As espetaculares oportunidades aracnídeas desperdiçadas

Só o Homem-Aranha para me tirar da minha aposentadoria como frequentador de cinemas.

Acho que todo mundo que escreve sobre filmes de super-heróis deveria lembrar de uma coisa antes: eles estão aí já há quase um século, e fazem parte do imaginário das pessoas de maneiras mais profundas do que se imagina. Personagens como Bruce Wayne, Peter Parker ou Mary Jane Watson são mais familiares à maioria da humanidade do que nomes como Bazarov, De Rubempré, Vronski ou Murdstone. No entanto, se ninguém em sã consciência respeitaria um filme em que o sr. Pickwick se tornasse parte de algo como a Liga Extraordinária, ou que transformasse Julien Sorel em um super-herói atlético, as pessoas parecem aceitar candidamente as barbaridades que se faz com as histórias dos super-heróis.

Resumindo a história original em algumas linhas: o secundarista Peter Parker é uma dessas vítimas preferenciais de bullying que é picado por uma aranha radioativa e, em vez de câncer, desenvolve superpoderes. Ao deixar escapar um bandido que posteriormente mata seu tio, ele descobre que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Passa a atuar como um vigilante uniformizado, combatendo principalmente supervilões como o Abutre e Duende Verde enquanto tira fotos de si mesmo para um jornal chamado Clarim Diário, onde tem um rápido namoro com Betty Brant. Parker entra na universidade e conhece Gwen Stacy, que virá a ser sua namorada, e também Mary Jane Watson e Harry Osborn, seu futuro melhor amigo. Harry é filho do Duende Verde, que causa a morte de Gwen Stacy e morre em seguida. Parker então começa a namorar Mary Jane, com quem se casará mais tardes, até que os editores percebam a grande cagada que é casar um herói e desfaçam tudo.

Basicamente, essa foi a história do Aranha durante 50 anos. O que faz produtores de cinema quererem mudá-la é um mistério para mim. Não apenas por causa do seu tempo de serviço; mas porque esse é um excelente argumento, que pode ser desenvolvido de maneiras fascinantes.

Por exemplo, eu faria uma trilogia diferente (alguém um dia pode me explicar por que Hollywood desenvolveu essa tara em trilogias? Eu não consigo achar explicações razoáveis). Filme 1: Conhecemos Peter Parker, o babaca. Vítima eterna dos colegas, desprezado pelas meninas — com exceção de Liz Allan, o que ele não percebe. Parker é picado por uma aranha, tenta ganhar a vida como um Hulk Hogan genérico, mas deixa escapar o bandido que mata seu tio. Para purgar seu pecado vira herói, e aparece então seu primeiro grande inimigo, o Abutre (na verdade o primeiro vilão do Aranha foi o Camaleão, mas ele não daria um personagem adequado ao cinema). Parker começa a tirar fotos de si mesmo para ajudar a sustentar a casa, que vende para o Clarim Diário, onde conhece não apenas J. J. Jameson — cujo filho salva e, por isso, ganha sua inimizade eterna –, mas também Betty Brant, com quem passa a ter uma relação complicada, estabelecendo um pequeno triângulo confuso com Liz Allan. O filme termina com o Aranha derrotando o Abutre, mas perdendo suas mulheres. Porque o Aranha sempre se ferra no final.

Filme 2: Parker entra na faculdade. Conhece Gwen Stacy e Harry Osborn, e também Mary Jane Watson. Muita tensão sexual entre Parker e Stacy, mal resolvida. Aparece um novo vilão, o dr. Octopus. Tia May adoece, Parker se vira para tratá-la, a vida se torna um inferno. Jameson consegue fazer com que o Aranha seja procurado pela polícia. Parker finalmente começa a namorar Gwen Stacy, mas logo depois seu pai (que já tinha deduzido a identidade secreta de Parker) morre ao salvar uma criança durante uma luta entre o Aranha e o Octopus. Ele pede para que Parker cuide de Gwen, mas ela agora tem horror ao Aranha, complicando a vida do nosso herói. Ah, sim: no final o Aranha derrota o Octopus, mas eis que surge um tal de Duende Verde. Porque o Aranha sempre se ferra no final.

