O mundo que nos rodeia

As pessoas não estão prestando atenção ao Vidas e Imagens, do Ricardo Montero? Numa blogoseira que costuma ser alienada em relação ao país em que vive ou extremamente elitista, preferindo temas fáceis como literatura, cinema, política de Kuala Lumpur ou sei-lá-o-quê e refletindo uma postura tranqüila de classe média (pecado do qual este blog não está isento, a propósito), o Ricardo Montero aparece com um mosaico fascinante de vidas comuns, daquelas que a gente vê passar na nossa frente todo dia e não percebe.

A propósito, o filho da puta andou pelos cantos de cá e não avisou.

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Devo ser o último a comentar, mas tudo bem: poucas iniciativas deram tanto o que falar quanto o Interney Blogs, portal capitaneado pelo Edney e pelo Inagaki.

Diferente dos condomínios de blogs como o Gardenal e o Verbeat, a proposta do Interney Blogs é eminentemente comercial. E essa diferença deve ser aplaudida, porque acena com a possibilidade de profissionalização dos blogueiros brasileiros.

Isso é importante: 9 entre 10 blogueiros que gostam disso gostariam de ganhar dinheiro com blogs. E pela maneira como foi concebido, o Interney Blogs tem condições se tornar um veículo significativo e um marco na história da blogoseira brasileira.

O Interney Blogs já tem gente de calibre excelente: o Marmota, o Donizetti (que escreve cada dia melhor), o Cintaliga, o Enloucrescendo.

Daqui a pouco, em maio, tem início a segunda fase, com mais algumas dezenas de blogs se juntando aos que já existiam. Entre eles o Alex, que deu uma entrevista muito interessante ao Digestivo Cultural. Muito, muito boa — talvez porque o doente não falou de pés. Outro blog que também vai se mudar para lá é o melhor de todos: o Kit Básico da Mulher Moderna. Ela não me ama mais, mas eu a amo mesmo assim.

A propósito, nesta entrevista ao Guilherme Felitti, o Ina citou este blogueiro como um outsider. E embora eu fique grato por ser considerado assim (imagino um sujeito com a cara de Clint Eastwood quando ainda era bonito, um revólver fumegante na mão direita, o poncho virado para trás e o cadáver do establishment estendido adiante com as tripas para fora), sou forçado a confessar que consigo conceber poucas pessoas tão bem integradas ao sistema quanto eu. Eu bebo coca-cola e como carne vermelha. Tento pagar minhas contas em dia. E, como sabe qualquer pessoa que leia este blog há mais de 5 meses, eu sou governista até a medula, oras. Como diz o Maurício Vivas, este é um blog chapa branca.

Eu não sou um outsider. Eu sou só implicante.

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Se eu fosse o Reinaldo Azevedo eu arranjaria uns cabras para dar um jeito no Hermenauta. Nenhum tribunal no mundo o condenaria, nem mesmo a Santa Inquisição. Porque há limites que não se deve ultrapassar. Não se bate na cara de um homem, Hermê. Nem mesmo na de um coroinha de aluguel.

Caixa-preta

O Alexandre Pinheiro fez um post sobre o episódio da caixa-preta do avião da TAM que caiu em Sumpaulo há 11 anos (e que deu a fama da qual a TAM não conseguirá se livrar enquanto não substituir todos os seus Fokker 100).

O texto fala sobre um erro grosseiro de jornalismo da Globo, segundo o qual o piloto teria tentado desviar de uma escola cheia de bacuris. É uma mentira e uma impossibilidade, como lembra o Alexandre, mas um diálogo hipotético entre o piloto e o co-piloto poderia ter sido uma gracinha.

“Vou desviar da escola. Vamos salvar as criancinhas!”

“Mira naquela véia ali à esquerda, então!”

“Porra nenhuma, eu vou tentar é levar o avião até a casa daquele filho da puta que me deve uma grana e agora não vai mais precisar pagar!”

“Ah, caralho, se é assim então leva pra casa da minha sogra!”

Se você vai mentir, que minta com estilo.

Sobre a falta de foco

Semana passada o mundo ficou sabendo que existe uma certa Associação dos Desempregados de Sergipe. Uma multidão imensa, como se pode ver na foto, foi para a frente da Prefeitura de Aracaju e fez uma manifestação para pedir coisas como passe livre nos ônibus.

