maiores e mais sérios. Imagino que diante da abundância de textos sobre os mesmos assuntos disponíveis internet afora, eu tenha tentado escrever algo que fizesse alguma diferença, que não apenas repetisse o que se pode encontrar em outros lugares. Além disso, uma certa influência do mundo real que acaba me obrigando a ser um pouco mais cuidadoso, e isso era chato. Acho que já tinha mudado um bocado quando decidi acabar com ele.

Em 2010 tinha se tornado uma obrigação sem sentido, e fora isso eu estava realmente exausto. Não achava que tinha muito mais o que dizer nem me preocupava se alguém estava lendo. Olhando para trás, talvez eu não tivesse mais o que dizer, mesmo; a internet tinha mudado, as redes sociais se afirmavam e o ambiente que tinha possibilitado o surgimento dos blogs estava começando a desaparecer.

Quando anunciei que estava encerrando o blog, o Leo Bernardes, do Reinventando Santa Maria, escreveu um post que me deixa orgulhoso até hoje, apesar do exagero; a Luciana Rayol depois me diria que ficou chocada. Eu jamais imaginaria que havia gente que gostava dele tanto assim.

Mas eu gosto de escrever, e acabei voltando. Depois de tantos anos, o blog tinha passado a ser parte da minha vida; por isso voltei, mas sem a obrigação que eu mesmo me impunha. E ele vai ficar por aqui para sempre, acho; às vezes com um texto, às vezes não. Não precisa de mais que isso. Ele já está vivendo em um tempo emprestado, mas que bom: a este blog, que me deu alegrias, raivas e amigos, basta apenas continuar existindo, tornando possível que eu escreva algo quando quiser, ou não escreva quando não quiser. Não porque é ou deixa de ser lido: mas porque é parte indissociável de mim.

No entanto, há uma diferença entre o Rafael de 30 anos e o de vinte anos depois.

Uma vez, um leitor disse na minha cara que gostava da “arrogância adolescente” deste blog. Se eu tivesse bebido duas doses a mais eu o teria mandado fazer bom uso da sua bunda — mas ele era o governador de Sergipe e doido eu nunca fui. Hoje, muitos anos depois, vejo que ele tinha razão. Mas não é culpa minha: o resto do mundo é que me parece cada vez mais chato, mais sisudo, se leva a sério demais.

Mas não fui imune ao passar do tempo, e é claro que fiquei mais sério e mais chato. Não me incomoda, mas certamente diminui os encantos do blog. Me incomoda mais a falta de vontade de escrever sobre alguns assuntos que me interessam porque ele já foi debatido antes. Eu gosto da minha opinião, mas não a esse ponto. Mas não dá para deixar de notar que o blog perdeu o humor quase adolescente que vejo em posts antigos. Ficou mais sério, mais sisudo. Reclamão, não, que isso eu sempre fui. É como se eu tivesse passado a usar camisas sociais e sapatos o tempo todo.

Acho que tem um pouco de cansaço e de covardia também, mas parte disso é a mudança dos tempos, mesmo. O mundo ficou mais chato, mais policialesco, mais autoritário, e a internet é a grande responsável por isso. Há uma maneira para fazer as coisas, há uma noção de que ideias são certas — noção que me dá calafrios, porque é uma receita para a estupidez.

Vinte anos depois, blogs como este, basicamente conversa jogada fora numa espécie de bar virtual, foram perdendo o sentido. Nunca tive muita certeza da razão. Certo, a profissionalização dos blogs, sua transformação quase em “jornais alternativos”, ajudou. Mas no fundo não sei, de verdade, se é porque as pessoas já não os leem ou porque seus autores não escrevem mais; o fato é que Facebook e Twitter ocuparam esse espaço, e mudaram a forma como a gente se expressa. Não é à toa que todos os atuais leitores do blog o acompanham praticamente desde o início. Esse é o maior elogio que eu poderia receber, mas é também indício que não há novos leitores para esta bodega. O ambiente que criou os blogs acabou, e não volta mais.

Mas ainda acho que blogs foram a melhor rede social que a internet já inventou. O volume de gente talentosa que soube da existência uns dos outros é enorme, e não vai mais se repetir. Era isso que fazia daquele mundo algo que, até hoje, acho sensacional: os diálogos que se estabeleciam, de maneira mais elaborada e instigante que um postzinho no Facebook e comentários rápidos.

O Facebook, e depois o WhatsApp e Instagram, destruíram o que o Hermenauta chamava de blogoseira. A ideia de textos mais densos em ambientes abertos, a que todo mundo poderia chegar por acaso, deu lugar a ambientes controlados, “plataformas”, perfis de Facebook apenas para amigos, newsletters para assinantes. Acabamos dando preferência a lugares onde os leitores são cativos, onde os textos são menores, onde a pressa da informação ou a mera autoexposição são atendidas instantaneamente. Nos conformamos com nichos pré-determinados. Para todo mundo, é mais fácil escrever no Facebook que num blog, que demandava mais tempo, mais pensar. Mas isso colocou as pessoas em guetos particulares minimamente conectados — quase o oposto daquilo que os blogs representavam em seu auge, na segunda metade dos anos 2000. O melhor dos blogs, o diálogo e as conversações que ele possibilitava, desapareceu. Não é à toa esse diálogo de surdos em que se transformou o debate público, das gentes comuns. Cada um falando para sua própria plateia, pregando para convertidos porque não é, no fundo, o debate que importa; e nessas horas eu tenho saudade dos xingamentos que eu recebia.

