Pequena contribuição dos quatis à raça humana

Em agosto, o Hermenauta fez um post sobre os 30 anos das sondas Voyager. O Hermê tem dessas coisas científicas. Acompanha esses trecos como acompanha as asneiras faladas pelo Reinaldo Azevedo, o chihuahua da direita brasileira.

O que me chamou a atenção no episódio foi lembrar dos discos cheios de inscrições incluídos nos artefatos. Trazem uma série de informações destinadas a fazer com que os ETs que pegarem o disco saibam de onde vem a sonda, onde fica a Terra e que somos minimamente inteligentes.

Não entendo de ciência, como não entendo muito sobre quase nada. Talvez por isso as inscrições sejam, para mim, ininteligíveis. Se alguém me desse o disco, eu não conseguiria decifrar absolutamente nada.

É justamente essa a questão que os discos das Voyagers sempre levantou para mim: assim como criamos um disco com rabiscos que, ao comum dos mortais, nos parecem absurdos, quando estudamos inscrições antigas e concluímos que ela é um retrato do cotidiano de civilizações que sequer chegamos a conhecer, não estaríamos partindo de um princípio errado, que aquilo não tem nada a ver com aquela civilização, que foi uma concessão feita por elas para que outras civilizações as compreendessem? Que tudo o que julgamos saber sobre civilizações perdidas não corresponde em nada à realidade?

Eu gosto de imaginar um maia, carregando um coelho (que assim como a hóstia significa a carne do homem) para o sacrifício no alto de um templo emTikal, parando e olhando aquelas inscrições ininteligíveis e perguntando ao escriba que as fez: “Por que você escreve essas coisas que ninguém entende?” E o escriba, olhando o sujeito do alto de sua sapiência, com aquele desprezo que só aqueles que enxergam mais longe podem afetar, responde: “Porque assim vai ser mais fácil para outras civilizações saberem quem fomos nós.”

***

Mas o mais engraçado nessa linha de pensamentos bobos sobre ciência avançada é que esses presentinhos que a NASA anda mandando para o espaço poderiam ser uma declaração de guerra.

Não sei se muita gente sabe — quem não souber pode conferir no zoológico mais próximo –, mas quatis não toleram o barulho de um molho de chaves. Pode experimentar. Balance suas chaves e eles se tornam extremamente agressivos, começam a brigar uns com os outros, atacam o que virem pela frente. Para pessoas boas como eu, é uma diversão interessante em idas ao zoológico, uma pequena maldade que posso fazer às claras sem que ninguém perceba; e ainda vou encontrar outra pessoa boa que queira apostar comigo qual quati morre antes, enquanto balançamos discretamente nossas chaves. Mas divago, e deixe-me enxugar a baba que escorre da minha boca. Agora imagine uma raça que não tolera o espectro de sons contidos no segundo “Concerto de Brandemburgo”, de Bach, que foi para o espaço nas Voyagers, recebendo o disquinho. Uma raça extremamente evoluída de cabeças chatas: “Aqueles terráqueos fios duma égua estão tentando nos matar, e ainda deram a localização do cafofo deles porque acham que nós somos uma ruma de frouxos”. E viriam para cá dispostos a acabar com a nossa raça estupidamente pretensiosa como num livro de H. G. Wells.

Pode até ser masoquismo, mas eu gostaria muito de ver uma cena dessas.

Kind of Blue

Há algo de desgraçado no jazz. Algo que faz com que ninguém o ouça impunemente, que condena aquele que o conhece a nunca mais conseguir voltar atrás, a nunca mais se contentar de verdade com menos que aquilo; algo que eleva, para sempre, os padrões pelos quais se julga a música, qualquer tipo de música, não apenas a popular.

É difícil, para aquele que ouve o trumpete de Louis Armstrong, ouvir qualquer outra música com trumpete e não exigir que seja no mínimo tão boa, que tenha a mesma qualidade dramática, a mesma síncope, o mesmo swing — em última instância, as mesmas oitavas altas e desesperadas. E isso vale também para o piano, para o trombone, para o saxofone. É no jazz que a banda de música tradicional atinge o ápice, e eleva a arte de tocar esses instrumentos à perfeição.

