Os 100 melhores filmes do New York Times

Depois que o crítico A. O. Scott pendurou as chuteiras, as coisas parecem ter desandado na editoria de cinema do New York Times. Tenho a impressão de que a decana do velho jornal agora é a Manohla Dargis, que uns 15 anos atrás escreveu um longo artigo louvando a ideia de blockbusters. Essa parece ser a visão de cinema do jornal atualmente. E só isso explica a lista de 100 melhores filmes do século XXI que o jornal publicou há alguns meses, e que eu esqueci de comentar.

A lista começa errada e termina errada. O melhor do século, para eles, é “Parasita”, um filme mal resolvido que não consegue se manter à altura de sua primeira metade. “Parasita” está muito longe de ser essa obra-prima que apregoam, não era sequer o melhor do ano em que ganhou o Oscar. Há pelo menos algumas dezenas de filmes melhores, e isso contando só os que estão presentes na lista.

Chega a ser inacreditável que um dos maiores cineastas vivos — e dos pouquíssimos a quem se poderia conceder o título duvidoso de “autor” —, Pedro Almodóvar, tenha apenas “Volver” na lista; seu “Fale Com Ela”, por exemplo, é infinitamente maior, e quase toda a sua produção é superior ao rame-rame americano incluído aqui.

Enquanto isso Greta Gerwig, que a julgar pelo New York Times é a maior cineasta viva, comparece com “Frances Ha”, bom filme, e “Lady Bird”, medíocre.

Woody Allen se tornou veneno. Seu “Meia-Noite em Paris” foi injustamente elogiado à época, e eu acho que seu último grande filme foi “Desconstruindo Harry”, mas Allen teria lugar nessa lista com alguma folga. Infelizmente, o mundo continua em sua cruzada injusta e criminosa contra Allen, e o resultado é uma lista que, só por sua ausência, já se torna capenga.

É triste quando se deixa de incluir um filme porque se resolveu que seu diretor não é boa pessoa. Mas o mais curioso, mesmo, é que como esses critérios são sempre imbecis, estúpidos e deletérios, não fazem isso com Leni Riefenstahl, cujo Olympia sempre está nas listas de melhores filmes. Sieg heil.

Os filmes de super-herói, gênero que só se pôde realizar adequadamente neste século e se esgotou rapidamente, tem dois filmes: “O Cavaleiro das Trevas” e “Pantera Negra”. Este último, que me perdoem, é só mais um filme da Marvel quando ela já se esforçava para espremer o bagaço de um modelo criado alguns anos antes. Entrou pelas cotas. Enquanto isso, “Homem Aranha 2”, um filme perfeito dentro do gênero, e os primeiros “Homem de Ferro” e “Vingadores”, que definiram essa estrutura, são ignorados. Ignorado também é Sin City, um exercício magnífico de direção e estilo.

Três desenhos animados entram na lista: “WALL-E”, “Up” e “Ratatouille”. São excelentes, todos eles — a primeira metade de “WALL-E” é um poema visual estonteante, uma obra-prima. Mas falta “Shrek”, um desenho muito mais influente e surpreendente, e “Os Incríveis”, também inovador de uma maneira que, por exemplo, “Ratatouille” não é. E que me perdoem esses cultuadores do novo, mas a sorte de todos é que “Branca de Neve e os Sete Anões” não concorre a esses prêmios, porque nenhum deles ainda conseguiu superar o que deu início a tudo isso.

Amour está na lista. Mas The Father, que também fala sobre demência, é muito melhor em termos de linguagem cinematográfica. As soluções de Christopher Hampton e Florian Zeller são brilhantes, e são elas que fazem com que o filme não afunde sob a interpretação gigantesca de Anthony Hopkins. Mas eles esqueceram disso.

“Melancolia”, de Lars Von Trier, está na lista no lugar que deveria pertencer, por direito natural, a Dogville. Dogville é talvez o filme mais brilhante, mais absolutamente cinematográfico deste século; “Melancolia” é longo demais, chato demais, mas eles não acham isso.

Um aspecto curioso da lista é a reduzidíssima presença de filmes iranianos. No início do século, eles eram louvados indiscriminadamente, por virtualmente todo mundo — e eu sempre achei que confundiam choque cultural com qualidade cinematográfica. A Separation está lá; eu pelo menos, prefiro Monsieur Lazhar e o crudelíssimo Incendies — sei, sei, não são iranianos, um é canadense e o outro, do Villeneuve, é franco-canadense, mas para mim é tudo turco.

Tàr, Ocean’s Eleven, Gravity, Almost Famous, The Social Network, Moneyball, uma tonelada de filmes medianos encontra lugar nessa lista, “Roma”, para mim um dos dez melhores deste século, está lá no meio. “O Segredo dos Seus Olhos” — o original, não a refilmagem americana — não está em lugar nenhum.

A lista acaba sendo um retrato mediano do panorama cinematográfico americano. E no fim das contas, o que ela diz é que é cedo demais para fazer uma lista com 100 grandes filmes, porque ainda não deu tempo para isso. O que não justifica a inclusão de tanta bobagem.

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Quer me irritar, corrija minhas vírgulas.

Deixa eu começar dizendo que eu sei que sei escrever, a modéstia à puta que pariu.

Não conheço gramática, nunca aprendi. Lembro que descobri o que era aposto já no século XXI, e fiquei feliz e orgulhoso; de lá para cá quase esqueci o que é. Mas sei escrever. Sei usar crase, também, e me assusta quem não saiba, porque sua lógica é fácil demais.

Acontece que eu sou baiano e aprendi o básico do portuga velho de guerra lendo o que me caía nas mãos, não na escola onde a professora Rose, da Alfabetização, tentou me forçar a escrever em letra de forma quando eu já tinha chegado sabendo ler e escrever, e a professora Maria José, da primeira série, tentou me convencer que o correto era falar “naisci”, e não “nasci”. Aprendi a desconfiar de regras desde muito cedo.

Mas, acima de tudo, eu sei usar vírgula. Ou melhor: sei como deveria usar e sei por que não uso, quando não uso.

