Retorno a Zohar

Final de uma tarde de verão em 1979, Salvador. Eu estava no playground do edifício brincando com meus dois melhores amigos, Jailton e Pedrinho. Tínhamos arranjado alguns pedaços de pau, e algumas caixas de papelão das quais fizemos escudos. Brincávamos de batalha medieval; sou de um tempo em que as referências do passado, como cruzadas e cowboys, eram mais fortes que as do futuro nas brincadeiras infantis.

O edifício fica numa espécie de vale, porque de um lado está a escarpa da Ladeira da Barra, e do outro a 8 de Dezembro, outra grande ladeira. Além disso há prédios altos em volta.

E então, no meio da brincadeira, alguém notou algo estranho, que passava rápido e silencioso no céu. Quando olhamos para cima vimos um espetáculo inédito, e assustador. Um show de luzes vermelhas e azuis, informes, passou rápido e sumiu, em menos de um segundo, atrás do prédio que ficava em frente.

Eu era um garoto urbano. Nada relativo ao progresso, à civilização, me era estranho. Os cachorros dos lugares onde morei já não corriam atrás de carros. Nunca brinquei de pião ou de bola de gude quando era menino. Nunca me emocionei ao ver o mar pela primeira vez.

Mas aquilo era diferente. Era um disco voador, só podia ser um disco voador. Não era um avião — eu já tinha visto tantos, já tinha viajado em alguns. No mínimo, aviões faziam barulho.

Aquilo era um disco voador.

Jailton, Pedrinho e eu ficamos aterrorizados. Minha mãe havia ido comprar pão, e na volta viu um Jailton que, de bem pretinho, estava cinza de medo. Pedrinho também estava apavorado. Quanto a mim… Eu poucas vezes havia sentido um terror tão grande. Nada neste mundo — e, dadas as circunstâncias, em qualquer outro — me faria subir aquela escada. Eu tinha certeza de que havia um ET no vão embaixo dela. Esperei mamãe para subir com ela. Tinha certeza de que ela botaria aqueles homenzinhos verdes e maus para correr.

Os anos passaram. Minhas conclusões sobre o que eu tinha visto foram mudando com o tempo até que cheguei a uma conclusão preguiçosa de que aquilo era algo perfeitamente explicável, um balão meteorológico ou um avião (apesar da falta de som), ou qualquer coisa do tipo. Mas nunca tive certeza absoluta; era apenas uma conclusão racional, do tipo “discos voadores não existem, ponto”.

Exatos 20 anos depois, eu estava na varanda do meu apartamento em Fortaleza, de madrugada, ninando minha filha. De repente minha ex-mulher olhou apavorada para o céu atrás de mim: “O que é aquilo?” Me virei, rápido. E então eu vi.

Havia demorado duas décadas, mas meu disco voador havia voltado.

Pensei claramente algo em um átimo, imensurável de tão rápido. E naquele momento eu gostaria de ser outro, de não ser este ser humano cansado e lógico que acha que entende as coisas e que pode explicar tudo.

Eu gostaria de ter pensado que guerreiros do planeta Zohar haviam voltado para me buscar, duas décadas depois de terem sido impedidos naquele dia pela presença indômita de minha mãe. Que ali estavam pesquisadores waldosianos que me abduziriam e fariam experimentos genéticos inomináveis comigo. Que iriam me levar para Kandor e me exibir como um espécime de uma raça inferior, imperfeita e estranha, preciosidade de um planeta tão distante. Ou que, fascinados com minha perfeição genética, sábios yukiahans iriam me levar para revitalizar sua raça, devolver a eles atributos ancestrais que a evolução lhes havia tirado.

Gostaria de ter pensado qualquer coisa assim, que mostrasse que a criança de 8 anos ainda estava ali.

Mas naquele momento eu só pensei em uma coisa: “Pronto. Agora vou saber que porra é essa”. E então eu soube.

Era um avião.

Um simples, um prosaico Boeing, voando baixo por entre nuvens também baixas. Aviões têm luzes azuis e vermelhas que piscam intermitentemente. Por causa das partículas de água contidas nas nuvens, a luz se dispersa e dilui, e o resultado é um objeto disforme e assombroso. Não é tão comum; em duas décadas só vi algo assim duas vezes.

