As alegrias que o Google me dá (XXVI)

foto de uma velhinha triste sentada em um banco
Para rir dela? Não, amigo, este blog tem certos sentimentos, ainda não foi completamente tragado pela canalhice do seu dono. Fotos de velhinhas tristes, chorando seus mortos e esperando a sua vez, não têm lugar aqui. Se bem que, do jeito que as coisas andam, não custa nada voltar daqui a um mês.

fotos de pés de bebês
Oxente? De podófilo o Alex agora virou pedófilo?

que tipo de roupas sao usadas pelos habitantes do piaui?
Eu não falo de habitantes de países estrangeiros neste blog.

fotos de homens em posses eroticas
Um homem com uma Ferrari. Um homem com um cartão de crédito sem limite. Um homem com uma villa no sul da França. Um homem pilotando seu Citation. Um homem dando uma de capitão em seu iate. Ui.

como tirar as espinhas da cara
Crescendo. Às vezes, nem assim. E às vezes você fica com cara de areia mijada.

o que não nos mata nos torna mais fortes
Desculpe, mas Nietzsche estava errado aí. Nisso e em tantas outras coisas. Na verdade, algumas coisas que não nos matam nos deixam muito doentes. “O que não nos mata nos deixa entrevados”. E outras aporrinham demais.

como aconteceu as explosões de hiroshima e nagasaki
Foi assim: dois japoneses vinham atravessando a rua. Um gritou: “Olha a bomba!” — BUM!. O outro gritou: “Cadê?” — BUM!

o que rafael galvao fais
Não sei, mas faz bem feito e em português escorreito.

basicamente marketing político é a técnica independe de opinião. por outro lado política é convencimento. alguém precisa convencer o eleitor de que é o mais preparado para gerir o estado ou o município ou representá-lo no parlament
Fui eu quem escreveu esse texto. Mas escrevi melhor que isso, porque sei onde diabos colocar uma vírgula, sei como construir uma frase. Pode copiar à vontade, e se isso te ajudar em um trabalho escolar Deus vai levar em conta e talvez eu tenha uma chance de chegar ao purgatório (que, segundo a Tata, vem do latim Purgantis, o que significa que é um lugar para quem faz merda). Mas não altere nada, por favor. Isso fere. Isso magoa. Isso agride.

sexo no casamento
Terceira prateleira, ao lado de boitatá, mula-sem-cabeça e curupira.

video mulher que bota manga pela vagina
Manga? Peraí. Manga não é aquela fruta que nego chupa?

como vai ficar o brasil depois do referendo
Aqueles que votaram pelo não vão, todos eles, comprar uma arma. Os que votaram pelo sim vão, todos eles, levar um tiro na testa.

famosos negros que fizeram atos importantes
A finada Rosa Parks foi um dos estopins do movimento pelos direitos civis nos EUA porque se recusou a ceder seu lugar no ônibus. O finado Martin Luther King foi o seu principal líder porque tinha um sonho. E Djalma, negão boca de zero-nove da Saúde, comeu uma gringa no Porto da Barra que puta que pariu.

mensagens para aqueles homens que enche o saco da mulher que não quer namorar com ele
O que ela está fazendo com você é sacanagem. Encha a cara dela de porrada e parta para outra.

efeitos colaterais cytotec
Aborto. Ah, certo: você já sabe que Cytotec é abortivo e quer saber quais os outros efeitos colaterais. OK. Pergunte ao feto. Ele é quem sabe, mesmo.

musica de cazuza pára mundo eu quero crescer
Isso não é Cazuza. Isso é Silvio Brito. Esse não desceu do mundo, mas depois de roqueiro nos anos 70 (eu gostava dele, tá?) virou country católico. Se não me engano apresenta um programa na Rede Vida. Pensando bem, talvez tenha descido, sim.

como que ta o policiamento no Paraguai
Tá maneiro, bro. Pode ir muambar.

putas fortaleza
Fortaleza é um lugar bom para putas. Algumas até viram vereadoras, tirando o emprego dos seus filhos.

o que significa poesia social poesia cidadã e poesia revoltada
Poesia social:
Não mais podemos agüentar
Tamanha iniqüidade social
Onde uns poucos moram no Joá
E a grande maioria mora mal

Poesia cidadã:
Jogue o lixo no lixo
Vote sempre consciente
Atravesse só na faixa
E finja que gosta de gente

