Ainda o diploma para jornalistas

É curioso que mesmo que o teor do post sobre o diploma de jornalismo fosse o de que a eventual revogação da obrigatoriedade não mudaria nada, gente boa como o Sergio Leo tenha partido para a defesa do diploma.

É uma discussão bizantina, essa. Inútil, na minha opinião, porque com diploma ou sem diploma novos jornalistas — pelo menos enquanto durarem os jornais — continuarão sendo recrutados nas faculdades e na prática nada deve mudar. Foi o que eu disse no primeiro post; continuo dizendo aqui.

Mas eu gosto de discussões inúteis.

O Sergio cometeu o mesmo erro da maioria dos defensores, na minha opinião. Condicionou a exigência do diploma à sobrevivência dos cursos superiores de jornalismo. E apareceu com um argumento curioso:

Só na escola de jornalismo você terá oportunidade de discutir criticamente o que se faz nos jornais, e preparar os garotos para enfrentar cacoetes e visões preconcebidas de jornal que só atendem ao interesse de quem manda na empresa

Talvez fosse o caso de perguntar: e o que se faz na blogoseira, por exemplo? Até mesmo aqui — em um blog que, a propósito, não tem nenhuma pretensão jornalística? Em toda a internet, há uma série de discussões sobre a mídia, com um nível crítico que aliás, não é comum na universidade em função dos seus compromissos. Ao contrário do que parece acreditar o Sergio, a universidade não é o único lugar onde se pode discutir algo. Se deu essa impressão até há algum tempo, foi porque não havia canais suficientes para essa discussão.

(Um pequeno parêntesis: é curioso como, na defesa de um princípio sagrado, a linguagem de pessoas normalmente ponderadas como o Sergio se torna parecida com a dos maluquinhos do PSTU ou do PSOL. “Algumas empresas adorariam ter um exército maior de mão de obra de reserva para expurgar mais facilmente das redações os jornalistas que aproveitaram direito seus cursos de jornalismo”, disse o Sergio. O problema é que as empresas já têm essa reserva. Chamam a ela “recém-formados”. Ou seja, o argumento “cripto-sindicalista” não vale mais.)

Talvez o problema desses argumentos esteja na sobrevalorização do curso de jornalismo. O Cássio pode ter dado a pista para entender por que o diploma, afinal, não é tão necessário assim: “Tentei buscar alguns exemplos de gente que fez bem seu trabalho sem diploma. Só achei em ciência sociais.”

Acho que dá para explicar por quê. Ciências humanas e sociais não exigem o nível de sistematização do aprendizado específico que, por exemplo, cursos como engenharia civil ou medicina exigem. É para isso que a universidade serve: para sistematizar e garantir o ensino e o aprendizado. E é por essa razão que para algumas profissões o diploma é necessário, como uma medida de proteção da sociedade. É uma proteção que não se exige do jornalista, em primeiro lugar, e que não esconde o fato de que qualquer pessoa pode aprender a ser jornalista sem passar por uma faculdade, como poderia, por exemplo, aprender economia, sociologia, história, letras, antropologia ou direito — até há relativamente pouco tempo não era necessário diploma para exercer a advocacia. E eu teria vergonha de me intitular “cientista político”. Um amigo político, e uma das pessoas cuja inteligência nessa área sempre respeitei em excesso, me dizia: “me mostre um cientista político e eu te mostro um picareta”.

De qualquer forma, toda e qualquer formação específica é recomendável (respondendo ao Cássio: eu não me desviei da pergunta. Mas já tinha dito no post que jornalistas formados são, em geral, mais bem qualificados que os antigos focas, por questões óbvias) — e é por isso que mesmo que a exigência do diploma caia, os novos jornalistas continuarão saindo dos bancos das universidades. O Sergio erra quando parece acreditar que, sem a obrigatoriedade do diploma, as escolas vão fechar. Para ser administrador, por exemplo, não é necessário diploma, e no entanto as escolas estão cheias (por sinal, se eu quisesse ser administrador faria um curso de engenharia, mas isso é outra discussão). Mas já que enveredamos no caminho das discussões sem sentido, vale a pena examinar a sobrevalorização do ensino superior de jornalismo mostrada aqui pelo Sergio.

Fui procurar a grade curricular da Cásper Líbero, que tem o mais antigo curso de jornalismo do país. Tirando as matérias encontráveis em qualquer curso universitário, eis a grade curricular específica:

  • SOCIOLOGIA GERAL E DA COMUNICAÇÃO
  • TEORIA DA COMUNICAÇÃO
  • FOTOJORNALISMO
  • TÉCNICAS E GÊNEROS JORNALÍSTICOS – JORNALISMO BÁSICO I, II e III
  • HISTÓRIA DA COMUNICAÇÃO
  • COMUNICAÇÃO COMPARADA
  • RADIOJORNALISMO I e II
  • COMPUTAÇÃO E PLANEJAMENTO GRÁFICO EM JORNALISMO
  • ADMINISTRAÇÃO DE PRODUTOS EDITORIAIS
  • JORNALISMO ESPECIALIZADO I e II
  • NOVAS TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO
  • TELEJORNALISMO I e II
  • TÉCNICA DE REDAÇÃO I e II
  • DESIGN GRÁFICO – JORNALISMO EM REVISTAS
  • ÉTICA JORNALÍSTICA
  • JORNALISMO OPINATIVO
  • PROJETOS EXPERIMENTAIS

Não é nada do outro mundo, e seguramente nada que justifique tanto ardor em sua defesa, ou os quatro anos gastos. No sistema de créditos, muitas dessas matérias poderiam entrar como matérias optativas — até porque um sujeito que ser diagramador, porque é essa a sua vocação e talvez o seu talento, não vai perder tempo com “jornalismo opinativo” (matéria estranha, essa) ou “radiojornalismo”. O Sergio que me desculpe, mas essa grade curricular não justifica uma defesa tão acalorada da obrigatoriedade do diploma.

Assim como o Cassio, eu não acho que jornalismo é apenas “escrever bem”. Isso somente é redação, e não consta que ainda haja muitos copidesques nos jornais brasileiros; quanto a opinião, o Sergio lembrou que jornais sempre tiveram esses espaços abertos. Por jornalismo eu entendo a reportagem, a fotografia e a produção do material jornalístico final, seja ele jornal, rádio, internet ou TV. E continuo assinando embaixo da definição de jornalismo pelo Claudio Abramo: é ver e explicar o que viu. Sobrevalorizar a formação acadêmica de jornalistas, como faz o Sergio Leo, é um erro. É isso que entra em discussão e é isso que eventualmente pode dispensar um diploma.

Voltando ao caso do Idelber, acho que o Sergio está errado. Eu acho que o Idelber daria um bom jornalista. O Sergio acha que não, citando a sua parcialidade.

