As grandes verdades da vida

De vez em quando alguém vem parar aqui e cita um bocado de filósofos, como se isto aqui fosse algo mais que um antro de bobagens, como se eu tivesse lido quaisquer um deles.

Tudo bobagem.

Cânt, Ráideguer, Quirquigard, Rêguel, Montesquiê, Loque, Robes, um bando de bobos que nunca passaram sequer perto das grandes verdades da vida.

Tudo besteira.

Digo isso com a tranqüilidade de descende de uma grande linhagem de pensadores, de quem nasceu na família de maiores filósofos que o mundo inteiro já conheceu. Gente profunda que investigou com vagar as grandes questões da vida, e de suas jornadas pelas brenhas da mente emergiram com frases que definem a existência e a metafísica. Ao invés de gastar páginas e páginas com palavreado difícil, souberam oferecer em poucas frases avaliações profundas sobre o ser humano, sobre o valor da prudência, sobre a capacidade de ver além das aparências e sobre as vantagens da falta de soberba.

Do velho Oscar Valois, meu bisavô:
“Tem gente para tudo neste mundo e ainda sobra um para comer merda”.

Do velho Romário Maia, meu avô:
“Bala não tem nome nem endereço.”

Do velho José Rabelo, tio-avô:
“Quem come cara é bexiga.”

De João Marcelo, primo distante e já velho, apesar de não admitir:
“Quem come qualquer coisa está sempre mastigando”.

Aí está toda a sabedoria acumulada em séculos de vida tranqüila e proveitosa. E mais que isso não é preciso.

A morte e a morte de Luiz Biajoni

E-mail da Isabela:

Isabela wrote:

Pôxa, não dá para acreditar nesses blogueiros. Ano passado gelei com a morte do Bia.

Abraços
Isabela

E agora chega. Eu não agüento mais enganar as pessoas.

O Bia morreu, sim, num acidente envolvendo seu legendário Uno 88 batido movido a álcool e um caminhão cheio de bóias frias que iam para os canaviais de Americana cantando Zezé di Camargo e Luciano.

Foi uma notícia estarrecedora. Mas apesar da dor e da saudade, nós sabíamos que o show não pode parar. Então arranjamos um sujeito para escrever o Tiro e Queda e depois o blog no lugar dele.

O impostor se chamava Bially Shears.

Mas isso era desonestidade. Era falso. Injusto. Somos blogueiros, sim, mas lá no fundo somos gente decente. Então passamos a espalhar em nossos blogs pistas de que o Bia tinha morrido.

1 – Este post sobre o umbigo da Kau era uma alusão à cova em que o Bia estava enterrado (ele queria ser enterrado no Pére Lachaise, mas não deu e hoje está numa gaveta do Cemitério São João Batista, em Americana).

2 – Este post do Bia era uma alusão aos Beatles — que como se sabe também tiveram um membro morto e substituído.

3 – O Bia não toma Viagra. Aquele que encontramos no Rio era, obviamente, um impostor.

4 – As 60 Horas de Le Mãos na Cabeça são a versão blogueira do Livro dos Mortos do Tibet.

5 – Inicialmente, o Bially Shears deixou crescer um bigode, digamos, meio estranho. O verdadeiro Bia era heterossexual.

6 – Outra prova da sexualidade dúbia do novo Bia: o show do Placebo.

7 – A campanha em defesa da Hello Kitty era muito óbvia: a Hello Kitty, na verdade, tem medo é de fantasmas.

8 – Para a cultura milenar dos Kunin Ingwah, hoje restrita a uma das ilhas da Polinésia Francesa, dobrar a língua em três é a resposta afirmativa a ser dada quando nos perguntam se alguém morreu.

9 – O novo Bia foi trabalhar na TV.

10 – A mãe de todas as pistas: “Sexo Anal”, o livro póstumo do Bia, originalmente se chamava “A Educação de Virgínia”. Mudamos o título porque foi assim que um Brigatti desolado nos deu a mórbida notícia: “Bicho… O Bia se fodeu.”

