“A Última Crônica” de Sabino tem uma trilha sonora.
É “Gente Humilde”, de Chico e Vinícius.
“A Última Crônica” de Sabino tem uma trilha sonora.
É “Gente Humilde”, de Chico e Vinícius.
Aí pelos 18 anos fiz uma lista de lugares e épocas em que eu gostaria de ter vivido.
Atenas antes de Cristo.
Roma depois de Cristo.
Itália no cinquecento.
Paris no tempo de Luís XIV.
California, Arizona ou Texas na segunda metade do século XIX.
Viena nos anos 1900.
Paris nos anos 20.
Nova York nos anos 30
Nova York nos anos 40.
Nova York e Rio de Janeiro nos anos 50.
Londres nos anos 60.
Qualquer lugar nos anos 70.
Eu não gostava dos anos 80.
E gostei de estar onde estive nos anos 90.
A Carta Capital é uma das melhores revistas semanais do país. Mas esta semana, em matéria passando o rodo nas eleições, aparece com algumas pérolas que merecem ser comentadas:
Nas últimas eleições, São Paulo escolheu prefeitos do PT em duas oportunidades, mas esse fato não enfraquece a tese do perfil conservador do eleitorado paulistano. Em 1992 não havia segundo turno e Luiza Erundina acabou eleita com menos de um terço dos votos (31%).
A matéria foi escrita por dois jornalistas, Phydia de Athayde (quanto H e quanto Y numa pessoa só) e Sérgio Lírio. Nenhum dos dois parece ter percebido que Erundina foi eleita em 1988.
Mas ainda piora.
Além disso, o governo de Fernando Collor, com quem Lula disputou as presidenciais em 1989, caminhava para o colapso, o que aumentava o cacife da oposição — e do próprio PT.
Errar na checagem dos fatos é um erro grave, ainda mais quando é simples como esse. Mas elaborar uma teoria sobre as circunstâncias que envolveram as eleições que nunca houveram é demais. Ainda mais quando o governo de Erundina, pessimamente avaliado, foi um dos fatores que prejudicaram Lula em São Paulo.
Mas isso é jornalismo. Agora vamos falar de marketing político. Outra matéria na mesma revista, desta vez de José Roberto de Toledo:
(…) a soma das votações de todos os candidatos a prefeito do PT e do PL mal chega à metade dos 39,4 milhões de votos obtidos por Lula no primeiro turno da eleição presidencial de 2002. Em que pese a recém-adquirida “capilaridade” petista identificada pelo ministro Tarso Genro, Lula segue sendo muito maior que o partido.
Avaliar números brutos de uma forma tão simplória é uma ofensa à inteligência de quem quer que tenha conversado uma só vez com qualquer candidato. É como o candidato a deputado federal que teve 50 mil votos e, na eleição seguinte, espera ter os mesmos 50 mil votos para deputado estadual.
Acontece que são eleições diferentes. O próprio Lula, se fosse candidato a deputado federal por São Paulo, teria muito menos votos dos que os que teve para presidente. Qualquer vereador de cidade com 10 mil eleitores sabe disso.
Pelo que pude entender, os autores dessas matérias tinham lá suas teorias e saíram atrás de fatos que pudessem comprová-las, ainda que equivocadas. Deveria ser o contrário. Depois as pessoas não entendem por que jornalistas perderam a primazia de campanhas para os famigerados “marqueteiros”.
Um amigo entrou numa fria.
Estava saindo com uma menina de seus 20 anos, 10 a menos que ele.
Até o dia em que ela veio com aquele papo estranho. Disse que não estava preparada para um relacionamento a longo prazo. Que era muito nova para namorar a sério.
Então esse amigo disse o que 11 entre 10 homens diriam nessa hora:
“Tudo bem, a gente sai sem ser a sério.”
É claro que a menina se revoltou, como se revoltariam 11 entre 10 garotas na faculdade. “Tá pensando o quê? Eu não sou dessas, não!” Ele não conta o resto, mas gosto de imaginar a moça, insultada, levantando-se calada, chapéu à la Ingrid Bergman, abandonando-o de uma vez e para sempre, saindo do bar com a dignidade das grandes mulheres.
