Category Archives: A vida como ela é
Do obscurantismo
Um padre de uma paróquia importante de Aracaju foi afastado por esses dias.
Motivo simples, embora não oficial: sua namorada estava em estado adiantado de gravidez.
Triste Igreja, essa, que não dá sequer uma simples licença-paternidade para seus padres.
Cemitérios
Quase todo dia eu passo em frente a um cemitério.
O cemitério se chama São João Batista — toda cidade que conheço tem um cemitério chamado São João Batista, e até hoje eu não soube a razão. Talvez porque São João batizasse gente, desse um recomeço à vida em Cristo, como se morte fosse recomeço de alguma coisa. É cemitério da Prefeitura e a grande maioria de seus inquilinos é de ex-gente pobre cujas famílias não têm jazigos perpétuos no Cemitério Santa Isabel ou não podem comprar um pedacinho de chão no Colina da Saudade, cemitério particular nos moldes anglo-saxões que não enfeia a vista com os pequenos edifícios mortuários e suas imagens de santos, anjos e cruzes.
Parece ser voz corrente, entre gente que se preocupa com os tempos em que não existirá mais, uma preferência cada vez mais clara por covas em cemitérios desse tipo, com plaquinhas discretas no chão em vez de tumbas pretensamente imponentes e mausoléus; mais elegantes, dizem eles. Eu, que tenho dúvidas de que vou morrer algum dia mas que, se esse dia improvável vier, já adianto que podem fazer o que quiserem do que sobrar deste portento da raça humana, peço vênia para discordar.
Dos mortos em cemitérios tipo Colina da Saudade não ficam os testemunhos da sua importância em seu tempo, importância que algumas décadas ou mesmo uns poucos anos se encarregam de apagar. Ali não há mausoléus ou imagens de santos e da Virgem Maria; desses mortos mais ricos fica apenas uma plaquinha no chão, que custou tanto mais caro quanto mais alto foi o lugar do seu último descanso. Os cemitérios católicos, ao contrário, são monumentos duradouros à estupidez e à vaidade humanas, e é isso que faz a sua graça e o seu interesse.
Mães tresloucadas de dor que deixam testemunhos psicóticos nos túmulos de suas filhas; herdeiros orgulhosos e felizes com o dinheiro que lhes coube mantendo as aparências de amor e devoção ao finado; nulidades em vida que apenas ocupam o lugar reservado no mausoléu familiar; esse é o condomínio diverso oferecido pelos cemitérios católicos tradicionais, em que cada requietório pode acender o interesse por uma história já perdida.
E há ainda a sub-arte mortuária esquisita, estátuas de mármore e bronze de anjos e santas, detalhes arquitetônicos delirantes em granito, fotos de moças feias que morreram cedo demais impressas em louça e já se apagando.
Cemitério por cemitério eu prefiro os católicos, em seu mau gosto mórbido.
Mas o cemitério em frente ao qual passo quase todo dia não tem isso, ou melhor, tem muito pouco. O São João Batista é cemitério de pobre e ali as gavetas e carneiras se espalham por onde podem. Depois de alguns anos as gavetas serão limpas e os ossos que não forem reclamados irão para uma cova comum. Mas agora, enquanto o tempo não passa e o defunto ainda não começou a feder nem a se decompor fazendo a alegria de um Augusto dos Anjos, um enterro é o retrato da dor de uns poucos, da solidariedade de alguns e do respeito às convenções pela maioria.
Hoje em dia enterros são cerimônias para relativamente poucas pessoas. O mundo já descobriu que é mais simples, mais rápido e menos angustiante passar pelo velório, ver alguns conhecidos, dar um abraço no parente do morto que chora ao pé de seu caixão e então ir embora, cuidar da vida, que o finado agora não tem mais que se preocupar com isso e vai lhe perdoar se você não lhe dá mais atenção do que é necessário. Ao enterro acabam indo apenas as pessoas mais próximas, se não é defunto famoso ou de morte trágica demais.
A essa altura, tendo passado diante deles por tantas vezes, já dá para ter uma idéia aproximada dos defuntos trancados no caixão. Basta olhar para as pessoas que esperam enquanto ele é tirado do carro fúnebre.
Diante do São João Batista a maior parte das pessoas usa roupas simples e às vezes gastas. Uns poucos apenas trazem a elegância convencional dos óculos escuros, que deveriam servir para esconder as lágrimas mas normalmente apenas disfarçam o incômodo que é estar ali, àquela hora.
