De jornalistas e ascensoristas

Durante anos agências de notícias, mercado publicitário e a propriedade dos meios de distribuição da notícia garantiram o florescimento de uma indústria jornalística inchada e redundante. A internet mudou tudo isso e está acabando com esse modelo.

São mudanças que não afetam apenas o ganha-pão de jornalistas. Afetam o meu, também. Minha formação profissional se deu em um mundo de mídia de massas em que uma campanha publicitária era normalmente bem resolvida com comerciais de TV, spots de rádio, anúncios de jornal e outdoors. Atualmente a publicidade vive uma crise de modelos importante, em que esse esquema de mídia começa a implodir; vive também a pior crise criativa de toda a sua história, e a internet tem um papel fundamental em tudo isso. Espero que isso não me faça suspeito de dizer justamente o contrário do que vou dizer abaixo.

A repercussão da queda da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista tem me impressionado. Não exatamente por causa de jornalistas com medo de que padeiros tomem o seu lugar, como disse o Leandro Demori. Mas porque eles vêm na decisão do Supremo o apocalipse para a sua profissão.

Eles estão enganados.

O apocalipse está vindo, sim. Mas não vem de Brasília (antes de mais nada: as pessoas, de maneira tendenciosa, tentam associar o nome funesto de Gilmar Mendes à decisão. E convenientemente esquecem que Joaquim Barbosa e Carlos Britto também votaram pela queda). É a falta de visão de vários jornalistas em analisar de maneira correta a realidade, a insistência em reclamar de uma garoa enquanto não vêm o furacão que se aproxima, que me impressiona.

Explicando da maneira mais didática possível o que eu vejo como futuro provável:

1 – Jornais impressos caminham para a extinção porque não faz sentido comprar hoje a notícia lida ontem de graça na internet.

2 – Ao migrar em sua totalidade para a internet a notícia se transforma, definitivamente, em commodity. Nem todo mundo tem uma prensa; qualquer um pode ter um blog, um site, pode dar uma notícia no Twitter. Jornais vão concorrer com milhares, milhões de pessoas que vão amplificar e depurar a notícia original.

3 – Por ser commodity, o seu “ecossistema de produção” forçosamente encolhe. Todos os dias passo os olhos em vários jornais e revistas impressos, locais e nacionais. Não ouso dizer que leio porque 80% das notícias não me interessam. Mas posso afirmar que, de modo geral as mesmas notícias estão em todos eles, com raríssimas — e normalmente pouco importantes — exceções.

4 – A mera existência dessas pessoas repassando informações torna a existência de vários jornais redundante.

5 – Em um mundo em que a competição é mais acirrada, essa redundância perde o sentido, ao menos do ponto de vista financeiro. As pessoas não vão pagar por informação geral porque a receberão de graça. O número de leitores de cada site, que precisa de dinheiro para sustentar a sua estrutura jornalística, cai.

6 – Caindo o número de leitores, cai a receita publicitária.

7 – Sem dinheiro a grande maioria dos jornais, impressos ou eletrônicos, fecham.

8 – Em outros termos, isso significa o fim de uma indústria.

Não é mais uma questão de o que é desejável para uma categoria profissional, e discutir isso é como discutir o tempo — goste ou não da chuva, ela vai continuar a cair independente do que você acha. É sobre o que é possível, ou provável.

O fim dos jornais, no entanto, não significa o fim do jornalismo — ou, usando um termo que talvez venha a se mostrar mais apropriado, da produção da notícia. TVs fazem jornalismo. Rádios também. Levando-se em consideração a força das redes sociais, não é difícil que em um modelo provável a notícia crua seja dada pelas redes de TV — ou o que as suceda na internet, muito provavelmente uma salada multimídia em que os conceitos de rádio, TV e jornal perdem o sentido — e repercutida pelas redes na internet em análises, opiniões e links.

No entanto não haverá mais lugar para essa variedade de empresas jornalísticas. Do ponto de vista da notícia, aquela pequena quimera que se tornou a tábua de salvação putativa da indústria jornalística, não há necessidade de tantos meios de comunicação. Isso era necessário quando havia um público diverso e com poucas opções. O jornal era, basicamente, o melhor meio de distribuição de notícia que existia — mas foi superado por um meio mais eficiente, a Internet, que por acaso tem a gratuidade nas suas veias. Há muito pouca gente cobrindo os fatos, na verdade; o resto é interpretação e copidescagem — aquilo que blogs e sites fazem de graça e em profusão, com qualidade variável.

Falta aos jornalistas a coragem — ou a clareza de pensamento — de aceitar que o que faz a indústria jornalística é, na verdade, centenas ou milhares de pessoas dizendo a mesma coisa como se fosse novidade. A mudança que parece estar vindo é a probabilidade de, cada vez mais, isso ser feito pela própria sociedade, dona de seus próprios meios de produção e distribuição da informação, de uma forma que não possibilite a concentração de recursos suficientes para o estabelecimento de estruturas empresariais verticais como um jornal.

Na ausência da grande indústria jornalística, a notícia procurará outros canais de distribuição. Podem ser blogs de jornalistas independentes. Podem ser sites de organizações não governamentais dedicadas a um ou outro assunto. Podem ser sites de jornalistas que, com estrutura reduzida, farão exatamente o mesmo papel que um grande jornal hoje faz, ainda que de maneira fragmentada e provavelmente bastante especializada.

Mas esses produtores primários de notícias — que já não serão únicos e talvez sequer os mais importantes — existirão, muito provavelmente, em uma escala infinitamente menor do que a existente hoje. É isso que significa “o fim da indústria jornalística”. Não é o fim da produção e distribuição de notícias. É apenas o fim de um grande ecossistema empresarial de distribuição de um produto.

É por isso que é improvável que a figura do repórter profissional, do sujeito que é pago para buscar a notícia, desapareça. O que está sendo superado neste momento não é um valor universal — a necessidade humana de informação — mas um valor histórico: a formação de uma estrutura para o suprimento dessa necessidade. Durante muitas décadas, os jornais foram o veículo ideal para realizar essa função. Não serão mais.

