The Pelvis

Em primeiro lugar, Elvis Presley não inventou nada.

Digo isso porque há algum tempo todo mundo inventou de comemorar o 50 anos de That’s Alright, Mama, a primeira canção lançada por The Pelvis, como o marco de nascimento do rock and roll. A história está tornando o sujeito inventor do rock and roll. Como se não bastasse o título de rei. (Há duas décadas comemoraram os 30 anos do rock com Bill Haley e sua mistura de dixieland com country. Outro erro.)

Segundo a lenda o primeiro rock and roll foi Rocket 88, de Ike Turner — que entraria para a história principalmente pelos sopapos que dava em sua mulher, Tina. Quem batizou o ritmo foi um DJ e promotor de eventos chamado Alan Freed, que morreria nos anos 60 pobre de marré, depois de envolvido em um escândalo de jabá. E quem realmente influenciou musicalmente milhares de outros músicos mundo afora foram neguinhos como Chuck Berry e Little Richard, e até mesmo um caipira quatro-olhos chamado Buddy Holly (talvez o mais influente deles: foi a principal inspiração dos Beatles, que por sua vez…).

Esse crioulinhos foram os verdadeiros inventores do rock and roll. Mas cometiam o erro de serem pretinhos numa sociedade que até podia gostar de sua música, mas não estava disposta a transformá-los em ícones porque, afinal de contas, fica feio para a brancalhada sair adorando uns crioulinhos de segunda.

Elvis acabou com esse problema. O que ele fez não foi invenção: foi uma quase-reinvenção, uma mistura brilhante da música negra e da branca, que poderia ser chamada de diluição não fosse a carga sexual impressionante que dava à sua música. Ele era jovem, bonito, simpático; e deu ao rock and roll uma aceitação que aquele quase-travesti chamado Little Richard jamais conseguiria dar. Elvis podia requebrar daquele jeito no palco, podia insinuar que o rock and roll era a trilha de um ritual selvagem de acasalamento porque nao era mais um nigger.

Nada disso, claro, tira os méritos de Elvis. Ele é fundamental na história do rock, e ninguém pode negar isso. Só não foi o inventor do gênero. Não era aí que estava o seu talento. Elvis nunca compôs uma canção em sua vida (se Heartbreak Hotel e Love Me Tender têm sua assinatura é por outras razões): sua mágica estava em interpretar.

O mais engraçado é que a carreira do Elvis ícone do rock and roll durou pouco tempo, menos de 5 anos, até se alistar noexército para provar que era o all american boy. De volta aos Estados Unidos ele resolveu se concentrar no cinema, que ao lado do seu empresário, Tom Parker, achava ser mais seguro que esse negócio de música. Quando os ingleses invadiram os EUA cantando yeah, yeah, yeah e reclamando que não conseguiam satisfação, Elvis tinha se tornado anacrônico.

Durante a maior parte dos anos 60, Elvis caiu no ostracismo musical — no que foi compensado pelos muitos dólares que ganhava sendo o astro mais bem pago de Hollywood. Em um de seus filmes, Easy Come, Easy Go, ele mostraria quão distante estava da contracultura que, inadvertidamente, havia ajudado a criar. Debocha de alguns dos símbolos dessa geração que, àquela altura, ele não entendia. Àquela altura, Elvis já era um velho.

Mas foi também o maior caso de reinvenção da história do rock, e se superestimam seu papel na criação de uma música com muitos pais, costumam subestimar esse novo momento.

Em 1968, Elvis estrelou um especial da NBC que ficou conhecido como The Comeback Special. É considerado um dos grandes momentos de sua carreira. Só tem um problema: aquilo não foi uma volta. Era a estréia de um novo Elvis Presley. De roqueiro, ele tinha passado ao mais absoluto mainstream, mas um novo mainstream. E mais uma vez sua genialidade não estava em inventar nada, mas sim em reinventar. Percebeu que, ao contrário do que faziam os Paul Anka e os Ricky Nelson da vida, cooptados por um estilo que já era velho 10 anos antes, ele poderia fazer uma nova mistura, entre a música romântica e a tradição do rock and roll. Roqueiros tradicionalistas torcem o nariz para essa fase, influenciados pela sentença beatle de que Elvis morreu quando se alistou no exército, em 1959. É um erro. O Elvis que voltou ao mundo dos vivos em 1968 tinha força, também. Bastante. E mesmo nos poucos anos seguintes, se apresentando para velhotas gordas em Las Vegas saudosas de bons tempos que na realidade não tinham vivido, havia nele ainda alguma coisa daquele garoto que parecia ter um ataque epiléptico no palco.