Filme 3: esse seria o filme “montanha russa”, o clímax em que a base delineada no filme anterior teria como cobertura uma ação assustadora. Agora o Duende Verde se torna um grande problema para o Aranha, que mora com Harry Osborn. O namoro com Gwen fica cada vez mais complicado. Parker enfrenta novos vilões (à escolha do freguês: pode ser o Kraven, pode ser o Rei do Crime ou o Electro, mas eu recomendaria muito o Escorpião). Depois de derrotá-los, eis que reaparece o Duende e mata Gwen Stacy. Ele morre num confronto com o Aranha, que termina o filme de maneira bem filosófica no Empire State. Sabe como é: o Aranha sempre se ferra no final.

Digam o que quiserem: eu gosto mais da minha trilogia do que dos filmes do Aranha feitos até agora. O engraçado é que esses filmes não mudam nada em relação à história tradicional dos personagens; são basicamente os dez primeiros anos das revistas do Aranha condensados em seis horas. Infelizmente, essa nova trilogia só existe na minha cabeça, e o que eu queria comentar mesmo era esse filme novo do Aranha.

Não é possível assistir a “O Espetacular Homem-Aranha” sem compará-lo à trilogia de Sam Raimi. Junto com os dois primeiros Supermen, de 1978 e 1980, o “Homem-Aranha 2” é o melhor filme de super-heróis já feito, e mesmo os defeitos que tinha foram herdados do filme inicial: erraram ao colocar Mary Jane na história desde o começo — e ainda por cima escolheram a Mary Jane errada. A decisão de utilizar uma teia orgânica gerou um comentário excelente do Henrique Plácido aqui neste blog: “Se é pra ser anatomicamente correto, ele tinha que soltar teia do cu”. Robbie Robertson era interpretado pelo ator errado, assim como ambos os Osborns, e o uniforme do Duende Verde parecia contrabandeado de um episódio dos Power Rangers. Mas o resto foi excelente. De J. J. Jameson à tia May, o elenco era perfeitamente adequado — Alfred Molina como o Dr. Octopus é inesquecível. Além disso, o filme mostrava o máximo possível de respeito ao uniforme original, em um tempo em que virtualmente nenhum uniforme é deixado intacto — olha o Batman aí, que depois de 7 filmes ainda não aprendeu a fazer seu uniforme.

Nessa comparação é fácil perceber que “O Espetacular Homem-Aranha” acaba sendo um filme contraditório. De um lado, umas poucas melhorias bem vindas; do outro, um amontoado de boas oportunidades perdidas, com boas ideias sendo jogadas fora por um roteiro que, se não é ruim, não amarra todas as pontas.

A principal melhoria está nos efeitos especiais. 10 anos fazem muita diferença, e hoje eles estão próximos à perfeição. O resultado é fluido, realístico. O elenco é surpreendentemente bom, e Andrew Garfield é uma excelente surpresa, apesar da estranheza inicial causada por sua carinha enjoada de menino punk punheteiro viciado em Rivotril, adequado ao público de “Crepúsculo”. Seu desempenho impressiona porque, ao contrário que agora andam dizendo, Tobey McGuire foi um excelente Peter Parker. Mais otário até do que o Parker original, McGuire resgatava o seu espírito, aquele dos estertores extemporâneos da década de 50 — o sujeito que enquanto vencia grandes vilões não conseguia colocar a mão embaixo do sutiã da namorada. No entanto também passava uma certa passividade; Garfield transmite melhor a angústia e as contradições da adolescência e de um personagem dividido, dando nova vida ao personagem e iluminando facetas que andavam meio esquecidas.

Martin Sheen está adequado ao papel do tio Ben, embora um ator menos famoso fosse mais recomendável. Mas nem a pau que a Noviça Voadora pode ser a tia de Parker: Sally Field como tia May é uma escolha tão ruim quanto Kirsten Dunst para Mary Jane, talvez pior. Quanto ao capitão Stacy, o fato é que durante anos, desde que se começou a falar em um filme do Aranha, aí por 1990, eu tinha meus favoritos para o papel. Primeiro Ralph Bellamy, então ainda vivo; depois James Cromwell com sua altivez patrícia, ainda hoje minha opção preferencial para o papel. Mas Dennis Leary não faz feio como o personagem. Rhys Ifans, um excelente ator, está bem como o dr. Curt Connors. O único problema é que destruíram o personagem, ao tirar dele a mulher e o filho, o que possibilitava conflitos entre o reptiliano e o humano que davam grandeza e importância ao Lagarto.