O sol estava muito forte e eles, naturalmente, preferiram ficar sob a sombra.

Este blog tem a impressão de que esse pessoal ganharia mais se, em vez de passar uma manhã agradável ouvindo música na frente da Prefeitura, eles fossem procurar emprego.

O aiaiai da vergonha

Desde que me mudei, há uns seis meses, uma coisa me incomodava no meu edifício.

Acontece entre meia noite e uma da manhã, pouco antes de eu ir dormir. Umas duas vezes por semana. Não consigo esquecer da primeira vez que escutei o sujeito, que quase certamente mora num apartamento em cima do meu. Primeiro o silêncio da madrugada em que as pessoas decentes dormem. Aí os sons.

É assim: “ai. Ai. AI. AAI. AAAII!!! Aaaaaaaaaai…” Coisa de três, quatro segundos. O homem grita muito alto. E então volta o silêncio calmo da madrugada.

Da primeira vez fiquei feliz pelo sujeito. Ali estava alguém que, ao contrário deste pobre e inconformado leigo no assunto, estava fazendo aquilo para o que a humanidade realmente nasce, aquilo que dá sentido à vida. Houve até um sábado em que, às oito da manhã, eu ainda na cama olhando para o teto, o aiaiai se revelou em toda a sua força — e eu estava no quarto fechado, ainda com o ar-condicionado ligado. O aiaiai já tinha tomado conta do condomínio na noite anterior, e lá estava o rapaz novamente. “ai. Ai. AI. AAI. AAAII!!! Aaaaaaaaaai…”. Ele era bom, pelo menos disposto. Ou tinha lá suas razões: “Namorada nova”, o despeitado aqui pensou.

O fato é que tudo o que sei do sujeito é que faz saliência com a janela aberta e faz barulho, muito barulho. Sei também que não devo ser o único a ouvi-lo, porque o rapaz é, digamos, muito vocal.

Mas então isso começou a se repetir (nas madrugadas, nunca mais durante a manhã). De engraçado, o aiaiai passou a ser tedioso. Porque só então percebi uma coisa importante, tão importante que não entendo como não tinha notado antes.

Eu não ouvia a moça.

Havia algo errado. Embates amorosos devem ser acompanhados de gemidos mútuos — mas os dele são dispensáveis, enquanto os dela são a razão mesmo de viver. É simples assim. Alguns conseguem isso com esforço; outros, mais abençoados por Deus e pela atenção, obtêm melhores resultados.

No entanto, ali só quem se divertia era ele. Talvez não houvesse mulher. Talvez o sujeito gritasse assim porque estava sendo servido por um rapaz guapo e musculoso. Talvez fosse o amante do sexo solitário mais ruidoso de que se teve notícia. De qualquer forma, eu já tinha desistido de entender. Já começava a achar que o meu vizinho escandaloso tinha um caso com uma boneca inflável.

Até que, numa dessas madrugadas, eu a ouvi.

Estava na janela da sala fumando o último cigarro do dia, olhando para a lua — profética, a lua estava em seu quarto minguante. Uns sons vieram do andar de cima. Não era o escandaloso, não ainda. Pelo contrário, eram os sons mais bonitos que um homem pode ouvir, os ais e uhns de uma mulher. Ela se empolgava um pouco. Dizia palavrinhas de mulher que trepa mal: “Ai, amor, ui, meu bem, assim”. Palavras maravilhosas, certamente, boas de se ouvir em tantas horas, mas que não se sustentam diante da análise fria daqueles que não estão entre suas pernas. Eram quase burocráticas: indicavam menos a amante feliz do que a mulher que se esforça em agradar o homem que ama. Ela gemia baixinho, e eu só ouvia porque sua janela estava aberta e eu estava debruçado na minha, pensando na morte da bezerra.

Exatamente nessa hora, o momento maravilhoso em que os gemidos dela aumentavam de intensidade, e se sentia mais verdade neles, a paz da noite foi cortada pelo som tenebroso de sempre: “ai. Ai. AI. AAI. AAAII!!! Aaaaaaaaaai…”

E fui tomado por uma vergonha imensurável, que me fez baixar os olhos e me esconder em meu quarto. Eu tinha percebido o que acontecia, e a visão que se descortinava em minha mente era tenebrosa.

