O homem da cabeça de repolho

A primeira vez que ouvi falar de verdade a respeito de Serge Gainsbourg foi em 1998, em um documentário qualquer exibido pelo Multishow.

Como todo mundo, eu conhecia Gainsbourg desde sempre, mesmo sem saber: através de Je T’Aime, Moi Non Plus, a “melô do motel”. E como todo mundo, eu tinha um desprezo enorme pelo sujeito, porque ele, claro, era apenas um palhaço brega, autor de uma piada que deu certo.

Foi aquele documentário, apresentando uma perspectiva diferente, mais abrangente e principalmente mais informada, que me fez ver que as coisas não eram bem assim. Na verdade, Gainsbourg era brilhante e eu não era tão inteligente quanto pensava.

Agora leio “Um Punhado de Gitanes“, de Sylvie Simmons, e minha opinião muda novamente. Gainsbourg era um gênio e eu, por não reconhecer isso com a presteza necesssária, sou um idiota. Simples assim.

Não foi à toa que Gainsbourg se tornou ídolo na França. Quase uma instituição — meio torta, é verdade, mas ainda assim uma instituição. Talvez um pouco disso seja pelas mulheres que teve: Brigitte Bardot, naquela época, era um acréscimo e tanto ao currículo de qualquer um. Mas seria diminuir Gainsbourg creditar sua fama a isso: ele conseguiu mais, e fez excelente música com ela. Em Comic Strip, por exemplo, o que o sujeito faz é fantástico: coloca BB para fazer os sons das onomatopéias dos quadrinhos. É brilhante, absolutamente brilhante.

Depois veio Jane Birkin, a mulher que praticamente se tornou a outra metade de Gainsbourg.

É difícil saber qual o maior talento de Gainsbourg. Talvez seja o de letrista. A delicadeza de letras como a de Comment Te Dire Adieu (Mon coeur de silex vite prend feu / Ton coeur de pyrex resiste au feu (…) Sous aucun prétexte je ne veux / Devant toi surexposer mes yeux / Derrière un Kleenex je saurais mieux) mostram que o sujeito tinha um talento descomunal para jogos de palavras e para o inusitado — rimar Silex, Pirex e Kleenex, e ainda aparecer com um prétexte e um surexposer belamente desconstruídos, não é para todo mundo. Mas pouca gente no Brasil sabe disso. É essa a nossa triste sina: a anglofilia idiota e compulsória pós-1964 impede que uma letra instigante como a de Je T’Aime, Moi Non Plus (que significa algo como “Eu te amo, eu também não”) seja compreendida, e então um conjunto brilhante (acordes repetitivos, interpretação com conotação fortemente sexual, letra cheia de duplo sentido) é relegado a isso, a “música de motel”.

Gainsbourg tinha uma qualidade rara: para ele, cada canção era uma canção. É o que explica sua trajetória errática, do jazz ao reggae, passando por virtualmente todos os gêneros da música popular. Algo em Gainsbourg fazia com que ele estivesse sempre atrás do que havia de mais atual na música. E não era só isso: ele tinha também uma concepção própria da arte e da música, mais elaborada do que os escândalos que protagonizava poderiam fazer pensar.

Mas foi durante os anos 70 que Gainsbourg se tornou realmente grande. Ao talento natural do compositor ele acrescentou uma maturidade como artista que, de longe, o transformou no maior músico francês, e uma seqüência de grandes discos apareceu a partir daí.

O primeiro é o Histoire de Melody Nelson, de 1971, um álbum conceitual que conta a história da paixão de um francês de meia idade por uma garota inglesa, e que, como a história semelhante contada por Nabokov, só pode acabar em tragédia. A última faixa, Cargo Culte, é uma das mais tragicômicas de um sujeito qeu se especializou nisso.

Depois vem Vu de L’Extérieur. Se alguém ficou encantado com o “Secreções, Excreções e Desatinos” de Rubem Fonseca deveria escutar esse disco, uma ode à escatologia em canções como Des Vents Des Pets Des Poums e na belíssima Sensuelle et Sans Suite (Une histoire sensuelle et sans suite / Ça fait crac ça fait pschtt). Quando lembram do talento de Cazuza ao encaixar “desminlingüido” numa canção, eu penso em como Gainsbourg conseguiu fazer poesia com os sons que saem do traseiro de alguém.