Levar Parker de volta para a escola secundária foi uma escolha acertada, porque possibilita uma série de conflitos bem adequados ao público-alvo. No entanto é mal aproveitada, e o resultado é que tudo é excessivamente superficial. Parker sempre foi mais importante que o Aranha, e se compreendessem melhor isso poderiam evitar absurdos como a transformação de Flash Thompson em amiguinho do peito sem nenhuma explicação. Esse é o tipo de coisa que dá para fazer rapidamente: nas revistas, por exemplo, Parker e Harry Osborn vencem a antipatia inicial e se tornam amigos em exatamente cinco quadros. Se o filme não consegue fazer algo semelhante, é por pura incompetência.

O uniforme sofreu uma modernização desnecessária e, o pior, inadequada. E isso vai ser sempre incompreensível para mim. Eu entendo que algumas modificações — em nome principalmente das características técnicas do meio — às vezes são necessárias; daí porque as linhas de teia no uniforme do Aranha de Raimi mudaram de cor e ganharam relevo. Mas Batman: Dead End provou há muito tempo que é possível, sim, fazer um filme de ação respeitando o uniforme dos personagens. Isso talvez não incomode a maioria dos espectadores: mas incomoda aqueles que, como eu, estão às voltas com o personagem há tempo demais.

O grande equívoco de “O Espetacular Homem-Aranha”, no entanto, é a maneira como trataram Gwen Stacy.

Gwen é um personagem que morreu há 40 anos, no que é uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos. Sua ignorância a respeito da outra identidade do namorado gerou situações dramáticas interessantes que carregaram as histórias do Aranha durante alguns anos. No entanto, no filme ela não apenas conhece a identidade secreta o Homem-Aranha, como ainda o ajuda. No fim das contas, o filme a trata como os quadrinhos trataram Mary Jane depois de casada. É um desperdício enorme, quase vergonhoso, porque as possibilidades dramáticas, especialmente quando se faz um filme voltado para o público adolescente, são enormes. Dizem que isso foi feito para aproximar o filme de uma série alternativa do Aranha, a “Ultimate”. Pois é. Deve ser.

No fim das contas, o novo filme do Aranha fica apenas um pouco abaixo do primeiro filme, lançado dez anos atrás, com erros e acertos diferentes e perdendo a vantagem da novidade. Um filme razoável, com erros e acertos, nada mais que isso. Como aliás é uma boa história em quadrinhos.

George Martin

Sir George Martin é objeto de um documentário, exibido ano passado pela BBC, que sai agora em DVD.

Martin foi o produtor de quase todos os discos dos Beatles (não produziu o Let It Be, perpetrado por Phil Spector, e parte do “Álbum Branco”). É uma lenda do rock, um entre os muito poucos produtores que conquistaram esse status.

Não conheço o teor do documentário e não sei se ele insiste em um mito muito difundido: o de que George Martin foi o grande responsável pelo avanço dos Beatles no estúdio, que sem ele a banda não teria avançado musicalmente da maneira como avançou.

É o tipo de bobagem que as pessoas escrevem e repetem sem pensar muito no assunto; pelo menos essa é a única explicação que encontro para que algo desse tipo ainda mereça espaço. Porque a prova dos nove desse mito frágil pode ser feita de uma maneira muito simples. Basta fazer uma pergunta: o que foi mesmo que Martin fez sem os Beatles?

Ninguém tem essa resposta. Não porque Martin não tenha produzido muita coisa — sua carreira pós-Beatles foi bastante movimentada, principalmente em seu estúdio em Montserrat, aquela ilhota destruída por um vulcão há uns 15 anos. Mas porque o que ele produziu é simplesmente desimportante. Do outro lado do aquário dos Beatles, George Martin participou de uma das maiores revoluções musicais da história. Sem a banda, foi só mais um entre tantos excelentes produtores, cuja função é fazer o melhor disco possível a partir da obra de um artista.

Isso não é um demérito. Martin foi um produtor brilhante, de bom gosto e sensibilidade impressionantes e uma enorme capacidade de ouvir. Mas é só isso. Objetivamente Phil Spector, o inventor do famigerado Wall of Sound, exerceu uma influência maior que a de Martin. Não se trata de diminuir o seu papel, mas de reconhecer exatamente qual foi ele.

De certa forma, aconteceu com Martin o que aconteceu com Ringo e, em menor medida, Goerge Harrison: caudatário da obra impressionante de dois gênios em um tempo especial, Martin acabou adquirindo uma aura muito superior à sua verdadeira capacidade. Talvez por isso, alguns anos atrás, McCartney — o único amigo de Martin entre os Beatles; Lennon chegou a ter uma briga pelos jornais com ele, em 1972 — tenha se mostrado ressentido ao ver que pareciam dar mais crédito a Martin pelo álbum Sgt. Pepper’s do que ele achava que o produtor merecia.

