Durante toda a última semana, os tablóides de Londres — especialmente aqueles dados de graça no metrô, como o London Paper e o London Lite — se esforçaram ao máximo para criar um clima de caos na cidade, referente aos protestos anunciados durante a reunião de cúpula do G20, hoje.
Se referiam aos protestantes como anarquistas, anteviam tumultos e violência. As tentativas de instaurar um clima de terror chegaram ao ponto de interpretar literalmente as provocações — nitidamente exageradas, com ameaças demorte a banqueiros e etc. — de um professor universitário que faz parte de um grupo de ativistas chamado G20 Meltdown como gravíssimas ameaças. Londres é uma cidade que ainda não superou completamente os atentados terroristas de alguns anos atrás no metrô; a atitude dos jornais foi irresponsável e canalha.
No entanto a cidade, como qualquer cidade grande, seguia normalmente a sua vida.
Nos pasquins, o encontro dividia as atenções com a cobertura da morte de uma tal de Jade, que participou de um Big Brother, saiu depois de ter dito uma frase racista (como me informou a Carol) e então descobriu que tinha câncer, tornando-se uma espécie de namoradinha da Inglaterra e transformando os ingleses em uma nação de necrófilos; com Madonna querendo adotar uma criança em Malawi; e com Jaqui Smith, ministra que pagou umas contas de filmes pornô na TV por assinatura com dinheiro público. Enquanto isso, Gordon Brown tentava passar uma imagem de força dizendo que seria capaz de convencer os outros países a regularem melhor o sistema financeiro internacional, como se países como o Brasil precisassem disso e como se o Partido Trabalhista não estivesse no poder há 13 anos, sempre apoiando tudo o que Bush fazia.
Goste-se ou não, esses pasquins têm uma grande influência sobre a formação de opinião na cidade. Em resposta ao clima que tentaram criar, o prefeito de Londres, em entrevista à BBC anteontem, se viu forçado a reafirmar que a polícia de Londres não iria tolerar violência, mesmo deixando claro que esperava que as manifestações fossem pacíficas. Bancos e lojas no centro da cidade colocaram tapumes em suas portas e janelas — e a área em torno do Banco da Inglaterra, de repente, ficou parecendo Salvador no carnaval.
Um dos pontos de concentração seria a Torre de Londres. No entando, quando cheguei lá me senti transportado 40 anos no tempo e no espaço: uns maluquinhos dançavam ao som de Bob Marley, parecendo muito distantes de qualquer coisa relacionada ao credit crunch ou à globalização. Tudo aquilo parecia Haight-Ashbury no Verão do Amor.
Na verdade eu tinha chegado atrasado: os manifestantes já tinham ido para a região em volta do Banco da Inglaterra — provavelmente a região mais feia da cidade, a que mais lembra São Paulo. Quando cheguei lá, três fotógrafos editando suas fotos editavam suas fotos em computadores, numa das tantas Starbucks das proximidades. A manifestação já lhes tinha dado um bom material, mesmo apenas no seu início. Eram fotos de gente alegre, tipos que caberiam bem numa festa a fantasia.
A primeira coisa que se notava era o barulho dos dois helicópteros que se encontravam parados sobre área do Bank of England, filmando a manifestação e garantindo o trabalho dos policiais. Um barulho ininterrupto, urgente, que ajudava a criar um certo clima de tensão aliado ao gigantesco número de policiais que isolavam a entrada do banco.
No entanto a multidão parecia alheia a tudo isso. O que se via era um grande desfile de pessoas que estavam ali para se divertir e, se pudesse, marcar uma posição que não pareciam saber bem qual era. Mais que manifestação política, aquilo era no máximo um desabafo bem-humorado.
