Igreja Rafaélica de Todos os Tostões

Eu tenho um sonho.

Não é um sonho onde as pessoas não sejam julgadas por sua cor, porque esses sonhos bonitinhos eu deixo para o Luther King.

Meu sonho é fundar uma igreja.

Ela já tem até nome. Igreja Rafaélica de Todos os Tostões. Tem também um slogan: “A salvação a preços módicos”.

E antes que as más línguas venham falar de eventuais semelhanças com a igreja do Bispo Macedo, vou avisando que não há nenhuma. Para começar, eu serei cardeal, o que demonstrará nossa superioridade em relação a essas igrejas mercenárias que pululam por aí. Cá para nós, “Cardeal Galvão” soa bem.

A obreiros e fiéis, a Igreja Rafaélica de Todos os Tostões oferecerá a salvação. Você nos dá o seu dinheiro — inclusive aquele que você guardou na meia, pão duro safado; pensou que podia esconder dinheiro do Pai? — e nós lhe damos a salvação. É justo. A salvação de sua alma pecadora vale mais que o dízimo. E se você não aprendeu a dar, como espera receber?

É asim: primeiro a gente mete a mão no seu bolso, depois te mete no Paraíso.

Os céticos, essa raça ímpia incapaz de ver a pureza e a verdade d’alma, podem alegar que Jesus oferece a salvação de graça. É. Pode ser. Mas na Igreja Rafaélica de Todos os Tostões você fala com o dono, cara a cara, olho no olho. Você quer falar com Jesus pessoalmente, quer? Pois é. Achei que não. A Igreja Rafaélica de Todos os Tostões oferece a salvação com certificado de garantia — e se você não a conseguir, pode voltar do Além e falar com o Cardeal Galvão que ele te dá o dinheiro de volta.

Mas nem só dos assuntos de Deus a Igreja Rafaélica de Todos os Tostões se ocupará. Porque somos evangélicos mas temos algo de católicos, e acreditamos que a obra do Senhor se realiza aqui, quando estendemos a mão aos nossos irmãos carentes e os ajudamos a seguir em frente com dignidade. As boas ações é que nos levam ao Paraíso.

A Igreja Rafaélica de Todos os Tostões se dedicará à santa obra de ajudar aqueles menos favorecidos pela Providência, aqueles a quem precisamos dar as mãos no esforço de criar um mundo mais solidário.

Nossa obra social começará por mim. Não venha alegar que é malandragem, porque não é. Como você espera que o Cardeal Galvão se dedique à evangelização se tem que se preocupar com coisas de somenos importância, como a sua sobrevivência com um padrão mínimo de dignidade?

A nossa obra social começará por mim porque eu ando carente.

Eu ando carente de um Jaguar, com motorista surdo-mudo.

Eu ando carente de um apartamento pequeno, coisa de 300 m2, no Faubourg Saint Germain. E de outro, ainda menor, na Via Vêneto.

Eu ando carente de um Lear Jet.

Eu ando carente de uma casa na Riviera Italiana (com vista panorâmica para o Mediterrâneo porque eu preciso de um ambiente bucólico para pensar em tão espinhosos assuntos teológicos; aquela que aparece em “A Condessa Descalça”, com sua praia particular, serve) e de um castelo no Vale do Loire, daqueles que já vêm com título de nobreza.

Cacete, eu ando carente de tantas coisas que só de pensar nelas dá vontade de chorar.

E é tão pouco.

Por isso a Igreja Rafaélica de Todos os Tostões. Porque precisamos estender as mãos uns aos outros. Precisamos de um mundo mais justo, e o Cardeal Galvão é o líder que vai nos levar em direção à Luz — e, graças às suas contribuições, agora sem que a Light a corte por falta de pagamento.

Originalmente publicado em 28 de fevereiro de 2004.

Poema muito do enjoadinho

Falando sério
eu não gosto
de poesia moderna
As pessoas parecem pensar
que basta dividir frases
ao meio
e esquecer a pontuação
para automaticamente
criar um poema.

Poesia é outra coisa.