É o Word, esse escroto americanizado, que fica me mandando colocar vírgulas onde não quero colocar. O Word tem alma de contador. É ele que me faz revoltado, que me faz escrever este texto.

Talvez a principal razão pela qual sou fã absoluto de Jorge Amado seja a maneira baiana como ele usa vírgulas. Com o Amado você aprende que é a vírgula, não o ponto, nem as reticências que dão a qualquer texto o ritmo que você quer — que dá a delicadeza necessária às vezes, a conexão certa entre raciocínios apenas semelhantes, que deixa clara a distância exata que existe entre um e outro, nem maior, nem menor.

Uma das coisas mais maravilhosas que li quando criança foi o monólogo de Leopold Bloom no final de “Ulysses”, a tradução do Houaiss. Não li o livro todo na época, claro. Mas aquelas vinte e tantas páginas sem vírgulas, sem pontuação, deixaram um legado indelével: eu aprendi que era possível escrever sem vírgulas, e as coisas faziam um sentido estranho, tão melhor que os livros a que eu estava acostumado.

E porque era possível passar sem elas entendi a sua singularidade, entendi por que eram especiais.

É por isso tão triste um escritor como Hemingway. Pontos. Muitos pontos. Não que eu não o entenda. Sabe Deus como o velho fanfarrão ajudou a limpar o horizonte de uma literatura muitas vezes empolada e rococó. Mas Hemingway é um escritor americano e aquela ruma de pontos acaba mostrando isso, uma atitude típica, quase puritana, um certo jeito duro de ver o mundo, gringo sem cor e sem ginga que não sabe sambar.

Fosse baiano — não, baiano não, baiano seria demais para ele — e Hem saberia que vírgula é amor, é dengo. É ainda mais que o fim do preto e branco, é a percepção de que o mundo é mais doce do que pontos tão marciais querem fazer parecer. Vírgula é a continuação do carinho, a certeza de que nem tudo acaba.

Ponto é peremptório, é grosseiro, é dá ou desce. Vírgula não, é desça não, neguinha, dê, vá… Vírgula é um sujeito implorando, por favor, eu imploro, sabendo que vai receber.

Tem coisas que ninguém deveria usar. Pontos de exclamação, por exemplo. Por quê? Por que gritar dessa forma? Coitados, parecem alegria falsa, sorriso amarelo seguido de um “êêêba…” desenxabido dado por criança que ganha roupa em vez de brinquedo no Natal.

E pois. Existe alguma palavra mais feia do que pois? Pois é a coisa mais redundante que um filho de Deus já colocou neste mundo. “Vou comer uma buchada, pois estou com muita vontade”. Pobre intrometida, sinhazinha sibite de nariz adunco e queixo duplo e amostrada que só faz conspurcar um texto que uma vírgula, sempre ela, resolve com menos afetação e mais delicadeza: “Dá um beijo, eu quero tanto…”

Ah, as reticências… Deixa eu avisar, reticências são perigosas, são sonsas. Moças sonsas são um perigo, e quando você se dá conta elas colocaram Rohypnol na sua bebida e levaram sua carteira, são as moças que quando a porta se fecha não têm mais os olhos baixos nem são mais reticentes, e lhe jogam na cama e lhe rasgam as roupas, e é nessas horas que você corre o risco de se apaixonar perdidamente por elas, e largar a mulher em casa e os quatro filhos, começar a faltar à repartição, pedir dinheiro no agiota, e ir atrás delas até o dia em que vão embora com outro sujeito, deixando como destino para você apenas uma mesa de boteco vagabundo que apara lágrimas tão amargas, tão amargas, me ouça. Reticências são Circes que lhe levam ao redemoinho…

Que outros mais fortes fiquem com as reticências, que os idiotas fiquem com os pontos de exclamação. Eu fico com as vírgulas.

O Cruzeiro

Eu sou fã de revistas, sempre fui, e como o disco arranhado que sou, de vez em quando lamento aqui o fim das bancas onde elas eram vendidas.

Revistas editavam a informação disponível, definiam o que era importante saber, apresentavam algo que talvez você quisesse conhecer, e no fim das contas isso facilitava a vida.

A verdade é que a maior parte da informação, mesmo aquela que você julga importante ou que minimamente lhe interessa, é inútil. Não muda a sua vida em absolutamente nada, e você não poderá fazer nada quanto a isso. Me diga em que a morte da princesa Diana mudou a sua vida. Em certa medida as revistas aproximavam e homogeneizavam o mundo, sem o excesso de angústia dos dias de hoje; sem fazer nenhum juízo de valor, é algo a que éramos acostumados, e sua ausência é sentida.

Mas nenhuma das revistas que agora desaparecem a três por quatro pode se comparar à revista O Cruzeiro.

Tenho uma aqui em casa. Comprei num sebo em São Paulo, nem lembro mais quando foi. E do momento em que a folheei pela primeira vez até hoje, essa revista me deslumbra.

Ao lado está o seu expediente. O que chama imediatamente a atenção é a variedade absurda de assuntos que uma revista semanal conseguia abarcar. O Cruzeiro conseguia atender aos interesses de leitura de toda uma família, fosse ela qual fosse, pertencesse à classe que pertencesse; bastava saber ler. Mas mesmo analfabetos — que nesse tempo eram mais ou menos a metade da população brasileira — podiam folhear a revista e ter prazer nisso.

Essa variedade, claro, nem se compara à vastidão do universo daquilo que se chamou um dia de World Wide Web. Mas ela tinha duas vantagens que a web não tem: estava tudo em um lugar, condensado, e era informação que não se podia encontrar em outro lugar, não com tal facilidade. E essa era a mesma informação a que seu vizinho ou o sujeito que morava a dois mil quilômetros de você também tinha.

Havia uma certa magia que se perdeu, mas também uma conexão que as redes sociais, paradoxalmente, não podem dar.

Papel semelhante tinha uma revista como a americana National Geographic. Tenho algumas dos anos 50 e 70, e andei folheando outras numa biblioteca. Por muito tempo elas desvendaram a multidões a vastidão e as maravilhas de um mundo que não poderiam ser reveladas de outra forma, com exceção de documentários como os de James Algar para a Disney, que mais tarde fariam a alegria das crianças que assistiam a “Disneylândia”, eu entre elas.

