Rafael Galvão, o imbecível

Deve haver algo de profundamente interessante em mim.

Comentário bloqueado a este post, de autoria de uma moça que se intitula, simplesmente, defensora. Não fosse o palavreado e eu imaginaria uma das boas senhoras de Copacabana, acompanhada de seu indefectível Yorkshire e sua lingüinha mágica, revoltada contra mim:

Cara,vc realmente é um imbecível,vou te chutar e ver nao sente dor…caras como vc nao merecem viver…merecem o fim da vida,pois kem ker dar fim a vida de um animal q nao lhe fez nd é pq nao tem amor a vida…deve ser um carente de pai e mae..por isso essa revolta contra um ser indefeso!!

E eu não vou falar nada, porque não tem como escrever algo melhor que isso, não tem. Se eu tentasse, eu seria redículo.

When I'm 64

Segundo o Deathclock, do jeito que levo a vida eu morro no dia 2 de dezembro de 2035.

Na provecta idade de 64 anos.

Algo me diz que o site foi feito para assustar os incautos. Para mostrar que otários que fazem o que eu faço morrem cedo. Aos 64 anos.

Eu tenho uma péssima notícia para o pessoal, certamente bem-intencionado e repleto de bons sentimentos de temperança e moderação, que criou o Deathclock: infelizmente, ele não me assustou. Em vez disso, o efeito foi o contrário do desejado. Eu estou feliz e mais tranqüilo.

Porque nunca imaginei chegar aos 64 anos. Cá entre nós, 64 anos é mais ou menos a média de expectativa de vida de um brasileiro normal. E eu nunca fui um brasileiro normal.

Sempre imaginei que já tinha passado da garantia e que andava devendo uns três ou quatro anos, por baixo. Assim, se conseguir chegar aos 64 anos eu já me dou por feliz, por muito feliz.

E essa felicidade aumenta quando vejo os segundos que tenho à minha disposição.

No momento exato em que escrevo isso, ainda tenho pela frente 906.879.082 segundos de vida.

São segundos demais. Eu bem sei o que se pode fazer em um segundo. É um infinito de coisas. Coisas demais para serem sequer imaginadas. Em um segundo, a gente pode viver o que não viveu em uma vida inteira. Em um segundo duas bocas se tocam, em um segundo uma palavra é dita, em um segundo se nasce e se morre.

E eu tenho quase um bilhão desses pela frente.

Graças ao Deathclock, agora sei que posso continuar bebendo, fumando, perdendo noite, deixando meu suor cair sobre o seu rosto, fazendo raiva aos outros e comendo bobagem, porque ainda assim vou viver até me tornar um velhinho de 64 anos.

Ao Deathclock, portanto, o meu muito obrigado. Vou sair agora para o Ferreiro para beber, e fumar o meu cigarro, e comer minhas porcarias, e tudo isso será feito em sua homenagem.

Linha direta com nosso Senhor

Em São Paulo, boa parte dos orelhões do centro antigo carregam pequenas etiquetas auto-colantes com pequenos anúncios de prostitutas, como “Rose Peluda”, “Carmen Coroa” e outras menos sugestivas.

Salvador, definitivamente, é uma cidade diferente.

E pela primeira vez em uma longa existência de quase quatro décadas, dedicada a sentir com atenção e deslumbramento as belezas e os cheiros que se escondem às vistas das dunas brancas do Abaeté, eu me vejo forçado a conceder que, em pelo menos uma coisa, São Paulo é melhor que Salvador.

O menor pênis do mundo

Ah, não.

Esse eu tenho que publicar agora, porque é domingo de manhã e eu estou acordado, porque está chovendo, porque estou sem um puto no bolso, porque ainda não sei quem vai pagar meu almoço e porque preciso rir de alguma forma.

O nome do sujeito é Gorge e ele não gostou da coletânea das ocorrências de pinto pequeno no Google:

Vc deve ser um preto sujo ….seu merda… deve ter o menor penis do mundo e alem disso deve ser virgen…mlk vc n tem criatividade pra criar sites de outros generos seu PEDERASTA..Emofilico .. Cabaço mesmo ne…

Eu poderia ser um preto sujo sem problemas, embora, como se sabe em Aju City, eu prefira pretas limpinhas. Sou virgem, sim, porque mamãe disse que essas coisas só depois de casar. Não tenho criatividade para criar outros sites, por isso me atraquei aqui com este blog. Não sou hemofílico nem pederasta, mas nada disso seria problema para mim.

Agora, de uma coisa eu tenho certeza. Pela revolta indignada do Gorge, por toda essa raiva que o fez digitar essas coisas sem perceber que estava confessando detalhes de sua anatomia mesquinha e o que o trouxe a este blog, ainda que eu quisesse e ainda que não tivesse problemas com isso (e eu teria, meu filho, tu não sabes o quanto) eu não poderia ter o menor pênis do mundo porque esse já tem dono.

Os exilados

A primeira vez que escutei Exile on Main St, dos Rolling Stones, foi aí pelo final dos anos 80, meio às pressas. Eu não gostei. Pode parecer maluquice, confissão de mau gosto, talvez eu não tenha prestado atenção suficiente: mas não gostei. Para mim, o melhor disco da banda continuava sendo o Let it Bleed — e ainda acho que ninguém pode dizer que conhece rock se não conhece esse disco de trás para a frente.

Alguns anos depois, já nos anos 90, escutei novamente o disco, e então veio a epifania — porque não há outra palavra para descrever o que acontece quando se ouve, pela primeira vez, o riff inicial de Rocks Off. Exile on Main St é um disco absolutamente fantástico. É provável que seja o melhor disco de rock and roll já feito.

