Get Back, again

Então você acorda e dá de cara com esse novo clip dos Beatles.

Ele apenas parece a sequência original do filme Let it Be. Mas é a versão do Let it Be… Naked, que mistura os dois takes gravados no concerto do telhado. Embora eu prefira a versão original do filme, com Lennon naturalmente esquecendo a letra, este vídeo é fantástico — a dancinha de McCartney, por exemplo, é imperdível. Acima de tudo, tem um número enorme de cenas inéditas. E a qualidade da imagem é insuperável.

Mais que isso, ele faz pensar.

Descontando o disco Live at the Hollywood Bowl, que os Beatles tiraram de catálogo, o filme Let it Be é o último grande relançamento restante para a banda. Todos os outros já foram lançados em DVD ou BluRay; seus discos foram remasterizados; novas gravações vieram à luz do dia nos últimos 21 anos. Por isso, durante muito tempo acreditei que deveriam relançar o filme no formato 4:3 como foi gravado, acompanhado de um disco com extras, cenas que ficaram de fora, etc.

Eu estava errado. Ou melhor, não percebia que algo muito melhor era possível.

O fato é que Let it Be é horroroso. No fim das contas, em nenhum momento o diretor Michael Lindsay-Hogg consegue construir uma narrativa coerente: o que temos é basicamente um amontoado de cenas, praticamente sem nexo narrativo, seguindo de maneira frouxa e inconsequente uma certa ordem cronológica. É quase como se ele tivesse abdicado do papel de diretor.

Não foi culpa exclusiva dele. O clima caótico entre os Beatles não colaborava; e para piorar, a banda praticamente abandonou o projeto. Mesmo McCartney, que se envolveu um pouco mais, esteve distante. O primeiro copião tinha uma hora a mais e continha um bocado das discussões internas entre eles (você pode encontrar muitas delas aqui, um dos sites mais pungentes sobre a banda). Mais tarde tudo foi reeditado para tirar a lavagem de roupa suja. Como se não fosse o bastante, o filme, que tinha sido filmado em 16mm para a TV, foi expandido para 35mm e teve que ser cortado para se adaptar ao formato final, 1.66:1. Não deve ter sido fácil. Mesmo assim, diante de tanto material, pode-se especular que um diretor um pouco mais experiente, por medíocre que fosse, poderia ter feito um trabalho minimamente coerente.

Esse clip de Don’t Let Me Down me mostrou o óbvio: em vez de perder tempo tentando a salvatagem dessa tragédia, há material suficiente para que se faça um novo filme. Um que estabeleça melhor as três fases da história e conecte-as de forma mais orgânica: ensaios no estúdio Twickenham, gravações no estúdio da Apple, show no telhado. Bem dirigida, essa progressão poderia mostrar a evolução do clima entre eles (que odiaram gravar em Twickenham, gelado em todos os sentidos, e uma das condições estabelecidas por Harrison para voltar à banda foi a mudança para os estúdios da Apple; junto com a chegada de Billy Preston, isso contribuiu para que o astral geral melhorasse, levando à apoteose de entrosamento e bom humor que se vê no telhado).

Os lançamentos da Apple Corps. nas últimas décadas são um indício forte de que há muito material de qualidade nas suas estantes. O farto material disponível em bootlegs é a prova definitiva. O novo filme poderia incluir as tantas e tantas gravações de clássicos do rock, de velhas canções (esse take de Love Me Do, que eu utilizaria para fechar o filme, é ótimo).

Eu chamaria esse filme de Get Back. E pediria a Martin Scorsese que o dirigisse. Tenho a impressão de que Scorsese faria até de graça.

Mas é improvável que esse material seja lançado algum dia, ou pelo menos enquanto os Beatles restantes estiverem vivos. O filme original já foi restaurado há mais de 20 anos, e mesmo assim jamais foi lançado. Dificilmente será, enquanto McCartney, Starr e Ono estiverem vivos. Para os sobreviventes desse naufrágio, 45 anos depois Let it Be ainda é incômodo, talvez dolorido.

É uma pena. A trajetória dos Beatles já entrou para o domínio público da cultura pop. Uma nova versão do seu último ato apenas acrescentaria grandeza a uma história mítica, e encerraria uma saga que, quase meio século depois, ainda continua. Paul, Ringo e Yoko apenas deviam deixar estar.

De como Heather McCartney destruiu os Beatles em apenas 9 minutos

E você aí falando besteira, dizendo que foi Yoko Ono quem acabou os Beatles.

Mentira, mentira canalha. Quem acabou a banda foi Heather McCartney, no dia em que algum insano deu um microfone para ela durante as gravações do Let it Be.

Um bebê que se comportasse assim daria à sua mãe motivo real para infanticídio com requintes de crueldade, e ela seria absolvida por qualquer juiz do mundo, absolvida até pelo Papa Francisco. Ainda hoje não sei como George Harrison não se levantou e bateu em Heather com o seu guitarra até que restasse apenas uma papa ensanguentada no chão, enquanto ele gritava palavras incompreensíveis em chinês, babando com olhos vítreos.

Enquanto isso Lennon, que queria ver o circo pegar fogo, encorajava Heather: “Come on, Heather! Come on, Heather!” Ou talvez ele estivesse apenas chapado, ou então tenha visto na menina uma digna seguidora de Yoko. “Essa menina vai longe…”

Eu não sei. Mas tenho certeza de que foi ali, nesse dia, que os Beatles acabaram. E então a pobre Yoko, vítima de uma campanha canalha ,levou a pecha que deveria recair sobre aquela menina lourinha de 6 anos.