O problema é que eu acho que o Idelber fez, na denúncia dos horrores cometidos por Israel em seu ataque à Palestina, bom jornalismo. Parcial? Sim. Como foi parcial a cobertura da imprensa brasileira, ignorando boa parte do que o Idelber mostrou e discutiu. Mesmo admitindo-se a agenda do Idelber, é necessário perguntar: ele mentiu? Ele trouxe informações novas? Acho que o Idelber foi o primeiro a falar, pelo menos em português, sobre as bombas de fósforo utilizadas por Israel, e mais que isso, contextualizou os ataques. Além disso, ele fez algo que o resto da imprensa brasileira não parece ter feito: mostrou o outro lado utilizando técnicas simples e que estavam ao alcance de qualquer um.

O Idelber fez isso no seu blog, sem nenhum compromisso com a idéia de “ouvir o outro lado”. Cá entre nós, seria muito fácil mostrar o lado israelense, usando as mesmas ferramentas. Mas o Idelber não tinha assumido esse compromisso. Seria diferente em um jornal, provavelmente.

(E o Hermenauta, hein? O sujeito é engenheiro. Mas quando se trata do Reinaldo Azevedo ou da Nariz Gelado, ele faz uma checagem de fatos de dar inveja a qualquer analista de jornal. Resumindo: muitas das coisas que se associa a jornalistas podem ser feitas por qualquer pessoa.)

O Sergio faz ainda uma pergunta:

Acabar com a obrigatoriedade do diploma não resolve nenhum dos problemas hoje apontados nos jornais. Cabe perguntar: a quem interessa, e por que o fim da exigência de formação específica universitária obrigatória para o jornalista?

Bem, foi o que eu disse desde o início: não muda nada, e a pergunta com jeito de teoria conspiratória soa meio fora de contexto. Mas eu acho que a lei tem um problema, o de excluir as eventuais exceções. Gente talentosa que cursou, sei lá, história e tarde nada descobre que tem vocação e talento para a reportagem. Assim como o Niemeyer citado pelo Sergio. Nesse caso, interessaria à sociedade.

E no fim das contas, a pergunta que nenhum dos defensores do diploma costuma responder é: se sem a exigência do diploma o mundo acaba, por que só acaba aqui no Brasil? Quer dizer que em outros países — e não vamos usar exemplos de sociedades mais avançadas, como os Estados Unidos, França ou Inglaterra; vamos pegar os da América do Sul, mesmo, bastante parecidos conosco — não existe jornalismo? Se o diploma é condição essencial para a sobrevivência do jornalismo, porque nesses outros países isso não acontece? Deixo aqui a deixa para os defensores finalmente responderem essa pergunta.

Sobre o diploma para jornalistas

Vi num post compartilhado pelo Doni que o STF está julgando a continuidade ou não da Lei de Imprensa, esse pequeno absurdo jurídico perpetrado pela ditadura e que continua até hoje. É a lei que, entre outras coisas, tornou necessário o porte de diploma para o exercício do jornalismo.

Aqui e ali as pessoas se pronunciam contra ou a favor do diploma. O André Forastieri, por exemplo, usa o seu próprio exemplo para se posicionar contra. O Sergio Leo, por discussões antigas, eu sei que é a favor.

O grande problema dessa discussão é que ela é atrasada e ineficaz. Já há algum tempo, essa lei estúpida tinha sido tornada redundante pela própria evolução do capitalismo na Brasil. E isso não começou com a ascensão da internet e o surgimento, por enquanto ainda embrionário, do jornalismo cidadão. É um processo mais antigo e consistente, que vem da própria evolução da sociedade brasileira. Já há muito tempo esse aspecto da Lei de Imprensa havia sido superado pelas leis de mercado.

Mesmo assim sobram os equívocos na defesa da lei — e talvez não pudesse ser diferente, porque é difícil defender uma lei equivocada. Um dos mais comuns é justificar a exigência de diploma pelo caráter desejável do ensino superior de jornalismo. É um equívoco porque uma coisa não é sinônimo da outra. É tão simples que chega a doer: pode-se ter ensino universitário de jornalismo sem a exigência do diploma para o exercício da profissão — como aliás ocorre em praticamente o mundo inteiro. Um dos argumentos mais fracos em defesa dessa lei é aquele que prega que, sem a exigência do diploma, as escolas de jornalismo — e aqui não vai nenhum juízo de valor sobre sua qualidade — vão fechar.

A esta altura, não são exatamente comuns casos como o do Ancelmo Góis, que chegou ainda menino na redação da Gazeta de Sergipe e foi aprendendo com a prática e com a orientação de gente boa como Zé Rosa e o grande (e digo isso não apenas porque é um amigo) Ivan Valença. Os garotos hoje decidem que vão ser jornalistas muito antes de estarem aptos ao mercado de trabalho, e é natural que nesse meio tempo entrem em uma faculdade para irem aprendendo o que podem. Bem ou mal, o ensino universitário é hoje mais acessível do que há 40 anos, quando apenas 1% dos brasileiros chegava ao ensino superior.

Além disso, todo o discurso preparado em cima da questão do ensino universitário é exagerado. No fim das contas, reportagem é ver e contar o que viu. Não é preciso ler Deleuze de cabo a rabo para aprender como fazer isso — na verdade, e sem desmerecer (pelo menos não totalmente) o arcabouço teórico que os cursos de jornalismo utilizam para justificar sua existência, é a prática que forma os repórteres. Quanto à capacidade de interpretar e analisar a realidade, outra área do jornalismo, talvez um curso de história ou economia fosse tão válido quando o de jornalismo. Ou mais. E com franqueza: alguém tem visto no cotidiano dos jornais algo que dê ao menos um vislumbre de tanta erudição dos jornalistas?

Esse equívoco é generalizado. Numa discussão sobre mudanças no curso de jornalismo propostas pelo Ministro da Educação, o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Sérgio Andrade, se perguntou: “Um advogado vai estudar cinco anos, se formar, estudar jornalismo por mais dois anos e entrar em uma redação para ganhar R$ 1,2 mil, subir morro e levar tapa de bandido?”

Não, não vai. Só vai ser jornalista quem acha que tem vocação para isso — e esses normalmente entram em um curso universitário aí pelos 17 anos de idade. E é esse o nível da competição que os jornalistas vão enfrentar. Pode-se citar como exemplo análogo a publicidade, atividade com algumas semelhanças com o jornalismo. Não se exige diploma nesse ramo. Mas hoje em dia não há mais novos publicitários que não tenham passado por um curso de publicidade. Não foi uma lei que fez isso: foi o tempo e o progresso. E a concorrência. Mercados costumam ser mais ágeis que leis, ainda mais quando empurradas goela abaixo de um povo por ditaduras. É isso que os defensores da obrigatoriedade do diploma não entendem, porque estão empenhados em cartorializar a sua profissão e defender de maneira boba uma lei que, em seu tempo, representou um golpe pesado na liberdade de expressão no país.

É simples: a Lei de Imprensa, nesse sentido, é redundante, obsoleta e desnecessária.