O jazz é a forma superior de música popular. É o que de melhor fez um século que viu a música erudita se diluir em redundâncias medíocres como as trilhas para cinema ou grandes vazios como a música experimental, e que teve como principal trilha sonora o rock e o pop, galhos menos floridos do mesmo tronco que gerou o jazz.

Kind of Blue, disco de Miles Davis, é a forma superior de jazz. Nunca mais se atingiria um ponto semelhante. Foi ali que o jazz atingiu a perfeição, em um disco com a participação de mestres como John Coltrane e Bill Evans, gravado em duas sessões e com o primeiro take sendo o que valia. Kind of Blue é um desses discos fundamentais por uma razão: é perfeito. Das notas iniciais de So What ao último alento de Flamenco Sketches, o que se tem não é a apenas a obra-prima do que chamavam jazz modal; é uma síntese de tudo o que o jazz tinha feito até aquele momento, do dixieland ao bebop: é a música popular elevada ao nível máximo, talvez mesmo ao nível da música erudita tradicional.

Embora tenham sido Louis Armstrong e Duke Ellington a dar ao jazz o status de arte, foi aquela geração — Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Miles Davis e John Coltrane, pela ordem — que o elevou ao ponto máximo da música ocidental. Uma geração ambiciosa, consistente, que explodia os limites do gênero e apontava uma infinidade de caminhos ao mesmo tempo em que solidificava, com um talento nunca mais igualado, uma tradição de 50 anos de música. Infelizmente, quase na mesma época surgiria Ornette Coleman com uma nova mudança, e a porteira seria aberta para bobagens como free jazz e fusion; mas isso não importa. Ouve Ornette Coleman quem quer e quem gosta. O importante, mesmo, é que há um disco que explica, sem sequer uma palavra, o que é o jazz, que concentra em cinco faixas cinqüenta anos do mais assombroso gênero musical que o século XX criou. E esse disco é Kind of Blue.

A Barracuda, do Freddy Bilyk, lançou no começo deste ano um livro que narra a saga desse disco: “Kind of Blue — A história da obra prima de Miles Davis“, de Ashley Kahn, conta essa história de maneira inteligente e simples. Contextualiza-o em sua época e nas trajetórias de seus músicos, sem perder tempo com fofocas e explorações sensacionalistas ou simplesmente mundanas de detalhes pouco importantes, como os problemas com drogas que praticamente todos eles enfrentaram.

Kahn mostra todo o processo de criação do álbum, explicando a razão de cada termo utilizado com clareza e simplicidade notáveis. Detalha cada sessão e explica cada música de um jeito simples mas abrangente. Explica por que o disco foi tão importante. E explora o legado de um álbum que foi recebido sem tanta euforia, mas que aos poucos se consolidou como o mais importante da história do jazz.

A importância de Miles Davis pode ser medida pelo que ele disse em um jantar na Casa Branca. Naquela ocasião, ele não mentiu. E Kind of Blue foi uma dessas revoluções. Talvez não tão importante, do ponto de vista da “inovação”, quanto Birth of Cool; mas um disco estupidamente superior.

Por explorar com simplicidade um assunto tão fascinante mas ao mesmo tempo tão complexo, “Kind of Blue” é um daqueles livros indispensáveis para quem gosta de jazz. Mas não apenas para eles: também para músicos que querem saber como pode funcionar uma sessão de gravação. É importante, também, para compositores que buscam densidade em seu processo criativo.

Há alguns anos a Gabi me convidou para escrever uma coluna sobre jazz no site da Antena 1. A resposta foi a costumeira, uma recusa, mas dessa vez não foi apenas pela falta de tempo crônica: eu sabia que jamais poderia escrever sobre jazz porque isso requer uma erudição que eu, definitivamente, não tenho. Palavras e expressões como diatônica, escala cromática, modalismo não fazem parte do meu vocabulário habitual. E ler “Kind of Blue” me deixou com a certeza de que eu estava certíssimo ao dizer não. Mas, ainda mais que isso, me deu o conforto de saber que um sujeito como Ashley Kahn pode tornar essas palavras difíceis compreensíveis até para mim.

Republicado em 07 de setembro de 2010

E assim se passaram dois meses

Só uma pergunta, depois eu ter passado tanto tempo fora.

Neste, neste e neste posts, um monte de gente veio bater no governo por ele ter sido “o responsável pelo acidente da TAM”.