Mas tudo isso são apenas palavras. Há um jeito muito fácil de entender o papel real de George Martin no estúdio, e me impressiona que as pessoas não façam isso com mais frequência. Porque é tão fácil: pegue uma canção de Lennon/McCartney que ele tenha produzido tanto com os Beatles como com outra banda. Por exemplo, I Call Your Name. Lennon originalmente deu a canção a Billy J. Kramer, mas logo depois também a gravou. As duas versões foram produzidas por Martin.

Esta é a versão de Kramer:

E esta é a versão dos Beatles:

A versão de Kramer envelheceu mais que a dos Beatles — e é uma canção que não está entre os grandes clássicos da banda —, é muito mais pop e traz aqueles “vícios” típicos de sua época. A versão dos Beatles traz inclusive alguns compassos de ska, novidade então e que dá uma pista da inventidade musical e sonora da banda. O que faz a diferença, nessa e em tantas outras canções, é justamente a criatividade e o talento da banda. Não é o produtor. É simples assim.

Post para a Lucia Malla

O tubarão cabeça-chata é comum em todo o Brasil, em especial na costa nordestina, e mais especificamente no Ceará. Mede até 3 metros e meio e sua dieta é composta principalmente de surfistas pernambucanos. É considerada uma espécie alegre e amigável, e tem mania de contar piadas. Se ameaçado, costuma reagir com um “arre égua, macho!”.

Magnatas

Um post antigo do Inácio Araújo sobre o cinema canta, incidentalmente, loas aos bons tempos em que os estúdios eram dirigidos por gente que amava o cinema, ao contrário dos tempos de hoje quando é tudo pelo dinheiro:

Que os produtores atuais são, em geral, nefastos, nenhuma novidade. São negociantes. Não entendem de cinema como os velhos magnatas e nem estão aí para o desgaste que causam. Mas a proporção absurda de gastos é novidade. O dinheiro não está na tela (de fato, eu vivo me perguntando onde estão os alegados não sei quantos milhões gastos).

O Inácio Araújo é um dos melhores críticos de cinema brasileiros, e seu blog é leitura cotidiana. Mas eu não faço idéia de que tempos foram esses em que os velhos magnatas entendiam tanto assim de cinema. A mim parece outra lenda, como aquela de que na Depressão os estúdios cresceram, quando na verdade, além de precisarem desesperadamente do auxílio do Governo, sofreram muito no início da crise e apenas acompanharam a retomada econômica pós-New Deal.

Se se falar de gente como Irving Thalberg, cujo talento e capacidade de trabalho viabilizaram o surgimento do studio system, na Universal e posteriormente na MGM, tudo bem. Mas Thalberg não era exatamente um magnata — era basicamente um produtor muito bem pago, e perdeu bastante poder pouco antes de morrer.

Magnatas de verdade eram os donos dos estúdios, que aliás ficavam em Nova York. Ou, ao menos, os executivos como Jack Warner ou Louis B. Mayer.

O fato é que, mesmo no auge do studio system, os estúdios eram comandados basicamente por administradores. Era um pessoal que estava no negócio de teatros e cinemas e fugiu para Hollywood para não pagar royalties a Thomas Edison. O negócio de Hollywood, no fundo, sempre foi fazer dinheiro, muito mais do que filmes.

Os Laemmle, pai e filho, quebraram a Universal quando tentaram ir além dos filmes formulaicos, mais apropriados à TV do que ao cinema como o entendemos hoje, e que eram o material com que a Universal trabalhava. Jack Warner? Pouco mais que um açougueiro — e isso se refletia nos produtos da Warner, normalmente de qualidade inferior em valores de produção (o acabou dando no cinema noir). Louis B. Mayer era tão incompetente que após a saída de David Selznick da MGM criou uma tal de “gerência por comitê”, em que diluía responsabilidades, diminuía riscos e limitava criativamente a MGM, passando a depender de uns poucos produtores de talento como Arthur Freed. Mais tarde, esse modelo levaria à derrocada da MGM, que se notabilizaria por custos elevadíssimos mas produção pouco acima do medíocre.