Hoje mesmo, agora há pouco, o carro funerário estava na porta. Manhã de sol, ponto final adequado para um velório que deve ter varado a noite, e eu imagino pessoas sentadas diante do caixão, outras conversando em grupos espalhados pela capela — já não se vela mortos em casa, não depois que a morte passou a ser um serviço a ser vendido como outro qualquer –, alguns rindo de uma piada contada por alguém, outros rindo de nervoso, a maioria contando as horas para poder retomar os cuidares de cada dia, o rapaz percebendo que a prima em segundo grau que não via há alguns anos cresceu e desabrochou e se tornou uma moça de peitos protuberantes que gritam meu Deus, meu Deus, é bom aproveitar a hora para retomar o contato. Pode ter sido assim o velório; mas agora, debaixo do sol quente, o caixão estava sozinho na mala aberta do carro da funerária, enquanto as pessoas por perto pareciam ocupadas com outros afazeres.
Uma vez, muito tempo atrás, alguém me disse que a morte é triste não para quem vai, mas para quem fica. A visão do caixão solitário sob o sol, enquanto as pessoas se escondiam embaixo da sombra dos oitizeiros, me deixa com a impressão de que não, de que ruim mesmo é para quem perde a brincadeira aqui, que as pessoas retomam suas vidas e seguem adiante.
Talvez um indício dessa opinião que vai se formando em mim seja a impressão de que o progresso e o aumento do recato fizeram com que não se veja mais tantos vexames em enterros. Não é mais tão comum mulheres se desmanchando em choro e se jogando no caixão do marido ou do pai, gritando que querem ir junto com ele, que agora suas vidas não têm mais sentido, mulheres salvas por amigos mais conscienciosos do grande vexame que seria ter que sair correndo da cova assim que o primeiro punhado de terra caísse sobre suas cabeças. E assim se torna menos dolorosa a sua passagem para o período posterior ao luto conveniente, aquele em que a dureza da vida a obriga a voltar a olhar em frente, até que outro senhor bem-apessoado surja diante dela e a faça lembrar que ela ainda continua viva, e bem viva, e a carne queima sob o preto do luto.
A maior parte dos espectadores vem nos ônibus fornecidos pelas funerárias; e o enterro se transforma em uma espécie de excursão da CVC. Mas pode ser mais curioso ainda, e dia desses o carro funerário era seguido por uma pequena multidão a pé, o falecido devia morar ali perto e a família achou que não valia a pena pagar pelo ônibus. Triste procissão aquela, quase beatos seguindo atrás de um Zenone dentro do caixão, tudo tão triste e melancólico, tudo também tão engraçado.
Mas há outras tristezas, também. Foi diante do São João Batista que vi o enterro mais pungente em toda a minha vida. Não havia multidão, grande ou pequena, porque o morto não tinha ainda muitos amigos. Havia apenas um pai e um amigo, talvez um irmão, descendo de um táxi carregando um pequeno caixão branco nos braços. Só eles, mais ninguém. E sozinhos entraram pelo portão do São João Batista.
Pautas um pouquinho diferentes
Acabei de descobrir que existe uma revista chamada “O Empreiteiro”. Mais impressionante que a sua existência, até agora ignorada por mim — como de resto tantas coisas entre o céu e a terra, muito mais do que supõe a minha vã filosofia — é o fato de ela já ter 46 anos. Não é uma marca que qualquer revista consiga atingir.
Na verdade eu não devia ficar surpreso. Há um mundo de revistas de circulação dirigida, que são veículos publicitários mais eficientes que boa parte da mídia de massa, pelo menos para alguns nichos. Sempre existiram, e eu lembro de algumas em agências de propaganda. Além disso costumam ser a garantia de uns trocados a mais no bolso de jornalistas. Mais de um jornalista famoso tirou — e tira — um bom dinheiro editando revistas do tipo.
E eu fiquei imaginando a pauta da revista. Não a pauta real, porque essa é claramente uma revista séria e competente, abordando assuntos sérios e que realmente interessam à área, e isso pode ser visto apenas com um passar de olhos pelas suas matérias. Mas aquela que a gente gostaria de ver em qualquer revista:
“A luta pelos 10%”
“O limite de responsabilidade no corte do custo de fundações e estrutura”
“Por que vale a pena o asfalto mais fino que as especificações”
“Putas: saiba quando e como oferecer”
“A delicada questão de como agradar técnicos e engenheiros”
“Deu nos jornais. E agora? — Um manual de sobrevivência a denúncias”
“O lobista, esse desconhecido”
“Deputados: guia de compras e manutenção”
Sabe, eu acho que não daria um bom jornalista.