Mas era diferente. Havia nas revistas um senso de raridade que os filmes extinguiriam, de profundidade também. Filmes significavam abundância de imagens, mas o conhecimento que as revistas lhe ofereciam era mais sólido, mais ponderado. Essa raridade, essa escassez, trazia ao mundo uma certa magia que hoje não é mais possível, assim como o mineiro de hoje não experimenta, pela primeira vez diante do mar que viu pela TV, o mesmo deslumbramento daquele que nunca tinha visto ou ouvido nada semelhante, que não podia imaginar o que é a onda quebrando na praia. A abundância nos deu o direito de sermos blasés com o mundo.

As pessoas têm a mania de dizer que a chegada de um novo meio de comunicação não destrói os anteriores. Durante muitos anos jornalistas do copo meio cheio abriam a boca para dizer que o rádio e a TV não acabaram com os jornais — o que era só meia verdade, porque em 1950 uma cidade como Rio, então capital federal, tinha talvez dezenas de jornais diários e 30 anos depois não tinha meia dúzia. O rádio diz que a TV não acabou com ele — ah, ouça rádio hoje, ou mesmo há 30 anos, e compare com o auge da Rádio Nacional; procure um programa como PRK-30 e, por favor, não ouse compará-lo ao Pânico.

Mas uma coisa é inegável, e não tem otimismo que negue isso: a TV acabou com revistas como O Cruzeiro. Em seu lugar ficou um arremedo da Life, que era a Manchete, e as “semanais de informação” modernas — ao menos eram modernas entre os anos 60 e 90 —, como a Veja e a IstoÉ que acabou no início deste ano: revistas para serem lidas inteiras no dia em que são publicadas, voltadas para um público específico, quase um complemento da televisão. Jamais aspiraram a ter a complexidade e abrangência daquelas revistas de um tempo em que, na quase totalidade do país, elas materializavam imagens desconhecidas.

A internet está matando todas ela, dando lugar a um mundo de informação excessiva, inexpressiva e inútil, e é claro que não faço ideia das consequências. Andam dizendo que estamos ficando mais burros, e eu não duvido. Eu, pelo menos, estou. E desconfio que o mundo sem revistas é feito para emburrecer a gente, mesmo.

Uma nova era para os Beatles

Nos últimos tempos eu vinha refletindo cá com meus zíperes sobre o que me parece ser uma enorme má vontade minha em relação aos mais recentes lançamentos dos Beatles. É como se eu fosse incapaz de encontrar uma só boa palavra para falar sobre cada um deles enquanto as pessoas se mostravam extasiadas por eles, como se tudo me incomodasse, como se eu me recusasse a ver ou entender o que eles têm de bom.

Uma parte é compreensível e, para mim, justificável. O que realmente importa na obra dos Beatles são os discos lançados entre 1963 e 1970. O que vem depois pode até ser interessante, e alguns desses novos discos são grandes acréscimos à obra original, como o Live at the BBC, mas o que realmente importa são aquelas cento e tantas canções. E a maior parte do que tem sido lançado é simplesmente material rejeitado em seu tempo. Outtakes são interessantes apenas para fãs ainda em estágio de demência, como eu fui um dia.

Por isso venho falando mal dos coitados há tempos. Décadas de beatlemaniame deram o juízo necessário para insistir em ter um alto grau de exigência em relação a esses lançamentos., e a reconhecer os cada vez mais frequentes defeitos neles. Em 2011 já via na voz destroçada de McCartney um problema, que só foram comentar abertamente agora, em sua última turnê. Desde o início, me entediavam profundamente as caixas de aniversário de seus álbuns, em que a Apple Corps passou a seguir o modelo lançado anos antes por McCartney e sua MPL, reembalando os mesmos discos com o que fosse possível de sobras de estúdio e uma apresentação luxuosa e caríssima.

É justo agora, quando começava a achar que o problema estava em mim (porque uma das coisas que a vida me ensinou é que, quando você acha todo mundo chato, o chato é você), que as pessoas parecem finalmente ter chegado à mesma conclusão.

Semana passada a Apple divulgou o lançamento deste ano: uma nova versão do Anthology, agora com um álbum a mais, uma versão ampliada do documentário para o streaming e o relançamento do livro.

O documentário terá mais trechos das entrevistas feitas originalmente, e imagino que também utilizem IA para fazer um upscale da imagem original para adaptá-la às atuais resoluções em 4K ou pelo menos Full HD. Seria realmente interessante ver mais horas da última reunião dos Threetles.

O quarto disco, por sua vez, terá algumas poucas gravações inéditas — apenas 12, em um álbum triplo, todas meros outtakes, sem absolutamente nada de relevante: mais uma vez, a expectativa dos fãs em ouvir Carnival of Light foi frustrada —, e novas versões das músicas inéditas lançadas em 95 e 96, Free as a Bird e Real Love.

Antes de prosseguir, quero lembrar aqui o que disse na época do lançamento do Now and Then:

Estão dizendo que esta é a última canção dos Beatles. Não é. É algo completamente diferente: é o início de um novo tempo. (…) Posso apostar com qualquer um que o próximo passo será remasterizar a voz de Lennon em Free as a Bird e Real Love.

Eu gostaria de poder iniciar com isso um novo negócio de previsões, e se alguém quisesse os números da próxima Mega Sena eu poderia vender por módica quantia, e ainda parcelar em três vezes. Mas a verdade é que isso era absolutamente óbvio. A maioria do material disponível dos Beatles não tinha chances de ver a luz do dia oficialmente porque sua qualidade sonora era, muitas vezes, baixa. As novas tecnologias de IA possibilitam resgatar ao menos parte dessas gravações de maneira honesta. É como a descoberta de um novo veio em uma mina esgotada.

