Embora o único cearense (oi, Sergio!) a comentar aqui tenha concordado com a minha avaliação meio dura de Fortaleza, recebi alguns comentários privados que mostravam uma certa revolta com a minha óbvia má-vontade para com o Ceará.
Não acho que seja sem razão, embora aquilo fosse só uma generalização, o que quer dizer que é cheia de exceções e claramente parcial.
O Ceará teve o seu momento de glória. A Guerra de Secessão americana fez a economia do Estado, baseada no algodão, dar um salto; e com crescimento econômico sempre vem algum desenvolvimento cultural. Mas durante a maior parte do século XX ele simplesmente se arrastou. Um dos maiores palavrões por lá é “bicudo”, nome da praga sobre cujas costas jogam a culpa por não terem acompanhado a evolução tecnológica da produção têxtil.
Tem uma história bonita, também. É conhecido como Terra da Luz por causa do Dragão do Mar, um jangadeiro que transportava escravos fugidos. Libertou os escravos antes da Lei Áurea. E foi palco de casos engraçados como, durante uma época de indignação nativista, algumas famílias terem adotado nomes “legitimamente brasileiros”, como Pessoa Anta.
O Ceará é um Estado como vários outros. E, como eles, tem qualidades e defeitos. O fato de eu prestar atenção aos defeitos não quer dizer absolutamente nada.
Racismo
Pode ser só impressão, mas sempre me pareceu que os cearenses tinham um certo orgulho excessivo em ter poucos negros no Estado.
Prezam a brancura da pele como um valor absoluto. O detalhe é que a pele do cearense é naturalmente escura; não poderia ser diferente com um sol daqueles e com tanto índio em sua composição genética. Mas eles querem negar a si mesmos, e o fazem independente da realidade.
O exemplo mais patético que conheci foi o de um sujeito com a pele bem escura, cabelo “ruim”, que alardeava o seu racismo pelos quatro cantos. Acreditava, pelo visto, que o escuro de sua pele vinha dos índios, não de negros. E não parecia perceber que, visto a uma distância superior a 3 metros, ele era só mais um “neguinho” como aqueles que desprezava. Com o agravante da cabecinha chata socada em um corpo pequeno e gordo, que dispensava o luxo de um pescoço.
Arquitetura
Fortaleza, claro, tem muitas coisas bonitas. O Passeio Público oferece uma vista quase comparável à do Belvedere da Sé, em Salvador, mesmo com suas putas em fim de carreira. Há prédios bonitos espalhados pela cidade, principalmente neo-clássicos — inclusive a antiga Associação Comercial, que fica em frente ao Passeio: afinal, aquela é uma área de comércio.
Mas hoje é uma cidade que enterra suas tradições em busca de um ideal sulista. É um desejo que, a propósito, não é exclusivo de Fortaleza.
O Rio de Janeiro em sua melhor fase quis ser Paris. Se você vier do centro em direção à Zona Sul, por exemplo, preste atenção ao terceiro (ou quarto, não lembro) edifício depois do Hotel Glória (pelo Aterro; pela praia não dá para ver direito). É um exemplo dessa fase; e é naquela cobertura, que busca imitar as mansardas parisienses, que eu gostaria de morar. Depois, durante o Estado Novo, a arquitetura pública da cidade passou a ter nítida inspiração alemã, mas que a mim parece mais novaiorquina. Foi o começo da decadência da cidade, que já tinha perdido a primazia econômica para São Paulo. Um breve momento de luz em que Niemeyer deixou pequenas marcas, e então veio a degradação mais abjeta: hoje, a cidade mais bonita do Brasil quer ser Miami.
Se o desejo de ser algo que julga imediatamente superior não é uma singularidade fortalezense, a indignação diante de quem quer que fale isso é típica de cidade pequena. Por exemplo, escreva “Aracajú” diante de um sergipano e ele vai se revoltar diante da sua ignorância, e se achar superior a você porque ele pode morar em um cu-de-mundo, mas sabe ortografia. Cidades pequenas costumam ter problemas de auto-estima; e em muitos aspectos, Fortaleza ainda é uma uma delas.
A inteligência cearense
Acho o povo burrinho, sim; não apenas se conformam com a mediocridade, mas vêm méritos nisso. Além disso, nunca tinha visto tantos analfabetos numa capital. Mas não dá para esquecer que a cidade produziu alguns gênios, mais que a maioria das outras cidades do Nordeste. Que produz até hoje, aliás. Uma coisa não invalida a outra, e não é por ter grandes nomes que o povo em geral fica mais letrado ou mais inteligente.
Cabeças chatas
Acho que tenho todo o direito do mundo de falar das cabeças chatas dos cearenses.
Minha filha é cearense. E foi um bebê bonito.
Quando saíamos com ela, as pessoas paravam para comentar. Mas não falavam de sua beleza, nem do olhar inteligente que ela sempre teve.
— Olha que cabeça linda!
Eu não resistia: “É que ela é metade baiana, sabe?”
O problema com as cabeças chatas não é meu. É dos cearenses. Nem todos os cearenses são assim, claro. Mas esse é um tipo bem representativo do povão — aquele pobre, que pega ônibus, que fala com sotaque mais carregado e que é o único que me importa.
Finalmente, eu gosto da cidade. Nunca me senti em casa como me sinto em Salvador, no Rio ou mesmo em Aracaju; mas é uma cidade agradável. Apesar de achar — e falem o que quiserem — que Canoa Quebrada é uma fraude.