Vale-tudo nos comentários
Eu estou perdendo a mão neste negócio.
Antigamente eu armava pequenas aratacas no caminho deste blog e as pessoas caíam nelas como pequenos preás inocentes. Isso está ficando mais difícil. As pessoas estão percebendo.
Sobre os comentários ao último post, o Blito fez um dos melhores. Eu só discordo de uma coisa: quanto ao conteúdo homoerótico presente em todos os esportes. Porque no caso do vale-tudo ele é certamente muito mais óbvio, até estridente, do que em qualquer outro esporte. Mais até que no sumô, que também consiste em dois marmanjos se agarrando.
Sugiro que os defensores do vale-tudo façam a experiência: gravem uma luta, coloquem em câmera-lenta, tirem o áudio e coloquem, em BG, uma música de motel — pode até ser, como sugeriram, uma música tipo “É o Amor”. Se é preciso esforço para falar de aparência gay no futebol — ou mesmo em outros esportes de contato físico como o futebol americano e o hóquei –, no vale-tudo ele é tão óbvio que, na verdade, até dispensa esses pequenos artifícios.
Agora, Blito, faça isso com o futebol e veja se consegue o mesmo resultado. Então não tem validade nenhuma a alegação de que o conteúdo homoerótico pode ser visto em qualquer esporte. Talvez até possa, mas é preciso muita força de vontade para ver isso. Na verdade com esforço e vontade você consegue ver qualquer coisa.
Além disso, eu não poderia ter incluído esgrima porque, por favor, eu nunca vi um esgrimista com a cara enfiada na virilha mijada de outro sujeito.
Nos comentários, o que mais me impressionou foi a defesa dos lutadores, do esforço individual, da técnica; basicamente os valores intrínsecos do negócio, que não interessavam ao post e no qual eu simplesmente não toquei em nenhum momento. Porque até onde sei, qualquer esporte demanda técnica e esforço. Até futebol de botão. O texto não falava disso, falava em aspectos estéticos, apenas. Falou apenas que é um esporte feio, grosseiro, esteticamente bizarro e que tem uma cara danada de gay.
A única coisa que me incomodou — porque no dia em que eu me incomodar com alguém me chamando de “bixona” com X eu vou estar pronto para o Phillipe, aquele lugar aprazível em Botafogo — foi a acusação de homofobia. Curiosamente, foram justamente os defensores do vale-tudo que partiram para o contra-ataque, dizendo “viado é você”.
(Eu, que segundo a moçada sou homofóbico, não teria problemas com isso. Cada é um aquilo para o que nasce, dizem umas senhoras ceguinhas cá por estas bandas. Se como disse o Tarilonte houvesse mesmo um esqueleto nesse armário, eu o decoraria com umas plumas, uns paetês e sairia por aí — de preferência, “fechando”. Mas acho que os moços aí se incomodariam com essa perspectiva. É provável até que, para resolver seus próprios conflitos, fossem lutar vale-tudo. É por isso que, para eles, dizer que vale-tudo é uma demonstração de feiura, uma luta tosca e uma regressão estética não ofende. Mas dizer o óbvio, que a luta lembra dois homens fazendo sexo, ah, isso são outros quinhentos.)
Eu sempre esperei que uma leitura um pouco mais atenta deste blog impedisse qualquer pessoa de chamá-lo de algumas coisas. Uma dela era de direitista. Outra era de homofóbico.
Sim, eu tenho que admitir com uma certa vergonha e inveja de outros blogs que este não é um blog politicamente correto, porque uma deficiência na minha educação (de resto esmerada, deixem-me dizer em defesa das minhas professoras) é a tendência a chamar as coisas pelos seus nomes reais. Certamente não é pseudo-feminista. Decididamente tem problemas com católicos, evangélicos, budistas, xintoístas, macumbeiros, gente que acredita em disco voador e gente que acha que o fato de ter nascido em tal dia faz de você isso e aquilo porque Plutão estava na casa do cacete. Basicamente, eu não tenho problemas em ser acusado de quase nada.
Mas homofóbico ele não é.