Pode-se citar como exemplo a figura do correspondente estrangeiro. Pode-se perguntar: e para que correspondentes estrangeiros, mesmo? Eles fizeram sentido (e ainda fazem, embora bem menos) em um tempo em que a distribuição da notícia era cara e complexa. Isso acabou. A formação de redes sociais cada vez mais intrincadas e consistentes elimina essa necessidade. Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento do mundo, alguma técnica de investigação de fatos e acesso a redes sociais, como o Facebook ou o Twitter, pode narrar com precisão e talento determinado fato acontecido no Azerbaidjão ou no Sri Lanka ou em Cabrobó. O Pedro Dória está fazendo justamente isso na cobertura do resultado das eleições no Irã; o Idelber fez durante os ataques israelenses à Palestina, dando inclusive furos de reportagem como a utilização de bombas de fósforo por Israel.

Mas, aparentemente, a grande maioria dos jornalistas não consegue se enxergar fora de uma estrutura que se consolidou ao longo dos últimos 150 anos. Cada vez mais, lembram ascensoristas desconsolados diante do surgimento de elevadores automáticos, em pânico diante da superação dos elevadores com alavancas e portas pantográficas.

O que eles não parecem perceber é que a palavra-chave dessa nova configuração de mundo não é a notícia. De certa forma, nunca foi — porque ao contrário do que alguns jornalistas parecem acreditar, a notícia e a sua propagação não dependem exclusivamente deles. O que realmente vai definir o futuro da informação são as redes sociais que a internet possibilita. E se eu fosse jornalista, estaria mais preocupado em entendê-las e me localizar dentro delas do que em reclamar de uma decisão do Supremo que, afinal, não vai mudar muita coisa.

Um adeus à exigência de diploma de jornalista

Pois é, acabou.

Um anacronismo inútil foi eliminado.

O Pedro Dória resumiu com clareza e concisão o pensamento que este blog sempre defendeu:

Jornalismo, perdoem os companheiros de profissão que discordam, é uma forma de exercício da liberdade de expressão. É um direito de todo cidadão, não pode ser restrito. E, em tempos de novas mídias que põem nas mãos de qualquer um os meios de publicar e distribuir informação e opinião, a lei era impossível de funcionar.

E o Leandro Demori respondeu, de maneira muito simples, às principais perguntas de ordem prática feitas pelos novos órfãos da lei:

Agora que caiu exigência do diploma, todo mundo vai querer ser jornalista pra ganhar milhões.

As empresas, claro, irão contratar semi-analfabetos para escrever nos jornais (ops, isso algumas já fazem).

“Agora um padeiro pode roubar o meu emprego?” Se depois de 4 anos na faculdade tu escreve pior do que o padeiro, sim.

“Mas o padeiro VAI querer roubar o meu emprego?” Não.

“Sem diploma nossos salários serão horríveis!”. Claro! O diploma é que garantia o teu salário de marajá, agora fodel!

Fim da vida mágica nas redações, dos altos salários, da baixa carga horária e da proteção da classe.

“E agora, a faculdade de jornalismo não serve pra nada?”. Minha filha, é AGORA que serve (ou não, depende dela).

“E o sindicato dos jornalistas, se tornou obsoleto?”. Pergunta com 30 anos de atraso (mas talvez agora se torne útil).

Já o Razbliuto lembra que o Brasil deixa o seleto time de países que exigem diploma para o exercício do jornalismo, e que inclui África do Sul, Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Croácia, Equador, Honduras, Indonésia, Síria, Tunísia, Turquia e Ucrânia, esses bastiões da imprensa forte e independente, e junta-se a países como Alemanha, Espanha, EUA, França, Inglaterra, Irlanda, Itália, Japão e Suiça.

Uma pequena defesa de Londres

Bruno, foi com atenção que li o seu texto sobre Londres. Li com tanta atenção que resolvi fazer, aqui, uma defesa da sua cidade. Acho que você cometeu alguns equívocos — que vou creditar ao seu amor por ela, à sua extrema boa vontade para com um lugar onde você viveu, e à sua justa indignação com a declaração de amor de um paraíba pela cidade pela qual se apaixonou há tantos anos e de que nunca mais esqueceu.

Londres é uma boa cidade, e eu gosto muito dela, e não tenho nenhuma intenção de diminuí-la. Por isso me permito aqui, com a sua licença e compreensão, tentar lhe sugerir elementos para uma defesa menos apaixonada. Começo citando um trecho do seu post:

Enquanto os gárgolas de Notre Dame te fazem gozar de pau mole, a resoluta Abbey resplandece em verdes campos, costurada majestosamente pelo Tâmisa, turvo e raivoso.

Na verdade, não é bem Notre Dame que me chama a atenção em Paris; o que me faz virar o pescoço são as damas que andam por suas ruas. Mas acho que você acertou ao evitar tocar nesse assunto: seria bobagem tentar comparar as francesas, com sua elegância e seu talhe esbelto, às inglesas — que pobre gente feia aqueles ingleses, não é?

Eu, no entanto, teria preferido falar de uma das pequenas delícias de Londres que você deixou passar: o costume de deitar e comer nos parques, como o Green ou o Hyde. Acho que os ingleses fazem isso porque, ao contrário dos parisienses, não têm uma cidade bonita pela qual flanar, mas cada um se vira com o que tem — e que povo melhor para suportar as adversidades do que o inglês? Vamos então deitar nos parques, olhar as flores em volta e esquecer que além de suas grades está uma cidadezinha feia, mas simpática.

E você, querido Rafael, fala de Balzac du Paris como se minha cidade não tivesse meu Shakespeare e minha Woolf of London.

Sabe, Bruno, acho que aqui você fez uma má escolha. Eu não teria utilizado esses dois porque não acho que sirvam de contraponto: se você reparar direitinho, vai ver que nenhum deles parece se interessar por Londres. O que eles percebiam era que, digamos assim, não era interessante falar daquela cidade, e se voltaram para a investigação do indivíduo porque não tinham motivos para falar de Londres. Não há deles nenhuma declaração de amor à capital inglesa, nenhuma vontade de passear por seus becos e suas ruelas, nenhuma percepção da cidade como criatura e criadora de um povo, como Balzac percebe em Paris. Sim, eles também eram gênios — e por serem gênios sabiam que Londres não valia a pena.