Poesia revoltada:
Olha, meu amigo
Dou um conselho a você
Deixe essa conversa pra lá
E depois vá se foder

o significado camelo no fundo da agulha
Erro de tradução. Dizem que o original aramaico era corda, e não camelo; é mais sensato imaginar que é mais fácil uma corda passar pelo buraco de uma agulha que um camelo. Como eram palavras parecidas deu nessa confusão. Mas, basicamente, esse treco aí quer dizer o seguinte: Rafinha Galvão não vai para o céu.

histórias de terror que fale sobre a boneca da barbie
Depois de anos sofrendo de bulimia e macrocefalia (perdão, o cabeção não é ela, é a Susy, eu é que sempre confundo), Barbie se separou de Ken ao descobrir que ele era gay e pedófilo, tendo tido um caso com a Kelly e obrigado a menina a amarrá-lo e a dar na sua cara enquanto ele gemia “Não me bate, mamãezinha”. Desesperada, foi até um pai-de-santo que lhe cobrou os olhos da cara para fazer um despacho para Ken, que àquela altura se chamava Kenny e tinha virado drag queen em São Francisco. Mas no meio da sessão Omolu baixou e fez com que a Barbie engordasse e se viciasse em heroína.

como era as festas de halloween antigamente como na decada de 70?
Era melhor no DOI-CODI. Eles não malhavam apenas o Judas lá. Malhavam também o Zé, o João, o Manuel, e nem precisavam de árvore: eles tinham paus de arara legais para isso.

o que é mulher hermafrodita hermafrodita
É igual a homem hermafrodita hermafrodita.

imagens de pio xii protegendo refugiados da segunda guerra mundial
Só se você não era judeu.

quem foi john lennon?
Se você precisa perguntar, não merece saber. Acima de tudo, é um ultraje vir fazer essa pergunta justo neste blog.

erro de filmes pornô
Deve ser quando colocam no buraco errado.

desenhos de gauchos bebendo
Leitinho, né?

como tirar manchas senis
Morrendo. Mas não se preocupe, está perto. Cada vez mais perto.

fotos de jogadores de futebol com o penis duro.[ homens de todo o mundo menos os feios]
Jogador de futebol bonito? Assim como o Iranildo?

blog fazendo sexo
Este blog é celibatário. Não se reproduz. E não pega ninguém.

gordinho lindo
Sou eu!

blogs do mundo
Doenças do mundo: sífilis, gonorréia, etc. Mulheres do mundo: prostitutas, vulgívagas, etc. Blogs do mundo: Rafael Galvão. Eu sempre soube que chegaria lá.

brincadeiras para deficiente mental
Rapaz… Se eu escrevesse aqui metade das canalhices que imaginei, este blog seria fechado pela APAE e, além dos astrólogos de Maria, das pseudo-feministas, dos goianos, dos neopolitanos, dos defensores de animais e de todo aquele pessoal avulso que não me suporta, eu iria arranjar mais desafetos. E dessa vez seria gente decente.

piadas de papai noel e do garoto que escreveu a carta dia 26
Demorei muito a entender, aí não dava mais para fazer piada.

fotos de mulheres com rosto de anjinho
Aqui? Amigo, eu gosto de mulheres com cara de maria-padilha. São mais quentes, sabe como é. E anjos não têm sexo.

poemas de amizades para mandar para os amigos gratuito
Quer dizer que sua amizade não vale nada mesmo, hein?

quem era o garoto da banda dos beatles que lutou na guerra do vietnã
Roger McCluskey.

eu quer pesquisa fotos do filme alexandre o grande
Mim não dar.

sou travesti como escondo o pinto
Na bunda de alguém.

curiosidades da árvore dama da noite
Normalmente veste vestidos pretos ou vermelhos. Fuma muito. Bebe muito. Solta umas risadas escandalosas. E é dessas árvores que só dizem sim, por uma pedra falsa, um Sonho de Valsa, um cinema, um botequim.

garotas bonitas de 16 anos q de pra ver as fotos que tenham fotos e sem pornografia
Meninas, por favor! O que vocês estão esperando? Em algum lugar há um sujeito que não quer apenas comer vocês! Claro, ele é feio de dar dó, não come ninguém e não se acha capaz disso, nem mesmo quando volta da igreja ou do templo com os olhos baixos e a camisa social abotoada até o pescoço, mas a verdadeira beleza é aquela da alma, e talvez ele tenha alguma. Vocês que reclamam tanto dos cafajestes deveriam dar uma chance a ele.

quero.sexo.anal
Peça.ao.Bia.