Elvis foi tudo isso. Mas, pelo amor de Deus, não digam que foi o inventor do rock and roll.

Notícias estranhas em um blog esquisito (XXI)

Imagine-se, distinto passageiro, em um aeroporto australiano em tempos de Blair. De repente, algo numa caixa começa a fazer um zumbido estranho. Você se apavora e se vê como uma nova vítima dos Bin Laden; e as autoridades fecham o aeroporto durante uma hora.

No entanto, todo esse alvoroço é por nada, porque o que zumbe na tal caixa é só um vibrador.

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Parlamentares suecos estão pensando em criar uma lei que cria um “imposto masculino“. Para ser homem, agora, o pobre sueco vai ter que pagar imposto. A razão alegada é cobrir os gastos da saúde pública com a violência contra as mulheres.

Imagina-se que pobres, agora, não tenham outra alternativa que não se tornarem gays.

Ou, caso não seja o bastante, fazer uma operação de mudança de sexo. E pelo menos isso o Estado parece que paga.

Só não sei se ouviram as mulheres antes de propor essa lei. Porque dizem que o tal material anda em falta.

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A Itália sempre soube das coisas.

Um tribunal italiano declarou que fazer saliência em um banheiro público não constitui atentado ao pudor, desde que a porta esteja fechada (a decisão não desce a mais detalhes, mas recomenda-se que controle-se os gemidos. “Ui” pode. “AI MEU DEUS DO CÉU!!!”, não).

A sentença foi dada no caso de um casal suíço que, provavelmente empolgado o romantismo da cidadezinha de Como, resolveu partir para as vias de fato ali mesmo, no restaurante. Parece que o orégano é um afrodisíaco poderoso. O dono do restaurante pegou o casal no flagra e ficou horrorizado — provavelmente se lembrando da mamma de 125 quilos que tem em casa. Deu queixa, mas o tribunal decidiu que o amor está acima de todas as coisas.

Dizem que o George Michael vai se mudar para lá.

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Um sujeito da Malásia se casou semana passada.

Pela qüinquagésima-terceira vez.

Tem gente que não aprende nunca.

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Constantin Mocanu é um romeno de 67 anos. Mas idade não quer dizer sabedoria, como a notícia anterior já provou.

O velhinho tentava dormir e uma danada de uma galinha não parava de cacarejar. No meio da noite, vestindo apenas sua roupa de baixo, ele saiu, furioso, disposto a matar a penosa.

Mas confundiu o próprio pênis com o pescoço da galinha. Cortou o dito fora e, imediatamente, o cachorro veio e comeu. Provavelmente devia ser ser um cachorro saudoso dos tempos de Ceausescu, em que se amarrava cachorro com lingüiça.

Galinha, pinto… Tem alguma piada aí, mas eu não consegui fazer a conexão. Tudo bem. Deve ser porque a história me parece mal contada, e para mim o sujeito devia era estara fazendo saliência com a galinha e, em um ataque psicótico, cortou a coisa errada.

Quem vai saber que mistérios habitam as cabeças dos romenos?

Entregando os pontos

Nos útimos dias eu preferi ficar calado por algumas coisas feias que disseram de mim.

Quando, por exemplo, o Vítor, a Lulu, o Val e o Marcus me deram os parabéns pela vitória de Déda, eu fiquei calado por egoísmo e porque, como todo paraíba (N. do E.: paraíba é o sertanejo deslumbrado pelo Rio de Janeiro) eu peguei a mania de ser ixperto e reslvi pegar todo o crédito da campanha. Fiquei calado porque se fosse falar teria que dizer a verdade: que o mérito é da Eloísa, coordenadora-geral da campanha, do Paulinho Lobo, grande redator e grande músico (o sacana disse que eu toco um violão sofrível e canto abominavelmente. Algumas verdades não precisam ser ditas), do Tarciso, um dos melhores editores que já vi e agora também um dos melhores diretores; e principalmente do Cauê, diretor de criação e maestro da campanha.

Aliás, vamos admitir a verdade: o mérito, mesmo, é do Déda.