Durante a maior parte daqueles 20 anos, tive a certeza de que aquele disco voador era um fenômeno humano perfeitamente compreensível, provavelmente um avião, mesmo. Mas, lá no fundo, havia a esperança de que fosse realmente uma nave interplanetária de um planeta distante, trazendo pesquisadores para entender melhor esta raça de que faço parte.

Ali o adulto cético e racional obtinha a sua vitória definitiva e incontestável, e a sombra da criança de 8 anos se esvanecia para sempre. A falta de imaginação venceu.

Originalmente publicado em 11 de setembro de 2003.

O fantasma e o vento

Mais uma daquelas pesquisas utilíssimas e significativas de universidades inglesas — desta vez da Universidade de Hertfordshire e do Laboratório Nacional de Física.

O pesquisador Richard Wiseman afirma que o infra-som é o grande responsável por sentimentos de “sobrenatural” que às vezes temos. Nas igrejas, por exemplo, as notas extremamente baixas de alguns órgãos facilitam o êxtase religioso. Nas casas mal-assombradas, calafrios seriam o resultado do som provocado pelo vento. “O fantasma, na verdade, é o vento”, diz glorioso em seu racionalismo o bom Wiseman.

Longe de mim querer contradizer um sujeito sábio no próprio nome, até porque estou mais próximo de um wiseguy que de um wiseman.

Mas a esse pessoal falta poesia, falta aquele respeito pelo metafísico, falta aquela sabedoria que vem da convivência com o mistério que torna a vida um pouco mais bela. Seu racionalismo cético cega e oprime, e tenta levar o mundo a uma irremediável chatice. E é por isso que ouso dizer que Wiseman está errado em suas conclusões.

O fantasma não é o vento disfarçado. O vento é que é o fantasma disfarçado.

Originalmente publicado em 10 de setembro de 2003.

A Farra do Boi

Em julho de 88, em Goiânia, uma catarinense contava, a mim e a um amigo, a sua versão da farra do boi, que na época tinha alcançado as manchetes de jornal graças à sua crueldade desorganizada.

(Era um congresso de estudantes, o momento político era de agitação, achavam que discutíamos o futuro do país ali e tudo em que eu e esse amigo pensávamos era em arranjar alguém com quem dormir naquela noite. Em Goiânia fazia frio.)

Ela mentia. Ainda lembro de sua voz, de seu sotaque e da sua expressão de ultraje, dizendo “Não, mas a minha farra do boi não tem nada disso!” Sua amiga, calada, apenas concordava com a cabeça.

Tudo bem. A gente mentia, também. Descaradamente. Bons velhos tempos, em que a verdade podia ser tão sutil e tão pouco importante, porque a gente ainda sabia o que realmente valia a pena.

Originalmente publicado em 11 de outubro de 2003.

Mulheres imperfeitas

Longe de mim sair por aí dizendo que o importante é a beleza de dentro. Eu sou redator, não sou decorador de interiores.

Por isso uma mulher bonita, para mim, é o ápice da criação divina. Quando o diabo tentava Jó, quando o diabo dizia que Deus fez isso e aquilo de ruim, Jó poderia ter respondido: “É, mas fez a Isabel Fillardis também”. E então o diabo sumiria numa nuvem de enxofre e Deus poderia parar de fazer aquela sacanagem com ele.

Confesso: a beleza de uma mulher é a primeira coisa que olho. É a segunda e a terceira, também. Dependendo da mulher, pode ser a quarta. E a última.

Mas a beleza é variada. Quando me perguntam qual o tipo de mulher de que gosto, eu nunca sei responder. Não sei porque essa pergunta não tem resposta. A beleza está em várias coisas: num olho, num olhar, numa boca, na curva das costas, no jeito como ela se senta e cruza as pernas, nas mãos — é, e nos peitos e na bunda também.

Mas sei qual o tipo de mulher me atrai menos: aquela perfeita, em que você não consegue achar um só defeito.

ModiglianiTem coisa menos sexy do que uma mulher perfeita?

Uma mulher perfeita parece feita de plástico, esculpida por um artista de talento. É obra humana, não há nada de divino nela, porque Deus, se existe, sabe das coisas e não se deixa cair nessas armadilhas de perfeição. Sua beleza é tão estrondosa que não deixa espaço para mais nada, sequer para a admiração, quanto mais para aquela sensação de frio na barriga, aumento dos batimentos cardíacos e uma quase incontrolável vontade de pegar.