Tenho a impressão de que esse pessoal que se apressa em falar de homofobia é aquele mesmo que diz “respeitar os homossexuais, mas não tolerar as bichas assumidas”, que “bicha boa é bicha discreta, que não fica fazendo trejeitos”. É por isso que me impressiona um fato simples, que passou despercebido a quase todos os comentaristas que tocaram no assunto: eu falei que vale-tudo, além de uma luta feia, tem todas as características homossexuais, mas não falei absolutamente nada sobre esforço pessoal, ou que homossexuais não eram capazes de de se dedicar com afinco a um esporte. Foram eles que associaram uma coisa à outra, as duas como negativas. Segundo o seu raciocínio, o vale-tudo não pode ser gay porque demanda esforço. Na verdade, o preconceito contra homossexuais está neles.
Evitando personalizar — porque aí vem o Ricardo dizer que nunca fez isso, vem o tal professor Valdez dizer que seus alunos não fazem isso, talvez até, quem sabe, apareça um mais corajoso dizendo “ah, mas eu até dou a bunda!” –, não custa lembrar que o histórico de agressões contra homossexuais nesse universo no qual eles circulam ou simplesmente admiram é lamentavelmente alto.
Nada disso, no entanto, foi exatamente uma novidade. O que me impressionou foi uma certa louvação do masoquismo.
Eu não brigo. Na verdade, sou de uma covardia atroz e inamovível. A perspectiva de violência física me assusta. Mas por alguma razão pessoas como o Ricardo acham que eu deveria dar a carinha que mamãe beijou para um vagabundo bater. Infelizmente, eu sou covarde, não masoquista. É engraçado que as pessoas não entendam isso. Por exemplo, eu gosto de hipismo — mas não queria, nem por um momento, ser o cavalo ali. E por isso não entendo a lógica desse pessoal, acho meio precária e inexplicável: “você tem que apanhar para gostar de vale-tudo”. Eu pensava que só aqueles que apanhavam muito na cabeça eram capazes de um raciocínio tosco como esse.
E no fim das contas fica uma impressão engraçada: esse pessoal, com suas caras grosseiras, orelhas amassadas e narizes tortos é muito sensível.
Como sabem alguns leitores deste blog, eu sou beatlemaníaco. Mas certamente jamais ficaria ofendido se alguém disse que os Beatles são uma banda de merda, ou se fãs dos Beatles são uns bostas. Fazer o quê?
Sinceramente, isso é comportamento de mariquinhas.
Eu estou perdendo a mão nesse negócio. Acho que vou para o Twitter.
Sobre o boxe
Aí pela virada do ano assisti a Holyfield vs. Valuev, luta válida pelo título mundial de pesos pesados de uma dessas tantas federações mundiais do boxe.
De um lado um lutador de perfeita técnica, um boxeur velho embora ainda digno desse nome, mas sem a força que nunca teve, sem a capacidade de nocautear seu oponente. Do outro uma aberração tosca cujo único mérito é a sua estatura elevada, um sujeito que só é campeão porque é grande demais — Valuev me lembra uma antiga jogadora de basquete chinesa, lenta e com cara de retardada, que só estava no time porque era gigantesca. O resultado, vitória por pontos do ogro russo, para mim foi mais que isso: foi um — mais um — epitáfio.
É melancólica essa sensação de que o boxe morreu.
Até os meus 20 anos eu não gostava de pugilismo e subscrevia uma paródia do “If” de Kipling escrita por Stanislaw Ponte Preta, “se gostas de boxe és uma besta, meu filho”. Mas por causa do sucesso de Mike Tyson no final dos anos 80, quando o esporte se viu diante do seu primeiro fenômeno em 15 anos, para assistir a Twin Peaks nas noites de domingo da Globo eu tinha que passar por algumas lutas.
E então o caminho não tinha mais volta.
Assisti às últimas lutas de Sugar Ray Leonard, de Roberto “Mano de Piedra” Durán e de Julio César Chávez; vi Pernell Whitaker provocar seus adversários e vi George Foreman reconquistar um título aos 45 anos. Vi a ascensão de Oscar de La Hoya, de Lennox Lewis e do melhor boxeador dos anos 90, Roy Jones Jr. Era uma grande época para se gostar de pugilismo, essa é a verdade, e vi grandes lutas e aprendi o que é boxe.
Boxe é força e beleza. É a realização máxima das possibilidades do corpo humano em um campo específico. É a estilização de um dos mais básicos instintos humanos, o da agressão, da destruição do outro ainda sem a sofisticação social da guerra; e para dominá-lo é preciso técnica, é preciso a sistematização dos movimentos de ataque e de defesa. Boxe é a maneira como um corpo se move com graça e perfeição em busca do seu objetivo.