Todo mundo já sabendo de antemão o resultado do laudo. Todo mundo com aquela convicção canônica de que a crise no setor aéreo era o responsável direto pelo acidente da TAM. Todo mundo aproveitando a indignação nacional para dar a sua porradinha no governo Lula.

Agora, tantas e tantas informações depois, não aparece nem um pedidozinho de desculpas? Nem mesmo um “talvez nós não estivéssemos certos”?

Santa Maria

E pobre de mim que caí na conversa daquele pernambucano filho da puta e voltei para o Nordeste porque ele disse aqui fazia calor também mas tinha brisa, e aqui a gente ia viver de brisa, mas a brisa não veio, veio só o sol miserável do Santa Maria, o sol que queima a testa e o pescoço e deixa a marca da camisa sobre um corpo que evita cumprimentá-lo há tanto tempo, e o psicopata sorrindo e agradecendo o dia ensolarado depois de tantas nuvens para minha mais completa indignação, como alguém pode gostar desse sol miserável?, e a moça com a pulseira belíssima com imagens de Nossa Senhora e de Santa Rita e de tantas outras santas fincando o salto na areia fofa como se quisesse criar raízes no descampado imenso que logo, logo vai ser revolvido pelos tratores, e as mulheres de seios murchos com meninos remelentos no colo felizes pelas casas decentes que vão receber em alguns meses, e enquanto penso no ar-condicionado que ficou para trás, que daqui a uns três dias o meu nariz vai começar a descascar, só então me lembro que meu nome não é Anarina e o pernambucano não me fez convite nenhum, vamos viver de brisa, né, pernambucano filho da puta?, sei.

Um conselho para o Igor

Comentário de um rapaz, que se diz chamar Igor, neste blog:

EU TENHO O TICO PQNO E NAUM MACHUCO AS GURIAS NA HORA DE COME-LES. O Q EU FAÇO PRA ELAS SE GOZAREM TUDO?
OBRIGADO

Caro amigo Igor,

Em primeiro lugar, parabéns pela tua delicadeza. Pode parecer bobo, mas delicadeza é fundamental nessas horas. As pessoas querem ser cuidadas, sempre; e a única forma de cuidar é delicadamente.

Mas por ter um tico pequeno tu não saberás o que é uma moça reclamando que és um grosso, um monstro, mas reclamando com um sorriso ofegante e satisfeito. Talvez jamais venhas a saber a mulher ostentando marcas roxas em seu seio como quem ostenta medalhas de guerra, talvez ainda mais satisfeita por não poder mostrá-las.

É possível que me concedas um pouco de tua condescendência, talvez me ouças e abras teu coração para minhas palavras, se eu te disser que também não sei. Este fica sendo o nosso pequeno segredo. Então poderei falar contigo como se fosse de igual para igual, sem que aches — enquanto olhas para o teu tico acanhado — que estou sendo sarcástico ou mesmo paternalista, se é que há paternalismo possível em se tratando de ticos, grandes ou pequenos.

Saiba, Igor, que compreendo tua dor. De que vale toda essa delicadeza, toda essa candura, se com um tico pequeno a ausência de dor evoca nas meninas outra ausência, a de algo que as preencha, que as eleve a alturas tão desejadas; se elas anseiam por algo que lhes faça sentir a pujança do macho tomando posse do que é seu. Por mais delicadeza que lhe confessem prezar, elas ainda são mulheres — e talvez já saibas instintivamente que esperam que sejas homem, que tenhas pelo menos um pouco de rudeza, que saibas pegar e apertar e marcar sua pele e sua carne.

Tivesses um ticão, e não um tiquinho, talvez esta conversa fosse diferente. Talvez eu te falasse de um nível aceitável e desejável de dor; talvez eu te contasse que o segredo está aí, nesse equilíbrio entre a doçura e a selvageria. Talvez eu te falasse dos elementos que compõem a posse necessária, do desempenho adequado de papéis instintivos entre um homem e uma mulher.

Mas tens um tiquinho, somente, e apenas a tua doçura para compensar. Doçura que podes cultivar com carinho, como uma vingança contra a natureza. Tua doçura, Igor, pode ser o que há de mais humano em todos nós: a vitória da humanidade sobre a natureza, a persistência de um homem que vence suas próprias limitações e se ergue, impávido, sobre todas as dificuldades com que um Deus sádico resolveu tornar mais árduo seu caminho para o paraíso.