Mulheres perfeitas reforçam minha crença na beleza, sim, e nada mais. Que bom que elas existem. Mas não é com elas que que sonho à noite. É como se essas mulheres esculpidas em mármore não ofegassem, como se seus cabelos não tivessem perfume, como se sua pele não pudesse ficar marcada pelas minhas mãos.

Olho para uma mulher perfeita como olho para um quadro de Renoir: lindo, maravilhoso, ficaria bem na minha parede. Mas para aquela mulher imperfeita que não gosta de sua bunda, ou se acha acima ou abaixo do peso, os pensamentos são outros; certamente menos nobres — ou talvez mais — que a simples apreciação das Belas Artes.

Mas talvez tudo isso seja só preconceito. Graças a Deus, nunca conheci uma mulher perfeita. Todas elas são deliciosamente imperfeitas: têm nariz arrebitado ou grande demais, seus seios não são exatamente o que elas sonharam, reclamam da celulite e da barriga que não é dura como uma tábua.

Talvez, no fundo, elas saibam que nada disso importa tanto. Talvez saibam que é justamente isso que faz a sua beleza: elas são reais. São de verdade, parecem de verdade. Mulheres imperfeitas são possíveis.

Originalmente publicado em 4 de abril de 2004.

Mme. Bovary n'est pas moi

Ainda estou maravilhado com os comentários ao post sobre a vingança da Legião de Onan.

Os dois foram escritos para uma mesma pessoa específica, que inclusive sabe disso e deixou comentários.

Ou seja: era um caso real. Mais que uma opinião, era uma observação de um fenômeno que me parece cada vez mais comum. Isso não significa, claro, que se aplique a todo mundo. Mas os comentários me deixaram com uma certa dúvida.

Mesmo que os dois posts tenham deixado claro que era uma generalização e, como tal, absolutamente imprecisa se aplicada à totalidade das mulheres, choveram comentários femininos revoltados. E o conteúdo da maioria deles foi curioso: não negaram que mulheres assim existem. Em vez disso, basicamente, fizeram um esforço para deixar claro que elas não eram assim.

É uma das razões pelo qual o segundo post (que seria republicado de qualquer forma, mas teve sua publicação adiantada porque, como adivinhou o Donizetti, eu não poderia deixar de colocar um pouquinho mais de lenha na fogueira) foi muito menos comentado. As pessoas simplesmente não se reconheceram nele. E no entanto é apenas outra face da mesma moeda. Mas elas não se reconheceram adolescentes, e então o post passou em brancas nuvens.

O fato é que não entendo direito como se pode negar a primeira e não negar a segunda, já que elas são a mesma pessoa.

Fiquei imaginado a mulherada lendo “Madame Bovary”, quando foi publicado, e reclamando: “Nós não somos assim!”, embora secretamente continuasse a sonhar com um Léon e, às vezes, caindo nas garras de um Rodolphe. Ou lendo “Um Estudo de Mulher”, de Balzac, e o acusando de machista e preconceituoso, ou chamando o pobre Bianchon de frustrado.

Por exemplo, a Daniela Silva, que ultimamente tem pulado de caixa de comentário em caixa de comentário em uma cruzada feminista bastante barulhenta, viu nos comentários um arraso completo deste pobre blogueiro, como se uma alcatéia estivesse mordendo meus calcanhares, e me deu condolências pela minha adolescência. Obrigado, mas eu já disse algumas vezes aqui: a minha adolescência foi muito boa. Talvez o fato de ter começado a trabalhar cedo e ser liderança estudantil durante boa parte daqueles anos tenha quebrado um grande galho. Não sei. Isso não está em questão. Mas a vontade de “vingança” das feministas mais agoniadas é tão grande que as pessoas, às vezes, perdem a noção real do texto e se congratulam com quimeras que julgam ver. Porque algumas pessoas se identificaram com o texto, eu teria que me identificar também.

O comentário mais sensato foi o do Ricardo Antunes da Costa, provavelmente pouco interessado em fazer de posts cavalos de batalha em função de crenças, e vendo as coisas com um distanciamento sábio que seria recomendável para todos.

No fim das contas, e explicações desnecessárias à parte, o fato é que raras vezes ri tanto com um conjunto de comentários como ri agora.

E a razão é uma só.

Eu nunca vi tanta gente passando recibo.

(Mas se mesmo assim a revolta continuar grande, a Ninfeta do Demônio está fazendo uma boa promoção.)