Há muitas outras pistas espalhadas, blogoseira afora, sobre a morte do Bia. É só uma questão de saber procurar.

Diálogos perdidos numa tarde suja

Uma conhecida entra numa loja de “moda feminina”, que é o nome que dão a lingerie. O nome da loja é Inédita.

Aponto a moça com a cabeça:

— Olha a Fulana entrando naquela loja.

A moça ao meu lado olha a tal moça entrando lépida na loja e não resiste:

— Inédita? Essa aí tá na trigésima edição, quarta tiragem.

Clássicos do cinema nacional: "Oh! Rebuceteio"

Primeiro foi “O Diabo na Carne”. Marco Bellocchio pegou o livrinho maravilhoso de Raymond Radiguet e o transformou em um filme chato e pretensioso, em 1986. Mas não foi o enredo do filme que causou escândalo: foi uma cena em que Maruschka Detmers se esbalda (em termos) em sexo oral, apregoada na época (provavelmente de maneira equivocada) como a primeira explícita em um filme que se pretende sério.

Depois — há pouco tempo, 2003 — foi a vez de The Brown Bunny, filme de Vincent Gallo que, num arroubo de “audacidade artística”, se propôs a derrubar os muros que separam o cinema sério da pornografia pura. Conseguiu seu objetivo: causou polêmica e conquistou algumas páginas de jornal.

(Na verdade houve outro antes desses: “Império dos Sentidos”, de Nagisa Oshima. Mas é um bom filme japonês e, pela polêmica que filmes bobos causam sempre que arranjam um truque de marketing, não parece mais ser reconhecido como um precursor melhor que eles.)

O fato é que “Oh! Rebuceteio” é melhor que todos eles.

Dirigido em 1984 por Cláudio Cunha, “Oh! Rebuceteio” é o nosso Oh! Calcutta e o nosso A Chorus Line. O filme mostra os ensaios de uma peça de teatro experimental — tendência muito em voga nos anos 70 e início dos 80 e, graças a Deus, esquecido. A peça é uma criação coletiva e bastante sexo, bastante explícito, é inserido no filme como instrumento de criação e de desenvolvimento para os atores.

A pergunta a ser feita é: o que distingue “Oh! Rebuceteio” de bobagens como The Brown Bunny, pelo menos no que diz respeito à “decência” como cinema? Na minha opinião, nada. Em “Oh! Rebuceteio” o sexo está inserido em um contexto específico. É apresentado como parte necessária da trama. É limitado aos ensaios, e na estréia da peça não há mais sexo explícito. Ele só pode ser compreendido, portanto, como parte do processo de criação da peça.

O aspecto intelectualmente secundário do sexo no filme é ilustrado na seqüência em que, diante de uma cena no palco que faz os outros atores se masturbarem incontrolavelmente, o diretor da peça, interpretado pelo próprio Cláudio Cunha, manda os espectadores do filme se masturbarem também. Deve ser um tanto difícil alguém conseguir tal feito olhando para a bela face hirsuta de Cunha. Ele não se leva demasiadamente a sério, nem pretende fazer do seu filme uma tese de pós-doutorado, e o resultado é relativamente surpreendente.

O filme acaba apresentando algumas questões até razoáveis sobre o conceito de teatro e sobre o processo de criação por parte dos atores. Não é bem o que Stanilavsky esperaria, mas é válido mesmo assim. Certo, a abordagem é paródica, debochada e um adepto do teatro experimental poderia até chamá-lo de preconceituoso. Mas essas são características que sempre fizeram parte do cinema brasileiro, por representarem uma parte significativa do nosso caráter nacional, embora os cineastas da retomada tenham resolvido colocá-las para escanteio porque não lhes parecem suficientemente dignas — ou suficientemente européias –, algo típico de uma elite cultural que prefere se imaginar em Manchester do que em Impanema. O fato de ser uma paródia escrachada não o torna pior que “O Diabo na Carne”. No mínimo o torna melhor que um filme ruim como A Chorus Line.

