Archive for the ‘Putas, políticos e palhaços’ Category
Sobre a Veja e o Nassif
Os comentários no post sobre o Luís Nassif e a Veja são interessantes. Ainda mais porque os defensores da Veja partiram para o contra-ataque com uma raiva insuspeita.
Parecem esquecer que o post não é uma defesa do Luís Nassif. Ele provavelmente tem seus motivos para bater de frente com a Veja, assim como os fornecedores de dossiês da Veja têm os seus para bater no governo. O que importa, aqui, é a veracidade dos fatos e das conexões expostas por Nassif. Se a Veja publica um dossiê verdadeiro, com fatos checados, ela está fazendo jornalismo. Se o Nassif revelou fatos reais sobre a revista, ele também fez bom jornalismo. É o que importa. Se ele bate na mãe é problema dele.
Mas em nenhum momento — repito: nenhum — o Kbção, o Malavolta, a Livia Pulido, o Adriano ou quem quer que seja se debruçam sobre o que é realmente importante: os fatos. De maneira extremamente pobre, limitam-se a falar gracinhas, a desqualificar o Nassif e a jogar fumaça, tirando o foco do ponto central da discussão: as prática da Veja.
O Kbção, especificamente, se esmera em desviar do ponto central levantado pelo Nassif e partir para o aspecto político, enquanto as reportagens do Nassif lembram é que a Veja trata mesmo é de dinheiro. Por exemplo, fala que a cruzada anti-Veja começou quando Lula chegou ao poder. É mentira. A revista sempre teve uma orientação política clara, que se poderia identificar com o PSDB paulista, e eventualmente fazia bons acordos comerciais travestidos de jornalismo, como uma matéria enorme e famosa sobre alimentos geneticamente modificados, sem nenhuma fonte mas praticamente gritando “Monsanto!”. Mas com a saída do PSDB do poder começou um processo de radicalização que ultrapassou os limites da opinião política para descer à mentira e à chantagem. A lista de matérias feitas apenas para atacar o governo, ainda que sem provas ou testemunhas, cresce a cada dia. A Veja não pára.
Por exemplo, o Kbção fala que o Dirceu era “fanzoca da revista”. Ele com certeza é mais inteligente que isso. Deve saber que essas são relações que fazem parte do jogo político, e nada é de graça. E porque se os termos desse jogo não são elogiosos para o Dirceu, são ainda piores para a Veja.
Em vez de atacar o Nassif ou falar dos “petistas” que perseguem uma revista tão boa e respoeitável, gente como o Kbção e o Malavolta deveria tentar responder algumas perguntas simples:
- Os fatos narrados pelo Nassif são verdadeiros?
- Se não são, quais as evidências de sua falsidade?
- Se são verdadeiros, isso é bom jornalismo?
- Uma revista que faz esse tipo de coisa é uma boa revista?
Não respondem, não podem responder. Então partem para o contra-ataque, ignorando a mensagem e desqualificando o mensageiro.
Com isso tentam relevar o fato de que o que a Veja faz hoje é o mesmo que qualquer pasquim de interior faz. A diferença está na “catiguria”, para citar uma conhecida colega dos jornalistas da Veja: em vez de chantagear por anunciozinhos de 10, 20 mil reais, seu jogo está na casa dos milhões. São apenas escroques de alto coturno.
Essa é a revista que se apressam em defender.
A Alessandra definiu bem o papel da imprensa. Sua função não é pegar nos calcanhares de ninguém, como a Veja não pegou nos calcanhares do governo FHC. É informar, analisar e explicar. Pegar nos calcanhares é função da oposição, qualquer oposição; é uma função política. O Kbção, o Malavolta, o Cláudio gostam da Veja por isso, porque ela é um panfleto que se sujeita a ser ferramenta de luta política; por essa razão vale a pena ignorar o fato de ela também ser um instrumento de chantagem e de negócios escusos. E se se ignora isso, pode-se esquecer também que ela faz parte do jogo político e perdeu o direito de se auto-intular praticante de bom jornalismo.
Luís Nassif e a Veja
Via o sempre atento Idelber, a série de artigos escritos pelo Luís Nassif sobre os intestinos apodrecidos da Veja pode vir a ser um dos maiores favores que se fez à imprensa nacional, e desde já são seguramente alguns dos posts mais importantes da blogoseira pátria.
Os artigos são uma dissecação do modus operandi da Veja. De repente, temos acesso a informações e análises que, se entre jornalistas são fatos velhos, óbvios e conhecidos, não costumam chegar ao grande público, graças em grande parte ao sistema de interesses de todo o mercado e em pequena parte a um certo esprit de corps de jornalistas.