E L’Homme À Tête de Chou, para muita gente um de seus melhores discos.

Aux Armes Et Caetera, de 1979, é, acima de tudo, um grande disco de reggae. Não podia ser diferente, com Sly Dunbar e Robbie Shakespeare na cozinha, e Rita Marley nos backing vocals como parte do The I Three. A faixa-título causou escândalo na França por ser uma versão reggae da Marselhesa, as outras deixaram Bob Marley puto ao descobrir que sua mulher tinha cantado letras eróticas sem saber, e o disco consolidou a imagem de Gainsbourg para sempre.

“Um Punhado de Gitanes”, no entanto, é parcial. Embora se pretenda apenas um apanhado geral sobre a vida e a obra de Gainsbourg, e tenha bastante sucesso nisso, falha em deixar mais claro que, a partir dos anos 80, a trajetória de Gainsbourg foi de decadência absoluta, tanto pessoal quanto musical. O Serge Gainsbourg que aparecia nos programas de entrevistas, aquela tradição francesa insuportável, era apenas uma sombra de um artista que havia sido realmente grande. Seus discos passaram a ser ruins, medíocres; sua vida se tornou ainda mais caótica. Seus vocais falados se tornaram caricaturas. O homem que morreu em 1991, um mês antes de completar 63 anos, estava doente e quase cego, com apenas um terço de seu fígado. Mas aquele era o homem que, para tanta gente, ofereceu mais contribuições à língua francesa no século passado. E, mesmo decadente, era o sujeito que em um daqueles tais programas disse — e repetiu em outra lingua, para que não ficasse dúvida — em alto e bom som para uma Whitney Houston escandalizada: “Eu quero foder você.”

Meus ídolos são velhos. São os mesmos há anos. É um alívio encontrar, depois de tanto tempo, um sujeito que foi adolescente até os 63 anos, que manteve, para o bem e para o mal, a pureza idiota e caótica de uma puberdade que não queria passar e que se manifestava não apenas em Gitanes sucessivos, mas em música de qualidade e poesia inteligente. Meu panteão de heróis, de repente, se renova.

carreirasolo.org

O Mauro Amaral está fazendo uma pesquisa para saber quem, afinal, são os leitores do carrreirasolo.org.

Eu já disse aqui várias vezes, e continuo repetindo: o carreirasolo é uma das mais interessantes iniciativas da blogoseira brasileira, pelo foco e pela capacidade de formação de uma comunidade de profissionais que têm, em comum, o trabalho criativo e a dedicação, parcial ou integral, ao freelance.

Para participar, basta clicar no banner. Não custa nada e vale a pena.

Bia

Quando o Brigatti me ligou avisando que tinha uma má notícia para dar, eu conseguia imaginar qualquer coisa — menos que o Bia tinha morrido. Não hoje.

Eu já tinha preparado um post pra ele. O filho da mãe estaria completando 35 anos hoje, e eu ia debochar da sua idade provecta. Eu sou um ano mais novo, seria sempre, então eu podia fazer isso. Bia sempre seria mais velho do que eu.

O Brigatti me acordou há alguns minutos mas não contou detalhes, estava assustado demais, e eu entendo. Parece que o Bia, quando saía de um bar no fim da madrugada, bateu o carro na traseira um caminhão que saía para entregar o Jornal de Limeira em Americana. Se foi isso mesmo, eu tenho mais é que xingar aquele filho da mãe, que usava ainda aquele Uno 88 a álcool. Batido. Agora é esperar por mais notícias.

Eu ainda não consegui entender o que aconteceu. Tá tudo muito em cima, e nessas horas a gente fica zonzo, e não dá tempo sequer de sentir saudades.

O pior em tudo isso é que eu não vou mais comer a Valéria, Bia.

Mais notícias no Donizetti, no Bruno, na Carol, no Idelber, na Viva, no Marcos, no Edu, na Mônica, no Guto, na Thania.