em que epoca os ingleses não comem feijao
Durante as comemorações do Guy Fawkes. Segundo um antigo dogma do anglicanismo, eles não podem peidar nessa época.

cores usadas pelos roqueiros nos anos 60
Dependia do tipo de LSD que tinham tomado.

modas criadas pelos beatles
Franjas, cordas em canções pop e maconha.

vc está ficando velho?
Estou. Você não? Então por que vem me encher o saco aqui?

a carta que kurt cobain deixou escrita antes de se suicidar mas eu quero a carta com apenas 10 linhas e dizendo tudo absolutamente tudo porque eu já li a carta toda por isto não tente me enganqar de forma alguma se não irei prosesar este site
Processe, meu filho… Por favor, processe… Eu imploro: processe.

se pode pegar algum tipo de doença pagando boquete?
Aids, herpes e sapinho. Mas o grande perigo, mesmo, é morrer engasgada.

eu sou milena
Eu sou Rafael. Prazer.

eu quero jogar futebol no pc nao mme faz de bobo
Não preciso te fazer de bobo. Não, mesmo. Acredite.

a masturbação feminina faz doer?
Depende do tamanho do pepino.

meu amo quero fala palava bonita para voçe
Mais eu num poço purqe voçe num mi insino a le i eu so anal… analf… Pora, comu e qi si iscrevi isu?

o que quer dizer a vingança do boquete
Nada que um lenço, guardanapo, lençol ou mesmo a cortina não resolva.

para que a cereja serve?
Para duas coisas: para ser substituída por qualquer outra coisa nos potes vendidos no Brasil e para que a Sherilyn Fenn dê um nó no seu talo com a língua, definindo bem os sonhos inalcançáveis de um futuro blogueiro.

10 motivos porque eu dou o dizimo
01 – Você não dá; na verdade, mete a mão na sacolinha e tira algum escondido.
02 – Ué, e você pensando que era o ingresso para aquele show de exorcismo!
03 – É que a obreira que cobra o dinheiro é gata, então assim, quem sabe…
04 – Você é um idiota.
05 – Você tem uns trocados no bolso sempre que vai à igreja.
06 – Você realmente acredita que, se der dinheiro, vai receber em dobro no Grito dos Desesperados.
07 – Eles aceitam pagamento com boleto bancário e cheque pré-datado.
08 – Deus quer assim.
09 – O pastor disse que se você der o dízimo ele te dá um trato.
10 – Você não pode dar a bunda, então dá o dízimo.

rafael santo
Ai, meu Deus. Alguém finalmente reconheceu que por baixo desta capa de ímpio pecador existe um homem santificado. Obrigado. Obrigado. Deus lhe pague.

As alegrias que o MSN me dá – Mônica

Rafael diz:
Arroz?

Mônica diz:
Integral, pra nós ficar legal.

Rafael diz:
Eu comi muito uma época.

Rafael diz:
Hoje não aguento mais.

Mônica diz:
(essa foi podre)

Mônica diz:
Eu como raramente. Mas acho bom.

Rafael diz:
Foi legal.

Rafael diz:
Mas não fenomenal.

Mônica diz:
Ah, Rafael… vá tomar no meio do seu orifício anal…

Rafael diz:
Uma rima apenas circunstancial.

Mônica diz:
E isso lá faz mal?

Rafael diz:
Não, mas tampouco um bem total.

Mônica diz:
Pô. Tô sem idéia pra continuar nas rimas. Tô me sentindo pouco genial.

Rafael diz:
E você acha isso normal?

Mônica diz:
Ah, sim. É um caso banal.

Rafael diz:
Que poderia ter sido sensacional.

Mônica diz:
Não cobre tanto desta menina que não é a tal…

Rafael diz:
Pois bem, então esse é o final?

Mônica diz:
Talvez. O fim das coisas, infelizmente, nunca é algo excepcional…

Por outro lado

Comentário recebido neste post:

IP Address: 200.187.242.26
Name: as popozudas
Comments:

so para responder para os homens a mulher é a melhor parte de tudo a razoa de viver dos homens então pare de esculaxar as mulheres e so dar valor para sua xoxota.

Verdade. Não sei como deixei passar essa impressão. Perdão.

Porque há coisas que não se deve fazer. Há valores que não podem ser, jamais, relevados ou aparentemente esquecidos. É como entrar numa igreja sem se persignar. Como beber cachaça e não dar o primeiro gole para Exu.

Não se deve, nunca, subestimar uma boa bunda.