A análise feita pelo Nassif dos fatores conjunturais que levaram à derrocada da Veja, pelo que se vê do que foi publicado até agora, é em alguns aspectos superficial. Desconsidera como causas alguns fatores externos importantes, econômicos e principalmente políticos. Além disso, a ênfase em duas pessoas específicas — Eurípides Alcântara e Mario Sabino, os atuais condottieri da revista –, em alguns momentos deixa a impressão de que essa reportagem é uma espécie de vendetta pessoal.
Falta também, até agora, ressaltar detalhes importantes, como o fato de que Alcãntara e Sabino não são os donos da Veja, nem fazem o que querem porque têm poder total. Nenhum jornalista publica o que o dono do veículo não quer. O que, sendo as denúncias de Nassif verdadeiras, faz deles jornalistas inferiores é o fato de se sujeitarem aos interesses empresariais dessa forma, o fato de utilizarem uma revista que já foi a mais importante do país e hoje não passa de um panfleto canalha e mentiroso.
Mas as motivações do Nassif não importam. A reportagem é brilhante do ponto de vista da informação e da análise sobre a maneira como a Veja opera. É um documento que precisa ser lido por qualquer pessoa que queira entender como funciona a relação complexa entre a mídia e o poder.
O que o Nassif denuncia na Veja é comum em virtualmente todos os jornais e revistas espalhados pelo país. Apenas quem não conhece uma redação de jornal acha que é diferente. Do jornalzinho de interior à maior rede de TV do país, achaques, pressões, implicâncias são moeda comum — e efetivas. Interesses pessoais e comerciais são travestidos de interesse público. O resto é conversa aprendida já nos bancos da faculdade. O jornalzinho do interior faz algumas matérias batendo no prefeito para ganhar anúncios e calar a boca; e só como exemplo, há alguns anos a Globo se sentiu ameaçada por uma incursão da Legião da Boa Vontade, aquela do Paiva Netto, no mercado educacional; o resultado foi uma série de matérias denunciando irregularidades da entidade.
Sobra também para o mercado publicitário. Quando há quase três anos estourou o escândalo do mensalão, o mercado publicitário correu para desqualificar Marcos Valério. Segundo eles, Valério seria “lobista”, e não “publicitário”. Mas o fato é que publicidade e lobby sempre foram praticamente indissociáveis, apesar do discurso de fachada. Agora quem entra na roda é Eduardo Fischer, um dos melhores publicitários do país, responsável por campanhas brilhantes com a da Calvin Klein de 1983 e a “número 1″ da Brahma, mas que teria feito o tipo de lobby mais rasteiro junto ao banqueiro André Esteves (no que, da maneira como Nassif coloca as coisas, mais parece um daqueles esquemas de proteção de mafiosos), envolvendo a coluna Radar, da Veja. Fischer também não é publicitário? Se não é, quem é?
A reportagem de Nassif é um obituário adequado à Veja. É importante pelas respostas que dá e pelas perguntas que suscita. E deve ser lido por todos.
Eleições 2008
Pesquisa de intenção de voto em Aracaju, Sergipe, entre os dias 25 e 26 de dezembro de 2007:
João Alves Filho (DEM), ex-governador de Sergipe por três vezes: 47,1%
Edvaldo Nogueira (PCdoB), prefeito: 29,6%
Almeida Lima (PMDB), ex-prefeito e senador da tropa de choque de Renan Calheiros, chamado de “boneca” no plenário por Tasso Jereissati: 11%
Post redundante sobre a decadência da Veja
Falar mal da Veja está se tornando mais redundante do que comentar a decadência e a chatice de Jô Soares. Mas não cansa.
A edição desta semana traz chamada de capa para uma entrevista com Rosane Collor, que se ergueu da tumba do olvido. A entrevista passa a impressão um tanto forte demais de não ser mais que uma tentativa de tirar algum dinheiro do ex-marido — ex-mulheres de políticos com trajetórias duvidosas sabem que têm em sua memória um bom capital de giro. Nada novo nisso. Incompreensível é a razão por que a maior revista nacional em circulação se rebaixou a esse ponto, já que se o presidente do impeachment não é notícia há muito tempo, quanto mais a sua ex-mulher, de triste memória em sua passagem pela LBA. A entrevista sequer diz algo novo, com exceção da confirmação das sessões de macumba a que o presidente ia. A revista, esquecendo o que ela mesma noticiava há 16 anos, até aceita sem perguntas a versão de Rosane sobre seu suposto caso extra-conjugal.
A entrevista de Rosane Collor é apenas um sintoma da decadência da revista. Não é o mais importante. O buraco é bem mais embaixo.
