Profundas questões filosóficas acerca do lixo

Notícia catada em nomínimo|weblog: uma busca no lixo dos ricos e famosos revela que Tom Cruise é aficcionado por catálogos da Victoria’s Secret.

Abrem-se as apostas: afinal de contas, o sujeito que se deu ao luxo supremo de esnobar a Nicole Kidman é fetichista ou traveca?

O finado JB

O Tutty Vasques faz um panegírico ao finado Jornal do Brasil em nomínimo, datando sua morte a partir do cancelamento da coluna do Alberto Dines. As razões, embora não ditas, são óbvias: o jornal não tem condições de bancar críticas duras ao governo do Rio. Como quase todo jornal brasileiro, vive na UTI. Mas se a maioria deles aprendeu a viver assim, parece cada vez mais difícil que o JB volte a ter a mesma glória que teve nos anos 70, quando era a tradução do Rio em rotativas.

É um jornal que morreu e espera apenas ser enterrado.

O curioso é que a lembrança que me fica do JB é a da melhor matéria internacional que já li. Era a cobertura da prisão do prefeito de Washington, Marion Barry, preso fumando crack. A matéria contava a notícia com detalhes e abria dois boxes para explicar o contexto, o passado de Barry e as implicações da prisão na política americana. Era tão boa, tão completa, que guardei aquela página. Não lembro agora do primeiro nome de seu autor, mas era um Nascimento Brito, o que talvez mostre que nepotismo não é a pior coisa do mundo.

Fico sabendo agora, lendo o Tutty, que aquilo era o final da administração Marcos Sá Corrêa, último alento de brilho do jornal. De lá para cá, o JB apenas decaiu, perdendo credibilidade e matéria-prima humana. Seus colunistas emigraram em busca de tempos melhores; sua credibilidade foi vendida há muito tempo em troca de piedade deseus credores.

Há uma lenda em torno do JB que persiste. Até mesmo hoje, algumas pessoas dizem que é um jornal melhor que O Globo. Há pouco tempo me disseram que a edição dominical era melhor, e resolvi tirar a prova. Nem de longe. É um jornal que morreu, apesar da impressão de sobrevida dada por um Tostão ou um Armando Nogueira.

Ultimamente eu só lia o JB quando atravessando a poça pela manhã. O catamarã o oferece como brinde a quem os prefere às barcas. E, mesmo sendo gratuito, às vezes sobra.

Todas as mulheres do mundo

Fui parar por acaso numa página da Cinemateca Brasileira que mostra algumas listas de 10 melhores filmes brasileiros ao longo dos tempos.

Eu gosto de listinhas (até já fiz a minha, devidamente desancada pelo Bia). Mas não poderia fazer uma lista dos melhores filmes brasileiros simplesmente por não ter visto muita coisa.

Por exemplo, de um dos preferidos de todos, “Limite”, de Mário Peixoto, só vi algumas cenas rápidas (e, sinceramente, do que vi não gostei). “Ganga Bruta”, de Humberto Mauro, nem isso. “Rio 40 Graus” vi há muito, muito tempo.

Mesmo assim, mesmo sem ter moral suficiente para criticar essas escolhas, eu discordo de quase todas. Falta um filme nelas.

As listas incluídas na página da Cinemateca têm uma característica interessante: sempre incluem um filme recente. É por isso que a lista de 1980 inclui “Tudo Bem”, do Jabor, e a de 1988 inclui “Memórias do Cárcere”.

É a única razão para “Todas as Mulheres do Mundo”, de Domingos de Oliveira, com Leila Diniz e Paulo José, ser incluído na lista de 1968, e somente nela.

“Todas as Mulheres do Mundo” é certamente um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Enquanto “O Cangaceiro”, por exemplo, tenta recriar — magistralmente, a propósito, apesar dos péssimos atores e dos diálogos forçados — a estética do faroeste americano a partir do ciclo do cangaço, e “Limite”, pelo pouco que vi, é pouco mais que uma experiência hermética nesse sentido, o filme de Domingos de Oliveira é simplesmente uma história cotidiana deliciosamente contada. É brilhantemente carioca, doce sem ser piegas — Domingos de Oliveira jamais fez algo melhor. É, principalmente, um daqueles filmes que parecem despretensiosamente simples, que se tornam “brasileiros” justamente por não pretenderem fazer de sua nacionalidade um cavalo de batalha. É um filme carioca, muito mais que os “Rio Babilônia” da vida, mas poderia ser ambientado em qualquer lugar do mundo.