(Pode ter sido diferente e ela estava em motel e teve que esperar bufando ele tomar banho para irem embora e ainda lhe pediu que comprasse um sanduíche, mas a minha imagem, cá para nós, é mais bonita.)
Se serve de consolo ao amigo, cumpre notar que a moça já saiu de casa naquele dia com a firme disposição de terminar tudo. Nada do que ele dissesse poderia resolver. Se ele respondesse que queria “namorar a sério”, levaria a mesma tabocada nas fuças. Ela não era muito nova para namorar a sério. Ela era muito nova ou muito velha para namorar com ele.
Mas há algumas lições a serem retiradas desse episódio.
Caso uma garota diga o mesmo para você, caro senhor, não fale nada. Porque qualquer coisa que você disser vai dar em merda. Olhe no fundo dos olhos dela, como se estivesse buscando as profundezas do seu ser, admirando a pessoa maravilhosa, única, especial que ela é. Se maravilhosos nela forem os peitos e a bunda e o remelexo, tire isso da cabeça imediatamente: tais lembranças costumam acarretar reações fisiológicas inadequadas a esse momento. É preciso afetar sinceridade, a mais perfeita, a mais absoluta sinceridade, sinceridade casta como freira feia.
O tal olhar é fácil de fazer. Olhe fixo nos olhos dela e não pense em nada, por desnecessário: ela vai concluir que você está pensando coisas mil em meio a sua dor, talvez indagando-se o que fez para merecer tamanha infelicidade, talvez buscando no fundo dela suas mais secretas vontades, talvez simplesmente arranjando coragem para dizer o quanto a ama. O nada e o infinito são tão parecidos, e a vaidade costuma torná-los ainda mais semelhantes.
Vai parecer que por trás desse olhar que lhe desnuda a alma há algo profundo, denso, misterioso. Provavelmente depois de alguns momentos, confusa, ela lhe peça para falar alguma coisa, porque o seu silêncio digno e enigmático vai despertar, nela, uma sensação incômoda de que está fazendo uma grande sacanagem com um bom sujeito (se não despertar corra, porque ela é uma psicopata e na TPM fica pior); ela vai precisar de alguma palavra sua para achar que está tudo bem.
Se recuse então, porque se você disser que “tudo bem” ela se sentirá desculpada, e se começar a chorar sua dor ela vai achar que você é apenas um viadinho enjoado que merece mesmo ser jogado fora. Portanto diga que não há nada para falar — mas por favor, não insista muito nessa linha ou você vai se ferrar. Quando ela insistir pela segunda vez, e ela insistirá, saia pela tangente. Fuja do assunto e diga que ela é maravilhosa, que é isso e que é aquilo. Elogie o quanto puder. Se for verdade, ótimo: menos um pecado nas suas costas. Mas se não for, elogie do mesmo jeito. Minta. Minta até o fim, sem nenhum pudor. Não tenha escrúpulos em mentir descaradamente. Talvez Deus não lhe perdoe por mentira tão venal, mas se Deus é pai Ele sabe que pecado maior é sair de casa achando que vai cair na putaria e em vez disso levar um pé na bunda.
A partir daí é preciso um pouco de calma. Vai depender dela e de um mínimo de sensibilidade de sua parte. Talvez ela se veja pensando que “tudo bem, talvez seja melhor dar uma chance a ele”. Talvez ela simplesmente vá embora.
Mas as chances são de que ela volte atrás.
Aí você consegue o que queria. Continua traçando a garota, e falando para os amigos: “Bicho, tô comendo uma ninfeta de 20 anos!”. E agora sem o peso de uma namorada.
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Este serviço é uma cortesia da GhostLovers, Inc.
Que dia.
Volto para casa e fico sabendo pela Felícia que o Sabino também morreu.
Nunca fui fã dele. Nunca li muito dele. Mas quando era criança, aí pelos 10 anos, li uma crônica sua que me deixou com vontade de chorar, e eu choraria se não tivesse alergia a lágrimas.