Em 100 anos de regime republicano, as Forças Armadas foram os fiadores da elite brasileira. Graças a essa simbiose, a estabilidade institucional brasileira foi inviabilizada por uma longa seqüência de golpes e contra-golpes, respostas a conflitos externos, como a Intentona Comunista, ou internos, como as lutas de setores dessa mesma elite.
Com a Nova República isso mudou. Desgastados pelos 20 anos de ditadura militar, os militares foram postos em escanteio pela primeira vez na história — e até com certo exagero, mas isso é assunto para outro post. A elite brasileira, então, ficou sem os seus cães de guarda.
Sobrou a ela a mídia. Última trincheira legítima em um regime democrático — e última trincheira possível quando não se está no poder –, durante o final da década de 80 e boa parte da de 90 ela foi ocupada de maneira quase equilibrada, embora já combativa. A conjuntura permitia: era época de hegemonia clara do pensamento liberal, o que permitia ainda um certo nível de elegância.
Mas os tempos continuaram a mudar. Por mais que se negue houve, sim, uma mudança importante de modelo administrativo nos últimos anos, a partir do início do governo Lula. E por mais que a Neo-UDN queira a paternidade da bonança que o Brasil vem atravessando, e se recuse a admitir que a mudança de enfoque — da estabilidade a qualquer custo para a ênfase na distribuição de renda, ainda que eventualmente tímida; e da quase exclusividade das obras de interesse imediato da tal elite para programas estruturantes como o Luz Para Todos (eleitoralmente tão importante para a reeleição de Lula quanto o Bolsa Família, embora o PSDB tente evitar a armadilha que seria discutir isso) — está fazendo diferença na vida de milhões de brasileiros, o fato é que aquela elite representada pela Veja perdeu poder e espaço — e isso dói, principalmente no bolso.
Dentro desse contexto, a Veja não tem alternativa que não arregaçar as mangas. Partir para a briga, assumir sua posição e defender o seu lado. Da posição arrogantemente olímpica que ocupou nos seus primeiros 30 anos, ela se viu obrigada a descer para a lama do combate político, do tipo mais rasteiro. Nada que seja estranho ao jornalismo, mas que era convenientemente disfarçada pela tranquilidade da sua posição. Hoje a Veja, como outros meios de comunicação, é obrigada a desempenhar dentro de suas condições o papel que antigamente era exercido pelos tanques e pelas estrelas dos generais. Em vez de fuzis, reacionários obscurantistas e hidrofóbicos como Reinaldo Azevedo; no lugar de Urutus, matérias porcas como aquela sobre Che Guevara assinada por Diogo Schelp e ridicularizada por um jornalista da New Yorker. Ou o achincalhe e calúnia puros, como a infame matéria, em 2005, sobre os dólares de Cuba para o PT: apenas difamação, sem nenhuma fonte, sem sequer uma testemunha.
Isso se refletiu, por exemplo, na mudança mais perceptível de orientação editorial, a proliferação de colunas assinadas. De uma revista em que praticamente ninguém assinava matérias, ela passou a ser um repositório de opiniões — a grande maioria impressionantemente ruim, o que caracteriza, antes de mais nada, a necessidade de assumir um lado e intervir no debate político. (Na edição desta semana salva-se o bom artigo do Gustavo Ioschpe.)
Na Veja de 1979 seria impensável uma coluna como a do Diogo Mainardi, histérica e de baixo nível (esta semana ele faz muxoxo e apela para o “mas - eu - tenho - mais - leitores - que - você” porque um jornalista disse que o acha um merda, opinião compartilhada por mais gente). Dos tempos em que reinava absoluta como a grande revista semanal brasileira, hoje ela se depara com um mercado que apenas encolhe em tempos de internet e com concorrência à sua altura, como a Época lembrada pelo Pedro Dória.
De revista razoavelmente respeitada, a Veja se transformou em um panfleto. Pior, em um panfleto ruim — a edição desta semana não tem praticamente nada que preste, mesmo o que passa ao largo da política. Talvez seja isso o que acontece com revistas importantes quando perdem a própria dignidade.
E assim se passaram dois meses
Só uma pergunta, depois eu ter passado tanto tempo fora.
Neste, neste e neste posts, um monte de gente veio bater no governo por ele ter sido “o responsável pelo acidente da TAM”.
Todo mundo já sabendo de antemão o resultado do laudo. Todo mundo com aquela convicção canônica de que a crise no setor aéreo era o responsável direto pelo acidente da TAM. Todo mundo aproveitando a indignação nacional para dar a sua porradinha no governo Lula.
Agora, tantas e tantas informações depois, não aparece nem um pedidozinho de desculpas? Nem mesmo um “talvez nós não estivéssemos certos”?
