Durante uns 15 anos, ou mais, não ouvi ninguém falar daquele que tinha sido o meu seriado preferido na infância. Foi preciso que as pessoas começassem a fazer homepages compartilhando com o mundo seus gostos pessoais para que eu, finalmente, soubesse que não estava sozinho no universo. E por isso um dos posts que recebem comentários constantes ao longo dos anos, neste blog, é um sobre o seriado Daniel Boone.
“Daniel Boone” é uma paixão antiga. Foi o seriado de que mais gostei na infância. Eu queria ter um chapéu de guaxinim — melhor dizendo, de raccoon — e ser um pioneiro americano em eterno conflito com os índios. Em 1979 eu voltava da escola correndo para assistir ao seriado, que àquela época era exibido pela TV Aratu aí pelo meio-dia, meio-dia e meia.
Eu só não sabia que, para tantas outras crianças, “Daniel Boone” tinha sido tão importante. E há uma sensação de pertinência quando vejo comentários que, assim como eu, reconhecem em um seriado sobre um personagem histórico (e controverso) americano uma parte significativa de sua vida.
Mas há uma coisa que me incomoda, e não é o saudosismo generalizado nem aquela crença de que na minha época as coisas eram melhores, porque nem sempre eram. É a idéia de que “Daniel Boone” deveria ser reprisado.
Porque eu estou convencido de que reprisar “Daniel Boone” seria um fracasso fenomenal. Os tempos são outros. E o passado, para a tristeza da humanidade, não volta.
Assistir a um seriado antigo, daqueles que lhe empolgaram na infância, é sempre arriscado. Não se trata apenas do risco de ver que aquilo que você achava o máximo não era tão bom assim. É perceber que não é mais possível estabelecer aquela simbiose emocional com o filme. Não se pode voltar para casa, dizia Tom Wolfe, e há poucas sensações tão decepcionantes quanto rever algo ou alguém que foi muito querido, de que você sempre lembra, mas que hoje não lhe diz mais nada.
Bons seriados dos anos 60 e 70 caem nesse limbo. “Viagem ao Fundo do Mar”, por exemplo: parecia ser muito naquela época, mas envelheceu mal, e se revela pouco mais que propaganda tardia da guerra fria. “Túnel do Tempo”, fantástico naqueles tempos, pode se mostrar um seriado fraco, insuficiente, sem os elementos dramáticos necessários para contrabalançar os absurdos históricos (embora este não seja o meu caso).
Há também os que caem no ridículo. “Besouro Verde”, cujo único mérito é o de ter revelado Bruce Lee para o mundo, é quase demente: um super-herói que anda por aí com motorista. Outros, no entanto, crescem. Kojak, Baretta, Columbo eram bons seriados naqueles tempos e continuam sendo agora, mas principalmente por causa da linguagem utilizada. “Terra de Gigantes”, por sua vez, é um caso único. Eu não gostava quando era criança; hoje me empolgo com o tratamento dado à câmera e às vezes até com a temática.
“Daniel Boone”, infelizmente, não está em nenhum desses casos.
Eu fui criado assistindo a faroestes na Sessão da Tarde e a seriados como “Zorro” — Lone Ranger no original. A geração anterior à minha assistia a Bonanza, “O Homem de Virgínia”, Bat Masterson. Fomos todos criados perto da noção de transposição da mitologia medieval européia para o oeste dos Estados Unidos, com o pistoleiro solitário fazendo as vezes do cavaleiro errante. Minha geração ainda brincou com revólveres de espoleta. Porque víamos na TV o cinema dos anos 40 e 50, nós ainda estávamos próximos do século XIX. Isso já acabou, acabou nos anos 80, quando passamos a ver na TV os nossos próprios tempos.
Para mim, índio vai ser sempre bandido. Mexicano também, com os bigodões como agravante. O faroeste é uma invenção WASP e é assim que deve ser. A única modificação admissível a esse modelo é o western spaghetti — mas ali se perverte tudo, não apenas se inverte a ordem de mocinhos e bandidos. Não é a bobajada politicamente correta de, mais que corrigir a história, inverter tudo e colocar índios no lugar de colonos e negros no lugar de brancos, como em um filme idiota com Sidney Poitier chamado Caçada Brutal. Nada é tão falso, talvez tão falso como aqueles filmes americanos passados no Brasil em que todos falamos espanhol. A graça do western está na manutenção de estereótipos que necessariamente fazem parte da mitologia que os americanos criaram para si.
Mas a conquista do oeste americano não faz mais parte do imaginário popular. É história apenas, tão antiga quanto a queima de bruxas em Salem ou a Noite de São Bartolomeu. “Daniel Boone” faz parte dessa história, que não tem mais apelo em época de Lost. E por isso não deveria ser reprisado, porque um seriado tão bom não merece ser sujeito à humilhação pública.
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No Natal de 2006 ganhei o primeiro volume da reedição em DVD do seriado. São 15 episódios da segunda temporada (a primeira em cores), em quatro DVDs lançados pela Focus.
Do ponto de vista crítico, essa edição é um fracasso e um desrespeito. A Focus editou a temporada de maneira porca, sem respeitar a cronologia (provavelmente porque isso a forçaria a começar com uma primeira temporada em preto e branco). Mais grave ainda, lançou apenas o áudio dublado em português. Cometeu até o pecadilho de transformar os créditos de encerramento em uma seqüência de slides, provavelmente para economizar espaço em disco e poder incluir trailers de outros lançamentos seus. A edição feita pela Focus chega a ser vergonhosa.