É por isso que quem escreve sobre pugilismo gosta de ressaltar questões técnicas e blá blá blá. Mas a verdade é que boxe é, acima de tudo, violência — e é a aceitação disso que torna possível a apreciação do esporte. Porque no fim do último round não importa se um lutador tem melhor jogo de pernas, boa esquiva e domínio perfeito dos fundamentos — se o outro lhe aplicar um bom direto no queixo e ele beijar a lona, nada daquilo lhe valeu de alguma coisa. Boxe é também o nocaute perfeito — o soco dado na hora certa e no lugar certo, que manda um sujeito inconsciente ou quase para o chão e então a platéia instintivamente se ergue e grita o nome do vencedor.
Grandes campeões tinham essa combinação de técnica e força. Joe Louis, George Foreman, Joe Frazier, em certa medida Rocky Marciano. E ninguém as teve mais do que Muhammad Ali. Float like a butterfly, sting like a bee, ele dizia; e até hoje há poucas coisas tão perfeitas quando Muhammad Ali no ringue, esquivando-se, jabeando, golpeando. É assombroso que ainda haja críticos de boxe afirmando que Joe Louis foi melhor que Ali — mas isso se pode creditar apenas ao seu medo da personalidade altiva de Ali, em contraste com a atitude de “bom neguinho” de Joe Louis.
Porque ninguém jamais lutou como Muhammad Ali. Ele foi o último grande gênio do boxe; foi também o maior de todos, aquele em que cada lutador deveria se espelhar, aquele de quem cada um deveria ter uma estátua em um altar sagrado e, toda manhã, se ajoelhar diante dela em respeito contrito. Com Ali, a violência adquiria a graciosidade de um balé — o mais perfeito em sua categoria a que o corpo humano pode chegar, um mestre absoluto daquilo que torna o boxe, mais que uma luta, uma arte.
Foi isso o que aprendi assistindo às lutas daqueles grandes lutadores de outrora. O que eu não entendia era que, a cada nova luta, via o declínio do boxe.
Desde a aposentadoria de Muhammad Ali, cada novo campeão era um pouco menor que o anterior; e foi isso, mais do que a roubalheira, mais do que Don King, que destruiu o boxe. O último boxeador peso pesado excepcional que vi lutar foi Mike Tyson — e mesmo ele era incompleto, um lutador limitado e de técnica banal que jamais seguraria os tantos rounds da melhor luta de todos os tempos, Ali vs. Frazier em Manila — luta que se pode achar facilmente no YouTube — ou fazer o que Ali fez contra Foreman no Zaire, se deixar espancar durante oito rounds para só então nocautear um dos maiores punchers de todos os tempos. Tyson batia, e batia como ninguém jamais bateu, mas não fazia muito mais que isso. Paradoxalmente foi um dos tantos responsáveis pela aceleração da decadência do boxe, com vexames como a luta contra Bruce Seldom ou a mordida na orelha de Holyfield.
Com a queda de Tyson, caiu junto o boxe. Um a um, campeões foram sendo sucedidos por lutadores inferiores, e o resultado é isso, um Valuev campeão apenas porque é grande, uma negação absoluta dos valores do boxe e um retrato da decadência de um esporte de beleza singular.
Isso não quer dizer que não existam grandes lutadores em atividade. Existem, sim. Mas é apenas na categoria dos pesos pesados que o boxe pode se realizar em sua plenitude, e ela hoje consiste em lutas com excesso de tática e clinches e pouca arte. Hoje os melhores lutadores estão nas categorias mais leves. Cerca de um ano atrás vi um grande lutador, franco-argelino cujo nome esqueço, dar uma aula de técnica e rapidez. Mas isso não muda nada, porque esses lutadores não passam muito de mosquitinhos brigando e zunindo. Nessas categorias inferiores o boxe não pode se realizar completamente — porque se nela sobra técnica e rapidez, falta a completa violência, a celebração absoluta da força. É isso que faz do boxe uma arte masculina por definição. E é por isso que ele está decaindo, esperando que surja novamente um grande campeão para lhe dar novo fôlego.
Para piorar as coisas, é também por isso que o vale-tudo está ocupando o espaço que deveria ser da nobre arte do Marquês de Queensberry.
