Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz…

Durante a Semana Santa vi na televisão uma mulher dizendo, com orgulho, que paga uma penitência há 82 anos.

Que vida triste.

Vida não é para se penintenciar, é para viver — da melhor forma possível, de preferência, com a alegria desejável e a tristeza apenas inevitável. Não é para ser vivida como se fosse um longo enterro em vida.

Pequenos pensamentos malévolos

Em Aracaju não são permitidos motéis no perímetro urbano.

Mas como a necessidade de saliência não diminui de acordo com a vontade (correta, nesse caso) dos legisladores, o jeito são as pousadas mais permissivas. Muitas são iguaizinhas a qualquer motel, indevassáveis com portões de entrada e saída.

Uma dessas pousadas fica bem em frente a um terminal de integração de ônibus, na praia de Atalaia.

Os rostos cansados e expressões carregadas daqueles que esperam o ônibus que nunca chega na hora contrastam, ou devem contrastar, com o brilho no olhar dos casais que entram na pousada.

E de repente, enquanto olhava para eles, me senti solidário com sua dor. É um desrespeito que aquelas pessoas, tristes, cansadas, condenadas a um eterno esperar do qual a demora dos ônibus é só um pequeno exemplo, sejam obrigadas a conviver com a felicidade carnal de pessoas que se preparam para a troca de fluidos corporais, algumas vezes ilícita, com alegria e desejo.

Mas é fácil se solidarizar e virar o rosto. Difícil é fazer alguma coisa para mitigar essa dor. E eu decidi vingá-los.

Algum dia eu vou passar algumas horas ali, naquele terminal de ônibus, fotografando as placas de quem entra na pousada, e depois vou colocar na Internet.

Em “cidade de muro baixo”, como dizem ser Aracaju, onde dificilmente você anda incógnito na rua, isso talvez tenha resultados interessantes.

Buda vs. Jesus, round 1

O comentário do Bia ao post sobre “A Paixão de Cristo” me deixou pensando qual é, afinal, a força do cristianismo.

Um camarada saiu-se com essa: o Buda do Bertolucci nos causa uma sensação tão boa — e a história é tão onírica — que contrapor os dois filmes talvez aponte onde está o problema de toda civilização ocidental; a direção moral simbolizada em um homem incompreendido sangrando numa cruz.

A história ocidental não é, em hipótese alguma, a história de gente seguindo os ensinamentos de Cristo. Aliás, em nome deles a Igreja perpetrou alguns dos maiores crimes que a história já viu, das Cruzadas à Inquisição.

Ao mesmo tempo, os budistas quando no poder tampouco levaram adiante os ensinamentos de Sidarta. Um artigo do Pedro Dória em nomínimo conta o que era a vida no Tibet antes da invasão chinesa: escravidão, total desrespeito à liberdade e otras cositas más. Os primeiros hospitais e as primeiras escolas laicas foram implantadas pelos invasores.

Ou seja: fico com a impressão de que a religião não é forte o suficiente para mudar uma sociedade.

Mas acho que essa idéia define com exatidão a psique individual nessas sociedades. A idéia do Cristo crucificado dá aos cristãos uma noção de culpa irreparável e necessidade de arrependimento que não existe em outras sociedades. Foi talvez a principal razão de sua ascensão. Hoje, nessa mesma sociedade ocidental, em que a noção de vida eterna se universalizou e é tomada quase como certeza absoluta — e quando não é deixa de ter qualquer importância, contrária ou favorável — há um movimento em direção ao budismo, talvez em busca de justificativa e consolo para seu materialismo crescente.

Dizem que os japoneses vivem como budistas e se tornam xintoístas à medida que envelhecem e se aproximam da morte, porque cada uma dessas filosofias oferece respostas mais adequadas — ou justificativas — a cada idade. No fim das contas, as pessoas continuam as mesmas, e segundo Belchior vivem como seus pais.

***

Paulo, acho que o original está certo. Seriam duas opções possíveis, ambas corretas: “falharam ao não perceber” e “falharam em perceber”, com significados finais ligeiramente diferentes.

Quanto a se poder amar um homem, eu acho que sim. Também acho que um homem tem todo o direito de conhecer outro no sentido bíblico. Cá para nós, faria realmente diferença se Jesus se esbaldasse em brincadeiras lúdicas com João (ou com Maria Madalena, como querem alguns)? Seus ensinamentos perderiam sua força e sua verdade, se você vê alguma nelas?