Ainda que se parta do princípio de que a Lei, em algum momento, defendeu a categoria dos jornalistas, seu grande problema hoje não é o que ela inclui e permite, é o que exclui e proíbe. Por exemplo — e usando o sujeito apenas como modelo hipotético, porque ele está bem satisfeito com sua cadeirinha lá em Nova Orleans —, não custa lembrar mais uma vez o trabalho brilhante que o Idelber Avelar, com formação em Letras, fez na cobertura dos ataques israelenses à Palestina, no final do ano passado. Pela inteligência, pela capacidade de análise, pela cultura geral, o Idelber seria certamente melhor jornalista do que 80% dos repórteres brasileiros — e duvido que qualquer defensor da Lei que conheça o cotidiano das redações diga o contrário. No entanto pessoas como ele não podem ser jornalistas. A essa altura do campeonato, isso não deveria mais importar. Do ponto de vista geral da profissão, não faz diferença se uma pessoa talentosa e capaz se torna jornalista sem ter passado por um curso.

Além de tudo isso, a Lei de Imprensa sempre foi uma grande estupidez. Pela sua origem ditatorial, para começar; pela sua singularidade em um mundo que não costuma exigir diploma de jornalismo porque não vê necessidade; pela cartorialização de uma atividade econômica; e pela sua sobrevalorização — diploma não é prêmio para ninguém: é uma defesa da sociedade e, sendo o mais sincero possível, algo desnecessário na atividade jornalística. Diploma é fundamental para médicos e engenheiros, sob cuja responsabilidade estão diretamente as vidas de pessoas, e não para repórteres que não vão publicar nada sem que seus editores e patrões permitam. A fraqueza desse tipo de argumento sempre esbarrou na inexigibilidade de diploma para outras funções importantes em jornais, revistas e TVs, como fotógrafos, cinegrafistas e diagramadores. Mas repórteres, talvez reflexo do bacharelismo que é um traço típico brasileiro, sempre se viram acima deles, mesmo quando a evolução da indústria jornalística aumentou a importância desses outros setores.

Há outros aspectos curiosos nas defesas que se fazia da exigibilidade do diploma. Sindicalistas me diziam que a exigência de diploma garantia melhores salários. Era mentira. Basta ver os salários de publicitários, que mesmo sem a exigência de diploma sempre foram consistentemente mais bem pagos que jornalistas. Além disso, jornalistas valorizavam sua própria profissão falando de qualidade e coisa e tal — mas o diploma, por si só, nunca garantiu isso. O Última Hora, o Jornal do Brasil e a Folha de S. Paulo formados por não-graduados, entre os anos 50 e 60, tiveram mais importância na história da imprensa brasileira do que qualquer um posterior à lei tão defendida por jornalistas. Claudio Abramo não era formado em jornalismo. Nem Mino Carta. Nem Alberto Dines. Nem Carlos Castelo Branco. Nem… Ah, já deu para entender.

Outro problema da lei é que ela já há muito tempo não garante vantagens para jornalistas, deixando mais claro o que sempre foi, um apêndice esdrúxulo de um regime de exceção. Não há reserva de mercado nem garantia de salários — nem mesmo de, vá lá, “qualidade” — quando acampadas às portas de cada redação neste país há legiões de recém-formados topando qualquer negócio em troca de uma primeira chance. Em Aracaju as universidades despejam, por ano, mais jornalistas do que há empregados em redações. Não deve ser diferente no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Claro que há o piso salarial dos jornalistas, mas se para conseguir isso um sindicato precisa de uma lei específica, então as coisas estão piores do que eu sempre imaginei. Agora só falta condicionarem a própria existência do sindicato a uma lei que os proteja. A múmia de Lênin, coitada, está se revirando em seu mausoléu.

Aliado a tudo isso, há a decadência do próprio jornalismo, em um processo que, agora sim, a internet acelerou. A grande diferença é que hoje a sociedade tem mais meios para fiscalizá-lo e corrigi-lo. E são esses meios que talvez estejam condenando a indústria jornalística ao seu fim.

É diante desse cenário que o STF resolve discutir uma lei que não faz sentido. Se decidir contra a exigência do diploma para o exercício do jornalismo, tomará uma decisão atrasada que não vai mudar em absolutamente nada a rotina das redações. A imprensa vai continuar a dar preferência a jornalistas formados porque eles em geral são mais bem qualificados para a profissão. E vai continuar enfrentando o possível fim de sua era, que começou há cerca de 150 anos e que agora parece estar sendo superada. O jornalismo como o conhecemos enfrenta hoje problemas muito maiores que a permanência ou não de uma lei que nasceu errada, e que hoje sequer funciona.

Decadência e queda da era da imprensa

Tanto o Sergio Leo quanto o Pedro Dória estão discutindo questões semelhantes em seus blogs: a situação de decadência e provável queda da imprensa.

É mais que sintomático que o grande palco dessas discussões seja a blogosfera, e não os jornais. Recentemente a Time tocou no assunto, mostrando incompreensão acerca do mundo que se anuncia propondo micro-pagamentos. Chegou atrasadíssima à discussão; e quem acompanhou o BuzzMachine de Jeff Jarvis nos últimos 5 anos tem uma sensação de dejà-vu.

Este post não pretende discutir propriamente o tema. Jornalistas e diretamente interessados na questão, o Pedro e o Sergio abordam o assunto com mais propriedade do que eu. Mas um ponto defendido pelo Pedro me chamou a atenção. Ele disse que a “imprensa é fundamental para a democracia”.

Isso era uma verdade absoluta até há uns 10 anos, e há uma infinidade de exemplos para provar isso: Watergate, Correio da Manhã, Eriberto, tantos outros. Mas a cada dia essa verdade se torna mais relativa, e está caminhando para ser não mais que uma lembrança de velhos tempos passados.

A imprensa era fundamental por uma razão simples: a propriedade dos meios de produção e distribuição de informação pertencia a poucos. Era caro ter uma prensa, como ainda hoje é caro possuir uma emissora de TV ou mesmo uma rádio. Mas a partir do momento em que, como definiu bem o Pedro, puseram uma rotativa nas mãos de cada cidadão, esse monopólio deixa de existir.

Essa mudança tem sido muito mais rápida do que jornalistas gostariam, e isso é mostrado por uma certa reação à novidade. Por enquanto, os momentos em que blogs trouxeram à tona casos importantes ou mesmo derrubaram jornalistas consagrados como Dan Rather são levados em consideração como casos isolados. São, mesmo. Mas é preciso ter uma coisa em mente: essa é uma mídia que mal completou dez anos. Qual outra teve impacto tão grande em tão pouco tempo, no aspecto da defesa da democracia e de influência política?