Provavelmente é essa a razão para o filme ser tão subestimado. Ele é deliberadamente simples em um meio em que a pretensão é condição sine qua non para que se conquiste respeito. Talvez, se o título fosse “Toda a Problemática das Mulheres do Terceiro Mundo”, o filme tivesse melhor sorte nessa história contada por poucos.

Também acho que “O Pagador de Promessas” lá atrás é um desrespeito a um dos mais brilhantes filmes já feitos no Brasil. Ao menos melhor que “Terra em Transe” ele é.

Soy contra

Tem duas coisas que me incomodam quando se discute o governo.

Uma é gente que não votou em Lula porque ele ia mudar tudo, e agora desce a lenha porque ele não mudou nada. Oposição se deve fazer com um mínimo de coerência.

A outra é gente que, agora, justifica absolutamente tudo o que o governo faz, utilizando os argumentos que, nos tempos de oposição, criticavam sem dó. A situação também precisa de um mínimo de coerência.

Coerência, claro, não quer dizer jogar a culpa pelo país, digamos, insuficiente que temos nas costas do sociólogo. A idéia de culpar FHC por tudo o que há de errado no país é um equívoco meio burrinho, porque se as pessoas votaram em Lula não foi apenas porque achavam que as coisas não iam bem, mas porque achavam que Lula seria o agente dessas mudanças; e por mais que isso doa em quem passou 8 anos criticando o PSDB, até agora o governo Lula tem sido inferior ao primeiro mandato do homem que todos adoravam odiar.

Em muitos aspectos, é um governo covarde, com medo de pequenos avanços, e que parece nem sempre saber a linha divisória entre realpolitik e fisiologismo; em outros é um governo perdido, incorrendo em erros bobos.

Mas há, também, o lado bom do governo, áreas em que se tem conseguido avanços, das quais a política externa é apenas a face mais visível. O pessoal que hoje está na oposição, e que critica com razão o PT por feito oposição sistemática e às vezes prejudicial ao país durante a era FHC, deveria lembrar disso na hora de adotar certas posições e arrotar coerência.

Só para lembrar: o fisiologismo e a corrupção vêm de muito antes de FHC, apesar do que diz aquela parte amalucada do PT, e ninguém que tenha juízo espera que Lula acabe imediatamente com eles, ao contrário do que quer a oposição que os cevou durante tanto tempo.

Kathleen Turner

A Veja desta semana traz, nas páginas amarelas, uma entrevista com Kathleen Turner.

Kathleen forneceu combustível para os sonhos de milhões de adolescentes em todo o mundo — inclusive este aqui — nos anos 80, em filmes como Body Heat e Crimes of Passion. Era de uma beleza americana estonteante, e de um olhar que só encontra paralelo em Lauren Bacall e em Faye Dunaway.

Ela fala sobre sua batalha contra um tipo de artrite que quase lhe custou a vida e a carreira. O que importa aqui não é a confissão da doença — lembro que, no início dos anos 90, as revistas de cinema falavam com maldade que ela estava engordando muito, creditando o fato a fracassos de seus filmes. Isso não interessa muito, porque a idolatria por divas do cinema tem pouco a ver com seu cotidiano. O que transtorna é a sua foto, que mostra uma mulher de 50 anos mas aparentando bem mais, prematuramente envelhecida.

Pessoas como Kathleen Turner deveriam ser proibidas de envelhecer. Terminantemente.

Redatores publicitários

No últimos dias tenho dado uma olhada nas comunidades sobre propaganda do Orkut. Mais especificamente, nas comunidades de redatores.

Duas coisas me chamaram a atenção. A primeira delas é o número excessivo de redatores que não sabem escrever. E não estou falando de estilo, de técnica de construção de texto: me refiro a conhecer a ortografia de sua própria língua, mesmo, a escrever uma palavra corretamente, a saber as regras mínimas de uso de vírgulas.