Shakespeare, especialmente, ambientou suas peças mais famosas — “Romeu e Julieta” e “Hamlet”, mais precisamente — em Verona e na Dinamarca, porque Londres não era um bom lugar (sem falar nas outras, claro: “Os Dois Cavalheiros de Verona”, “O Mercador de Veneza”, “Otelo”, “Tempestade”). Isso é compreensível. Londres não lhe parecia adequada, especialmente, para uma grande história de amor: “O, swear not by the moon, the inconstant moon that monthly changes in her cycled orb, lest that thy love prove likewise variable” — como colocar uma cena tão bela em Londres, se o diabo do fog não deixa desgraçado nenhum ver a lua? Como Romeu poderia jurar o seu amor a sua Julieta e, em troca, receber tão doce admoestação diante de um céu obtusamente nublado?

Sabe, eventualmente Balzac colocava seus personagens em outras cidades que não Paris: corsos vingativos, medíocres de Angoulême, provincianos de Besançon — sempre para chegar à conclusão de que a sua era a melhor cidade do mundo. É essa a diferença. O maior escritor francês cantou a sua capital; o maior escritor inglês foi procurar outros ares.

Então eu falaria de outras coisas. Falaria de Jack, o Estripador, por exemplo. Falaria da polícia que mata brasileiros no metrô. Ou lembraria de Drácula, de Mr. Hyde, de Frankenstein — Londres é um cenário perfeito para esse tipo de história.

A beleza de Paris é tão efemera que se esvai no momento em que se respira o ar da cidade por mais de dois dias

Não. A beleza de Paris não é efêmera. Apenas parece assim se comparada ao edifícios pesados de tijolinhos amarronzados que fazem Londres. O que você chamou de efêmero na arquitetura de Paris é na verdade uma elegância fluida, haussmaniana, que a torna extemporânea.

Por isso, em vez de comparar dois estilos — um voltado para a beleza, outro para a funcionalidade — eu falaria da forma como Londres se apega pouco ao passado, como os belos prédios modernos se misturam a predinhos atarracados cor de cocô. Londres parece tanto com São Paulo em alguns aspectos. Principalmente na feiúra tão absoluta que a gente pode até confundir com beleza. Não é por outra razão que o mesmo sujeito que compôs o hino de São Paulo compôs “London, London”. Caetano compreende essas duas cidades irmãs. Londres não tem motivos para preservar sua arquitetura horrorosa, e seria essa qualidade que eu exploraria.

Se o Arc de Triomphe é belíssimo, a Trafalgar Square é mais. Se o grande Louvre, que de fato é foda e merece até uma história do Mini Viking, sou mais o British Museum e o Tate Modern

Dispenso o Tate Modern porque acho arte moderna uma grande fraude, mas eu também acho que o British é melhor que o Louvre. O problema é que o que está em torno do Louvre é melhor que o que está em torno do British. Quanto a Trafalgar Square, além de uma questão de gosto, sua única qualidade mesmo é que dali você consegue ver a sua bela “Abbey” — ao contrário do Arco de Napoleão, que embeleza a Champs Elysées com a sua visão.

Enquanto você regojiza nos cabarés, seu pseudoboêmio, lágrimas escorrem dos meus olhos ao pensar no meu Globe Theater of old.

Ah, Bruno, meus tempos de boemia se foram com meus verdes anos. Mas confesso que, entre um cabaré e um teatro, é no cabaré que meus devaneios recaem primeiro. Infelizmente, não é esse o caso. O problema aqui está no fato de que, quando uma cidade precisa recorrer a um teatro demolido há séculos para encontrar uma razão que justifique a sua existência, ela tem problemas sérios. Como você pode preferir um teatro inexistente a um cabaré que ainda hoje pode lhe oferecer o paraíso?

No seu lugar eu perguntaria: para que cabarés se você tem as criptas londrinas de St. Pancras? Para que cabarés com moças de pernas belas rodopiando se você tem a circunspecção inglesa? Para que cabarés com moças de pernas belas rodopiando com seios arfantes se você tem a fleuma britânica?  Para que cabarés com moças de pernas belas rodopiando com seios arfantes e bocas úmidas entreabertas se você tem a elegância de um terno bem cortado em Saville Row?

Se você, querido Rafael, adora os cafés blasés – tem palavra mais parisiense que ‘blasé’? – e fica, com sua cigarrilha e chafé, lendo Le Monde e conversando com uma magrela de boina e poodle preto no colo, eu vou pro Starbucks em Camden Town e com meu Soy Venti Latte me divirto com os punks e lindos degenerados, performers de rua e meu povo de All-Star no pé.

Blasé é uma palavra francesa como snob é uma palavra inglesa — e talvez seja o smog londrino dos tempos do Globe Theater que não te deixe perceber a beleza parisiense. Mas acho que entendi o que você quis dizer com seus punks degenerados. O problema é que esse foi outro equívoco, porque pelo visto você não conhece os imigrantes que dançam street music no Boulevard Rochechouart nas tardes de sábado, ou as multidões de esquisitinhos que se aglomeram na porta do Elysée Montmartre, ou ainda os patinadores em frente ao Palais Royal.

O problema dessa linha de defesa é que malucos há em todas as cidades. Então, para defender Londres diante da injusta comparação com os cafés parisienses, eu falaria dos pubs, do ambiente alegre, da alegria que é sentar com os amigos (saudades de você e do Sven, Carol) e beber cerveja, tendo a única preocupação de sair de lá antes que os ingleses encham a lata e comecem a dar porrada nos estrangeiros. Lembraria que apesar disso um pub inglês é um bom lugar para se estar, principalmente se lá fora estiver caindo aquela chuvinha típica de Londres.