Então, Igor, só lhe resta aceitar tuas limitações e fazer dela tua força. Se não tens o creme de leite, que sejas apenas goiabada.

Se o que tens a teu favor é a doçura, é a delicadeza, é o cuidado em não machucar a mulher que se põe ao seu dispor, desarmada e ansiosa, então sejas absolutamente doce, delicado, cuidadoso. Se o tiquinho parece pouco, se isso não as faz gritar como se estivessem caindo do paraíso, sejas doce, dulcíssimo. Mas lembra-te, caro Igor, que tu não tens apenas um tico, ainda que pequeno. Tens também dez dedos, e dez é um número tão grande, é uma infinidade. Tens uma língua — e se queres que eu te conte um segredo, uma língua pode e deve valer mais do que dez, do que vinte dedos.

E talvez aí, Igor, no dia em que tiveres aprendido que tua língua pode ser tua grande amiga, no dia em que ela fizer as moças ofegarem e gritarem como teu tico nunca fez, então talvez possas deixar de lado um pouco dessa doçura, e esquecer que um dia tudo o que podias dizer com orgulho é que não machucavas as gurias.

Os 100 filmes essenciais da Bravo

Devo ter comprado três ou quatro revistas Bravo na minha vida; a última foi sobre a bienal de 2004. Saí do jejum agora porque ela lançou uma edição especial com seus 100 filmes essenciais, e como sabe qualquer leitor antigo deste blog, eu gosto de listas de filmes.

Uma das razões é que elas sempre são discutíveis: ninguém concorda integralmente com qualquer lista. Por exemplo, Bergman tem dois filmes aqui. “O Sétimo Selo” é o meu preferido, também, mas eu teria substituído “Persona” por “Morangos Silvestres”. O mesmo acontece com Almodóvar, cujos “Ata-me” e “Fale Com Ela” prefiro a “Tudo Sobre Minha Mãe”, e com Buñuel, cujo maravilhoso “Viridiana” poderia ser substituído sem problemas por “O Anjo Exterminador”.

Nesses casos é apenas idiossincrasia que leva à discussão. As escolhas refletem as preferências de cada um. Mas estão dentro de uma certa margem de segurança, de um padrão mínimo de qualidade e de contexto em que elas não são absolutamente questionáveis. Woody Allen tem os filmes de sempre, mas eu prefiro “Manhattan”. E daí? Problema meu. Por sua vez, a ausência de “O Gabinete do Dr. Caligari” pode ser apontada, mas o expressionismo alemão está bem representado por “Nosferatu” — por falar em Murnau, “Aurora” faz uma falta danada em qualquer lista, porque o movimento de câmera foi praticamente inventado por ele.

Os problemas estão em duas outras categorias de escolha.

O primeiro, menos grave, é o daqueles filmes que ninguém tem coragem de dispensar. “Roma, Cidade Aberta” é presença constante nessas listas porque ninguém parece ter coragem de lembrar que ele vale mais como documento inaugural do neo-realismo italiano do que como o filme envelhecido, datado e enfraquecido que é. Rossellini (cuja grande obra foi a Isabella, embora o mérito seja mesmo de Ingrid Bergman) nunca esteve no mesmo nível do Visconti que está bem representado na lista, com “O Leopardo” e “Morte em Veneza”, mas cujo “A Terra Treme” suportou melhor o tempo do que “Roma, Cidade Aberta”. O filme de Rossellini é uma vaca sagrada que não dá mais leite. Mais ou menos como “Dr. Fantástico”, de Kubrick, filme velho que não sai das listas por preguiça daqueles que as fazem.

O outro problema é ainda mais grave: são os equívocos claros, escandalosos.

“Fantasia”, da Disney, é um desenho interessante, de muitas formas inovador, mas é pretensioso, confuso e chato. Não tem metade da “essencialidade” narrativa e emocional de “Branca de Neve e os 7 Anões”, filme que criou um mercado e definiu um padrão narrativo e técnico que é seguido até hoje. “Branca de Neve” não está na lista.