Anti-semitismos
Senhor Rafael Galvão.
O senhor desconhece inteiramente a história do povo judaico e ousa ofender-lhe, com que direito o faz? Exijo que respeite a dor, o sofrimento deste povo que foi e continua sendo perseguido por pessoas como o senhor que tece comentários inverídicos, com que intenção? Quem é o senhor para falar do povo judaico, com que conhecimento de causa, não sabe nada. Que prove o que menciona em suas palavras maldosas para com o povo judaico!
Carlos Olguin Naschpitz
Eu não sei exatamente o que o sujeito, em seu comentário a este post, quer que eu prove. Se ele está falando das leis israelenses a que me referi, referências a elas podem ser encontradas nos jornais de agosto de 2003 — e não custa procurar em sites israelenses. Se se refere ao que chamo de crimes de Israel, os mesmos jornais trazem notícias sobre isso quase toda semana — mas Naschpitz pode achar que todos eles fazem parte de uma grande conspiração anti-sionista. Descontando-se a indignação tão dolorida de Naschpitz — com direito a ponto de exclamação no final –, seu comentário é vazio, choroso, sem substância.
(Naschpitz não está sozinho. No comentário anterior, Marília Julião Mendonça dá carteirada de “professora universitária de história” para dizer que não existem as tais leis israelenses a que me referi. Eu não queria ser seu aluno, porque ela é ignorante e não lê jornais. Também diz que um casamento entre judeu e alemão rebaixava o alemão de categoria em vez de proteger o judeu da barbárie hitlerista, o que mostra que ela tampouco sabe alguma coisa sobre a Alemanha nazista. Finalmente, tenta justificar quaisquer atitudes israelenses recorrendo ao cativeiro egípcio dos tempos de Moisés, e então vem uma vontade grande de dar um tapinha na sua cabeça, enfiar um pirulito em sua boca e mandá-la brincar na gangorra, tomando cuidado para não sujar o vestido.)
O comentário do Naschpitz apenas reforça a idéia por trás do post: a de que a acusação de anti-semitismo é sempre uma pecha quase sempre irresistivelmente fácil de jogar sobre quem não concorda incondicionalmente com uma imagem fácil e tendenciosa da problemática israelense-palestina.
O mais interessante — e aqui se sai um pouco do tema do post original — é que não existe apenas “um” anti-semitismo. Posso contar pelo menos dois. Um deles, o ocidental, tem raízes em uma necessidade teológica do cristianismo. Se o judaísmo se negou a ver em Cristo o seu Messias, como havia sido profetizado, então ele precisava estar completamente errado para que a alegação de divindade de Jesus, no cristianismo primitivo, se legitimasse. Jesus tinha que ser Deus, e convenhamos que é preciso ser muito malvado para matar o Dito (Nietzsche tentou e acabou discutindo filosofia com os cavalos de Weimar). O cristianismo forçou uma identificação dos judeus com o Mal para garantir sua sobrevivência, e esse parricídio teológico é a origem de dois mil anos de perseguições e preconceito. Foi esse tipo de anti-semitismo que desembocou no Holocausto nazista e que se mostra latente ainda hoje. É talvez o tipo mais pernicioso, e certamente o que deu resultados mais tenebrosos.
Mas há outro tipo de anti-semitismo, com origens diferentes e muito mais complexas. O anti-semitismo que se fortalece no Oriente Médio, ao contrário do ocidental, tem bases bastante sólidas em uma longa história de guerras e agressões mútuas. E hoje é um processo que se desenrola tendo como elemento central um país que, sob a justificativa de seu povo ter sofrido o pão que o diabo amassou no Holocausto e ter sido atacado por vários países muçulmanos após sua fundação, oprime a Palestina de uma forma que, em muitos momentos, lembra a Alemanha nazista dos anos 30.
São situações diferentes, e que não estão necessariamente ligadas. No entanto, de acordo com raciocínios como o de Naschpitz, é tudo a mesma coisa: trata-se um mundo inteiro odiando os judeus a partir do momento em que levanta algum senão. Por sorte, esse não é o raciocínio — ou falta de — da maior parte dos judeus do mundo.
Por mais que os judeus tenham sofrido, por mais que tenham sido perseguidos, nada justifica a afirmação de Golda Meir: “Depois do que fizeram conosco, podemos tudo”. Não, não podem. Quem podia tudo eram os nazistas, e não se pode esquecer isso. Além disso, não se pode esquecer que há um momento-chave na geopolítica daquela região, a Guerra do Líbano: a partir dali, Israel passou a ser um país agressor. Isso faz toda a diferença.