Mas tudo cansa nesta vida, até o descanso. Vendo o material anunciado, as pessoas estão reclamando de pagar muito caro por muito pouco — algo de que doentes como eu reclamavam há mais tempo, porque conhecem a abundância de material pirata disponível por aí. E algumas passaram a se perguntar se o volume e a qualidade do material neste lançamento poderia ser um indicativo de que baú do qual os Beatles tiram o leite das crianças nos últimos 30 anos está começando a secar. E é aqui que discordo deles.

Eu fiquei impressionado com a mediocridade da edição de aniversário do Let it Be — por sinal, a única que comprei, porque sempre quis ter o álbum Get Back com aquela capa; é como se eu, que estou longe de ser o colecionador que pensava ser aos 15 anos, finalmente sentisse que essa a era única coisa que faltava para mim. O material disponível é absurdamente variado (fiz uma sugestão de gravações que poderiam ser incluídas, num post que talvez represente a última manifestação de fé deste pobre escriba na Apple — talvez fosse o lockdown, não sei; mas é um indicativo do volume de material interessante que ainda está oficialmente inédito), mas o que foi efetivamente incluído era parco e fraco.

Agora entendo o que era: o nome disso é racionamento, é gestão de recursos. O material é finito e precisa ser liberado aos poucos, de maneira que garanta um fluxo regular capaz de gerar a renda necessária pelos próximos anos.

Usando como exemplo as gravações disponíveis das sessões do Let it Be, daqui a dez anos é possível que lancem uma nova versão do álbum, agora com novas canções que ficaram fora até agora. Ou discos completamente inéditos, com títulos possíveis como “Raspa do Tacho Vol. 6”, ou coisa parecida. Sem falar nos shows ao vivo — são mais de 50 disponíveis, alguns completos, outros com umas poucas canções, inclusive apenas ouvidas ao fundo de reportagens de rádio ou TV, a maioria imprestável.

O leitinho das crianças não está ameaçado. Os Beatles entenderam que sempre terão uma legião de fãs dispostos a pagar caro pelo que, hoje, são essencialmente mementos, souvenirs, em um tempo em que até mesmo fãs dedicados como eu adquirem seu discos nas redes de torrent. Para esse pessoal, mais do que a experiência estética ou mesmo espiritual de ouvir uma canção, o que vale mesmo é ter nas mãos um artefato que dê materialidade e substitua essa experiência. Os Beatles sabem que não é mais a música que importa.

E aqui, talvez, esteja a maior ironia de todas.

Como eu imaginava, Free as Bird foi realmente remixada. O vocal original de Lennon foi adequadamente tratado, e agora soa mais natural. Mas, por incrível e inacreditável que pareça, ela ficou pior.

Em 1995, saber que a música tinha sido feita sobre uma gravação em cassete gerava uma condescendência necessária e benéfica para a bravação. A qualidade da parte de Lennon era ruim, mas para todos nós, era a qualidade da gravação, algo que não se podia consertar, e então ela importava pouco ou nada. Com o vocal restaurado, não dá mais para evitar lembrar que ela era apenas uma demo caseira, com uma voz quase em falsete, sem nenhuma pretensão. É paradoxal: a canção soa melhor, mas seu efeito é pior. É melhor ouvir a versão original.

Talvez isso seja um indicativo do que podemos esperar daqui em diante. Não sei. Do que tenho certeza é que esse é apenas o primeiro passo de uma longa fieira de lançamentos semelhantes.

Mas não se mata cavalo?

Quando as chuvas voltaram a inundar o Rio Grande do Sul este ano, agora com menos gravidade, lembrei da tragédia do ano passado, e de um artigo na Folha de S. Paulo que usou o destino do cavalo ilhado em um telhado de Canoas para um pequeno ensaio sobre a questão da miscigenação racial, cujo autor infelizmente esqueci. Ele o considerava um símbolo do hibridismo racial brasileiro, da maneira como nós nos enxergamos. Se não podemos mais admitir a ideia de miscigenação, se ela deu lugar a uma reinterpretação americanizada e binária de uma disputa inconciliável entre brancos e pretos, então transferimos nossa visão atávica sobre raças para os vira-latas.

(O nome que deram ao cavalo, Caramelo, me irrita. Aquele era um cavalo baio, mas as redes, eminentemente urbanas e que nunca sentiram o cheiro de um equino — que o general Figueiredo preferia ao cheiro de povo — precisam dar às coisas os nomes que já conhecem, adequá-las ao mundo novo da comunicação miojo. O mundo não é mais o que é; é como influencers o veem, e então a ignorância — o não saber que aquela cor, em um cavalo, é baia — ascende e ocupa o lugar da informação correta. Talvez nunca tenha sido realmente diferente, mas agora é como se tudo tivesse tomado anabolizantes.)

O artigo é bom, apesar dessa insistência típica destes tempos de reduzir situações complexas a símbolos chamativos. Dois ou três pontos nele me incomodavam, mas já nem lembro quais eram.

O resgate do cavalo Caramelo, claro, acalmou os corações angustiados nas redes sociais e possibilitou deixar de lado a consciência mais ampla das dimensões da catástrofe gaúcha no que diz respeito a animais. Apenas para ficar na discussão que interessa aos que preferem bicho a gente, não sei se dá para fazer ideia da quantidade de vacas que tiveram o leite empedrado em seus ubres, porque a infraestrutura de grandes e pequenos criadores foi destruída e elas não podiam ser ordenhadas. Não se faz ideia de quantos bois, cavalos, carneiros, cachorros, porcos, galinhas morreram. O setor rural nas áreas atingidas foi destruído, mas qualquer discussão mais profunda saía dos holofotes, porque não interessa, não gera engajamento, não dá dinheiro em um mundo que se acostumou a uma corrida de ratos cada vez mais sórdida e desesperada. As pessoas precisam da imagem insólita de um cavalo em cima de um telhado, de um cachorrinho sendo resgatado e nadando no ar. Precisam de imagens que falem ao coração seletivamente terno de gente confortavelmente instalada, não aos seus raciocínios e em um mundo saturado de informação, só o que é diferente é capaz de falar às pessoas. E assim, não há necessidade de se discutir o que causou a tragédia, como se lidou com ela, porque afinal o cavalo Caramelo foi salvo e está muito bem, obrigado. Recebeu doações para garantir sua alimentação pelo resto da vida, algo que não faz sentido sob nenhum aspecto que não seja a existência midiática e a capacidade nativa de se mobilizar por causas desimportantes mas apelativas. A inefável Janja se engajou pessoalmente pelo seu bem-estar.