Armandinho, ou onde o humor vai para morrer

Tá, eu confesso: acho a tira do Armandinho, que tem feito certo sucesso recentemente, tão chata que de vez em quando me pego pensando que ela sintetiza tudo o que há de errado em uma certa maneira de ver o mundo atualmente, mesmo sabendo que essa ideia é talvez ambiciosa demais para quadrinho tão medíocre.

Armandinho tenta fazer passar por humor o que o mundo tem de pretensos bons sentimentos.

É uma espécie de sub-Mafalda, e essa parece ser sua inspiração óbvia, quase plagiária. Mas entre eles há um abismo de diferença não apenas de profundidade — é genuinamente assombrosa a capacidade do Armandinho de destilar platitude atrás de platitude —, mas de tempo e coragem: é fácil fazer Armandinho hoje, difícil era empurrar uma Mafalda nos tempos que precederam a ditadura militar argentina.

Mas não se trata apenas dos tempos. É a própria natureza da besta: comparado com a criação de Quino, Armandinho é raso e sacarino como um pires de água com açúcar. Enquanto Mafalda fazia perguntas, Armandinho apenas nos oferece respostas que parecem tiradas do “Minuto de Sabedoria”. Pior, diz isso sem sutileza alguma.

Não há inteligência em Armandinho. Há apenas o óbvio. Talvez seja isso o que irrita nele, a maneira quase redundante como diz as coisas, medíocre porque é a mediocridade que atinge o maior público. Como disse alguém, o Armandinho parece uma aula de Educação Moral e Cívica, aberração educacional que a redemocratização felizmente enterrou.

Basta perceber isso para lembrar também que não há uma gota sequer de coragem em Armandinho. É muito fácil fazer humor a favor, afetando uma superioridade moral imaginária sobre os demasiado humanos. Ninguém em sã consciência consegue ir de encontro ao que Armandinho diz: ninguém é, ao menos filosoficamente e em discurso, contra o amor, contra a tolerância, contra o respeito, contra a bondade.

Quando Edvaldo Nogueira, então presidente do PCdoB em Sergipe, me chamou oficialmente para entrar no partido num dia qualquer dos meus verdes e longínquos anos, o partido estava saindo da ilegalidade. Era muito diferente do que é hoje. Ainda eram muito presentes a cultura da clandestinidade, o respeito (ao menos teórico, no meu caso) aos mandamentos draconianos de Diógenes Arruda em “A Educação Revolucionária do Comunista”. Enquanto isso, ao meu redor, poucos, pouquíssimos eram socialistas, muito menos comunistas. Eu era o radical, na contramão.

Mesma época, eu era um beatlemaníaco fanático em uma cidade pequena com pouco acesso a informação e num tempo em que os Beatles estavam fora de moda. Se hoje você ouve uma banda pela primeira vez e duas horas depois já tem toda a discografia dela, eu demorei mais de dois anos para conseguir ouvir tudo o que os Beatles tinham lançado oficialmente, ainda que praticamente só pensasse nisso. Ao meu redor, ninguém ouvia os Fab Four. Eu era o velho, na contramão.

Se as duas coisas não parecem ter a ver uma com a outra, e menos ainda com Armandinho, elas têm. Me acostumei a achar que não existem “ideias certas” como as que o Armandinho defende. Que é necessário sempre o contraditório, que verdades não são absolutas (diacho, nem a Albânia era absoluta). E criei a convicção de que é muito fácil seguir adiante com as ideias da maioria. Não deveria ser essa a função do humor, se é que humor tem alguma função. Humor tem que provocar, mostrar o outro lado, expor o ridículo da vida e das coisas, principalmente do que é aceito como verdade sedimentada. Humor de qualidade instiga a pensar, lança uma luz nova sobre o mundo, não se esgota em um sorriso de auto-satisfação bovina. No mínimo, humor faz rir.

Armandinho não faz nada disso. Anestesia, no máximo. Está para o humor como a literatura de autoajuda está para Dostoiévski. Apenas nos reconforta com a sensação de que, nos nossos melhores momentos, somos boas pessoas porque tentamos nos reconhecer nele. Nos faz esquecer que no resto do tempo somos mesquinhos, vis, egoístas. E por isso ele não provoca, não faz pensar, não arranca sequer um sorriso de canto de boca. Uma tira engraçadinha que nos faz sentir melhor por sermos quem somos: o humor não podia pedir atestado de óbito mais claro. E triste.

Sem cenas do próximo capítulo

A essa altura, não tenho dúvidas de que a Rede Globo está morrendo. É uma agonia lenta, mas constante.

Em outro mundo, suas novelas chegavam a gerar quase 100% de audiência em seus últimos capítulos. O Jornal Nacional era a baliza da opinião brasileira. Hoje, a Globo briga com telespectadores que, se ainda expressivos, diminuem a cada ano; seu jornalismo é provavelmente menos respeitado que a vizinha fofoqueira do 701; e, pior, ela parece não saber para onde ir.

Olhando em retrospectiva, o início dessa decadência pode ter como marco inicial um momento qualquer em 1997, quando os sucessores de Roberto Marinho decidiram afastar o homem forte da TV por 20 anos, Boni, para consolidar o seu poder dentro da emissora. Defenestraram um homem de criação, responsável com Walter Clark pela consolidação da TV como a maior do país nos anos 70, e colocaram uma administradora. Foi um equívoco, e talvez se arrependam disso até hoje.

Mesmo que essa não seja a razão, o fato é que a Globo não soube lidar com um mundo em que novas tecnologias corroeram as bases sobre as quais o seu modelo de negócios se estruturou. Não foram apenas erros no processo de popularização de sua programação para se adequar a esses novos tempos. O problema é o seu apego a um modelo que o tempo superou.