Que se defina “Oh! Rebuceteio” como filme de sacanagem. Mas, nesse caso, que se inclua os outros também. E, finalmente, o que realmente interessa: as atrizes de “Oh! Rebuceteio” são muito melhores no babado do que as gringas. E só isso já deveria ser um grande mérito.

O carnaval de 2006

Tanto riso, quanta baixaria
Mais de mil assaltos no salão
Arlequim está roubando o celular da Colombina
No meio da multidão

Foi bom te ver outra vez, tá fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele Pierrot que te assaltou
Ao som de Osmar e Dodô, meu amor

A mesma máscara negra que esconde o meu rosto
Te deixo a carteira de identidade

Vou roubar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval.

Por que o Brasil não vai ganhar a Copa

Há uns dois anos, falando sobre minhas Copas do Mundo, eu disse que quando a Copa de 2006 estivesse mais próxima eu dava meu palpite. Agora cumpro a promessa.

Eu não acho que o Brasil vá ganhar a Copa.

Paradoxalmente, este ano o Brasil tem, disparado, o melhor time; esta é a melhor seleção que enviamos em muito tempo. Todas as outras tiveram defeitos graves: a de 70 não tinha defesa, à de 82 faltava um bom centro-avante, as de 86 e 90 eram uma mistura indigesta de velhos e jogadores de segunda, em 1994 não havia um meio de campo, a de 98 era um time sem coesão e a de 2002 era o time de Tinga e Léo Costa.

Mas agora o time é brilhante: os Ronaldos, Kaká, Adriano, um meio de campo que pode ser excelente se tirarem Emerson e colocarem Juninho Pernambucano, uma defesa confiável. Temos até um substituto à altura (na minha opinião, muito melhor) para Cafu, e poderemos ver uma lateral direita com brilho, o que não acontece desde Jorginho.

Por outro lado as outras equipes, apesar do oba-oba de sempre da imprensa esportiva, não estão à altura da Seleção Brasileira. Falem o que quiserem das seleções européias, elas são sempre inferiores aos seus campeonatos nacionais, por causa da nossa quinta coluna. Basta ver os times que enfrentaram para se classificar. A única seleção respeitável, de verdade, é a Inglaterra: só pode ser deboche falar do imenso progresso da Itália, quando ela se classificou graças a uma Letônia ou Estônia, sei lá. Que se fale da força européia e se faça julgamentos a partir da Eurocopa: a verdade é que quando seus adversários são os sul-americanos, a história é outra.

Quanto a esses, só a Argentina deve ser levada em consideração, e no momento ela é bem inferior ao Brasil. Quanto aos africanos, bem… Minha teoria sobre o futebol brasileiro é freyreana: somos os melhores porque combinamos o negro e o branco. Os africanos, tadinhos, só têm o negro — e então é aquela coisa de jogar ofensivamente, bonito, correr sem parar e levar cacete de uma equipe mais densa nas oitavas-de-final. Eles são a Colômbia de lá — time em que, para meu orgulho, nunca acreditei.

O problema é que essa festa não é nossa.

Se a Copa fosse em pontos corridos — em 20 jogos, digamos — ninguém conseguiria tirá-la do Brasil. Mas Copas do Mundo são bichos caprichosos. São sete jogos, e pode-se perder apenas um dos três primeiros. Numa Copa, tudo pode acontecer; é essa a maravilha do esporte.

A Copa da Alemanha foi montada para fazer a festa européia. O Brasil teve três chances seguidas, recentemente; agora é a vez deles. Basta ver como foram montados os grupos. Não é para o Brasil ganhar.

Obviamente, nada disso é definitivo. O Brasil pode ganhar essa Copa, e é bobagem negar que é o favorito por muitas léguas de distância. Se eu fosse apostar meu dinheiro, apostaria na Seleção Brasileira: quando se diz que tudo pode acontecer, isso também vale a nosso favor. Mas é essa sensação danada de que essa festa não foi montada para a gente que me faz ter pouca fé no hexacampeonato. Se formos campeões, será contra a tal conspiração do universo de que fala Paulo Coelho.