E o post que o Allan escreveu me deixou bobo. Mostrei imediatamente para a minha mãe, que agora gosta do Allan desde criancinha. Na verdade, minha mãe gosta de qualquer pessoa que ama a Bahia; o filho dela é só um detalhe.

E por tudo isso, já que resolvi quebrar o silêncio, só posso dizer uma coisa.

Obrigado.

Se não me falha a memória

Eu chegava ao cinema cedo, para a primeira sessão da tarde, e as luzes estavam acesas e as poltronas estavam vazias, e de trás da tela vinham arranjos instrumentais de clássicos do american standard, talvez, quem sabe, interpretados por Ray Conniff.

Eu sentava e pensava na vida, e mesmo não tendo muito em que pensar, me aplicava a esse exercício com a seriedade dos que decidem os rumos do mundo, mas ao mesmo tempo com a leveza dos que sabem que não precisam carregar o mundo nas costas.

Então a música parava, infelizmente no meio de Night and Day, felizmente no meio de Besame Mucho, e eu sabia que imediatamente as luzes se apagariam, e a voz, sempre a voz de Jorge Ramos apareceria em sua grandiosidade de Cinemascope.

Se não me falha a memória, primeiro vinham os cinejornais. Normalmente atrasados em muitos dias, às vezes semanas.

Que bonito era o Canal 100, com imagens grandiosas de jogadores dançando ao redor da bola em meio a um Maracanã mal iluminado, e a locução de Cid Moreira. De que importava que o jogo fosse antigo, que se soubesse de cor e salteado o resultado? O Canal 100, percebo agora, não era um cinejornal. Era uma declaração de amor do cinema ao espírito do Brasil, o casamento entre duas grandes artes.

Eu não sabia, mas aquele era o último suspiro de uma época que estava sendo enterrada pela televisão. Não haveria mais cinejornais. Eu estava assistindo aos últimos momentos de uma arte que nasceu e morreu no século em que nasci mas ao qual sobrevivi.

Depois vinha um curta-metragem. Se eu soubesse o que era a Embrafilme na época resmungaria contra a política cultural do governo, contra aquela tentativa de me infligir aquelas coisas, mas eu não sabia nem que existia governo, e só conseguia suspirar e esperar que o suplício acabasse logo, como um menino que termina o seu dever de casa enquanto ouve os amigos chamando por ele. Mas mesmo odiando-os a todos, não me saem da lembrança um pequeno documentário sobre o São Cristóvão Futebol Clube, campeão carioca de 1926; um curta meio surrealista que depois seria inspiração para um comercial de tintas (fundo branco infinito, e o artista enlouquecido joga as tintas desvairadamente cenário afora); e o melhor de todos eles, aquele em que a divina, divina Denise Dumont, sonho inalcançável de infância, pega um ônibus lotado e se abaixa para a delícia dos passageiros e dos espectadores, e aquela visão calipígia fazia valer todo o dinheiro economizado durante a semana.

Era antes do DiVX, antes do DVD, antes mesmo do video-cassete, e os cinemas costumavam exibir reprises de grandes sucessos; se passei batido por “… E o Vento Levou” assisti a dois, três desenhos da Disney, e vi o trailer de Help! dos Beatles, sem saber o que era help e sem saber quem eram os Beatles.

Então vinha, finalmente, o certificado de censura atestando que aquele filme tinha sido liberado para maiores de 14 anos —  e eu tão feliz por ter apenas 11 e ter conseguido entrar no cinema. Os certificados eram parecidos com os da TV, e para mim faziam parte da programação normal. Não evocavam a ditadura, não me faziam pensar em liberdade de expressão; eram apenas um aviso de que o filme ia começar, de que a espera havia terminado. Um aviso, só isso, como o leão da Metro, os holofotes da Fox ou o cume nevado da Paramount.

Era uma época em que o cinema impunha menos regras, porque se podia fumar, comer, beber, namorar nas poltronas do fundo. Mas eu era criança para namorar, e desde aquela época gostava de ir ao cinema sozinho, e ainda que tivesse namorada não iria ousar as ousadias que se ousam no cinema, e minha mão não desceria dos seus ombros, cautelosa, hesitante, esperando a reação ou o suspiro dela, ela que nem seios teria.

E bolinar a namorada durante um filme dos Trapalhões é simplesmente errado.

E então, quando os créditos finais terminassem de subir a tela, com as luzes já acesas, e se fosse bom o filme, eu esperaria uma nova sessão, sem que nenhum lanterninha falsamente gentil e eficiente viesse me convidar a sair.