A mulher até que se divertia. Mas quando o sujeito percebia que ela estava gostando, se soltava. Julgava encerrado o seu dever e corria enlouquecido em busca do seu aiaiai, e a mulher embaixo dele — embaixo, com certeza — que se virasse como podia.

O resultado, em poucos segundos, era um sujeito feliz, satisfeito, provavelmente deitado na cama olhando para o outro lado, e uma mulher decepcionada, talvez ainda se contorcendo por ter sido interrompida em sua caminhada, talvez com a sensação de que lhe prometeram o paraíso e tudo o que recebeu foi São João do Meriti.

Não é possível explicar o arrependimento que tomou conta de mim por ter me mudado para aquele condomínio. De repente, eu tinha passado a morar no cafofo da humilhação. Esse era o meu vizinho, e o seu opróbrio me amaldiçoava também. “Você mora no condomínio tal?”, alguém me perguntaria, e eu desviaria os olhos e responderia “Não, eu moro com dois travestis, um traficante, uma prostituta de 20 reais, um alcagüete da polícia viciado em crack e um torcedor do Botafogo num barraco de 10 metros quadrados no Morro do Péla Porco”. “Não, ali quem mora é o meu irmão. É a ovelha negra da família, ele bebe, coitado, olha onde ele foi parar.” Eu não hesitaria em mentir para salvar o que restava de minha honra: honra para a qual nunca dei nada, que nunca valeu um tostão furado e que eu trocaria por qualquer bunda grande com dois peitos em cima, mas para a qual há limites abaixo dos quais não se pode descer.

Pensei até em andar com um coração amarelo no peito, sinal de minha vergonha, e uma confissão de que eu deveria ser desprezado por todos porque morava no mesmo condomínio que o sujeito do aiaiai.

A vergonha, no entanto, não eliminava a revolta. Aquele sujeito era uma vergonha para a classe e para os homens que se julgam dignos desse nome. Houvesse uma assembléia dos homens machos do sexo masculino e ele seria execrado publicamente, e seu corpo coberto com piche e penas, e nós o faríamos desfilar pela rua em sinal de execração. E espalharíamos as fofocas mais vis, e diríamos que o aiaiai desvairado do sujeito se devia ao fato de ele estar mordendo fronha, mas diríamos isso apenas por picuinha: porque sabemos que bastaria dizer a alguém o que esse abominável faz — em voz muito baixa, como se dizia há 50 anos que fulana deu um mau passo — para que as pessoas fizessem expressões horrorizadas e fingissem não acreditar nisso. “Não! Jura?”

Eu já estava olhando os classificados em busca de um novo lugar para morar, um lugar que não me envergonhasse e cuja mácula não fosse transferida a mim por associação. “Coitado… Mora tão mal… No prédio do Doente do Aiaiai…” Eu sabia exatamente como se sentia, como o favelado que não quer ser confundido com um traficante.

Mas bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.

Um outro sábado. Três da manhã. Eu chegava em casa e estava tirando os sapatos no escritório. Como está virado para outro lado, de lá não se costuma ouvir o Doente do Aiaiai.

E então eu a ouvi.

Era outra mulher, em outro apartamento. Mora em um apartamento abaixo de mim. E a sua existência redime a nossa.

O que eu posso dizer — porque dessas coisas não guardo os detalhes, nunca guardo, sei apenas da sensação que nunca se repete, que nunca é a mesma — é que a moça estava sendo bem cuidada. Muito bem cuidada. E deixava claro, a todos os que quisessem ouvir, que a sua noite estava terminando da melhor forma que se podia imaginar, um final estendido em meio a pequenos gritos e muitos gemidos. Ali estava uma mulher feliz, e isso, por um vício terrível de personalidade (ou mero condicionamento pavloviano), me deixava também feliz.

Até aí nada demais. Moças se divertindo são relativamente comuns. Lembro de outro prédio em que morei, no Ceará, onde de vez em quando se ouvia uma mulher fazendo “Ungh! Ungh! Ungh!”, e se sabia exatamente qual o ritmo seguido pelo seu amado. Nada demais, eu já disse. Mas havia um detalhe que não podia passar despercebido, e Deus está nos detalhes como dizia o Van der Rohe.