O mundo, ou ao menos a franja de mundo em que eu me situava, está mais tribal, mais puritano, medíocre. As pessoas têm medo de rir do que os outros definem como impróprio. Algo que acho inadmissível — a ideia de ofensa pessoal a grupos — se tornou a norma. A ideia estúpida de que a vítima tem sempre razão, quando associada à noção de que vítima é todo aquele que se declara como tal, embota a sociedade. Ou seja, ficou feio dizer: “Eu não quis te ofender, sequer sei da sua existência. Se você se ofendeu com o que eu penso, foda-se”.

Para mim, isso é um problema. Eu perdi a conta das pessoas a quem este blog ofendeu. Principalmente goianos, neopolitanos, astrólogos de Maria e garotos de pinto pequeno.

No fim das contas, o que realmente importa neste blog é que eu ri muito. São mais de dois mil posts, dos quais uns 100 são muito bons. E por isso, 20 anos depois, sempre que alguém me pergunta por que não escrevo um livro, a pergunta me soa sem sentido.

Eu já escrevi.

Hunter Davies

Anos lá atrás publiquei o que chamei de edição definitiva de uma pequena bibliografia dos Beatles.

Mas de umas semanas para cá, ela está me incomodando.

Olhando agora, é uma boa lista. Ou melhor, seria, se eu não tivesse cometido um erro crasso: deixei de incluir “The Beatles”, de Hunter Davies. Na verdade, até incluí, mas o coloquei num saldão final com vários outros, dizendo a seguinte barbaridade:

“The Beatles”, de Hunter Davies, foi a primeira biografia de verdade da banda, definiu a sua história oficial e foi a mais completa até o lançamento de Shout!. Mas não apenas é extremamente sanitizada como chega a insistir em mentiras deslavadas, como as verdadeiras razões pelas quais Lennon espancou Bob Wooler na festa de 21 anos de McCartney; seu valor é meramente histórico.

É uma das maiores besteiras que já escrevi sobre os Beatles neste blog, e por ela eu peço perdão e rasgo minhas vestes e me cubro de cinzas e choro com as mãos na cabeça como uma velha palestina. Enquanto isso, tento entender como cheguei a esse ponto de estupidez.

“The Beatles” foi o segundo livro sobre a banda que li, depois do de Geoffrey Stokes, livro bobo pelo qual, ainda hoje, tenho um carinho imenso — porque ainda lembro do garoto de 15 anos carregando extasiado um livro envolto em papel celofane vermelho, como era o costume da Civilização Brasileira, da rua do Tesouro até Nazaré, e de como ele leu e releu e releu e investigou cada foto de maneira quase obsessiva.

Alguns anos depois veio parar nas minhas mãos o livro de Davies, em sua primeira edição brasileira de 1968, num exemplar já sem capa. Li rápido porque era livro emprestado.

Com o passar dos anos vieram novos livros e matérias e entrevistas e filmes e textos na internet, e o volume de informações aumentava e se cristalizava, e minha visão em retrospecto sobre a obra de Davies foi ficando cada vez mais negativa, mais ou menos como aquele novo-rico que se obriga a gostar de coq au vin e passa a desprezar o pirão de galinha bem-feito que o fez crescer forte, sadio e feliz.

Foi essa a impressão que se cristalizou: era dispensável diante de tudo o que veio depois, porque estes continham as informações do livro de Davies e ainda traziam coisa nova. Além disso era uma biografia autorizada, bastante editada e censurada, repleta de mentiras e conveniência. Por alguma razão, suas falhas foram criando vida própria na minha cabeça, e pelo visto se descolaram da realidade.

O livro teve duas novas edições. A de 1985 acrescentava um pós-escrito que incluía um desabafo de McCartney feito num telefonema ao autor em 1981, onde ele reclamava de acusações de Yoko Ono e dizia que Lennon podia ser um “porco manipulador”. Essa reedição ganhou as manchetes naquele ano.

Em 2009 saiu outra edição, com uma nova introdução e um apêndice sobre os personagens do livro que já tinha morrido.

Foi pouco depois disso que finalmente comprei o meu exemplar, mais para completar minha biblioteca do que para reler o livro. Li rapidamente a nova introdução e o pós-escrito, e o deixei na estante onde permaneceu intocado até há pouco tempo.

Aí, dia desses, resolvi passar os olhos pelo livro, e algumas coisas que vi contradiziam a minha impressão sobre o livro, e agora não tinha mais jeito: eu tinha que relê-lo.

Pois é. Bem que dizem que cabeça vazia é escritório do diabo, e isso era algo que eu não devia ter feito, porque agora estou aqui, envergonhado, com raiva de mim mesmo, me sentindo um picareta por ter escrito essa vergonha sobre o livro.

É verdade, é uma biografia autorizada e partes dela foram realmente censuradas por algumas pessoas, principalmente a tia que criou Lennon, Mimi Smith. Além disso, o próprio autor teve o cuidado de não exagerar nas partes picantes, para não ofender as esposas e parentes. Ele nunca diz que Brian Epstein era gay e masoquista, embora deixe pistas suficientes para que se perceba isso; e as partes mais picantes sobre a temporada em Hamburgo são deixadas de fora, já que todos eles eram casados ou noivos na época.