E, embora eu esteja aqui tentando te ajudar na defesa dessa cidade agradabilíssima que é Londres, eu preciso repetir o que já disseram o Idelber, o Wilson e a Lolla: citar a Starbucks como vantagem londrina é se ajoelhar no chão e pedir perdão pelas bobagens que acabou dizer. Em vez disso, nós poderíamos defender Londres dizendo que café não presta, que bom mesmo é chá, e melhor ainda é o chá das cinco. Mas pobre de uma cidade que não pode ter orgulho do seu café.

Bem, acho que posso ficar por aqui. Espero ter contribuído um pouco para melhorar a imagem dessa cidade maravilhosa de que ambos gostamos tanto.

Paris

Ah, Bruno, você nunca vai entender Paris, e eu choro por ti, meu amigo.

Não pense que não entendo por que você prefere Londres. Entendo que você ame a vida da cidade, o dinamismo, a simpatia e a gentileza das pessoas, a capacidade estóica de comer a pior comida do mundo e ainda assim sorrir, mesmo com os dentes feios dos ingleses. Entendo tudo isso, e até admiro a cidade. Eu gosto de Londres. Gosto muito, quase tanto quanto de Aracaju, quase tanto quanto do Rio.

Mas em troca você não entende que Paris está além e acima da vida. Paris é infinita. E é maior que o amor do poeta, porque também é imortal.

Sous le ciel de ParisVocê nunca pensou nas razões pelas quais Paris é chamada a Cidade Luz? Não é só por causa de uns filósofos de tantos séculos atrás, que filósofos, aliás, Londres também teve e em quantidade bem razoável. Paris é a Cidade Luz porque representa, mais que qualquer outra cidade no mundo, um ideal de vida.

Você não entende que a diferença entre Paris e Londres seja a diferença que havia entre Apolo e Hermes, a diferença entre a beleza e a funcionalidade. Você gosta de Londres pelo que ela lhe oferece; Paris é Paris pelo que é.

É isso. Londres não seria nada sem os londrinos. Paris é Paris apesar dos parisienses.

Por isso eu choro por ti, meu amigo. Choro porque você nunca vai saber o que é simplesmente andar pelas ruas de Paris sem se preocupar com o seu destino, andar apenas pelo prazer de estar ali, porque vale a pena passear pelas ruelas do Marais. É por isso que aqueles que se dedicam a esse pequeno prazer até ganharam um nome também único, flâneur. O reconhecimento de um valor que pode existir por si só, que dispensa um destino e uma razão, é uma das coisas que fazem Paris ser Paris. E isso só é possível pela sua beleza, por detalhes simples como a certeza talvez até arrogante de ser a mais bela cidade do mundo.

Talvez o erro de todos aqueles que, mistificados pelas trevas da incompreensão, dizem preferir Londres a Paris seja uma certa incapacidade momentânea de perceber o que Pasolini dizia no final do seu Decameron: para que realizar algo, se é tão mais belo imaginar?

Deixe-me dar como exemplo a mania inglesa por flores. Se pode haver uma explicação para os jardins de Londres, tão obviamente mais bonitos que os de Paris, é essa: os ingleses precisam embelezar sua cidade; os parisienses já têm uma obra pronta. E por terem mais, quando se preocupam com flores, em vez de plantá-las eles as pintam — e Paris é Paris porque teve um pintor míope como eu pintando ninféias do jeito que as via. É essa a beleza da aventura humana: a capacidade de reimaginar o mundo além do que ele é. É isso que Paris representa. Londres está ocupada em corrigir um trabalho de um mau artista; acima disso, Paris se dá ao luxo de reinventar a vida ainda mais bela.

Sabe, Bruno, Paris não é e nunca vai ser uma questão de gosto. O Museu Britânico é melhor que o Louvre, na minha modesta opinião — mas eu confesso preferir estar do lado de fora do Louvre, tentando acertar com cuspe a cabeça de um dos sujeitos a bordo de um bateau mouche, a estar dentro do Museu Britânico.

Paris é Paris porque teve um Balzac reinventando-a de maneira monumental, porque teve um Dumas lhe dando um ar etéreo de heroísmo idealista e de juventude, porque teve um Zola e uns irmãos Goncourt falando coisas que a pudicícia vitoriana jamais deixaria alguém falar em público. Paris não é Paris porque tenha amado mais ou vivido mais, mas porque soube cantar esse amor e fazer dele a sua razão de ser.

Paris tem a Marguerite Gautier. Londres tem Elizabeth Bennet. E aqui está a diferença entre elas, que não se resume ao artigo definido diante do nome daquela: cá embaixo uma moça que viveu como quis e mesmo assim se deixou morrer de amor; e daqui a muitos anos, agonizando diante do fim de tudo, eu olharia para trás e certamente gostaria de ter vivido com ela. Em Londres, não. Em Londres, it simply is not proper, dear. E como amar assim, Bruno? Como amar se preocupando com essas coisas pequenas e mesquinhas do dia? Paris é Paris porque ali, num café qualquer de Montmartre, você pode dizer à mulher que ama que esse amor é incondicional, e para sempre.

Talvez você me diga que isso é bobagem, que a vida não é assim, que essas coisas que eu chamo de medíocres fazem parte dela. E então eu lhe responderei que é justamente por isso que Paris é Paris: porque ela se permite, e permite a nós, alçar vôos acima disso, dessa realidade boba que nem sempre é sinônimo de felicidade. Paris nos permite ser maiores que nós mesmos.

Paris é Paris porque enquanto os poetas ingleses choram que abril é o mais cruel dos meses — o tempo, sempre o tempo –, os franceses debocham de seus leitores hipócritas e enquanto olham cobiçosos para uma mulher madura dizem preferir os frutos do outono à flores banais da primavera.

Em Paris, até Belleville tem charme e tem espírito — e não é o charme caro de Regent Street, mas um tipo especial que empresta suas graças até aos marroquinos e senegaleses que falam alto.

Não tenho certeza de que, alinhavando essas poucas razões pelas quais prefiro Paris, eu tenha conseguido te fazer entender. Mas talvez possa lhe explicar tudo isso mostrando que Paris não é Paris apenas porque teve Modigliani em seus cafés. Paris é Paris porque teve Jeanne Hébuterne se jogando do quinto andar um dia depois da morte dele, sabendo-se incapaz de viver sem o grande amor da sua vida.