O vale-tudo está para o boxe assim como a dança da galinha está para o balé, como o Bonde do Tigrão está para Mozart, ou como a vulgaridade da Mulher Melancia está para a elegância de Márcia Haydée. Um arremedo de dança do acasalamento homossexual, o vale-tudo é o retrato de uma época em que o que importa é sempre, e apenas, o resultado. Não importa que para isso seja necessário dar uma cotovelada no rosto do oponente ou uma joelhada em seu estômago. Se o boxe tem a beleza estética que decorre da sistematização e da limitação das possibilidades da agressão, o vale-tudo é apenas violência rasteira. E feia.
Badminton e peteca são esportes mais masculinos que esse vale-tudo. Até patinação no gelo é mais masculino, porque eventualmente o patinador com seus paetês e suas calças justas vai sentar a moça em seus ombros, os dois frente a frente, e vai lembrar a todos uma das melhores razões pelas quais é bom ser homem. Enquanto isso lutadores de vale-tudo fazem meia-noves intermináveis com a voracidade de um amor vespertino e urgente, cabeças enfiadas com sofreguidão nas virilhas dos seus parceiros, e na falta de outros fluidos se contentam com a urina em seus calções.
Vale-tudo é um sujeito dizendo para o outro “vem e me domina, meu homem”. Por baixo, o sujeito aperta com as pernas os quadris do seu amor com força, chama-o para si, e os abraços são fortes e esganados e desesperados, “diz que eu sou teu”. Não é à toa que um dos movimentos ali se chama submissão. É um sujeito meio depravado dizendo para o seu objeto de desejo “vem, cachorro, eu sou o teu senhor, faz a minha vontade”, variação sado-masoquista de uma relação de domínio. Vale-tudo é sexo selvagem, sem limites, em que o cheiro do sangue se torna o maior afrodisíaco imaginável. É por nunca ter conseguido enxergá-lo de outra forma que durante muito tempo brinquei com a idéia de fazer um curta-metragem sobre essa coisa bizarra a que chamam “esporte”, mostrando as cenas desses lutadores atracados em suas lides de amor enquanto, em BG, ouviríamos Serge Gainsbourg e Jane Birkin cantando Je t’Aime (Moi Non Plus). Mas uma moça já fez esse filme.
Eu me recuso a me contentar com o vale-tudo, eu que vi grandes lutadores darem o melhor de si nos ringues. Mas há uma esperança. Enquanto o vale-tudo é sublimação homoerótica de playboys de zona sul, que gostam de passear com seus pitbulls pelos calçadões da vida, o boxe ainda é praticado em academias de subúrbio. E é isso, essa fé meio boba na força do povo, que me faz acalentar a esperança de que um dia um novo Muhammad Ali apareça no ringue para dizer que é o rei do mundo. Esse dia vai chegar.

Do esquecimento
Durante muito tempo, em vez de deitar-me cedo, eu apenas não soube de verdade o que significava a palavra esquecer. Via nos filmes alguém se despedindo e dizendo “eu nunca vou esquecer você”, e então me pegava pensando que idiota, claro que não vai esquecer, depois de passar por tudo isso é impossível esquecer.
Foi só ao ver uma cena semelhante pela enésima vez que eu finalmente entendi. A TV passava “Dança com Lobos” e Kevin Costner se despedia de Graham Greene: “Eu nunca vou esquecer você”.
Eu já estava mais velho, já conhecia um pouco mais dessa humanidade impossível de conhecer de verdade. Foi só então, aí pelos vinte e poucos, que entendi o que se quer dizer com isso: não é esquecer a pessoa, que isso não se esquece, mas nunca deixar morrer o que se sentia por ela. É o tipo de coisa que só quando você passou por um bocado de gente na vida pode entender de verdade.
E é esse o problema das gentes, o fato de que no fim das contas todos seremos esquecidos. Eu tento conviver com isso; mas sei bem que a ilusão de que seremos lembrados ajuda a dar um sentido à vida. Imagino que para algumas pessoas a consciência real de que não há memória, só há esquecimento faria da vida algo um pouco mais triste, talvez até a fizesse não valer a pena.
A essas pessoas deve ser vedada a entrada em cemitérios. Porque um cemitério é isso, é esquecimento, e se disserem que é outra coisa estarão enganando você. Um cemitério é um lembrete constante de que você será esquecido, irrevogavelmente. E será esquecido apesar dos seus esforços, tão mais ridículos quanto maiores forem, de tentar ser lembrado.