O problema é que nada disso, em nenhum momento, compromete o livro. E relendo o danado agora, mais de 30 anos depois, me pego tentando entender como cheguei ao veredito que dei a ele nos últimos anos.

Porque “The Beatles”, escrito por Hunter Davies, é um livro fundamental para a compreensão do fenômeno. Ao contrário do que passei a achar, é bastante honesto. Só não entra sempre em detalhes — e sim, ele diz claramente por que Lennon espancou Wooler: “Ele me chamou de bicha”, embora não explique que foi por causa da viagem que Lennon e Epstein fizeram à Espanha enquanto uma Cynthia Lennon recém-parida cuidava do filho, o que ele menciona pouco antes Não faltam, por exemplo, as referências necessárias ao consumo de drogas. Há algumas omissões, claro, pequenos erros aqui e ali, e o livro não pretende fazer alguma análise da música, ainda que mínima. Mas o que realmente importa está presente, e o livro mostra seres humanos falhos, inquietos, em um momento em que tinham chegado ao auge de suas carreiras e se sentiam perdidos e sem saber o que fazer da vida.

De qualquer forma, não é isso que faz do livro uma obra basilar.

A questão é que The Beatles tem algo que nenhuma outra biografia tem, nem jamais poderá ter: é a única construída a partir de depoimentos em primeira pessoa de John, Paul, George e Ringo, de seus pais e colegas, por alguém que conviveu com a banda e seu entorno durante mais de um ano. Davies frequentou suas casas, esclareceu fatos diretamente com eles. Isso jamais vai ser repetido novamente, e já devia bastar para que “The Beatles” seja sempre incluído em qualquer lista de melhores livros sobre a banda, o primeiro de todos — e na verdade sempre basta, porque essa minha lista é a única, que eu saiba, idiota o bastante para não incluí-lo.

Sua importância é tão maior do que eu percebia que uma insuficiência sua definiu a estrutura de todos os livros que se seguiram. Escrito no período do Sgt. Pepper’s, ele não alcançou a crise do “Álbum Branco”, a Apple, não viu as consequências da morte de Epstein e a entrada de Yoko se fazendo sentir e ajudando a levar à dissolução da banda. Por isso o livro se estende e muito sobre seus anos iniciais. Essa estrutura e alocação de tempo estabeleceram o padrão obedecido por todas as biografias que se seguiram: biografia de Lennon até formar os Quarrymen, biografia de McCartney, biografias de cada membro narradas a partir do momento em que se encontram, e maior parte do livro contando o início e a ascensão da banda. É como se todos os autores posteriores se baseassem no livro de Davies, e escrevessem profusamente sobre o período entre 1956 e 1966; e ao se deparar com o que ele não cobriu — os anos finais da banda — se tornam mais resumidos, concisos, mais ou menos como os produtores da série Game of Thrones meteram os pés pelas mãos ao terem que se virar sem os livros de Goerge R. R. Martin.

E aí fico com esse pepino na mão. Por que diabos coloquei o “edição definitiva” no título daquele post? Como posso corrigir esse erro vexaminoso sem que pareça a 217ª turnê de despedida de algum artista caquerado que busca descolar uns trocados antes o que o Alzheimer o consuma totalmente, como Elton John ou The Who?

Então resolvi apelar para a safadeza. Meti a mão no post e simplesmente editei, apaguei aquela referência vergonhosa, coloquei o livro no seu devido lugar. Ninguém vai notar mesmo. E eu vou me sentir menos envergonhado. Não, eu jamais negaria a esse livro o seu devido lugar na história, nunca fiz isso, basta você olhar lá na minha “Pequena Bibliografia dos Beatles — Edição Definitiva”.

Histórias da Gente Brasileira

Andei lendo os dois primeiros volumes de “Histórias da Gente Brasileira”, de Mary del Priore, que tratam da vida cotidiana durante os períodos colonial e imperial. Não me animei a ler os seguintes.

Noves fora, a série parece ser pouco mais que um bom resumo do que já se escreveu sobre a vida privada no Brasil, feito com critério e sensibilidade. A obra e a visão de Gilberto Freyre, dono do que é provavelmente a mais importante bibliografia nesse campo, se destacam entre o cipoal de historiadores, viajantes e escritores, e isso não é ruim — é sempre bom ver o velho reacionário de Apipucos reconhecido num tempo em que se tornou a regra colocar a expressão “democracia racial” em sua boca.

Mas o livro não se anima a fazer disso um trampolim, o início de uma reflexão nova, e esse me parece ser o seu grande problema.

O zeitgeist moderno, como é natural, influencia essa narrativa ao mesmo tempo nova e velha. Por exemplo, ao falar da preferência estética por dedos finos e alvos, por pés pequenos e delicados, Del Priore a define como um aspecto da diferenciação necessária dos pés largos e chatos das negras, implicitamente estabelecendo o racismo como base dessa preferência estética. Isso é verdadeiro, mas não é toda a verdade. Na França do mesmo período osso finos eram valorizados em comparação não com negras exploradas, mas com as camponesas louras de dedos grossos e pele vermelha de sol (e também porque indicariam orifícios estreitos, mas essa é outra conversa que não fica bem em um blog de boa família como este). O que é essencialmente uma questão de classe eventualmente enriquecida pelo racismo é mostrado como apenas uma questão racial, negando, aqui também, a complexidade das relações e valores da sociedade. É o tributo que Del Priore paga ao seu tempo.