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Ontem este blog começou a veicular anúncios do Google AdSense. A intenção é fazer com que os visitantes via mecanismos de busca, que compõem uma parte expressiva dos visitantes e portanto consomem boa parte da largura de banda disponível, ajudem a pagar os custos de hospedagem.

Por isso, os anúncios só serão veiculados nos arquivos individuais. É uma maneira simples de evitar que os anúncios incomodem os leitores do blog, e dará mais relevância ao que for veiculado.

Excedentes eventuais, nos quais não acredito muito mas que, se aparecerem, serão bem vindos, serão usados para atacar feministas, rir de direitistas, desrespeitar católicos e ofender defensores dos animais.

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Alguém que entenda de Movable Type e de HTML pode me dar uma mãozinha na redefinição dos templates deste blog?

As Adolescentes de Trinta

Quando Balzac publicou “A Mulher de 30 Anos”, um livro de resto absolutamente medíocre, alguém disse que ele deu uma sobrevida amorosa às mulheres, numa época em que era comum se casarem aos 15 anos. Mas se Honoré fosse vivo hoje, teria que escrever outro livro: “A Adolescente de 30 Anos”.

De uns anos para cá as revistas, quando lhes falta assunto, falam do novo homem, da crise por que eles passam. (Falo eles porque ainda sou do tipo antigo; defendo veementemente o direito feminino de ir às ruas lutar pelos seus direitos, desde que deixem minha comida pronta.)

O que as revistas parecem não notar é a crise por que passam tantas mulheres nos primeiros anos do século XXI. Com exceções, uma mulher que chega aos 30 anos solteira começa a sentir um desespero inexplicável, uma espécie de revival da histeria do final da era vitoriana diagnosticada por Freud. É como se sentissem incompletas, como se lhes faltasse algo. A conta que fazem de suas vidas precisa de um fator que nem sempre está lá.

Esse fator é um homem.

São adolescentes aos 30 anos. Não percebem, mas têm o mesmo jeito de olhar a vida que tinham aos 17, como se não houvesse passado tanta água sob a ponte. Sem querer ser cruel, é como se o fato de amadurecerem emocionalmente antes dos homens implicasse uma estagnação depois disso. Chegam primeiro à adolescência e demoram a sair dela — muitas vezes direto para a velhice. Algumas, sem perceber, continuam fazendo aos 30 as mesmas exigências em relação aos seus parceiros que faziam quando ainda estavam na escola e alimentavam paixões imortais pelos garotos mais populares. Mudam apenas detalhes; já não querem um atleta, e sim um sujeito capaz de dividir os encargos da vida com elas ou, mais comumente, alguém “emocionalmente estável” [infelizmente, em 32 anos de vida ainda não vi ninguém emocionalmente estável de verdade, apenas instáveis em repouso]).

O resultado é apenas mais solidão. “Nossa, ela acha que vai encontrar homem na night!”, me disse uma das adolescentes. Enquanto isso, no trabalho não há homens interessantes, e os poucos que há são casados; sempre são. Por um processo de exclusão, vão eliminando todas as possibilidades de encontrarem alguém. Não importa o desespero: elas continuam criando para si torres de Rapunzel absolutamente intransponíveis.

Elas não se parecem se sentir à vontade em seus papéis. Para boa parte delas, a obrigação de independência parece um fardo insuportável a ser carregado. Se os homens foram achacados nas últimas décadas, com a obrigação de mostrarem sentimentos de forma feminina, as mulheres ainda tentam se acostumar a um mundo que deu uma certa igualdade a elas.

Alguém deveria dizer a essas moças umas coisas básicas, que elas deveriam saber.

Por exemplo, que todo o seu relacionamento com o sexo oposto é baseado em códigos que elas definem na adolescência. Muitos adolescentes do sexo masculino labutam anos infrutíferos até descobrirem esses códigos (sem contar, claro, os afortunados que os conhecem instintivamente). Mas depois que descobrem, o jogo acaba. Vira uma brincadeira, em que é necessário dizer apenas a coisa certa na hora certa. (Certo, estou simplificando e há muitas outras filigranas; mas estas são as linhas gerais, e são suficientes para um post em um weblog). Daí tantas mulheres infelizes, que não compreendem ou aceitam o simples fatos de existirem tempos e interesses diferentes entre duas pessoas.

De certa forma, as Adolescentes de Trinta criam seus cafajestes. Depois não sabem lidar com eles, porque ao criarem seu Frankenstein, achavam estar criando o novo Adão. E esqueceram que, entre Eva e Adão, havia uma serpente oferecendo uma maçã.