Paris é Paris, Bruno, porque por mais que tente, você não pode imaginar Humphrey Bogart dilacerando sua alma e olhando pela última vez para Ingrid Bergman enquanto diz: “Nós sempre teremos Tottenham Court.” Não, não. Paris é a cidade que lhe dá a certeza de olhar para a mulher amada ao seu lado, ela com frio e implorando para parar em um café, e então, mesmo sem saber o que vai ser do futuro, você e ela ainda terão a certeza de que sempre terão Paris. E nada, absolutamente nada poderá arrancar isso de você.

Café

Muitos anos atrás o Bombordo, um antigo site de esquerda, publicou um texto em que se falava do medo que a Starbucks, então acabando de anunciar sua vinda ao Brasil, viesse a destruir a tradição brasileira do cafezinho.

Eu achei graça, na época, porque me parecia um tanto óbvio que, por melhor que fosse a Starbucks (eu não a conhecia na época), era virtualmente impossível que ela fizesse algum estrago em um país com uma cultura de cafezinho tão forte — e cafezinho vendido a alguns centavos em qualquer bar de esquina. Eu duvidava que ela, por exemplo, tivesse capacidade de enfrentar os vendedores que levam garrafas térmicas em carrinhos de rolimã pelas ruas de Salvador. É preciso comer muito vatapá para conseguir vencer as melhores tradições baianas, e a Starbucks não parecia ter estômago para isso.

Lembrei disso depois que vi o post do Morróida sobre a cafeteria. Eu gostaria de assinar embaixo. A Starbucks é uma droga.

Eu até entendo as razões pelas quais a Starbucks fez tanto sucesso. Não é difícil admitir que ela oferece um café melhor que o comum nos Estados Unidos — aquela coisa esquisita, parecida com a água que se obtém ao lavar um coador recém-usado. Também faz algum sentido em Londres, onde o café é tão ruim que você quase acredita que aquilo que a Starbucks lhe oferece é realmente algo decente. Mas em Paris ou Roma, onde se toma o melhor café do mundo, ela só faz sentido para turistas com os pés em chamas que precisam sentar num lugar para descansar um pouco, talvez tirar um cochilo, usar o banheiro unissex e olhar o pessoal acessando a internet de lá. Nisso ela é excelente: oferece um espaço social que poucos lugares nessas cidades podem ou querem oferecer. Traduzindo: a Starbucks vale apenas porque você pode se enfiar lá de graça por horas.

Eu tenho certeza de que é por isso, pelo reconhecimento de que seu café não vale nada, que eles insistem tanto naquele negócio de comércio justo, de estar ajudando os pobres cafeicultores de, sei lá, um grotão qualquer da Etiópia. Agregam valores sociais para mascarar o que deve ser uma experiência individual, critérios externos e um ambiente acessível para esconder a verdade: seu café é tão ruim que a gente só toma para dar esmola a lavradores colombianos.

Falo do expresso, apenas. Não posso falar dos outros, porque expresso é a única coisa que já tomei ali. Eu me recuso a sequer experimentar aquelas bebidas esquisitas que, segundo boatos, em algum momento levam café como um (e apenas um) de seus ingredientes. Essas bebidas são uma ofensa a quem gosta de café.

Eu, por exemplo, gosto. Até pouco tempo atrás, tomava cerca de um litro por dia, provavelmente mais — e às vezes muito mais. É por isso que me sinto autorizado a dizer que café bom, mesmo, é aquele feito em casa, coado em coador de pano mantido sempre úmido.

Café é algo tão absurdamente bom que está ligado a momentos bobos e inesquecíveis na vida. Como uma xícara na casa de minha bisavó, num dia de chuva há quase 25 anos; um em Paris, numa ruela perto de Notre Dame, pouco mais de 10 anos atrás. E o café que minha avó fazia — sua empregada dizia que era preciso fazer curso para fazer um café que a agradasse.

Esse é o melhor café que se pode tomar: bem feito, forte na medida certa, e sem pretensões, sem nomes complicados feitos para que você esqueça que aquilo é pouco mais que uma grande fraude.

O segundo melhor é aquele que a gente toma no boteco na esquina, de preferência em pé e demorando um pouco até dominar a arte de usar aqueles açucareiros.

(Eu, pessoalmente, dispenso as cafeteiras italianas que o Allan ensinou a usar. Ou melhor: tentou. Culpa minha por não conseguir aprender, ou ter o gosto ainda arraigado em coisas excessivamente simples, excessivamente velhas.)

Infelizmente esses cafés estão se tornando cada vez mais raros, desbancados por uma febre que veio da Itália, o expresso. É até um substituto aceitável ao bom café — em Aracaju, o melhor expresso é o da livraria Escariz, mas nos últimos dias ele tem saído ruim. Há expressos bons e expressos ruins; mas eles sempre me passarão a impressão de que são aleatórios, de que a máquina italiana tenta substituir, nem sempre com sucesso, o talento e a boa mão de alguém que sabe fazer um bom café. E um bom café é algo que não se pode substituir.

A avó de um amigo meu, por exemplo, moía o café no pilão, com mel. Contei isso a outro amigo, que resolveu fazer a mesma experiência em sua máquina caseira de expresso — máquinas demoníacas das quais o incauto deve manter prudente distância. O mel entupiu e quebrou a máquina. E eu não consigo encontrar exemplo melhor de tudo o que disse aqui.

A "Buceta" do Bia

É meio esquisito escrever sobre um livro que vi nascer e que, por acaso, tem um personagem com meu nome e sobrenome.

Mas escrever sobre um livro do Bia é sempre bom.

Esqueça o que ele diz, porque a memória do Bia é ruim que dói. “Buceta” foi concebido em 2005, no vácuo do seu primeiro livro, “Sexo Anal”. No comecinho de junho, para ser mais exato: foi quando o Bia me mandou um primeiro esboço do livro, basicamente uma cena, ainda bastante diferente do que ficaria na versão final. Já tinha um Rafael Galvão ali. O sujeito era baiano, beatlemaníaco e escrivão.O Bia diz que o personagem foi inspirado em mim; eu prefiro acreditar que ele gostou do meu nome, só. Porque escrever qualquer um escreve; mas ser personagem é para poucos. E se eu acreditasse nisso ia começar a ficar mais metido do que já sou. E faria uma brincadeira aqui, escreveria sobre o livro como se fosse o personagem, e então a bagunça se instalaria completamente. Não, obrigado.