Mais incômoda é a constatação de que há poucas ideias novas em “Histórias da Gente Brasileira”. Del Priore essencialmente repete as convenções históricas de seu tempo quando poderia tentar se aventurar sobre o que está por baixo delas, ou tirar conclusões a partir de informações conflitantes. Provavelmente é a isso que o livro se propõe: é cheio de ilustrações que atrapalham a leitura mas devem servir de chamarizes para leitores mais jovens ou menos desasnados. Mesmo dentro desse escopo, no entanto, há defeitos que saltam aos olhos.

O segundo volume, especialmente, realça esses problemas, menos aparentes no que trata sobre a história colonial. Nas páginas sobre sexualidade, especialmente no período imperial, lemos sobre esposas que rezam uma Ave Maria antes de abrir resignadamente as pernas para seus maridos, moçoilas que namoram apenas com olhares e beliscões lusitanos na saída da missa. Diante de narrativa tão rígida, que fazer com as tantas histórias que sabemos que existiram? Dos casamentos apressados em corrida contra a barriga cada vez mais protuberante, das moças mandadas para a corte ou outra província prenunciando a adoção de um primo distante recém-nascido, das pessoas que descobrem um dia serem filhos daquelas que achavam serem suas irmãs?

Não que seja fácil para historiadores abordar essas questões. Escândalos familiares, a vergonha de ter um filho “fresco”, como diziam, são quase sempre devidamente sepultados pelas famílias, não constam em inventários nem testamentos, se tornam segredos de polichinelo que o tempo geralmente se encarrega de esquecer, mais rápido do que esquece de todo o resto. Mas lembrar que a história não é linear e o passado raramente é totalmente passado, reconhecer que a vida íntima do brasileiro tem uma riqueza que extrapola narrativas oficiais e compartimentos temporas, e que nem toda história é registrada, seria um bom ponto de partida para investigar e jogar luzes novas sobre nossa história.

É impossível não lembrar de um dos tantos temas em “A Experiência Burguesa: da Rainha Vitória a Freud”, obra estupenda de Peter Gay, infelizmente fora de catálogo no Brasil e vendida a preços extorsivos nos sebos. Freudiano, Gay lembrava que por baixo do puritanismo e repressão vitorianos as carnes continuavam fervendo, porque da saliência ninguém aguenta abrir mão por muito tempo. Foi assim que Gay conseguiu desvelar uma realidade muito mais rica e mais complexa no período vitoriano e oferecer uma visão renovadora sobre a arte e o comportamento daquele tempo, questionando alguns dos mitos mais persistentes. É o que faz falta aqui.

Assim, é curioso que Del Priore acabe negando à mulher do Brasil imperial o exercício do prazer e do desejo, apesar de em várias partes se referir aos raptos, às fugas no meio da noite, em trechos que parecem tirados de “Sobrados e Mocambos”. É possível supor que a sexualidade, mesmo quando obedecia às regras morais da época, era muitas vezes mais saudável do que a pudicícia historiográfica faz crer. Infelizmente, nos faltam diários e relatos que atestem essa ideia, porque antes das redes sociais e dos reality shows era feio ou ao menos vulgar falar ou registrar os abandonos e desvarios de amor, luxúria e perdição que as paredes caiadas ostentando um Sagrado Coração tanto viram no país d’outrora. É aí que deveria entrar a autora, contextualizando tudo, fazendo as conexões necessárias, até levantando hipóteses. “Histórias da Gente Brasileira” se ressente dessa ausência. Falta lembrar que sim, mulheres gozavam no período imperial.

Além disso, a julgar pelo livro, homossexuais não são gente, pelo menos não gente brasileira. E embora haja alguns livros que tratam do assunto, como o já clássico “Devassos no Paraíso”, o tema não é tratado de maneira clara pela Del Priore. O capítulo destinado a eles tem pouco mais de duas páginas, e mesmo assim se concentra em uns poucos casos pitorescos, que estão muito longe de apresentar um panorama real do seu tempo — o marinheiro que mata o companheiro apaixonado por uma ex-prostituta daria ao menos uma boa fotonovela italiana, mas não é o suficiente para nos fazer entender como se davam as relações interpessoais e com a sociedade. Aqueles que nasceram antes dos anos 80 podem intuir uma parte disso, a partir da observação e extrapolação da sociedade até aqueles tempos, da compreensão de seus preconceitos e subterfúgios encontrados para driblá-los; mas aqueles que nascem agora, em um período de tolerância crescente e inserção social, em algumas décadas não terão mais critérios de julgamento. É claro que é outro daqueles temas difíceis, pela escassez de fontes confiáveis; mas justamente por isso mereceria um esforço maior.

Há outras questões que a leitura suscita. Numa obra que tem o título geral de “Histórias da Gente Brasileira”, é curioso que se dê tão pouca atenção e destaque às diferenças culturais abissais que marcam a geografia do país. Não existe um Brasil único em termos de costumes, nunca existiu. A sociedade das Minas Geraes do século XVIII não era igual à da Vila de Piratininga da mesma época, e bem diferente do que se via às margens do rio Guamá. O Rio de Janeiro de 1850, em seu esplendor imperial, já tinha costumes e perspectivas diversas da Salvador decadente de então. Corte e províncias, capitais e interiores sempre andaram em passos muito distintos, diferença que só há poucas décadas, depois das antenas parabólicas e principalmente da internet, começou a diminuir de maneira significativa e irreversível.