Eram as mesmas redes que durante a crise louvavam o voluntariado, ajudando em parte a obscurecer quem realmente fez a diferença, no fim das contas: o Estado — apesar do patético, pequeno e vergonhoso Eduardo Leite. A caridade, afinal, nos justifica e nos redime, acalma nossas consciências, e nada mais realmente importa.

E então impressiona a maneira como nos acostumamos a um mundo onde tudo é like, tudo é exposição. Todo mundo correu para tirar sua lasquinha na tragédia: de Janja a Felipe Neto, de Ana Maria Braga a Giovanna Ewbank. Uns com mais senso, outros com mais desespero em não perder a oportunidade; mas mesmo senso e desespero hoje parecem calculados, porque cada um ocupa o seu nicho, com suas necessidades e clamores, e sabem como dar o seu público a desgraça que eles querem.

Eu, pelo menos, não consigo mais ver esse pessoal sem lembrar imediatamente de “Mas Não Se Mata Cavalo?”, de Horace McCoy. Não pelo cavalo, que o livro não tem nenhum; mas pelo desespero que, embora manifestado de maneiras diferentes, parece ser o mesmo em 2025 e durante a Depressão americana. O mesmo desespero que fazia as pessoas dançarem até a morte para garantir que no dia seguinte não passariam fome as faz produzir conteúdo, qualquer que seja, para as redes.

As diferenças que parecem óbvias, pela distância no tempo e no espaço, no fim das contas apenas parecem. Enquanto a classe média da terra do Siegfried Ellwanger defendia armada suas casas — ou defendeu durante algum tempo, nunca pude saber; as notícias rapidamente deixavam de aparecer e não tinham o que no jornalismo se chama suíte, porque mesmo a miséria alheia numa hecatombe cansa — e as grandes vítimas, negras e pobres, eram alijadas do noticiário, a não ser quando suas histórias individuais podiam ser destacadas para gerar lágrimas no Jornal Nacional ou no Fantástico, a impressão que ficava era a de que o mundo está cada vez mais dessensibilizado, que passou a só existir em pequenos vídeos de Instagram ou TikTok.

E essa é talvez uma tragédia ainda maior. Porque se somos todos caramelos, o prognóstico é muito ruim.

Há uma epidemia pior que a de Covid-19 em andamento:uma epidemia de gente pobre e feia se expondo e fazendo graça de suas misérias e esquisitices em suas casas sem reboco e telhados de Eternit, acreditando que as redes são uma nova Serra Pelada; 40 anos são tempo suficiente para que se esqueça que, naquele garimpo, meia dúzia de garimpeiros enriqueceu e outros 100 mil tiveram que se contentar em carregar sacos de areia na cabeça quilômetros de escadas acima e morrer em deslizamentos de terra. Mas qualquer que seja sua classe, o que os caramelos querem, no fundo, é enriquecer fácil. A diferença entre pobres e ricos é apenas estética. E os cavalos agora somos nós.

Claudio Abramo

Conversando com duas amigas jornalistas dia desses, ambas chegando aos 40, uma formada na Federal e outra em uma particular, pergunto o que achavam de “A Regra do Jogo”, de Cláudio Abramo,

Elas nunca tinham sequer ouvido falar. Nem do livro, nem do autor.

Foi um choque. Até então, me parecia inadmissível que um jornalista não conhecesse esse livro, ou “Minha Razão de Viver”, do Samuel Wainer. Agora tenho a impressão de que o único jornalista brasileiro que conseguiu escapar da sina do papel para embrulhar peixe no dia seguinte é o Assis Chateaubriand, porque seu livro foi um fenômeno de vendas e sua vida extrapolava em muito o jornalismo.

Agora me pergunto como é que “A Regra do Jogo”, publicado em 1988, saiu do currículo de leituras das faculdades de jornalismo — se é que ele já esteve em alguma, dúvida que nunca tive mas que agora me assola. E a única resposta que posso dar é a hipótese de que o mundo universitário afundou em uma mediocridade tão avassaladora e tão à direita que um livro como esse é considerado na melhor das hipóteses perigoso, ou meramente desnecessário, o que é mais provável.

“A Regra do Jogo” é um dos livros mais importantes sobre jornalismo lançado no Brasil — junto com o “Manual do Peninha”. Traz um longo depoimento autobiográfico de Cláudio Abramo em sua primeira parte, centrado especialmente nas grandes reformas editoriais que fez n’O Estado de S. Paulo e na Folha de S. Paulo, selecionado a partir de algumas entrevistas; na segunda parte, suas visões sobre o jornalismo. Tudo isso entremeado por uma seleção de artigos escritos ao longo de mais de 30 anos.

Abramo era o sujeito que disse que a ética do jornalismo é a ética do marceneiro — esse é, aliás, o subtítulo do livro. Não existe uma ética específica para um jornalista. Ele não tem nada de especial, nada de diferente em relação a outros cidadãos; como um marceneiro, não pode mentir, não pode roubar. O resto é besteira, é conversa para boi dormir. Abramo resume em uma linha o que as universidades estendem por uma matéria que dura um semestre inteiro. O curso de Direito também tem uma disciplina chamada Ética, mas acho que tal matéria, em tal curso, deve ser um chiste, um respiro humorístico, uma brincadeira que fazem com os alunos que precisam estudar para a prova de Teoria do Processo.

Claudio Abramo foi uma lenda da era de ouro do jornalismo brasileiro. Era daqueles últimos humanistas que o século XX e o refinamento do sistema de formação de mão de obra enterrou em universidades e repartições públicas: um trotskista com quase nenhuma educação formal, mas dono de uma cultura fenomenal e extremamente abrangente porque criado em um ambiente favorável a isso.

