Sobre as eleições de 2014

Agora que acabaram-se as eleições, e Dilma continua presidente, o que mais me impressiona é lembrar que durante quase um ano vi aqui e em outros lugares uma série de análises políticas que, no fim das contas, leram mal a sociedade brasileira.

Vi, e vejo ainda, o pessoal reclamando dos retrocessos do governo Dilma, o mimimi de classe média dando lugar a um niilismo pretensamente esclarecido e com um discurso erroneamente politizado, e que não passa muito de uma certa negação elitista da política que se alastra entre a classe média e a elite cultural deste país.

Vi o pessoal repetindo as diversas variações do discurso da mudança, da demonização absoluta do governo Dilma. Aparentemente, parte da elite intelectual que me cerca via Dilma Rousseff como uma ditadora de extrema direita, capacho de Silas Malafaia. Se um inca venusiano desavisado caísse na minha timeline, acharia que Dilma era a sucessora dileta de Médici. Mais que isso, viria os ecos dos delírios que acompanharam as manifestações de junho de 2013: a de que “o gigante acordou”, a de que o Brasil queria uma mudança urgente, de que havia uma nova geração que pedia avanços mais radicais que Dilma com sua obediência cega à realpolitik era incapaz de realizar.

Mas agora que as eleições acabaram uma coisa ficou bem clara, e me impressiona que as pessoas não falem nisso: no fim das contas a tão antecipada mudança, se viesse, viria pela direita. Não seria Luciana Genro a próxima presidente: seria Aécio Neves. Aécio, do PSDB. É, aquele partido que, deslocado do centro pelo PT, se assemelha cada vez mais à UDN. Essa foi a mudança que mais de 48% da população brasileira quis.

Eu não tenho a mínima pretensão de entender o que foram as manifestações de junho e como está se processando a evolução política do país. Nada do que li me pareceu explicar direito o que foi aquilo — e a votação assustadora do Aécio me parece contradizer a maior parte do que foi escrito, porque o povo brasileiro afinal de contas não achava que mudar e avançar eram sinônimos. Mas desse processo de pouco mais de um ano, o que ficou foi a certeza de que o pessoal que comenta no FB se descolou completamente da realidade. De que eles não conseguem reconhecer a diversidade das forças sociais e de como se dá a disputa por espaço dentro do Estado em um regime democrático. E aderindo em massa ao voto nulo, parecem brincar na base do “se não é como eu quero, então não quero mais brincar”, e o que é pior: do “é melhor sofrer um governo do PSDB do que garantir conquistas importantes, ainda que isso signifique compactuar com esses criminosos nazistas petistas e peemedebistas e pepistas e pessedistas.”

Por isso tenho orgulho de ter votado em Dilma Rousseff, no primeiro e no segundo turnos. Porque desde o início me recusei a colocar em risco algo que me parecia importante: a continuidade de um projeto que, se imperfeito, ainda assim é melhor do que as alternativas concretas postas na mesa.

Até entendo e poderia justificar os votos na Luciana Genro, por exemplo, no primeiro turno. Não votaria nela, por mais agradável aos meus ouvidos que seja o seu discurso e sua firmeza inquestionável de propósitos. Não votaria porque eleição para mim não é brincadeira; mas também porque no fim das contas sua posição é a mais confortável possível. Ela pode ter o discurso que quiser (assim como aquele valentão de subúrbio que atende pelo vulgo de Levy Fidelix) porque sabe que não será obrigada a negociar com as diversas forças da sociedade — forças que fazem de Jair Bolsonaro ou Marco Feliciano representantes do povo tão legítimos quanto Jean Wyllys (ou mais: Bolsonaro teve cerca de três vezes mais votos que Wyllys. E se em 2014 Jean decuplicou sua votação em relação a 2010, Marco Feliciano dobrou a sua, e ainda teve mais do dobro dos votos do seu nêmesis. Ou seja: por menos que a gente goste, o povo brasileiro gosta mais de Marco Feliciano do que de Jean Wyllys, e sua voz também precisa ser ouvida. Se você não gosta disso, vamos falar sobre armas e células e guerrilha. Eu topo).

Por menos que gostemos, qualquer governo vai fatalmente ter que negociar. É claro que é possível avançar mais — e eu me juntaria ao coro daqueles que dizem que o Governo Dilma foi tímido, que poderia ter avançado mais, até que deu uma guinada para a direita. Acontece que hoje a disputa não era entre esse projeto e um mais progressista, como o de Luciana Genro: era entre esse, que bem ou mal ainda representa avanços e realizou, sim, a maior revolução social da história deste país, e um que significaria um dos maiores retrocessos que esse país poderia atravessar.

Numa disputa acirrada como foi essa, na minha humílima opinião a abstenção significa tão somente um ato de covardia e colocar o país em um risco imensurável. E talvez por isso, uma das coisas que mais me impressionaram positivamente foi perceber que, entre a classe média que não se rendeu ao canto alcaloide dos tucanos, a maior parte dos votos em Dilma não era de pessoas com interesses diretos no governo — com benesses, cargos ou quetais que queriam preservar. Além do voto legítimo do pobre ou nova classe média que hoje come e compra calça jeans, muitos dos que votaram em Dilma fizeram isso para preservar benefícios que melhoraram as vidas dos outros, como o Bolsa Família.

O mais engraçado é que algumas vezes tive um tiquinho de vontade que Aécio se elegesse. Primeiro porque seria justamente essa classe média que votou nele, e que se beneficiou imensamente com os governos Lula e Dilma, a sua primeira vítima – conquistas como o Bolsa Família, por serem lei, seriam mais difíceis de derrubar. E depois porque aí eu retomaria este blog apenas para poder escrever posts de oposição.

É sempre fácil ser oposição. É a posição mais cômoda, porque você precisa apenas apontar o que está errado — e em um regime democrático nada está totalmente certo. Você pode ter os mais puros ideais, não precisará firmar compromissos nem entender que política é sempre negociação, mesmo na Coréia do Norte. É muito bom ser vestal, porque seu discurso será sempre correto, porque ninguém poderá lhe questionar. É a satisfação ilusória da pureza inexistente.

Infelizmente, avanços como os dos últimos 12 anos não foram feitos com esse tipo de postura. Foram feitos colocando a mão na massa, com compromissos, negociações, negaceios e guinadas. Com idas e vindas — muitos dos quais pouco recomendáveis, mas necessários. Isso é política. Só para lembrar, Luciana Genro, Eymael, Eduardo Jorge e Rui Costa Pimenta teriam que fazer isso, se eleitos.

Por isso essa decepção com a minha timeline. Por ver que tanta gente foi incapaz de entender — ou, se entendeu, dar as costas assim mesmo — que no segundo turno o que estava em jogo não eram os ideais mais altos da política como se entende nos bares em torno das universidades, mas a possibilidade concreta de uma série de avanços sociais e econômicos sofrerem um retrocesso importante. Essa é a grande característica de eleições revogatórias como essa pela qual passamos.

Política é isso. Alguém disse que era a arte do possível, e estava muito próximo da verdade. Essa parte da esquerda que vejo cá no Facebook parece ter esquecido isso, entrado num loop infinito das opiniões dos pequenos guetos que se retroalimentam e validam suas escolhas. É uma pena.

Mas que se dane. São oito da noite, eu já bebi quase duas garrafas de vinho e Dilma ganhou. Acho que tive um papel pequenininho nessa vitória. E isso para mim é o bastante.

Diário de guerra

Procurando arquivos antigos deste blog, achei uns textos que comecei a escrever em 2008 e nunca terminei. Era uma espécie de diário de campanha, escrito, se não me engano, para poder comparar depois com os resultados. As exigências da campanha e o cansaço natural acabaram fazendo com que ele durasse pouco mais que os primeiros 10 dias; ou talvez não tenha sido por isso, tenha sido apenas porque melhor que registrar ou comentar uma campanha é fazê-la. O que sobrou está aí. E de repente me vi transportado a uns dias que já tinha esquecido.

***

19 de agosto
Amanhã começa.

Até agora, Almeida Lima tem impressionado pelo volume de campanha. 30 carros de som na rua, dizem que a maioria vindos de Brasília (segundo alguns, presente do Roriz). Gente pra cacete segurando bandeiras nos cruzamentos.