É incrível, mas a Globo se sustenta sobre uma estrutura de grade criada há quase 50 anos. Programas infantis e femininos pela manhã, jornais e esporte ao meio dia, novela e filme à tarde. É um modelo criado para um país que já não existe, em que homens trabalhavam, mulheres cuidavam da casa e as crianças não tinham o que fazer à tarde, e à noite todos viam TV juntos enquanto jantavam e esperavam a hora de ir dormir.

É nesse horário, a faixa nobre, que o problema é mais grave. A grade é velha conhecida nossa: novela leve que crianças podem ver, jornal local, novela engraçada que todos podem ver, Jornal Nacional para estabelecer a pauta do país, novela para adultos; é aqui que a Globo ganha de verdade o leitinho das crianças.

A novela das oito é tão brasileira quanto o brigadeiro e a jabuticaba. Já foi referencial de tempo e condicionante social. Mas o século XXI não tem sido generoso com ela: ano após ano, sua audiência vem caindo. É um processo irreversível, e tem se acelerado em progressão geométrica nos últimos cinco anos. E a culpa não é apenas da qualidade cada vez mais baixa de suas tramas.

Quanto a esse aspecto, talvez secundário, a consolidação da TV por assinatura e a enchente de produções gringas disponíveis serviram para colocar algumas coisas em perspectiva. A revolução pela qual passou a TV americana nos últimos 20 anos, e que a faz gerar produtos de qualidade inquestionável como The Sopranos, Mad Men, Breaking Bad, Game of Thrones e muitos outros, põe em questão o tão decantado Padrão Globo de Qualidade.

Esse foi um dos mitos que sustentaram a hegemonia absoluta da Globo a partir do fim da TV Tupi, e dentro daquele ambiente insular era verdadeiro. É como aquela mulher que, em Marajá do Sena, achamos a mais linda do mundo, mas cuja beleza desaparece quando finalmente a TV chega e a gente vê que o mundo é um pouco variado. Hoje basta comparar as novelas da Globo com os seriados americanos para ver o abismo de qualidade que existe entre eles.

Claro que a insistência da Globo em suas novelas não é vaidade, nem apego de decadente quatrocentão a vestígios da glória passada. Elas são um produto incomparável. Uma novela custa em torno de 100 milhões de reais, mas tem potencial para faturar mais de 3 bilhões. Nem o tráfico de drogas é tão lucrativo.

Há apenas um detalhe: para dar esse lucro elas precisam dar audiência. Por enquanto, mesmo atraindo percentualmente muito menos telespectadores, elas ainda são uma aposta garantida para os anunciantes. O problema é que isso vai acabar mais cedo do que mesmo seus maiores críticos imaginavam. Hoje Malhação, num horário ingrato, gera quase tanta audiência quanto a novela das oito.

Para se adequar a um mundo novo, a Globo precisa primeiro entender que os tempos áureos passaram. É cada vez mais difícil conseguir o retorno financeiro que as novelas sempre deram. Por isso talvez seja a hora de repensar todo o horário nobre.

Seria preciso reimaginar o formato do jornalismo, adequar a um mundo em que a internet sempre chega primeiro. É preciso redefinir o que se diz, como se diz e quando se diz. Futebol é sempre uma aposta, e não custaria jogar o seu peso para pressionar a CBF para a definição de um calendário que lhe garantisse audiência regular. Shows também — por exemplo, um programa da Xuxa no estilo da Hebe nas noites de segunda-feira certamente garantiria mais audiência que a expectativa por um eventual beijo gay. Seria recomendável também tentar contemplar ao menos parte da diversidade cultural brasileira. E abrir um pouco mais de espaço à produção local, desde que com qualidade real.

Mas o mais importante seria repensar a sua dramaturgia.

Eu extinguiria a novela das 8 (ou das 9, como é chamada agora). As telenovelas fizeram muito sentido quando as pessoas só tinham uns poucos canais de TV como lazer doméstico, e a Globo não enfrentava concorrência real. A consolidação da TV por assinatura, o crescimento das outras redes e principalmente a chegada da internet tornaram o produto ultrapassado.

Seu modelo, com 150, 180 capítulos, funcionou graças à familiaridade do brasileiro com radionovelas e folhetins em revistas como a Cruzeiro, e ao fato de que a baixa oferta de entretenimento doméstico — fora as brigas dos vizinhos e a vida sexual da moça da casa em frente — oferecia as condições necessárias para que as pessoas acompanhassem seis, oito meses de uma série de tramas interligadas.

Isso cobrou um preço à qualidade, agora evidente. Tramas que duram 150 capítulos poderiam ser resolvidas em 20. Uma novela é uma coisa arrastada demais, com personagens demais, prolixa demais. Hoje é um mau produto.

Em vez de novelas, apostaria em um formato mais moderno: seriados e minisséries. Apenas como exemplo, poderia reviver seriados antigos que, modernizados, poderiam ter apelo popular: “Plantão de Polícia”, “Obrigado, Doutor”, até mesmo um novo “Carga Pesada”. Poderiam representar o tom certo de popularização, sem se tornar popularesco, algo que a Globo ainda não conseguiu.

Por mais que odeie a Globo — e não assista a ela há muitos, muitos anos, — ela faz parte da história do país. Tem um pedacinho lá no fundo que fica triste ao ver um referencial de vida ir desaparecendo assim, aos pouquinhos.

João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro era proibido de entrar lá em casa.