Poesia não é divã
de analista
não é competição
de domínio do vernáculo
poesia não é
nada disso.

E certamente, meu amigo
poesia não é isto aqui
Isto é apenas prosa
fatiada para tentar
mostrar o engodo
que é a maior parte
da poesia moderna.

Originalmente publicado em 20 de fevereiro de 2004.

O pequeno burguês

Salvador, praia de Stella Maris, 1993. Manhã cedo, aí pelas seis horas. No bar de um amigo, eu procuro alguma coisa para comer depois de uma noite meio agitada, quando aparece um sujeito que eu nunca tinha visto.

“Waltinho tá aí”?

Tá dormindo, eu acho. Procure em uma das redes na praia.

A única coisa que se podia comer era xinxim de galinha, e eu não sou filho de Oxum para gostar daquilo. Ora yeye o!, Oxum, mas vou morrer achando que galinha não vai bem com dendê. Volto à cerveja. E a gente começa a conversar.

O sujeito, um neguinho de seus 40 e alguns anos, magro, vesgo, dentes que sobraram apodrecendo, veste apenas um short azul, e traz no corpo corroído pela cachaça as marcas de uma vida de trabalho braçal. Ele se diz chamar Wilson, mas se eu quiser posso chamá-lo de Zoinho, é assim que todo mundo o chama. É alcoólatra, é claro que é alcoólatra.

Zoinho conta histórias, enquanto derruba uma garrafa de vodca. E então me conta o seu grande momento na vida. Ele se diz autor de “Canudo de papel”. “Felicidade, passei no vestibular, mas a faculdade é particular”.

A primeira coisa em que penso é que aquele bêbado está inventando histórias; pagando a vodca que eu graciosamente ofereço como se fosse minha. Mas ele fala com tanta certeza, e tão sem revolta, como se a miséria em que vive fosse tão natural como compor um samba numa mesa de boteco, que eu passo a acreditar nele. A única glória que reclama é ser reconhecido com o autor do samba, só isso. É tão pouco. Para mim, Zoinho é o autor de “Canudo de Papel”.

Algumas doses depois ele vai embora. Eu nunca mais veria Zoinho.

O samba na verdade se chama “O Pequeno Burguês”, e a autoria oficial pertence a Martinho da Vila. Se Zoinho é mesmo seu autor, eu nunca vou saber. E algum dia até essa dúvida sumirá, assim como Zoinho sumiu um dia em Stella Maris.

Originalmente publicado em 13 de novembro de 2003.

A difícil vida fácil da Irlanda

A Irlanda é a atual presidente da União Européia.

E acabou de avisar que vai lançar uma proposta para banir o pagamento por sexo em toda a Europa.

Pois é. Como se não bastassem os tantos empregos e profissões desaparecendo diante da revolução tecnológica, ainda aparece um país querendo acabar com a prostituição.

As associações de prostitutas de toda a Europa deveriam se unir para acabar com esse absurdo. Aqui vão algumas sugestões.

1 – Consigam o apoio de cidades como Hamburgo e Amsterdam. Sem a prostituição o turismo em Amsterdam vai ficar restrito aos freqüentadores dos bares de haxixe e maconha. Hamburgo, nem isso.

2 – Invoquem o respeito à história universal. A Europa é o berço da civilização ocidental. E a prostituição é a profissão mais antiga do mundo. Combinam como pão e manteiga.

3 – Usem Maria Madalena como símbolo. Se Jesus a perdoou e talvez a tenha até amado, quem é a Irlanda para acabar com suas discípulas?

4 – Veiculem comerciais apocalípticos, racistas, o que for necessário. Por exemplo, mostrem um imigrante turco, de mãe judia e pai marroquino, negro, muçulmano, feio, pobre, desdentado e se possível em andrajos. Em off, o locutor avisa: “Sem putas, este homem vai comer a sua filha”.

5 – Lembrem à Irlanda que, durante a grande fome da década de 1840, as tataravós de muitos dos parlamentares faziam “pequenos serviços” do gênero para conseguir batatas e matar a fome.

6 – Apelem para seu senso de auto-preservação: se acabarem as putas, onde vão arranjar políticos?