Além disso, Hollywood sempre gastou muito. Sempre, e isso não deveria ser surpresa. Sonhos custam caro — e está aí o Jaguar que eu quero que não me deixa mentir. Filmes classe A sempre tiveram orçamentos milionários, mesmo na era do cinema mudo. Os padrões orçamentários de Hollywood sempre foram desproporcionais. “…E o Vento Levou” custou cerca de 3,9 milhões de dólares em um ano em que uma casa custava cerca de 3.800 dólares e um carro novo, 700. E ainda assim custou menos que a primeira versão de “Ben-Hur” (3,9 milhões em 1925).

Nem sempre se vê o resultado nas telas, é verdade. Mas isso é tão verdadeiro hoje quanto ontem. Os custos de Hollywood são necessariamente altos porque precisam sustentar um grande ecossistema. E porque qualquer atividade criativa precisa de um grande investimento para resultados incertos.

Por tudo isso, esse mito de que antigamente é que era bom é só isso: mito. Hollywood sempre foi uma grande indústria, é que o dizem. Nesse caso, a presidência ficava em Nova York e a Califórnia era, basicamente, o chão de fábrica. O que fazia a diferença, mesmo, eram as circunstâncias. A indústria cinematográfica obedecia a uma lógica diferente nos anos 30 e 40. A ausência de televisão fazia com que se exigisse não apenas os filmes “de prestígio”, como “Grande Hotel”, mas filmes B em proporção muitas vezes maior. Centenas de filmes eram produzidos anualmente porque as pessoas precisavam assistir a um, dois filmes por semana, e os cinemas eram os únicos lugares onde isso era possível. Essa enxurrada de filmes era necessária para sustentar as redes de cinemas e atender a uma população cada vez mais ávida por entretenimento.

Claro que, havia, sim, alguns poucos magnatas do tipo que as pessoas mencionam com saudades desses tempos dourados que nunca existiram, os grandes independentes: Selznick, Sam Goldwin, mais tarde Darryl Zanuck — gente que trabalhava mais ou menos à margem do sistema, se concentrando em filmes de alta qualidade e alta rentabilidade. Mas não eram eles que definiam a indústria, até porque dependiam do studio system; afinal, esse era um sistema sofisticado — ainda que canalha e monopolista — de financiamento, produção e distribuição.

Mesmo hoje é só olhar a lista de produtores de boa parte dos filmes de Hollywood para ver que, no final das contas, o pessoal que gosta de cinema está lá, como sempre esteve. Scorsese, por exemplo, é um cineasta acabado, mas ninguém jamais poderá negar seu amor obsessivo pelo cinema. Spielberg, Lucas, Jack Rollins, Johnny Depp que produziu “A Invenção de Hugo Cabret”, todos esses estão aí. A indústria cinematográfica continua dando espaço para seus amantes, para gente que gosta de cinema como redatores publicitários em início de carreira amam a publicidade. Mas eles são, como sempre foram, a minoria. O resto são aqueles cujo negócio, ontem como hoje, é fazer dinheiro.

Facebook

Eu gosto de Facebook.

Até então eu não gostava tanto assim de redes sociais. Sou um mastodonte para essas coisas, passei batido pelo Orkut, Twitter nem sei quem tu és. Mas do Facebook eu gosto.

E gosto mais porque descobri também que amo ver as pessoas reconstruindo seus passados com frases bem escolhidas, de maneiras mais ou menos sutis, porque a história da gente é a gente que faz, e o passado é uma obra em eterna construção. O sujeito que como eu não comeu ninguém a vida inteira passa a ser fodão; o moço que ninguém respeitava se comporta de maneira superior a todos, esperando que afinal de contas esse negócio do mundo ser dos nerds seja verdade. O bullying na escola passou a não existir, os tapas não doeram, e a foto na Europa esconde a bolsinha da CVC.

É assim mesmo, e talvez isso seja bom: as pessoas merecem ser felizes e ter a história que gostariam de ter, porque aquilo em que a gente acredita muito se torna realidade em nossas lembranças, quem vai dizer que não? E agora o que é verdade em nossas memórias pode ser verdade também nas memórias dos outros, porque o poder agora está em nossas mãos, longa vida à internet. E se a gente consegue convencer os outros, talvez consiga convencer a nós mesmos.

É por isso que gosto tanto ver as declarações de amor eterno e tão grande de casais que, eu sei, fora do Facebook se pegam de porrada, fazem troca de casais e às vezes se apaixonam pelos outros, corneiam o marido ou esposa amados — não é interessante como a gente sempre sabe da intimidade dos casais, a intimidade verdadeira? E isso me ensinou muito: aprendi que mesmo rolando na cama com outra pessoa eles ainda amam suas mulheres. E daí que ela deixa o amante lhe dar na cara, mas não o marido, se é dele que ela gosta, e a brasileira é mineira com marido e sueca com os outros?