Se não me falha a memória, essas lembranças vão completar um quarto de século.

Anotações sobre uma campanha que passou

Há vários tipos de campanha eleitoral. A maioria dos candidatos, claro, acredita que tem chances de vencer. Há também aqueles que entram no jogo por outros motivos: se projetar politicamente para o futuro, se credenciar para vender seu apoio em um eventual segundo turno, ou servir de suporte para uma candidatura maior. Nunca participei de nenhuma dessas e não imagino como seja, mas não deve ser o pior trabalho do mundo, se se descontar o que imagino ser a péssima auto-estima de quem se vê fazendo esse papel de coadjuvante.

Mas há um tipo especial: aquele que se sabe derrotado mas, ao mesmo tempo, se leva a sério.

Este ano houve duas candidaturas “sérias” à prefeitura de Aracaju. A de Marcelo Déda, candidato à reeleição, e a de Susana Azevedo, deputada estadual que contou com o apoio velado do governador João Alves. Dois outros candidatos se lançaram, também: Jorge Alberto, do PMDB, e Adelmo Macedo, do PAN. (Houve também o PSTU, mas desses eu não falo porque eu me respeito e, como meu sonho é ser burguês, eu não voto no 16. Além disso eles têm um desprezo proletário pelo bom e velho marketing político que me incomoda, porque a possibilidade de tirarem meu pão não é das mais agradáveis.)

Não vou entrar no mérito político de cada uma, porque isso, sinceramente, não me interessa. O que me interessa é outra coisa: é a forma como as campanhas se desenrolaram.

Em primeiro lugar, ninguém esperava ganhar essa eleição de Déda. O que estava em jogo aqui era outra coisa, era forçar um segundo turno para que ele não saísse fortalecido em demasia para uma eventual disputa pelo governo estadual em 2006. Ou, pelo menos, esperar que ele ganhasse com menos votos do que em 2000.

Susana começou a campanha dela de maneira errada. Começou batendo, e batendo pesado. Por si só isso já é um erro grave. Se alguém define que sua estratégia será desferir golpes abaixo da linha da cintura, recomenda-se que se mostre, antes, uma boa pessoa para o eleitor. Suas críticas serão mais bem vistas. Susana, no entanto, dispensou essa pequena formalidade e entrou de sola.

Além disso, há um limite em uma campanha de “baixaria”. É o limite da realidade. Se eu passar um progama inteiro dizendo que o sistema municipal de saúde é uma droga, enquanto a população olha em volta e vê o SAMU, um serviço de atendimento de urgência que se tornou modelo para o país, ela vai concluir que eu sou um mentiroso, e nem mesmo as críticas verdadeiras — e ela fez algumas — que eu faça serão aceitas.

Finalmente, na hora de fazer propostas, ela errou no formato. Soltava em cada programa uma enxurrada que diziam pouco ou nada para o povo. Perdia na comparação — uma coisa é dizer que vai fazer, outra é mostrar o que foi feito — e na forma escolhida, porque mostrávamos tudo com mais consistência.

Esses foram alguns os erros da campanha de Susana. Houve mais, mas isso importa pouco: acertou em seus últimos programas, mas àquela altura era muito difícil reverter um quadro que estava quase definido desde o início.

Em poucas semanas ficou claro que eles estavam sem saber o que fazer. Era óbvio que mudavam os eixos do programa de acordo com o resultado das qualitativas que recebiam no dia seguinte. Durante alguns programas iam e vinham da baixaria a programas mais propositivos; mudaram detalhes de jingle, tiraram apresentadores, reforçaram a presença da candidata a vice. O problema é que tentavam uma abordagem e as qualis davam a vitória a Déda; então mudavam tudo e as qualis continuavam dando a vitória a Déda. E então mudavam de novo. Chegaram a um ponto de desorientação tão grande que eu cheguei a discutir com o Cauê o que estava acontecendo: ele achava que no final das contas eles não estavam realizando qualitativas, enquanto eu achava que eles estavam tão zonzos que estavam lendo essas qualis de modo errado. Claro que Cauê, que sempre sabe das coisas, tinha razão. Ninguém com acesso a pesquisas faria aquilo.