A Criação da Xoxota

Sete bons homens de fino saber
Criaram a xoxota, como pode se ver:
Chegando na frente, veio um açougueiro
Com faca afiada deu talho certeiro
Um bom marceneiro, com dedicação
Fez furo no centro com malho e formão
Em terceiro o alfaiate, capaz e moderno
Forrou com veludo o lado interno
Um bom caçador, chegando na hora
Forrou com raposa a parte de fora
Em quinto chegou sagaz pescador
Esfregando um peixe, deu-lhe odor
Em sexto, o bom padre da igreja daqui
Benzeu-a dizendo: “É só pra xixi!”
Por fim o marujo, zarolho e perneta
Chupou-a, fodeu-a e a chamou de boceta

(Por favor, quem quer que tenha escrito essa pequena maravilha poderia se identificar?)

(Merda, lá se foi meu BLOGPRACUMÊMULÊ.)

Deus, fumante de havanas

A Brigada Humphrey Bogart acaba de decidir, em assembléia democrática da qual só participou o seu presidente, o seu hino oficial.

O hino não poderia ter sido feito por outra pessoa que não Serge Gainsbourg. Ele morreu em 1991, depois de uma vida de devoção à música, ao escândalo, à bebida e a mulheres como Brigitte Bardot e Jane Birkin.

E, claro, aos Gitanes.

Foram os Gitanes que o mataram em um ataque cardíaco, aos 63 anos, tendo apenas um terço do fígado — embora isso tenha sido culpa do álcool, ao qual ele também se manteve fiel até o fim. Ainda mais que a birita, foram os Gitanes que fizeram parte indissociável da sua imagem de gênio que seria maldito, se não fosse tão popular.

Gainsbourg se torna um ídolo ainda maior quando lembramos que aqueles cigarros — aos quais ele se referia no feminino, como um amante consciencioso — são mata-ratos muito piores que Derby. Eu, que sempre fumei muito, fiquei um ano inteiro com um maço de Gitanes na gaveta.

Um dia, quando a Brigada Humphrey Bogart finalmente erigir sua estátua, vai imortalizá-lo montando uma loura sexy, cabelos longos à guisa de rédeas, ajoelhada com os dois braços levantados, porque Serge Gainsbourg foi um herói que morreu em batalha. A mão que segura os cabelos da loura segura também um Gitane, com aquele jeito francês que tenta traduzir em gestos o spleen baudelaireano; a outra erguerá bem alto uma garrafa, em celebração à boa vida. No pedestal, a letra brilhante de Je T’Aime, Moi Non Plus.

Por isso o nosso hino é uma canção de Gainsbourg cantada em dueto com Catherine Deneuve, e que eleva o tabaco e aquele alcalóide chamado nicotina a uma condição quase divina.

Dieu fumeur de havanes

Dieu est un fumeur de havanes
Je vois ses nuages gris
Je sais qu’il fûme même la nuit
Comme moi, ma chérie

Tu n’es qu’un fumeur de gitanes
Je vois tes volutes bleues
Me faire parfois venir les larmes aux yeux
Tu es mon maître après Dieu

Dieu est un fumeur de havanes
C’est lui-même qui m’a dit
Que la fumée envoie au paradis
Je le sais, ma chérie

Tu n’es qu’un fumeur de gitanes
Sans elles tu es malheureux
Au clair de la lune ouvre tes yeux
Pour l’amour de Dieu

Dieu est un fumeur de havanes
Tout près de toi loin de lui
J’aimerais te garder toute ma vie
Comprends-moi, ma chérie

Tu n’es qu’un fumeur de gitanes
Et la dernière je veux
La voir briller au fond des mes yeux
Aime-moi, nom de Dieu

Dieu est un fumeur de havanes
Tout près de toi loin de lui
J’aimerais te garder toute ma vie
Comprends-moi, ma chérie

Tu n’es qu’un fumeur de gitanes
Et la dernière je veux
La voir briller au fond des mes yeux
Aime-moi, nom de Dieu

Faustino

Por Cipy Lopes

Final dos anos 70. Salvador, como outras grandes capitais brasileiras, foi invadida por grafites. Expressão de rebeldia num momento de grande mobilização na cena política do país, dos gritos que precederam ao ‘Diretas Já’, grafites como ‘Faustino’, ‘Baldeação’, ‘Mancha’ e ‘Madame Min’ alegravam a cena urbana da cidade da Bahia. Nas manhãs, quando eu saía para o trabalho (morava na Graça e trabalhava no Caminho das Árvores – trajeto relativamente longo) levava a expectativa de ver as frases engraçadas, inteligentes, carregadas de teor político-social, escritas sempre na madrugada em muros estrategicamente escolhidos. Mas o meu grafite preferido era o Faustino.