Só se ouvia a moça.

A redenção, afinal. Depois de meses ouvindo eventualmente um sujeito escandaloso e ruim de cama dar o seu showzinho mambembe e vergonhoso, a honra do meu prédio era resgatada por um rapaz cujo nome e semblante desconheço, mas que reconheço como irmão espiritual.

Porque em vez de gritar aiaiai, como se estivessem enfiando uma trolha sarracena no seu rabo, o sujeito preferia fazer o seu trabalho comme il faut. Um trabalhador honesto, dedicado. Um homem.

E nesse sábado eu fui dormir feliz, porque a vergonha que maculava o meu edifício tinha sido lavada em suor e em saliva.

Republicado em 12 de agosto de 2010

Sexta-feira o rabino…

Há uma série de livrinhos policiais de Harry Kemelman que tem como protagonista o rabino David Small. Foram lançados aqui pela Companhia das Letras e ainda estão em catálogo.

São uns livrinhos bem vagabundos. A única razão para existirem, provavelmente, é o fato de se dirigirem a um nicho de mercado específico. O rabino David Small é o padre Brown em versão kosher. E piorada.

Os títulos dos livros seguem um padrão: “Sábado o rabino passou fome”, “Segunda-feira o rabino viajou”.

Agora, tendo em vista os acontecimentos que abalaram a comunidade judaica nacional, e sempre com o espírito de solidariedade que caracteriza este blog, sugerimos um novo título, que poderia ser lançado ainda este ano.

“Sexta-feira o rabino devia ter ficado em casa”.

O frouxo e o faroleiro

Inagaki says:
Nova campanha beneficente: Free Henry Sobel

Rafael says:
Eu li no seu blog e vi a camisa.
Eu fiquei impressionado com o sujeito.

Inagaki says:
Ele subiu no meu conceito depois desse ato pilantrópico. Sensacional!

Rafael says:
Subiu???
Caralho.
Olha o que é a vida.

Rafael says:
O sujeito teve uma atuação mais que decente no caso Vlado, quando até o sindicato dos jornalistas foi covarde.
Mas pra subir no conceito do povo tem que fazer uma palhaçada.
Alexandre Inagaki, você não presta.

Inagaki says:
Brasil-il-il!!!

Rafael says:
(Vou publicar essa conversa.)

Inagaki says:
Ôpa! Mas faço a seguinte ressalva: a biografia do Henry Sobel realmente merece respeito. Vide aquele episódio em que ele se recusou a enterrar o Herzog na “ala dos suicidas” do cemitério judeu, por exemplo.

Inagaki says:
Mas esse episódio mostra que é ele humano e faz cagadas como todos nós. Por isso subiu no meu conceito. Assim como a Winona Ryder, que tinha uma aura tão inatingível, até cometer aquela presepada

Rafael says:
Com a ressalva o post perde a graça.
Mas a Winona tinha aura intangível?
Uai, pra mim nunca teve.

Inagaki says:
Toda atriz de Hollywood tem, pô. Vai dizer que vc acredita que um dia vai comer a Scarlet Johansson?
Já uma cleptomaníaca vira vizinha de casa, pô

Rafael says:
Só porque a Johansson não mora no Bairro América.
Se morasse, não demorava dois dias.

Inagaki says:
Ah, rapaz, pra botar essa conversa no teu blog tem que ter a explicação pra ele ter subido no meu conceito! Senão a afirmação fica descontextualizada, carái!

Rafael says:
Frouxo.

Rafael, Orlando, Mary e Rolando

Luiz Pereira Carlos, em comentário a um post qualquer:

Quem é Rafael Galvão(?). Quantos anos tem Rafael Galvão (?).
Desculpe a curiosidade, mas não é em vão, há fortes motivos para saber com quem estou falando, se com Orlando ou com Mery.