Por exemplo, aquele post dizendo que “A vida é bela” foi uma comemoração pessoal. Nós tínhamos feito um programa que julgamos ruim, com falhas em sua estruturação e com vários problemas durante a produção. Na hora que o programa eleitoral acabou começaram as auto-críticas. E no dia seguinte, quando chegou a quali, vimos que demos um banho na concorrência. Por isso a vida é bela, e por isso os risos à toa.

Eu já participei de campanhas em crise. Não é o melhor ambiente do mundo. Nessas horas, há sempre dois grupos que disputam a primazia da definição estratégica da campanha. O pau come, e come feio. Enquanto isso, a equipe de criação fica perdida, porque nessas horas o comando fica mais frágil, mais volátil. A pressão é enorme, e o resultado é normalmente a paralisação. É por isso que no início de setembro eu já estava com pena do pessoal que fazia a campanha de Susana. Porque certamente dormiam pior que a gente, do lado de cá. Sorriam menos. Cometeram algumas falhas do ponto de vista criativo, claro, mas o verdadeiro erro estava na estratégia política adotada, e disso eles não tinham culpa.

O resultado virou notícia nacional.

Houve um caso pior que o de Susana, no entanto. O candidato do PMDB, Jorge Alberto, era um deputado federal que resolveu projetar seu nome na capital. Deveria ter feito uma campanha limpa, apresentando propostas, dando o seu recado. No entanto, resolveu fazer o jogo do governador e passou a bater em Déda. Virou mero suporte da candidatura de Susana, muitas vezes caindo no francamente ridículo, cometendo erros primários — como por exemplo gastando minutos preciosos reclamando que Déda não reconhecia mais seu esforço em liberar verbas para determinadas obras; só ele não percebeu que estava fazendo propaganda dessas obras e dizendo, implicitamente, que Déda realmente tinha trabalhado. Definiu um slogan (“Vote em quem vai ser prefeito”, ao que o povão respondia “Déda”), e depois mudou para “Agora é 15”, copiando o slogan de Lula em 2002 sem atentar para o fato de que aquele slogan tinha uma razão de ser, e ele não tinha nenhuma. Terminou em quarto lugar, com menos de 4%. E o resultado, se é que posso fazer previsões, foi pior do que se ele tivesse ficado em casa. Porque um quarto lugar numa eleição majoritária é desmoralização. Se ele queria entrar em Aracaju, entrou com o pé esquerdo. E ainda levou uma rasteira.

Mas o mais importante, mesmo, é que este foi um momento importante na história política de Sergipe.

Há 10 anos, participei da campanha de um fenômeno político chamado Jackson Barreto. Era uma campanha sem pesquisas, baseada apenas no feeling. Num dos maiores erros de sua história, o Ibope deu a vitória do outro candidato, da situação, no primeiro turno, com 70% dos votos. Todos nós nos despedimos achando que tínhamos perdido. E no entanto Jackson ganhou aquele primeiro turno (teria a eleição roubada no segundo, mas isso é outra história). Aquele foi o ápice da carreira de Jackson, e provavelmente a minha escola em termos de marketing político.

Se a minha leitura de qualitativas estiver correta, se consigo enxergar o que se passa nas ruas, e se os resultados das eleições no interior indicarem alguma coisa, Sergipe está presenciando o nascimento de um novo fenômeno chamado Marcelo Déda.

Numa segunda-feira qualquer

No ponto de ônibus.

Uma mulher se aproxima de mim e diz que aquela senhora no banco está me chamando.

Ela tem seus cinqüenta anos, muito gorda, esparramada na cadeira parece um sapo.

Vou até lá. Ela me pergunta se tenho um trocado. Digo que não.

Até para pedir ela tem preguiça.

***

Numa daquelas casas em frente ao ponto do ônibus funcionava um boteco, desses que varam a madrugada. Antigamente era freqüentado por putas, mendigos e marginais. Íamos lá há uns 15 anos, em fim de noite, e em troca de uma coca-cola, ou nem isso, as putas contavam suas histórias de vida, sempre únicas e sempre iguais.

Mas as putas abandonaram o centro da cidade e foram para a orla, em busca de turistas solitários. A Rua da Frente foi tomada por travestis. E o bar fechou.

***

A moça passa correndo para pegar ônibus. Os peitos grandes e mal contidos pelo sutiã balouçam ritmicamente, e contrastam com seu rosto de susto arquejante. Se sua pressa fosse maior e a expressão fosse de agonia, e não de susto, pegar ônibus seria um orgasmo para ela.