É engraçado que ele, um candidato isolado politicamente, tenha tantos carros de som na rua, tantos cabos eleitorais. Dizem que é o dinheiro de Renan Calheiros e de Roberto Jefferson. Não parece improvável. A não ser que Almeida realmente tenha se dado àquele desfrute, à humilhação de ser chamado de “boneca” em plenário por Tasso Jereissati, sem receber nada em troca.

Mas amanhã é que a guerra começa mesmo.

20 de agosto
Começou. Depois de mês e meio de punheta, de caminhos falsos e verdadeiros, o programa está no ar. A gente fez um programa correto: a biografia de Edvaldo e um resumo das obras desses dois anos, além da sua fala introdutória à campanha. É o caminho mais correto possível, uma apresentação simples do candidato.

Mendonça apresentou uma biografia medíocre, sem emoção, e se amparou no apoio dos sogros, o ex-governador João Alves Filho e a senadora Maria do Carmo Alves — a mulher está em São Paulo se tratando de uma doença grave. Ficou esquisito. Programa mal concebido, mal dirigido e mal escrito. Isso é ruim, eu queria que Mendonça crescesse um pouco e embolasse com Almeida, mas se continuar assim a vaca dele vai para o brejo rápido demais.

Almeida fez basicamente uma biografia longa e a sua própria fala. A biografia é uma coisa bisonha: filmada em preto e branco, com atores. Falso, artificial. O texto é bem escrito, mas a insistência em mostrar que o sujeito vendia cajus quando era criança é uma bobajada: hoje o cabra é milionário, comprou uma rádio assim que saiu da Prefeitura, tudo isso soa falso. Como soa falsa a fala dele. O sujeito tem boa impostação de voz, mas tudo nele é fake e excessivamente professoral. Me lembrou Lombardi mandando abrir as portas da esperança. Ele não cria empatia. Almeida acabou incorrendo no erro oposto ao de Mendonça.

Essa nós ganhamos.

21 de agosto
A quali confirmou tudo aquilo que imaginamos. Apresentamos o melhor programa, as pessoas não gostaram da biografia de Almeida, e a única coisa que notaram fora do programa de Edvaldo foi a presença de Maria do Carmo, como uma moribunda. Eu pensava que a fala de João seria mais significativa e teria mais recall. Estava errado.

O Damien transformou o comercial “Vida” em uma peça lindíssima. O belga está se revelando um puta diretor publicitário. E ele nem sabia disso.

Assisti de novo aos programas dos proporcionais [candidatos a vereador]. É bom rir. Mas o melhor é ver que a Ivana, que é cantora, é uma bela apresentadora. Outro talento que a gente descobre. Isso é bom.

22 de agosto
Programa de saúde. Blindagem necessária e valorização do trabalho realizado. Não gostei muito do programa, saiu “picotado” demais, o ritmo não é o melhor possível. Eu acho que o ideal seria um programa mais lento, mais emotivo, mais consistente em termos de informação. Mas comparado aos outros da noite, é bem superior.

Tive um acesso de riso quando vi Mendonça e Maria do Carmo em pé, no programa. Mendonça falava e Maria, em pé ao lado dele, fazia cara de zonza. A impressão que dá é a de que ele está segurando a mulher para que ela não caia; ele parece de ventríloquo e ela parece um boneco mudo. Que coisa bisonha. Gargalhei durante a cena inteira, nem mesmo ouvi o que ele dizia. E quando ele está terminando de falar, a impressão que se tem é a de ele a solta por uns segundos, e ela parece que começa a cair e então ele a segura de novo. Tosco. Acho que nunca ri tanto, parecia uma crise histérica. Talvez seja mesmo.

E o louco do Almeida simplesmente repetiu o primeiro programa, sem tirar nem pôr. Não consigo conceber uma explicação para isso. Apostam aqui que isso se dá pelo narcisismo dele: ele adora se ver, acha que todos adoram vê-lo, e aí empurrou aquela merda. Deus queira que ele continue se achando tão bom.

23 de agosto
Agora é oficial, a gente não pode mais mostrar imagens externas em movimento nos comerciais. Pode nos programas, mas não nos comerciais. A justiça eleitoral é de uma estupidez impressionante. Mas esperar o quê de advogados, afinal? Vamos ter que trocar os pés-de-boi, os comerciais diretos que falavam sobre a obra de Edvaldo. Isso é mais preocupante porque que a última onda do tracking demonstrou um crescimento significativo a partir do dia 19, quando os comerciais entraram no ar. Eles lembraram ao povo o volume e a qualidade das obras de Edvaldo. Agora é descobrir uma solução criativa para contornar esse problema.

A quali confirmou tudo o que esperávamos. Destaque para a rejeição causada pela aparição de Maria no programa de Mendonça. Coitado de Mendonça.

Rosalvo o encontrou no almoço e lhe deu um bom conselho: em vez de bater só na gente, ele devia bater também em Almeida. É Almeida quem está se consolidando como o nome da oposição. Almeida não tira votos da gente, tira votos dele. Até a cor do bloco de oposição, o verde, Almeida tomou deles. Mas duvido que Mendonça siga os conselhos do pândego, e a gente vai continuar apanhando e a porrada não vai surtir efeito.

25 de agosto
Mendonça Prado fez um programa fazendo uma denúncia sobre o Santa Maria. Mostrou uma rua em condições desumanas. Fez o melodrama típico de apresentadores de programas de mundo cão. Alguém devia dizer a ele que a Prefeitura está investindo 66 milhões de reais ali, urbanizando o bairro todo e construindo 2 mil casas. É claro que o bairro está em más condições; se não estivesse, não precisava de obras desse porte. Se ele tivesse visto os programas da gente saberia disso. De qualquer forma, ele deveria lembrar que quem botou aquele pessoal ali, naquelas condições sub-humanas, foi a sogra dele, Maria. A gente acertou em escolher Infraestrutura como o tema de hoje, porque acabamos apresentando a nossa versão na mesma hora, com mais competência, e não fica parecendo uma resposta.

O programa de Almeida parece ter finalmente encontrado um eixo decente: estão mostrando as obras que ele fez há 12 anos, quando foi prefeito. Não têm imagens em movimento — pelo visto não cuidaram do arquivo –, e por isso usam muitas fotos. Aposto que isso vai acabar cansando.

Fico impressionado ao ver como o sujeito mente. Eu sei que ele não fez metade do que diz que fez, mas ele mente e diz a verdade com a mesma ênfase, é impressionante. Não dá para diferenciar.

E nós fizemos um programa perfeito. Perfeito. Modéstia à puta que pariu, o fato é que a gente entende desse babado. Demos um baile nos outros e desmontamos todos os seus argumentos. Mostramos as obras de Edvaldo, o PAC no Santa Maria, um baile.

26 de agosto
O pessoal que fica segurando as bandeiras de Almeida nos cruzamentos não usa mais as camisas verdes com o A de Almeida. Agora nego segura o pau de Almeida sem se identificar. É mais uma estupidez da justiça eleitoral, exigir que o pessoal que trabalha para um candidato não se identifique. Eles acham mesmo que aquele pessoal fica o dia inteiro nos cruzamentos, debaixo de um sol desgraçado, de graça? Qual o problema?

A quali confirmou o chocolate de ontem. O programa de Mendonça foi considerado apelativo, e Almeida conseguiu um certo recall mostrando fotos de suas obras. Eu estava errado, pelo visto, mas continuo achando que esse eixo vai se esgotar e ele vai começar a bater na gente. Não entendi por que não bateu ainda na saúde, porque esse é sempre o ponto mais óbvio. Talvez porque Edvaldo tenha aumentado o volume de recursos próprios investidos em Saúde para 18% enquanto Almeida, que pegou em 6%, baixou para 4%. Esses dados vão ser aproveitados na hora certa, se for preciso. Outra coisa: ontem ele fez um rap sobre a dengue; acho que esqueceu que na gestão dele teve epidemia, sim. Ou então aposta que a gente esqueceu.

E o povo está blindando Edvaldo. Não é a gente, é o povo. Isso é fantástico, por si só e porque é um grande indicativo de vitória. Almeidinha, você não vai ter nem 20% dos votos.

27 de agosto
Programa sobre Educação já na produção, tudo caminhando bem. O programa de Proteção Social ficou lindíssimo. E vai ajudar a resolver uma dúvida minha. Tenho a impressão de que o eleitor anda mais refratário a sentimentalismo barato — o que torna mais difícil uma denúncia como a do Vale do Cotinguiba, em 94. A recepção ao programa de hoje vai ser um bom indicativo. Se bem que há variáveis demais: há uma certa boa vontade em relação a Edvaldo. Mas acho que o segredo está na forma como se faz esse tipo de peça.