A outra coisa é a forma como as pessoas se atêm ao atual e esquecem a história da propaganda.

Gente como o Neil Ferreira, um dos maiores redatores que este país já viu e que há 30 anos era praticamente um deus, parece ter sido esquecido completamente em seu meio. Washington Olivetto, outro dos grandes gênios, provavelmente só é lembrado por ter sido, na década de 80, o protótipo do “publicitário ideal”, o sujeito que fez com que tanta gente, alguns sem talento ou vocação, resolvesse fazer propaganda — e por ter uma agência que, durante muito tempo, foi a melhor do país. E o Julio Ribeiro, um dos mais completos publicitários da história, é só marginalmente lembrado — e também porque tem uma grande agência, a Talent.

Os referenciais se tornam outros, menores. Isso é ruim, é o resultado de uma cultura do imediatismo entre o pessoal que sai da faculdade deslumbrado porque aprendeu alguma coisa, certamente muito mais do que aprendeu na escola.

Sinceramente: há uns dez anos não vejo uma grande onda de bons comerciais. Não falo de bons comerciais isolados, que sempre existem, mas de um período de tempo em que somos bombardeados constantemente por grandes peças, para os mais variados clientes e das mais variadas agências. A maior parte é o arroz com feijão que necessariamente faz o dia-a-dia de uma agência.

Grande parte disso, claro, vem da crise por que passa o mercado. Crise que não é só conjuntural, mas estrutural. Dizem que o negócio da propaganda está mudando, e ninguém sabe direito para onde vai.

Mas grande parte, também, se deve à falta de preparo do pessoal que sai das faculdades. Um pessoal que não lê, que não conhece o mundo — que não observa as pessoas, como diz a Tata. Gente que é seduzida pelo mundo da propaganda pelo glamour que ela parece ter, e que ainda não sabe que a segunda maior conta de qualquer agência chama-se “Refação” — a atividade extremamente frustrante de refazer uma peça até o cliente ficar satisfeito. Geralmente isso significa “torná-la pior até atender ao padrão asinino do cliente”.

O resultado é o que chamo de Síndrome do Marcello Serpa: uma indústria que se especializou em anúncios com uma imagem interessante, um título engraçadinho e duas linhas de texto. Ou em comerciais com uma piadinha no final. Dizem que é porque as pessoas não lêm mais. Se isso for verdade, o que você está fazendo neste blog?

(Nada contra o Serpa, um publicitário — no mais amplo sentido da palavra — absolutamente brilhante, um dos maiores diretores de arte da história da propaganda brasileira; mas eu sinto falta de uma Síndrome do Neil Ferreira, de gente que sinta prazer em escrever.)

O que me preocupa nisso é que a publicidade tem uma tendência grande a se alimentar de si mesma; e quando o alimento se torna escasso, cedo ou tarde vem a morte por inanição.

Relendo o Diário de Bordo

Embora o único cearense (oi, Sergio!) a comentar aqui tenha concordado com a minha avaliação meio dura de Fortaleza, recebi alguns comentários privados que mostravam uma certa revolta com a minha óbvia má-vontade para com o Ceará.

Não acho que seja sem razão, embora aquilo fosse só uma generalização, o que quer dizer que é cheia de exceções e claramente parcial.

O Ceará teve o seu momento de glória. A Guerra de Secessão americana fez a economia do Estado, baseada no algodão, dar um salto; e com crescimento econômico sempre vem algum desenvolvimento cultural. Mas durante a maior parte do século XX ele simplesmente se arrastou. Um dos maiores palavrões por lá é “bicudo”, nome da praga sobre cujas costas jogam a culpa por não terem acompanhado a evolução tecnológica da produção têxtil.

Tem uma história bonita, também. É conhecido como Terra da Luz por causa do Dragão do Mar, um jangadeiro que transportava escravos fugidos. Libertou os escravos antes da Lei Áurea. E foi palco de casos engraçados como, durante uma época de indignação nativista, algumas famílias terem adotado nomes “legitimamente brasileiros”, como Pessoa Anta.

O Ceará é um Estado como vários outros. E, como eles, tem qualidades e defeitos. O fato de eu prestar atenção aos defeitos não quer dizer absolutamente nada.