É um equívoco muito grave esse tipo de esforço de santificação judaica, como se fosse um povo moralmente acima de todos os outros. Primeiro porque não encontra bases na história — o Naschpitz deveria se informar sobre a participação importantíssima de judeus e cristãos-novos no tráfico negreiro para o Brasil, por exemplo, e depois discutir o que parece ser seu conceito de “ética por direito divino”. Há bons e maus judeus como há bons e maus cristãos, muçulmanos e macumbeiros, e ao longo da história a perseguição execrável ao judaísmo não impediu o progresso material de muitos indivíduos, mesmo quando de maneira eticamente discutível. As relações dos “Estados” medievais europeus com a elite judaica que lhe emprestava dinheiro, por exemplo, são fascinantes pelos conflitos e concessões de ambas as partes. Além disso, Naschpitz poderia tentar descobrir o que eram os comboeiros nas Minas Gerais do século XVII, por exemplo.
Mas o pior aspecto em tudo isso é o incentivo a uma idéia de diferença irreconciliável entre “raças” que, em momentos históricos específicos, pode gerar resultados inversos e resultar, se não no Holocausto, na repetição das condições objetivas que o geraram. E é isso que esse pessoal, cegos guiados apenas pela promessa de Deus a Moisés, não consegue enxergar.
Originalmente publicado em 20 de junho de 2006
Indo para Pasárgada
A partir de hoje, este é um blog de oposição.
Durante todos esses últimos meses este blog apoiou o governo Lula, apesar de todas as denúncias, apesar de todos os indícios, apesar de todos os fatos, por ter uma compreensão própria e pouco ingênua de política e por acreditar que este tem, sim, sido um bom governo.
Mas agora vou deixar de achar que Lula será um bom presidente a partir de 2007 porque, se eu for da oposição, eu sei que vou ter sorte.
Vou casar porque sei que minha mulher vai ganhar vestidos. Dados assim, sem nenhuma intenção. Presentes graciosos de um estilista que dá tão pouco valor ao seu tempo e ao seu trabalho que, para ele, 40 vestidos e 400 são exatamente a mesma coisa. E se eu não souber me explicar direito, isso não vai significar muita coisa, porque afinal de contas sem sorte é o governo.
Se eu for para a oposição vou ter sorte como o Francenildo teve.
Porque é preciso ser uma pessoa que nasceu com a bunda virada para a lua para que um pai que nunca lhe viu, e nunca sequer lhe assumiu, lhe dê de mão beijada 25 mil reais, por sorte e coincidência na véspera de um depoimento importante. Mais ainda: com a sorte do Francenildo eu também vou arranjar um advogado metrossexual que vai tentar fazer o Estado me pagar dezenas de milhões de reais pelas pequenas e grandes sacanagens que me fez.
É por não ter essa sorte que só bendiz a oposição que aquele pessoal do governo se envolve em tantas confusões, que é acusado de crimes eleitorais e de esquemas de compra de votos. Ao longo deste último ano, pelo menos de uma coisa eu passei a ter certeza: se o pessoal do governo tivesse a sorte que a oposição tem, não teria que se envolver com os Marcos Valérios da vida. O governo precisa fazer caixa 2; a oposição simplesmente ganha as coisas porque, bem, tem sorte.
É isso. Vou para a oposição porque andar com gente sem sorte não traz coisa boa. Eu quero a sorte que nos faz ganhar coisas e que não nos obriga a compromissos com gente como Roberto Jefferson.
Cada vez mais admiro esta oposição com tanto trabalho nas costas, com a honestidade única e inquestionável que só aqueles com sorte podem ter, com as mãos limpas e ostentando uma probidade que muitos céticos, como eu fui um dia, julgavam impossível. Vou virar um oposicionista ferrenho porque lá nossas máculas são automaticamente limpas, e o passado não nos condena mais. A partir de hoje, este é um blog de oposição, e eu estou indo para Pasárgada.
E como Marco Antônio naquela peça inglesa, eu vou poder dizer de todos os políticos que vou defender: For he is an honourable man; so are they all; all honourable men.
Originalmente publicado em 2 de maio de 2005
A dançarina, o caseiro e o 18 brumário de Francenildo Pereira
E a dancinha da Angela Guadagnin foi parar na capa da Veja.
A Veja é a revista que publicou uma das matérias jornalísticas mais absurdas da história do jornalismo político do país, a dos “dólares de Cuba”. Uma matéria inteira sem nenhuma prova, mas principalmente sem sequer uma testemunha. Ninguém havia visto dólar nenhum. Mas isso não importava para a revista. Vale qualquer coisa quando se está em campanha.