Não seus livros, que esses sempre tiveram trânsito livre; até livros ruins podiam entrar lá, e entravam de vez em quando, um livro do João Ubaldo seria recebido com festas, até. Proibido de entrar era ele, mesmo.

João Ubaldo era uma dessas coincidências curiosas que nos cercam de vez em quando: alguém que tinha algum tipo de ligação com dois ramos completamente independentes da família.

Não é todo mundo que sabe, mas ele morou um bom tempo em Aracaju. Morou ali, na rua Cedro, entre a Campo do Brito e a praça Tobias Barreto.

Minha avó era madrinha de seu irmão, Manoel. Os Galvão gostavam muito deles, e a recíproca era verdadeira.

Seu Manoel Ribeiro, seu pai, era ligado ao PSD. Acabou tendo que sair às pressas de Sergipe aso ser ameaçado de morte por membros da UDN — e minha avó até o fim da vida nominava os “canalhas” que fizeram isso. Seu Manoel morreu de forma boba anos depois, escorregando e batendo a cabeça num meio-fio; mas nunca mais voltaria a Sergipe. Acho que boa parte da  raiva de minha avó em relação a tudo o que cheirasse a UDN vinha daí.

Anos mais tarde João Ubaldo conheceu meu pai no Jornal da Bahia. Depois, quando soube que ele era casado com a neta de dona Sinhá, que ele tinha conhecido na adolescência, passou a lhe dizer que tinha trocado as fraldas de minha mãe.

Dizia isso numa mesa de bar, porque nelas ele era rei. Era dessas pessoas que, nessas mesas — e há outro lugar no mundo? —, monopolizava as atenções, é o que me dizem. Quando começava a falar, com seu vozeirão e uma inteligência rara, todos paravam para escutar. (Enquanto escrevo isso lembro de outro sujeito que também era assim e que se foi recentemente: seu nome era Marcelo Déda.)

Mas João Ubaldo não era meu escritor preferido. É óbvio que é difícil não reconhecer a genialidade de um livro como “Viva o Povo Brasileiro”, e o “Diário do Farol” ajuda a fazer dele talvez o mais legítimo sucessor — sem ser imitador — de Jorge Amado, mas minhas preferências andaram por outros becos. Olhando para trás, vejo que li tão pouca coisa dele. Acho que o que mais gosto de João Ubaldo é uma carta aberta que ele destinou a Fernando Henrique Cardoso, então recém-reeleito à presidência da República. Merece o meu respeito e veneração qualquer pessoa que escreva a um presidente em seu momento mais glorioso e lhe diga isso:

Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico.

Só por isso, por essa desfaçatez, por esse esnobismo, João Ubaldo Ribeiro é também meu herói. Mas não foi por isso que ele inspirou um dos melhores personagens de Henfil — Ubaldo, o Neurótico. Na verdade, foi pela mesma razão pela qual o meu pai o proibiu de entrar lá em casa:

“Você foi passar um fim de semana na casa de Henfil e quando foi embora levou junto a Berê. Pois na minha casa você não coloca os pés.”

E só por isso, tanto quanto seus livros, tanto quando as crônicas, João Ubaldo Ribeiro vai fazer muita falta.

Yoko Ono and her Beatles

No dia 10 de janeiro de 1969, diante das câmeras que filmavam o que viria ser o filme Let it Be, Paul McCartney e George Harrison discutiram. George, cansado de ser guiado por Paul em I’ve Got a Feeling, mas apenas deixando transbordar anos de ressentimento, disse que tocaria como Paul quisesse, ou simplesmente não tocaria, era só McCartney dizer.

A discussão continuou no horário de almoço, na cantina do estúdio, e se agravou ainda mais. Finalmente George empacotou sua guitarra. “Vejo vocês nas boates”, disse ele, e foi embora decidido a nunca mais voltar.

Sozinhos, os Beatles restantes iniciaram a tarde com uma jam session. Era apenas barulho, os três maltratando seus instrumentos e descontando neles a frustração que vinha se acumulando desde as gravações do Álbum Branco, e que agora chegava ao ápice com o aparente fim da banda como ela era. Curiosamente era talvez a coisa mais heavy que os Beatles já tinham feito.

E então Yoko Ono se sentou no lugar de George e pegou seu microfone, certamente atenta a tudo o que isso simbolizava. O que se seguiu foram alguns minutos de loucura sonora. Enquanto Yoko grita histericamente, realizando o seu conceito de arte e de música tendo como banda de apoio nada menos que o maior grupo do mundo, Ringo bate alucinadamente em sua bateria, John tenta manter uma base mínima, McCartney arranca o máximo de microfonia possível do seu Hofner. Yoko é a única que sorri no que para os outros é apenas uma catarse, feliz por ter uma chance secretamente acalentada e sempre negada.

Mais tarde, já sem McCartney, a jam degringola ainda mais, restrita a um Lennon aparentemente chapado de heroína brincando de fazer microfonia e Ringo Starr tocando uma bateria deslocada no tempo e no espaço.

Senhoras e senhores, eis um momento antológico dos Beatles, e o que é talvez seu ponto mais baixo.

Antes de tudo

Quando vi “Antes do Amanhecer” pela primeira vez, ele não me disse muito. Um filme dos anos 90 (visto no início dos anos 2000), uma história de amor entre jovens bonitos, um final convenientemente aberto que é construído pelas experiências de cada espectador. Talvez aqueles dias não fossem os melhores para assisti-lo, não sei; o fato é que o filme me pareceu outro road movie romântico pós-adolescente como tantos outros — “Garota Sinal Verde” com mais estofo, quem sabe?