Mas mesmo com um personagem bom como um Rafael Galvão, o Bia desistiu rapidinho do livro — que já tinha o título e o subtítulo definitivos — e retomou o que deveria ter sido a sua primeira novela: “Virginia Berlim”, lançado há uns dois anos e que veio com um CD com a trilha sonora do livro.

Dois livros não poderiam ser mais diferentes. De um lado o policial leve e rápido de “Sexo Anal”; do outro, um romance claustrofóbico e psicologicamente mais profundo. A diversidade dos livros é um elogio claro à capacidade do Bia, e uma prova de que como escritor ele vinha evoluindo.

Eu pensei que o Bia tinha desistido de “Buceta”. Até que no final do ano passado ele apareceu de novo com “Buceta” — agora um livro inteiro, com começo, meio e fim. Depois de ler as primeiras páginas e ver que o meu nome continuava ali, fiquei com medo e preparei com antecedência a minha habitual coleção de insultos: “Seu puto, você tá pensando o quê? Muda o nome desse personagem!”. Imaginei que o Rafael Galvão do Bia terminaria em uma orgia com travestis, manchando para sempre a minha já frágil reputação.

Depois que eu me acostumei com um homônimo, as coisas ficaram mais fáceis. E pude olhar o belo livro que é “Buceta”.

Não é possível olhar para “Buceta” sem imaginar que é a continuação de “Sexo Anal”. Pelo título, pelos personagens, pelo ritmo que é uma das marcas registradas do Bia. O Bia tem estilo próprio, três livros depois já dá para perceber sem chance de engano. “Sexo Anal” era um livro leve, engraçado, bem humorado. “Buceta” tem tudo isso — mais é mais bem construído, mais bem estruturado, acima de tudo um avanço no estilo do Bia. Mesmo que ele aponte as diferenças, vai ser mais fácil enxergar as semelhanças entre os dois livros — e é aí que essa evolução estilística entra. “Buceta” é um livro melhor do que foi “Sexo Anal”. E SA já era bom.

Eu tenho algumas críticas ao livro. O excesso de pontos de exclamação, principalmente na voz do narrador, é um deles, que às vezes a torna parecida com as dos personagens. Outro é a forma como reticências se imiscuem em diálogos que talvez devessem ser monólogos. Eventualmente os personagens falam de maneira literária demais.

Mas os defeitos de estilo são pequenos, comparados à delícia que é ler o “Buceta”. O livro flui rápido, a trama envolve. Não é um policial noir, nem longe: está mais para um policial pink, bem humorado, com uma visão cínica do mundo enganadoramente disfarçada em humor leve e em situações esdrúxulas, mas ainda assim familiares. A começar pela capa, com uma foto de Rock Hudson que exemplifica, de maneira perfeita, o espírito do livro. O talento do Bia está aí, em estender os limites do real, do crível. É o que faz de “Buceta” um grande livro.

Vale a pena ler “Buceta”. O Bia é um dos melhores novos escritores brasileiros. E com “Buceta” mostra que tem fôlego e um universo narrativo próprio. Não é pouco.

A “Buceta” do Bia

É meio esquisito escrever sobre um livro que vi nascer e que, por acaso, tem um personagem com meu nome e sobrenome.

Mas escrever sobre um livro do Bia é sempre bom.

Esqueça o que ele diz, porque a memória do Bia é ruim que dói. “Buceta” foi concebido em 2005, no vácuo do seu primeiro livro, “Sexo Anal”. No comecinho de junho, para ser mais exato: foi quando o Bia me mandou um primeiro esboço do livro, basicamente uma cena, ainda bastante diferente do que ficaria na versão final. Já tinha um Rafael Galvão ali. O sujeito era baiano, beatlemaníaco e escrivão.O Bia diz que o personagem foi inspirado em mim; eu prefiro acreditar que ele gostou do meu nome, só. Porque escrever qualquer um escreve; mas ser personagem é para poucos. E se eu acreditasse nisso ia começar a ficar mais metido do que já sou. E faria uma brincadeira aqui, escreveria sobre o livro como se fosse o personagem, e então a bagunça se instalaria completamente. Não, obrigado.

Mas mesmo com um personagem bom como um Rafael Galvão, o Bia desistiu rapidinho do livro — que já tinha o título e o subtítulo definitivos — e retomou o que deveria ter sido a sua primeira novela: “Virginia Berlim”, lançado há uns dois anos e que veio com um CD com a trilha sonora do livro.

Dois livros não poderiam ser mais diferentes. De um lado o policial leve e rápido de “Sexo Anal”; do outro, um romance claustrofóbico e psicologicamente mais profundo. A diversidade dos livros é um elogio claro à capacidade do Bia, e uma prova de que como escritor ele vinha evoluindo.

Eu pensei que o Bia tinha desistido de “Buceta”. Até que no final do ano passado ele apareceu de novo com “Buceta” — agora um livro inteiro, com começo, meio e fim. Depois de ler as primeiras páginas e ver que o meu nome continuava ali, fiquei com medo e preparei com antecedência a minha habitual coleção de insultos: “Seu puto, você tá pensando o quê? Muda o nome desse personagem!”. Imaginei que o Rafael Galvão do Bia terminaria em uma orgia com travestis, manchando para sempre a minha já frágil reputação.

Depois que eu me acostumei com um homônimo, as coisas ficaram mais fáceis. E pude olhar o belo livro que é “Buceta”.