As pessoas erigem monumentos, botam estátuas de anjos e de santos para guardar seus ossos inúteis, colocam na pedra ou no bronze seus nomes, colocam até panegíricos que ultrapassam o limite do ridículo, ostentam os títulos que lhe orgulhavam e lhe engrandeciam aos seus próprios olhos. Fazem o que está ao seu alcance para alcançar uma imortalidade, se não na alma, pelo menos na memória e nos tempos deste mundo.
E no entanto eles serão esquecidos, e se forem lembrados será para serem ridicularizados, olha que idiota, tanta pompa e tanto dinheiro gasto para nada, quem esse merda achava que era, fulano de tal, que diabo ele fez para achar que lembraríamos dele?
No começo do ano vi uma pequena multidão diante de um túmulo novo no Pére Lachaise. Flores, muitas flores, inclusive uma coroa do Olympia. Devia ser um artista.
Artista morre a três por quatro, normalmente velho, esquecido e fora da ribalta, mas aquele pelo visto era alguém, porque o tanto de flores e o tantinho de gente à sua volta eram um atestado, senão de glória, pelo menos de fama.
Um sujeito jovem, drogado e bêbado, trazendo na cara loura e de traços grosseiros marcas de uma ou mais brigas recentes, era um dos mais comovidos. Estava em pé diante do túmulo e pela bagagem que carregava tinha vindo de longe apenas para prestar ao falecido uma última homenagem, talvez para adorar seu novo santo em seu próprio altar.
Perguntei a uma moça velha também parada ali quem era o ilustre defunto, quase pedindo desculpas por não saber quem jazia ali, e a senhora não sabia. Então o sujeito veio falar comigo, e como eu só gosto dos malucos da minha terra larguei um jenecompranpá, um aidonspicfrentch, e para ter certeza de que ele compreendeu mandei também um balançar de cabeça e um dar de ombros e levantar de mãos súplices. E quando ele viu que eu não entendia, ele também deu de ombros, e voltou a sua atenção ao pequeno jardim à nossa frente.
Ele olhava o túmulo como a Rosinha de Caymmi olhava o mar, Rosinha que era bonita e agora parece que endoideceu, na beira da praia, olhando pras ondas, andando, rondando, dizendo baixinho “Morreu… Morreu…”, e eu que não endoideci nem nada olhava para ele, esperando a hora em que iria desmaiar ou morrer de overdose ali, um pequeno sacrifício romântico e estúpido diante do altar do seu ídolo.
Um velho gordo, baixinho, com aquela cara de provinciano do vale do Loire, passou pelo sujeito e viu o aglomerado e disse em voz alta que o morto não era ninguém, não era nada. E o rapaz se irritou, porque a gente não mexe impune com a fé dos outros, e começou a discutir com o velho, ele era um grande compositor, um gênio lírico, um grande cantor, um grande ídolo e modelo da juventude, e o velho gordote e baixinho sem tirar as mãos dos bolsos deu também de ombros e soltou aquele pequeno flato oral que franceses gostam de soltar e se afastou.
Eu me afastei também.
Mais tarde eu descobriria quem era o sujeito. Se chamava Alain Bashung, era conhecido como “le dandy du rock” apesar de já ter passado os 60 anos, tinha morrido uma semana antes. Em vez de viver rápido, morrer cedo e deixar um cadáver bonito, como sói fazer qualquer roqueiro que se respeite, morreu em idade quase provecta de um câncer prosaico, e morte por câncer na velhice é morte indigna de roqueiro, mas fazer o quê, os tempos mudaram muito desde a época em que Jim Morrison, enterrado ali perto, morria por excesso de vida. Diziam as capas das revistas que Bashung era um grande ídolo — e talvez fosse mesmo, e me disponho a admitir isso porque certamente não conheço todos os grandes ídolos universais que existem por aí.
Daqui a 50 anos o túmulo de Bashung provavelmente estará esquecido como outros tantos no mesmo Pére Lachaise. E o ardor do seu fã embriagado e entorpecido não terá significado nada. Diante do túmulo de Bashung, onde num dia de março do início do século um garoto fora de si quase brigou em defesa de sua memória, um bocado de gente vai passar e vai dar de ombros, se sequer se der a esse trabalho, como hoje diante do túmulo dos generais e políticos e escritores e gente que se supunha imortal e inesquecível — algo de que o tempo discordava.
Pequeno post melancólico e quase nostálgico
O Idelber vai voltar. Ele já parou antes e voltou, deixa só a barra folgar um pouco e ele volta, nem que seja para escrever sobre o melhor time que ele já viu em sua vida, o Flamengo de Zico e Leandro e Adílio e Júnior e Andrade.