Quando “A Regra do Jogo” foi publicado, ainda havia o tal Segundo Mundo, e sua existência balizava o pensamento ocidental.

Um ano depois, no entanto, o bloco socialista começou a ruir, e a vitória final do capitalismo e o fim da história foram proclamados. O pensamento marxista, até mesmo a crítica dos processos de formação de riqueza começaram a sair de moda. A esquerda, de modo geral, incorporou a derrota, passou a trabalhar dentro do escopo neoliberal e aderiu ao identitarismo como disfarce inadequado para a sua capitulação. Abandonou os temas estruturais e se perde em loops infinitos sobre a ressignificação de palavras, sobre identitarismos, masturbação sub-intelectual cada vez mais rasa e mais delirante, bobagens que abriram uma autobahn para a direita, hoje mais capaz de compreender a realidade e estabelecer diálogos com o povo.

Ao mesmo tempo, o academicismo cada vez mais hermético, pequeno e autorreferente se consolidava nas universidades, reforçando progressivamente a noção de universidade como formadora de mão de obra cada vez menos especializada e geradora de um excesso de conhecimento inútil ou desnecessário — a Universidade Federal de Sergipe tem um curso chamado “Ciências da Religião”, e sobre isso eu me recuso a falar. Mais recentemente, a ascensão da extrema-direita nas universidades de todo o país, inclusive nos departamentos de ciências humanas, ocupando o espaço que essa “nova esquerda” abriu, consolidou um pouco mais esse processo, ameaçando a universidade no que ela tem de mais necessário para a sociedade.

Num ambiente desses, um livro como “A Regra do Jogo” é obra a ser evitada.

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Como disse há algum tempo Jeff Jarvis, do BuzzMachine, um dos pioneiros da blogoseira, “Informação confiável, de qualidade, é cada vez mais o reduto dos poucos privilegiados que podem pagar por isso, enquanto a desinformação sempre será farta e gratuita”.

O que escapa a isso é caça-cliques. Um passeio pelos portais de notícias é quase um desfile de idiotices, de notícias irrelevantes encaixadas por assessorias que aproveitam a busca desesperada por visualizações para vender seus interesses.

É dentro desse contexto que as universidades têm criado um paradoxo curioso, e assustador. Se tornaram, ao menos em parte, validadoras de ignorância, especialmente nas áreas de humanas.

Há uma cada vez maior turba de meninos que saem das universidades sabendo o básico sobre o nicho de conhecimento em que resolveram seguir carreira Publicidade, jornalismo, engenharia de alguma coisa menor. O fato de terem um diploma, de terem avançado no ensino formal e ao menos em tese dominarem uma área de conhecimento que o resto do mundo não domina, acaba validando a sua ignorância sobre quase todo o resto.

Exagero, claro, mas é como se as universidades, cada vez mais, formassem autistes savants.

Se alguém se pergunta como é que as tias do zap nasceram, como o bolsonarismo se espalha pelas redes, como o terraplanismo se tornou um fenômeno a ser notado, talvez esteja aí ao menos parte da sua resposta.

Um dia, já não lembro quando, o jornalismo sentia que tinha uma missão civilizacional a cumprir, mais ainda do que informar. Mas aqueles axiomas que o definiram, que definiram o orgulho que jornalistas pareciam ter pelo papel que cumpriam no mundo, hoje são — quando muito — desculpas. Hoje sua missão é sobreviver, é garantir que o público pague as contas dos portais. As perspectivas são muito ruins. E ao ver que um pessoal que entrou na universidade no final dos anos 90 já não sabia quem era Claudio Abramo, nem teve a chance de conhecer um livro lançado dez anos antes, eu entendo um pouco mais como se chegou a isso.

Sobre livros

Parei de ler o conto de Tchekov porque naturalmente lembrei de John Cheever, e consequentemente lembrei de Dorothy Parker — mas agora a lógica é só minha porque descobri um e outra na mesma época. Coloquei o livro de lado, o cinzeiro na barriga e fiquei olhando para as vigas e ripas do telhado que tive que fazer e refazer porque primeiro reutilizei as telhas antigas da casa velha e elas eram ruins. Fidel está deitado ao pé da cama, Ceci sempre agoniada entra e sai do quarto, esperando acordar meu sobrinho que dorme no quarto ao lado.

No que penso é simples, penso nisso de vez em quando.

Tenho a impressão de que as pessoas estão lendo de maneira diferente. Talvez seja a minha ancianidade, a minha impaciência, ou a minha intolerância que não para de crescer, e então não vejo mais o que está à minha volta; mas leitores como os que eu via, que se aproximavam de livros como quem encontra fortuitamente um desconhecido na rua, esses eu não vejo mesmo. Vejo gente que descobriu um autor qualquer, normalmente menor, na universidade, e fala dele como velhinhos falam de Joyce ou Mann, ou um grupo de autores, quase sempre contemporâneos ou defuntos ainda frescos, porque eles são mais palatáveis a uma cultura imediatista, excessivamente abundante, uma corrida de ratos em que já não se sabe qual o prêmio, mas se sabe que não dá para deixar de correr.

Nas internets não vejo muitas conversas sobre literatura que não façam parte de guetos universitários, onde meninos são guiados pelos caminhos de escritores que interessam aos seus professores e seus artigos publicados em revistas que ninguém lê; parece haver mesmo uma competição cujas regras só eles conhecem, uma busca por autores que eles conheceram antes que o resto daquele seu pequeno mundo — “antes que fosse modinha”, como dizem em seu dialeto —, que possam lhe dar uma certa primazia no conhecimento e que reflete uma certa obsessão permanente pelo novo que vai lhe fazer diferente e talvez melhor, como se um livro fosse um vestido de costureiro chique.

Vejo mais frequentemente conversas sobre livros, mediadas pelo consumo e pelo mercado, sobre edições bonitas com todos aqueles truques supérfluos que as editoras usam para tornar uma sequência de folhas de papel sujas de tinta em um objeto mais desejável pelo seu valor como objeto do que pelas palavras e frases que formam, como letras grandes e papel com gramatura maior e capas duras, sempre mais respeitáveis que brochuras.