Há dois pontos fundamentais, aqui, que deveriam ser analisados de maneira isolada. Uma é a questão da distribuição. À medida que a internet tornou jornais impressos caros e defasados, é natural e inevitável que eles migrem completamente para o meio eletrônico. Esta semana o Seattle Post-Intelligencer, um jornal tradicional, com 146 anos de história, anunciou que vai encerrar sua versão impressa. Recentemente, o Los Angeles Times anunciou que a receita com internet já paga seu corpo editorial, o que permite antever o fim de sua versão impressa em poucos anos.

Até aí a mudança seria razoavelmente pouco importante. Seria apenas tecnológica, e não deveria assustar muita gente. Mas há a questão da produção, também. Essa é assustadora.

A partir do momento em que jornais começarem a disputar com milhares, talvez milhões de outros produtores de informação, a notícia tende a se tornar uma commodity. E é aí que a coisa complica de verdade.

O cerne da questão é que imprensa é, basicamente, a sociedade falando para si mesma. Até agora, era necessária a intermediação de uma classe específica. Essa intermediação, no entanto, começa a se tornar redundante. É a própria função social da imprensa que está desaparecendo.

Essa conclusão é óbvia e já se tornou ponto pacífico: a internet está tornando obsoleto o antigo modelo de jornalismo. Por exemplo, quem vai perder tempo tendo o caderno de arquitetura e decoração do New York Times se, nos blogspots e wordpresses da vida, gratuitamente e por gente muitas vezes muito mais qualificada do que jornalistas, há uma infinidade de excelentes blogs sobre o assunto?

Um exemplo claro da diferença que essa possibilidade de produção de informação faz está no crescente questionamento que se vem fazendo ultimamente sobre a ética dos meios tradicionais de comunicação. Um trecho do post do Pedro explica os padrões ideais dos jornalistas:

Alguns princípios são sacrossantos para nós, jornalistas. Um deles é a separação entre Igreja e Estado: quem mexe com publicidade, nas grandes empresas, não dá pitaco na redação. Os anunciantes não podem achar que têm o poder de intervir. Quando esse tipo de interferência ocorre, em geral nos jornais que cheiram mal, nós jornalistas olhamos com desdém.

O problema é que o produto final, que não depende apenas de repórteres, é bem mais que isso. O fato de jornalistas olharem com desdém esses episódios não impede que eles aconteçam — nem que redefinam a imagem da imprensa perante a sociedade. O Pedro e o Sergio que me desculpem, mas vejo tantas matérias pagas ou “politicamente alinhadas” nesses grandes meios de comunicação que se tornou quase um passatempo descobrir quais são as matérias pagas em um jornal ou revista e por que ela foi veiculada.

Não é apenas nos que “cheiram mal”. Na maior revista do país há uma matéria antológica — aí do final de 2003 — em que disfarçada de reportagem estava um imenso press release da Monsanto. Um grande jornal nacional publicou, há pouco mais de dois anos, uma matéria sobre Sergipe obviamente paga, ainda que assinada, com o agravante de o mesmo teor da matéria já ter sido publicado alguns meses antes, por uma dessas revistas de negócios. O jornal levou um furo até mesmo em matéria paga. Nas vésperas das eleições municipais do ano passado a Exame publicou uma matéria mais que elogiosa — e tão óbvia que chega a ser eufemismo falar em “suspeita” de interesses comerciais por trás — sobre o prefeito de Porto Alegre.

Esses exemplos são os que me vêm à cabeça agora; há uma infinidade deles. Mas as coisas podem piorar, e pioram. Até aqui se falou apenas nos jornalões, revistas e grandes redes nacionais de TV. Se passarmos para os outros 99% de meios de comunicação em todo o país, a situação chega a dar medo. O que o Sergio Leo chama de imprensa regional sobrevive de achaques, chantagens claras ou veladas, de propaganda disfarçada de jornalismo, com equipes reduzidas que acabam se tornando craques no que se costumava chamar de “tesourapress”. Costuma ter uma intimidade nociva e prejudicial com o Estado, independente de quem está no governo. Nessa categoria se enquadram, sem dúvida, 98% dos periódicos nacionais. E não se pode falar em “estado da imprensa”  sem mencioná-los.

Até há pouco, nada disso sofria grandes questionamentos fora de certos círculos sociais. A imagem pública da imprensa era aquela que ela fazia de si mesma — porque afinal de contas ela detinha o monopólio da informação. Mas a internet mudou isso, e é cada dia mais claro que essa mudança é irreversível e inexorável.

É essa democratização da produção de informação que começa a tornar a imprensa redundante e não mais fundamental. Não vai demorar muitas décadas até o momento em que os grandes debates nacionais dispensem os jornais. E se alguém precisar de um marco que simbolize o momento de ruptura, pode dizer que foi quando os blgos começaram a questionar a própria necessidade da imprensa tradicional.

Novamente o Oscar 2009

Depois de assistir a todo os filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme, dá para ter uma idéia do que foi a cerimônia.

Primeiro, a constatação óbvia: “Benjamin Buttom” recebeu exatamente o que merecia. Não mais, não menos. Que o oblívio da história descanse sobre ele.

O mesmo não pode ser dito de Slumdog Millionaire, que ganhou a estatueta de Melhor Filme. Slumdog é um filme fraco, apelativo. Talvez não seja tão ruim quanto muitos dizem, porque afinal acaba chamado a atenção para a sua história óbvia e piegas, mas nem de longe é tão bom quanto quer o Luiz Carlos Merten, do Estadão.

“Frost/Nixon” é um bom filme, mas tampouco escapa de clichês e forçações de barra. Na verdade ele é carregado nas costas pela excepcional interpretação de Frank Langella, um daqueles atores brilhantes e injustamente relegados a segundo plano. Um amigo, o Leal, o acha um canastrão; mas basta ver seu desempeho em Nixon para ver como ele consegue encarnar à perfeição o seu personagem.

Já “Milk” é um filme mediano e demagógico, mais uma daquelas biopics que fazem a festa do cinemão americano. Gus Van Sant já teve uma certa reputação — mas ao longo de sua história fez o que pôde para acabar com ela. “Milk”, no entanto, tem um ator maravilhoso fazendo um dos melhores papéis de sua vida. A interpretação de Sean Penn é antológica pela sua riqueza e delicadeza.

No fim das contas, o melhor filme entre os indicados era mesmo “O Leitor”, o mais firmemente dirigido, o mais redondo. No entanto seria demais esperar que ele ganhasse o Oscar, quando havia um concorrente piegas como Slumdog no páreo. É mais ou menos como esperar que um livro como “Ulisses” venda mais que um livro qualquer de Sidney Sheldon ou Paulo Coelho. Ou, para lembrar um exemplo caro aos brasileiros, esperar que “Central do Brasil” vencesse “A Vida é Bela”.

Mas a grande surpresa para mim foi “Doubt”.

Não é que Kate Winslet não merecesse o Oscar de Melhor Atriz. Merecia. É uma atriz brilhante e faz um trabalho admirável no papel de Hannah. Mas eu não teria dado o prêmio a ela. A melhor interpretação feminina deste ano cabe à hors-concours das atrizes americanas: Meryl Streep, por seu papel em Doubt.