A única mudança, menos sutil do que parece, é que antigamente a gente achava que as outras pessoas eram mais felizes por omissão. Ou seja, a gente achava que o casal tal era feliz porque não os via brigando, porque eles não lavavam sua roupa suja diante de nós, não se estapeavam na nossa frente; e por isso nos surpreendíamos quando se separavam: “mas eles pareciam tão felizes!” Hoje isso mudou, as pessoas passaram a mistificar as outras de forma ativa, e agora a gente acha que o casal tal é feliz não porque não os vê brigando, mas porque eles dizem que são felizes o tempo todo, sem que ninguém pergunte. E fulano que não vê o filho há seis meses mostra aqui e ali as fotos dele, os dois juntos sorrindo e meu filho, como eu te amo, gente, vê como eu sou um paizão?, e talvez, quem sabe, daqui a tantos anos o filho tome isso como atenuante, é, o puto realmente gostava de mim.

Todos dizem isso, claro, através do Facebook. E com tudo isso, com esse império de mentiras que não são mentiras, de verdades que não eram verdades, é engraçado como mais pessoas se tornam mais infelizes porque comparam a felicidade aparente dos outros com a sua própria, e vêm que suas vidas jamais serão como as vidas dos outros parecem ser, como as vidas dos outros nunca serão.

Velhices

A vida é para quem pode.

Eu, por exemplo, tinha um ideal de velhice: queria ser um velho sibarita, com um passado de pecados grandes e pequenos, um passado de vergonhas e de shhhs discretos — e na lembrança tudo de ruim que uma pessoa pode fazer na vida em nome de um hedonismo desenfreado.

Queria ter uma velhice de velhas chorando ao pé da minha cova, como um Brás Cubas moderno, e se não fosse querer demais queria umas novinhas chorando também; o seio arfando, era o seio que eu queria fazer arfar mesmo depois de morto.

Queria uma velhice desdentada mas de sorriso fácil, uma velhice de transplante de fígado, uma velhice de tosses em meio a baforadas, uma velhice de meninas dóceis diante do velho safado em troca de uns dinheiros aí.

Enquanto pude, enquanto ainda havia esperança, quis uma velhice de histórias que encantavam jovens incapazes de viver com tamanho abandono, velhice de histórias que atrás do riso escancarado mascaram sua maldade egoísta, escondem a dor que causaram — uma velhice de cínico que admite que a vida só pode ser realmente aproveitada apesar dos outros, e não se arrepende de nada disso.

Velhice de culpa se possível, de dolo se necessário.

Uma velhice de tornozelos inchados pela cachaça e de memórias esquecidas, memórias boas, que as memórias ruins a gente tenta enterrar e finge que não existem.

Enquanto pude: uma velhice de gente errada, que essa é a velhice que vale a pena, quando nada mais funciona direito, quando a gente percebe que a velhice não é um bicho de sete cabeças, tem apenas duas e nenhuma funciona direito.

Sei não, mas deu tudo errado, eu não sabia que as lembranças do futuro tinham que ser agora, e é, não vai dar mesmo, a preguiça não deixa e a ressaca é dura de aguentar, e minha filha já disse que vai vender meus livros quando eu morrer e quer saber o preço de cada um deles para não ter prejuízo.

Exercício de memória

Diante do meu cafofo surgiu um Karmann Ghia à venda. Azul, estacionado na frente do edifício. Pergunto ao porteiro de quem é aquele carro, é de um vizinho que recentemente escreveu um livro polêmico, e eu não conheço vizinho nenhum, mas agora gostaria de conhecer — e aí, vizinho, tem uma xícara de açúcar? –, porque acho o Karmann Ghia um carro belíssimo em seu tempo, bonito ainda hoje, e se tivesse dinheiro compraria o danado. Eu sou um saudosista e um nostálgico.

Ver o Karmann Ghia me lembrou que há mais de 30 anos, quando eu era criança, havia muito menos carros do que hoje.

Ainda peguei a Willys, que àquela altura já pertencia à Ford: vi na rua e andei em Gordinis, AeroWillys, em Rural e no Jeep, carros que já não eram fabricados. Havia também aqueles menos menos comuns, mas muitas vezes mais desejados, dos quais se viam um ou dois circulando por aí: Miúra, Puma, Lafer, Toyota Bandeirante. Havia também os Gurgel. Cheguei a dirigir um Gurgel Supermini. Foi o pior carro que já dirigi na vida.

