Depois que o crítico A. O. Scott pendurou as chuteiras, as coisas parecem ter desandado na editoria de cinema do New York Times. Tenho a impressão de que a decana do velho jornal agora é a Manohla Dargis, que uns 15 anos atrás escreveu um longo artigo louvando a ideia de blockbusters. Essa parece ser a visão de cinema do jornal atualmente. E só isso explica a lista de 100 melhores filmes do século XXI que o jornal publicou há alguns meses, e que eu esqueci de comentar.
A lista começa errada e termina errada. O melhor do século, para eles, é “Parasita”, um filme mal resolvido que não consegue se manter à altura de sua primeira metade. “Parasita” está muito longe de ser essa obra-prima que apregoam, não era sequer o melhor do ano em que ganhou o Oscar. Há pelo menos algumas dezenas de filmes melhores, e isso contando só os que estão presentes na lista.
Chega a ser inacreditável que um dos maiores cineastas vivos — e dos pouquíssimos a quem se poderia conceder o título duvidoso de “autor” —, Pedro Almodóvar, tenha apenas “Volver” na lista; seu “Fale Com Ela”, por exemplo, é infinitamente maior, e quase toda a sua produção é superior ao rame-rame americano incluído aqui.
Enquanto isso Greta Gerwig, que a julgar pelo New York Times é a maior cineasta viva, comparece com “Frances Ha”, bom filme, e “Lady Bird”, medíocre.
Woody Allen se tornou veneno. Seu “Meia-Noite em Paris” foi injustamente elogiado à época, e eu acho que seu último grande filme foi “Desconstruindo Harry”, mas Allen teria lugar nessa lista com alguma folga. Infelizmente, o mundo continua em sua cruzada injusta e criminosa contra Allen, e o resultado é uma lista que, só por sua ausência, já se torna capenga.
É triste quando se deixa de incluir um filme porque se resolveu que seu diretor não é boa pessoa. Mas o mais curioso, mesmo, é que como esses critérios são sempre imbecis, estúpidos e deletérios, não fazem isso com Leni Riefenstahl, cujo Olympia sempre está nas listas de melhores filmes. Sieg heil.
Os filmes de super-herói, gênero que só se pôde realizar adequadamente neste século e se esgotou rapidamente, tem dois filmes: “O Cavaleiro das Trevas” e “Pantera Negra”. Este último, que me perdoem, é só mais um filme da Marvel quando ela já se esforçava para espremer o bagaço de um modelo criado alguns anos antes. Entrou pelas cotas. Enquanto isso, “Homem Aranha 2”, um filme perfeito dentro do gênero, e os primeiros “Homem de Ferro” e “Vingadores”, que definiram essa estrutura, são ignorados. Ignorado também é Sin City, um exercício magnífico de direção e estilo.
Três desenhos animados entram na lista: “WALL-E”, “Up” e “Ratatouille”. São excelentes, todos eles — a primeira metade de “WALL-E” é um poema visual estonteante, uma obra-prima. Mas falta “Shrek”, um desenho muito mais influente e surpreendente, e “Os Incríveis”, também inovador de uma maneira que, por exemplo, “Ratatouille” não é. E que me perdoem esses cultuadores do novo, mas a sorte de todos é que “Branca de Neve e os Sete Anões” não concorre a esses prêmios, porque nenhum deles ainda conseguiu superar o que deu início a tudo isso.
Amour está na lista. Mas The Father, que também fala sobre demência, é muito melhor em termos de linguagem cinematográfica. As soluções de Christopher Hampton e Florian Zeller são brilhantes, e são elas que fazem com que o filme não afunde sob a interpretação gigantesca de Anthony Hopkins. Mas eles esqueceram disso.
“Melancolia”, de Lars Von Trier, está na lista no lugar que deveria pertencer, por direito natural, a Dogville. Dogville é talvez o filme mais brilhante, mais absolutamente cinematográfico deste século; “Melancolia” é longo demais, chato demais, mas eles não acham isso.
Um aspecto curioso da lista é a reduzidíssima presença de filmes iranianos. No início do século, eles eram louvados indiscriminadamente, por virtualmente todo mundo — e eu sempre achei que confundiam choque cultural com qualidade cinematográfica. A Separation está lá; eu pelo menos, prefiro Monsieur Lazhar e o crudelíssimo Incendies — sei, sei, não são iranianos, um é canadense e o outro, do Villeneuve, é franco-canadense, mas para mim é tudo turco.
Tàr, Ocean’s Eleven, Gravity, Almost Famous, The Social Network, Moneyball, uma tonelada de filmes medianos encontra lugar nessa lista, “Roma”, para mim um dos dez melhores deste século, está lá no meio. “O Segredo dos Seus Olhos” — o original, não a refilmagem americana — não está em lugar nenhum.
A lista acaba sendo um retrato mediano do panorama cinematográfico americano. E no fim das contas, o que ela diz é que é cedo demais para fazer uma lista com 100 grandes filmes, porque ainda não deu tempo para isso. O que não justifica a inclusão de tanta bobagem.
Ao lado está o seu expediente. O que chama imediatamente a atenção é a variedade absurda de assuntos que uma revista semanal conseguia abarcar. O Cruzeiro conseguia atender aos interesses de leitura de toda uma família, fosse ela qual fosse, pertencesse à classe que pertencesse; bastava saber ler. Mas mesmo analfabetos — que nesse tempo eram mais ou menos a metade da população brasileira — podiam folhear a revista e ter prazer nisso.