Uma equipe da NHK japonesa entrevistava uns garotos que carregavam uma bandeira da Itália com a incrição “Morte al capitalismo“. Lembrei dos domingos à noite e passei por trás dos entrevistados fazendo aquela dancinha do Pânico que fazia a tristeza da TV Globo. Um velhinho bêbado dançava com um punk. Meninos e meninas com roupas esquisitas e chamativas, e cabelo talvez ainda mais, passeavam para lá e para cá. Músicos tocavam jazz em uma esquina; na outra, um grupo cantava uma antiga música folk de protesto, dizendo não ia matar ninguém, enquanto se viam às voltas com um bêbado que, dançando entre eles e as câmeras fotográficas, atrapalhava a sua performance. Um garoto passava com a máscara de “V de Vingança” e uma camisa com uma foto de Che Guevara. Até Jesus Cristo apareceu por lá, prtestando contra os mercadores do templo — qer dizer, contra os agiotas.
E em meio a tudo isso, as pessoas tiravam fotografias. Talvez seja essa a mais forte impressão que fica da manifestação: esse foi um acontecimento absolutamente midiático. Praticamente todos estavam tirando fotos, com celulares, máquinas point and shoot como a minha e até mesmo máquinas SLR semi-profissionais. Tudo isso sem contar jornalistas. Todos queriam registrar a festa e a sua presença ali. A manifestação era, na verdade, um grande desfile.
Desde o início dava para perceber que havia algo de bizarro na manifestação. Em uma das cidades mais multiculturais do mundo, com pessoas vindas de praticamente todos os continentes — há uma exuberância de sotaques e línguas em toda cidade, normalmente, mas isso era ainda mais visível ali –, pessoas reclamando contra a globalização parecem fora de lugar. Também era curioso ver os punks com tênis da Van’s de Carnaby Street — não, ao menos não tinha ninguém usando nada da Regent’s Street — reclamando do capitalismo. Um deles brandia um cartaz: “Dear gov, get the hell out of the economy” — como se grande parte do problema não fosse justamente a ausência do Estado nos negócios dos banqueiros. De modo geral, a manifestação carecia de sentido, de consistência política.
Perguntei a uma policial se a manifestação estava sendo pacífica. Ela disse que sim. E imaginei que os policiais iriam sair dali decepcionados, sem ter batido em ninguém. Afinal, eu sou brasileiro e estou acostumado a isso.
Mas a coisas não continuaram nesse clima de parada gay durante muito tempo. De repente, pessoas começaram a ser presas, como um japonês com uma câmera de vídeo profissional. (Pude tirar as fotos que quis da prisão; em nenhum momento os policiais fizeram algum gesto para que parássemos. A única coisa que um deles pediu foi que desobstruíssemos a passagem do beco onde estávamos.) Os ânimos estavam começando a se alterar. Punks e anarquistas, mais organizados e motivados, começaram a provocar os policiais, a forçar um confronto que a maioria das pessoas ali não queria.
Eu já estava indo embora quando a multidão começou a gritar, como em uma palavra de ordem: “Shame on you, shame on you, shame on you!” Me voltei para ver um rapaz correndo do centro da multidão, amparado pelos amigos. Sua cabeça sangrava. Era o sinal de que a festa estava acabando.
E acabou. Logo depois começaram os atos de vandalismo. Alguns confrontos isolados entre manifestantes e polícia, e uns poucos marginais que depredaram e saquearam o Bank of Scotland — que todos já sabiam ser o alvo preferencial dos manifestantes. No entanto, a se acreditar na cobertura da BBC e do único jornal a circular até agora, o Evening Standard, o caos foi generalizado e se instalou por toda a Londres.
Se não é uma impressão errada da manifestação, essa abordagem é, no mínimo, um superdimensionamento de seus aspectos negativos. Para a maior parte dos manifestantes, esses acontecimentos não podiam sequer se vistos. Faltou também dizer que a cidade continuou seu ritmo como se nada estivesse acontecendo. Que duas ou três ruas depois do Bank of England, era impossível perceber que havia uma manifestação nas proximidades. Que tudo aquilo foi pequeno, e que a maior parte das pessoas estava ali se divertindo.
Mas a cobertura da imprensa não foi apenas negativa. Há algumas qualidades. Eu estava saindo da manifestação e indo em direção ao metrô quando vi o Evening Standard, fresquinho: trazia na capa uma foto de um manifestante no chão. A manifestação estava apenas começando. Para quem está acostumado ao ritmo lento da cobertura jornalística brasileira, foi um choque. Esse tipo de rapidez, de urgência, não existe no Brasil.