60 anos atrás

Comentário interessante do Emerson Lopes em um post antigo:

normalmente acho seus posts inteligentes. Infelizmente toda regra precisa de sua exceção. Vc pode até não gostar dos americanos, democracia é isto, mas não precisa agredir a história deste jeito. Os alemães atacaram navios americanos que enviavam suprimentos para a Inglaterra e os nazistas sabiam que haviam americanos lutando na RAF em 40 e 41. Quando Roosevelt declarou guerra ao Japão, ele o fez de imediato à Alemanha. Não o fez antes pois a opinião pública americana tinha dúvidas se devia se envolver no conflito, embora Roosevelt soubesse que os planos de Hitler afetariam a América LOCALMENTE cedo ou tarde. Havia também um clima de guerra entre os EUA e a Alemanha em função dos embargos dos americanos aos produtos alemães em todo o continente americano.

Ah, por favor. O fato de haver americanos lutando na RAF não quer dizer absolutamente nada. Indivíduos têm o direito de lutar onde são aceitos sem que isso seja considerado uma declaração de guerra de seus países de origem. Isso diz tanto quanto o fato de haver americanos e ingleses nos serviços de radiodifusão do Eixo, como havia. Balela é isso, e do tipo absolutamente dispensável.

Quanto aos ataques alemães, é simplório demais achar que porque um cargueiro foi bombardeado um país declara guerra a outro. Na verdade, o torpedeamento desses navios, quando comerciam com países em guerra, é algo absolutamente legal.

Além disto, esta estória de que os EUA declararam guerra à Alemanha por causa do pacto ROBERTO é balela. O Japão era aliado de Hitler e nem por isto atacou a União Soviética, o que poderia ter feito a guerra durar pelo menos até 47 ou 48 com resultados duvidosos para os aliados, pelo menos na Europa.

Antes de falar isso você deveria se informar melhor sobre o Pacto Tripartite. O texto original está aqui. Aí você veria que ele excluía a União Soviética da obrigatoriedade de declaração solidária de guerra. Ele tinha sido assinado com dois objetivos: preservar o status quo da relação do que ali se tornava o Eixo em relação à União Soviética, e manter os Estados Unidos em posição de neutralidade. Depois que a guerra estourou entre a Alemanha e a União Soviética, ao Japão simplesmente não interessava entrar nessa guerra, do que era dispensado pelos termos do acordo — assim como não interessava à União Soviética, que só declarou guerra ao Japão depois de Hiroshima, para pegar sua parte nos despojos. Na época o Japão estava muito ocupado com a guerra sino-japonesa, se preparava para enfrentar os Estados Unidos e, ao contrário de Hitler, sabia ser pouco sábio guerrear em muitas frentes.

No caso dos Estados Unidos era justamente o contrário.

Agora só falta o pessoal dizer que eu não sei o que digo quando falo dos Beatles.

Jaguar

Eu não gosto de dirigir.

Carros não fazem, nunca fizeram parte dos meus sonhos de consumo. Um belo cavalo árabe faria; uma Juliana Paes também. Mas carros, não. O carro ideal, para mim, é aquele que vem com motorista. Do tipo escravo, que não dorme nunca, que espera por você na garagem do motel, do tipo que só olha para a frente e nunca ouve o que você diz.

Não há conversa mais chata, para mim, do que conversa sobre motores. Não há maneira mais fácil de me enrolar do que sendo um mecânico. Ferraris, Mercedes, Porsches? Para mim é tudo a mesma coisa e têm exatamente o mesmo valor. Automóveis servem apenas para me levar de um lugar a outro; e se eu pudesse eu os trocava por um avião.

Mas para tudo há uma exceção.

Há alguns anos. Fortaleza. Eu tinha acabado de comprar um Vectra, aquele tipo de carro que deixa as pessoas achando que você tem complexo de pau pequeno. Como era o carro mais caro que eu podia comprar, eu estava com aquele orgulho besta dos que acabam de comprar algo que acham bom.

E então, do meu lado, em um engarrafamento em frente ao Parque do Cocó, ele parou.

Eu só tive tempo de olhar para o lado. Lá estava ele, um Jaguar novinho, verde-musgo. O meu queixo caiu, e bateu no pescoço, e a baba que escorreu para o meu colo tinha um gosto amargo de inveja.

As pessoas que sonham com uma Ferrari deviam parar e entender a elegância inglesa e fleumática de um Jaguar. Não é o motor, não é a mecânica, e é isso que faz daquele o único carro de que eu tenho inveja: é a elegância, o aplomb, o reconhecimento de que, como Marlene Dietrich em crônica de Vinícius, um valor mais alto se alevanta.