Não que a dança da deputada seja elogiável. Mas o que eu vi, no fundo, foi uma senhora comemorando a absolvição de um amigo. É curioso que o Congresso tenha declarado um deputado inocente e pretenda levar alguém à Corregedoria da Câmara por ter comemorado justamente essa sentença. Mesmo isso até seria aceitável, se eles se mostrassem indignados assim cada vez que deputados se estapeassem no Congresso ou xingassem suas respectivas mães. Os critérios, no entanto, são diferentes. Talvez eles prefiram o Schadenfreude. Talvez apenas tenham aproveitado a chance de jogar mais lama no governo.
O problema é que se chegou a um ponto em que todos os que apóiam o governo são culpados, mesmo com prova em contrário.
Por exemplo, qualquer pessoa que conheça um mínimo de política e de eleições sabe que é bem provável que alguns dos deputados acusados de envolvimento com o valerioduto sejam inocentes: gente que pressionava o partido para receber algum dinheiro para pagar suas dívidas e não estava necessariamente envolvida com o esquema. Aposto, por exemplo, que a Heloísa Helena não se perguntou, enquanto tentava se eleger senadora, de onde vinha o dinheiro que Delúbio lhe dava.
O Guto lembrou que se fosse uma deputada do PSDB a dançar, o PT estaria fazendo um terremoto. Provavelmente. Mas é também o caso de perguntar o que é que estão fazendo agora. Porque se isso não é um terremoto artificial, eu não sei mais o que é a escala Richter. Então o problema fica reduzido ao seguinte: o PT deve ser esculachado por ter feito seus terremotos, mas a oposição não pode ser, por fazê-los.
Principalmente nesses últimos meses, tem impressionado a total inversão de valores. Chegou-se a um ponto em que tudo o que se disser do governo é necessariamente verdade. Um ACM Neto pode ameaçar bater no presidente da República, indignado com os rumores de grampo, esquecendo que seu avô é o sujeito que grampeou a Bahia inteira por causa de sua amante. Agora toda a oposição é honesta, e todo o governo é ladrão.
Essa dubiedade é ainda mais interessante no caso da queda de Palocci, depois do que foi o cerco mais longo da história de todo o Ministério da Fazenda.
De todos os episódios da crise, nada pareceu tão canalha quanto o depoimento do caseiro Francenildo Pereira. Podia-se sentir que Roberto Jefferson falava a verdade, ou parte dela. Mas tudo no caso do caseiro tem cheiro de mentira e de armação. No entanto, ainda assim as pessoas parecem acreditar que o dinheiro que apareceu em sua conta é realmente de um pai que nunca o viu, nunca assumiu a paternidade mas, num arroubo de generosidade e instinto paterno, lhe deu um bom dinheiro às vésperas de um depoimento importante. Isso nunca é questionado, porque não interessa a ninguém.
(E é impressionante a incompetência do governo no gerenciamento dessa crise. Em vez de divulgar o extrato bancário do caseiro, era melhor simplesmente pedir a sua quebra de sigilo, mostrar que ele recebeu dinheiro e depois se perguntar o que ele andou fazendo no gabinete de Antero Paes de Barros. Partia para o contra-ataque de uma forma muito mais competente.)
Eu, pelo menos, gostaria de saber quem foi o sujeito que, provavelmente numa sala esfumaçada e diante de uma garrafa semi-vazia de Logan, teve um estalo e lembrou que foi alguém igualmente humilde — e parte-se do princípio esquisito de que pobre não mente –, o motorista Eriberto França, que ajudou a derrubar Collor. Porque esse sujeito merece algum respeito: pela lembrança, pela falta de escrúpulos e por ter sido um leitor aplicado do primeiro parágrafo de “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, aquele em que, citando Hegel, Marx diz que os grandes eventos da história se repetem como farsa.
Esse, talvez, seja o papel da oposição.
Mas talvez fosse o caso de perguntar pelo destino desconhecido do “republicanismo” e da “oposição responsável” desse pessoal, tão alardeados quando não ainda tinham o que dizer do governo. A investida contra Palocci teve um objetivo único e claro: desestabilizar um governo que mesmo com toda a crise tinha conseguido crescer em aprovação pública porque, apesar das negativas da oposição, vem fazendo, sim, um governo administrativamente e socialmente competente. Não se trata aqui da culpa ou não do PT, até porque a essa altura isso são favas contadas, mas de algo que este blog diz há muito tempo: que a oposição do PSDB/PFL nunca teve nada de “republicana”, que tudo é jogo político, interesses em um jogo pouco liso de poder.
Originalmente publicado em 30 de março de 2006
Manifesto em Defesa das Baratas ou A Barata é Nossa Amiga
Todos os seres vivos são iguais perante o Criador. Todos temos o direito de viver, e isso inclui até astrólogos de Maria e pseudo-feministas de caixas de comentários.