Nascido em 1979, Faustino foi o pioneiro e, pra mim, o mais expressivo personagem que o spray revelou nos muros brancos da velha cidade. Trazia um humor sutil e bulia com as pessoas com suas tiradas jocosas. Simpático, era totalmente integrado à nossa urbanidade, e nunca ficava despercebido, nem mesmo ao mais desatento, distraído e alheio caminhante ou passageiro das avenidas daqui.

Faustino cheira o fio dental é uma das muitas frases que li por aí e que guardo na ‘gaveta’ como testemunho de um tempo difícil em que manifestações anônimas – e proibidas – me contentavam. Em qualquer lugar, Faustino sempre era motivo de boas conversas e ótimas risadas. Mesa de bar, trabalho, faculdade, nada escapava.

Uns tantos reclamavam muito da ‘sujeira’ nos muros. Pra outros, isso de ‘sujeira’ passava ao largo. ‘A Tarde’ – o maior jornal local – era uma voz reclamona. Faustino é assinante d’A Tarde foi uma reação de pronto às matérias publicadas sobre a ‘sujeira’ na cidade. E o pessoal do jornal gostou da brincadeira.

Filho da crise, Faustino faz piquenique no motel, vendeu o ouro do dente e carrega uma calculadora na capanga. E ele quitou o carnê do bloco. Já podia receber o kit que fazia a alegria dos foliões da classe média: mortalha, chapéu e mamãe-sacode. Nesta época os blocos de Carnaval e os promotores de espetáculos colavam cartazes pela cidade, muitos deles em cima das frases que o imortalizaram, pelo menos pra mim.

Cafona-nostálgico-saudosista, Faustino usa calça Topeka, lava a roupa com Rinso e usa escovinha pata-pata. Faz curso Madureza e tem um gosto musical pra lá de especial: aprecia o Trio Yrakitan e ouve Julio Iglesias. Ah, ele também canta no coral da empresa.

Faustino tem um terreno na Ilha (Itaparica). E status! Este era um dos sonhos de consumo da classe média soteropolitana. Outro sonho realizado foi quando ele tirou um Chevette Jeans no consórcio. O modelo escolhido atesta a sua cafonice, e no consórcio, a alternativa da hora. Cafonice também foi possuir uma pasta 007, inicialmente símbolo de executivos bem sucedidos e que à época era usada por contínuos nas suas caminhadas diárias pelas agências bancárias do Comércio, o nosso centro financeiro.

Interessante é que todos comentavam sobre Faustino, mas ninguém sabia quem era o seu criador, até que os jornais ‘Correio da Bahia’ e ‘A Tarde’, em março e abril de 1984, respectivamente, lhes dedicaram uma página inteira cada um. E Faustino teve, aos 4 anos, a identidade paterna revelada: Miguel Cordeiro, economista, fã do rock do ‘Camisa de Vênus’, então com 28 anos. Confesso que esta revelação me foi uma espécie de semi-alegria. O fato de não saber quem fazia aqueles grafites trazia uma sensação diferente.

Miguel Cordeiro fazia desenhos também, e os apresentava na galeria aberta que eram os muros das Av.s Manoel Dias da Silva e Paulo VI, na Pituba; o final da Oito de Dezembro, na Graça; Marquês de Caravelas e Afonso Celso na Barra, para lembrar alguns. Sim, geograficamente a história de Faustino e a arte plástica de Miguel foram expostas entre a Barra e o Caminho das Árvores.

E taí o Faustino.

Bons tempos aqueles em que se saía de casa e se encontrava um bom humor; uma graça poética dessemelhante pelas ruas, num diálogo charmoso onde o sorriso discreto, ou não, sempre brotava.

Não ouvi mais falar em Faustino, como também no seu pai. Ele, o cafona simpático, vive na minha lembrança e deve viver também na lembrança dos apreciadores da arte que tinham a Soterópolis de então, e que levam a Bahia a sério.

Cine Rio Branco

Passei a adolescência em Aracaju e, numa cidade ainda sem shopping centers, o centro da cidade era, realmente, o centro da cidade.