Enquanto isso, o western tem apenas quatro filmes incluídos. É um dos gêneros fundamentais do cinema; mais que isso, o único que se pode dizer realmente cinematográfico, porque não tinha tradição teatral ou literária anterior, ao contrário do drama ou da comédia de costumes. O western só se pôde realizar no cinema. Mas, ainda mais importante, foi um dos gêneros fundamentais na era de ouro. O western é a quintessência do cinema americano, de longe o mais importante do mundo ao longo do século. Quatro faroestes, portanto, são muito pouco, ainda mais quando se lembra que uma série de bons filmes, mas apenas bons, povoam a lista, como “As Invasões Bárbaras”, “Amor à Flor da Pele” ou “Um Convidado Bem Trapalhão”.

Pior: dos quatro westerns incluídos na lista, dois são “Os Imperdoáveis” e “Butch Cassidy”. São excelentes filmes; mas são também derivados de uma tradição anterior, secundários, e não se sustentam diante de filmes que estabeleceram a estrutura narrativa do gênero. Onde estão “No Tempo das Diligências”, “Rio Vermelho”, “O Homem Que Matou o Facínora”, “Matar ou Morrer”? Só São John Ford, sentado na Grande Planície sobre um tapete feito com o couro de John Wayne, sabe. E esses são filmes que não apenas representam o melhor do gênero: são também obras fundamentais para a própria evolução da arte cinematográfica.

George Stevens tem dois filmes na lista. “Um Lugar Ao Sol” é pule de dez. Mas “Assim Caminha a Humanidade” não é, sob nenhum aspecto, um grande filme — é só um filme grande, recortado, megalomaníaco, com o pior desempenho de James Dean em sua carreira de apenas três filmes. “Assim Caminha a Humanidade” é longo demais e ainda assim excessivamente curto para que possa contar adequadamente sua história.

Stevens, para quem não lembra, é o diretor de “Os Brutos Também Amam”, que não está na lista.

Há outros pequenos absurdos incompreensíveis. “Brazil”, de Terry Gillian, é um excelente filme — mas a lista não inclui nenhum de Gillian com o Monty Python, o que é não só um crime, mas um atestado de burrice. Em “O Sentido da Vida”, um esquete traz uma canção deliciosa: Every sperm is sacred / Every sperm is great / When a sperm is wasted / God gets quite irate. Talvez Deus não ficasse puto em sua túnica branca se o espermatozóide desperdiçado fosse o de quem elaborou essa lista.

Quanto a filmes brasileiros (numa lista extremamente generosa com a brasilidade suingante de nossa gente: quatro), a lista inclui o indefectível “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Cidade de Deus” e duas escolhas esquisitas: “Pixote” e “Lavoura Arcaica”. “Cidade de Deus” é uma escolha discutível — “Central do Brasil” continua sendo o melhor filme da retomada, na minha opinião –, mas “Pixote” e “Lavoura Arcaica” não são essenciais em lugar nenhum. Onde está “O Pagador de Promessas”? “Todas as Mulheres do Mundo”, com sua leveza carioca e cinemanovista, é melhor que qualquer desses dois. E assim como sempre incluem “Roma, Cidade Aberta”, poderiam incluir “O Bandido da Luz Vermelha”, do Sganzerla. Pelo menos não colocaram “Terra em Transe”.

Mas o ponto baixo da lista está no comentário a “Los Angeles Cidade Proibida”. Ponto baixo em termos: porque ilustra com clareza inquestionável os critérios de inclusão. Ali a revista diz:

Parece até um daqueles noir do cinema clássico americano estrelados por Humphrey Bogart, (…) o filme chamou a atenção pelo gostinho de naftalina e por lembrar aos cinéfilos que Hollywood já foi espaço para tramas inteligentes e imprevistas, diálogos espirituosos e grandes atuações, mais do que efeitos especiais mirabolantes.

É isso. Quando uma lista escolhe colocar filmes que apenas lembram os verdadeiros clássicos, é porque ela não vale muita coisa.

Republicado em 05 de setembro de 2010

Balanço

E assim acabam-se as republicações do ano da graça de 2007.

Acabam como nos anos anteriores, me deixando com uma sensação de impotência que, eu sei, vai voltar ano que vem: um ano inteiro, e tão poucos posts decentes. Eu devia ter uns troços melhores para republicar, passar 365 dias só republicando coisas boas, boas de verdade.