É em estrita observância a esses direitos universais, e ao reconhecimento do estabelecimento de uma nova moral ecológica, que anunciamos aqui a fundação da ARPAB - Associação Rafaeliana de Proteção às Baratas.
As baratas estão neste planeta desde milhões de anos antes de nós. Estarão aqui depois que o último homem der seu último suspiro em meio a uma nuvem radioativa. Este é o seu mundo, um mundo em que somos apenas hóspedes temporários. Nós não temos o direito de usurpá-lo de suas donas legítimas.
Devemos, antes de qualquer coisa, reconhecer sua superioridade absoluta em relação a nós. Quantos milhões de baratas são mortas todos os dias? Matam-se mais baratas em um dia do que rinocerontes em toda a História. E no entanto elas sobrevivem graças à sua tenacidade, enquanto nós, seres conscientes, agora lutamos para preservar os rinocerontes.
Devemos declarar guerra às baratas porque elas trazem doenças? Hipocrisia desses humanos inconseqüentes. Acaso não trouxemos nós tantas doenças ao Novo Mundo, acaso não extinguimos populações inteiras de silvícolas bonitinhos, e tantas índias ecologicamente conscientes não deixaram de dar de mamar a cachorrinhos inocentes? E apesar disso não pensamos em nos suicidar coletivamente como lemingues para expiar um pecado que todos nós carregamos em nossas almas. Em verdade, em verdade a culpa é nossa, que em vez de nos adaptarmos à convivência pacífica nos dedicamos a combatê-las com ódio irracional.
Como podemos erguer nossas vozes que se pretendem civilizadas em defesa do tratamento ético dos animais, enquanto tratamos nossas irmãs blatáricas de maneira vil e covarde? Baratas têm sentimentos como as chinchilas, têm instintos como as focas, querem viver como a Susan Hayward. E no entanto as assassinamos aos milhões todos os dias, e não fosse a sua superioridade biológica acabaríamos responsáveis por um grande desastre ambiental, interrompendo a cadeia alimentar.
Mas desastre ambiental não é o ponto fundamental, aqui, porque esse é um conceito antropocêntrico e precisamos abdicar dessa arrogância deletéria, essa coisa de nos acharmos os reis da Criação e da cocada preta. O que realmente importa é o respeito à mãe Gaia, é a consciência telúrica de um equilíbrio cósmico. Há que se respeitar o direito das baratas à vida. É inconcebível que não sintamos a dor da pobre baratinha atingida à traição por um jato de Baygon; inadmissível que nosso coração não se confranja enquanto ela, como um monge tibetano em chamas, corre sem direção em agonia e dor inimagináveis, chamando pela mamãe barata antes de morrer com as perninhas tremelicantes para cima. Que monstro é capaz de cometer tamanha iniqüidade sem derramar uma lágrima furtiva pelo trágico destino de nossa irmã? Como esses assassinos conseguem dormir à noite com a mancha do genocídio em suas mãos?
Uma barata tem o mesmo direito à vida que um leão, que uma vaca, que o Afanásio Jazadji.
A ARPAB vai se dedicar a campanhas educativas pela tolerância entre homens e baratas; à defesa da ilegalidade de drogas pesadas como Detefon, SBP e Rodox; à censura e banimento de filmes depreciativos e preconceituosos como Men in Black. Vamos fazer o Viva Rio abraçar o rio Maracanã e os tantos terrenos baldios espalhados pela cidade.
A ARPAB se dedicará também a reformar o nosso vocabulário. Nossos antecessores, tão íntegros e inteligentes como nós, mostraram que isso é possível, e agora anão é verticalmente prejudicado e puta é trabalhadora do sexo; vamos estender agora tal maravilha ao mundo das baratas — e vamos além, porque se anões continuam pequenos e putas continuam batendo calçada apesar dos nomes que lhes damos, nunca mais se ouvirá a expressão “sangue de barata”. Pois como podem associar covardia às baratas, essas criaturas valorosas que todos os dias se arriscam em incursões à casa de seus inimigos, e desafiando a morte e o perigo comem de sua comida? Baratas são sinônimo de coragem, e nossa ação em defesa do politicamente correto restabelecerá a verdade universal.
Aplaudamos, portanto, a chegada da nova consciência da Era de Aquário. Reconheçamos, finalmente, que a partir do momento em que julgamos errado criar chinchilas por suas peles, também se torna errado matar uma pobre barata que tem filhos para criar e um importante papel a cumprir na natureza. Nós, humanos, não somos melhores ou superiores a qualquer animal. É fundamental deixarmos de lado a hipocrisia e a conveniência, e adotarmos uma postura moral digna e, principalmente, coerente.