O Cine Rio Branco ficava exatamente ali. Até 2002 era o cinema mais antigo de todo o mundo em funcionamento contínuo. Era a única coisa de classe mundial que Aracaju tinha, a única coisa realmente singular que aracajuanos poderiam se orgulhar de ter.

Como todos os moradores de Estados atrasados pobres e cidades pequenas, aracajuanos têm auto-estima baixa e são muito suscetíveis à opinião dos outros. Se ofendem quando alguém não acha que sua cidade é a tradução perfeita da imagem que escolheram (no caso de Aracaju, uma cidade calma, tranqüila e bem organizada de povo acolhedor — e não, eu não copiei isso de um folder turístico). Mas eles simplesmente não sabiam o que tinham nas mãos.

Certo, havia muito tempo que os intelectuais da cidade gritavam em mesas de bar que se deveria preservar o cinema, mas nunca fizeram muito mais que isso. E o Rio Branco foi demolido na virada de 2002 para 2003, na calada da noite. A maior parte do pessoal que gritava que deveriam preservá-lo, em uma espécie de reflexo condicionado, sequer pareceu notar.

Desde 1997 eu tinha certeza de que o Rio Branco chegaria ao fim. Foi quando fecharam o melhor cinema do centro, o Palace, com sua decoração que lembrava os fantasmas dos anos 50. Esse teve um destino que pode até se dizer honroso, porque se tornou um bingo. Depois foi o Cine Aracaju, com destino mais inglório: virou igreja evangélica por pouco tempo e hoje é um estacionamento.

Ninguém falou nada enquanto esses cinemas iam abaixo. Provavelmente não compreendiam a sua importância dentro da história cultural da cidade. Não sabiam que os cinemas de rua, mais que salas de exibição, são instituições que se integram à memória afetiva da cidade, que de maneira quase imperceptível chegam a ser formadores da própria identidade cultural da cidade. Apenas pareciam compreender o que significava o Rio Branco; infelizmente sua compreensão me parecia se limitar ao prédio em si.

O Rio Branco, à parte algumas placas comemorativas de grandes nomes do teatro brasileiro que passaram por lá, não tinha nada de especial. Não chegava aos pés, por exemplo, do Jandaia de Salvador, provavelmente o cinema mais bonito do Brasil e que até há pouco tempo se deteriorava em frente aos camelôs da Baixa dos Sapateiros vendendo defumadores e patuás. Sequer do São Luiz de Fortaleza e seu mármore italiano. Sua glória estava justamente na sua existência. O Rio Branco só era grande porque funcionava. Só por isso.

Havia algumas alternativas para ele, claro. Mas sempre faltou interesse e visão de um Estado que não preza por preservar a sua cultura, principalmente porque normalmente tem uma visão equivocada do que ela é.

O cinema foi abaixo, virou uma loja de roupas baratas, e agora não há mais nada a fazer. Só pegar as lembranças e tentar fazer delas algo compreensível. Uma delas é o outro recorde do Rio Branco. Em 1987 ou 1988, não sei direito, foi o cinema com maior público pagante em todo o país. Venceu cinemas de shopping centers do Rio e São Paulo. A razão era simples: o Rio Branco tinha se especializado, a partir do segundo quarto da década de 80, em filmes pornográficos. Era o único em Sergipe, em uma época em que a população mais pobre aina não tinha vídeo-cassete.

Era uma delícia passar em frente ao cinema e ver os títulos dos filmes em exibição. Eu sempre tive a impressão que os cineastas e tradutores brasileiros criavam os títulos desses filmes depois de um dia duro de trabalho: iam para um bar, enchiam a cara e, depois de contar piadas e fofocas, tentavam achar o título mais esculhambado dentro de um mínimo de pertinência possível.

Um deles era “Senta na Minha Que Eu Entro Na Tua”. E em 1989, época do sucesso do “Batman” de Tim Burton, o Rio Branco apareceu com o divino “Batxota”. Mas nada, nada poderá substituir a glória sado-masoquista delirante de “Penetradas por Trás com Dor e Força”. Quer dizer: quase nada. Porque aí a gente lembra de “Oh! Rebuceteio”, e por trás do sorriso que vem à boca imediatamente fica uma impressão de exuberância despudorada que não se vê mais por aí.