Mas o material disponível dá porcamente para mês, mês e pouco. E mesmo assim com excesso de boa vontade, com um padrão rebaixado a um ponto de quase desleixo. Por isso a incompetência do ano anterior me força novamente à labuta, para ver se no ano que vem consigo tirar férias de verdade, deixar os posts se republicando ad aeternum enquanto me dou o direito de olhar para trás e dizer para mim mesmo caralho, eu escrevi um monte de coisas boas no ano passado.

Uma coisa para fazer antes de morrer

O Ina pediu, há uns tempos, que a gente enumerasse dez coisas que precisa fazer antes de morrer.

Eu pensei, pensei, e achei melhor ficar calado. Porque via o Ina sonhando coisas bonitas como se perder na Igreja da Sagrada Família em Barcelona e, poeta que é, cair de amor e ser erguido por ele. Em contraste, essas coisas apenas tornariam mais feia a minha lista.

Eu não sonho em cair de amor, porque sou só um paraíba e sempre sonhei, mesmo, foi em cair de língua. Para uns não há diferença, mas em verdade ela existe, e nela está contido o verdadeiro segredo da vida. Por isso pensei muito, e fiz uma lista dizendo o que eu realmente gostaria de fazer antes de morrer, e vi que ela nem de longe se pareceria com a belezura do Ina. Melhor não publicá-la, então, porque ficaria mais ou menos assim: 1) Comer a Isabel Fillardis; 2) Comer a Nicole Kidman; 3) Comer a Catherine Zeta Jones; e por aí seguia, lista ainda por cima tão volúvel que às vezes mudava um ou outro item, uma mulher injustamente esquecida e que parecia fazer melhores promessas que outra incluída — embora a lista fosse essencialmente constante em seu objeto. Em sua defesa eu poderia apenas dizer que ela mostraria interessante unicidade de motivos, uma força de vontade adamantina, ou mesmo um despojamento quase franciscano em relação ao que é acessório na vida. Poderia dizer que sou um sujeito bastante centrado.

Melhor não publicá-la, então, que ela apenas iria revelar a minha monomania e minha absurda falta de criatividade no que refere às coisas realmente importantes da vida. Ainda pensei em fingir e falsificar um ou outro desejo, em colocar uma ou outra bobagenzinha como comer em um tal restaurante de Florença, ou ver o sol se pôr em um cudemundo qualquer do Pacífico, mas além de nada disso ser verdade, todos iriam perceber imediatamente que eu mentia. Comer em um restaurante de Florença, na verdade, só se fosse a Monica Belluci — ou mesmo a Sophia Loren, para satisfazer um capricho mórbido, quase necrófilo.

Mas a idéia ficou na minha cabeça, e se não tenho lá tantos sonhos ou pequenos projetos acessórios de vida, percebi que há uma coisa de que eu realmente gostaria, que traria alguma luz para o meu coração aparentemente de pedra.

E decidi que o que quero mesmo fazer antes de morrer é ser um velho chato.

Chegar à velhice, para alguém com os meus hábitos de sono e alimentação, minhas preguiças e meus impulsos, já é uma vantagem. Uma grande conquista, tão mais desejável quanto mais improvável se mostra. E dentro dessa perspectiva a artrite, os ossos quebradiços, a aversão ao frio e o amor às meias e casaquinhos de lã, o medo pânico da pneumonia e da falência renal se afiguram como quase uma vitória. Por ela valeria a pena até adquirir aquele cheiro inconfundível de velho, de antigüidade que ninguém quer.

Mas não basta ser velho, que depois que a Peste Negra se foi ficou fácil chegar a uma idade de ancião. Bom mesmo é ser um velho chato. E eu seria um velho realmente chato, daqueles que reclamam de tudo, que peidam diante do genro e beliscam os netos, que mostram a eles doces que jamais darão, que furam a bola dos meninos que jogam na rua, que atrapalham namoros na praça, que dizem esquecer as coisas para que os tratem com absoluto monopólio de atenção.

Não furaria a bola dos meninos porque já não podia jogar, tampouco reclamaria do namoro dos jovens que não têm motel porque a impotência geraria em mim a inveja e a sensação de que tudo é indecente. Eu faria isso apenas pelo prazer de ser chato, ars gratia artis, um velho ranheta cheio de bile que sente um prazer genuíno em tentar fazer do mundo um lugar, se não desagradável, pelo menos um pouco pior. Finalmente, encheria o saco dos netos porque, afinal de contas, eles teriam que aprender que esse mesmo mundo pode ser um lugar muito mau.