Só por essa crônica, pelo que ela tem de verdade e de ternura agridoce, Sabino merece estar em qualquer antologia de escritores brasileiros. Ao lado de “Iemanjá do Céu”, de Vinícius, essa é a melhor crônica já escrita em língua portuguesa. Aliás, ela está acima da do poetinha, muito acima. E em um mundo em que a sensibilidade forçada de tantos e tantos escritores ulula livre, é provável que ele venha a fazer falta.
A Última CrônicaA caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
A morte de Christopher Reeve me deixa triste, de uma maneira que a morte de outros atores que admiro não deixaram.
Porque ele foi meu grande ídolo quando eu tinha 10 anos, e mesmo antes; pelo menos para mim, o Superman de Christopher Reeve era perfeito, e aos 8 anos você não sonha com nada menos do que isso. E o Richard Collier de “Em Algum Lugar do Passado” era a prova de que um homem pode amar e ser amado de uma forma absoluta, desumana até, e aos 10 anos você não sonha com nada menos do que isso.
Porque foi uma das poucas pessoas iguais a quem eu quis ser um dia, e eu não quis ser igual a quase ninguém.
E porque a partir de 1995 ele mostrou, mais do que nunca, ser realmente um super-homem.
Ao longo dos últimos 25 anos, admirei incessantemente muito pouca gente. Reeve foi uma dessas pessoas. Agora é como se um pedaço da infância ficasse definitivamente longe, muito longe.
Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, em um daqueles filmes que a Disneylândia exibia nas tardes de sábado, fiquei conhecendo os São Bernardos que salvavam pessoas nos Alpes suíços, através da história do mais famoso deles, Barry.
Durante anos, fiquei com aquela história na cabeça. Os cães foram desenvolvidos pelos monges do hospício de São Bernardo (fundado pelo santo de mesmo nome), e salvaram mais de 2.500 pessoas.
Mesmo que eu quisesse esquecer a história não conseguiria. A imagem do cachorro babão com um barrilzinho de conhaque no pescoço era presença constante em desenhos animados.
O que eu não sabia é que desde o início dos anos 50 os São Bernardos não salvavam ninguém nos Alpes. Foram substituídos por técnicas mais eficientes, como helicópteros, GPS e outras trapizongas. Nem mesmo eram mantidos a postos: sua era havia acabado.
Agora os últimos monges — restam apenas quatro — estão vendendo os últimos 18 São Bernardos que restam no mosteiro. E mais uma era se acaba.
As Lojas Americanas estão vendendo “O Incrível Exército de Brancaleone” por R$ 9,90.
Compre. Se você não tem dinheiro, peça, roube, tire da poupança de sua mãe, venda o seu corpo no cais para estivadores suados. Mas compre. Está tão baratinho que até eu, que tenho o vício de rondar o submundo das redes P2P e destruir vidas e carreiras de artistas mundo afora, matando-os de fome, comprei.
A edição é horrorosa. A distribuidora (o nome dela aparece na contracapa, mas se eu citar aqui posso vir a ser processado; escrever blog tem se tornado uma atividade insalubre) simplesmente copiou uma fita analogicamente para o computador, tacou um menuzinho safado e colocou à venda. Não fez sequer adaptações e correções da imagem. É o primeiro DVD com dropout que vejo na vida. É um trabalho porco, que desmerece a distribuidora (lembre-se, o nome está na contracapa do DVD) mas, principalmente, o filme.
Mesmo assim vale a pena. “Brancaleone” é uma das comédias mais brilhantes de todos os tempos, mesmo com todos os defeitos técnicos que uma produção italiana dos anos 60 tem: má dublagem, sonoplastia ruim, fotografia mediana. Mas o roteiro, a direção e os atores superam tudo isso. Prenunciou em alguns anos o “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado”, mas é um humor diferente, mais latino, menos nonsense.
É um filme genial, que merece desde sempre uma restauração e remasterização. E merece que você compre.
Via nomínimo (de novo), o caso de Cristina Schultz, brasileira que estudava em Stanford e até dia desses ganhava a vida cobrando 1,300 dólares para mostrar a cavalheiros ianques o que é que a gaúcha tem (além de muito silicone nos peitos e botox nos beiços). Por duas horas.