***

Os ônibus passam, um depois do outro, e as pessoas sentadas ou agarradas às barras no teto olham para fora com o olhar triste e ausente de macacos enjaulados e sozinhos. Mas macacos em jaulas coletivas não têm esse olhar. Porque não estão sozinhos, e sabem disso. Os passageiros estão.

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“Sobrados e Mocambos” custa quase 100 reais. Vou ter que arranjar alguém para me dar de presente. Não é pelo preço. É pelo desaforo de um livro custar quase 100 reais.

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Antes do filme começar, os trailers.

Primeiro Constantine. Todos os meus medos foram concretizados. Keanu Reeves destruiu John Constantine. E o filme parece uma mistura de “O Exorcista” com End of Days.

Depois, Alexander. Montado desavergonhadamente nas costas de “Tróia”, pelo visto. Colin Farrell não tem cara de Alexandre. O trailer diz que a maior lenda de todas foi guerreiro, foi isso, foi aquilo e foi amante. A locução em off esbarra em imagens de Alexandre fazendo saliência com uma loura. Mas Alexandre não gostava de louras, aliás difíceis de encontrar na Ásia Menor. Alexandre gostava de moreninhos.

The Mandchurian Candidate pelo visto tenta atualizar a guerra fria para a guerra corporativa. Diminui a importância do filme. Melhor catar “Sob o Domínio do Mal” em algum lugar.

E “Paixão à Flor da Pele” (Wicker Park) é um excelente filme. Muito, muito bom. Uma grande surpresa.

Essas pessoas esquisitas e suas máquinas nada maravilhosas

Meu Deus. Meu Deus do céu. Onde vamos chegar?

Não que eu seja exatamente puritano. Nem que esteja lá muito preocupado com o jeito como as pessoas aproveitam suas horas diante de computador. Mas que as coisas estão fugindo a qualquer limite, estão.

E a cada dia eu me rendo novamente à evidência de que meu bisavô era um sábio. O velho Valois dizia que “Existe gente para tudo neste mundo. E ainda sobra um para comer merda”.

Como xingar um juiz autoritário

Soube pelo blog do Inagaki o caso do juiz que, numa decisão equivocada (alguém já notou que quando a gente quer ser educado e não chamar alguém de completo imbecil a gente diz que ele está equivocado?), retirou do ar um blog por causa de um comentário aparentemente pouco elogioso a respeito de uma empresa de recolocação profissional. Tenho algumas sugestões simples a fazer:

1 – Se você pretende registrar um domínio, registre fora do país. Um .com, .org, .net, no fim das contas, sai mais barato que os .br. Dê uma olhada no GoDaddy.

2 – Por via das dúvidas, garanta também hospedagem fora do país. São um pouco mais caros do que aqueles brasileiros mais baratos, estão na faixa dos medianos (você encontra coisa decente por 6 dólares mensais) e normalmente oferecem uma taxa de transferência muito maior que os brasileiros.

E então sinta-se livre para xingar o filho da puta que você quiser. Inclusive juízes, caso conheça algum juiz filho da puta. Eu, com o notório respeito que tenho pela classe dos que um dia alisaram os bancos da faculdade de direito, nunca conheci nenhum. Mas nunca se sabe.

Se você não está com vontade de xingar ninguém, pode contar piadas. Piadas não são ofensa; normalmente são grandes demonstrações de carinho. Por exemplo, sabe como a gente chama um advogado burro? Meritíssimo.

Ontem e hoje

Via John Robb:

Média mensal de baixas americanas (mortos e feridos) durante a invasão do Iraque: 482
Média mensal de baixas americanas (mortos e feridos) durante a ocupação do Iraque: 415
Média mensal de baixas americanas desde a transição para o “governo” iraquiano: 747
Número de ataques à indústria iraquiana do petróleo em abril de 2004: 4
Número de ataques à indústria iraquiana do petróleo em junho de 2004: 12
Número de ataques à indústria iraquiana do petróleo em agosto de 2004: 21
Preço do petróleo (contrato de cinco anos) 1991/2001: ~$20
Preço do petróleo (contrato de cinco anos) 2004: $35
Estimativa do número de guerrilheiros insurgentes no Iraque em novembro de 2003: 5.000
Estimativa do número de guerrilheiros insurgentes no Iraque em setembro de 2004: 20.000
Estimativa não oficial do número de guerrilheiros insurgentes no Iraque hoje: entre 40.000 e 50.000
Custo médio anual das guerras no Iraque e no Afeganistão para os EUA: ~$82 bilhões (o que foi gasto até agora e os $87 bilhões pedidos para 2005 para guerra e reconstrução)
Custo médio anual da guerra do Vietnã (em dólares de hoje): $61.8 bilhões

A propósito, estima-se que a média mensal de mortos iraquianos seja, por baixo, 20 vezes maior que a americana.