Mas em julho, claro, eu vou mudar de opinião. Eu, que não vejo mais futebol para não correr o risco de assistir ao jogo fatídico em que o Flamengo finalmente será rebaixado, vou sentar diante da TV e, depois das primeiras vitórias, nada me tirará a certeza de o hexa virá. Vou ver todos os jogos em casa, porque sempre que vi fora nós perdemos. Nas quartas-de-final, vou tomar duas garrafas de beaujolais, porque foi assim que ajudei o Brasil a vencer a Holanda em 94. Se houver pênaltis, eu não vou assistir, porque assisti em 86 e deu no que deu. E vou acreditar piamente que a taça do mundo é nossa, que com brasileiro não há quem possa, porque somos 185 milhões em ação.

Superman

Ano passado falaram tanto de Batman Begins, um filme medíocre beneficiado pela comparação com os filmes anteriores do Homem Morcego; no ano anterior foi a vez de “Homem Aranha 2”, muito melhor.

Nos dois casos, enquanto teciam loas hiperbólicas aos novos filmes, as pessoas esqueceram do que talvez seja o melhor filme de super-herói já feito: Superman.

Para começar, Superman é o filme que deu origem a tudo isso. Já tinha havido tentativas anteriores de transferir o mundo dos quadrinhos para as telas de TV ou do cinema. Mas foi Superman quem criou e definiu o gênero como ele é hoje. Só foi possível, claro, porque antes veio Star Wars; mas pertence, definitivamente, a outra linhagem.

Com Superman, um nicho pseudo-literário criado no século XX — as histórias em quadrinhos de super-herói — finalmente teve um tratamento à altura. O resultado foi um sucesso estrondoso, a consolidação de um gênero cinematográfico e a paixão instantânea por um super-herói que há muito tempo já dava sinais de esgotamento.

O que faz de Superman um filme melhor que praticamente todos os outros que o seguiram é, principalmente, o equilíbrio entre a narrativa dramática e as cenas de ação. Um dos méritos de “Homem-Aranha 2” é a velocidade, a ação constante, o corre-corre. Em Superman há um universo mais amplo. Uma das principais diferenças entre a DC e a Marvel, respectivamente criadoras do Superman e do Homem-Aranha, sempre foi a ênfase desta na vida pessoal de seus heróis. Foi a grande revolução introduzida por Stan Lee. Mas, curiosamente, se em “Homem-Aranha” essa razão é diminuída, no máximo mantida, em Superman o enfoque é aumentado consideravelmente. É algo que jamais se repetiria novamente: o filme é superior aos quadrinhos que lhe deram origem.

Por exemplo, não dá para comparar o elemento romântico de “Homem-Aranha”, Batman Begins e Superman. A vampirinha Kirsten Dunst poderia ser qualquer coisa, menos Mary Jane Watson; Katie Holmes quase faz Bruce Wayne ir para a cadeia por abuso de incapacitado mental. Mas em Superman, na cena em que ele leva Lois Lane literalmente aos céus, há um momento único de lirismo neste tipo de filme.

Em “Homem-Aranha”, em nenhum momento a história de amor entre Peter Parker e Mary Jane convence. É um elemento acessório no filme. Mary Jane poderia ser uma vaquinha malhada e não faria a menor diferença. Mas a história de amor entre Clark Kent e Lois Lane, florescente em Superman e concretizado e perdido em Superman II, é verdadeira e envolvente. É por Lois Lane que Superman faz um mundo voltar atrás. Se isso não é amor, eu não sei o que é.

Mas se nenhum desses argumentos convence, resta um, talvez o mais forte deles: Christopher Reeve. Tobey McGuire é um bom Homem-Aranha, Christian Bale não faz feio como o Batman. Mas Reeve é o modelo a ser seguido, porque mais que atender ao que esperamos de alguém interpretando um super-herói que já conhecemos, como faz McGuire, Christopher Reeve superou essas expectativas. Nos ofereceu algo melhor que o original, e isso é muito, muito raro. Eu, como milhões de crianças nos dois últimos anos da década de 70, queria ser Christopher Reeve.