Fico imaginando como seriam as coisas se eu fosse Orlando. Não sei quem é o dito, mas digamos que seja um sujeito legal. Seria bom ser outra pessoa, uma boa pessoa. O curioso é que, por alguma razão, mais que algum Orlando que eu eventualmente conheça o nome me lembra outro, quase um anagrama: Rolando, aquele que demorou para tocar sua corneta e se ferrou num desfiladeiro qualquer. Rolando tinha heroísmo escrito em sua testa. Eu, que no máximo exibiria um “otário” carimbado na minha, só me beneficiaria com essa troca.

Infelizmente eu não seria um bom Rolando, porque assim que os bascos chegassem eu tocaria a trombeta, gritaria, assoviaria, me ajoelharia pedindo para não me matarem que eu tinha mulher e sete filhos e uma avó tetraplégica para criar, sairia correndo, faria o diabo com um medo danado de morrer. Ao contrário do conde de Carlos Magno, eu dificilmente entraria nos livros de história, a não ser como “Rolando, o Frouxo de Roncevaux”.

Se eu fosse Mery, ah, antes eu teria que dizer que sempre achei que se fosse mulher eu seria extremamente cachorra. Daquelas bem vadias — ou bem livres, de acordo com a sua visão das coisas. Se eu fosse Mery eu seria dadeira, como dizia Caymmi. Claro que o Luiz, cioso da honra e da reputação da amiga cujo paradeiro procura, vai dizer que não, que Mery não é nada disso, é moça fina e direita. E nesse caso eu não quero ser a moça. Não tem graça ser mulher se não for para dar com a mão na cabeça para não perder o juízo — e melhor, sentir o juízo escorrendo entre os dedos. Mas se Mery for tudo isso que eu seria se Mery eu fosse, se for capaz de alegrar com candura as noites de tantos, por favor, Luiz, me dê o telefone dela.

Mas aí lembrei que o nome Orlando evoca outra pessoa: o Orlando de Virginia Woolf. Nesse caso, Luiz, acho que você está me sacaneando. Eis as duas opções que tenho: uma mulher e um homem que se transforma em mulher. Você não me deu muitas alternativas, Luiz. E eu sou só um paraíba estranho a essas sofisticações todas.

De qualquer forma não sou Orlando e não sou Mery, sou só Rafael. Não é grande coisa, eu sei, mas foi tudo o que consegui ser — confesso que com pouco esforço porque sou baiano e esse negócio de tentar melhorar pode cansar. Coloque a culpa na genética, no ambiente pernicioso em que fui criado, no excessivo apego a coisas simples como mulheres com a bunda grande. Coloque a culpa no que quiser, não importa. Eu vou continuar sendo só Rafael.

Por isso, tudo o que posso dizer é que a pergunta realmente pertinente aí é: quem é Rafael Galvão.

E isso, meu amigo, mesmo depois de tantos e tantos anos de vida, eu ainda não sei.

Republicado em 10 de agosto de 2010

Manual do Corno Moderno

Hoje este blog vai prestar um serviço inestimável de utilidade pública.

Vai abordar um tema que preocupa a grande maioria dos homens e mulheres; talvez aquele que mais os aterroriza em um mundo cada vez mais confuso, em que as certezas se diluem a cada dia, em que, como diziam Marx e Marshall Berman, tudo que é sólido desmancha no ar.

Hoje nós vamos falar do homem traído.

Este blog vai oferecer, aqui, informações cruciais para que vossa senhoria saiba identificar, com presteza e segurança, os sintomas que indicam que vossa mulher tem hoje pensamentos outros que não a dedicação integral a vossa felicidade completa.

Esses conhecimentos me foram passados por uma grande amiga, em uma mesa em que se discutia os meandros e desvios das relações a dois. Não são segredos que mulheres passem para homens normalmente, mas que amigos passam para amigos. Fica aqui então o meu agradecimento duplo: pela amizade e pela informação.

No entanto, que não se veja neste pequeno opúsculo apenas um alerta aos homens. Porque ele não é. É também um guia destinado às mulheres, concebido com o intuito de alertá-las para que não se acomodem em manobras diversionistas antigas, que começam a se tornar conhecidas e previsíveis. Este blog sabe o quanto mulheres podem sofrer nas mãos de homens insensíveis, homens que às vezes sequer sabem o que estão fazendo. É contra esses que este blog se solidariza com as mulheres em sua revolta: é esse o pior tipo. Acreditamos firmemente que, se vossa senhoria vai fazer alguma merda, que a faça por desejo e por vontade, e não por incompetência.