Racismo
Pode ser só impressão, mas sempre me pareceu que os cearenses tinham um certo orgulho excessivo em ter poucos negros no Estado.

Prezam a brancura da pele como um valor absoluto. O detalhe é que a pele do cearense é naturalmente escura; não poderia ser diferente com um sol daqueles e com tanto índio em sua composição genética. Mas eles querem negar a si mesmos, e o fazem independente da realidade.

O exemplo mais patético que conheci foi o de um sujeito com a pele bem escura, cabelo “ruim”, que alardeava o seu racismo pelos quatro cantos. Acreditava, pelo visto, que o escuro de sua pele vinha dos índios, não de negros. E não parecia perceber que, visto a uma distância superior a 3 metros, ele era só mais um “neguinho” como aqueles que desprezava. Com o agravante da cabecinha chata socada em um corpo pequeno e gordo, que dispensava o luxo de um pescoço.

Arquitetura
Fortaleza, claro, tem muitas coisas bonitas. O Passeio Público oferece uma vista quase comparável à do Belvedere da Sé, em Salvador, mesmo com suas putas em fim de carreira. Há prédios bonitos espalhados pela cidade, principalmente neo-clássicos — inclusive a antiga Associação Comercial, que fica em frente ao Passeio: afinal, aquela é uma área de comércio.

Mas hoje é uma cidade que enterra suas tradições em busca de um ideal sulista. É um desejo que, a propósito, não é exclusivo de Fortaleza.

O Rio de Janeiro em sua melhor fase quis ser Paris. Se você vier do centro em direção à Zona Sul, por exemplo, preste atenção ao terceiro (ou quarto, não lembro) edifício depois do Hotel Glória (pelo Aterro; pela praia não dá para ver direito). É um exemplo dessa fase; e é naquela cobertura, que busca imitar as mansardas parisienses, que eu gostaria de morar. Depois, durante o Estado Novo, a arquitetura pública da cidade passou a ter nítida inspiração alemã, mas que a mim parece mais novaiorquina. Foi o começo da decadência da cidade, que já tinha perdido a primazia econômica para São Paulo. Um breve momento de luz em que Niemeyer deixou pequenas marcas, e então veio a degradação mais abjeta: hoje, a cidade mais bonita do Brasil quer ser Miami.

Se o desejo de ser algo que julga imediatamente superior não é uma singularidade fortalezense, a indignação diante de quem quer que fale isso é típica de cidade pequena. Por exemplo, escreva “Aracajú” diante de um sergipano e ele vai se revoltar diante da sua ignorância, e se achar superior a você porque ele pode morar em um cu-de-mundo, mas sabe ortografia. Cidades pequenas costumam ter problemas de auto-estima; e em muitos aspectos, Fortaleza ainda é uma uma delas.

A inteligência cearense
Acho o povo burrinho, sim; não apenas se conformam com a mediocridade, mas vêm méritos nisso. Além disso, nunca tinha visto tantos analfabetos numa capital. Mas não dá para esquecer que a cidade produziu alguns gênios, mais que a maioria das outras cidades do Nordeste. Que produz até hoje, aliás. Uma coisa não invalida a outra, e não é por ter grandes nomes que o povo em geral fica mais letrado ou mais inteligente.

Cabeças chatas
Acho que tenho todo o direito do mundo de falar das cabeças chatas dos cearenses.

Minha filha é cearense. E foi um bebê bonito.

Quando saíamos com ela, as pessoas paravam para comentar. Mas não falavam de sua beleza, nem do olhar inteligente que ela sempre teve.

— Olha que cabeça linda!

Eu não resistia: “É que ela é metade baiana, sabe?”

O problema com as cabeças chatas não é meu. É dos cearenses. Nem todos os cearenses são assim, claro. Mas esse é um tipo bem representativo do povão — aquele pobre, que pega ônibus, que fala com sotaque mais carregado e que é o único que me importa.

Finalmente, eu gosto da cidade. Nunca me senti em casa como me sinto em Salvador, no Rio ou mesmo em Aracaju; mas é uma cidade agradável. Apesar de achar — e falem o que quiserem — que Canoa Quebrada é uma fraude.