Os e-mails que recebo

É grosseiro, eu sei, mas esse e-mail que recebi me fez rir mais que a minha cota diária:

Foram flagrados, em vários supermercados de Santa Catarina, gaúchos tentando se passar por peru de Natal, na intenção de serem comidos despercebidamente.

Veja a foto e tente descobrir o impostor.

Me leva eu...

Sangue de Cristo tem poder

Finalmente fui assistir a “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson.

Nas últimas semanas resisti à tentação de escrever qualquer coisa sobre ele. Pela polêmica que o filme causou, era difícil ter qualquer opinião que não fosse tendenciosa. A grande maioria das críticas era negativa. O aspecto mais debatido na internet era o anti-semitismo de Gibson. Depois vinha a violência extremamente gráfica e desnecessária.

Qualquer filme sobre Cristo (talvez com a exceção do belíssimo — e contido — “O Evangelho Segundo Mateus”, de Pasolini) cria polêmica. Até o filme do Zefirelli recebeu sua cota de protestos, ao mostrar Maria parindo com dor, o que cá para nós não é bem digno do Filho do Homem. O de Scorsese foi execrado por mostrar um Jesus pretensamente histórico diferente do retratado na Bíblia. E bobagens pretensiosas como Je Vous Salue Marie, de Gordard, porque zelotes de qualquer religião têm dificuldades com seus antolhos.

O tema é difícil, por tratar do que há de mais irracional em um homem: fé. Quando um filme coincide com o que nós pensamos é brilhante. Quando retrata uma outra visão, é ruim, canalha, o que for. Por exemplo, quando Gibson fez “Coração Valente”, não houve gritaria quanto às deturpações históricas absurdas do filme. Se bem que obviamente William Wallace não tem a importância de Jesus.

Anti-semitismo
Em toda a polêmica gerada pelo filme, as acusações de anti-semitismo foram as que mais chamaram a minha atenção.

Um maluco (Leon Wieseltier, na New Republic) chegou a ver anti-semitismo na barba grisalha e voz grave de Caifás. Cathy Young deplorou a forma como retratam Barrabás — um assassino sujo, asqueroso e de má aparência.

É sempre assim quando alguém retrata judeus como menos que santos: algum idiota radical, o equivalente judaico de Osama bin Laden, grita “Holocausto!”.

A histeria da extrema-direita judaica, de vez em quando, é impressionante. O filme pode ser tudo — mas não é anti-semita. Ou pelo menos, não mais anti-semita que os Evangelhos. Para o filme é necessário representar os fariseus daquela forma, porque a oposição a eles faz parte do arcabouço filosófico do cristianismo. Esse pessoal esquece que Jesus não tentou criar uma nova religião, mas renovar o judaísmo. O cristianismo foi criado por São Paulo.

Os histéricos falharam em perceber uma coisa: com exceção da mulher de Pilatos, todos os personagens de bom coração são judeus. O povo que chora ante a passagem de Cristo na via-crucis é judeu. O homem que o ajuda a carregar a cruz é judeu. Maria e Maria Madalena são judias. E, se alguém esqueceu isso, Jesus é judeu.

Um advogado brasileiro (se eu lembrar que ele também é judeu posso ser acusado de anti-semitismo por esses histéricos, portanto não vou fazer isso) pediu a censura do filme com base no desrespeito à verdade histórica. Embora eu ache injusto esperar inteligência de qualquer advogado, esse passou dos limites. Porque não é possível falar em verdade histórica em se tratando dos Evangelhos. E, se for, a verdade é que “A Paixão de Cristo” se ateve com razoável exatidão à única fonte conhecida: os Evangelhos.

Por exemplo tome-se Barrabás. Se hoje ele é considerado uma espécie de proto-revolucionário, talvez um terrorista, a forma como os evangelhos o retratam é basicamente a de Gibson. Fizeram isso para realçar a heresia dos judeus ao preferirem-no em detrimento de Jesus. “A Paixão de Cristo” não é sequer o primeiro filme a retratá-lo assim: se lembro bem, o Barrabás do filme de Zefirelli não é mais bonito nem mais nobre.

É fácil chamar o filme de Gibson de anti-semita e deixar de lado o principal: o argumento do filme não é dele. Acontece que os Evangelhos pintam os judeus negativamente, por uma exigência histórica e teológica da própria estrutura do cristianismo em seus primeiros séculos. De modo geral, o filme não me pareceu mais anti-semita que os Evangelhos, ou pelo menos que a leitura mais comum que se faz deles. É o que se espera de um católico reacionário como Gibson. Talvez esse seja seu problema. Ou não: Eisenstein tinha sua agenda ao fazer “O Encouraçado Potemkim”. É o que se espera de um comunista revolucionário como ele. O filme é menor por causa disso?