Sempre que lembro disso lembro também que a única coisa que eu queria fazer na hora era sair do carro, bater a porta e deixar o coitado lá, atrapalhando o trânsito esquecido de mim, porque algumas coisas são uma afronta imperdoável.

Sábado à tarde, muito longe

O homem está no caixa do horti-fruti, no subúrbio. É mais ou menos uma da tarde do sábado, aquele horário morto em que só os homens de família ainda existem, e saem à rua em um dia frio de inverno em busca de algo que faltou em casa, porque é isso que os homens domesticados fazem nos sábados de inverno, e saem com uma sacolinha de plástico com umas frutas, cebolinha, talvez uma lata de cerveja.

Só mais um sujeito do subúrbio, um entre tantos, não fosse a revista que carrega debaixo do braço enquanto paga: uma edição da revista Guitarra.

Essa é a revista que vemos nas mãos de adolescentes de cabelos compridos, roupas pretas e camisetas puídas dos Ramones. Não é o tipo de coisa que se espera de um homem como ele, óculos, mais de 40, sandália de dedo que denuncia a tranqüilidade resignada do homem casado em uma tarde de sábado.

Nada no seu rosto e no seu corpo denuncia um insuspeito ás da guitarra. Cabelo cortado curto como convém a um funcionário respeitável; bermuda barata, camisa barata, a despretensão daqueles que passarão o tarde de sábado bebendo cerveja e vendo o jogo, talvez lavando o carro. Olhe para este homem e o que você verá é apenas um pai de família como tantos outros, daqueles que jamais pensariam em sai por aí com uma revista Guitarra adornando suas axilas.

Há uma época em que todos os sonhos parecem, se não possíveis, dignos de serem sonhados. É isso, essa pureza, que faz com que a adolescência seja lembrada com tanta saudade por tanta gente. É também essa pureza que se perde à medida que se envelhece e que o mundo vai impondo suas vontades ao espírito que antes julgavam inquebrantável, aos gritos de Gabba Gabba Hey. Uma revista sobre guitarras pertence a essa época e a essa pureza. Não pertence a homens do subúrbio que se aproximam da meia-idade.

Algo de melancólico em tudo isso dá a impressão de um sonho que não se realizou nem se tornou, como deveria, uma boa lembrança de tempos que passaram que deveriam ter passado. É aquela lembrança que o faz suspirar à noite, antes de dormir, enquanto a mulher ao seu lado já ressona, cansada do dia que passou e cansada do que a espera no dia seguinte.

Enquanto olho para ele, desejo apenas que o sonho de ser um ás da guitarra não atrapalhe a sua vida. Sonhos que sabem que não serão realizados mas que se recusam a morrer costumam fazer isso.

Ele paga suas compras no caixa, transfere a revista para a mão esquerda e passa por mim, que espero dentro do carro. Seu rosto é tranqüilo, e se tranqüilo é sinônimo de resignado, de que isso importa? Talvez o sonho que adivinho pela revista em sua mão não seja tão ruim assim. Talvez nenhum sonho seja ruim.

No sodalício dos imortais

Sou pontual ao chegar ao auditório, enfiado na minha roupa multi-uso — aquela que envergo em missa de sétimo dia, aniversário de parente distante, exame de fezes e casamento de pobre onde ternos parecem esnobes demais.

É a posse de um amigo na Academia.

Uma das tantas coisas que aprendi com ele foi a não levar a sério essas coisas. Fazem um bem danado à vaidade, é verdade, mas não são muito mais que isso. Graças ao que aprendi com o exemplo do sujeito olho para tudo com uma certa ironia, porque não pode haver nada mais engraçado que um bando de velhinhos falando em imortalidade.

O Estado inteiro estava lá. Só de ex-governadores contei quatro, incluindo um dos acadêmicos. Ministro, prefeito, deputados, desembargadores, um bocado de ex-professores meus. Se alguém ainda tinha alguma dúvida de que academias têm pouco ou nada a ver com letras e muito a ver com poder, basta ir a uma dessas cerimônias. É isso que faz delas algo interessante.

A verdade é que se fosse só um bando de escritores, uma academia não teria interesse nenhum. Escritores são chatos, a começar por sua mania de dizer as coisas para quem não precisa ouvi-las e a pose que costumam adotar para disfarçar sua profunda incompetência para viver e os sapos esquisitos que são obrigados a engolir dia após dia. Escritores são profundamente desinteressantes, são como adolescentes espinhentos que não perceberam ainda que as únicas pessoas que gostam dos seus wisecracks são outros adolescentes espinhentos que gostam de wisecracks.