Originalmente publicado em 14 de novembro de 2003.

Karate Kid

Assisti na TV, há algum tempo, a Karate Kid II, um filme extremamente bobo e de que não gosto nem um pouco.

Mas como até nas piores ostras pode-se encontrar uma pérola, perto do final há uma cena interessante. A mocinha do filme, apaixonada pelo Karate Kid e sabendo que ele vai embora, resolve fazer a cerimônia do chá. No filme essa cerimônia é descrita como uma coisa que se faz quando um casal se apaixona, o que é uma deturpação deslavada. Mas tudo bem, isso não importa.

A cerimônia do chá é um belíssimo ritual, como é quase tudo que diz respeito às relações pessoais de qualquer tipo no Japão, pontuado pela rigidez de procedimentos e respeito às tradições e convenções.

O filme é da era Reagan. Se você acha que o governo Bush é retrógrado é porque não pegou esse tempo; o de Bush é só mais burro e mais inescrupuloso. Os anos 80, nos EUA, viram uma espécie de reação puritana à revolução sexual de 20 anos antes. Por exemplo, eles tinham a mania de distribuir evangelhos em motéis (sempre imaginei a grande utilidade desses livrinhos para um sujeito como o Marlon Brando de “O Último Tango em Paris”, mas não conte isso a eles). Havia uma campanha pela castidade a qualquer preço, “don’t get aroused“, essas coisas.

E então comecei a pensar que, afinal de contas, Karate Kid podia não ser um filme tão ruim assim. Que lindo, que típico de sua época: a substituição do velho, sujo e vil sexo extra-marital por um ritual puro, rígido e sublime que tem maior significado espiritual do que a mera troca de fluidos corporais e eventuais palavras obscenas, essa coisa do Diabo. Karate Kid usava uma metáfora interessante para definir a moral de sua época.

De repente o filme tinha mais profundidade do que a carinha de bebê de Ralph Macchio fazia supor.

Mas aí, encerrada a cerimônia do chá, vem o gesto simbólico e clichê: ela solta os cabelos, num sorriso convidativo e purificado pelo compromisso assumido pelos gestos sincronizados dos dois.

Ah, não. É sacanagem. Não dá para ser feliz desse jeito.

Menos ainda porque exatamente quando o Ralph Macchio, que consegue a proeza de ser mais bobo do que eu, entende o recado e se anima a provar que apesar de todas as aparências ele ainda tem um tiquinho de testosterona naquele corpo raquítico, cai uma tempestade e eles têm que ir embora.

De promessa de metáfora até inteligente de sua época o filme volta ao seu amontoado de clichês, e eu volto à sensação de que fui feito de bobo.

Eu juro: nunca mais penso quando estiver vendo um filme.

Originalmente publicado em 31 de agosto de 2003.

A vingança da Legião de Onan

Para que um homem tenha realmente dificuldades em arranjar mulher, ele precisa ser o infeliz dono de uma combinação perversa: adolescente, sem dinheiro e sem um lugar aonde levá-las. Se não tiver uma dessas variáveis, ele tem grandes chances de se dar bem regularmente.

Isso, claro, lembra a todos nós os péssimos tempos da adolescência, em que normalmente somos obrigados a nos voltar para soluções, digamos, pouco ortodoxas para resolver o problema da carência sexual. Essa fase negra costuma passar a partir do momento em que chegamos à casa dos 20; até lá é um martírio comparável ao de Tântalo, que só o otimismo crônico e ignorante da adolescência consegue fazer suportável.

Mas hoje percebi que todos nós, adolescentes um dia alistados na Legião de Onan, como a batizou Luís Fernando Veríssimo, temos um bom motivo para nos considerar vingados.

A nossa via crucis começa e termina na adolescência, e passamos por ela com mãos calejadas, espinhas na cara e cheiro de perfume barato, de preferência Avon ou comprado naqueles catálogos da Hermes, que nos impregnam a partir das empregadas domésticas que encoxamos nas escadas, nas ruas escuras e debaixo das árvores. Mas a redenção chega assim que passamos a ter um mínimo de experiência e segurança.

E é justamente então que o calvário feminino começa.