De qualquer forma, um ponto precisa ser ressaltado: os mais óbvios bandidos do filme são os carrascos sádicos que tiram, literalmente, o couro de Jesus. E eles são romanos.

Violência
O Cauê definiu o filme como uma carnificina. Outros críticos menosprezaram Gibson dizendo que não poderiam esperar outra coisa do ator de “Máquina Mortífera”, que ele transformou o filme em um espetáculo sado-masoquista dirigido a hemófilos (acho que essa palavra não existe com esse significado; pelo menos não no Aurélio ou no Houaiss. Se for esse o caso acabei de criar uma tara: pessoas que se excitam sexualmente com sangue. O Google ficaria orgulhoso de mim e diria “eu sempre soube que esse rapaz entendia do babado…”).

Mas é preciso lembrar qual a intenção de Gibson. Ele quer lembrar a humanidade e o sofrimento de Jesus, distanciando-o um pouco do Cristo asséptico pendurado nos altares, com apenas os joelhos lanhados, a lançada nas costelas, as chagas da crucifixão e um filete de sangue correndo da coroa de espinhos. Ele pretende ressaltar a dor de Jesus, tornando real a frase “Ele morreu por nós”. E em mundo cada vez mais cético morrer é fácil, difícil é levar porrada uma noite inteira. A longa seqüência de açoites, dentro desse ponto de vista, é admissível.

O filme só cai no exagero durante a via-crúcis. Ali, sim, há provavelmente uma inverdade histórica. A crueldade da crucificação estava em deixar o condenado agonizar lentamente até sua morte por asfixia; bater daquele jeito só apressava a morte do sujeito, e tirava a graça do espetáculo. A partir do momento em que Jesus inicia sua caminhada rumo ao Gólgota o filme passa a merecer todas as críticas que recebeu.

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No fim das contas, a polêmica sobre as questões ideológicas deixa de lado algo importante: o filme em si. Fala-se da polêmica, do efeito que o filme faz, mas é raro ver alguém falando do filme, mesmo.

Não é exatamente uma obra-prima. Tem uma boa fotografia, e um argumento que deve ser bom, porque faz sucesso há 2 mil anos. Mas como disse o Bia, um dos poucos a fazer alguma apreciação estética sobre o filme, é irregular. Alterna bons momentos com clichês bobos.

O Bia destacou a cena da deposição (que é nitidamente inspirada num quadro de Caravaggio); enquanto isso, eu só consegui me identificar emocionalmente com o filme na hora em que Maria acode Jesus e lembra de um pequeno episódio da infância. Foi a única cena em que eu, particularmente, consegui sentir a dor da mãe.

E quer saber de uma coisa? Para mim, o verdadeiro vilão do filme não é Pilatos, Caifás, o povo judeu ou os centuriões romanos. Não é sequer aquele diabo andrógino e de olhos caucasianamente azuis. O verdadeiro vilão é aquele João, que ao lado de Maria e de Maria Madalena assiste a tudo com uma cara de urubu, mesmo sendo “o discípulo que Jesus amava” (expressão recorrente nos Evangelhos que muita gente usa como evidência de que Jesus era gay).

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Pelo menos naquela sessão, ninguém chorou. Mas todo mundo saiu calado do cinema.

Notícias estranhas em um blog esquisito (VIII)

Carlos Chereza é um americano da Flórida, tem 17 anos e resolveu que estava na hora de dar um fim em sua mãe.

Arranjou um pistoleiro (obviamente um policial disfarçado) e ofereceu 2,000 dólares, a serem pagos quando ele herdasse o dinheiro da mãe.

O detalhe é que ele deu orientações bem claras ao “pistoleiro”: mate a mamãe, mas não deixe nada acontecer à TV.

Daí se pode deduzir quem era a verdadeira mãe dele.

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Uma mulher de 56 anos foi presa por ter feito uma falsa denúncia de que o papel higiênico do tribunal de Waterbury, nos EUA, estava envenenado.

O que ninguém sabe é como ela chegou a essa conclusão. Se ela não for maluca ou quisesse interromper o dia de trabalho no tribunal para se livrar de algum julgamento (do qual provavelmente era culpada), provavelmente suas hemorróidas estavam num dia hiper-sensível.