7 – Utilizem a rede de organizações não-governamentais e distribuam camisas e adesivos num grande esforço de “buzz marketing”. Algumas sugestões: “Quer comer de graça, vá aos restaurantes do Garotinho”, “O que é bom custa caro”, “Mais barato que um divórcio”, “Sua mulher dá de graça. Vale a pena?”, “O mundo já tem manequins demais”.

8 – Mandem os irlandeses à puta que os pariu.

Originalmente publicado em 21 de janeiro de 2004.

A impressionantemente volumosa bunda redonda de Vanderlice

O nome dela era Vanderlice, tenho quase certeza. Era uma catarinense loura, olhos talvez azuis, seios balouçantes livres de importuno sutiã, uma impressionantemente volumosa bunda redonda sempre em shorts folgados e minúsculos, tão ciente era a moça de suas graças. Corria o verão de 1988 e estávamos em Petrópolis, no congresso nacional da União da Juventude Socialista, ao qual cheguei inconsciente por excesso de sangue na corrente alcoólica. Sem dinheiro, enfadado por todo aquele blá-blá-blá, eu e dois amigos fundamos uma dissidência política: a UJA, União da Juventude Aloprada, instrumento popular revolucionário que se dedicava a ser o mais demente possível enquanto era expulsa de boates que não podia pagar. Petrópolis era uma cidade tão enfadonha. Para não dizer que estávamos totalmente à parte do processo político, assistimos a uma palestra sobre sexo (claro que porque a impressionantemente volumosa bunda redonda de Vanderlice estava lá, tentando acomodar sua exuberância calipígia em medíocre e falta cadeira). Um de meus amigos, comovido pela impressionantemente volumosa bunda redonda de Vanderlice, fazia insistentes perguntas sobre sexo anal, enquanto todos nós contemplávamos ostensivamente o óbvio motivo de suas singelas dúvidas. Infelizmente, na noite daquele sábado, a impressionantemente volumosa bunda redonda de Vanderlice agraciou outro sujeito, um paulista que não me parecia capaz de apreciar devidamente o maná caído em suas mãos. Mas na plenária final, no último dia, sentado a sudeste da impressionantemente volumosa bunda redonda de Vanderlice enquanto tentava convencê-la — sem sucesso e com excesso de tato, lamento admitir — de que prazeres inauditos e celestiais a aguardavam naquele paraibinha com cara de bobo, eu tive a minha redenção: ao apoiar firmemente no chão suas mãos e seus joelhos para se levantar em uma votação, a impressionantemente volumosa bunda redonda de Vanderlice se revelou em toda a sua glória e exuberância diante de mim, a um ínfimo palmo destes pobres olhos que por fim encontravam sua razão de ser. E é por isso, por esse único momento fugaz e tão desgraçadamente transitório, que jamais me será possível esquecer a impressionantemente volumosa bunda redonda de Vanderlice. Boas lembranças e diamantes são para sempre.

Originalmente publicado em 15 de janeiro de 2004.

Pobres meninos ricos e a ética protestante do trabalho

A Veja desta semana traz uma matéria sobre um documentário de um dos herdeiros da Johnson & Johnson. O documentário ridiculariza os pobres meninos e meninas ricos, cuja vida excessivamente fácil os leva a existências vazias e sem propósito.

Moral da história: só o trabalho dignifica o homem.

Parece que a ética calvinista nos contaminou a todos. Uma vida só é válida se é economicamente produtiva. Não trabalhar, não fazer parte da cadeia econômica é uma desonra e uma humilhação.

O mundo chegou a um estado lamentável, pelo visto. Porque se puxarmos um pouco pela memória, vamos lembrar que o ócio já produziu a melhor parte do conhecimento nos séculos anteriores à revolução industrial. Montesquieu não dava expediente em um escritório.

A combinação de ócio e dinheiro pode resultar em belas coisas. Pode dar grandes mecenas, como no passado; pode tornar possível a alguém realizar grandes feitos, de qualquer tipo. Ou alguém pode simplesmente se dedicar à contemplação, a compreender a vida. Ninguém mais tem tempo para isso.