Aí eu lembro que literatura também é moda. Nos anos 80, uma geração americanófila exercia uma influência enorme; isso mudou, se tornou mais diverso, paradoxalmente mais rico e menor; mas ainda assim é moda. A nova moda agora são autoras negras, parece. Amanhã talvez sejam índios, eu não sei.

Lembro também que houve um tempo em que havia uma certa unidade em torno de livros, que a internet matou. Graças a um ecossistema que incluía jornais e revistas, essas coisas que ninguém mais compra, alguns livros extrapolavam os limites do mercado, vendiam tiragens bem maiores que as três mil por edição de praxe. E esses livros ajudavam a criar elos em comum entre as pessoas. De memória, é fácil lembrar de tantos: “Vastas Emoções, Pensamentos Imperfeitos”, “Estorvo” numa resenha magnífica de Roberto da Matta na Veja (ou será que minha memória me trai mais uma vez?), “Perestroika”, “Tudo Que É Sólido Desmancha no Ar”, “Personas Sexuais” de uma Camille Paglia que o identitarismo enxotou da moda. Tudo isso acabou. Alguns livros, por suas qualidades, conseguem superar seus guetos, mas ao mesmo tempo porque se adequam a uma percepção cada vez mais “nidificada” do mundo. “Torto Arado” talvez seja o melhor exemplo: se destaca ainda mais por outro elemento que não suas qualidades óbvias, mas porque está perfeitamente inserido naquilo que a nova elite intelectual quer ouvir e permite dizer.

Por isso penso no meu sobrinho que Ceci está esperando acordar, que parece saber tantas coisas, muito mais do que outros meninos de sua idade, mas que no entanto não parece ler tanto; e então fico com a impressão de que esse conhecimento vem pelo YouTube, ou de alguma outra rede social, e a maneira como se relacionam com esse conhecimento é diferente, e a própria natureza desse conhecimento é diferente. É um mundo diferente o que se forma à minha frente. Então talvez seja por isso que não vejo as pessoas falando de Cheever, nem ostentando o sorriso amargo que um conto de Dorothy Parker deixa na cara das pessoas.

Ontem matei uma aranha marrom antes que a curiosidade de Ceci a fizesse ser picada; e lembrei que se contasse isso nas internets algum desses moços ou moças que não conseguem mais viver sem tentar impingir aos outros suas boas intenções telúricas iria dizer que não se deve matar aranhas, porque elas fazem parte do ecossistema e são criaturas de Deus iguais em direitos a mim e superiores ao mendigo sem as duas pernas, porque comem isso e aquilo, sei lá que diabo elas comem.

Eu mato, mato, mato com gosto. Mais gosto, só em matar lacraia, porque eu já fui picado por uma e o seu veneno, em vez de me transformar no Homem-Lacraia porque eu não fui criado por Stan Lee, fez de mim o Psicopata do Piolho de Cobra, um vingativo raivoso que começa a tremer de ódio e a espumar pela boca quando vê uma lacraia.

Mas a conversa era sobre livros, acho. Ou não, não sei mais. Retomei o conto de Tchekov, que é o melhor que eu podia fazer.

A poesia das causas siderais perdidas

Existe um curso online de ufologia. Eles dão certificado e tudo. E você pode fazer mesmo que tenha sido abduzido, já que não é presencial.

Se eu fosse ainda o Rafael de 15 anos atrás estaria espantado com a estupidez do mundo, agora arreganhada sem nenhuma vergonha diante de meus olhos cansados. Mas nesses últimos anos passamos por tanta coisa. As manifestações de junho de 2013, a histeria canalha da Lava Jato, o impeachment de Dilma, Michel Temer, a ascensão da extrema direita, a eleição de Jair Bolsonaro, os quatro anos de tragédia e agonia, a pandemia de COVID. Passamos pelas pessoas que rezam para pneus e pela Cagona do 8 de Janeiro, a velha traficante que transformou o mero defecar em ato de terrorismo. Passamos pela transformação da esquerda em uma auxiliar boazinha de um capitalismo cada vez mais exigente, preocupada em me empurrar goela abaixo a ideia de que se eu falar “todes” as mazelas do mundo estarão resolvidas. Passamos pela consolidação da cultura do cancelamento, pela universalização da estupidez através das redes sociais.

Diante de tudo isso, a existência de ufólogos é quase um refresco, a sensação reconfortante de que a estupidez, afinal, não é de hoje e algumas coisas são permanentes neste mundo baumaniano. Para mim, ao menos, significa um tipo de maluquice inofensiva e quase benevolente, o sujeito que chamamos de excêntrico porque é o tipo de doidinho que não faz mal a ninguém, nem mesmo a ele. É uma variedade einsteiniana do astrólogo.

Mais que isso, me surpreende a tenacidade e a resiliência desse pessoal. Agora que todos têm uma câmera na mão, parece que ninguém mais tem uma ideia na cabeça.

É o grande paradoxo sideral destes tempos: há câmeras em tudo quanto é bolso, e mesmo assim ninguém agora tira foto de um disco voador. A chance que ufólogos tinham de provar que estavam certos, que os idiotas éramos os céticos, até agora não foi aproveitada.

Ninguém mais é abduzido, ninguém mais dá passeios pelo lado escuro da lua — nem mesmo a melhor das promessas feitas por esses alienígenas safadinhos, a ET verdinha e gostosa dos peitão que vinha fazer um filho para levar lá para a constelação da Ursa Polar, ah, nem mesmo isso parece existir mais. Os ETs broxaram, e nós também.

Por tudo isso é de se respeitar, sim, a insistência em acreditar no inacreditável.

E assim como admiro os golpes de Afonso Coelho, assim como um dia ainda compro um busto de Victor Lustig, o gênio que vendeu a Torre Eiffel como sucata, preciso prestar meus respeitos ao malandro que criou esse curso.