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A crise é grave.

O quartel general oficial do Papai Noel, na Finlândia, acabou de demitir seus últimos duendes.

Daqui a pouco vai ser a vez das renas. E não vai demorar até vermos o trenó do Papai Noel em uma loja de carros usados.

Agora se explica porque aquele sacana nunca me trouxe presente.

Mas preocupante, mesmo, é o destino dos pobre anões. O que será que vão fazer da vida agora? Os circos também estão acabando.

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Um casal de namorados tirou a maior parte de suas roupas, subiu numa árvore do Central Park em Nova York e passou quatro horas fazendo safadeza e xingando os policiais e bombeiros que foram retirá-los.

Afora a maluquice que deve ter tomado conta dos amantes, uma coisa me deixou impressionado: 4 horas trepando trepados numa árvore? Nossa.

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Entre atores ingleses era uma tradição cumprimentar as pessoas com um “querido”. Mas os tempos do politicamente correto estão acabando com isso: uma companhia de teatro baniu o cumprimento para evitar eventuais processos por assédio sexual.

Este blog acha que eles estão certos e sugere que, a partir de agora, passem a se cumprimentar por “viado filho da puta” ou “vagabunda derrubada que todo mundo comeu”. Para não deixar dúvidas, sabe como é.

James Joyce, o masoquista

De uma resenha de John Updike sobre as “Cartas Selecionadas” de James Joyce:

A amorosidade deste “amante extraordinário”, como ele mesmo se concebe, tinha um vigoroso componente voyeurístico, e uma pronunciada gravitação em torno da bunda e suas funções. O fato de [Nora] ter de bom grado saciado a natureza sexual anal, pueril e mesmo masoquista de Joyce explica seu valor como esposa para um homem que, na maioria dos aspectos não-sexuais, era uma resoluta “minoria de um”.

Masoquista? Joyce? Que Updike me perdôe, mas acho que estão falando de bundas diferentes.

Tlec tlec tlec tlec tlec tlec tlec — tlim

Remington IpanemaComo todo mundo entre 30 e 50 anos, eu comecei a escrever numa Olivetti Lettera (um modelo mais antigo serviu de musa inspiradora para um belo blog). Na infância já brincava com uma Remington Ipanema, mas só fui escrever mesmo nas Olivetti da vida.

Há uma série de hábitos perdidos que ainda lembro. A primeira coisa a fazer era tirar a capa que protegia os tipos, que sempre se embaralhavam; sou de um tempo em que, com dois dedos, batíamos à máquina mais rápido do que ela podia agüentar. Ela era condescendente e humilde, não tinha esse sorriso debochado e desafiador com que os teclados de computador olham para nós. A outra era o hábito de levantar a máquina e deixá-la na vertical, enquanto revisava o texto que algum terrorista filho da puta já estava cobrando. Até hoje bato com força excessiva no teclado do computador — coisa que quem já teve uma máquina com fita velha lembra bem o que é.Panasonic KX-R530

Em 1989 agências como a Propeg de Salvador já usavam a Praxis 20, a primeira eletrônica portátil de que ouvi falar; eu usava a ET Personal 50 e, alguns anos mais tarde, tive uma Panasonic KX-R530. Embora lindas, já nasceram como anacronismos, resultantes da miopia de mercados que tentavam dar sobrevida a um produto já marcado pelo hálito da morte.

Nos meus primeiros anos com o computador, eu sentia um certo bloqueio em relação a ele. Era uma máquina maravilhosa e eu me viciei imediatamente; mas na hora de escrever, mesmo, havia algum problema. O computador então criou uma situação esdrúxula: muitas vezes comecei a escrever um texto à mão, para só então levar para o computador; pelo menos para revisar e editar um texto, o computador sempre foi insuperável.

Underwood 5O meu caso de amor com máquinas de escrever, e os de tantos outros, talvez reflitam um sentimento ludita típico de pessoas que se recusam a acompanhar o caminhar dos tempos. Se for, pelo menos não é novidade: Ercilio Tranjan, um dos maiores redatores publicitários que o país já viu, sempre escreveu à mão — e então passou direto para o computador.

Ainda estou em busca de uma Underwood portátil, máquina que nunca vi pessoalmente mas que me parece o ápice do estilo. Não que vá usá-la algum dia. A essa altura da vida, meu corpo e minha mente se acomodaram à praticidade do computador. Mas para quem, como eu, acha a máquina de escrever um dos maiores símbolos do século XX, ela é o mais belo objeto de decoração imaginável. Um dia eu compro uma.