Winslet faz um trabalho admirável como Hannah. Mas o seu personagem é o mesmo durante todo o filme, a sua expressão é basicamente a mesma.

Em Doubt, Streep faz uma freira que acusa um padre de abuso sexual de um garoto. Seu personagem é definido em uma cena no início do filme: ela só se benze ao final do sermão do padre brilhantemente interpretado por Phillip Seymour Hoffman depois de se assegurar que todos os alunos estão em seus devidos lugares. Seu dever vem antes de sua fé. O pouco de bondade que mostra é dirigida apenas à mais velhas das outras freiras.

Pois é esse personagem que Streep, em um diálogo com a mãe do menino que ela suspeita estar sendo moelstado pelo padre, desconstrói com absoluta perfeição. A imensidão de emoções demonstradas, a capacidade da atriz de, inesperadamente, mostrar um lado insuspeito do personagem que até minutos atrás ela construía — também com brilho — em uma direção totalmente diferente, tudo isso faz da sua interpretação uma verdadeira aula de como atuar.

Doubt é um filme melhor que boa parte dos indicados ao Oscar de Melhor Filme — o que, cá entre nós, não quer dizer muita coisa. Mas vale a pena, mesmo, pela chance de ver uma grande atriz em seu auge.

Quando o Vaticano corrige as excomunhões alheias

Talvez a Igreja Católica tenha salvação ainda.

O Vaticano condenou a atitude do arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho ao anunciar a excomunhão dos médicos que fizeram um aborto em uma criança de 9 anos estuprada pelo padrasto.

Deve ter sido um golpe e tanto para os tantos prosélitos descerebrados que apoiaram, de uma maneira ou outra, a posição do arcebispo. A própria CNBB já tinha tirado o corpo fora, dizendo que não tinha havido excomunhão. Os anencéfalos provavelmente diriam que isso era coisa daqueles “comunistas” da CNBB, como se a CNBB fosse uma sombra do que já foi nos tempos da ditadura.

Mas agora é o Vaticano quem diz, em outras palavras, que não concorda com a gigantesca cagada de Dom José Cardoso Sobrinho.

A atitude do Vaticano, que não tem se notabilizado nas últimas muitas décadas por posições exatamente progressistas, é mais digna do que a de muitos prosélitos da Igreja católica. É humana, pelo menos; é decente e, se mesmo decência for pedir demais, é ao menos sensata.

O que o Vaticano fez foi exatamente aquilo de que os tantos fiéis que apoiaram a decisão canalha do arcebispo se eximiram de fazer: pensar um pouco e ver a desumanidade e a impropriedade política daquela decisão.

Eu gostaria de ver o que aqueles que defenderam tanto o padre tacanho de Recife, pensando — ou não pensando, o que é pior — que defendiam a instituição católica, vão dizer agora. Deve ser duro ser mais realista que o rei e, de repente, ver que nem mesmo o rei acredita nas bobagens que eles falam.

Mais que qualquer outra coisa, a posição do Vaticano deveria servir de deixa para que aquele bando de gente, que por causa de sua fé e de sua burrice compactuou com uma das decisões mais infelizes da história recente da Igreja Católica no Brasil, repense seus conceitos de vida e suas atitudes.

Seria também útil que isso os fizesse retomar seus estudos de teologia. Em todos os lugares, e até mesmo aqui neste blog, os descerebrados e desalmados fizeram questão de lembrar que o arcebispo não tinha exocmungado ninguém, apenas anunciado o fato, uma espécie de milagre divino às avessas. Agora o Vaticano diz que não houve excomunhão. Se não houve, então a danda não é automática. Afinal de contas, o que aconteceu?

Mas algo me diz que os descerebrados vão continuar sem cérebro, e os desalmados, sem alma. Que caia o pano da decência sobre os conflitos internos da Igreja Católica. Mas, antes que ele cubra completamente a imoralidade da excomunhão anunciada por Dom José Cardoso Sobrinho, que fique aqui um leve comentário sobre esses conflitos.

A foto ao lado foi tirada em novembro de 2005, numa igreja no Saara, Rio de Janeiro — acho que a Nossa Senhora do terço, não sei. O aviso pregado ali — “Cuidado com as bolsas” — mostra bem as lutas intestinas da Igreja. De um lado, os honestos; do outro, o resto. Como vítima da sanha cleptomaníaca da Igreja — João Paulo II me roubou 30 mil liras no Vaticano, alguns anos atrás –, eu sei o risco que correm as pobres almas e suas bolsas nas auto-proclamadas “casas de Deus”. Mas essa pequena placa, assim como o anúncio do Vaticano colocando Dom José Cardoso Sobrinho em seu devido lugar — o reconhecimento público de que a ele está reservado o primeiro nível do nono círculo do inferno –, alivia um pouco os nossos corações ao vermos que na venerável Igreja Católica há gente honesta; e, portanto, há ainda esperança para os discípulos de São Paulo.

Desorganização

Um memezinho de que o Doni participou me chamou a atenção. A gente participa de memes quando não tem o que dizer, e então bota uma foto bonitinha, escreve umas duas palavras engraçadinhas e dá por encerrada a sua tarefa. MEmes quebram um galho danado. Aí lá fui eu procurar a sexta foto do sexto folder de fotos no meu computador.

O resultado foi uma foto do meu “escritório” no meu antigo apartamento. Acho que em algum lugar debaixo daqueles livros na mesa está um computador. E se a bagunça pode impressionar os mais incautos, posso garantir que o que estava à direita da foto, onde ficava o resto das prateleiras de livros, era ainda pior.

Coluninha social

Notícias velhas que todo mundo já conhece mas que mesmo assim eu insisto em contar atrasado.

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O Doni já tinha um dos melhores blogs brasileiros, o Hedonismos. Agora ele criou mais um: o Marcos Donizetti, um blog mais sério onde ele discute temas ligados à psicanálise. Inveja do Doni. Ele tem dois blogs. Eu mal consigo manter um.

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E uma das melhores notícias da blogosfera: o Guto voltou a blogar, agora no Imaginação Sociológica. O Guto, para quem não é dessa época, tinha um dos melhores blogs da pré-história da blogoseira, o NCC. Agora é esperar que a Mônica, mulher do Guto e outra grande blogueira, retome o Monicômio.

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A série do Alex sobre economia doméstica é uma das melhores que já vi. Tanto blog sobre dinheiro por aí (nenhum deles previu a crise, a propósito) e o Alex conseguiu dar um banho em todos eles, usando uma coisa simples mas constantemente em falta: bom senso. Eu sempre disse, mas ele não me ouve: se o Alex desistisse dessa viadagem de ser escritor sério e se tornasse um escritor de auto-ajuda, ia finalmente poder parar de se queixar que é pobrinho.

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O Verbeat está completando cinco anos. É uma das mais legais iniciativas da Internet brasileira. Eu lembro de quando ele apareceu. Eu estou ficando velho.