A Chevrolet tinha a Veraneio, o Opala, o Chevette e a Caravan circulando nas ruas. A Fiat tinha apenas o 147, a não ser que se conte os Alfa Romeo que ainda circulavam por aí, e era montadora de péssima fama.

A Chrysler tinha o Dodge Dart e o Polara, pouquinhos, muito pouquinhos. Vi dia desses um Polara — olha, um Doginho!, como quem diz “olha, um iguanodonte!” — e eu nem sabia que esses carros com mais de 30 anos ainda circulavam.

A Ford tinha ainda o Galaxie, o Corcel I e II, o Jeep, a Belina e o Maverick. Que carro bonito era o Maverick. Minha última lembrança de um Maverick é a de estar pendurado no capô traseiro de um deles, o desgraçado do motorista a 100 por hora no caminho da praia, numa madrugada de carnaval de muito tempo atrás. Eu devia ter parado de beber então, mas não parei e olha só no que deu. E a F-10. Ou era C-10? Eu não lembro mais. E a Volkswagen, de longe a maior de todas, tinha o Fusca (ou simplesmente Volks), Kombi, Karmann-Ghia, o 1600, o TL, a Variant, o SP2, Brasília, e Passat. De todos esses carros, só a Kombi sobreviveu.

É triste conseguir lembrar de tudo isso, e talvez mais triste fazer uma lista assim, uma lista sem sentido. Não pelos carros, porque eu não gosto de carros, não gosto sequer de dirigir. Mas por mim.

House of Dolls

Uns anos atrás fiz este post dizendo que o House, aquele doutor do seriado, era entre outras coisas gay.

O resultado foi uma enxurrada de gente argumentando, reclamando ou simplesmente me xingando. Não, não, seu burro, House não é gay. O amor óbvio entre ele e Wilson é só amizade. Como pode alguém que eu admiro tanto ser gay? Não, Rafael, você entendeu tudo errado, você é um idiota que fica denegrindo as pessoas, viado é a mãe.

Em tantos anos de história deste blog juro que nunca vi tanta gente tão zelosa quanto às pregas dos outros. Pior: pregas fictícias.

Então o seriado acabou esta semana. Leio no jornal que, nele, House forja sua própria morte para poder passar os últimos meses de vida de um Wilson com câncer terminal ao seu lado.

Por isso retiro o que mais eu disse sobre House. Ele era um bom homem, no fim das contas, capaz de se sacrificar pela felicidade do seu grande amor. Não é todo mundo que é capaz de algo assim, de tamanho altruísmo. Só o amor verdadeiro é capaz de um gesto tão nobre, de se dar dessa forma.

E as pessoas que vieram aqui me contradizer e me xingar e negar a homossexualidade de House e o seu amor verdadeiro e feérico por Wilson deviam se envergonhar do que fizeram.

Os Três Mosqueteiros, assassinados mais uma vez

E daí que eu jurei que não ia ver, mas assisti a “Os Três Mosqueteiros” dia desses.

Eu tinha jurado que não assistiria ao filme porque há alguns anos perdi umas duas horas de minha vida, horas que não voltam mais, assistindo a uma coisa bizarra chamada “A Vingança do Mosqueteiro”, que deixo de descrever por falta de palavras suficientemente baixas. Certo, sou um velho cada vez mais velho e um chato cada vez mais chato, e paciência é artigo cada vez mais escasso; mas aquele era um filme tão ruim que mesmo minha ranhetice se viu sem palavras diante de tamanha barbaridade.

Esse novo filme é talvez ainda pior. E isso é assustador porque “Os Três Mosqueteiros”, o livro original, é literatura juvenil no que ela tem de melhor, tão bom que adultos podem ler com prazer. Ainda hoje passo de vez em quando os olhos por ele; e um dia ainda leio suas continuações inteiras.

Em princípio, um livro como o de Dumas deveria ser um roteiro pronto para o cinema. O trabalho necessário seria apenas o de enxugar a trama para fazer com que tudo caiba em hora e meia, duas horas de filme. Por alguma razão, no entanto, não é o que acontece. Assim como tem gente que acha que pode melhorar o que já está bom, ninguém parece conseguir deixar de tentar deixar sua marca em “Os Três Mosqueteiros”.