Apesar disso, esta é uma narrativa eminentemente sudestina. O Nordeste está bem presente, graças à importância basilar da obra de Gilberto Freyre na gênese deste livro, mas tem-se a impressão de que o Sul, por exemplo, não faz parte do Brasil. E isso acaba, talvez, dando uma impressão de uniformidade que nunca existiu, e que gente como Evaldo Cabral de Mello costuma deplorar.

Também chama a atenção um dos problemas que parecem afligir a historiografia brasileira desde sempre: a dependência às vezes excessiva dos brasilianistas e seus relatos de viagem, Maria Graham, Saint-Hilaire, uns tantos outros. Talvez não dê para ser diferente, porque esses relatos são às vezes os únicos a cobrir lacunas incontornáveis em um país de gente atavicamente iletrada, que mesmo hoje não costuma registrar o seu cotidiano. Além disso, são indispensáveis porque ao estrangeiro saltam aos olhos aspectos da vida cotidiana que os patrícios muitas vezes não conseguem mais enxergar.

O detalhe é que esses relatos devem ser lidos sempre com certa reserva; Gilberto Freyre dizia que os franceses, especialmente, costumavam ser uns mentirosos safados e sem-vergonha. Mas, principalmente, é preciso lembrar que nenhum olhar é desprovido de preconceitos e de subjetividade. No primeiro volume, sobre o Brasil colonial, isso está bem claro, e Del Priore acerta ao registrar opiniões diferentes: a casa-grande de pau-a-pique, que a um viajante parece apenas primitiva e pobre, a outro pode parecer engenhosa e uma solução ambiental adequada. Comportamentos podem ser julgados de maneiras diferentes, aspectos importantes para uns podem não ser dignos de nota para outros.

Mais que isso: mesmo cumprindo papel importante, nem sempre eles são tão necessários assim. Por exemplo, em determinado momento Del Priore recorre a uma viajante francesa para uma descrição muito sucinta de como aconteciam os casamentos. Talvez essa descrição não fosse tão necessária assim. Era só lembrar da “História da Baratinha”, adaptada por João de Barro em disquinhos infantis coloridos e presente em milhares de lares brasileiros a partir dos anos 1960:

E logo chegou a hora marcada para o casamento.
Numa linda carruagem, forrada de azul turquesa,
Lá se foi a baratinha — era mesmo uma beleza.
Ao seu lado, repimpado, parecendo um general,
Ia garboso o padrinho, o papagaio real.
Mais atrás, em grande fila, e sem carros enfeitados,
Vinham parentes, amigos, e o resto dos convidados.
Só não vinha no cortejo o dr. João Ratão;
Porque como era costume, em tempos que já lá vão,
O noivo e sua madrinha deveriam esperar
A noiva e seu padrinho desde cedo, ao pé do altar.

Às vezes, as conclusões a que Del Priore chega parecem mudar ao longo do livro de acordo com o autor citado. Fica a impressão de que falta uma visão unificadora e mais crítica — ou seja, a intervenção da historiadora. Por exemplo, ao falar do papel do pai na sociedade imperial, Del Priore cita Capistrano de Abreu: “pais soturnos, mulher submissa, filho aterrado”. Mas apenas algumas páginas antes ela citou um certo James Wells, que descreveu crianças mal-educadas e petulantes tratadas com complacência excessiva pelos pais, e uma opinião de Maria Graham muito parecida. Afinal de contas, como eram as relações entre pais e filhos? Se ambos são verdadeiros — e certamente são —, por que não trabalhar a partir da compreensão mais abrangente dessa diversidade e tentar interpretar de maneira mais completa e rica esses aspectos da história, e de como essa diversidade de relações forjou a sociedade em que vivemos? Não é a exposição ou omissão de fatos que nos faz entender a história: é a compreensão do seu conjunto.

Esse é o grande problema desta obra, que obviamente recorre a pouquíssimas fontes primárias: falta a interpretação e criação de um novo conceito a partir do apanhado de informações coletadas no livro, a interferência da historiadora, o cotejamento com a evolução dos tempos e com outros aspectos da vida cotidiana.

É um problema comum em obras de história. Em “SPQR”, um bom livro de Mary Beard sobre Roma, em vários momentos se tem a impressão de que, se ela conhecesse um pouco mais do cotidiano da política como é feita hoje, de suas entranhas e complexidades, poderia lançar um pouco mais de luz sobre o processo que levou à conspiração que matou Júlio César e à queda da República. Às vezes tem-se sensação semelhante aqui.

Isso não é uma condenação do livro. Pelo contrário. “Histórias da Gente Brasileira” é excelente para quem tem expectativas um pouco menores — ou melhor, para quem, diante do que o livro apresenta, não espera um passo adiante. Traz uma excelente curadoria de informações, com boas escolhas de suas fontes. É abrangente, sensível, em muitos momentos apresenta bons insights. Ninguém perde seu tempo lendo este livro.

Mas às vezes tem-se a impressão de que falta deixar claro, para os leitores, que o passado nunca é totalmente passado. E as mudanças nunca obliteram tudo aquilo que sucedem e superam. É por faltar essa compreensão de maneira mais clara que o livro resulta em uma leitura confiável, mas insuficiente. Confirma o que já sabíamos, no máximo adicionando alguns detalhes. Mas não muda nada, não acrescenta nada. E no fim das contas, chama a atenção exatamente para o que não diz.