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A Luciana saiu do Cintaliga e, em em um novo condomínio de blogs, o Dialética.org, montou o Agridoce. O Marmota também acompanhou a Lu, e Marmota saiu do Interney e foi para lá.

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O Hermenauta é o autor de uma das frases mais verdadeiras e proféticas que eu já li: “Será que Ivete [Sangalo] está fadada a transformar-se na Derci Gonçalves do século XXI?”

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Depois de anos usando uma combinação de Bloglines e clientes de RSS, migrei para o Google reader. E aí queria agradecer ao Tiagón, à Olivia, ao Doni, à Lucia Malla e ao Idelber. É graças aos posts compartilhados por eles que leio algumas das coisas mais interessantes nessa internet que me interessa cada vez menos.

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Se alguém acha que eu escrevo pouco hoje em dia devia ver o Inagaki.

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Exatamente na véspera de Natal chegou um cartão e um calendário da Lucia Malla. E embora o verdadeiro presente tenha sido o cartão, eu fiquei deslumbrado mesmo foi com o calendário. As fotos submarinas do André, marido da Malla, são uma coisa impressionante.

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Rapaz, isso é o mais próximo que eu consigo chegar do Twitter.

A falência moral da Igreja Católica

Ao excomungar os médicos que salvaram a vida de uma menina estuprada e engravidada por seu padrasto realizando um aborto, o arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho, colocou a pá de cal na idéia de que a Igreja Católica no Brasil tem algum compromisso com o ser humano.

Não tem. Seu compromisso é com um ideário antigo. Mas as coisas são ainda piores: é um compromisso completamente antagônico à idéia de amor ao próximo e à própria noção de ética.

A excomunhão dos médicos e parentes da menina indica mais que rigidez ética. Indica a total falência moral da Igreja Católica no Brasil. Com a excomunhão, a Igreja fez uma escolha uma escolha clara: de acordo com os seus princípios éticos, os verdadeiros criminosos são aqueles que salvaram a vida da menina — não o monstro que a estuprou e engravidou. Este a Igreja deixa aos encargos das leis seculares, porque seu crime não foi tão grave. Mas os médicos que salvaram uma vida, não: estes cometeram o mais grave dos crimes, e não merecem a salvação eterna.

Não é mais uma questão de fé. O que se tem aqui é uma autoridade religiosa realizando um ato de crueldade inadmissível em nome de eventuais princípios de sua Igreja e emitindo um julgamento inequívoco: para todos os efeitos, o estupro de uma criança de 9 anos é um crime menor, posto que não passível de excomunhão. Esse é o estado da Igreja Católica no ano da graça de 2009. Um caso triste e bizarro de decadência moral absoluta e absolutamente indesculpável.

Essa decadência se sobrepõe à sua necessidade de conciliação com os valores humanos e de respeito à humanidade. A decisão do arcebispo deixa uma coisa muito clara: mais que o bem estar humano, mais que o respeito a um código qualquer de moral, o que importa são os princípios definidos pela Igreja Católica.

É quase irresistível a tentação de lembrar que a Igreja Católica trata melhor pedófilos do que meninas estupradas porque seus padres têm um longo histórico de abuso de crianças. Nesses casos a Igreja prefere pagar indenizações bilionárias a excomungar seus membros. Mas isso é desnecessário diante de uma decisão absurda como a tomada pelo arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho, uma autoridade rígida, talvez, mas certamente um homem sem bondade e sem senso de respeito ao Homem. A decisão é aterradora por si própria, uma pequena monstruosidade destinada a envergonhar milhões de católicos em todo o mundo.

Ninguém pede que a Igreja concorde com o aborto, ainda que por razões humanitárias. Nesse caso, uma solução de compromisso ético seria o simples silêncio diante de algo que não lhe compete — o aborto foi realizado dentro das leis brasileiras, se eles precisam dessa justificativa, e dentro do conceito de amor ao próximo, algo que a Igreja pregou com sucesso durante quase 2 mil anos mas que, em meio à sua debâcle moral, é hoje menos importante.

Em vez disso, ela preferiu se pronunciar e condenar os médicos. Respeitou o seu compromisso, e nisso deve ter agido certo. Como agiram corretamente os oficiais nazistas que trucidaram 6 milhões de judeus na II Guerra Mundial. Nos dois casos já não há um parâmetro moral, nem limite para a degradação, além da pura estupidez. O arcebispo Dom José Oliveira Sobrinho e os oficiais fizeram o que julgaram correto. Resta-nos agradecer aos céus que, felizmente, a Igreja Católica não tem mais o poder coercitivo de outrora.

Alguém lembrou que a ética dos ladrões e assassinos nas penitenciárias é superior à da Igreja Católica; todos sabem o destino de estupradores de crianças nas cadeias. O que esqueceram de ressaltar é que a ética das penitenciárias é a da barbárie e da vingança. Hoje, a ética da Igreja está abaixo dela. É ética da obediência cega e da analogia burra de princípios programáticos em detrimento do amor ao próximo e do respeito ao ser humano. Não é algo muito distante dos princípios de São Tomás de Torquemada; a diferença é que hoje a Igreja fala para cada vez menos gente.

É por isso que as igrejas neo-pentecostais crescem a cada dia, em detrimento da Igreja Católica. No que já foi o maior país católico do mundo, hoje o termo “cristão” é sinônimo de evangélico. Diante de excomunhões como as proferidas pelo arcebiso Dom José Cardoso Sobrinho, é perfeitamente compreensível.

As alegrias que o Google me dá (XXXVIII)

rafael galvão astrólogo
Segundo a sinastria do mapa astral que fiz para você, sua vida vai ser um eterno sofrer, você vai sofrer vários acidentes que vão lhe deixar entrevado, e vai morrer na miséria e desdentado.

qual o comportamento da mulher pentecostaol
Sonso, meu filho, sonso.

o lula nao gosta mesmo dos aposentados tomar que dilma nao entre para a presidencia
E eu acho que ele está certo. Lula não deveria estar preocupado com os aposentados como você. Nas próximas eleições você já morreu, mesmo.

meu pai comendo aputa da minha mae com amgos videos porno gratis
Foi por isso que você ficou assim, né? Eu entendo.

notícia violação de porca animal doméstico por homem
Tá vendo como são as coisas? Sobre isso ninguém escreve. O Alex não faz post comparando isso à escravidão. A internet não se levanta para condenar o sujeito por estupro. Tem coisas na vida que são muito injustas.

mulheres goianas querendo casar
Boa idéia. Dizem que goianas dão boas esposas, quando lhes tiram desse lugar, e as levam para morar consigo, e não interessa o que os outros vão pensar.

os sintomas como cansaço resmungos sem interesse pela vida o que pode ser
Realismo, meu filho, pelo menos no seu caso. A sua vida não vale nada, mesmo, você vai fazer o quê?