A esta altura do campeonato, já não tenho muito contra adaptações e licenças poéticas exageradas no cinema. Não é apenas questão de rendição; mas por entender, finalmente, que um meio diferente e sensibilidades diferentes às vezes demandam uma certa flexibilidade. Mudanças aqui e ali, alterações no roteiro para fazer com que fique tudo mais espetacular, a criação de razões para o uso de efeitos especiais, já fazem parte do cotidiano da gente. Reclamar contra isso é bobagem. Até mesmo quando se trata de personagens e tramas com quase 200 anos.

É isso o que me faria aceitar uma Constance Bonacieux que não morre, ou uma Milady que parece uma mistura de Aeon Flux e Viúva Negra, por exemplo. Essa nova Milady é muito pobre diante da intrigante original, certo, mas fazer o quê se os tempos são outros?

Mas “Os Três Mosqueteiros” tem tantos problemas que é difícil não desligar a TV sem xingar o idiota que o criou de nomes que deixariam São Cipriano ruborizado.

O primeiro problema do filme é o nível altíssimo de infantilização de seus personagens. O rei, para começar: que rei é aquele? D’Artagnan mata Rochefort no filme — para quê, se no livro eles terminam amigos, e isso reflete um pouco a compreensão da política real em Paris? Richelieu, mesmo interpretado por um grande ator como Christoph Waltz, não tem a sutileza dos grandes, resvala na caricatura e se torna óbvio; além disso, quem fez as legendas sequer sabe onde fica a Gasconha e o que é um gascão.

O excessivo nível de espetacularização é medonho. Uma esquadrilha de dirigíveis é provavelmente a idéia mais ridícula que alguém já teve desde que Ed Wood pendurou discos voadores em cordões, e não apenas porque é um impropério físico. Mas são as mudanças morais que incomodam e entristecem no filme.

É deprimente, e provavelmente a pior evidência contra a nossa sociedade, que uma obra do século XIX precise ser moralmente sanitizada em pleno século XXI. Constance (que na nova versão não tem sobrenome nem dorme com o homem que lho deu, o velho e frouxo Bonacieux) não passa de uma menina, em vez da senhora casada e mal amada que se apaixona por D’Artagnan. Milady não é a mulher promíscua e amoral que foi casada com Athos; e a rainha Ana não fez saliência com o Duque de Buckingham, porque rainhas nesses tempos novos devem ser moralmente inatacáveis, Pompéias modernas virtualmente castas e ascéticas (não só no cinema, porque até a princesa Diana virou moça decente depois que morreu). A Hollywood do início do século XXI tem vergonha e pudor do que era visto naturalmente há quase dois séculos; e agora ela não precisa mais de código Hays, basta tentar agradar seu público, e oferecer a ele aquilo que ela acha que ele pede.

O que fez “Os Três Mosqueteiros” sobreviverem por mais de século e meio foi justamente a qualidade de sua história. A trama rocambolesca mas fácil, a ação quase ininterrupta, os personagens bem definidos, a dubiedade moral inerente a praticamente todos os seus personagens, com exceção de D’Artagnan. É um livro que serve perfeitamente de argumento para um filme; e eu recomendaria a versão de 1948, dirigida por George Sidney, com Gene Kelly e Lana Turner. Nas Americanas ela pode ser encontrada em DVD por 13 reais. É mais barato que uma entrada de cinema, e certamente mais recompensador.

Teoria da reciprocidade

Encontro a moça num elevador.

Bom dia, os olhos para baixo como é praxe em elevadores, aquele o que é que eu faço com as mãos, e então a voz da moça na frente: Como está sicrana? Eu me surpreendo, como ela sabe?, faz tanto tempo, e então ela diz, Eu sou fulana, morei perto de você em tal lugar, Ah, sim, claro, Fulana, agora lembrei, como você vai?, vinte e tantos depois eu não lembraria de você nem mesmo se o tempo lhe tivesse sido mais generoso, mas sei que vou lembrar em minutos, então não estou mentindo, estou apenas me antecipando a mim mesmo, pronto, lembrei.

Tchau, legal te ver, entro no carro pensando que o Gama é que é um sábio e é quem tem razão, o tempo é um fazedor de monstros, e essa moça há vinte e tantos anos era tão gostosinha, o que aconteceu com você, moça?, como o tempo lhe foi ingrato.

E é só então que a ficha cai.

Nesse exato momento, ela deve estar pensando a mesma coisa, e com ainda mais razão.