Assisti à sua sequência, “Antes do Entardecer”, alguns anos depois. Fora a beleza ensolarada de Paris, que sempre vejo como quem olha foto da amada distante, o que vi a princípio me pareceu apenas uma sequência feita para aproveitar a posição cult do filme original e resolver o que tinha sido deixado em aberto. O filme passou batido, como uns tantos mais em 2004.

Confessar isso agora talvez seja a pior confissão que se pode fazer, a confissão inequívoca de incompetência e insensibilidade absolutas, a confissão de que não, você não sabe nada, não consegue ver nada, ver de verdade. Ou talvez filmes assim precisem ser vistos em épocas específicas de sua vida, porque nas outras você é apenas o mesmo velho cínico de sempre. Não sei. Sei apenas que mais uma vez gostei do filme como gostaria de alguns outros por aí. Bons filmes; mas apenas bons.

No final do ano passado, com o lançamento do terceiro filme dessa trilogia, “Antes da Meia-Noite”, resolvi rever antes os dois primeiros filmes, já esquecidos.

Não sei se é triste, ou um alento, perceber finalmente que estive diante de uma obra prima, do que é provavelmente a mais consistente trilogia de todos os tempos, e do que certamente é a série cinematográfica mais significativa da minha época.

Before Sunrise: VienaAntes do Amanhecer”é uma daquelas pequenas joias que o cinema apresenta ao mundo de vez em quando. Um daqueles filmes de simplicidade estonteante e enganadora, que escondem uma qualidade rara: a de conseguir encapsular em celuloide a experiência e os anseios de uma época. Nesse sentido, ele talvez seja o “grande romance americano” dos anos 90. Em sua delicadeza, em sua leveza ao tratar do momento exato do nascimento do amor, “Antes do Amanhecer” é daquelas obras que conseguem dissecar com lirismo e poesia a emoção de ser muito jovem e estar vivo.

“Antes do Amanhecer” fala ao espectador de uma forma que poucos outros filmes românticos podem falar. O final em aberto pode dizer muito sobre quem você é: um romântico, se acha que seis meses depois eles se reencontraram na estação de trem em Viena; ou um cínico, se acredita que em 60 dias Jesse e Celine se tornaram lembranças agradáveis em uma vida agitada e ocupada por novos amores, fugazes ou não. Mas não é isso que faz o filme. É a capacidade de, num cenário improvável, capturar em algumas horas de caminhada a essência de estar vivo e de ser jovem em 1994. É nos diálogos entre Jesse e Celine que uma geração inteira pode se encontrar no que tem de mais precioso: seus sonhos, seus anseios. E, principalmente, é na maneira como compartilham tudo isso que o filme atinge o status de crônica de seu tempo.

Fico pensando que, se tivesse visto esse filme em 1985, talvez ele fosse o meu guia para o resto da vida; talvez fizesse dele o modelo pelo qual mediria todos os relacionamentos futuros, e as moças que eu viesse a querer tivessem que ser como a Julie Delpy, moças de beleza simples mas inequívoca lendo um livro mais highbrow que o meu, talvez neuróticas e complexas demais; e talvez bundas e peitos e pelos e remelexos fossem menos importantes do que foram. (Não, isso é demais, a quem eu quero enganar, e pensando direitinho que bom que a vida me deu meu justo quinhão, que ela sabe o que dar e a quem dar.)

Já em “Amanhecer” fica claro de qual geração estamos falando: os filhos dos anos 60, uma geração que, nas palavras de Celine, já não se sentia no direito de reclamar de um mundo condescendente e de fartura, e sente o vazio resultante disso. Por essa razão, além da sua própria história de amor, do encontro entre Jesse e Celine, esse é também um filme que tenta definir a tal geração Y. E é o início de uma série sobre o que nos define como seres humanos, seres sociais: relacionamentos. “Você conhece alguém que esteja em um relacionamento feliz?”, pergunta Celine no primeiro filme. Esse é o Graal procurado pela série: a felicidade específica que só se pode alcançar com outra pessoa. E assim “Amanhecer” delineia as perguntas que os filmes seguintes tentarão responder.

Antes do Entardecer“, realizado 9 anos depois, pode ser visto apenas como o elo necessário e fundamental para a resolução do primeiro filme, e foi assim que o vi por anos. Mas ele é mais que isso, muito mais. São os personagens de Delpy e Hawke, 9 anos mais velhos, com as cicatrizes que a vida lhes deu — a ele um filho querido e um casamento sem amor, a ela uma sucessão indistinta de relacionamentos insuficientes —, que conseguem retratar com fidelidade assustadora os dilemas e, novamente, os anseios dessa geração, agora mais velha, agora na casa dos 30, com pelo menos 10 anos de consciência de que as desculpas morreram de cansaço, anos em que a realidade se instalou com rudeza e sem-cerimônia na vida de cada um, colocando suas personas de 9 anos atrás em perspectiva nem sempre galante.

“Antes do Entardecer” é o filme que dá significado e grandeza à série, e desse ponto de vista é talvez o mais importante dos três. Ele coloca as coisas em outro patamar. É o filme que explica o que estávamos vendo e descortina diante de nós um panorama talvez inimaginado.

Aos 23 anos, em “Amanhecer”, Celine e Jesse ainda são meninos ingênuos, que acreditam num paradoxo interessante, mas que nunca mais se repetirá. Naquele momento eles acreditam que o amor será forte o bastante para fazê-los reencontrar-se seis meses depois; mas se não for, tudo bem: eles têm todo o tempo do mundo pela frente, e a vida é boa e embora eles até admitam que ela não será sempre como naquela noite de verão em Viena, têm a certeza de que jamais será um inverno sombrio e sem fim.