E na Semana Santa o dono do Rio Branco substituía os filmes de sacanagem por qualquer outro filme com título mais pio. Ele, como bom católico, tinha que respeitar a moral e os bons costumes de um povo que não sabia que o seu maior cinema estava às vésperas de uma morte inglória.

On the catwalk

Rafael diz:
Mas eu vou começar a fazer um blog pra pegar mulher.

Rafael diz:
Vou começar a escrever uns textos leves, românticos.

Rafael diz:
Aí intercalo com qualquer bosta sobre literatura, pra parecer inteligente.

Inagaki diz:
Taí. Vc tem que fazer isso mesmo, um BLOGPRACUMÊMULÉ.

Rafael diz:
“Blog de um homem sensível, exigente e tranquilo, que só pensa em dar um mundo melhor pra seus filhos”.

Rafael diz:
Que tal isso?

Inagaki diz:
Pô cara, desse jeito EU vou querer dar pra você. 🙂

Rafael diz:
Ah, aí vai ter que entrar na fila.

Inagaki diz:
Gostesudo! 🙂

Rafael diz:
I’m too sexy for my shirt.

Linkania incestuosa

O Bruno. O Bruno é muito maneiro. E agora, de visual novo, tem-se a impressão de que saiu dos anos 70 direto para os anos 2000. O Viking virou o NeoViking. Só precisa aprender a ter bom gosto musical.

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O Smart, hein? Quem diria que debaixo daquela mente friamente analítica, ou analiticamente fria, sei lá, se esconde um saudoso amante de Grande Hotel. E então eu me pergunto que fim terão levado aquelas fotonovelas italianas. Deixaram de ser publicadas justamente quando avançavam em território novo e saboroso. Pena.

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Blog novo: Reflexões de um Homem-Ornitorrinco. Eu, que reclamava da não existência de outros blogs sergipanos, descobri dois de uma tacada só. Mas um deles mora em Sumpaulo.

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Blog novo: Plexo. O que me impressionou foi a qualidade dos seus poemas e dos seus contos. Pelo que vi até agora, um belíssimo blog. O Axel parece ser um sujeito interessante.

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E um belíssimo post da Simy, quase perdido em uma das mais completas apresentações de si mesmo que eu já vi.

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Também outro belo post do Jorge Pontual sobre os escândalos de Bush.

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O Cauê, o outro único blogueiro de Aracaju que eu conhecia, voltou a escrever no seu blog abandonado.

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E pensar que um único beijo transforma toda filosofia em pó. (Só podia ser coisa do Samurai do Amor.)

Cine Palace

Em janeiro fez 8 anos que o cine Palace, de Aracaju, fechou. Fechou sem alarde, exibindo como último filme o pouco notável “O Prazer de Matar”, filme espanhol de 1996 com Antonio Banderas e Victoria Abril.

O leilão dos bens do cinema aconteceu umas três semanas depois. No rol estavam incluídos algumas centenas de poltronas, um projetor, uma roleta, o balcão de doces que durante décadas funcionou perto da entrada (e que nos últimos anos estava ali apenas como um enfeite quase macabro, remanescente de uma época que passou). Eram apenas apenas lixo imprestável — as poltronas eram desconfortáveis, o projetor era sucata tecnológica e ninguém sabe para que poderia servir o balcão de doces.

Toda uma geração de aracajuanos deve ao cine Palace alguns bons momentos de suas vidas. Essa geração, que hoje conta entre 35 e 60 anos, viveu no Palace os primeiros namoros, gazeou ali aulas, foi tomada de paixão pelo cinema. Lá embaixo, bem perto da tela, ou na última fila do mezzanino, sempre o lugar mais indicado para namorar — essas pessoas certamente guardam boas lembranças daquele que, décadas atrás, foi o cinema mais luxuoso de Aracaju.

Os filmes exibidos no Palace, pelo menos durante o começo da década de 80, atrasavam meses em relação a São Paulo. Em alguns casos o atraso era ainda maior: “Em Algum Lugar do Passado” foi exibido em novembro de 1981 no Cine Tamoio, em Salvador; exatamente um ano depois ele entrava em cartaz no antigo Cine Vitória, que seria o primeiro cinema do centro da cidade a fechar.