Não é possível olhar para “Buceta” sem imaginar que é a continuação de “Sexo Anal”. Pelo título, pelos personagens, pelo ritmo que é uma das marcas registradas do Bia. O Bia tem estilo próprio, três livros depois já dá para perceber sem chance de engano. “Sexo Anal” era um livro leve, engraçado, bem humorado. “Buceta” tem tudo isso — mais é mais bem construído, mais bem estruturado, acima de tudo um avanço no estilo do Bia. Mesmo que ele aponte as diferenças, vai ser mais fácil enxergar as semelhanças entre os dois livros — e é aí que essa evolução estilística entra. “Buceta” é um livro melhor do que foi “Sexo Anal”. E SA já era bom.

Eu tenho algumas críticas ao livro. O excesso de pontos de exclamação, principalmente na voz do narrador, é um deles, que às vezes a torna parecida com as dos personagens. Outro é a forma como reticências se imiscuem em diálogos que talvez devessem ser monólogos. Eventualmente os personagens falam de maneira literária demais.

Mas os defeitos de estilo são pequenos, comparados à delícia que é ler o “Buceta”. O livro flui rápido, a trama envolve. Não é um policial noir, nem longe: está mais para um policial pink, bem humorado, com uma visão cínica do mundo enganadoramente disfarçada em humor leve e em situações esdrúxulas, mas ainda assim familiares. A começar pela capa, com uma foto de Rock Hudson que exemplifica, de maneira perfeita, o espírito do livro. O talento do Bia está aí, em estender os limites do real, do crível. É o que faz de “Buceta” um grande livro.

Vale a pena ler “Buceta”. O Bia é um dos melhores novos escritores brasileiros. E com “Buceta” mostra que tem fôlego e um universo narrativo próprio. Não é pouco.

A tal da reforma ortográfica

Para mim, reclamar de uma reforma ortográfica é como reclamar da chuva. Pode até dar algum alívio, mas não adianta nada.

Então eu não reclamo, apesar de achar a reforma desnecessária. Mas digo desde logo que ligo tanto para ela como ligo para a árvore que cai num parque qualquer da Sibéria.

Eu escrevo muito, todos os dias. Só neste blog há quase 2 mil posts. Não sei quanto isso dá em palavras ou em toques, mas sei que são muitas. Escrevo muito mais fora daqui; não sei quantos segundos de texto, quantos parágrafos escrevo todos os dias; são muito mais do que eu poderia — ou quereria — medir. E durante esses mais de 20 anos, escrevi praticamente todos os dias, dentro de regras que agora não valem mais.

Tampouco não sei quanto já li nesta vida, livros em que estavam grafados lingüiça, pára-quedas e outras palavrinhas e sinais que o acordo ortográfico, agora, decidiu por bem fazer de conta que não valem mais, que são velhas sem serventia.

Achar imbecis uma parte das novas normas também não ajuda muito. Alguém pode alegar que, daqui a 20 anos, nada disso fará diferença. Os hoje vivos se acostumarão; os nascituros sequer saberão que houve grafias diferentes um dia. Mas se mantivessem tudo do que jeito que estava até o ano passado, iria dar no mesmo. Sob esse ponto de vista, uma reforma só é válida se ajuda a simplificar as coisas. Esse é o meu problema com ela: não acho que ela simplifique, realmente.

Uma das coisas que sempre gostei na última vagaba do Lácio é que, mesmo que não conhecesse uma palavra, eu saberia exatamente como ela é pronunciada apenas vendo a sua grafia; então eu sabia que “enguiça” era pronunciada de maneira diferente de “lingüiça”; que “esquenta” era diferente de “cinqüenta”. Não entendo a queda do trema. Mais que isso, acho um erro grave. Alguns acentos diferenciais também: aquele acento em cima de “vôo” pode até ser desnecessário, mas em um tempo em que o inglês faz cada vez mais parte do cotidiano das pessoas, é mais fácil pronunciar a palavra como “vu”.

A queda do hífen em várias palavras me parece bem vinda; acho que pára-quedas não faz mais sentido que paraquedas. Mas beijaflor também rezaria pela mesma cartilha, é uma palavra que evoluiu além do seu sentido original, mas eu vou ter que continuar escrevendo beija-flor. Se eu tenho agumas críticas à reforma, essa é uma delas: é um trabalho porco e incompleto.

Mas reclamar não adianta nada. A nova grafia das palavras vai continuar a despeito da minha ranhetice. Isso não significa, no entanto, que eu tenha que correr para me forçar a aprender essa nova forma de escrever.

Eu estou ficando velho e sem paciência para um montinho de coisas novas. Velho o suficiente também para me tornar turrão em algumas coisas, e me apegar a certezas antigas. Ninguém conseguiu me provar que o trema era desnecessário, dois pinguinhos líricos nos ii; eu vou continuar usando o velhinho entrevado até que escrever as palavras sem ele seja algo natural para mim. Até que a sua ausência não me cause estranheza e incômodo.

Então desde cedo eu decidi que não ia me esforçar para escrever dentro dessas novas regras, que nem sempre fazem sentido para mim e que, acima de tudo, me custariam uma atenção e um esforço que eu não quero lhe dedicar.

É por isso que vou continuar escrevendo do meu jeito, o jeito antigo. Não vou parar para estudar ou escrever uma palavra de acordo com os novos termos. Sei que vou aprender muito por osmose, porque as pessoas que se darão ao trabalho de se policiar em relação a essas normas farão com que eu me acostume. Elas vão me poupar o trabalho.

Vou estar escrevendo corretamente enquanto se admitir a nova e a antiga grafias. Mas se continuar errado daqui a dois anos, quando eu não tiver mais o direito de colocar o trema nas palavras em que o julgo necessário, tanto faz para mim. Que o Word apareça logo com um corretor ortográfico que corrija meus tremas e meus hífens como hoje corrige meu “uqe” e meu “nào” e meu “voc6e”; mas não por mim, porque eu não ligo e vou continuar não ligando; mas por aqueles que se prezam em escrever corretamente e que vão estranhar o português arcaico — além dos erros de sempre — que este blog vai apresentar nos próximos anos.

Sobre as cotas raciais

Sou contra as cotas raciais para as universidades. Não é uma posição confortável — em primeiro lugar porque até há algum tempo eu era a favor, e depois porque isso significa que estou do mesmo lado de gente como Demétrio Magnoli, autor de algumas das frases mais absurdas sobre a questão racial no Brasil, e Ali Kamel, o homem que diz que não somos racistas.