Mas agora, já na casa dos 30, eles compreendem melhor isso a que chamam vida. Agora sabem o que perderam quando não se reencontraram em Viena. E por isso, por essa consciência, seus personagens conseguem alcançar uma universalidade rara no cinema. Eles conseguem dar voz real — sem afetações e sem simplismos — a toda uma geração. O que parecia ser uma sequência é mais que isso: é o reinício de algo muito maior.

Uma fala de Julie Delpy, num passeio de bateau mouche, talvez resuma a razão de ser dessa sequência e de toda a trilogia, e acaba fazendo do segundo filme muito mais do que um simples elo de ligação: “Acho que, quando você é jovem, simplesmente acredita que vai encontrar muitas pessoas com as quais se conectará; e mais tarde na vida você percebe que isso só acontece umas poucas vezes.” Essa é a razão de ser desses filmes; e o mais importante, essa é a percepção a que as pessoas chegam aí pelos 30 e poucos anos.

As conclusões a que “Antes do Entardecer” chega — especificamente essa conclusão a que Celine chegou — seriam impossíveis em “Antes do Amanhecer”. Ao mesmo tempo, é ela que explica a grandeza do primeiro. Porque essa é a verdade que jaz subjacente ali. Foi essa conexão, que agora Celine descobre tão rara, que vimos no primeiro filme; foi ela que fez dele uma pequena obra-prima; foi por causa dela que nos apaixonamos pela fita e por aqueles personagens.

É “Antes da Meia-Noite”, no entanto, que oferece as maiores surpresas, e que reafirma a trilogia como uma das grandes da história.

Trilogias parecem ter se tornado o eixo do cinema americano. Qualquer pretenso blockbuster é feito tendo em vista a possibilidade de, no mínimo, uma sequência. Terceiros filmes no entanto costumam ser uma decepção. Apenas citando alguns exemplos recentes, “Homem Aranha 3” e The Dark Knight Rises destruíram séries bem sucedidas.

Mas talvez por ter sido concebida de maneira extremamente orgânica, talvez por ser o resultado de uma evolução natural e não o produto de uma reunião de diretoria, talvez porque seus idealizadores ambicionaram fazer mais do que um mero filme, talvez porque tem em si qualidades que se veem mais facilmente na literatura, esta trilogia muda esse padrão.

Até agora, o que vínhamos vendo era um bom filme e uma sequência que o explica e o engrandece. “Antes da Meia-Noite”, no entanto, muda o jogo. Até agora, o amor se comportava dentro das regras do cinema tradicional. “Antes da Meia Noite” subverte tudo isso e mostra uma faceta menos bela: o amor como parte da experiência humana muito mais rica e complexa do que se costuma ver no cinema (e, para todos os efeitos, nas redes sociais). Mesquinho, pequeno, rancoroso, baixo. “Antes da Meia Noite” leva o amor à vida real, e ele parece talvez um pouco menos belo do que pode parecer, menos belo do que parecia em “Antes do Amanhecer”.

É a cena da discussão no quarto de hotel — um presente de mau gosto e intrusivo dado por seus amigos gregos, mas curiosamente comum no cotidiano dos casais — que faz de “Antes da Meia-Noite” um dos melhores filmes de 2013, e coroa a série como talvez a melhor trilogia de todos os tempos. Da esperança e liberdade de dois pós-adolescentes ingênuos e crédulos de 1994 aos adultos cansados, falhos, às voltas com uma série de compromissos existenciais e frustrações 18 anos depois, a série de Linklater, Delpy e Hawke se consolida, aqui, como a grande crônica da sua geração — que calha de ser a minha.

Talvez o personagem de Hawke seja bonzinho demais, conciliador demais, sensato demais, apaixonado demais. O fato é que o que se vê ali é, com infelizmente poucas variações, o que milhões de casais vivem no seu cotidiano: as dificuldades do casamento, o conflito doloroso entre o sonho e a realidade. A luta diária para fazer um casamento dar certo apesar de tudo — da rotina, do outro, dos outros, dos milhões de pequenas coisas que fazem as pessoas quererem se afastar daquelas a quem amaram ou amam, das pequenices que fazem a maior parte das vidas de todos.

Não há outro filme, ou série de filmes, que aborde o amor da forma como a série “Antes” aborda. Do romance idealizado do primeiro filme à mesquinhez e às mágoas acumuladas do terceiro, o que vemos é a crônica crescentemente desiludida do amor.

Mas não descrente.

E essa é a grande diferença, é o que talvez dê a “Antes” sua grandeza única. Da esperança juvenil do primeiro, passando pela alegria agridoce do reencontro no segundo — de Jesse e Celine, sim, mas também deles consigo mesmos —, e chegando à raiva mal contida e à melancolia frustrada do terceiro filme, cada um deles é uma reafirmação da validade do amor, das razões pelas quais se deve seguir em frente, os motivos pelos quais devemos nos entregar, uma reafirmação da ideia de que as pessoas se realizam ao se dar ao outro. Talvez a grande beleza de “Antes”, na maneira como se construiu ao longo dos últimos quase 20 anos, seja a percepção de que o amor, como a vida, é paradoxal e contraditório — ou, mais que isso, que é só assim, no paradoxo e na contradição, que ambos podem se realizar completamente.

Talvez o mais doloroso seja perceber que Julie Delpy, em “Antes do Amanhecer”, é a mulher com que eu sonhava aos 17 anos. Em “Antes da Meia Noite”, é as mulheres que tive — e isso é assustador, porque quando você percebe que sempre teve o que quis a vida toma novos sentidos. Mas ao mesmo tempo indica a verdade que jaz no cerne desses filmes, aquela verdade universal, que se aplica a tantas pessoas e suas histórias únicas e particulares.