Além disso, por que trabalhar, se não é necessário? Isso é tão lógico. No entanto, por causa daquele alucinado do Calvino, as gentes se consomem em culpas e falta de propósito, como se simplesmente viver não oferecesse propósito suficiente. Um dos milionários do documentário resolveu sua crise existencial indo suar num campo de petróleo durante dois anos. Isso quer dizer que, provavelmente, um pai de família passou dois anos sem ter como colocar comida na boca de seus filhos porque um desocupado resolveu ter pruridos de consciência.

Eles parecem não compreender a profundidade da frase de McCartney: “Eu quero dinheiro. Dinheiro para não fazer nada, e dinheiro para o caso de querer fazer alguma coisa”. Para eles, o dinheiro não é libertação. E essa é a maior ofensa que se pode cometer contra o capital.

Por incrível que pareça, quem deu mais indícios de ter compreendido essa verdade foi o pai do diretor, que a reportagem da Veja ridiculariza como “um sujeito alienado que passa os dias pintando”. Em nenhum momento, quando o filho perguntou o que fazer da vida, ele apelou para um medíocre “vá trabalhar”. Sua sugestão foi a de um esteta: “Colecione documentos raros”. A verdade é que esse senhor “alienado” compreendeu que a sua condição lhe possibilita fazer algo maior e mais abstrato pelo espírito da humanidade, livre dos grilhões da necessidade de subsistência.

É por isso que durante muito tempo fui fã de Jorginho Guinle. Vi uma entrevista dele ao Roberto Ávila, no fim dos anos 90. Já quebrado, sem dinheiro, ele não demonstrava nenhum arrependimento por ter esbanjado toda a sua fortuna. Em sua cara, parecia estar escrito: “Vivi como quis, uma vida que ninguém teve”. O dinheiro podia ter ido embora, mas foi embora com uma suavidade e uma joie de vivre que um Antônio Ermírio de Moraes, por exemplo, jamais terá.

Mas talvez o que tenha me deixado realmente fã do sujeito foi a constatação de que ele não tinha nada de especial. Não era brilhante, não era bonito, era um sujeito até meio apagado. Era um quase nada. Devia sua vida espantosa ao simples fato de ter dinheiro e não sentir culpa em se aproveitar disso. Sua honestidade era contagiante.

Dia desses vi uma declaração em que ele finalmente demonstrava um laivo de arrependimento. Diz que errou os cálculos de quanto ia viver, gastou tudo antes do que devia e hoje almoça de favor no Copacabana Palace. Há agora um travo de amargura em suas palavras.

Ah, Jorginho, você podia ter resistido um pouco mais.

Originalmente publicado em 10 de dezembro de 2003.

Ata de fundação da Brigada Humphrey Bogart

The Lancet, jornal médico inglês famoso em todo o mundo, pediu em editorial que a Inglaterra proíba definitivamente o cigarro em terras do Príncipe Tampax.

É claro que cigarro incomoda os não-fumantes, e a maioria dos tabagistas tenta chegar a um meio-termo na convivência com o resto do mundo. As exigências de não fumar em lugares fechados, e outras do mesmo tipo, são razoáveis e justas.

Mas o rebaixamento do cigarro ao mesmo nível legal da maconha é um abuso que não pode ser tolerado. O principal argumento contrário é que isso, em primeiro lugar, cria um mercado imensurável para o crime. E eu, pelo menos, não consigo me imaginar subindo o Pavão-Pavãozinho para comprar um maço de Kent, provavelmente falsificado no Paraguai e custando 5 vezes mais.

O mais preocupante, mesmo, é que essa perseguição cria um precedente perigoso no cerceamento da liberdade individual, o que parece cada vez mais comum na era Bush. Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco vão probir homossexuais de fazerem sexo; e vão arranjar alguma razão científica para isso.

Se o pedido viesse dos EUA não seria uma surpresa tão grande. Uma terra que começou a ser colonizada por gente que se recusava a deixar de perseguir os outros só podia ser assim. Essas atitudes histéricas são típicas dos puritanos, de gente que tem uma visão de vida e exige que o resto do mundo compartilhe dela. Eles não têm mais católicos e judeus para perseguir, japoneses são ricos demais, então restariam os tabagistas, essa escumalha de desgraçados fedorentos.