Portanto, este pequeno guia deve servir também como um estímulo para que as tantas mulheres que encontraram em outra cama uma réstia de felicidade descubram novas estratégias. Que se pense na minha amiga como uma Miss M do adultério; e neste blogueiro que vos transmite esse conhecimento como um mero escriba desejoso de ajudar esses tantos e tantos amantes vespertinos, venturosos em sua alegria mas eternamente condenados pela culpa e pelo medo.

1 – Ela quer ficar sozinha

Foram anos de casamento em que vossa senhoria e vossa consorte padeceram um do outro. Não falo aqui daqueles dias em que se está apaixonado, porque nesses tudo é agradável. Falo dos outros, daqueles momentos em que preferiríeis ver o cão na sua frente a tolerar a mulher com quem se casou. Essa é a parte realmente ruim do casamento: os dias em que vocês não estão apaixonados. Os dias em que se sequer se amam, em que mágoas acumuladas durante os anos de consórcio conjugal borbulham esperando uma chance de transbordar.

Durante todos esses dias a sua mulher ficou no seu pé, às vezes lhe tirando a paciência com suas miudezas, com coisas desimportantes que acabavam lhe irritando. Tudo aquilo em que pensáveis era sempre mais importante do que as miçangas que ocupavam a mente de sua esposa.

É essa mulher que de repente não precisa mais de vossa senhoria, que quer ficar sozinha. Mau sinal.

Por que vossa senhora gostaria de ficar sozinha, assim, sem razão? Pensai com vossos botões, senhor; e enumerai as razões que sei que vais enumerar, e às quais me antecipo aqui: vossa senhora não sabe fazer nada sozinha; precisa de vós para tudo; faz parte da natureza feminina essa tendência à chateação, à solidão a dois.

Isso mostra apenas quão pouco vossa senhoria conhece a mulher com quem dividis a cama, e que agora emprestais a outro cidadão.

No entanto, mais importante do que isso é a outra novidade em vossa vida: no pouco tempo que passais juntos, ela vos cobre de carinhos e atenções, e é a mulher atenciosa dos tempos em que a vida em comum à frente parecia uma autobahn alemã, e não a picada de piçarra esburacada entre Capim Grosso e Santa Brígida que acabou se revelando.

Se fosses mais atento, vossa senhoria perceberia que essa necessidade súbita de solidão e os momentos de carinho intenso são duas faces do mesmo sintoma.

Esse sintoma se manifesta da seguinte forma: digamos que ela tem umas quatro horas livres por dia, quatro horas que poderia passar ao lado de vossa senhoria. Durante meia hora ela o cobre de atenção, de mimos, para que possa passar mais tempo pensando no homem que realmente faz o seu coração bater mais rápido.

Nos tempos modernos, e é isso que nos interessa aqui, essas horas em que ela se vê impossibilitada de cair nos braços do homem que a faz suar não é mais gasto apenas em devaneios e lembranças: depois que inventaram a internet, o contato pode ser mais constante, contínuo. Então as juras de amor que deveriam ser para o senhor, e que foram um dia; as idéias para novos prazeres, que o senhor já não é capaz de oferecer; tudo isso agora tem novo destinatário. Esquecei toda a conversa sobre informação, novos horizontes, educação: a Internet foi feita unicamente para aplacar um pouco a saudade que queima o peito dos amantes clandestinos.

Não quero ser cruel, caro senhor, mas imaginai as coisas que são ditas pelas teclas do computador em vossa sala, ou quarto. Imaginai as juras de amor; mais que isso, imaginai as pequenas e grandes coisas que ela sonha fazer com outro homem que não vossa senhoria. Imaginai suas coxas se contorcendo enquanto ela sorri para o computador: e imaginai também que nada disso, meu senhor, é por vossa causa.

Os dois sintomas sempre vêm juntos, mas o senhor é incapaz de perceber. O que vos incomoda é o fato de que ela aparentemente não precisa mais de vossa senhoria; entretanto, ao outro sintoma vos acostumais rápido, chegais a julgar como algo natural, porque é assim que as coisas devem ser. Pobre de vós e de vossa fronha.