Os Anos Dourados

Nunca fui noveleiro.

Ao contrário, na infância cheguei a odiar novelas, porque impediam que eu assistisse aos seriados e desenhos que passavam na TV Tupi e que me interessavam muito mais — as novelas da Tupi, por sua vez, nunca foram vistas lá em casa. Mais tarde, aprendi a tolerá-las e até gostar de algumas, mas raramente assistindo regularmente a elas.

Com a idade, no entanto, passei a respeitá-las um pouco mais. E reconheço sua importância na minha própria história: novelas sempre serviram como referenciais cronológicos, porque em tempo de dois canais de TV não havia jeito de não ser exposto de alguma forma a elas, e por isso eu sabia a ordem da maior parte das que foram exibidas entre a virada dos anos 70 e 80, e ao menos alguma parte de uma trama. Querendo ou não, novelas tiveram algum nível de influência na percepção e vida de todos os brasileiros.

Mas houve exceções nesse desdém: não exatamente novelas, mas as minisséries que a Globo exibiu aí pela metade dos anos 80. De certa forma, a emissora do Boni prenunciou um novo tempo na TV que só agora se tornou corriqueiro. Algumas dessas minisséries foram antológicas, como “Grande Sertão: Veredas”, “O Tempo e o Vento”, “Memórias de um Gigolô”. Assisti a elas, gostei de todas.

Nenhuma, entretanto, foi tão boa quanto “Anos Dourados”. Assisti na época porque falava dos anos 50 e o rock daquela década era talvez o que eu mais ouvia então.

Por muito tempo achei que os anos 80 assistiram a um revival dos 50, mas a verdade é que aquela década sempre esteve presente: da retomada do rock básico pós-psicodelismo em 1968 (do qual o “Álbum Branco”, dos Beatles, é filho dileto e não inventor, como querem tantos beatlemaníacos), aos filmes American Graffiti, Lords of Flatbush ou Grease ao longo dos anos 70, ou o seriado Happy Days, os anos 50 permearam a cultura das décadas seguintes porque, no fim das contas, foi quando tudo começou, quando a adolescência passou a definir os padrões culturais de massa. Isso era mais intenso nos Estados Unidos, mas mesmo no Brasil a nostalgia de tempos leves, promissores, em que avançávamos 50 anos em cinco e todo mundo podia sair da fome no sertão para a fome nas cidades, nunca deixou de permear o imaginário: “Estúpido Cupido”, novela de 1976, é prova disso.

Assisti a “Anos Dourados” novamente quando o Viva reprisou a série, em 2011, 25 anos depois. Agora assisto novamente, no Globoplay, e estou impressionado.

“Anos Dourados” é a obra-prima de Gilberto Braga. A maneira como entremeia o nascimento e os percalços de um primeiro amor pueril e puro com outro, ilegítimo, adulto, contextualizando-os brilhantemente em um tempo de preconceitos rampantes, é obra de um excelente escritor, não importa o meio em que escreve.

O texto é primoroso, os diálogos excelentes em seu naturalismo. Roberto Talma não era um Walter Avancini, mas sua direção é de uma sensibilidade enorme, sempre no tom certo da cena. Cenografia e figurino perfeitos, de um bom gosto e simplicidade que chegam a impressionar, e que ilustram bem o que era o tal “padrão Globo de qualidade”. A música de Tom Jobim é de beleza única, e a narração do Paulo César Pereio, abrindo cada capítulo com um resumo do capítulo anterior, é sempre fascinante.

A recriação da Tijuca dos anos 50, seus códigos sociais, seus preconceitos, o contexto político em que seus personagens estavam inseridos, referências que se perderam no tempo — quem ainda lembra de Mira y López? Ou do que significava dar uma foto ao seu namorado, com dedicatória formal que escondia a intensidade do que se sentia? Ou ainda —, tudo isso é feito de maneira doce, verdadeira, que torna “Anos Dourados” uma obra permanente e sempre interessante.

Há tantos e tantos filmes clássicos por aí que falam do nascimento do amor, da emoção de ser adolescente e estar vivo e descobrindo o mundo — ou do amor proibido, sofrido, até sórdido. E enquanto eles eram louvados, a produção teledramatúrgica brasileira era desprezada. Mas a delicadeza com que Braga fala do ciclo da vida em uma Tijuca dos anos 50, inserindo-o de maneira perfeita em seu contexto social e político, não deixa absolutamente nada a dever a muita coisa boa no cinema. “Anos Dourados” serve para lembrar que a teledramaturgia brasileira era infinitamente melhor que o nosso cinema.

E então a gente se pergunta o que aconteceu.

É claro que a decadência da audiência da TV aberta se deve prioritariamente a outros fatores. Mas assistindo a “Anos Dourados”, percebendo os detalhes que passaram batido quase 40 anos atrás, me pergunto se a mediocrização das novelas atuais não é um fator relevante a ser considerado.

Não posso falar muito porque não assisto a a mais que alguns minutos delas, de vez em quando, e há décadas não assisto sequer a TV aberta além do Jornal Hoje durante o almoço. Mas ainda assim me parece desagradável assistir a uma novela hoje. Cenas longas demais, diálogos que às vezes parecem estar enchendo linguiça ao mesmo tempo em que são desnecessariamente complexos, verborrágicos, um tom escuro demais nas imagens que macaqueiam porcamente a estética de seriados americanos, falta de imaginação em movimentos de câmera e enquadramentos. O que as novelas brasileiras tinham de singular e em comunhão com seu público parece ter se esvaído em um caldo de globalização e tecnologia no lugar de criatividade.