O que não se poderia esperar é que essa atitude viesse justamente da velha e civilizada Europa. Mas cada vez mais os bretões, em tempos idos um povo orgulhoso e altaneiro, se resignam em ser capachos de sua ex-colônia. Tudo bem. Cada povo tem o destino que merece. Um povo que não gosta da França só podia dar nisso. Não é à toa que uma ex-ministra francesa disse que 1 em cada 4 ingleses dá ré no quibe. Só pode ser falta de mulher bonita. É o clima horroroso. É a comida insuportável — o que dizer de um país cujo prato nacional é o peixe com fritas? Esses desocupados deveriam continuar fazendo suas pesquisas bisonhas sobre o id das baratas em vez de vigiar os pulmões dos outros.

Bem, é melhor parar com isso. Pequenas ofensas e deboches não valem a pena, neste momento em que a liberdade está seriamente ameaçada.

Se é guerra que querem, guerra eles terão. E começo por anunciar, aqui e agora, a fundação da Brigada Humphrey Bogart.

A Brigada Humphrey Bogart será um grupo de tabaco-terroristas, que se quer financiado pela Souza Cruz e pela Phillip Morris, cuja missão é defender a liberdade do consumo de nicotina em todo o mundo. Será baseado em Paris, terra dos Gitanes e dos Gauloises e da Juliette Binoche, e dedicará sua vida a ações terroristas contra esses governos totalitários, inimigos da liberdade e patronos da estupidez persecutória.

Inspirados no velho “Anauê!” dos integralistas, já temos o nosso grito de guerra: “Cof, cof!”. E nada, nem mesmo um enfisema, conseguirá nos impedir de derrotar a opressão.

Os biriteiros derrubaram a Lei Seca nos Estados Unidos. A Brigada Humphrey Bogart defenderá o direito de centenas de milhões de fumantes de exercerem a sua plena liberdade.

E se a guerra recrudescer, estaremos preparados para tudo. Até para atos vis como dar cigarros a criancinhas.

Avante, fumantes de todo o mundo!

À vitória!

Originalmente publicado em 10 de dezembro de 2003

E um viva à hipocrisia

Pergunte, e 11 em cada 10 pessoas responderão que odeiam hipocrisia.

E todas elas estarão sendo hipócritas nesse momento.

O amor, a bondade, a idéia de altruísmo — todos esses sentimentos nobres são o que fazem esta vida parecer tolerável. Mas são os sentimentos ruins como a cobiça, a raiva, a inveja que fazem o mundo andar. É a ganância que faz alguém querer mais e mais dinheiro, movimentando as forças produtivas e gerando riquezas. É uma variedade da inveja que faz uma pessoa querer ser melhor que outra e, apesar de razões tão vis, eventualmente tornar o mundo um pouco melhor com seus atos. É a preguiça, aliada à inventividade, que torna o mundo mais confortável, como bem sabe aquele preguiçoso cansado de levantar para mudar o canal da TV que inventou o controle remoto.

Falta aos sinceros e francos a coragem de admitir que a hipocrisia, essa atitude tão vilipendiada, é fundamental e necessária à vida cotidiana.

Imagine, minha senhora, sua vida sem pequenas doses diárias de hipocrisia. Você pergunta se sua melhor amiga gostou do seu novo penteado. Ela, pessoa franca e sincera, qualidades das quais tem orgulho e não cansa de anunciar ao mundo, diz que está horroroso — a propósito, o seu cabelo é horrível, mesmo, não tem penteado que dê jeito; e olha, já que falamos nisso, seu marido está saindo com a Lurdes.

Ou você, senhor letrado, que escreve um poema do qual se orgulha e aquele mestre, a quem você admira e respeita, diz que ele é irremediavelmente medíocre, e extremamente parecido com um dos piores poemas de Verlaine — mas você não é plagiário, porque nem conhecia o tal sujeito: você é só ignorante, mesmo.