29 de agosto
Pela primeira vez, o Mendonça Prado fez um programa quase bom. Eu não sei se é por falta de dinheiro ou por falta de talento, mesmo, mas insistem num formato esquisito: o sujeito o tempo todo no vídeo, plano americano, jogando uma cacetada de propostas. Para começar, Mendonça não é simpático. Para terminar, as propostas soam vagas, excessivamente ambiciosas, parecem promessa típica de político. Tem muito tempo que não faço campanha de oposição, provavelmente nem sei mais fazer, mas se eu estivesse ali faria menos propostas, mas mais conseqüentes, mais detalhadas; mostraria, por exemplo, de onde tiraria o dinheiro. Acho que passa mais credibilidade. Sei lá.

Mas hoje ele resolveu bater no trânsito. Questionou os parquímetros. E disse que vai substituí-los pela zona azul. O programa me soou mais denso. Fizeram apenas uma grande idiotice: chamaram o Cássio Taniguchi — “Olha com quem eles foram se pegar”, disse o Rosalvo — para dizer o que poderiam fazer com a avenida Euclides Figueiredo — justamente uma das grandes que Edvaldo está terminando de recapear agora. E o sujeito se sai com essa: “As calçadas são muito largas, podemos diminuí-las”. Isso não vai dar bom recall, eu aposto.

Almeida deu uma boa porrada na saúde, e bateu de novo na dengue. Acho que o ataque vai surtir efeito; foi pelo menos mais bem articulado que os de Mendonça. Mas aí ele tem que aparecer falando com aquela voz de Lombardi e aquele ar arrogante e pouco confiável. E joga as propostas mirabolantes dele. É impressionante como o programa está ruim.

O nosso programa de Educação ficou lindíssimo. Os drops com dados que o Paulinho criou ficaram fantásticos, espalhados ao longo do programa. A diferença entre os nossos programas e os deles é gritante. Não só no conteúdo, na forma também.

30 de agosto
A quali mostrou que a tirada do Taniguchi foi mal recebida: “E a gente vai andar onde?” Povo 1 x 0 tecnocratas. Lindo. Mostrou também algo que eu não esperava: o povo sabe muito bem que trocar parquímetros por zona azul é, nas palavras deles, “trocar 6 por meia dúzia”.

31 de agosto
Eu estou apostando que Almeida Lima vai terminar em terceiro, que Mendonça Prado vai ultrapassá-lo. Em parte pela conjuntura política, mas em parte porque o programa de Almeida me parece meio desvairado.

Alceu Valença se ofereceu pra regravar o jingle de Aracaju. Estamos chiques. Chique no último.

1 de setembro
Talvez o que mais maravilhe a gente seja a forma como o povo esteja demonstrando carinho por Edvaldo. É algo que ninguém esperava. Eu acho que isso se deve a uma série de fatores. O primeiro é a bênção de Déda sobre Edvaldo; o segundo, a mitificação natural que acontece durante uma campanha; e terceiro o conforto natural que Edvaldo começa a sentir no seu papel de prefeito.

O programa de Mobilidade Urbana ficou redondíssimo. A gente usou o mesmo tema que Mendonça usou no programa de sexta — a diferença é que conseguimos ser levados a sério e ele não.

Mendonça fez o programa de sempre, agora sobre juventude. É um tema do qual eu nunca gostei, por ser limitado demais. Acho que deveria ser tratado sempre em conjunto com outros temas, como uma espécie de tema transversal. Mas alguém deve ter convencido o coitado de que ele tem respaldo junto à juventude, e o sujeito concentrou o programa nisso. Foi um dos seus piores programas até agora. Mostrou também a sua carreata com João Alves. É perceptível que não tinha ninguém, até porque eles não têm mais o dinheiro do Estado para distribuir 30 litros de gasolina para os participantes. Mas pelo menos pode dar a impressão de que a sua campanha existe nas ruas.

Já Almeida voltou a centrar fogo na saúde. Repetiu o programa de sexta, basicamente, tirando as partes que tiveram menos aceitação. É um programa muito ruim, o dele. Quando a campanha acabar eu descubro qual é a equipe. Porque o texto do primeiro programa era muito bom; minha impressão é a de que são bons profissionais em uma circunstância ruim.

2 de setembro
E o Déda viu o programa ontem e disse: “Não tenho nada a acrescentar a esse programa”. É um dos maiores elogios que a gente pode receber. É difícil, para quem nunca viu o cabra, entender o que ele é, ou a sua inteligência e sensibilidade.

Nova pesquisa, agora do Jornal da Cidade/Instituto Soma: Edvaldo com 54,1% dos votos válidos. Bate com os números anteriores. Agora é esperar a da Globo/Ibope, na quinta. Deve dar números semelhantes.

3 de setembro
Engraçado: agora que todo mundo admite a possibilidade de Mendonça ultrapassar Almeida, começo a ter dúvidas da aposta que eu queria fazer. Não sei direito. Talvez porque o programa de juventude de Mendonça tenha sido horroroso, talvez porque parece que nada que ele diga merece ser levado a sério. De qualquer forma, ele está aí como herdeiro do bloco de oposição, talvez suba com isso. Eu não sei, sinceramente.

Sinto falta de um pouco de medo. Não cautela, porque isso a gente tem; mas medo, mesmo, um sentido um pouco maior de urgência.

***

Resumo da ópera: a campanha seguiu por mais um mês. Houve momentos em que me arrependi de ter dito que “sentia falta de um pouco de medo”, e nunca mais digo isso novamente em uma campanha.

A informação sobre a epidemia de dengue durante a administração de Almeida não foi utilizada originalmente no programa, mas em um debate. Eu estava na platéia e vi Almeida ficar com a mesma cara de menino pego em flagrante roubando um pirulito que mostrou ao receber um esporro antológico de Aluízio Mercadante no Senado, em 2003.

(Uma explicação sobre a importância que dávamos à dengue. Em 2008 Aracaju teve uma epidemia, e das grandes. Morreu gente. Mas em abril nós já tínhamos a sensação de que aquilo acabaria sendo uma vantagem para nós, por causa da ação rápida de Edvaldo, e o episódio acabaria reforçando a imagem de Edvaldo como administrador eficiente e forte. Almeida, no entanto, resolveu apostar na dengue. E disse que “em sua gestão não houve epidemia de dengue”. Foi uma das coisas mais estúpidas que alguém poderia dizer. Porque houve uma pequena epidemia, sim — mas se ele não tivesse falado isso não faria diferença, já que à época o combate à dengue não era atribuição municipal. Ou seja, ele tomou para si uma responsabilidade que não era sua, e o tiro saiu pela culatra.)

Mendonça Prado, contando com a força de João Alves Filho, realmente conseguiu ultrapassar Almeida Lima. Deu uma boa subida depois de se sair bem em um debate e, finalmente, aproveitar competentemente esse material no programa. Mas Edvaldo ganhou no primeiro turno.

E eu, mais uma vez, aprendi um bocado com a campanha.

Não costumo rever campanhas, porque depois que passam elas me incomodam, e só consigo ver os erros nelas, meus e dos outros. Mas dia desses revi alguns programas dessa campanha. Embora a minha campanha preferida de 2008 seja a de Kassab em São Paulo, eu tenho que admitir que nós fizemos um belíssimo trabalho. E é isso o que a gente leva da vida.

Essa gente que bota gosto ruim no nosso amor

Assim que vim morar em Sergipe, no começo dos anos 80, um comercial da Telebrás falava de Canindé do São Francisco — cidade onde hoje está a Usina Hidrelétrica de Xingó. O município sergipano mais distante da capital, situado no alto sertão, na esquina com a Bahia e Alagoas, finalmente ganhava acesso à telefonia, pouco mais de 100 anos depois de sua invenção. Esse era o nível do desenvolvimento da região.

Passaram-se dez anos e então, aí pelo começo dos anos 90, eu costumava ir regularmente à cidade, passar fins de semana na fazenda de um amigo. Aprendi a reconhecer a região e a caatinga. Mas depois fui embora de Sergipe, não vi mais Canindé, não vi mais caatinga e nem essas coisas de sertão.