Quase 30 anos depois, é surpreendente ver como Superman envelheceu bem. Seus efeitos especiais não fazem má figura, o senso de humor (outra vantagem em relação aos quadrinhos) lhe dá uma leveza que o deixou à superfície durante esse tempo. A nova versão que estréia esse ano, por tudo isso, tem um destino inglório pela frente. Estréia depois que Frank Miller destruiu para sempre o Superman ao lhe chamar de escoteiro e cachorrinho do presidente — como um Joseph Nye Welch destroçando Joseph McCarthy diante das câmeras, ao lhe perguntar se não lhe restara nenhuma decência. Ao contrário de Batman Begins, que venceu fácil quatro pequenas tragédias, a nova versão do Superman terá a seu favor apenas a boa verba de marketing de sempre. Porque vai ter que enfrentar o filme definitivo sobre o primeiro super-herói, um filme que se sustenta por seus próprios méritos, e Brandon Routh vai empreender a missão impossível de nos fazer esquecer que Christopher Reeve é o verdadeiro Superman.

Prestação de contas

Há tantas coisas de que, se não me arrependo, certamente não faria de novo: ficar pendurado no capô de um Maverick a 100 por hora em um carnaval, mandar gente demais à merda, mergulhar de lugares altos demais, caminhar sozinho de madrugada pela Saúde, não ter dito “não” mais vezes, estar ao lado de uma amiga prestes a jogar um coquetel molotov na polícia, ser grosso com umas pessoas e não ser com outras, viajar de Aracaju a Petrópolis com 500 cruzados — equivalentes a 20 coca-colas –, namorar quem não devia, não namorar quem devia, pegar um táxi no aeroporto de Veneza, dormir ao relento na entrada de Aracaju com a bunda para baixo por medo dos travestis que rondavam o lugar, montar uma égua chucra e ser jogado, humilhado, a alguns metros de distância, ser expulso de bares por comportamento impróprio, entrar no fosso dos jacarés, acordar sem saber onde estava, explicar a uma militante da UJS o trotskismo na visão do PCdoB em um ônibus cheio de professores paulistas trotskistas da Apeoesp, não ter feito a campanha de 1998, fazer um strip-tease coletivo no Cine Palace durante um filme dos Trapalhões, sair correndo do bar porque o sujeito que estava com aquela moça tinha um revólver na mão, vandalizar todo o condomínio com requintes pirotécnicos, mandar o sujeito que me assaltou tomar no olho do cu; e no entanto, à medida que o tempo vai passando e o corpo não quer mais que um sofá confortável com suco de mangaba e uma ruga fica cada vez mais tempo entre as sobrancelhas, isso é tudo o que sobra, porque de todo o resto eu esqueci, as coisas de que me arrependo e as que faria de novo, as coisas que deveria ter feito e fiz, e nenhuma delas me faz sorrir, hoje.

Mais uns comentários sobre o show dos Stones (e do U2)

O show do U2 ajudou a colocar o dos Stones em outra perspectiva.

Lennon dizia que os Beatles eram uma pequena grande banda. Queria dizer que mesmo no auge da fama, da influência e da bajulação eles ainda eram apenas quatro rapazes que se juntavam para fazer grande música.

Os Stones não são uma pequena grande banda. Há muito tempo, na verdade. São uma empresa, mas são também deuses que de vez em quando aparecem diante de seus fãs.

O show dos Stones não foi um show de rock. Foi um momento de veneração. Ali estavam devotos em êxtase diante de seus deuses. A distância dos Stones em relação ao seu público é um indício disso. Mas é assim que tem que ser.