Assim que eu tiver tempo e um computador decente — ou seja, quando voltar para casa — eu coloco as fotos da manifestação aqui ou no Flickr.
Os revólveres eram sempre versões do Colt Peacemaker, e havia dois tipos de espoleta. Um em que ela vinha em pequenos rolos de papel, as espoletas Ringo, e outro em que elas eram acondicionadas em aros de plástico: eram as espoletas Far-West. Eu preferia, de longe, essas últimas. As espoletas de papel davam muitos problemas. Eram mais baratas, davam mais tiros sem precisar recarregar, mas enganchavam — e se elas enganchavam um dos comanches que eu perseguia poderia me matar.
Eu tive alguns revólveres daquele modelo Far-West, da Estrela, além de alguns outros. Não sei exatamente quantos revólveres de espoleta tive, nem os seus modelos, embora saiba que a maior parte eram o Far-West ou variações. Mas lembro desse que estou usando na foto, provavelmente uma variação do modelo Laramie, com dois revólveres e cartucheiras, um modelo semelhante ao que está na foto ao lado, com a diferença de que não vinha com corda e provavelmente nem com lenço, mas em compensação vinha com uma estrela de xerife e com dois revólveres. Mas eu não gostava tanto deles, porque usavam espoletas Ringo.
Lembro também dos que eu não tive; o Álamo da foto ao lado foi meu objeto de desejo ainda em 1981. Não adiantou que eu atravessasse a rua constantemente para ir namorá-lo no Burako da Fechadura, uma pequena loja de presentes quase em frente ao edifício onde eu morava. Um dia venderam o último exemplar, e eu fiquei sem ele. E nunca mais tive um revólver de espoleta. Seu tempo tinha passado, para mim, e em breve passaria para toda a sociedade.
Mas brincar de cowboy e de índio é uma brincadeira que não faz mais sentido hoje. Os referenciais das gerações que se seguiram à minha não estão mais em Monument Valley. Eu e tantos outros crescemos assistindo a faroestes na TV, durante as Sessões da Tarde, e ainda assistíamos a inúmeros seriados como Zorro (o Lone Ranger, aquele com Tonto). Não posso listar o número de bons filmes que assisti ali — Jerry Lewis, Danny Kaye, Burt Lancaster, John Wayne. E à noite, horário interditado para mim, ainda havia o “Bangue-Bangue à Italiana”. Mas hoje faroestes não fazem mais sentido. As Sessões da Tarde são ocupadas por filmes com chimpanzés motociclistas e bizarrices como Thunderpants.
Primeiro, a constatação óbvia: “Benjamin Buttom” recebeu exatamente o que merecia. Não mais, não menos. Que o oblívio da história descanse sobre ele.
No fim das contas, o melhor filme entre os indicados era mesmo “O Leitor”, o mais firmemente dirigido, o mais redondo. No entanto seria demais esperar que ele ganhasse o Oscar, quando havia um concorrente piegas como Slumdog no páreo. É mais ou menos como esperar que um livro como “Ulisses” venda mais que um livro qualquer de Sidney Sheldon ou Paulo Coelho. Ou, para lembrar um exemplo caro aos brasileiros, esperar que “Central do Brasil” vencesse “A Vida é Bela”.
Em Doubt, Streep faz uma freira que acusa um padre de abuso sexual de um garoto. Seu personagem é definido em uma cena no início do filme: ela só se benze ao final do sermão do padre brilhantemente interpretado por Phillip Seymour Hoffman depois de se assegurar que todos os alunos estão em seus devidos lugares. Seu dever vem antes de sua fé. O pouco de bondade que mostra é dirigida apenas à mais velhas das outras freiras.
Seria também útil que isso os fizesse retomar seus estudos de teologia. Em todos os lugares, e até mesmo aqui neste blog, os descerebrados e desalmados fizeram questão de lembrar que o arcebispo não tinha exocmungado ninguém, apenas anunciado o fato, uma espécie de milagre divino às avessas. Agora o Vaticano diz que não houve excomunhão. Se não houve, então a danda não é automática. Afinal de contas, o que aconteceu?