Passei pela cidade novamente no começo de 2004, e mencionei o fato neste blog para fazer um agradecimento extemporâneo. Aquele sertão que eu conhecia razoavelmente continuava basicamente o mesmo, apenas com as melhorias naturais do tempo. Ao longo das estradas que hoje compõem a Rota do Sertão, e cortam boa parte do sertão sergipano, as paisagens urbanas se mantinham mais ou menos as mesmas de 1992. Cidade após cidade, a mesma miséria, a mesma sensação de fim de mundo. Claro que naqueles 11, 12 anos a região tinha crescido. Mas era um crescimento inercial, o crescimento natural e mínimo de todo lugar abandonado por Deus. Lembro de estar parado num povoado de Canindé e observar um homem forte passando na rua. Era o meio do dia. Fiquei impressionado ao perceber o que a falta de oportunidades fazia com aquelas pessoas: gente que pela constituição física estava acostumada ao trabalho duro, mas condenada a vagar pelo meio do povoado por falta do que fazer.

Agora vejo um artigo da jornalista Eliane Cantanhêde falando da ascensão do Brasil à posição de sexta potência econômica do mundo. Falando mal, obviamente: ela se pergunta que desenvolvimento é esse, se a pobreza está em todo lugar, e usa o Nordeste como exemplo da miséria que esses governos incompetentes não conseguiram resolver.

É um padrão de comportamento típico de certos setores da imprensa: a notícia é boa, não traz nada negativo, mas há que fazer um pequeno esforço e ver como se pode falar mal; com jeitinho sempre se descobre que é possível fazer um comentário desagradável, e se a gente procurar vai ver que o país continua a mesma merda de antes, na verdade até pior. Jornalistas de oposição — e o termo é usado aqui propositalmente — parecem ter complexo de viralata, e se o copo não estiver completamente cheio tem que estar totalmente vazio.

De qualquer forma, eu não sei o quanto a Cantanhêde conhece o Nordeste, para falar assim com propriedade da evolução da região. Mas ao usá-lo como exemplo para questionar a qualidade e mesmo a veracidade do desenvolvimento brasileiro, ela mostra desconhecer, se não a realidade, a história recente do torrão natal do ex-presidente Lula.

O artigo da Cantanhêde me fez lembrar que passei por Canindé e por aquele povoado novamente há umas duas semanas. E para isso precisei atravessar outras cidades — aquelas mesmas que até cerca de oito anos atrás pareciam paradas no tempo.

Eu não impressiono com muita coisa, porque já me acostumei a fingir que a idade me dá o direito de ter uma atitude blasé diante da vida. Mas eu fiquei bobo, genuinamente embasbacado. Em menos de sete anos construiu-se um mundo completamente diferente. As cidades cresceram absurdamente, a ponto de algumas delas se tornarem praticamente irreconhecíveis para mim. Os sinais de desenvolvimento se espalham por elas: lojas de material agropecuário, redes locais de lojas de móveis — o comércio floresceu de uma maneira que me deixou de boca aberta. É outro lugar. O que antigamente eram variedades indistintas do fim do mundo, hoje são lugares possíveis de se morar. Além disso um detalhe curioso: assentamentos de Sem-Terra — Sergipe tem um dos melhores programas de reforma agrária do país, se não o melhor — estão dando origem a novas cidades.

Muito desse desenvolvimento se deve à ação do governo de Sergipe, que inverteu o mecanismo político ao intervir diretamente nos municípios e levando para o interior um tipo de desenvolvimento que, até pouco tempo atrás, estava restrito à capital. Mas o principal elemento de transformação do sertão foi o Bolsa Família, o Luz para Todos, os investimentos federais.

Ver as cidades do Alto Sertão sergipano me lembrou que costumamos — eu inclusive — falar do Bolsa Família e de outros programas do Governo Federal a partir de um ponto de vista urbano. Se isso não é um erro, agora estou convencido de que é insuficiente. Por mais benefícios que o BF tenha trazido para as cidades médias e grandes, não é nada que se compare ao efeito redentor alcançado nos lugares mais miseráveis como o sertão. É imensurável, mas estapafurdiamente óbvio.

É por isso que é tão estranho o parágrafo final da Cantanhêde:

O que está em pauta não é (só) o ritmo da economia e o complexo equilíbrio entre crescimento mais baixo e inflação debochada, mas principalmente a qualidade do desenvolvimento. Há que se discutir por que, para que e para quem o Brasil assume ares de potência.

Então, dona Cantanhêde, deixa eu explicar uma coisinha para a senhora: o que fez a diferença nesses anos — e agora, depois de ver o que aconteceu com o sertão nesses últimos anos, tenho mais certeza do que nunca — foi justamente a qualidade do desenvolvimento promovido pelos governos Lula e Dilma Rousseff. Não há novidade nisso, mas jornalistas de oposição como a senhora parecem se recusar a entender, não importa quantas vezes isso lhes seja repetido e demonstrado. Foi justamente porque a qualidade do desenvolvimento mudou que nossa economia conseguiu aguentar os trancos da crise econômica mundial e ultrapassar a inglesa. É, aquela mesma que por sua vez continua recitando o ideário que a senhora acha bonito.

O artigo da Eliane Cantanhêde me lembrou algo mais legitimamente nordestino do que suas impressões: um trecho de “Karolina com K”, uma das obras primas de Luiz Gonzaga. Mais especificamente o trecho em que Karolina, doidinha para ir embora do forró e ficar sozinha com o seu sanfoneiro, vê o pessoal indo atrás deles e comenta: “Olha, Gonzaga! Puxa mesmo que a cabrueira vem aí atrás, parece que eles tão querendo botar gosto ruim no nosso amor!”

Karolina não sabe, mas a cabrueira continua agoniada, botando gosto ruim nas coisas que não consegue compreender nem aceitar.

José Serra não está preparado para ser Chefe do Estado brasileiro

O que mais chama à atenção nas declarações recentes de José Serra sobre o presidente da Bolívia, Evo Morales, é que elas servem, quando menos, para comprovar uma constatação que vinha tomando corpo nos últimos anos.

É uma constatação muito simples, mas fundamental para a compreensão do cenário político atual: a direita brasileira não apenas foi incapaz de trazer o Brasil ao estágio de desenvolvimento em que ele se encontra. Infelizmente, ela é também incapaz de administrar esse novo país — mais rico, mais justo, mais importante.

Já há algum tempo, vinha ficando cada vez mais claro que o PSDB/DEM tem dificuldades em entender o país em que vivemos atualmente. Suas investidas contra a participação do Estado na economia mostram que, mesmo que os fatos desabem sobre suas cabeças, eles não conseguem enxergar além de suas fórmulas de administração de país subdesenvolvido, condição que, historicamente, é a favorita da direita brasileira. Mesmo depois do crash de 2008, quando a atuação eficaz do Governo impediu que o Brasil seguisse os passos de países tradicionalmente mais ricos e atolasse em um dos maiores lamaçais financeiros da história — enterrando de vez as lembranças amargas das crises em que o governo de Fernando Henrique Cardoso, padrinho de Serra, enfiou o Brasil.

Se essa situação já estava suficientemente clara em termos de política interna, agora Serra se encarregou de demonstrar que a incapacidade do grupo que representa não conhece limites. E mostrou que é realmente um candidato globalizado, como o PSDB/DEM gosta de ser: sua estupidez demonstra estar em expansão constante, e não consegue se limitar a meras fronteiras nacionais.

Ao acusar um Chefe de Estado estrangeiro de cúmplice de traficantes, José Serra fez muito mais que cometer uma gafe diplomática. Mostrou, acima de tudo, a sua completa incompetência em política internacional.

Já se sabia que, como virtualmente toda a direita brasileira, Serra não consegue enxergar as diferenças óbvias e cruciais entre Evo Morales e Julio Cesar Chávez, não consegue entender as condições objetivas de governo de cada um deles, suas necessidades políticas e suas retóricas diferentes. Por isso, por não compreender o que vê, trata a ambos como criminosos.

Mas agora o caso se torna mais grave. Ao tratar um líder legítimo e importante para a história de seu país como Evo Morales de uma forma indigna, ofensiva e caluniosa, enquanto fecha os olhos para os crimes verdadeiros cometidos pelo grupo do colombiano Álvaro Uribe, com quem tem muito mais afinidades ideológicas, Serra deixa antever a extensão da catástrofe que seria um eventual — e cada vez mais improvável — mandato seu em termos de política exterior e comercial.