Nos seus últimos anos o Palace conseguia uma média de público de 20, 30 pessoas ao dia. Seu fim foi anunciado quando chegaram os primeiros cinemas de shopping. O Palace era deficitário porque sua administração não soube lidar com a concorrência do videocassete e da força de distribuição dos novos cinemas da rede Severiano Ribeiro. Era difícil, mas qualquer empresário com mais visão de mercado saberia arranjar uma solução.

No começo da década de 90, quando o Palace passou a se tornar mero repetidor de filmes exibidos nos cinemas do Shopping Riomar, eu apontei uma solução: diminuir o cinema, criar novas atrações lá dentro — talvez uma espécie de pub, uma livraria, um espaço cultural, em suma — modernizá-lo e torná-lo ponto de encontro de um público mais adulto que não está muito disposto a assistir à matinê nos cinemas do shopping. Uma espécie de centro cultural, como tantos bares em São Paulo, mas ainda melhor. O modelo mais próximo é o do Odeon, no Rio; mas isso foi antes. Os filmes de Woody Allen, por exemplo, que nunca eram exibidos nos cinemas do shopping, poderiam ser exibidos lá. Era uma questão de definir um nicho de mercado e uma estratégia de convivência com a concorrência.

Ninguém jamais me convencerá de que eu estava errado: o sucesso do Cinema de Arte nos cinemas do antigo shopping Riomar, em que o crítico de cinema Ivan Valença aproveitava horários ingratos como as manhãs de sábado para exibir clássicos e filmes mais densos, me deixa com cada dia mais certeza disso.

A melhor idéia que a administração do Palace conseguiu ter foi dividir seus cinemas por públicos específicos e óbvios: o Rio Branco (então o cinema mais antigo do Brasil em funcionamento contínuo) como central de sacanagem, o Aracaju como ponto de filmes de ação e o Palace como um cinema mais sério para um segmento disposto a assistir reprises do que tinha sido exibido semanas antes pelos cinemas do shopping. Havia também o Plaza, morto há 10 anos para dar lugar a um templo da Igreja Universal, o mais legítimo “poeira” da cidade, com sessões duplas de filmes pornográficos e de artes marciais. Essa divisão de públicos, feita provavelmente por alguém que conseguiu ler dois capítulos inteiros de um livro de marketing, foi destruída pela popularização do videocassete.

Aracaju tem uma característica estranha: costuma queimar etapas no desenvolvimento, passar batido por fases que em cidades mais estruturadas são inevitáveis e que servem para preparar o mercado. O fim do Palace mostrou o que era o futuro e já é o presente dos cinemas em todo o mundo: apenas partes de shopping centers, mais chamarizes de público para lojas e lanchonetes ou parte de um “mix” do que marcos sólidos na vida de uma cidade.

Os cinemas dos centros das cidades têm uma dimensão que salas em shopping centers jamais poderão ter. Fazem parte da vida da cidade, são quase organismos vivos. São também empresas (e o grande mal da administração do Palace foi não ter conseguido enxergar esse clichê), mas, muito mais que isso, são instituições urbanas. E é por isso que o Palace, ao morrer quieto, sem barulho, sem ninguém para chorar o seu passamento, depois de uma agonia de mais de sete anos, pode ser comparado à perda de um órgão pouco necessário.

Para mim, especialmente, o fim do Palace doeu mais. Sempre preferi aquele cinema aos do shopping; nos seus últimos anos essa preferência era ainda maior. A tela era grande, a sensação de grandeza interna não podia ser igualada pelos cinemas de shopping. E como nos últimos anos ele estava às moscas, eu me sentia muito melhor lá; chegava, colocava as pernas nas poltronas da frente, não era obrigado a ouvir gritos de adolescentes histéricos e podia fumar enquanto via o filme.

Minha adolescência foi passada ali; nas épocas em que mais fui ao cinema, era ao Palace que eu ia. Eu gostava dali, me sentia bem vendo filmes, ainda que muito tempo depois deles serem exibidos pelo Shopping Riomar, com toda a tranqüilidade do mundo.

Mas há algo que talvez compense um pouco. O Cine Palace não virou estacionamento, como o Cine Aracaju, ou loja popular, como o Rio Branco. Virou um bingo. E de certa forma, continua fazendo a mesma coisa que fazia em seus tempos de glória: assim como as igrejas evangélicas, continua criando alguns minutos de sonhos e de catarse.