Sim, é possível que  “Antes da Meia-Noite” não seja o melhor filme de 2013. Mas ele faz dessa trilogia que encerra — pelo menos durante os próximos 8 anos — a melhor de todos os tempos, a mais significativa. “Antes do Amanhecer”, “Antes do Entardecer” e “Antes da Meia-Noite” legam à humanidade um retrato acurado e sensível do amor neste fin-de-siècle, um retrato fiel e pungente, e é isso que faz deles bom cinema e, acima de tudo, filmes necessários.

Beatles 65

Alguns anos atrás, o apartamento onde eu morava pegou fogo. História resumida, ele ficou desabitado por alguns meses, até que questões de seguro fossem resolvidas, reformas fossem feitas e ele se tornasse habitável de novo. Nesse meio tempo um vazamento inundou o quarto onde ficavam livros e discos. Estragou alguns livros, muito poucos, mas os discos ficavam no chão e pegaram o pior de tudo aquilo. Quando vi o estrago, e peguei nos discos, as suas capas grudadas se soltavam como peles de leprosos. Desisti de separá-los e limpá-los e os guardei assim mesmo.

Demorou anos até que eu tivesse coragem de olhar os discos novamente. Olhei apenas uns meses atrás porque um amigo queria ouvir os vinis dos Anthologies e do Live at BBC dos Beatles. Eu não tenho tara por vinil, nunca tive. Melhor invenção do mundo foi o .mp3. Mas eu gostava do que tinha, principalmente porque faziam parte de uma época em que eu queria ter tudo dos Beatles.

Como eu imaginava, muita coisa se perdeu. E algumas perdas doem muito. Uma caixa com as gravações completas de Sinatra e Dorsey. Um LP raríssimo de Louis Armstrong. Uma caixa de Hoagy Carmichael. E as capas de tantos discos: do Live at the Hollywood Bowl, dos Anthologies e do Live at BBC. Mas nada doeu tanto, naquele momento, quanto perder as capas dos Anthologies. Três álbuns triplos, acho que lançados só na Inglaterra, e que eu tinha comprado por acaso em Roma, muitos anos atrás. O resto do mundo, na época, viu apenas os CDs, mas eu tinha orgulho dos meus LPs. Dois deles jamais tinham sido tocados; a eles, bastava existirem — perfeitos, belos, assim como o duplo Live at BBC.

Algumas boas notícias: discos que eu imaginava perdidos ficaram inteiros: o Decca Tapes, meu primeiro pirata dos Beatles. O Beatles Story, disco curioso que, na verdade, acho que nunca escutei inteiro. Um exemplar da primeira tiragem americana do Let it Be, com capa dupla e selo com maçã vermelha. A discografia brasileira original. Meus Magical Mystery Tour, ainda com os livretos — tanto os compactos originais quanto o LP pós-1976. Muita coisa manchada, com as marcas da água, mas acima de tudo muita coisa em estado aceitável, pelo menos.

E então bateu outro arrependimento.

Durante quase 15 anos, a discografia brasileira foi diferente da inglesa. Até o Help!, os discos brasileiros eram diferentes dos originais ingleses, tanto em capas quanto em ordem e número de faixas. Apenas a partir do Rubber Soul os lançamentos foram unificados.

E eu tinha todos eles. Todos menos um.

O “Beatles 65” era a versão brasileira do Beatles For Sale. Procurei por ele durante muitos anos, mas só fui achá-lo em 2005, na Baratos da Ribeiro. 20 real, se lembro bem. Comprei e fui dar uma volta em Copacabana com a Carol. Esqueci o disco num caixa eletrônico ao lado do Copacabana Palace, e quando voltei ele obviamente não estava mais lá. Esses cariocas são uns loucos, porque é preciso ser louco para roubar um disco vagabundo de uma banda que funkeiro carioca que se respeite jamais ouviria. E, claro, uns ladrões safados sem vergonha, uma ruma de filhos da puta que jamais mereceriam sequer o purgatório.

Em 2010, de volta ao Rio, achei novamente o disco, em outro sebo. Já não custava 20 real, custava 50. E como eu tinha perdido tudo nem me dei ao trabalho de pensar em comprá-lo — mas bem ali do lado tinha um “Canções Praieiras” do Caymmi, e eu acho esse um dos maiores discos da história da MPB.

Agora vejo que nem tudo estava perdido, que eu ainda tinha aqueles discos, e que naquele dia eu finalmente poderia completar a minha coleção.

Idiota, mil vezes idiota.

O tempo passou, eu não ligo mais para isso, os .mp3 e .flac no meu computador e no celular quebram meu galho — na verdade os .mp3 são o bastante, mas algumas coisas eu realmente só consigo baixar em .flac — e eu não tenho mais tempo para ficar admirando capas de disco. O último disco de McCartney que comprei foi o Run Devil Run, o último de Lennon foi a caixa Anthology, e lá se vão uns 15 anos, acho. Eu não compro mais discos. Cá entre nós, sequer ouço tanta música assim.

Mas lá no fundo fica a sensação de que está faltando alguma coisa, uma única coisa. E essa coisa é o “Beatles 65”.

A seguir, cenas do próximo capítulo

Para falar a verdade, faz quase 20 anos que não assisto a novelas. Normalmente não sei sequer o que está passando na TV aberta, porque a Sky em Sergipe não traz a Globo e eu tenho preguiça de comprar uma antena para assistir a canais que não me fazem falta; mas mesmo antes disso eu já não via novelas, não via desde que surgiu a internet.