Não se trata mais de discurso e presunções: falamos, agora, de atitudes concretas. Já temos indícios suficientes de que, se fosse eleito, Serra se encarregaria de devolver o Brasil à posição com a qual essa direita encabeçada pelo PSDB/DEM se sente mais confortável: a de um país subalterno e subjugado, envergonhado e resignado à condição de pobre da periferia — um país que assume completamente o seu complexo de vira-lata.

Insultando Evo Morales e colocando o Brasil como alvo de críticas justas, pela primeira vez em muitos anos, José Serra demonstrou que não é capaz de desempenhar dignamente a função de chefe de Estado. De nenhum país, nem mesmo de Honduras — mas, principalmente, se mostrou incompetente para governar um país em consolidação econômica e ascensão no cenário internacional como o Brasil.

Justiça seja feita: o feito que Serra conseguiu não é para qualquer um. A inserção internacional que o Brasil conquistou, contrariando as recomendações do PSDB/DEM, foi pela primeira vez em muitos anos abaladas pelas declarações absolutamente infelizes de um candidato que se pretende uma alternativa viável de poder.

Alternativa ele acaba de provar que é. O problema é que não é a melhor possível; não é sequer uma alternativa desejável para um país que se respeite.

Sobre o Bolsa Família

O Bolsa Família se transformou em uma das principais pedras de toque do governo Lula por uma razão: ele funciona, como nenhum outro antes dele.

Maior programa de transferência de renda do mundo, o Bolsa Família estabeleceu uma quebra de paradigma importante no modelo de assistência social. Até a era FHC, assistência social era basicamente dar um dinheirinho a famílias em situação de miséria e esperar que o pai não gastasse tudo em cachaça. Com o Bolsa Família, o governo Lula estabeleceu diferenciais importantes que transformaram o programa em uma alavanca não apenas para o alívio da situação de desespero de milhões de famílias brasileiras, mas em um instrumento de desenvolvimento social.

Os números são os seguintes: há 19.653.677 famílias no Cadastro Único, que mapeia as famílias pobres e servem de base para a definição das políticas sociais do governo. Dessas, 15.729.878 famílias têm perfil para serem atendidas pelo Bolsa Família — ou seja, estão abaixo da linha de pobreza. Finalmente, desse universo, 12.494.008 são atendidas pelo programa.

Não é só isso. O PSDB/DEM, expressando o tipo de pensamento mais canhestro da direita brasileira, alega que o Bolsa Família incentiva a “vagabundagem”; não é incomum ver idiotas de classe média ou alta dizendo em tom jocoso que as pessoas não vão mais trabalhar, vão apenas fazer filhos para receber o benefício — é um desrespeito ao povo brasileiro dizer algo do tipo, levando-se em conta que o Bolsa Família é uma renda complementar e não é suficiente para sustentar completamente uma família.

Felizmente os números desmentem esse tipo de imbecilidade: de acordo com o IBGE, 77% das famílias atendidas pelo BF trabalham formal ou informalmente (entre os não beneficiados, o número cai para 73%). Mais ainda, 99,5% dos beneficiados que tinham algum tipo de ocupação não deixou de trabalhar porque passou a receber o Bolsa Família. Na verdade, o programa acaba incentivando o empreendedorismo, ao dar mais possibilidades aos beneficiados de gerar mais renda.

O Bolsa Família é dado às famílias, não a indivíduos. Às mães, preferencialmente, por serem elas as cabeças da maior parte das famílias pobres e porque, quando há um chefe masculino, ele não é exatamente confiável. Curiosamente, isso acaba modificando bastante as relações de gênero justamente entre as camadas mais baixas da sociedade. Além disso, o Bolsa Família não tem prazo de validade. É concedido enquanto as famílias precisem delas, e suspenso definitivamente apenas quando sua faixa de renda muda. Ou seja: quando melhoram de vida.

O principal diferencial do Bolsa Família e os programas assistenciais anteriores está em um fator simples, mas decisivo: a condicionalidade. Para receber o benefício, cada família precisa cumprir algumas condições básicas. São condições simples, como manter os filhos na escola, seguir o calendário de saúde — vacinação, pré-natal, etc –, e participar dos programas de capacitação profissional e geração de renda. Ou seja: em vez da esmola que o PSDB dava a uns meninos por aí, o Bolsa Família é um processo amplo e consequente de inclusão social.

Uma das vertentes do discurso do PSDB/DEM de demolição do Bolsa Família é o de que falta uma porta de saída. Falam isso por ignorância ou por má fé. Porque o próprio mecanismo do Bolsa Família é, por si só, uma porta de saída. Assistencialismo barato como o praticado pelo PSDB/DEM é dar o dinheiro e fim de papo. Em vez disso, para poder receber o Bolsa Família cada família beneficiária precisa cumprir uma série de condicionalidades, além da óbvia que é estar comendo o pão que o diabo amassou com o rabo. O Bolsa Família obriga as pessoas a estudar, a cuidar da saúde. Isso é a porta de acesso à cidadania. E de saída da miséria.

Mais objetivamente, eles esquecem que, além dos cursos de qualificação e geração de renda diversos, o governo Lula lançou, ano passado, o mais específico Plano de Qualificação Profissional para Beneficiários do Bolsa Família, uma série de cursos profissionalizantes que buscam aumentar o nível de empregabilidade dos beneficiários. Os primeiros cursos se dirigem à construção civil, setor da economia que tem absorvido mais mão de obra em grande parte devido às obras do PAC.

Finalmente, o Bolsa Família movimenta a economia. Por causa da renda complementar proporcionada por ela, as pessoas compram em suas comunidades — para horror do PSDB/DEM, que se irrita ao ver que as pessoas votaram em Lula e vão votar em Dilma porque depois de muito tempo passaram a realizar esse ato tão insignificante do ponto de vista macroeconômico chamado “comer”. Comprando, elas fortalecem o comércio, que se anima a vender a prazo porque sabe que vai receber no dia certo. O Bolsa Família acaba gerando mais empregos; para usar uma expressão cara aos tucanos, cria um “ciclo virtuoso”.

Ou seja: é um programa completo dentro de suas atribuições, que vai muito além do meramente “assistencialista”, como gostariam os tucanos olhando com saudade para o seu Bolsa Escola — que para outros é apenas a prova de sua incompetência na área social.

Diante disso, o discurso do PSDB/DEM tem sido, no mínimo, esquizofrênico. Há os que atacam o programa dizendo que ele não presta, sem nunca citar números. E há aqueles que tentam reivindicar sua paternidade creditando todo e qualquer programa social do governo Lula a Fernando Henrique. O Bolsa Família, então, seria apenas o Bolsa Escola com outro nome.

A única coisa que realmente foi feita durante o governo FHC foi o início da formação do Cadastro Único, em 2001. Só isso, mais nada. A não ser, claro, que se tente creditar ao Bolsa Escola, o programa assistencial de Fernando Henrique, a origem do Bolsa Família.

O problema é que comparar os dois é, para usar a única palavra adequada, uma palhaçada.

O Bolsa Escola tucano era dado a crianças que freqüentassem a escola, ponto, e não cobrava nenhuma condição além da frequência escolar. O benefício era suspenso quando ele completasse 14 anos, independente de sua situação.

Resultado: não resolvia o problema, porque não havia um sistema de promoção social. Pior ainda, muitas vezes até agravava a situação, porque assim que o menino completava 14 anos e o benefício era cancelado a renda de famílias inteiras diminuía repentinamente. Isso, sim, era esmola. O Bolsa Escola fazia parte da mesma tradição paternalista que deu ao país o vale leite e o vale gás, e que possibilitou as imensas filas em frentes às sedes estaduais da antiga LBA.

Enquanto isso, do Bolsa Família uma família só sai se deixar de cumprir as condicionalidades — quando, aí sim, o programa passaria a ser esmola, porque seria dinheiro apenas dado, sem compromisso de melhoria social — ou se seu nível renda aumentar e ela se erguer acima da linha de pobreza — em outros termos, quando ela passa a não precisar mais do auxílio do governo. É isso, essa consistência e consequência, que faz do Bolsa Família um projeto diferente e tão bem sucedido.

Desde a criação do programa, 4,1 milhões de famílias foram desligadas do programa, porque seu nível de renda aumentou.

4,1 milhões de famílias que saíram da miséria. E eles são só uma parte dos 23 milhões de pessoas que, ao longo do governo Lula, saíram da linha de pobreza absoluta.