Mas uma Academia de Letras é outra coisa. Diz respeito à estrutura de poder de um lugar. Diz respeito a política, e é por isso que o governador não está na posse do meu amigo, porque os dois são inimigos. É algo muito, muito mais interessante que um bando de bobos discutindo Balzac. Academias de letras, se fossem mesmo só de letras, seriam organismos mortos e absolutamente irrelevantes. Mas falam de política, falam de futuro e da maneira como ele é moldado, e é isso que lhes dá vida. Aqueles que reclamam da política na Academia não a entendem e não a merecem.

Fazia muito tempo que eu não via tantos políticos, advogados, juízes e promotores juntos em um lugar só. Não que eu seja um sujeito desconfiado, mas por via das dúvidas coloco a mão sobre o bolso onde está minha carteira. Prudência nunca fez mal a ninguém.

A cerimônia começa. Os velhinhos entram em fila indiana. Imagino que se somarmos a idade de cada um deles — e são muitos — o número final deve ser muito maior que a idade da primeira prensa de Gutemberg, talvez remetam ao tempo das Acta Diurna. Há alguns acadêmicos semi-novos, é verdade, mas são minoria; a imortalidade parece só admitir, curiosamente, aqueles que estão às portas da morte.

Há algo de muito ruim em mim, percebo agora. O sujeito que está tomando posse costumava me chamar de “deletério”, aparentemente sem razão; mas agora me sinto mesmo deletério, porque os pensamentos que passam pela minha cabeça só podem ser chamados por esse nome. Eu não tenho controle sobre eles. Não consigo evitar o seu sadismo. Enquanto vejo os velhinhos atravessando devagar o auditório para chegar à mesa, fico imaginando o que aconteceria se um deles — digamos que aquele ali, o encolhidinho e encurvado apoiado em uma bengala com castão de ouro — tivesse um piripaque e caísse durinho no chão. A mente prega umas peças esquisitas na gente. Eu devo ser uma pessoa muito má. Mas não morre ninguém, não agora. Meu amigo não merece isso.

Eles usam uma capinha de seda preta, chique no último. Só que eu não sei o nome do bagulho, e pergunto ao pessoal em volta de mim. Ninguém sabe, e minha ignorância se sente acompanhada. À minha volta há editores, jornalistas e até gente normal, mas ninguém sabe que coisa esquisita é aquela. Então alguém arrisca: aquilo é um solidéu.

Epa. Se não me engano solidéu é quipá de quem tem o pinto inteiro e mesmo assim não usa, mas se estão dizendo deve ser, mesmo. Solidéu. Vou me acostumar a esse nome.

Eles se referem à Academia como sodalício. Sodalício é um nome bonito, muito bonito; lembra um inglês falando sod off, mas uma expressão saxônica dessas me soaria profundamente inadequada neste momento. Sodalício significa “reunião de pessoas que vivem em comum”; me parece apenas um nome complicado, usado apenas porque esse pessoal chegado numa imortalidade gosta de falar difícil. É sinônimo de contubérnio; e então percebo que é melhor mesmo falar sodalício, porque a alternativa é muito pior.

Meu amigo faz o seu discurso. O filho da puta está emocionado. Eu não sabia que ele iria ficar tão movido por isso, mas não posso dizer que fico muito surpreso quando, em muitos momentos, ele tem que parar, com a voz embargada e os olhos marejados. Se não levo a sério a tal imortalidade porque tenho a impressão de que todo mundo ali, assim como eu, vai bater as botas um dia, levo a alegria e a emoção do sujeito. Isso me deixa feliz.

Ele começa se justificando, porque aparentemente é esquisito que um jornalista sem livros publicados seja alçado à imortalidade. Seu discurso é afável, sem palavras difíceis como o tal contubérnio e bastante firme na defesa da liberdade de imprensa. Ele fala ainda mais uma vez sobre a sua estranha condição, como homem educado que é. Mas eu não sou, e poderia dizer que sou fã do que ele escreve e não leria dois parágrafos da maioria dos acadêmicos sentados ali. Melhor milhares de bons artigos de jornal nunca publicados em livro do que um só livro ruim — pior ainda se for de poesia.