Mas a sua despedida, neste momento, faz com que eu lembre que o tempo está passando, e passando rápido. Se o Idelber parasse sozinho eu não acharia nada, mas aí vou ao blog do Bia e não vejo nada, e o do Ina e não vejo nada, e o Bruno parece ocupado com outras coisas.
Os ciclos de vida parecem mais curtos aqui. E agora eu paro e me lembro daquele inverno de 2005 — o inverno de que Serge Gainsbourg fez a trilha sonora, o inverno das brigas na blogoseira, dos astrólogos de Maria e pseudo-feministas no meu pé, dos encontros histéricos no Rio onde o Alex lambia os pés de uma lourinha antes de ir para os estrangeiros fugir de furacões, e o Doni que tinha tempo para aparecer de surpresa no Rio, e o Hermê que mandava malucas para o hospital a beliscões, e a Tata que ainda era carioca de Copacabana com o sotaque de zona sul, e a Carol que chicoteava os moços e dizia “não vá colocar isso no seu blog!”, e o Bia que tentava comer todo mundo fazendo experimentos com pequenas pílulas azuis e se sentindo uma mistura de Aldous Huxley e Jack Kerouac.
É engraçado lembrar disso, porque hoje o Alex é um sujeito que agora sabe que o racismo existe, e a Carol também foi para lá longe porque a ninfeta do demônio cresceu e encontrou o homem de sua vida e resolveu ir para onde ele fosse, e o Doni é um psicólogo que chega para as meninas da faculdade e joga um “quer ver o tamanho da minha subjetividade?”, e o Bia é um homem sério que trabalha o tempo todo e empresta sua cara à TV e daqui a pouco vai estar fazendo churrascos para os amigos no quintal de casa, conversando sobre qual carro é melhor para uma família daquele tamanho, e eu continuo aqui na minha cidadezinha, olhando da varanda o rio que corre aqui em frente e tentando adivinhar se hoje vai ter vento.
E aí, enquanto a gente olha em volta e vê que todo mundo cresceu, fica a sensação de que é tudo tão chato, todo mundo falando as mesmas coisas com a mesma seriedade e a mesma sensação de importância, um bocado de gente se levando a sério demais e valorizando em excesso seus poucos caraminguás, que a blogoseira anda tão chata. Mas nunca é bom esquecer que quando alguém acha algo chato, pode ter certeza de que há 50% de chances de que o chato seja ele. Na verdade as chances são maiores, bem maiores do que eu gostaria que fossem, e a história parece ter superado todos nós.
Assim estamos todos morrendo, porque parece que nessa blogoseira tudo é rápido demais, que as pessoas vivem aqui em um ritmo diferente daquele lá fora, e nascem e crescem e morrem rapidinho como efêmeras, e a sua morte nunca é um câncer tomando conta do fígado, ou um corpo jogado numa esquina, é apenas cansaço e desistência, e ao perceberem isso elas lembram como a vida lá fora é tão melhor e mais pragmática. E se alguém perguntar ao Bia se existe vida após a morte ele vai dizer que sim, que depois de morrer virou um senhor burguês que junta a família para assistir à Bela Adormecida nos sábados à tarde.
É o spleen de fin de siècle, versão blogoseira. Mas como não tem Baudelaire para escrever um poema, ficam só os arquivos do Blogger e do WordPress e do Movable Type, e pairando sobre eles uma certa falta de vontade de escrever, uma sensação de que afinal de contas tudo o que tínhamos para dizer já foi dito e redito. Um cansaço que agora parece atávico, uma sensação de que não há nada a fazer diante do w.bloggar. E aí, vou escrever o quê? O Bia desistiu há meses, o Alex não se preocupa mais com suas prisões, agora o Idelber resolveu parar.
De repente me vêm à visão os 80 anos, os meus 80 anos, e me vejo pedindo a prostitutas feias e já em fim de carreira que fiquem mais um pouco, que conversem comigo. Sobre qualquer coisa. Que inventem uma história sobre como foram parar nessa vida, que dêm a um velho sozinho e solitário um pouco de companhia, algo pelo qual ele tem que pagar por causa de tudo o que fez em sua vida.
Aí eu começo a rir, porque essa do velhinho foi de matar, e se minha mulher ler isso vai me encher de porrada.
Puta que pariu
E daí, trotskista, que eu fiquei sem palavras.
Lembrete
Chuck Berry em São Paulo, dia 19 de agosto.
Jerry Lee em São Paulo, dia 18.