Mas do ponto de vista de um saudosista, isso não importa. Porque era assim que a Globo exibia o seriado, completamente fora de ordem e com a dublagem em português. Por exemplo, originalmente a família Boone consistia em Daniel, Rebecca, Jemima e Israel. Mais tarde Jemima desapareceria do seriado sem dar aviso. Mas eu, depois de anos acostumado a ver apenas Israel como filho de Boone, me vi diante de uma filha mais velha, que apareceu sem explicação.
Mais importante ainda, o seriado traz a dublagem original, e isso é fundamental para a recriação da experiência de infância. “A Fox Filmes do Brasil apresenta…” é uma daquelas frases cuja entonação é inesquecível. Rever “Daniel Boone” sem a dublagem original seria uma experiência incompleta.
(Talvez a Focus use esse argumento de fã para se justificar. Mas não pretendo comprar os volumes seguintes, porque um volume basta para satisfazer essa nostalgia. Se eu quisesse rever todos os episódios de Daniel, preferia comprar a versão americana, à venda na Amazon.)
Aí pela época do Natal o Discovery exibiu alguns documentários sobre o “Jesus histórico”. Vi um deles. E fiquei impressionado com o jeito como se manipula a história de acordo com os seus interesses.
Costumamos nos lembrar, principalmente, da II Guerra Mundial. Pelas dimensões, pelos 60 milhões de mortos, pela exacerbação do mal contida no nazismo, e porque é relativamente recente. Mas a I Guerra, sob vários aspectos, foi a mais importante da história. Marcou a ruptura entre dois mundos diferentes, o final da era vitoriana e o início de um um novo tempo. Por mais aterradora que tenha sido a II Guerra, e mesmo levando em consideração que o mundo que emergiu dali era bem diferente, ela não forjou esse novo mundo: ele nasceu ali, nas trincheiras da Bélgica. Foi a I Guerra quem deu origem à União Soviética e elevou os Estados Unidos à categoria de potência econômica e bélica. Acima de tudo, foi a I Guerra que mostrou à humanidade que o horror podia não ter limites.
Por alguma razão resolveram fazer um especial dos anos 80. Já ouvi New Edition (Is this the eeeend?), Berlin (Take my breath awaaaay), Culture Club (Mistake #3), Stevie Wonder (I Just Called to Say I Love You) Chris DeBurgh (The Lady in Red) e uma canção que assolou o Brasil em 1986, Yes, cujo cantor era um picareta brasileiro que fingia ser gringo, adotou o nome de Tim Moore e enrolou boa parte do Brasil; o Bia lembra dele bebendo caipirinha no camarim, antes de um show em Americana, enquanto resmungava: “Merda de cidade…”
Há algo de muito errado na ordem cósmica quando os dois maiores ícones de uma geração são Madonna e Michael Jackson. Este a gente já sabe no que deu, mas não vamos ser injustos creditando sua degradação aos últimos tempos: ele nos avisou do que vinha pela frente. Nos anos 80 o sujeito usava uma jaqueta de couro vermelho e uma luvinha branca e brilhosa na mão, com o cabelo eternamente solto e molhado por uma tonelada de gel; algum ingênuo esperava que ele melhorasse?
Um consolo é que as roupas da Madonna podem ter sido imitadas pelas adolescentes de miolo mole nos EUA da época, como a gente costuma ver nos filmes, mas aqui no Brasil éramos mais comportados. Isso não quer dizer, no entanto, que tivéssemos bom gosto. Ah, não. Os anos 80 foram a década do rosa-choque e do verde-limão, provavelmente as cores mais medonhas já criadas — tanto que a Mãe Natureza, que tem lá sua carga de bizarrices, não ousou criá-las –, e que, como se sua própria feiúra não fosse suficiente, normalmente eram usadas ao mesmo tempo. Foram a época dos jeans verdes, de estampas berrantes que chamavam de new wave e que vilipendiavam a memória do finado Godard, das ombreiras, e mais tarde das saias balonê. Os anos 80 foram uma década de confusão e mau gosto.
Fãs dos anos 80 costumam lembrar de bandas como Smiths e U2 para mostrar que aquela, afinal, não foi a década perdida.
Não é que eu não goste desses filmes. Todos eles têm a capacidade de me lembrar uma época que vivi e que já passou há muito tempo. Queira ou não, eu estava presente aos anos 80.
(E então lembro da diva dos anos 80: Molly Ringwald. A garota de rosa-choque. Diva adequadíssima à época: insípida, insossa, inodora. Nunca entendi por que investiram nela em vez de em delícias como Kelly Preston, cuja cena nua em “A Primeira Noite de Jonathan” é a única coisa que presta em um filme bobo. De qualquer forma, hoje ninguém ouve falar em Molly Ringwald. Tudo o que sei da ruiva é que mal começaram os anos 90 e a tonta cometeu duas grandes bobagens: dispensou os papéis principais de “Uma Linda Mulher” e de “Ghost”. As atrizes que fizeram esses filmes todo mundo sabe onde estão. Mas duvido que alguém saiba onde anda Molly Ringwald. Sumiu, coitada, como os anos 80 deveriam ter sumido.)