Depois é a vez de o ministro fazer o seu discurso. Foi ele que indicou o meu amigo e é ele quem faz o discurso de recepção. O sujeito anda com o moral alto, principalmente depois que acabou com as esperanças de alguns deputados do mesmo PT a que foi filiado um dia e que o indicou ao cargo que ocupa. Eu esperaria dele um discurso meio embolorado, porque a única coisa que espero de bacharéis são mesóclises, mas até que o jurista é bem leve.

E então o presidente da Academia avisa que podem colocar o capelo no novo imortal.

Capelo, merda. O grupo onde estou se agita. Capelo. Era esse o nome que todos nós, ignorantíssimos, desconhecíamos. Definitivamente, não merecemos mesmo uma glória como essa. E já que nossas esperanças de imortalidade foram para as picas porque não fazíamos idéia do que era um capelo (talvez não tão ignorantes: desconfio que uma certa jornalista perto de mim leu, em algum momento da vida, “Fernão Capelo Gaivota”), nos resta apenas esperar o coquetel que vem a seguir. Nós nos contentamos com muito pouco.

Estamos chegando ao fim e eles cantam o Hino Nacional. Olho em volta e vejo o pessoal com a mão no peito. Ah, não. Ninguém vai me pegar nessa. Isso é só um truque para me fazer tirar a mão do bolso onde está a minha carteira. O Hino Nacional que se foda, eu é que não boto a mão no peito. Eu tenho uma perfeita noção de onde estou. Minha mão vai continuar protegendo meu bolso.

A cerimônia se encerra. O auditório se levanta. E o pessoal pode ser importante, alguns deles podem ser imortais, mas não é essa característica sobre-humana que vai fazê-los rejeitar um 0800. O bom de ter tantos velhinhos em um sodalício só é que as chances de uma nova boca livre nos próximos meses são sempre grandes. Eles devem esperar — eu esperaria, pelo menos — que um dos outros velhinhos bata as botas para indicar outro imortal e garantir outro coquetel desses.

Mas talvez não, talvez eu esteja sendo injusto. A idade provecta deve tornar aqueles imortais mais conscientes de sua própria mortalidade. E a morte de qualquer deles deve servir para lembrar que a próxima pode ser a sua. Com essas coisas não se brinca. E embora eu não tenha dúvidas de que cada um prefira rezar o cadáver do outro, para que não lhe rezem o seu, ao mesmo tempo compreendo que deva haver entre eles um profundo senso de solidariedade.

É o novel acadêmico quem paga as despesas do coquetel; e ele pelo visto valoriza sua novel imortalidade, porque o que passa a ser servido é Grant’s. Certo, não é um Blue Label; mas em seu lugar eu teria comprado Teacher’s, no máximo, e o pessoal deveria se dar por feliz por não se ver obrigado a castigar um Old Eight.

De longe vejo uma antiga professora minha. Antiga nos dois sentidos. A mulher está bonita, e lembro dos tempos em que ela me dava carona para casa e um ou outro desgraçado insinuava que eu estava pegando a macróbia (mentira vil e soez, coisa de advogados. Eu só dei em cima de uma professora, e não foi essa. Só desci a esse ponto para evitar ser reprovado por faltar à segunda prova. Não adiantou, mas a infeliz também não ganhou doce. Aposto que ela precisava mais do que eu. E tudo o que aprendi é que devia haver uma maneira mais fácil de cursar direito). Como eu disse ela está bonita; mas tão esticada, tão esticada que ainda bem que tem motorista particular, porque se tivesse que chamar um táxi, quando levantasse o braço a perna levantaria também.

E mesmo gostando tanto de letras, mesmo gostando tanto de uísque, o coquetel não parece atraente o suficiente a este gigolô do beletrismo, e vou embora depois de cumprimentar alguns amigos e beber uma coca-cola. Porque aqui quase não há bundas, e as que há já tiveram, se tiveram, o seu tempo de glória. E de que valem todos os livros e todas as honras e toda a imortalidade deste mundo se não há uma bunda grande, uma bunda redonda pontilhada de celulite sobre a qual repousar a perna enquanto nos aventuramos, digamos, nas brenhas de “O Ser e o Nada”? Meu amor aos livros, de resto muito pequeno, não consegue superar coisas tão comezinhas.

Mas ir a uma posse de acadêmico, ao ingresso de um grande amigo na Grande Planície da Imortalidade, me deixou achando tudo isso muito bonitinho. Me deu vontade de ser imortal também. Não sei se os daqui, como os da ABL, têm direito a mausoléu chique; mas mesmo que não tenham, mesmo que não tenham chá das cinco eu gostaria de ser acadêmico. Eu ainda tenho uns contos escritos quando tinha uns 20 anos; vou dar um jeito de publicar um livro com aquelas coisas ruins e me preparar para adentrar a glória eterna.