porque o aviao embraer afundou?
Porque esqueceram de avisar que era um avião, e não um navio?

banda que john lennon gostava anos 60
The Beatles.

nao e safadesa mas tem como mostrar fotos de clitores real
É bom que você avise que os seus propósitos são meramente científicos. Não, você não quer imagens excitantes de clitoris, grandes ou pequenos. Você quer imagens quase médicas. Eu entendo. Eu também comprava a Playboy por causa das entrevistas.

mensagens de filho para mae quando voçe acha que eu nao estava olhando
“Quando você achava que eu não estava olhando eu vi você dando mole para o tio Ricardo.”

posso me suicidar?
Por favor, sinta-se à vontade.

qual a palvra que rima com pinheiro?
Eu tenho um amigo de Itapetininga,
O sujeito se chama Pinheiro.
Ele tem uns hábitos estranhos,
E vive enfiado em puteiro.
Quendo eu pergunto por que
O rapaz é tão putanheiro
Ele responde: Veja só, Rafael,
É melhor que ser punheteiro.

mulher madura ah cansei agora homem pra mim tem penis ta bom
Pois é. A sabedoria que só se conquista com o tempo, hein?

modelos de petição inicial sobre estupro mediante ameaça
Ah, advogados… Essa raça inteligente e íntegra e honesta. A petição que o datavênia aí está procurando deve ser diferente daquela sobre estupro na base da conversa para boi dormir. E eu nem sabia que existiam tantos tipos diferentes de estupros.

enio carlos a maior bunda do brasil
Meu filho, Ênio Carlos poderia ter a maior bunda do mundo, que não faria muita diferença.

alguem se interessa em comprar imoveis em aracaju
Não. A gente mora em casas de taipa. E essas a gente sabe construir.

a musica caminhando e cantando foi usada no tempo da republica nos anos 70?
Não, foi proibida. Quando a ditadura acabou foi a vez de Sarney ser presidente, e em vez de “Caminhando e Cantando” ele preferia cantar “Cagando e Andando”, musiquinha de sua própria composição com letra de Roberto Cardoso Alves.

nao posso continuar me iludindo ele nao me quer
Isso. Já é hora de você tomar vergonha na cara e deixar de correr atrás daquele vagabundo. Agora eu tenho uma pergunta: esse conselho que te dei poderia ser dito por qualquer amiga burra sua. Por que você incomodou o Google para isso?

vida de rafael galvao cineasta brasileiro
Falem a verdade, alguém colocou isso aqui de propósito, não é?

balá aparece pelo menos um jogo para jogar agora que é simcity e pode ser um qualquer jogo de simcity o que interessa é que seja um jogo que se chama simcity
Eu diria que em vez de jogar SimCity você deveria procurar um psiquiatra para tratar dessa sua compulsão obsessiva.

musica de jane e orandir
“Não se ovar”, belo dueto entre os dois, feito para a peixinha de estimação do Orandir.

gostaria de v er as mulheres mais lindas fodendo de graÇas
É uma pena. Se fosse inteligente e bonito — se fosse rico também ajudaria um bocado — você poderia ver, bem de pertinho. Mas como não é, continue vasculhando a internet.

bia vieira nua no jegue
Bia, é você? No jegue, Bia? No jegue?

preço do hectare de terra em neópolis sergipe
Por que alguém quereria comprar terra em Neópolis? Neópolis não tem nada. Tem só uns chatos miseráveis que vêm parar neste blog querendo me convencer de que o lugar presta para alguma coisa.

quais os classicos infanto juvenis mais lidos?
Hoje eu não sei, mas no meu tempo era a Mini-Fiesta, Internacional, Playboy e EleEla.

você é implicante. implicante é você. qual a difereça nessas frases/
Nenhuma. São dois idiotas brigando — e outro querendo entender qual a diferença entre os dois.

rafael galvão o puto
Injustiça sua. Não cobrei nada de sua mãe.

quem É rafael galvao
É um sujeito lindo, inteligente e que infelizmente não é para o seu bico.

brincadeirinhas p/ orkut o que acha de mim
Tem gente que gosta de brincar com fogo. Eu jamais faria uma brincadeira dessas — porque as respostas certamente me deixariam muito triste e bastante horrorizado.

camisinha perdida dentro da vagina
A moça era espaçosa, hein?

o que é constituida a vitamina c
De ácido ascórbico. Agora volte para o Google para perguntar que diabos é ácido ascórbico.

video de sexo total com senhoras com de 60 anos
Total, talvez, mas com interrupções: a velhinha pára para recolocar a dentadura no lugar, uma posição mais arrojada desloca a sua coluna, ela tira a dentadura para pagar um boquete… Totalmente demais.

termos franceses que utilizamos
“Voulez-vous coucher avec moi, ce soir”, e fudelevu.

como achar uma pessoa no hospital souza aguiar?
Melhor economizar tempo e procurar logo no necrotério.

o estranho caso de benjamim bolt
É um filme que conta a história de um sujeito que certo dia acorda transformado em cachorro. Passou em branco e no Brasil foi lançado diretamente em DVD. Ninguém levou a sério porque julgaram que não era mais que um plágio do livro de um tal de Kafka.

e ai é bom ou não ser corno?
Ué? Seu pai não lhe contou?

irmão prever sua morte em acidente da tam
Morte mais que merecida, não é? Porque se ele previu a própria morte, embarcou porque quis.

posiçoes sexuais periquito maracana
Você venceu. Eu não consigo arranjar um comentário à altura.

em que canal é colocado o penes quando fazemos sexo?
Esse moço veio da antiga União Soviética. Ainda não se acostumou à variedade de oferta desse nosso mundão capitalista sem porteira.

acusar alguém falsamente de ter feito sexo oral
Chico Anysio já dizia que água e boquete não se negam a ninguém. Portanto, se a acusação foi falsa, indica acima de tudo uma profunda mesquinhez da acusada.

putas da alta sociedade de alagoinhas
Minha surpresa não está em saber que há putas em Alagoinhas, que putas há em qualquer lugar. Minha surpresa foi saber que existe alta sociedade em Alagoinhas.

israel discrimina palestinos
Nada disso. Não seja injusto com Israel. Ele bombardeia a todos sem discriminação de sexo ou idade.

o que fazer quando um libriano te esnoba?
Dê para um sagitariano, um escorpiano, um taurino, um pisciano, um aquariano, um capricorniano, um canceriano, um virginiano, um ariano, um geminiano, um leonino — e depois dê para outro libriano, só de sacanagem.

rafa foi muito bom te conhecer
Duvido.

namorado rafael que te faz feliz
Obrigado pelo elogio, mas talvez isso não seja toda a verdade. Te faz feliz, sim, mais do que você pode imaginar, mas talvez cobre um preço alto demais.

agencia de modelos mirins em goiania o que fazer
Eu só gostaria de lembrar que prostituição infantil é crime e dá cadeia.