O belo blog Filisteu resolveu fazer da moça um caso de violação da nossa soberania, um motivo para deixarmos fluir nosso antiamericanismo e defender com unhas e dentes nossa pátria ultrajada.
Bobagem.
O problema da moça não vem do fato de ela ser brasileira. Não vem sequer do fato de ela ser puta. Cristina está no xilindró porque não cumpriu uma lei tributária americana, só isso. Mais graves são os casos de brasileiros detidos em aeroportos americanos, de diplomatas tupinambás se humilhando e tirando os sapatos para quaisquer guardinhas de alfândega. Isso vale mobilização e retaliação. O caso da Cristina, não.
Aliás, a celeuma que se criou lá foi por um problema interno, por grupos liberais que querem a descriminação da prostituição e dizem que o problema fiscal é apenas pretexto para o governo arrancar dinheiro da moça. Na verdade, é um monte de gente usando a pobre (quer dizer, pobre não) moça para fazer seus lobbies. Mas isso é problema deles. Não é nosso.
Tentar criar caso por causa de uma moça de vida fácil que não sabe sequer sonegar impostos é jogar o auto-respeito dos brasileiros no lixo. Se olharmos por outro ângulo, o nome de guerra da moça, Brazil, é uma grande sacanagem: ajuda a manter por aquelas bandas a idéia de que brasileira é puta. E ajuda a trazer para o Brasil hordas de operários atrás de meninas de 14 anos nas praias de Fortaleza e Recife.
Quanto à Cristina, olha, a moça estudou direito em Stanford. Deve entender um mínimo de leis americanas. E ainda que não entenda, cobrando quase 4 mil reais por duas horas de sacanagem ela tem condições de pagar o advogado que quiser. Ela se vira, podem deixar. Como diz em seu website, “A geminiana quintessencial, eu sou uma mistura incomum de boa menina bem educada e bachiana-erótica-sensual, com alguma doçura pé-no-chão no meio. Tenho certeza de que você não vai esquecer um minuto sequer passado comigo, e eu espero te encontrar logo”.
Agora, alguém pode me explicar se um diploma em Stanford faz uma noite com uma gauchinha valer 5 mil dólares? Porque se fizer eu vou para Harvard. Já sei até o meu nome de guerra: Male Goat.
Augusto Nunes em nominimo:
Como os jornalistas, como os advogados, como todos os cidadãos, também a turma do marketing político precisa entrar na roda. Pode um publicitário alugar a cabeça ao candidato que sabe não ser o melhor, que não mereceria seu voto, mas ofereceu vantagens financeiras inacessíveis ao concorrente a quem sobram virtudes mas faltam verbas? O pessoal do marketing político está à margem da ética? Leva quem paga mais? Perguntas desse gênero pedem, aos gritos, respostas imediatas.
O Augusto Nunes faz boas perguntas, mas faltam algumas: eu, por exemplo, queria saber se médicos só devem cuidar de pessoas que admirem, se dentistas só devem obturar dentes de gente em quem acreditam (sem contar aqueles do SUS que simplesmente arrancam os cacos cariados dos que não podem pagar o amálgama), se engenheiros só podem construir casas para pessoas que amem.
Se fossem seguir esses ensinamentos, para fazer um anúncio de absorvente feminino todos os publicitários do mundo precisariam usar Sempre Livre.
A crítica do Augusto Nunes não é justa, mas para mim tem explicação. Apesar de toda a conversa sobre “imparcialidade”, jornalistas costumam assumir posturas ideológicas, tão mais firmes quanto mais firmes forem seus caracteres. Esqueça a teoria. Na prática, bons jornalistas acreditam ter uma missão, a de informar o público e, com sorte, balizar a pauta nacional. Se acostumam a ser agentes políticos, na acepção mais ampla. Por isso uma candidatura, vista da ótica deles, só pode ser defendida por quem acredite nos ideais do candidato. E parecem achar que publicidade e jornalismo são disciplinas irmãs. Não são. O jornalismo deve ser imparcial, a publicidade não. Se fosse para apenas relatar os fatos, não seriam necessários publicitários no mundo: bastaria abrir mais jornais.