Apenas para efeito de comparação, durante todo o governo de Fernando Henrique Cardoso apenas 2 milhões de pessoas trilharam o mesmo caminho. Talvez não pudesse ser diferente: a cada crise econômica — e eles conseguiram quebrar o Brasil três vezes –, a primeira coisa que o governo FHC fazia era cortar os investimentos sociais, porque afinal de contas tinha o tal do superávit primário para manter. Também para efeito de comparação, é só lembrar que na crise de 2008, que a boa governança brasileira transformou em marola, o governo brasileiro na verdade aumentou os investimentos nessa área.

O PSDB/DEM sabe disso, embora não alardeie por aí porque faz mal à sua imagem. É por isso que quando os tucanos falam que o Bolsa Família aprofunda a miséria, é porque partem do exemplo do projeto pífio que conseguiram realizar. Se baseiam na própria incompetência para julgar a competência dos outros. O Bolsa Escola é só o que eles sabem fazer, e só o que conhecem. E não concebem que alguém possa fazer algo melhor.

De volta ao futuro

Nos próximos dias, este blog vai recauchutar alguns posts de quatro anos atrás.

As razões são simples.

Um dos trolls de estimação de blog, vendo o que ninguém vê e achando que Serra realmente tem alguma chance de ganhar esta eleição que, ainda nem começada, o mostra em queda constante nas pesquisas, lembrou que a alternância de poder é necessariamente algo benéfico. O Jean disse que acha que a Petrobras nunca esteve na mira da privatização. E quase todo mundo parece achar que Bolsa Escola e Bolsa Família são a mesma coisa.

Pode parecer loucura, mas é como se o PSDB/DEM tivesse ficado congelado no tempo. Uma espécie de Austin Powers político, eles ainda não compreenderam que os parâmetros para que se possa discutir avanço mudaram. O PSDB/DEM continua sem conseguir apresentar uma alternativa real, diferente da que apresentaram em 2002 e 2006. Eles têm na cabeça o mesmo modelo que implementaram no país e continuam a implementar em São Paulo.

O mais grave na situação do PSDB/DEM não é sequer o fato de que eles não souberam como trazer o país ao atual patamar de desenvolvimento: é o fato de que eles não sabem o que fazer com o Brasil atual.

O que parece difícil que eles entendam é que alternância de poder é boa se ela não representa retrocesso. A volta do PSDB/DEM ao poder significa exatamente isso: uma volta indesejável a uma fase do país que, 8 anos depois, já devia ter sido esquecida, porque foi superada. Eles ainda não conseguiram responder às perguntas básicas: para que vocês querem chegar à presidência da República? Qual o projeto de governo de vocês? O que vocês têm a oferecer que seja melhor do que o governo Lula tem feito e a Dilma pretende fazer nos próximos anos?

Sem apresentar uma alternativa concreta, o discurso de alternância do PSDB/DEM é pouco mais que “por favor, me dê o poder de volta”.

Os posts serão republicados com algumas variações porque o nível de argumentação do PSDB/DEM não é apenas baixo: é velho, também.

E afinal, o que foi mesmo que o PSDB/DEM fez até agora?

O sistema de saúde nacional é municipalizado. No entanto, o Governo de Sergipe (é, aquele que eu ajudei a eleger, para quem ainda se lembra) está construindo 102 clínicas de saúde da família em 74 dos 75 municípios sergipanos, com exceção da capital. Além de construir as clínicas, o governo também repassa recursos para a sua manutenção.

Fez isso porque tem consciência de que as prefeituras desses municípios não têm condições de construir unidades de saúde com esse nível de qualidade.

Se o governo de Sergipe fosse do PSDB/DEM, e não do PT, o discurso no entanto provavelmente seria outro. O governo criticaria os municípios por não oferecerem saúde de qualidade aos seus moradores. Ou, talvez, beneficiasse apenas os municípios de seus aliados políticos. O PSDB/DEM — como bem soube a Prefeitura de Aracaju nos anos FHC — nunca foi um grande entusiasta da ideia de republicanismo, ao menos fora do seu discurso.

Se a história do William incomoda a algumas pessoas, como o Vinícius, é em parte porque eles se recusam a admitir a questão central que ela ilustra: o governo de São Paulo, que hoje se pretende tão esperto e tão preocupado com o social, e que passou os últimos 8 anos atacando uma política social que inegavelmente deu mais que certo, não apresentou absolutamente nada no Governo de São Paulo que pudesse minimamente soar como alternativa.

Para quem chama o Bolsa Família de Bolsa Esmola — e só idiotas, verdadeiros idiotas, comparam o Bolsa Escola ao Bolsa Família; há um resumo sucinto das diferenças entre os dois em um dos posts linkados abaixo, mas não parece que alguém tenha se dado ao trabalho de ler — o mínimo que se poderia esperar é que apresentassem algo que pudesse fazer diferença.

O probema é que, mesmo tendo, uma estrutura de poder consolidada ao longo de 15 anos no governo de São Paulo, o PSDB/DEM não se mostrou capaz de realizar ou mesmo formular uma alternativa concreta.

Além disso, não soube trabalhar de maneira complementar às iniciativas do Governo Federal. Não que seja algo dificílimo de se fazer — tanto que o Governo de Sergipe faz. E Sergipe é o menor Estado da Federação, com recursos parcos e uma história associada às oligarquias e ao coronelismo. Fez isso em 3 anos, ao mesmo tempo em que destruía uma estrutura de Estado viciada e corrupta, fortalecida ao longo de mais de 40 anos.

Se o Governo de Sergipe pode fazer isso, o Governo de São Paulo também poderia fazer.

Mas não fez.

É por isso PSDB/DEM não tem estatura moral para criticar ou propor melhorias — coisa que, aliás, não faz — à política social do governo do PT. Eles declaram aos quatro cantos que vão cobrar competência de Dilma? Deviam, antes, se preocupar em mostrar competência eles mesmos, mostrar o que fizeram em São Paulo, por exemplo. Porque eles são oposição apenas em termos. Controlam há 15 anos o maior Estado da federação, e o segundo maior orçamento. Tiveram tempo e dinheiro suficientes para implementar mudanças significativas na forma como se comporta o Estado em relação a questões fundamentais.

E isso suscita outro ponto.

Todos nós podemos apontar grandes diferenças entre o governo Lula e o governo FHC. Na política social, na política externa, no incentivo à economia. São diferenças tão grandes que Lula acaba de ser eleito o líder político mais influente do mundo, o que me deixa preocupado com a sanidade mental de FHC.

Agora eu gostaria que algum desses defensores (e por favor, não estou cobrando isso de leitores que deixam comentários sem parecer ter lido o post; não seria justo exigir tanto assim dos bichinhos) apontasse diferenças significativas entre a era PSDB/DEM em São Paulo e a era Quércia/Fleury.

Mas, já me antecipando, deixa eu fazer uma pergunta: então são esses que se consideram capazes de substituir um dos governos mais bem sucedidos da história do país? São esses que, incapazes de apresentar alternativas concretas quando têm a chance, se consideram mais capazes de governar um país que pela primeira vez em muitas décadas encontrou uma maneira de combinar desenvolvimento econômico, respeito externo e promoção social?

A palavra é de vocês.

***

Dos comentários ao último post, um deles me fez rir muito: o do Roberto Berlim, praticamente afirmando que foi Íris Rezende que ensinou o PT a fazer política social.

Mas pensando bem, combina com o pensamento alucinado PSDB/DEM: afinal, eles acham que criaram todos os fundamentos econômicos; nada mais coerente que se achem também donos de todas as políticas sociais, aquelas que até hoje eles não conseguiram compreender.

Porque José Serra não conhece William

José Serra não conhece William.

Talvez devesse. Na tarde do último domingo William estava no aeroporto de Guarulhos, apesar da chuva forte que caía. Ofereceu seus serviços a uma moça que fumava na porta: dois reais para engraxar seus sapatos. Não havia necessidade, mas a moça aceitou.

William fazia seu trabalho calado, aquele silêncio humilde que às vezes a gente vê por aí e cria empatia imediata. Mas a moça puxou conversa. Ele contou que tem 10 anos, e mora ali mesmo em Guarulhos, em Bom Sucesso. Tem quatro irmãos e uma mãe; nenhuma referência a um pai. Perguntado se estudava ele disse que sim, pela manhã. Perguntado se gostava de estudar, ele abriu um sorriso e disse que sim, que gostava “demais”. Mas à tarde e à noite ele tem que ir ao aeroporto, para ajudar a mãe. Não é fácil, às vezes o expulsam de lá. Mas ele volta mesmo assim, porque precisa. Agora, William e sua família querem comprar uma bomba para puxar água do poço em sua casa.