2 – Ela se torna mais tolerante com vossa senhoria

Foram anos em que ela reclamou do jornal largado ao lado do sofá, da toalha molhada sobre a cama, da saída com os amigos no sábado à tarde, do futebol no final do domingo.

A tudo isso, a todos os resmungos, a todas as queixas, vossa senhoria já tínheis se acostumado com um suspiro. Suspiros parecem ser uma constante na vida de homens casados. Para vossa senhoria, isso era apenas parte daquele complexo sistema de compensações que torna viável qualquer casamento.

Mas de uns tempos para cá as coisas parecem ter melhorado. Ela finalmente entendeu que vossa senhoria é um homem ocupado, um provedor que precisa cumprir horários. Compreendeu que vida tão estressante requer uma válvula de escape, uma imersão no mundo masculino da qual ela deveria se sentir grata por ser excluída. Compreendeu que o mundo masculino é cheio de exigências, e que deveria haver uma divisão natural do trabalho em que cuidar da toalha molhada e jogar o jornal no lixo deveria ser tarefa exclusiva da mulher que vossa senhoria tem em casa.

Ela compreendeu. Quem não compreende é vossa senhoria.

Não entendeis que o sistema de compensações continua o mesmo; só mudaram os objetos. Agora, sua tolerância é maior porque o que ela precisa compensar é também maior: são as aspas que crescem lassas em sua testa.

Acredite ou não, ela ainda ama o senhor. E daí que ande fazendo o indizível com outro homem? Só isso não faz com o amor acabe — quando menos porque depois de tantos anos essa vida medíocre que ela vem levando tem que parecer ter valido a pena. Queirais ou não, ainda sois o homem com quem ela dividiu a existência durante tantos anos. Por mais extáticos que sejam os momentos que vossa mulher passa sob outro homem, sois vós ainda seu grande referencial de vida. É por tudo isso que ela tenta vos compensar, e só o senhor não percebe.

E esse é talvez o melhor de todos os sintomas. Esquecei a galhada frondosa que ora lhe orna a fronte: vossa vida agora está melhor do que antes. Tendes de volta a mulher doce, compreensiva, adorável, por quem vos apaixonastes. Portanto pensai, caro senhor: melhor dividir os bônus do casamento do que arcar sozinho com os ônus.

3 – Sexo no piloto automático

É provável, é mais que provável que vossa senhoria se ache uma máquina de fazer sexo. Vossos cinco minutos são o máximo a que uma mulher com juízo pode querer na sua vida. Nisso não estais só, feliz ou infelizmente. Mas não é de outros homens que trato aqui, é da queda de vossa senhoria.

Mas para que não fique aqui a impressão de que apenas os pouco inclinados para os embates gozosos são embaídos, é forçoso levantar uma consideração simples, antes de avançarmos por esta seara: faça vossa senhoria o que fizer, o amante de vossa mulher faz melhor. Por favor, não vire o rosto: o sujeito que, talvez até neste exato momento, está comendo a sua mulher é melhor de cama que vossa senhoria. Pelo simples fato de não ser vossa senhoria.

Sejamos honestos: depois de, digamos, sete anos de casamento, vossa vida sexual não tem mais graça. Vossa senhoria já conhece a mulher com quem há tantos anos resolveu dividir o lar. Se vos restar ainda certo interesse, vossa senhoria já conhece os atalhos para algo que quase se assemelha a um orgasmo, daqueles fraquinhos, daqueles que melhor seriam chamados por “missão porcamente cumprida”.

Mas se não lhe resta nem essa faísca de interesse, se o que sobrou de um grande amor cheio de adjetivos foi o tédio puro e simples, então nem isso: uma trepadinha burocrática de cinco em cinco dias, quando muito — menos ainda se o trabalho passa por uma daquelas temporadas em que exige tudo de vossa senhoria. Não tendes mais ganas de deixar vosso rosto encharcado dela, aproveitais o ciclo lunar para um merecido (em vosso entender, ao menos) descanso. Amanhã precisais trabalhar.