Se eu conseguir fazer com que não leiam este texto, podem apostar que ainda vão ouvir falar muito de mim nos séculos que virão.

A sorte de um amor tranqüilo

Notting Hill é o típico filme de que as pessoas têm vergonha de gostar — eu incluído.

Muita gente o compara a Pretty Woman, talvez por serem ambos comédias românticas, talvez por serem estrelados por Julia Roberts, ou porque os dois falam de uma história de amor entre pessoas sem nada em comum. Mas são filmes muito diferentes entre si.

Talvez a diferença esteja nos dois protagonistas masculinos. O personagem de Richard Gere é o sujeito que todo mundo gostaria de ser: bonito, rico, absolutamente seguro de si e do que representa na cadeia alimentar. É o sujeito acrofóbico que fica na cobertura porque não aceita menos que o melhor. E é homem o suficiente para casar com uma prostituta — embora isso só seja possível porque ela tem bons sentimentos, sente a verdade na ópera e, no banheiro, usa fio dental em vez de fumar crack. Ela pode ser puta, mas sua alma é a de uma dama.

O problema é que o único jeito de ser Richard Gere é nascer Richard Gere.

Mas em Notting Hill o personagem de Hugh Grant é exatamente o contrário. Um sujeito normal, com uns tantos fracassos na vida; inseguro, mas tranqüilo em relação à vida que leva; e extremamente capaz de amar. Ao contrário de Gere, o personagem de Grant não perdeu sua humanidade e sua fragilidade. Qualquer pessoa honesta se identificaria mais facilmente com Grant que com Gere. Mas além de tudo isso há um pequeno detalhe, que faz toda a diferença aí: William Thacker é também um vencedor, a seu modo. Não é inseguro demais; é confiante o suficiente para ir atrás de uma mulher que qualquer um julgaria impossível. É esse equilíbrio que faz dele um modelo melhor: ele é mais acessível, sem deixar de ser invejável. Lá no fundo você sente que não pode ser Richard Gere; mas pode ser Hugh Grant — e nem precisa gaguejar.

Pretty Woman não se eleva acima do seu amontoado de clichês. Notting Hill é uma das melhores comédias românticas feitas em muito, muito tempo. É, para começar, um dos filmes menos sexuais dos últimos anos. William Thacker e Anna Scott vão para a cama; mas é um não-evento, e na manhã seguinte não se vê nenhum deles cantando loas ao desempenho do outro. Sexo, aí, é entendido como apenas parte do amor, algo belo mas que não precisa ser supervalorizado, e talvez seja assim que deve ser.

Talvez o segredo de Notting Hill esteja no final.

Eu teria terminado o filme na cena da entrevista coletiva. Terminaria nos dois sorrisos, o de Julia Roberts e o de Hugh Grant. É assim que se encerram os filmes hoje em dia. É algo semi-aberto, que oferece apenas a promessa de uma possibilidade de futuro. As pessoas acreditam cada vez menos em finais felizes. Nos tornamos céticos e carregamos nossas cicatrizes com uma certa vergonha e muito medo de abri-las novamente.

É assim, por exemplo, que Pretty Woman termina. Em uma cena clichê e exagerada, mas adequada ao que o filme veio construindo, com o personagem de Gere dando uma de príncipe e vencendo suas limitações pelo amor de Julia Roberts. Ninguém sabe o que vai ser deles; mas ninguém se importa, porque naquele momento o amor se realizou completamente, e nestes tempos em que isso nunca acontece, em que as pessoas têm medo de dizer “eu te amo”, talvez não seja sábio esperar que sejam felizes para sempre.

Mas Notting Hill não tem vergonha de ser piegas, de se assumir romântico até as últimas consequências e de espalhar, sem medo de parecer bobo, os seus desejos. Talvez seja essa a grande força do filme. E por isso nós vemos o casamento de Anna e William, porque quando duas pessoas se amam sorrisos de parte a parte não bastam mais, elas querem ficar juntas; e então vem a belíssima cena final, com os dois no banco de um parque particular, ele lendo um livro, ela grávida, os dois se dando as mãos.

O que vemos ali, por alguns poucos segundos, é o que Cazuza chamou de a sorte de um amor tranqüilo. E por mais que as pessoas se digam modernas, por mais que elas assumam suas individualidades endurecidas e respeitem o espaço do outro, ainda é isso, afinal, que todos querem.