Meu consolo é que do outro lado a posição também seria incômoda. É uma discussão ingrata, essa. De um lado está o Demétrio Magnoli, pintando o país como uma democracia racial quase utópica, negando o racismo ou o preconceito, às vezes até mesmo ditorcendo a história brasileira para provar seus pontos de vista, e quem o leva a sério tende a acreditar que os escravos iam felizes e gratos para o eito cortar cana; do outro, militantes que vêm o negativo dessa fábula, um país que praticamente queimava negros em praça pública e que tinha um prazer perverso em reduzi-los a uma semi-escravidão.

A discussão das cotas raciais normalmente parte da comparação com o exemplo americano, onde esse tipo de ação afirmativa ganhou notoriedade. O grande problema é que tendem a distorcer a realidade americana, para pintá-la pior do que foi e, por comparação, tornar o Brasil um paraíso racial. Esse trecho da reportagem de capa da Época da semana passada, por exemplo:

Após o fim da escravidão, em 1865, os americanos adotaram leis segregacionistas. Entre 1876 e 1956 vigoraram as leis conhecidas como “Jim Crow”.

Esse tipo de simplificação mostra que não é tão simples comparar a escravidão americana à brasileira. Por exemplo, “esquecem” de mencionar a Reconstrução antes disso, por exemplo, através da qual houve progressos significativos e até mesmo governadores negros; por omissão dão a entender que todos os Estados Unidos foram vítimas de leis de segregação racial, e não apenas alguns Estados no sul. Esquecem de ressaltar alguns aspectos que seriam importantes na definição das relações interraciais nos Estados Unidos, como o fato de desde o início os escravos africanos terem a competição de mão-de-obra livre e semi-livre, como os indentured servants, ou que mesmo nos estados escravagistas negros sempre foram minoria populacional. Ou então que a maior parte dos Estados Unidos estava livre da “instituição peculiar”, como às vezes era chamada.

São diferenças demais para permitirem um comparação simples. No entanto, há muito mais. Em um trecho de American Slavery — 1619-1877, Peter Kolchin fala sobre um estado curioso de espírito que acometia os escravos:

Traders noticed that the African captives were especially prone to a disease they labeled “fixed melancholy”, whose sufferers became morose, moody, and unresponsive, staring into space, refusing food, and in extreme cases committing suicide, usally by jumping overboard.

O que os anglo-saxões, em sua incapacidade de compreensão da cultura alheia, chamavam de “fixed melancholy“, os brasileiros com sua tradicional plasticidade portuguesa, como dizia Gilberto Freyre, chamam de banzo. É essa permeabilidade cultural, essa capacidade de absorver a cultura africana e misturá-la à sua própria, criando uma totalmente nova, que faz a singularidade da questão racial brasileira. Não é por outra razão que, enquanto a religiosidade dos negros americanos foi completamente substituída por um cristianismo pentecostal — com raras exceções, como o voodoo e o hoodoo da Louisianna, no Brasil houve um processo totalmente distinto, que culminou no sincretismo religioso e na permanência do candomblé.

Também não se deve deixar lado a forma como a resistência negra se deu nos dois países. Nos Estados Unidos quase não houve quilombos — se é que houve algum. Os negros fugiam para o Norte, onde estavam razoavelmente a salvo das leis escravagistas. No Brasil, ao contrário, grande parte dos quilombos se estabeleciam ao lado das cidades (como o Cabula, em Salvador, e o Leblon, no Rio), e não era raro que negociassem com a população. Não é preciso ler Sergio Buarque de Hollanda para lembrar que é própria da natureza brasileira a preferência pela negociação em vez do conflito. É também o que faz com que brasileiros, desde quase sempre, tenham vergonha de serem vistos ou se assumirem como racistas. Pode parecer piegas, mas nesse caso, a maneira como os brasileiros gostam de se ver é importante na definição de soluções para o problema do negro no país. Isso mostra que talvez a melhor forma de eliminar a desigualdade não seja ressaltando as diferenças raciais.

Se sou contra as cotas raciais é porque acredito, como Donald Pierson sugeriu em “Brancos e Pretos na Bahia”, que vivemos em uma “sociedade multirracial de classes” e que, ao contrário de outros países, o nosso preconceito não é exatamente racial, mas de cor.

O que torna as cotas raciais indesejáveis é, principalmente, essa singularidade cultural brasileira, aliada ao alto nível de miscigenação — um dos elementos que fazia Darcy Ribeiro dizer que o Brasil era “a mais bem sucedida civilização européia nos trópicos”, e que foi a razão de um dos episódios mais curiosos dos últimos, quando dois gêmeos da UnB foram classificados, por pessoas diferentes, como negro e como branco — o que dava a um ter o direito de entrar na universidade pelo sistema de cotas e ao outro não. A noção de negro no Brasil é mais fluida que em outros lugares, e é o que complica discursos elaborados, inteligentes mas definitivamente americanos como o do Alex.

As cotas sociais como as propostas atualmente, reservando vagas par alunos vindos de escolas públicas, podem ser uma boa solução. Porque oferece uma alternativa eficiente à definição racial, e porque podem vir a forçar a classe média a ir para a escola pública, o que possivelmente melhoraria o seu nível.

Mas é duro ter a mesma opinião de gente que diz, como o Demétrio Magnoli, que “a partir do momento em que o Estado cria a raça, passa a existir também o racismo”, ou que “O que o Estado vai fazer é dizer às pessoas que elas não são iguais, mas que são desiguais, e dar direitos diferentes a elas”. (O outro lado não é muito melhor. Frei David, do Educafro: “Não concordamos com essa opção de dar só as cotas sociais, que favorecem os que não estão lutando, e não as raciais, que favoreceriam os negros, que lutam há anos”, como se as cotas fossem uma questão de prêmio por luta.)

Não há dúvida de que há uma dívida grande do país em relação aos descendentes de escravos, e isso está fora de discussão. O problema é como essa dívida pode ser paga.