O décimo-sexto cigarro do dia

Pela primeira vez, demorei muito tempo para comprar um livro de Rubem Fonseca. Comprei “Diário de um Fescenino” dia desses apenas porque, já com uma coletânea de contos de I. B. Singer nas mãos, vi o livro e pensei que era uma indignidade relegar um livro do “Zé Rubem” a tamanho esquecimento. Troquei os livros, mesmo sabendo que em algum lugar iria me arrepender da escolha. Mas ingratidão é um dos raros defeitos que não consegui desenvolver, e eu devo muito a Rubem Fonseca.

Acho Rubem Fonseca um dos maiores escritores brasileiros do século XX. Ler “O Cobrador” foi um choque; e choque parecido tomei alguns anos depois quando li “Lúcia McCartney”. Este é, para mim, o melhor livro de contos já escrito em língua portuguesa.

Livros como esses e “Feliz Ano Novo” e “A Coleira do Cão” fizeram de um mim um sátiro e um glutão — quer dizer, fizeram de mim um viciado em Rubem Fonseca. É por isso que ano após ano ele vem lançando seus livros e eu os venho comprando. Já não faço mais como antigamente, quando comprava seus livros no dia em que chegavam à livraria; mas ainda compro. Mesmo sabendo que estou apenas alimentando meu vício fonsequiano, mesmo sabendo que dali a algumas horas vou terminar o livro que não consegui abandonar no meio com aquela mesma velha sensação de fastio, como o décimo sexto-cigarro do dia.

A boa notícia é que “Diário de um Fescenino” não é patético como “O Doente Moliére”. A má notícia é que não chega aos pés de nenhum outro romance seu — não consegue sequer ser superior ao “Mundo Prostituto”, mesmo com sua narrativa paródica.

A primeira coisa que qualquer pessoa nota ao ler o “Fescenino” é que o diário não é exatamente uma forma que Rubem Fonseca domine. Talvez se possa alegar que a estrutura que basicamente dá datas à mesma velha narrativa ficcional que Fonseca vem repetindo ano após ano é uma decisão consciente do autor; não parece ser, e de qualquer forma seria uma saída muito fácil. No final, o que se tem é apenas mais um romance fonsequiano, apenas com datas no lugar dos números dos capítulos. Mas ele tenta sempre lembrar que é um diário, e é nisso que se perde.

Depois vem a sensaçao de que você conhece o protagonista: é apenas Gustavo Flávio empobrecido espiritualmente e com outro nome, homem com outra linguagem mas com o mesmo espírito. E tantos outros personagens espalhados por tantos outros livros.

Fica a impressão de que Rubem Fonseca quis subverter o tema do livro, aparentemente encomendado por sua editora, falando menos de putaria do que de literatura. Se foi isso, Fonseca não conseguiu. Não há a crueza do Cobrador cuspindo na boceta da mulher que vai estuprar, nem Rufus é um esteta utópico como o velho e bom Morel; há apenas diluição, a repetição de uma fórmula gasta há muito tempo.

E restam os personagens, péssimos personagens. Nenhum deles é mais que uma caricatura; de Virna a Elizabeth, de Clorinda a Gouvêa&Soares, são todos apenas esboços tracejados em um guardanapo de bar, com o agravante de serem esboços já conhecidos. Finalmente o livro é resolvido com um deus ex machina medíocre e inconcluso, com um adendo final — o ressurgimento de uma personagem que, durante todo o clímax do livro, ficou de fora inexplicavelmente — que não é apenas dispensável, mas também improvável.

É por isso que Rubem Fonseca, hoje, é apenas o décimo-sexto cigarro do dia. Você espera por ele depois que fuma o décimo-quinto; mas depois, quando você está no trigésimo, o décimo-sexto sequer existiu, porque não é sequer um traço na memória: sumiu completamente no ar, se esvaiu em fumaça azulada.