E, nessa viagem ao passado, encontrei um site destinado a colecionadores de máquinas de escrever. Se eu fosse capaz de colecionar algo mais que espantos diante da vida, provavelmente me tornaria um deles.

Divagando sobre um cavalo

Se há um gênero cinematográfico de que eu realmente gosto é o western.

Não sei exatamente por quê. Provavelmente porque era um dos gêneros que a TV mais exibia nas Sessões da Tarde dos anos 70, ou porque sempre gostei de cavalos. Não faço idéia. Mas a verdade é que, diante de um western feito na década de 50, quase sempre esqueço qualquer parâmetro de julgamento para simplesmente aproveitar o filme, seus clichês, seus roteiros muitas vezes simplísticos. Clayton Moore e Silver eram meus ídolos quando eu era criança.

Gosto especialmente daqueles da década de 50 porque são feitos quase como em uma linha de montagem. Raramente têm algum elemento brilhante; os filmes de que gosto eram feitos para garantir que crianças e adolescentes continuassem a ir às matinês.

Os anos 50 foram a década em que o western se estabeleceu definitivamente como o mainstream do cinema. Foram também a última década em que o gênero significou alguma coisa. Nos anos 60, apesar de alguns cantos de cisne como “Sete Homens e um Destino”, o western hollywoodiano morreria.

Foi com o western que os Estados Unidos criaram uma história idealizada para si. A Europa tinha um longo passado de cavaleiros medievais, uma história lírica e glamourizada pelo tempo; os Estados Unidos eram um país recente demais para ter algo parecido. Com os westerns, os EUA criaram sua própria lenda de um passado cavalheiresco. Transformaram homens e mulheres grosseiros, muitas vezes analfabetos e sempre de caráter duvidoso — quando não criminosos puros e simples — em heróis nacionais. Gente como Wild Bill Hickcok, Belle Starr, Calamity Jane, Billy the Kid, Wyatt Earp (que terminou seus dias como consultor técnico em Hollywood) — todos esses eram pessoas comuns canonizadas pelo cinema. Alguns, como John Wesley Harding, eram marginais do tipo que você ouve falar de vez em quando pelos jornais, e que espera que sumam logo de circulação — de qualquer jeito.

(No Brasil reclamam que glorificamos nossos bandidos. Mas o western americano é basicamente isso. A lenda inglesa de Robin Hood também. Essa fascinação por marginais não é invenção nossa.)

Talvez por isso o western tenha sido um gênero esquemático desde o início. A primeira fase, no cinema mudo, traz o arquétipo de Tom Mix. A segunda, que começou com o advento dos talkies, foi a era dos singin’ cowboys — e o maior deles foi Roy Rogers. “No Tempo das Diligências” pode ser apontado como o filme que rompeu essa tradição, criando um novo esquema e um novo arquétipo, religiosamente seguido por seus sucessores. Uma nova ruptura só surgiria mais de 20 anos depois, com o aparecimento do western spaghetti.

O western spaghetti era basicamente uma releitura do western pós-“Nos Tempos das Diligências”. Realçava aspectos como a ambivalência ética e moral dos mocinhos, e reforçava elementos estéticos como a aridez e a sujeira do Oeste, intrinsecamente refletidas no caráter e na aparência de seus habitantes (talvez isso seja reflexo do fato de a maioria desses westerns terem sidos filmados em Almería, na Espanha). A leitura que os italianos fazem do Oeste é mais liquefeita, e pode-se perceber nela os ecos de seu tempo, com um viés de esquerda presente em quase todos os filmes. É bom não esquecer que a Itália não precisava de mocinhos imaculados, provavelmente porque tivera seus próprios cavaleiros andantes, de verdade, e porque os anos 60 eram tempos de conflito social e inquietação intelectual.

Há outro aspecto que me fascina nos westerns, esse também relacionado à história: é a maneira como algo que para mim é tão distante na verdade está tão próximo. Wyatt Earp morreu no ano em que minha avó nasceu. A última filha de Pat Garrett morreu em 1983. No final dos anos 40 um sujeito chamado Brushy Bill alegou ser o verdadeiro Billy the Kid, e que não tinha sido morto por Pat Garrett (o verbete sobre Billy the Kid na Wikipedia traz uma série de links com o debate sobre a veracidade ou não dessa alegação).

Aquele passado, portanto, não é tão remoto.