É compreensível que depois de alguns lustros tenhais esquecido dos tempos em que trabalháveis 16 horas por dia e mesmo assim não perdíeis o almoço executivo do motel, conciliando tempo e amor quando possível; e chegáveis no trabalho com o cabelo molhado e dizíeis ter ido cochilar em casa. Vossa senhoria talvez tenhais até esquecido dos tempos em que dormia cinco horas por dia porque uma mulher apaixonada sentia urgência de vosso corpo, de vosso cheiro. Tínheis tempo para tudo: porque tudo era novo, e há no homem algo que o impele a explorar, e a gostar de suas descobertas enquanto elas são novas.

Mas esse tempo passou e vossa senhoria, sinto ter que dizer, não é mais o mesmo.

Podeis me chamar de machista, se quiserdes, e talvez eu seja mesmo: mas se vossa senhoria comesse decentemente a sua mulher, nada disso aconteceria. Simples assim. Não há senhora que freqüente as tardes de motéis de preço módico — amores clandestinos são também amores dispendiosos — que não reclame de pelo menos um desses dois aspectos em relação ao bom cumprimento dos vossos deveres conjugais: freqüência ou qualidade. E quantas camas de motel já ouviram desabafos desse tipo, relutantes a princípio, e finalmente francos, abertos?

Não vos indignai comigo, não ainda. Em vossa defesa, posso dizer que me parece tarefa árdua demais que, após uns 15 anos, olhar a celulite de vossa esposa e acordar diante do seu mau humor consiga ainda evocar desejos intensos, que consiga mais que um suspiro conformado com a sina que vos parece irremediável. Além disso, do mesmo mal que acomete vossa senhoria padece vossa consorte. Ela também já não vê tanta graça no senhor.

O fato é que, independente das qualidades intrínsecas de vossa senhoria, o amante de sua mulher a come melhor que o senhor. Conformai-vos. Mas se serve de consolo para um homem que, como vós, se vê roubado no que tem de mais importante, sabei agora que sois também o instrumento de vingança, e que a revindita corre célere.

Depois de uma tarde com o seu novo homem, amor tanto mais grandioso quanto efêmero; depois de gritar e gemer e perder o fôlego e redescobrir o paraíso; depois de o ter dentro de si e por instantes não querer jamais que ele saia dela; depois de o sentir cansado sobre o seu corpo, e sentir ser ela a causa desse cansaço sorridente; depois de tudo isso, meu dileto senhor, é convosco que eventualmente ela precisa deitar.

E por isso, meu senhor, não poderia haver maior vingança. Ainda que não vos tenha causado dor ela vos tirou algo importante; é nesse momento que ela terá que pagar o pecado do adultério. Vossa senhoria poderíeis até rir, se a ignorância não lhe cobrisse os olhos.

Por ser usada por vossa senhoria ela se sentirá suja, indigna; não saberá a quem está traindo. Ela chega em casa ainda fresca do amor, ainda com o gosto do seu homem em sua boca; e então é obrigada a conspurcar a beleza que viveu, com o vosso corpo suado. Sem saber, cometereis uma violação, terás machucado aquela que vos tirou o que, julgais, é vosso. E inocente, sem culpa, tereis se vingado do que ela vos fez; nesse momento a confusão de sentimentos, em que amor, desejo e lealdade se confundem, faz a sua primeira vítima. Conspurcar, indignar, violar: são esses os verbos que constituem vossa vingança. É a isso que sois reduzido, mas em vossa degradação vossa senhoria também a degrada.

E aí tendes o vosso casamento: um sistema de compensações em que as mágoas não precisam ser conhecidas para causarem dor em alguém.

***

Aqui termina este pequeno guia. Que tenha servido de alerta para homens e mulheres. Há pelo menos mais três itens que deveriam ser incluídos, como o fato de ela de repente querer ficar mais bonita; mas chega, por enquanto. Tampouco caberia aqui o ponto de vista do amante, caído de amores ou, como sói acontecer mais comumente, leviano. Fica apenas um último pedido: por favor, não se importem com o uso da segunda do plural, nem com os erros de ortografia resultantes da falta de familiaridade. Ele era necessário: não é porque a mulher de um homem diz ai em outros ouvidos que podemos ter essa intimidade paternal com ele, como se tem com o porteiro que recebe uma gorjeta no Natal. Eles podem sem traídos e vilipendiados, mas ainda assim não merecem ser chamados de cornos.

Republicado em 08 de agosto de 2010