Quando acabou de engraxar os sapatos, a moça estendeu 10 reais para William. Ele arregalou os olhos: “Pra mim, senhora?” “É. Mas só se você prometer que vai continuar estudando”. Ele abriu um último sorriso, “Prometo, senhora”, e foi embora.

José Serra não conhece William, mas talvez devesse, porque ele pretende ser presidente da República e há centenas de milhares de crianças exatamente na mesma situação daquele garoto, trabalhando em canaviais, carvoarias, semáforos ou com uma caixa de engraxate nas costas, muitas vezes em um limbo cinzento em que trabalho e caridade se confundem e se tornam indistinguíveis.

Se o conhecesse, Serra talvez conseguisse entender o que significa para milhões de brasileiros o Bolsa Família e a grande rede de proteção social desenvolvida por Lula.

Para crianças como William, o governo Lula representou uma chance sem precedentes de acesso ao exercício da cidadania. Mas o PSDB/DEM jamais conseguiu compreender ou aceitar o seu significado. Essa incompreensão se transformou, nos últimos anos, no seu principal cavalo de batalha na oposição ao governo — uma oposição destrutiva e prejudicial ao país.

Até há pouco, Serra e o PSDB/DEM se concentravam em tentar desconstruir o Bolsa Família e os programas assistenciais do Governo Federal, chamando-o de “Bolsa Esmola”. Acostumados a um projeto de governo que privilegia os mais ricos de maneira insana, sem compreender a natureza do país, o PSDB e o DEM demonstraram, durante anos, total incapacidade de entender um modelo de Estado diferente e mais igualitário.

No entanto, a política social do Governo Lula ajudou a lhe render aprovação popular sem precedentes. E agora, com as eleições se aproximando, o PSDB finge deixar de se indignar com o fato de as pessoas ficarem felizes porque agora podem comer, se torna uma espécie de esquizofrênico político e passa a elogiar o programa.

É uma mudança e tanto. Despido da possibilidade de continuar reencarnando o pior da antiga UDN, em parte pelo fracasso memorável da sua estratégia em 2006, e em parte graças aos escândalos gravíssimos de corrupção que assolaram os dois partidos nos últimos meses — destruindo de passagem o que tinha se tornado o eixo de um discurso vazio e histérico –, o PSDB/DEM agora se vê obrigado a fazer o que nunca fez: reconhecer a realidade e elogiar os avanços do governo Lula. Lembrando o velho e bom Brizola, estão tendo que engolir o sapo barbudo.

Embora arriscada, essa é uma estratégia eleitoral compreensível. Nos próximos meses o PSDB/DEM, que finalmente parece ter resolvido a sua diocotomia em relação à política social de Lula — uma hora dizia que era criação sua, na outra dizia que não prestava –, e tentando fazer com que seu candidato Serra perca a imagem de anti-Lula, vai tentar lembrar o Bolsa Escola, por exemplo, um dos programas assistenciais desastrados criados por Fernando Henrique Cardoso.

(Alem de ser difícil conseguir isso ao mesmo tempo em que tenta descolar sua imagem do ex-presidente, há outro problema à frente deles. Serra já começou a tentar aparecer como alguém que vai aprimorar a obra de Lula. Obviamente, nada impede que o próprio Lula diga: “Olha, eles dizem que eu fiz um bom trabalho? Pois eu, que fiz esse bom trabalho, estou dizendo que eles não conseguirão dar prosseguimento a ele, e sua história prova isso. Quem pode me suceder é a Dilma.” Mas esse é o tipo de coisa que só se poderá saber como vai acontecer durante o desenrolar a campanha eleitoral.)

O mais interessante é que eles vão partir de uma base correta. Uma parte dos programas específicos desenvolvidos no governo Lula foi realmente criada durante o governo anterior, como o PETI — embora tenha sido o Governo Lula que, ao mudar o foco de toda a política social, tenha dado a eles a dimensão que hoje têm. Esse é o trunfo do PSDBN/DEM, embora falho. Porque não é o fato de ter programas sociais, que desde quase sempre governos fizeram isso: Getúlio com a sua LBA, Sarney com seu vale-leite e vale-gás. A diferença é a abordagem e forma de entendimento do papel da assistência social. Por exemplo, em momentos de crise — eles conseguiram quebrar o país três vezes, afinal –, o PSDB/DEM apontava os programas sociais como os primeiros alvos de corte de verbas, porque para eles assistência social nunca foi muito diferente de esmola. Isso eles vão esconder.

E é nesse contexto que entra William.

Apesar do que Serra e o PSDB/DEM vieram dizendo ao longo desses anos, o problema da política social do governo Lula é o fato de que ela ainda não consegue beneficiar todos os que precisam, nem oferecer uma renda maior para os já beneficiados. Para Estados como Alagoas ou Piauí, por exemplo, o dinheiro da União através do SUAS é normalmente o único recurso significativo a que têm acesso para a área social. Ainda é pouco.

Mas São Paulo tem o segundo maior orçamento do país. E ainda assim, meninos como William estão engraxando sapatos no aeroporto de Guarulhos.

Talvez o problema de crianças como William fosse minimizado se o PSDB, no poder em São Paulo há tantos e tantos anos, tivesse feito sua parte, em vez de replicar no governo estadual o que fizeram no governo federal. Se Serra é tão diferente de FHC, como pretende agora, porque o seu governo em São Paulo é tão parecido com o do ex-presidente? Essa divergência entre o atual discurso tucano e o que se pode observar na prática quando eles têm o governo na mão tem raízes fortes. Diz respeito à visão de país do PSDB/DEM.

Agora, por exemplo, Serra diz que vai continuar o Bolsa Família. Mas mesmo que seja bem intencionado, mesmo que tenha admitido o seu erro recorrente e permanente dos últimos 8 anos, ou que mentiu ao povo brasileiro porque precisava fazer oposição, o que Serra pretende manter não é o Bolsa Família, porque a sua história e a sua tradição não permitem que ele o entenda. O que Serra, com boa vontade, pode ter em vista é o seu Bolsa Esmola, porque é assim que Serra e o PSDB vêm a assistência social. Por isso, seu desempenho diante do governo de São Paulo deve ser lembrado. O Estado de São Paulo tinha a obrigação de garantir a crianças como William assistência e apoio. Mas não fez isso, e esse menino, como milhares de outros meninos paulistas, se vê surpreso e feliz quando recebe 10 reais na porta do aeroporto.

Curso Rafael Galvão para sacanear comunistas

Este post tem uma missão nobre: iluminar um pouco a indigência direitista no debate social. É um esforço mínimo, claro, dentro das possibilidades de um blogueiro que prefere falar de sacanagem a falar de política. Mas bem intencionado, ainda assim.

Sua razão de ser são alguns dos comentários ao post sobre os canalhas da ditadura militar. Gente que, não contente em defender o indefensável, apela para um argumento raso de desqualificação pessoal: como alguém que defende Stálin pode reclamar de uma ditadura?

Não parecem ter entendido a parte em que se diz “de sacanagem”. ‘Stalinistas” é como trotsquistas barbudinhos do PT, saudosos da picareta no cocoruto de um exilado no México, se referem aos “verdadeiros leninistas” que militaram no glorioso Partido Comunista do Brasil. Não quer dizer que eles ainda defendam Stálin incondicionalmente.

Reconhecer e abjurar os crimes de Stálin contra o seu povo não significa voltar as costas aos grandes avanços sociais naqueles 30 anos. Quem fez isso foi o PPS — e olha só no que deu. Esse tipo de abordagem não é apenas inane, mas enganosa e burra.

A utilização desse argumento simplório incomoda por ser notícia velha e batida. Os crimes de Stálin são utilizado por todo mané de direita para justificar crimes cometidos por suas próprias ditaduras.

É preciso ser completamente idiota para fazer isso. É como justificar os erros de Bush apelando para Hitler. O que me impressiona é o seguinte: ainda que eu fosse um defensor incondicional de Stálin e de seus expurgos, o que isso teria a ver com o caráter malsão da ditadura militar no Brasil? Os fatos mudariam em função da opinião de um pobre blogueiro sem eira nem beira? Torturadores deixariam de ter torturado centenas de brasileiros porque A acredita que Stálin era gente boa? O golpe deixou de levar o Brasil para um longuíssimo período de trevas porque B consegue justificar os expurgos stalinistas?