Porque de uns tempos para cá dei de pensar que deixar de acreditar em OVNIs é, no fim das coisas, uma coisa ruim, ruim e triste. Porque fazer isso seria como deixar a imaginação para os roteiristas de filmes de ficção científica, que seguem sempre a mesma inspiração, as mesmas fórmulas. Acreditar em OVNIs significa um resquício de fé no improvável, de teimosia em acreditar no que não existe; é, e isso é talvez o mais importante, uma forma mais pura de fé que a dos religiosos; ufólogos não esperam nada de ruim dos ETs, esperam paz e progresso e levá-los ao nosso líder — e não fazem mal a ninguém, nem mesmo a eles, ao contrário de quem acredita que seu Deus que os faz matar em nome do amor.

Borges dizia, e eu sempre repito, que a um cavalheiro só interessam as causas perdidas. Nenhuma causa é mais perdida do que essa, e isso a justifica e engrandece. E é assim, transformando a estupidez no mais próximo que consigo chegar da poesia, que a gente segue levando a vida.

Não vivemos mais no mundo em que nascemos

O título deste post é um comentário do Thiago ao post de ontem,

É algo em que sempre acreditei. E talvez tivesse até alguma razão, como Heráclito tinha ao colocar o pé no rio. Mas eu estava enganado, porque só agora a frase se torna realmente verdadeira.

Eu era criança em 1980. Via filmes dos anos 50 ou 60 e achava que vivia mesmo num mundo completamente diferente, e não percebia que o que era essencial no mundo não tinha mudado em nada. Talvez justamente porque tanta coisa permanecia inalterada, era mais fácil ver o que tinha se transformado — os carros eram diferentes, as roupas eram diferentes — e dar a isso uma importância maior do que realmente tinha, como se o bolo de chocolate virasse bolo de morango porque a cobertura mudou.

Em 1960 uma criança — e é isso o que mais me importa aqui, a infância — ia para a escola sentar com lápis e papel para aprender o que professores escreviam em quadros-negros, ia brincar com os amigos na rua. Via TV, os mesmos desenhos e seriados e novelas que seus vizinhos assistiam, os pais liam os jornais e revistas que seus vizinhos liam, ia-se para o cinema ver o filme que todos iam ver.

30 anos depois, a vida continuava exatamente a mesma. A TV tinha ganhado cor, as modas tinham mudado — mas a essência das coisas, não. Os elementos fundamentais da vida cotidiana continuavam os mesmos. Em 1990 os filhos daquelas crianças de 1960 continuavam usando lápis e papel na escola, aprendiam com livros e quadros-negros, à tarde iam para a rua brincar, ou ver TV, e à noite estavam diante da TV, com jornais e revistas em volta. O mundo era o mesmo, só mudava a maquiagem e uma roupinha nova. Mas a gente pensava que tinha mudado tanto.

Agora a gente olha 30 para trás e percebe que só agora a frase se torna verdadeira. Internet e smartphones mudaram a maneira como as pessoas se relacionam, mediam mesmo a sua interação com o mundo. As pessoas sabem menos porque, paradoxalmente, o mundo lhes oferece mais e mais. Amizades e amores se formam à distância. Encontros são mais raros, e considerados cada vez mais perigosos. Vidas encapsuladas se tornam cada vez plenas na percepção de quem as vive. Essa é uma mudança real.

(Me permito achar isso tão estranho. Em 1980 eu tinha 9 anos e saía da Euclydes da Cunha, onde morava, pegava um ônibus ao lado do antigo Campo da Graça e descia em frente ao cine Guarani, na praça Castro Alves. Assistia ao filme, atravessava a rua e pegava o ônibus que me deixaria no mesmo lugar. No ano seguinte, talvez me achando adulto aos 10, não era incomum ir ao centro da cidade a pé — Rua da Graça, Corredor da Vitória, Campo Grande, Avenida Sete, rua Chile, Praça da Sé onde ainda existia algumas livrarias —, mas era muito mais comum ir até a Barra de onde eu nunca deveria ter saído, brincar com amigos no meu pequeno feudo que ia do final da João Pondé até a Alameda da Barra, hoje mais conhecida como rua Miguel Calmon. Não sei de criança de classe média que faça algo parecido hoje.)

Havia uma certa unidade de pensamento que a internet extinguiu, e as pessoas, fossem quem fossem, tinham mais coisas em comum.

O fim da TV aberta é um símbolo importante disso, e por isso o impacto simbólico da morte do patrão do Lombardi. Por ser linear e analógica, durante algumas décadas, ela ajudou a unificar o país e definir uma base social e cultural comum. Eu nunca assisti a Silvio Santos ou Faustão ou Hebe, mas nunca tive dúvidas de que, como outros marcos da TV como o Jornal Nacional, o Fantástico, as telenovelas, eles representavam essa permanência e essa unidade. E é por isso que sua morte — e o fim do programa do Roberto — dá a impressão de ser a pá de cal num mundo que vem morrendo há muito tempo.

Sempre me incomodei com aquele pessoal que vive dizendo que “no meu tempo era melhor”, porque essa lenga-lenga é repetida a cada geração. Não era o seu tempo que era melhor, você é que era. Agora, pela primeira vez vejo diferenças que me incomodam. Ao contrário de gente que publica livros dizendo que a burrice se alastra — impressão que, a propósito, tenho a cada olhada nas redes sociais —, não acho que as novas gerações estejam menos inteligentes. Mas tenho a sensação cada vez mais incômoda de que estão mais fechadas, mais isoladas, sem perceber a grande maravilha que é a diversidade de informações, de conhecimentos, de opinião, de gostos mundo afora. A internet é uma das responsáveis por isso: o mundo parece ter diminuído demais para tanta gente.

Em “O Incrível Homem Que Encolheu”, um pequeno grande filme de 1957, encolhemos porque descobríamos a nossa pequenez diante de um mundo cada vez maior que nós mesmos tínhamos criado; agora, encolhemos porque escolhemos fazer com que o mundo encolha conosco.

É por isso que ver a frase do Thiago agora me fez pensar. 30 anos atrás, eu pensava que isso já era verdade, e embora iludido achava isso uma coisa boa, boa de verdade. Perceber que agora isso se torna verdade não é apenas melancólico demais: é assustador.