Por outro lado, imagine a senhorinha recém-casada com um homem a quem ama acima de todas as coisas, e que perguntada por ele, sequioso de aprovação e desejoso de agradar, a respeito de seu desempenho sexual pífio, responde que sim, que ele a completa e que aquela mixaria arfante é o melhor sexo que ela já fez. E um casamento é salvo por uma pequena mentira.

Os exemplos podem seguir ad aeternum. Muitas vezes somos hipócritas por motivos nobres, embora geralmente o sejamos por covardia e sabedoria; mas o resultado continua sendo hipocrisia, atitude que julgamos ver restritas aos Uriah Heep da vida.

Ah, quantos assassinatos a hipocrisia já conseguiu evitar. E apesar de toda a nossa ingratidão, da nossa recusa em reconhecer seus méritos, essa atitude salvou mais vidas que as Belas Artes, tão elogiadas e admiradas como exemplos do que de melhor o homem pode fazer. Guernica, tão nobre em seus ideais, não salvou uma só vida; mas pequenas mentiras salvam milhares a cada dia.

Admitamos todos, com o máximo de alegria possível diante do esmaecimento dos nossos sonhos de pureza: sem hipocrisia, o mundo acabaria em uma semana.

A hipocrisia é a base sobre a qual se sustenta a pólis, em que opiniões contrárias e muitas vezes excludentes precisam conviver com um mínimo de harmonia. É a sua porção, hypocrite lecteur, seja ela grande ou pequena, que lhe permite escutar e tentar aceitar a opinião de outra pessoa, mesmo quando você está convencido de que está certo e aquilo que o outro está falando é um punhado de estultices que poderiam muito bem ter saído da bundinha de um jumento.

Por mais que gostemos de alardear e mesmo cultivar nossa própria integridade pessoal, é a hipocrisia que, insidiosamente, subverte a lei do mais forte, criando uma base mínima de igualdade sobre a qual idéias e opiniões podem conviver.

Portanto, agradeçamos a Deus — ou ao diabo — a invenção dessa arte milenar e salvadora. Sejamos realmente sinceros uma vez na vida, e continuemos hipócritas.

Originalmente publicado em 14 de setembro de 2003.

O mais esquisito outdoor do mundo

Como sei que ninguém iria acreditar se eu contasse, resolvi fotografar:

É, isso existe.

Falando sério: o título em tom de desculpas é a emenda que piora o soneto. E a agência ainda assinou a peça. Eu os admiro por sua coragem.

Falando mais sério ainda: tenho algumas sugestões de título para este outdoor, considerando que número de palavras não é problema.

Ninguém vai ler tantos nomes. Mas precisamos desta conta pra pagar a conta de luz amanhã.

Ninguém vai ler tantos nomes. Mas o cliente insistiu e a gente não tem coragem de peitar o homem.

Ninguém vai ler tantos nomes. Mas vamos receber nossa comissão assim mesmo.

Ninguém vai ler tantos nomes. E minha namorada vai me deixar assim que vir este outdoor.

Ninguém vai ler tantos nomes. Mas eu disse à minha mãe que este outdoor é de outra agência.

Ninguém vai ler tantos nomes. Mas pelo menos eu tenho saúde.

Ninguém vai ler tantos nomes. Mas meu filho anda espalhando que não me conhece.

Ninguém vai ler tantos nomes. Me suicido hoje à noite, tá?

Ninguém vai ler tantos nomes. Pra você ver o que a gente tem que fazer para ganhar a vida.

Ninguém vai ler tantos nomes. Mas é melhor ler isto do que ser cego.

Ninguém vai ler tantos nomes. Melhor assim, porque alguns deles são feios como o pecado.

Ninguém vai ler tantos nomes. E não vai ver quanta gente está pagando esse mico junto com a gente.

Ninguém vai ler tantos nomes. Meu Deus, por que não fiz medicina?

E o meu preferido:

Ninguém vai ler tantos nomes. Foda-se.

A vida nem sempre é bela.

Originalmente publicado em 7 de janeiro de 2004