Basicamente, marketing político é técnica, e técnica independe de opinião. Por outro lado, política é convencimento. Alguém precisa convencer o eleitor de que é o mais preparado para gerir o Estado ou o município, ou representá-lo no parlamento. Não cabe a um “marqueteiro” definir a política — e qualquer bom jornalista sabe bem que política é muito mais que isso. Não foi o Duda quem inventou o Pitta: foram as circunstâncias. Tudo o que o “marqueteiro” faz é traduzir o pensamento do candidato, dar uma forma atraente ao conteúdo já definido.
O curioso é que até a chegada dos publicitários, os jornalistas eram os principais responsáveis pelos programas políticos. Mas, como eu já disse, jornalismo e publicidade não são a mesma coisa. Para aproveitar tudo o que a TV tinha a oferecer, era preciso gente que conhecesse o meio; e para dar maior ressonância ao discurso do candidato, era preciso gente que soubesse fazer essa tradução. Parece que todo o engajamento de jornalistas comprometidos não era suficiente. Entraram os publicitários na história e, de repente, começaram a chover críticas sobre os tais “marqueteiros”.
Mas a cada dia me convenço mais de que a entrada de gente como Duda Mendonça e Nelson Biondi foi um dos maiores serviços já prestados à democracia.
O avanço técnico das campanhas, a melhoria do nível de qualidade deram uma contribuição imensa ao debate político. Chamou a atenção do povo. E como as pessoas passaram a assistir mais, passaram também a questionar o que viam. Se tornaram mais conscientes do seu papel, e a forma de se fazer política mudou bastante graças a esse espírito crítico, que aumentou porque os programas ficaram mais interessantes. Pelo menos no que diz respeito às candidaturas majoritárias, as pessoas votam cada vez melhor, sim.
E isso, que me desculpe o Augusto Nunes, é mérito dos “marqueteiros”. Talvez porque eles normalmente evitam compartilhar essa opinião elitista de que povo é burro. Povo, meu amigo, é quem sustenta você, seja você quem for. Ele não é burro. Como dizia David Ogilvy, “Não subestime o consumidor. Ele é a sua mulher”.
Quem acha que um mundo sem os tais “marqueteiros” seria melhor, lembre dos programas eleitorais do PSTU. É um programa sem nenhuma participação dos malditos “marqueteiros”, feito por gente que tem um compromisso ideológico muito grande com a candidatura. Vejam como foram bons, como foram longe, como convenceram mais e mais pessoas a votarem em suas propostas de não à Alca, não a isso e não àquilo. Como acrescentaram tópicos importantes ao debate político nacional. Nas próximas eleições votem neles, porque contra burguês, vote 16.
É por isso que cada dia mais vejo essas críticas dos jornalistas como um elogio, infelizmente exagerado. Eles parecem acreditar que o pessoal que faz marketing político é capaz de milagres, de ressuscitar Lázaros e curar leprosos. Não são. Mas eu é que não vou dizer isso a eles. Vou é tentar aumentar meu cachê na próxima campanha. Porque milagre custa mais caro, sabe como é.
Há um aspecto interessante em tudo isso. Olhando pesquisas qualitativas, salta aos olhos o fato de que são apenas as classes A e B que fazem referências aos “marqueteiros”. O tempo todo, na verdade; eles olham o programa não como se fosse do candidato, mas da equipe que o produz. Obviamente, se acham mais espertos por isso.
Feliz ou infelizmente, não são: a consciência de que os programas dos candidatos são feitos por “marqueteiros” raramente altera sua percepção do que foi dito. Podem até achar que sabem mais. Mas no fim das contas avaliam as coisas como o povão; o que influencia seu julgamento são outros aspectos, que não dizem respeito ao programa em si. E se engana quem acha que povo, as classes C e D, olha um programa eleitoral como idiotas. Ele costuma ter uma percepção acurada de suas necessidades e das propostas apresentadas, e muitas vezes surpreendem a nós, que julgamos saber quase tudo.
Nas próximas eleições, esqueça que existem “marqueteiros”. O programa não é deles, porque máquinas de escrever não escrevem livros. É do candidato. Faça como o povo, que sabe disso há muito mais tempo.