Olhe à sua volta. Você vai ver o número cada vez maior de mulheres em torno dos 30, cada vez mais ansiosas e preocupadas porque acham que “não há mais homem no mundo”. Para elas, metade não presta. Outra parte está casada. E o resto tem preferências sexuais ainda mais heterodoxas que as dos adolescentes.

Se — generalizando e correndo o risco inerente a qualquer generalização — uma mulher não está casada ao se aproximar dos 30 anos, a percepção de que suas chances de estabilização diminuem a cada novo dia, a cada nova ruga, a cada aproximação dos seios em direção à terra, a cada nova protuberância de celulite a deixa completamente angustiada.

O pior é que, à medida que o tempo passa, a angústia vai aumentando. Além do que dizem ser a escassez masculina, elas ainda continuam escolhendo bastante — esse não dá porque é baixinho, esse não tem futuro, esse… E, paradoxalmente, quando escolhem, muitas vezes escolhem errado. O resultado é o aumento da descrença no sexo oposto, que infelizmente cresce no mesmo ritmo que a certeza de que é impossível viver sem eles.

Não sei se a miséria do gênero feminino, e sua progressiva vulnerabilidade, é propriamente uma vingança; é algo que não dá para racionalizar. Mas, lá dentro, aquele adolescente com marcas de batom vagabundo no pescoço e os dedos calejados pelas acrobacias sob incontáveis sutiãs dá uma risadinha cruel e satisfeita.

Originalmente publicado em 17 de agosto de 2003

Casablanca

Eu gosto de cinema. Gosto muito.

Mas acho que gosto mais ainda de “Casablanca”.

“Casablanca” nunca liderou aquela lista inglesa de 10 melhores filmes da história (essa lista foi encabeçada por “Encouraçado Potemkim” até 1961, e depois disso por “Cidadão Kane”). Ele é, acima de tudo, um exemplo da maestria no artesanato própria de Hollywood nos anos 30 e 40.

A produção foi complicada. Ronald Reagan tentou conseguir o papel de Rick Blaine. O filme foi sendo escrito e reescrito à medida que ia sendo gravado. Os diálogos foram refeitos inúmeras vezes.

O resultado, por mais caótica que tenha sido sua produção, é um dos filmes mais idolatrados da história. Provavelmente porque, acima de tudo, “Casablanca” é um filme de roteiristas. Tudo bem que o diretor Michael Curtiz é ótimo, que os atores (Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains, Peter Lorre e até mesmo Paul Henreid) são ótimos — mas o que conta mesmo neste filme são os diálogos e o enredo. Com exceção de Shakespeare e da Bíblia, nada é tão citado no cinema quanto “Casablanca”. “We’ll always have Paris“, “Round up the usual suspects“, “Here’s looking at you, kid“, “Play it, Sam“, e tantas outras, são frases que fazem parte do imaginário cinematográfico. As cenas finais ficariam implausíveis em qualquer outro filme, mas em “Casablanca” são críveis e as únicas possíveis. De que interessam os problemas de três pessoas em um mundo louco sob sua maior crise mundial? Aquele diálogo é clássico, e é brilhante.

Mesmo atores que fazem papéis pequenos, como Peter Lorre e seu Ugarte, têm participações definitivas no filme. A cena em que Lorre pergunta a Bogart se ele o despreza (“Se eu pensasse em você, provavelmente desprezaria” é a resposta) é uma das melhores da história do cinema. E provavelmente a minha preferida.

O que faz de “Casablanca” um clássico é o brilho como a trama é conduzida. Todas as cartas estão na mesa, todos sabem qual o próximo movimento, mas ninguém pode fazer nada para impedir o curso da história, num determinismo quase marxista. Não há mistério nas situações. Há suspense apenas nos rumos que os corações dos principais personagens seguirão.

São todos personagens em conflito. Rick é um homem amargurado pela perda de seu grande amor, e que voltou as costas aos seus ideais. Ilsa é uma mulher dividida entre o seu dever — e a admiração platônica por um grande homem — e a grande paixão de sua vida. Renault é um hedonista corrupto que tenta tirar o maior proveito possível de uma guerra que lhe importa pouco, embora se possa suspeitar que embaixo de todo aquele cinismo bata ainda um velho e orgulhoso coração gaulês.

