Em primeiro lugar, Elvis Presley não inventou nada.
Digo isso porque há algum tempo todo mundo inventou de comemorar o 50 anos de That’s Alright, Mama, a primeira canção lançada por The Pelvis, como o marco de nascimento do rock and roll. A história está tornando o sujeito inventor do rock and roll. Como se não bastasse o título de rei. (Há duas décadas comemoraram os 30 anos do rock com Bill Haley e sua mistura de dixieland com country. Outro erro.)
Segundo a lenda o primeiro rock and roll foi Rocket 88, de Ike Turner — que entraria para a história principalmente pelos sopapos que dava em sua mulher, Tina. Quem batizou o ritmo foi um DJ e promotor de eventos chamado Alan Freed, que morreria nos anos 60 pobre de marré, depois de envolvido em um escândalo de jabá. E quem realmente influenciou musicalmente milhares de outros músicos mundo afora foram neguinhos como Chuck Berry e Little Richard, e até mesmo um caipira quatro-olhos chamado Buddy Holly (talvez o mais influente deles: foi a principal inspiração dos Beatles, que por sua vez…).
Esse crioulinhos foram os verdadeiros inventores do rock and roll. Mas cometiam o erro de serem pretinhos numa sociedade que até podia gostar de sua música, mas não estava disposta a transformá-los em ícones porque, afinal de contas, fica feio para a brancalhada sair adorando uns crioulinhos de segunda.
Elvis acabou com esse problema. O que ele fez não foi invenção: foi uma quase-reinvenção, uma mistura brilhante da música negra e da branca, que poderia ser chamada de diluição não fosse a carga sexual impressionante que dava à sua música. Ele era jovem, bonito, simpático; e deu ao rock and roll uma aceitação que aquele quase-travesti chamado Little Richard jamais conseguiria dar. Elvis podia requebrar daquele jeito no palco, podia insinuar que o rock and roll era a trilha de um ritual selvagem de acasalamento porque nao era mais um nigger.
Nada disso, claro, tira os méritos de Elvis. Ele é fundamental na história do rock, e ninguém pode negar isso. Só não foi o inventor do gênero. Não era aí que estava o seu talento. Elvis nunca compôs uma canção em sua vida (se Heartbreak Hotel e Love Me Tender têm sua assinatura é por outras razões): sua mágica estava em interpretar.
O mais engraçado é que a carreira do Elvis ícone do rock and roll durou pouco tempo, menos de 5 anos, até se alistar noexército para provar que era o all american boy. De volta aos Estados Unidos ele resolveu se concentrar no cinema, que ao lado do seu empresário, Tom Parker, achava ser mais seguro que esse negócio de música. Quando os ingleses invadiram os EUA cantando yeah, yeah, yeah e reclamando que não conseguiam satisfação, Elvis tinha se tornado anacrônico.
Durante a maior parte dos anos 60, Elvis caiu no ostracismo musical — no que foi compensado pelos muitos dólares que ganhava sendo o astro mais bem pago de Hollywood. Em um de seus filmes, Easy Come, Easy Go, ele mostraria quão distante estava da contracultura que, inadvertidamente, havia ajudado a criar. Debocha de alguns dos símbolos dessa geração que, àquela altura, ele não entendia. Àquela altura, Elvis já era um velho.
Mas foi também o maior caso de reinvenção da história do rock, e se superestimam seu papel na criação de uma música com muitos pais, costumam subestimar esse novo momento.
Em 1968, Elvis estrelou um especial da NBC que ficou conhecido como The Comeback Special. É considerado um dos grandes momentos de sua carreira. Só tem um problema: aquilo não foi uma volta. Era a estréia de um novo Elvis Presley. De roqueiro, ele tinha passado ao mais absoluto mainstream, mas um novo mainstream. E mais uma vez sua genialidade não estava em inventar nada, mas sim em reinventar. Percebeu que, ao contrário do que faziam os Paul Anka e os Ricky Nelson da vida, cooptados por um estilo que já era velho 10 anos antes, ele poderia fazer uma nova mistura, entre a música romântica e a tradição do rock and roll. Roqueiros tradicionalistas torcem o nariz para essa fase, influenciados pela sentença beatle de que Elvis morreu quando se alistou no exército, em 1959. É um erro. O Elvis que voltou ao mundo dos vivos em 1968 tinha força, também. Bastante. E mesmo nos poucos anos seguintes, se apresentando para velhotas gordas em Las Vegas saudosas de bons tempos que na realidade não tinham vivido, havia nele ainda alguma coisa daquele garoto que parecia ter um ataque epiléptico no palco.
Elvis foi tudo isso. Mas, pelo amor de Deus, não digam que foi o inventor do rock and roll.