Nunca fui fã do U2 e, desde o Achtung Baby, eu sequer me dou ao trabalho de ouvi-los. Mas eles fizeram um grande show. Para começar, ainda são uma banda de verdade — como o selinho de Bono em Adam Clayton mostra. Ainda diz respeito a fazer música. Os Stones transcenderam tudo isso há muito tempo.

Não dá para comparar e um outro. Mas no Morumbi houve um show de rock de verdade, com público de verdade, de uma pequena grande banda.

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Ver Adam Clayton com cabelos grisalhos me lembra que o U2 é uma banda com 25 anos de estrada e que os anos 80 foram há 20 anos. Mau.

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O segundo melhor momento do show: Bono vem com aquela ladainha demagógica e terceiro-mundista de sempre. One world, etc. As bandeiras se sucedem no videowall. “Mérrico!”, anuncia ele. Aplausos meia-boca. “Tchile!” Aplausos meia-boca. “Arrentina!” E então uma vaia completa, monumental, para a surpresa do mundo preto e branco de Bono.

Mostramos aos gringos. Agora eles sabem que o buraco do Cone Sul é mais embaixo, ali embaixo das fronteiras do Rio Grande. Nós somos pobres, mas somos limpinhos.

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Certo, The Edge é um bom guitarrista. Mas por que o sujeito se recusa a tocar duas canções com a mesma guitarra? Gibsons Les Paul e Explorer, Riockenbackers 12 e 6 cordas, Fenders Strato e Telecaster; até uma Epiphone Casino o sujeito arranjou. Foi um desfile de virtualmente todas as guitarras decentes deste planeta. Sem razão nenhuma: todas soavam exatamente iguais.

Enquanto isso, Keith Richards (que parece ter praticamente abandonado a sua Telecaster) trocou pouquíssimas vezes de guitarras. E todas com o seu som, porque a canção exigia. É a diferença entre deuses e meros mortais.

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Nos Stones a música é toda feita no palco. Estão ali o naipe de metais, o tecladista, o baixista, os backing vocals, elementos estranhos à banda mas necessários para o show.

No U2 há algo falso. Quem afinal toca aqueles sintetizadores que se ouve ao fundo?

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Mas a verdadeira estrela do show foi a Katilce. Ela começou mal, rebolando em excesso e parecendo a Gretchen fazendo o Van Damme passar vergonha. Mas não demorou a se adequar ao papel. E foi perfeita, a moça. Desempenhou o seu papel de fã corretamente.

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Não li a matéria, só a chamada: alguém disse que os Stones eram “o que Lennon queria que os Beatles fossem”. Idiotice maior só a do sujeito que, no site d’ O Globo, chamou Ron Wood de baixista dos Stones. Na verdade, Lennon não levava os Stones muito a sério: sempre disse que eles copiavam tudo o que os Beatles faziam, com seis meses de atraso; e no começo dos anos 70 já ridicularizava os requebros de Jagger, e sempre lembrava que os Stones precisaram de uma música de Lennon & McCartney para finalmente fazer sucesso. Além disso ele sempre soube que a imagem de meninos maus dos Stones, criada por um antigo assistente de Brian Epstein, era tão falsa quanto a de bons meninos dos Beatles.

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Logo no começo do show do U2 eu percebi que algo havia mudado. Que já não se acendiam isqueiros como nos bons anos 60. Que se acendiam displays de celular. Perto do final, com a nova “cerimônia da luzinha de celular”, eu vi que não tinha sido o primeiro a perceber isso. Algo mudou, mesmo. É mais útil, certamente, que acender um isqueiro; mas, convenhamos, é um pouco menos lírico.

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O U2 inventou o videowall em portunhol.

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Quando Bono Vox coloca aquele quepe de SS, ou seja lá o que for, parece um exilado do Village People. O resultado é ainda pior que a bunda seca meneante de Mick Jagger.

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Essa é uma pergunta: no trechinho de Norwegian Wood que tocou, Bono misturou a melodia da canção a outra. O resultado não foi dos piores. Eu não consegui lembrar da melodia, embora tenha ficado com a impressão de ser algo dos anos 60. Alguém sabe qual foi?