sou de maior 38 anos e quero ver filmes porno com animais…to cansada dos mesmos
É tão triste. 38 anos, uma vida inteira dedicada aos pintos pequenos, e de repente uma ânsia estranha por algo diferente. Antes tarde do que nunca.

morreu o amor
Deu no Notícias Populares. Não foi na manchete de primeira página. A notícia estava escondida em uma coluna interna de uma página par. Morreu o amor depois de uma longa agonia. Morreu calado, cansado de procurar ao lado na cama um amor que já não estava lá. Antes morreu a paixão, uma morte violenta e triste — paixões morrem com escândalo, morrem com noventa facadas e gritos de ódio e desespero. Mas o amor morreu aos poucos; foi a vítima de pequenos ferimentos imperceptíveis infligidos a cada novo dia, de pequenas maldades e descaminhos. Amores não morrem como paixões, e por isso suas mortes são sempre uma lenta agonia, tão lenta que só é percebida em quando ele já está em estado terminal. Amores morrem aos pouquinhos, a cada pequeno golpe que a vida lhes inflinge. E ao morrerem, deixam em seu lugar um vazio que amantes jamais poderiam imaginar.

Personalidade

Ainda não me acostumei a ser personalidade.

Acho que porque esse negócio ainda é novo para mim. Eu não era personalidade até algumas semanas atrás, quando o Pedro Dória colocou este blog na página de Personalidade do seu novo site, As Últimas. Fiquei honrado e envaidecido pela inclusão. Muito, mesmo. O Pedro não imagina o sorriso de orgulho que tomou conta da meu rosto quando vi o nome Rafael Galvão ali. Valeu, Pedro. Estou orgulhoso até agora.

O que me atrapalha é que, até agora, eu não era personalidade nem aqui em Aracaju, cidadezinha litorânea e agradável com cerca de 520 mil habitantes à qual dou minha modesta contribuição evitando sujar muito as ruas. Ninguém me conhece. Ninguém sabe quem sou — eventualmente, se encontro algum amigo no shopping e ele está acompanhado, pode ser que essa sua companhia lhe diga, depois de nos despedirmos: “Ah, eu acho que já vi esse gordinho em algum lugar”. Mas ele dirá porque a cidade é pequena e, como diz uma colunista social badalada nestas bandas, “em Aju tudo se sabe”, e não saberá exatamente quem sou eu.

Por isso é estranho ver meu nome como personalidade. Principalmente, é estranho ver meu nome perto de uma porção de gente boa. Estou tão mais acostumado a ofensas leves, como as que me são dirigidas eventualmente neste blog, que fico com o pé atrás. Pensei em mandar um e-mail para o Pedro perguntando que sacanagem era essa, por que a pegadinha, mas achei melhor ficar quieto — porque vai que foi só um engano e ele tira meu nome dali, e aí, como é que fico? Eu não quero ser como aquele pessoal do Big Brother que vira personalidade por três dias e depois some no mundo sem avisar.

Mas mesmo assim, mesmo com esse estranhamento, decidi que eu tinha mais era que aproveitar esse negócio de ser personalidade.

Quando vi o meu nome ali fui para casa e disse à minha mulher: “Mulher, me trate melhor que agora eu sou uma personalidade”. Ela não me bateu, porque é uma senhora elegante, mas deu uma risadinha e voltou para o Dostoiévski que estava lendo; e então pensei em imitar Raskhólnikov dando um chocolate nas velhinhas usurárias, e me consolei, superior como toda boa personalidade, pensando que ela não sabia do que tinha escapado — porque eu era uma personalidade. E uma personalidade prudente, também: esse povo de Itabaiana, quando não está roubando caminhão, está matando gente.

A essa altura me restava a minha mãe. Ela sempre disse que sou bonito e inteligente, sempre acreditou em mim quando todos duvidavam, ainda que demonstrasse essa fé de maneiras pouco ortodoxas e levemente traumatizantes. Ela repetiu tantas vezes esse negócio de eu ser bonito e inteligente, que eu tinha potencial, que não devia me deixar influenciar pelo que diziam e que toda unanimidade é burra, que acabei acreditando. Imaginei como ela ficaria feliz quando eu lhe dissesse que aqueles anos gritando para que eu tomasse vergonha na cara e fosse trabalhar valeram a pena, que agora eu era uma personalidade. Coloquei o meu Contouré e, bem cheiroso, fui até a casa dela para dizer que aqueles anos tinham valido a pena, mais ou menos como Huckleberry Finn imaginando o orgulho da viúva ao saber que ele se tinha tornado um salteador.

Mas ela está velha, coitada. Acho até que está começando a caducar. “Mãe, eu sou uma personalidade”. E a velhinha começou a gargalhar, e tive medo que ela tivesse um troço qualquer, uma crise de apoplexia, e como sou um bom filho quando não estou batendo nela resolvi que era melhor ir embora. Depois ela me ligou, preocupada: “Meu filho, você deu pra fumar maconha depois de velho? Já não basta a cachaça, Rafael? Onde foi que eu errei?”

Aí falei com minha filha. Pelo menos alguém receberia a notícia da minha novel personalidade com alegria e reconhecimento, e amanhã na escola ela diria “Sabe o meu pai? Ele é uma personalidade”, e as amiguinhas morreriam de inveja e certamente uma delas diria: “É? Pois o meu pai é mais personalidade que o seu!”. Mas as coisas não correram bem assim; ela ouviu, puxou o cabelo para o lado, baixou a cabeça e falou: “Papaaaaaaaaaai, paaaara.” Ela ainda não sabe, mas com essas palavras perdeu a viagem à Disney. Na verdade tinha perdido há muitos anos, que eu não tenho dinheiro para isso, mas pelo menos agora vou ter uma boa desculpa para dar, e vou me mostrar magoado pelo seu desprezo de filha ingrata, e quando ela me colocar no asilo vou fazer questão de lhe lembrar isso nas visitas semestrais. Porque uma das verdades da vida é essa: não basta ser pai, tem que traumatizar.

De qualquer forma, nada disso importa mais. Não são essas opiniões de gente que não entende das coisas boas da vida que vão baixar meu moral. Elas não são personalidades e eu sou, é essa a diferença. Não vou ligar. Tudo isso me ensinou a ser persistente e a não me importar com essas pessoas que se recusam a entender que, afinal, eu sou uma personalidade.

De vez em quando eu ria no trânsito, quando na minha frente estava um táxi com uma inscrição dizendo: “Não tenha inveja de mim: trabalhe”, porque acho engraçada a idéia de ter inveja de um taxista. Mas agora entendo o que eles querem dizer. A sabedoria do taxista — uma variante daquela que o faz estacionar em fila dupla repentinamente — quer dizer que a gente deve ser feliz pelo que é, e não ligar para o que os outros dizem, e lembrar sempre que, mesmo anos depois que este blog tiver acabado e ninguém mais se lembrar de mim, vou poder dizer que um dia eu fui uma personalidade.