E talvez o maior sinal disso seja o alerta que agora é exibido antes de cada capítulo: “Esta obra reproduz comportamentos e costumes da época em que foi realizada”.

Que me perdoem os bem-intencionados cheios de certeza moral que pululam como girinos na internet: essa é a maior confissão de rendição à estupidez humana. Lembra aquelas advertências bizarras em produtos americanos, tipo “tire a criança do carrinho antes de dobrar” ou “não segure a motosserra pelo lado errado”. É como se tivéssemos perdido completamente a capacidade de algum pensamento crítico, de contextualizar a história. E diante disso, é difícil não imaginar que estamos ficando mais imbecis. Ou que os anos dourados, definitivamente, passaram.

Ford F-1000

De vez em quando assisto a esse filmete. É de 1979, e lançou a Ford F-1000. Dura pouco mais de 16 minutos e é, essencialmente, um road movie, contando uma história com começo, meio e fim.

Não sei nada sobre ele. Redator, diretor, o ator com cara de Belchior. Não sei sequer qual a agência que o criou, embora isso não seja difícil de achar. O filme tem jeito de ser uma peça criada para convenções da Ford ou apresentações a concessionárias e jornalistas especializados. Não sei. Sei apenas que adoro esse filme, a maneira como conta sua história, a adequação ao seu público-alvo, a inteligência com que ressalta os grandes argumentos de venda da caminhonete.

Sei também que ele é uma grande oportunidade perdida.

Fico imaginando que, com um pouco de ousadia e criatividade, ele se transformaria em um marco. Bastava exibi-lo uma vez nas duas principais redes de TV, a Globo e a Tupi. Ao mesmo tempo, no Fantástico e no Programa Sílvio Santos, criando um evento único, que seria comentado por semanas pelo público, e lembrado até hoje pelos publicitários, como o primeiro sutiã ou o orelhão da Telesp ou o Barate-o-tó da Unimar.

E então ele seria um filme revolucionário. Não apenas em termos de planejamento de mídia, mas mesmo de criação, antecipando em 30 anos toda essa bobajada de storytelling e outras palavras gringas que não consigo aprender.

Mas não foi, porque cada tempo tem o seu modo de fazer as coisas, um barbudinho alemão explicava há uns 150 anos. Pena.

Pela nacionalização da Seleção Brasileira

Anteontem a Seleção Brasileira conseguiu o feito monumental de levar apenas um gol desse potentado do futebol mundial que é a Guiné. Ontem combinou de esperar um ano por Ancelotti, dando mais uma mostra de quão pequena se tornou.

Já faz muito tempo que o Brasil é apenas uma seleção mediana, que em Copas do Mundo consegue passar por times pequenos nas fases eliminatórias para cair nas quartas-de-final, quando finalmente enfrenta a elite do futebol. Em 2026 completará 24 anos sem ganhar uma Copa, o mesmo período que passou entre 1970 e 1994. A diferença é que, enquanto naqueles tempos ela poderia ter sido campeã em 1978 (e o Coutinho morreu dizendo que tinha sido) e encantou o mundo em 1982, agora é só uma seleção que sofre para passar as oitavas. Como tantas e tantas outras mundo afora, agora alegando que “não existe mais bobo no futebol”.

A Seleção Brasileira vive, já há muito tempo de sua história, do peso de sua camisa e do talento de um ou outro craque com lampejos de qualidade em uma seleção medíocre e sem identidade.

Se os cinco jogos da última Copa não são suficientes para admitir essa obviedade, uma lista dos times que o Brasil conseguiu vencer em Copas dos últimos 20 anos deve ajudar: Croácia (pré-Modric), Austrália, Japão, Gana, Coreia do Norte, Costa do Marfim, Chile, Camarões, Colômbia, Costa Rica, Sérvia, México, Suíça e Coreia do Sul.

Por isso defendo a total nacionalização do futebol. Minha tese é muito simples, baseada em dois pilares.

O primeiro é a reestruturação dos campeonatos estaduais e regionais, algo com que quase todo mundo concorda.

O segundo é fechar a Seleção para os jogadores que jogam fora do país, e quem me ouve falar isso diz que é absurdo. Que precisamos aceitar que nos tornamos exportadores de commodities futebolísticas e não podemos abrir mão de gênios como Neymar, Vinícius Jr., etc. Eu só pergunto por quê: mesmo com eles, não ganhamos de ninguém, mesmo, e já há muito tempo. A verdade é que, no pior dos cenários, temos jogares no Brasil bons o suficiente para cair apenas nas quartas de final, como temos feito com os Neymar ou Vinícius Jr. da vida. Não é difícil montar no Brasil um time que consiga ganhar de Camarões.

Mas a nacionalização poderia resgatar a ligação com a torcida e talvez até mesmo criar uma seleção de verdade, em vez dessas coisas medíocres e amorfas que disputam amistosos com Senegal.

Cada vez menos gente liga para a Seleção hoje em dia. E desconfio que não seja apenas porque ela não ganha e não empolga. A Seleção Brasileira é cada vez mais um negócio que só importa, mesmo, para dirigentes, jogadores e para o negócio da propaganda. Por que razão alguém vai torcer por um troço em que um monte de milionários cuida apenas de sua própria vida é algo difícil de explicar.