São esses personagens que encontram sua redenção em Casablanca. Antes que o filme acabe, Rick tem de volta seus ideais e a lembrança de uma atitude altruísta e nobre. Ilsa descobre o seu lugar no mundo, e sabe que sempre terá Paris para se lembrar, quando olhar para o lado e vir aquele chato do Laszlo roncando. Laszlo, provavelmente, será mais tarde um burocrata tcheco e um dos responsáveis pela repressão à Primavera de Praga. Renault, na que eu considero a decisão mais difícil de todo o filme, abdica da boa vida em Casablanca para honrar seu orgulho francês e entrar na Resistência. E Ugarte… Bem, Ugarte continua morto.

“Casablanca” é um filme de amor, claro, e é assim que ele é visto em primeiro lugar. Mas, para mim, é principalmente um filme sobre redenção, sobre um acerto de contas com o passado e a definição de novas perspectivas para o futuro.

É isso que faz de “Casablanca” um grande filme, algo mágico. Ao contrário de clássicos como “Outubro”, de Eisenstein, em que é muito fácil explicar as razões pelas quais os admiramos, “Casablanca” requer um pouco mais que isso. Mas quem disse que é fácil explicar por que você se apaixonou por determinada pessoa?

Originalmente publicado em 17 de julho de 2003.

Quando os mortos são os outros

Nada, absolutamente nada justifica atentados como os de Madri. Não há discussão possível. Terroristas são assassinos e são a escória da humanidade.

Mas o que será que justifica as atitudes ambíguas que tomamos diante de atos tão parecidos, só porque aconteceram em locais diferentes e com pessoas diferentes?

A reação mundial ao atentado de Madri é compreensiva e justa, e merece ainda mais que a dimensão que vem tomando. Mas por que não reagimos da mesma maneira massivamente indignada em relação a todos os outros atentados perpetrados em todos esses anos, quando eles aconteceram no Oriente?

Como o atentado em Istambul, por exemplo.

Assim como na explosão do trem espanhol, ali morreu muita gente. Assim como a explosão do trem espanhol, foi um crime covarde cometido por inimigos do gênero humano. Mas além dos protestos de praxe, da indignação de praxe, não houve tantos clamores por justiça quando se tratou de turcos que explodiam pelos ares — e este blog se inclui nessa lista. Tentar explicar a reação mais tímida e menos chocada pelo menor número de mortos é hipocrisia e cinismo: uma pessoa que seja a morrer dessa forma vil e inútil é gente demais.

Provavelmente não choramos pelos mortos de Istambul porque aquele é o mundo de lá. E os mortos de lá não nos tocam tanto, porque nos são estranhos, e talvez no fundo nos sintamos aliviados por serem eles que estão se matando. Aquele povo esquisito é diferente, se veste diferente, fala diferente e parece que pensa diferente. Mas os mortos da Espanha são como nós, são filhos da mesma civilização. Os espanhóis somos nós. Os turcos, sauditas, os iemenitas não são. Eles são os outros. A dor deles não dói tanto em nós.

Triste, mesmo, é perceber que é mais ou menos esse o sentimento que move os assassinos da Al Qaeda, do ETA e de toda e qualquer organização terrorista. Os mortos são os outros. Mas a criança iraquiana que chora hoje após um atentado, por alguma razão que divisões entre os povos não conseguem apagar, chora no mesmo timbre da criança espanhola.

Talvez a nossa reação seja uma variedade do estupor que tomou conta dos americanos após o 11 de setembro: a sensação de que a certeza de que tínhamos de viver em um mundo à parte e mais civilizado foi abatida pelas bombas dos étrangers. Talvez tão importante quando a indignação humana seja o sentimento de que eles são outros, são diferentes, e que portanto estão acostumados à matança, e que não têm nenhum direito de trazê-las para nós.

De certa forma, os assassinos da Al Qaeda estão conseguindo o que queriam: provar ao mundo a mentira de que esta é uma guerra entre Ocidente e Oriente, entre modos de vida antagônicos e inconciliáveis. E que, enquanto os mortos forem os outros, tudo é admissível.

15 de março de 2004

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Este post foi escrito há mais de um ano, um pouco depois do atentado terrorista em Madri. Ontem, com os atentados em Londres, a cena se repetiu.

Mas se repetiu também a mesma postura, a mesma idéia de que o que realmente importa são os mortos de cá, quando enumeraram as tragédias causadas pelo terrorismo — Nova York, Madri, Londres — e esqueceram, mais uma vez, os turcos, os iraquianos, os israelenses e os palestinos.

Não haverá chance de paz enquanto não se deixar de dividir os mortos entre os nossos e os deles.