O fim de Ronaldinho

Para ninguém dizer que a internet não tem memória, o no.com.br, pai do atual nominimo.com.br, mesmo depois de anos desativado mantém online seus arquivos — e essa é uma das coisas mais louváveis já vistas.

Foi graças a esses arquivos que pude achar, novamente, um artigo de João Wady Cury intitulado “O fim de Ronaldinho“, publicado em 29/11/2001.

Eis o primeiro parágrafo:

Ronaldinho acabou. Aquele rapaz mirrado, que saiu do subúrbio do Rio e acabou ganhando fama e fortuna a partir de sua carreira no Cruzeiro, de Belo Horizonte, não existe mais. Pior que isso, vive da benevolência de repórteres esportivos hipócritas, que a cada dia criam mais um motivo de esperança para a volta aos gramados daquele que um dia foi craque. Ronaldinho é hoje um ex-craque e deveria pelo menos ter coragem de encarar isso de frente, da mesma forma como enfrentava implacavelmente seus marcadores. Quem sabe até Ronaldinho devesse se propor a fazer uma declaração pública para dizer com todas as letras: “Eu acabei. Eu não existo mais, nem quero mais saber de futebol. Me deixem em paz. Quero levar minha vida jogando golfe, aparecendo nas fotos da revista Caras nas praias da Europa e ser reverenciado como personalidade, um verdadeiro pop star – e não mais ser reconhecido como um jogador de futebol”.

Vale a pena ver também a resposta de Léo Jaime a esse artigo.

João Wady Cury vai passar à história como o autor das linhas mais infelizes já escritas sobre o futebol.

Sinonímia

Puta
n substantivo feminino
Uso: tabuísmo.
1 m.q. prostituta
2 Uso: pejorativo.
qualquer mulher lúbrica que se entregue à libertinagem

Sinônimos:
alcouceira, andorinha, bagaço, bagageira, bagaxa, bandarra, bandida, barca, bebena, besta, biraia, bisca, biscaia, biscate, bocetinha, bofe, boi, bruaca, bucho, cação, cadela, cantoneira, caterina, catraia, china, clori, cocote, coirão, cortesã, courão, couro, cróia, croque, cuia, culatrão, dadeira, dama, decaída, égua, ervoeira, fadista, fêmea, findinga, frega, frete, frincha, fuampa, fusa, galdéria, galdrana, galdrapinha, ganapa, horizontal, jereba, loba, loureira, lúmia, madama, madame, marafa, marafaia, marafantona, marafona, marca, mariposa, menina, meretrice, meretriz, messalina, michê, michela, miraia, moça, moça-dama, mulher-dama, mulher-solteira, mundana, murixaba, muruxaba, paloma, pécora, pega, perdida, perua, piranha, piranhuda, pistoleira, piturisca, prostituta, quenga, rameira, rapariga, rascoa, rascoeira, reboque, rongó, solteira, sutrão, tapada, tolerada, transviada, tronga, vadia, vaqueta, ventena, vigarista, vulgívaga, zabaneira, zoina, zorra; e as loc.: mulher à-toa, mulher da comédia, mulher da rótula, mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher de amor, mulher de má nota, mulher de ponta de rua, mulher do fado, mulher do fandango, mulher do mundo, mulher do pala aberto, mulher errada, mulher perdida, mulher pública, mulher vadia etc.

Vulgívaga. Vulgívaga é um belo nome.

O fundamentalismo nas Laranjeiras

Ia escrever um post sobre a atitude de Rosinha Matheus ao ofender o Zé Eduardo Dutra (que, levando-se em consideração seu temperamento, foi extremamente educado em sua resposta) no caso das plataformas da Petrobras.

Um jornalista sergipano, no entanto, escreveu sobre o assunto antes e melhor do que eu poderia, na edição de hoje do Jornal da Cidade:

A MULHER QUE SURGIU MESMO DAQUELA COSTELA DE ADÃO
Luiz Eduardo Costa

Nas escolas do Rio de Janeiro, por determinação da lúcida, iluminada governadora Rosinha Garotinho, trevosos professores fundamentalistas ensinam que a raça humana descende mesmo de Adão e Eva, e que a mulher surgiu a partir de uma costela retirada daquele que foi o primeiro homem.