Nem sempre foi assim. E não custa passear um pouco pela história recente.

Até o início dos anos 80, o maior sonho de qualquer jogador brasileiro era jogar na seleção. Depois, com o início do êxodo de jogadores brasileiros para a Itália, aos poucos a Seleção passou a ser um grande trampolim, o passaporte para a Europa e a garantia do pé de meia. O maior exemplo disso foi a convocação de um tal Paulo Sérgio para a Copa de 94, jogador ínfimo mas com passe controlado por um dos cartolas da CBF, que o exibiu por alguns minutos para poder vendê-lo mais caro.

Mas agora a própria Seleção passou a ser desnecessária. Mais e mais jogadores saem hoje do Brasil ainda na pré-adolescência, às vezes até se naturalizando. Por outro lado, a geografia do futebol mundial mudou, e muito.

Se a gente voltar no tempo até os anos 90, vai lembrar que um bocado de gente boa apregoava então que o futebol africano iria explodir nas próximas décadas. Isso não aconteceu. Se em vez de ficar repetindo os argumentos de venda da FIFA, empenhada em expandir o negócio do futebol, eles olhassem para a história da África, talvez pudessem antever o que aconteceu: imigrantes africanos e seus filhos revitalizaram as seleções europeias. Compare a Bélgica de 1986, mais branca que o paraíso da novela “A Viagem”, com a que mostrou aos brasileiros em 2018 como é que se ganha um jogo de futebol. Ser metrópole tem suas vantagens. Como resultado, o futebol europeu repetiu, de certa forma, a combinação que fez o futebol brasileiro: ficou mais solto, fisicamente superior e manteve a aplicação e a evolução táticas que sempre foram sua marca.

Isso ajudou a igualar o futebol europeu ao brasileiro, e em seu devido tempo o fez estruturalmente superior. O resultado é isso que vemos hoje, e que vai muito além do 7×1. Cada vez mais subjugada aos interesses da FIFA e da UEFA , e principalmente à corrupção endêmica de seus dirigentes, a Seleção Brasileira defende uns trocados se pendurando no mapa atrás de jogos com seleções que não jogariam a série B do Campeonato Brasileiro, jogadores que não têm nela seu principal foco.

Por isso acho que a melhor coisa que o Brasil poderia fazer seria reformular a seleção brasileira apenas com jogadores que disputam os campeonatos brasileiros.

Historicamente, as seleções brasileiras tinham como base os melhores times de seu tempo. Durante muito tempo foram Santos e Botafogo; em 1982, Flamengo e Atlético, com uns contrabandos do São Paulo porque Telê gostava da prataria de sua casa. Eram jogadores que se conheciam porque jogavam juntos ou se enfrentavam com regularidade. Era mais fácil formar um time coeso.

Uma seleção nacionalizada traria os benefícios de voltar a engajar os torcedores, porque uma seleção que não tem um jogador do meu time é uma coisa; outra é aquela em que o craque é alguém que faz a alegria do meu time, ou mesmo aquele que respeito pelas sacanagens que faz com ele: até hoje não entendo como é que Telê Santana deixou Roberto Dinamite no banco e apostou na desgraça chamada Serginho Chulapa, em 82.

Mas ainda mais importante, a nacionalização poderia devolver ao futebol brasileiro um estilo. Ganharíamos a vantagem do entrosamento, de poder treinar por mais tempo — de criar um time de verdade.

Reformular o a organização do futebol brasileiro também ajudaria muito.

Há tempos vejo comentaristas clamando pelo fim dos estaduais. É uma idiotice. Eles pensam em termos de grandes centros e grandes clubes, que têm uma agenda nacional e internacional que garante que joguem durante todo o ano. Para eles, os campeonatos estaduais apenas atrapalham.

Esse povo do Rio e de São Paulo simplesmente não conhece o país, que tem quase 800 times profissionais. O Brasil que eles desconhecem é feito por dezenas, centenas de times que sem os campeonatos estaduais simplesmente desapareceriam, e que mesmo assim jogam apenas três ou quatro meses por ano.

Imagine o que não se perde com isso. O número de talentos que deixam de ser revelados todo ano, a impossibilidade de estruturação econômico, de times minimamente decentes. E, por último mas não menos importante, a alienação de grande parte da torcida, que se vê obrigada a procurar carinho e futebol em outros campos.

A criação de um sistema mais robusto de campeonatos locais e regionais que mantenha os times jogando a maior parte do ano movimentaria a economia esportiva, engajaria as torcidas locais, fortaleceria o futebol nacional de maneira orgânica e consequente. E a reconfiguração do calendário nacional, com a criação de campeonatos regionais que possibilitassem aos times estaduais de segunda linha jogarem por mais tempo, fortaleceria os times, recriaria a própria cultura futebolística nacional e garantiria a massa crítica necessária para elevar o nível básico do nosso futebol. Assim como a União Soviética ganhou a II Guerra, entre outras razões talvez mais importantes, porque podia perder mais soldados, o Brasil pode produzir mais craques do que o resto do pode absorver.

Mas nada disso, claro, vai acontecer. Ninguém pode abrir mão de um sistema que forma todo ano algumas dezenas de milionários e que movimenta um mercado cada mais imponente. E nisso, parafraseando o velho Carlos Alberto Parreira, o futebol é apenas um detalhe.