Conduzir qualquer discussão para esse lado é confissão cabal de idiotice, que me perdoem aqueles que tentaram. Os expurgos stalinistas podem ser compreendidos e discutidos dentro do contexto russo, embora jamais justificados. Pessoalmente, acho que Stálin tem outros problemas também; se a direita fosse mais inteligente e um pouco menos infensa a argumentos fáceis demais poderia apelar a eles e, pelo menos, começar um debate razoável. A “traição” aos comunistas alemães em 1927 (sem certeza da data), por exemplo, na minha opinião foi um fator importante na viabilização do nazismo e condenou a revolução russa. Isso é imperdoável.

Diante de uma situação dessas começo a achar que é meu dever colaborar para o desenvolvimento cultural desse pessoal. A indigência intelectual da direita cansa. Eu fico cansado de ver esse mesmo discurso dos expurgos de Stálin, porque é ineficaz: ninguém mais justifica os erros de Stálin. É difícil para eles ganhar um debate porque eles têm argumentos pobres demais, velhos demais, desgastados demais.

Por isso este blogueiro, com a doçura que mamãe me deu, vou lhes fazer um favor. Está declarada aberta a “Oficina Rafael Galvão de Como Sacanear Comunistas”.

Para começar, me parece exemplo fino de puerilidade e ignorância qualquer bobo de direita apelar para Stálin contra um militante ou ex-militante do PCdoB. Puerilidade e ignorância, porque muito mais grave que ter apoiado Stálin — algo de que nenhum comunista se arrepende, geralmente porque sabe um pouquinho de história — foi ter acreditado que Enver Hoxha era gente boa. Essa, sim, não tem desculpa. A maioria dos comunistas do mundo repudiou Stálin logo após o XX Congresso do PCUS; mas Enver Hoxha continuou sendo admirado pelo PCdoB até bem depois de sua morte.

Quer bater em um militante do PCdoB? Larga um Enver Hoxha nas fuças dele. Dói. Machuca. Magoa. O problema é que 90% dos bobos de direita que acenam com os expurgos stalinistas não fazem idéia de quem diabos foi Hoxha.

Mas isso ainda é muito pouco. Não combina com a direita elitista deste país, que se pretende tão sofisticada e europeia (embora eu ache que ela está mais é para Miami, mesmo). São vocês que, na falta de argumentos concretos, gozam o “analfabetismo” de Lula, não são? São vocês os esnobes que gostam de alardear superioridade cultural, não são?

No reino das discussões bizantinas, se você puder dar uma luz nova a um debate antigo — ou seja, concordando com todo mundo mas de uma maneira ligeiramente diferente — você fará sucesso.

E isso a gente faz assim, ó: quando alguém quiser justificar as atrocidades da ditadura militar mencionando o nome Stálin, e todo mundo estiver fazendo aquela pose típica de intelectual em mesa de bar, você faz a de quem comeu merda e não gostou (a outra pose típica), olha em volta fingindo que é inteligente e larga:

— Jdanov.

E as pessoas em volta vão perguntar: cumé?

— Jdanov. O grande crime de Stálin foi Jdanov.

Pronto. Você acrescentou algo ao debate. 9 entre 10 pessoas na mesa não farão a mínima ideia de quem foi Jdanov. E aí você tem a sua chance.

A essa altura eu deveria sugerir que você, meu caro mané de direita que apela para os crimes de Stálin para tentar desqualificar críticas à ditadura, fosse procurar uma enciclopédia, mas como estou imbuído do senso messiânico de melhorar o seu parco repertório, vai aqui uma explicação sucinta do que estou falando.

Uma das noções mais deletérias instituídas durante a luta pelo socialismo foi o realismo socialista — a ideia de que a obra de arte deve apontar, necessariamente, a solução socialista. Na verdade, o realismo socialista não é algo intrinsecamente nocivo: é apenas uma escola artística, como milhares de outras. É tão válida quanto o naturalismo ou o romantismo ou o barroco, e deu grandes obras como “A Mãe” de Górki ou, aqui no Brasil, “Capitães de Areia” de Jorge, o Amado.

O problema começa quando o Estado passa a defender essa escola como a única admissível e utiliza seus meios de coerção para garantir isso.

Uma revolução se dá em vários campos, e o cultural é um deles. O combate a ela também, e foi por isso que o ocidente promoveu mediocridades como Soljenitsyn. Em um dos tantos desvios do ideário leninista, Stálin resolveu que seria necessário fazer da cultura um campo de combate praticamente militar.

Se o ambiente político russo era propício ao autoritarismo assassino que se tornou uma das marcas de Stálin, por outro lado a cena cultural russa, na virada do século XX, era virtualmente tão intensa quando a francesa. Não é preciso retroceder no tempo em direção a Puchkin ou Gogol, ou mesmo a Dostoiévski ou Tchekov. Naquele momento, a Rússia borbulhava em ideias diferentes, brilhantes e conflitantes.

Um exemplo do que se faria já nos tempos da Revolução, e um dos meus preferidos da virada do século:

À nossa volta floresciam campos vermelhos de papoulas, a brisa da tarde brincava sobre campos de centeio amarelecido e, no horizonte, erguia-se alto o virginal trigo mourisco, como a muralha de um mosteiro longínquo. O plácido Volin ziguezagueava, afastava-se de nós, sinuoso, e perdia-se no bosque de faias, envolvido numa névoa cor de pérola e entre colinas floridas. Depois serpeava lentamente entre plantações de lúpulo. Um sol alaranjado descia no horizonte, parecendo uma cabeça decepada; uma luz suave filtrava-se entre as nuvens, os estandartes do poente ondeavam sobre nossas cabeças. No frescor da tarde era forte o cheiro do sangue dos cavalos mortos na véspera.

Esse é o segundo parágrafo de “O Caminho do Sbruch”, de Isaac Bábel (“Cruzando o rio Zbrucz” na tradução de Cecília Prado, mas eu prefiro esta, de Roniwalter Jatobá). Foi esse ambiente vivo e vibrante que Stálin destruiu ao instituir a política cultural que seria conhecida como Jdanovismo. Ao permitir, grosso modo, que apenas as obras realistas socialistas laudatórias ao regime fossem reconhecidas, Stálin fez com que as artes russas agonizassem e morressem, virtualmente todas elas. Privilegiando a mediocridade apenas porque ela condizia com a sua visão autoritária de mundo, o Jdanovismo destruiu a cultura russa. Um país que tinha dado ao mundo gênios em virtualmente todas as áreas, mas especialmente a literatura, de repente se calou porque a única voz permitida e incentivada era aquela que louvasse o socialismo e o Grande Guia dos Povos.

A União Soviética se recuperou dos expurgos stalinistas — na verdade, saiu deles como uma das duas únicas superpotências do mundo. No entanto, jamais conseguiria se recuperar do Jdanovismo.

É possível apenas imaginar quantos Dostoiévskis e Tolstóis deixaram de aparecer porque o Jdanovismo não permitia visões distintas do mundo; Babel, pelo menos, foi executado por Beria em 1941. E eu consigo pensar em poucos crimes tão grandes — e tão admiravelmente adequados ao discurso elitista da direita — como esse, o de destruir a cultura de um povo.

No fim das contas, é o seguinte: ninguém em sã consciência justifica hoje os expurgos stalinistas. Apelar para eles denota burrice e ignorância, e não apenas porque os crimes de Stálin não justificam os crimes da ditadura militar no Brasil, mas porque há argumentos melhores para tentar essa besteira. Este blog, que pode ser canalha e chauvinista mas tem lá seus parcos conhecimentos de história, cumpre o seu papel de bom samaritano e tenta ajudar as antas de direita a calibrar melhor seus discursos retardados oferecendo alguns subsídios básicos para o seu crescimento espiritual.

Em vez de me xingar, me agradeçam. Se chamei vocês de burros e ignorantes é porque vocês são — mas também porque quero fazer com que vocês melhorem. E voltem na próxima — porque eu e vocês temos certeza de que vai haver próxima — com um discurso melhorzinho.

Espero ter ajudado. E lembrem-se: da próxima vez tentem apelar para a desqualificação pessoal através de Enver Hoxha e Jdanov, em vez dos expurgos stalinistas. O debate fica mais interessante, tipo assim, esteticamente highbrow. Olha que chique.