Um viva às baratas que merecem o nosso amor.
Originalmente publicado em 16 de fevereiro de 2006
Ecologia e hipocrisia
Dia desses, assistindo a um programa sobre criação comercial de chinchilas na TV Senai, apareceu uma senhora de uma dessas ONGs dizendo que suas objeções à atividade, cujo fim é a produção de peles, eram morais. Acrescentou que era diferente da criação de gado, à qual implicitamente aferia um nihil obstat.
E aí eu me confundi. Venho tentando desde então, mas ainda não consegui ver a diferença moral entre matar uma vaca ou matar uma chinchila. Ambos são seres vivos e nenhum deles gostaria de morrer.
É compreensível e louvável que protestem contra o assassinato de filhotes de foca ou baleias. É perfeitamente justificável a consciência da necessidade de respeito ao equilíbrio ecológico e à vida selvagem; nem tanto pelos animais ou plantas, mas pela sobrevivência humana. Mas quando se trata de criação comercial, uma atividade iniciada e controlada pelo homem, há mesmo alguma diferença entre vacas, chinchilas e jacarés? Eu não consigo ver nenhuma, além do fato de que chinchilas são bichinhos fofinhos e vacas têm olhares bovinos e babam — o que, numa interpretação freudiana bem liberal, fornece a justificativa para a condescendência desses ecologistas: elas lhes lembram suas imagens no espelho e portanto é OK matar as pobrezinhas. Uma espécie de masoquismo projetado.
Se criamos animais para o matadouro, que diferença faz se vamos aproveitar sua carne ou sua pele? Garanto que para o bicho diante do cutelo não faz nenhuma diferença. Parece sensato afirmar que esses limites morais são justificados pela necessidade humana. Mas ninguém, por exemplo, precisa comer carne. Ela fornece proteína? Soja também. Entupa-se de soja, portanto. Carne de soja. Leite de soja. Queijo de soja. Os Rolling Stones bebem leite de soja, por que não os mortais comuns? De fato, as pessoas podem passar suas vidas inteiras comendo apenas soja. Não há necessidade objetiva de carne, assim como não há de casacos de pele.
Mas coerência não é atributo desses ecologistas radicais, baseados em distorções pseudo-humanistas que acabam adquirindo os contornos de uma religião neo-pagã e materialista.
Para eles é eticamente aceitável matar uma vaca, mas não uma chinchila. Esse pessoal, com sua moral fácil e hipócrita de classe média urbana, não percebe sequer que o manejo de uma vaca é muito mais cruel e desumano que o de uma chinchila.
Imaginai-vos, dileta leitora, tendo vossas mamas apertadas duas vezes por dia. E não vos alegrai pensando que é o toque macio ou a mordida apaixonada do vosso amante: são as mãos ásperas e rudes de um vaqueiro desempenhando sem delicadeza uma tarefa automática. Isso, claro, se tiverdes a sorte de ser escolhida para a produção de leite tipo C; porque se quiserem tirar leite A de vossos úberes, ah, minha nega, então enfiarão vossas tetas em uns aspiradores implacáveis sem nenhum sentimento. E, por favor, não deixeis que eu vos fale de inseminação artificial. É pior, mil vezes pior que a posição humilhante que assumis diante de vosso ginecologista. Voltai ao carinho de vosso amante, e hoje à noite, aninhada em seus braços, não deixeis que um calafrio percorra vosso corpo ao lembrar-vos do pobre canal vaginal da vaca diante do aplicador comprido com o sêmem do touro; nem do reto, mais pobre ainda, diante do muito longo braço do tratador, que guiará o aplicador até o útero da vaca e, caso necessário, desobstruirá seus intestinos. Esquecei tudo isso e tomai um leitinho.
É graças a uma desconfiança inevitável em relação a esse relativismo moral que só confio em ecologistas vegetarianos. Por enquanto. Porque quando descobrirem que o príncipe Charles tem razão e as plantas têm sentimentos, eu só vou confiar em ecologistas mortos de fome.
E por tudo isso um dos meus sonhos é comprar um casaco de peles, mesmo achando-os terrivelmente cafonas, apenas para desfilar diante desses ativistas que ficam jogando tinta nos outros. Estaria, claro, devidamente acompanhado de uns quatro guarda-costas de excelente porte e péssima índole, apenas para vê-los dando um cacete nos idiotas quando emporcalhassem meu casaco. Se esse tipo de ativismo é a nova religião, está mais do que na hora de lhes dar um mártir.
Originalmente publicado em 15 de fevereiro de 2006
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