Telenovelas, portanto, não fazem parte da minha vida. Mas de certa forma, já fizeram.

Durante muito tempo, eu as odiei de coração. Mas eu tinha irmãs, e assim os “folhetins eletrônicos”, como já foram chamados, faziam parte do cotidiano lá de casa. Quando éramos crianças o conflito entre gostos diferentes — eu gostava de filmes e seriados, elas gostavam de novelas e de alguns programas de auditório, como o “Recreio” da Tia Arilma, em Salvador — fez com que tivéssemos “dias de TV”. Os delas eram segunda, quarta, sexta e sábado — esses dois últimos, afinal, eram os dias dos capítulos mais importantes das novelas. O resto ficava comigo.

Por isso, mesmo detestando aquelas coisas, houve um tempo em que eu podia recontar a passagem do tempo através da seqüência das novelas das 6, das 7 e das 8. Sabia a sua ordem de exibição, e acabava sabendo também uma sinopse básica da maioria delas. Funcionavam como um referencial cronológico. (O site Teledramaturgia traz excelentes cronogramas e informações sobre novelas ao longo dos últimos 60 anos. É uma enciclopédia brilhante e a melhor fonte de informações sobre telenovelas e séries.)

Passei a assistir novela mesmo em 1983, com “Guerra dos Sexos”, uma novela na época considerada revolucionária para o padrão. Deixei de ver em 1986, depois de “Roque Santeiro”, embora de vez em quando assistisse a alguma coisa aqui e ali — normalmente porque simplesmente estava passando, de vez em quando porque havia algo realmente bom, como “Bebê a Bordo”.

Olhando para trás, vejo que esse período coincidiu com uma certa legitimação intelectual das novelas, quando o preconceito dos anos 70 foi definitivamente superado e as pessoas passaram a assumir que assistiam a elas e gostavam. Mas eu via novelas apenas por ver, de certa forma: gostava mesmo era de algumas minisséries, como “Anos Dourados” (que revi há alguns anos), “Grande Sertão: Veredas” e “Memórias de um Gigolô”. E desde 1995 (quando assisti a muitos capítulos de “Quatro por Quatro”, uma das novelas mais engraçadas que já vi) eu simplesmente não sei o que está sendo exibido — quer dizer, lembro de assistir a uns capítulos do remake de “Cabocla”, em 2004, assim que voltei a morar em Aracaju.

O fato de não gostar de novelas não quer dizer que eu não reconheça a sua importância. Durante algum tempo, principalmente entre os anos 70 e o começo dos 90, elas foram a verdadeira expressão dramatúrgica do país, muito mais do que um cinema divorciado da vida real e da qualidade técnica, ou um teatro feito e pensado para a elite sociocultural. Assim como americanos faziam cinema, nós fazíamos novelas. Nosso problema, durante muito tempo, foi não entender nem admitir isso.

Mas isso foi há muito tempo.

Durante a campanha eleitoral de 2010, saí mais cedo que de costume num sábado, e fui para a casa de minha mãe. Assisti a três novelas seguidas, a das 6, 7 e 8 (eu sei que os horários mudaram e a novela das oito agora é a novela das nove, mas não é agora, depois de velho, que vou mudar o padrão a que me acostumaram).

Eu saí chocado.

Não lembro da novela das seis. Mas a das sete falava de dois “irmãos” que iam para a cama e a das oito tinha Tony Ramos falando com um sotaque italiano pior que o nordestino que a Globo faz. Não lembro seus nomes e, cá entre nós, não quero lembrar. Fiquei impressionado com o nível exacerbado de sexualização de novelas exibidas às sete da noite, porque depois de anos vendo apenas TV por assinatura me acostumei ao padrão americano. Também me chamou a atenção a mera passagem do tempo: os atores que eu conhecia estavam velhos, e os novos eu não sabia quem eram; percebi apenas que quase todos eram muito ruins. Muito.

Mas o que me chocou, mesmo, foi o baixíssimo nível das novelas, dos diálogos, de tudo. É terrível. Pobre de uma forma impressionante. Ainda lembro da época em que debochávamos das novelas mexicanas. Duvido que hoje estejamos em nível melhor. Idéias recicladas à exaustão, diálogos de pobreza imensurável, desempenhos abaixo do medíocre. Telenovela é uma das coisas mais medíocres, mais ruins que alguém pode conceber. Nem sempre foi assim, claro: em 2011 vi um pedaço de “Vale Tudo”, reprisado pelo Viva. Fiquei impressionado com a qualidade dos diálogos, com a ligação natural com a realidade.

Eu sinceramente acho que o cinema se esgotou. Que nos últimos 15 anos tentou compensar em avanços tecnológicos o que lhe falta em novas idéias — não apenas de roteiro, mas de técnica cinematográfica, até mesmo de simples movimentos de câmera. É tudo mais do mesmo, e até entendo quando um Martin Scorsese diz uma sandice como “o 3D é redentor e revolucionário”, ou algo assim. Acho que o momento que vivemos é, com sorte, de transição; sem sorte, é o esgotamento total da capacidade de reinvenção das grandes formas de arte de massas do século XX.

Mas nem o pior de Hollywood se compara hoje às novelas. Pode ser que aqui e ali apareça alguma coisa que chame a atenção — me falaram tanto de Félix Bicha Má, vi tanto sobre ele no Facebook — mas não é a mesma coisa. O nível caiu. Imagino que coloquem a culpa na fragmentação da audiência, numa mal compreendida popularização do público. Tudo isso são desculpas. Novelas hoje são ruins. E me parece impossível que alguma geração volte a fazer delas o referencial que a minha, por exemplo, fez.