Esses mitos sobre a criação do universo e o surgimento do homem existem em todas as culturas, e são belíssimos alguns deles, recolhidos das histórias contadas e recontadas pelos nossos índios, que chegaram aos ouvidos atentos de indigenistas ou antropólogos dedicados a investigar hábitos e costumes das tribos em processo de extinção. As diversas religiões do mundo incorporaram esses mitos, em alguns casos até como forma um tanto poética de explicar a criação, como por exemplo nos livros dos Vedas e dos Upanishads dos hindus, ou na Bíblia dos cristãos, no Corão dos muçulmanos, no Torá dos judeus.

A própria Igreja Católica não se atrita mais há muito tempo com as teorias científicas que buscam explicar o universo e o ser humano, entendendo que o essencial é a crença em um Ser Supremo, que para alguns seria o Deus criador, para outros até a sublime harmonia da mecânica universal. Deus é algo assim intuitivo para o ser humano, pequeno e assustado como Blaise Pascal diante da imensidão do universo. Um grande teólogo e religioso católico, Teilhard de Chardin, deu valiosíssima contribuição às ciências do homem e do universo.

Em qualquer escola onde o pensar não seja proibido, nenhum professor iria ousar impor aos alunos a crença de que a mulher saiu de uma costela de Adão, ou a maçã devorada seria o fruto proibido do pecado que levou a raça humana a perder o paraíso. As igrejas cristãs preferem hoje entender e interpretar a Bíblia à luz da constatação de que os textos são antiqüíssimos, e contêm narrativas que incorporam lendas e mitos. Isso não se faz em detrimento do valor e da importância do livro maior dos cristãos.

O fundamentalismo é algo trágico, retrógrado, resultante daquele clima de ignorância, ódio, vingança, dominação e medo, nascido lá no fundo dos séculos mais tenebrosos da História humana.

O fundamentalismo, ou seja, aquela forma rígida, sem imaginação, sobretudo inculta de interpretar textos sagrados, responde pela intolerância, pela cegueira do ódio que movem vários grupos religiosos pelo mundo a fora. O fundamentalismo chega ao Rio de Janeiro por obra e graça, ou desgraça, de um casal funesto, os Garotinhos, ele hoje secretário da baderna da segurança pública, ela governadora, todos entronizados, talvez, pela forma equivocada como historicamente os eleitores fluminenses têm escolhido os seus representantes.

A teoria da evolução das espécies está definitivamente vetada nas escolas cariocas. A governadora Garotinho não quer ouvir falar em “struggle for life”, a luta pela sobrevivência das espécies que levou à prevalência dos mais aptos, e desceu das árvores o primata para, andando, definir as funções precisas de pés e mãos, tornar-se humanóide, e conquistar o mundo.

Isso é heresia feia, coisa de inimigos da fé, teoria de excomungados, hereges, que somente escapam da fogueira expiadora das culpas porque, felizmente, os Garotinhos não conseguiram ainda empalmar o poder dos Inquisidores. Mas que eles têm uma enorme vocação para Torquemadas, disso dão provas todos os dias.

Talvez tudo isso explique aquela atitude intolerante, arrogante, deseducada, da governadora Garotinho, ao protestar porque não recebeu da Petrobras o privilégio de ter construídas no Estado todas as plataformas marítimas, como se existisse somente na federação brasileira um único integrante a ser beneficiado. O Rio ficou com mais de setenta por cento das obras que vão ativar estaleiros que estavam parados, empregar milhares de pessoas. Mas a governadora, fundamentalista, intransigente, não aceita que parte das plataformas seja construída também na Bahia, no Espírito Santo, em São Paulo, no Paraná, Estados que têm metalúrgicas paradas ou trabalhando com enorme capacidade ociosa, e também enfrentam o problema do desemprego.

Faz parte do fundamentalismo essa visão unilateral das coisas.

Mas, de qualquer forma, a governadora Garotinho é, ela mesma, a própria demonstração viva, a prova irrefutável de que a mulher, pelo menos no seu caso, saiu mesmo da costela de um homem.

Como o modelo original não era lá essas coisas, o resultado é o que se vê.