E quando eu andasse na rua, encurvado, reclamando do tempo que passou rápido quando não devia e que parou de passar quando devia se apressar, reclamando da morte que não vem; quando as pessoas rissem de mim e dissessem que virei um velho chato porque não como mais ninguém, eu riria baixinho, aquela risada banguela e nasal de velho chato, e me sentiria finalmente realizado, e poderia morrer em paz. Apenas pediria, como última concessão do tempo que teria se mostrado tão generoso, que me levasse antes que eu perdesse a noção de que estava sendo chato, porque aí a brincadeira perderia a graça, e a velhice duramente conquistada ao longo dos anos em que sofri e fiz sofrer teria perdido o sentido.

Originalmente publicado em 28 de julho de 2006

A Copa do Mundo de 2006

A Copa do Mundo de 2006 passou em meio a uma bruma de cerveja, camarão, pitu, pilombeta, siri, lambreta, amendoim, grappa, a bunda divina da Chicotão, a risada pantagruélica do pândego Rosalvo, Cauê brigando comigo por causa do Gordo de quem ele não gosta, o outro Rafael a postos para soltar os fogos, o bêbado cantando com voz molente o hino da torcida brasileira com muito orgulho, com muito amor. Se o Brasil fosse para as finais eu provavelmente teria virado um peixe afogado em cerveja — e me afogaria feliz com a bunda da Chicotão diante de mim, a bunda perfeita sob uma cintura irresponsavelmente fina, os seios pequenos com mamilos grandes apertados pelo sutiã de menina-moça.

Agora vêm as desculpas e a divisão de responsabilidades. Vão procurar no último jogo as razões que vieram se estendendo por toda a Copa, vão se perguntar por que um time que não fez um único bom jogo perdeu para a França com direito a chapéu de Zidane sobre Ronaldinho, vão jogar a culpa no Parreira quando ela é também de quase todo o time.

Nada disso interessa, no entanto, porque aos derrotados só interessa mesmo o esquecimento, sem o qual a esperança não se renovará daqui a quatro anos, quando novamente acreditaremos que seremos campeões do mundo porque esse é o nosso destino.

Se fico triste pelo Brasil não ter seguido em frente e feito mais gols não é por um amor desmesurado ao futebol ou por um quadrienal patriotismo de chuteiras. É porque, a cada nova bola na rede adversária, a Chicotão iria pular na minha frente, e aquela visão angélica se repetiria mais uma vez, uma bunda que representaria mais que a vida e ofuscaria aqueles vinte e dois homens suando atrás de uma bola, porque não há escolha a fazer quando você se vê entre a bunda da Chicotão e a cara de bunda do Ronaldinho. A bunda da Chicotão, eu sei, me faria esquecer de pular e comemorar os gols, porque eu me quedaria sentado, olhando embevecido o seu sobe e desce quase impublicável.

Mas o Brasil perdeu e a bunda divina da Chicotão não vai mais subir e descer na minha frente com seu balançar firme, o balançar apenas necessário que lhe conta em segredo que nada vai lhe faltar, e faz um desafio mudo que, ao contrário dos outros desafios, traz um sorriso beatífico e rendido ao seu rosto.

Se aos brasileiros cabe imaginar o que seriam as finais, o meu parco amor ao esporte, amplificado momentânea e artificialmente pelo copo nunca vazio de cerveja e pelos dedos tingidos de vermelho pela queratina do camarão, faz com que a mim reste apenas pensar no que poderia ser a bunda da Chicotão pulando diante de mim depois de cada gol que o Brasil poderia ter feito.

E assim vai ficar a Copa do Mundo de 2006. Com lembranças vagas de cada jogo, com a lembrança alcoolizada de mostrar à Isabel que ela deve escolher o outro sujeito de que me falou, porque aquele em cima de quem ela está dando é inadequado porque não pega na sua bunda do jeito que eu mostro que ele deveria pegar, com a atitude que cobraram aos derrotados por Zidane e a outra mão apertando sua cintura, movimento inocente e apenas pedagógico porque da Copa do Mundo de 2006 o que eu vou lembrar mesmo é da bunda amoral da Chicotão pulando diante de mim.

Originalmente publicado em 3 de julho de 2006