É fácil dizer que o disco é o resultado de dois fatores principais: o fim dos Beatles, que deixaram os Stones sem pai nem mãe e sem ter quem imitar, forçando os coitados a redescobrirem o seu caminho, e a saída de Brian Jones, que além de dar naturalmente mais foco e menos “psicodelia” aos Stones abriu espaço para um excelente guitarrista, Mick Taylor, que antes de cansar de ser roubado pelos Glimmer Twins trouxe mais qualidade técnica à banda do que ela jamais teve ou teria depois, com o Ron Wood.

Mas o Exile é mais que isso. Muito mais. É o resultado de uma evolução clara, consistente, de cerca de 5 anos. Depois de lançarem a tragédia que foi o Their Satanic Majesties Request, cópia vagabunda ao extremo do Sgt. Pepper’s dos Beatles, os Stones voltaram às suas raízes e deixaram de lado a sua obsessão com os Fab Four. E o que fizeram a partir dali foi, para dizer o mínimo, impressionante. É improvável que alguma outra banda, além dos Beatles, tenha uma seqüência tão absolutamente fantástica de discos geniais: Beggar’s Banquet, Let it Bleed, Sticky Fingers e este Exile. Um disco absolutamente, irrepreensivelmente fenomenal.

Infelizmente o esforço parece ter sido demais para eles. Depois desse disco, gravado em meio à heroína de Richards, à cocaína de Jagger e à manguaça generalizada dos dois na França, os Stones nunca mais fariam um disco excelente. Mas, cá entre nós, não precisavam. Milhares de bandas, ao longo desses 50 anos de rock and roll, gravaram durante décadas sem conseguir fazer um disco sequer que chegasse aos pés do Exile. Se os Stones tivessem gravado apenas esse disco, ainda assim seriam uma das duas melhores bandas da história.

Uns quatro anos anos depois o movimento punk deu vazão à sua ignorância musical e fez o mundo inteiro ouvir os seus gritos de rebeldia. O resultado foi revolucionário — menos pela importância ou qualidade de sua música mas pelo conjunto do movimento, em termos culturais. Mas se eles se revoltavam contra os Stones, a verdade é uma só: eles eram uns idiotas.

Os vagalumes que não acendem o rabo

Um post antigo sobre a Coleção Vagalume é daqueles que recebem poucos comentários, mas constantes. Quase todos discordando, claro, que concórdia não é o subtítulo deste blog. Para uma sociedade que respeita o livro como um crente respeita a religião dos outros, mas que encara o exercício de ler como uma dieta, ação adiada sempre para a próxima segunda-feira, dizer que a coleção é medíocre e imprópria para ser adotada como padrão escolar é quase como xingar a mãe do sujeito de coisas piores do que ela já é. É ignorar que, para muita gente, ler alguns livrinhos de cerca de 50 páginas, por aí, lhes traz legitimidade e a devida inserção na sociedade.

O que não parecem ter entendido é que não há nada de mau em ler aqueles livros. Eu li muitos; eram bom passatempo, livrinhos que se lia em meia hora. Mas poderia dizer que também li Sabrina, Júlia, Bianca, Tex, Mônica, Sidney Sheldon, Harold Robbins, Tio Patinhas; e daí? A questão nunca foi essa. O problema não são os livros, bons ou ruins, e sim o fato de o sistema educacional brasileiro ter feito uma escolha mediocrizante ao priorizar essa coleção como padrão literário para os estudantes. Goste-se ou não dela, para todos os efeitos a Coleção Vagalume é sub-literatura.

A outra questão que o post defendia era simples: a Coleção Vagalume não formou mais (ou melhores) leitores que livros de autores de nível muito superior. Continuamos sendo um país de analfabetos e iletrados, mas agora com cada vez menos referenciais. Talvez venha daí o antagonismo que os comentaristas criaram entre os vagalumes e Machado de Assis (que não foi citado no post mas que as pessoas parecem ter como sinônimo de boa literatura em língua portuguesa. Preferiram passar batido pelo Eça que citei; daquele pelo menos ouviram falar).

Essa comparação quase automática com o bruxo do Cosme Velho talvez seja o maior indicativo de que a coleção Vagalume não cria leitores. Eles sequer compreendem que Machado pode ter livros densos como “Quincas Borba”, mas também bobagenzinhas românticas como “Iaiá Garcia”; não compreendem porque, pelo visto, depois de “O Escaravelho do Diabo” nunca mais leram nada. Talvez por isso, por colocarem tudo em um balaio só, eles façam como o Fábio Lopes e digam que não se pode “fomentar o gosto pela leitura com Machado de Assis”. Não apenas criam um antagonismo que não existe, como fazem supor uma questão muito interessante: para esses comentaristas, antes da Coleção Vagalume ninguém neste país lia qualquer coisa. Porque não se pode fomentar, etc.

Nos anos 80, claro, o Brasil virou um paraíso de literatos. Patrícia:

Não há uma só pessoa que tenha sido alfabetizado na década de 80 que não se lembre de um livro da coleção vaga-lume. E ainda se lembrar dos titulos e das historias… Só por este motivo já esta provado a importância e a influência dos livros da coleção vaga-lume.

Lembrar não é o problema. Eu lembro daquela banda que cantava Vamos a La Playa, ô ô ô ô ô, mas isso não faz deles algo minimamente importante. Falar nisso, lembro também da topada desgraçada que me arrancou um naco de dedo em 1983.

Se alguém conseguir me mostrar qual a vantagem de, por exemplo, (inserir aqui qualquer título da coleção Vagalume) sobre “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, eu ficaria muito grato. Eu não consigo ver nenhuma. Porque, independente do seu nível de compreensão, o livro do defunto autor é sempre adequado a qualquer nível — já a partir da ideia do defunto autor, que se não lhe parece insólita e instigante é porque você leu mais livros da Coleção Vagalumes do que recomendou o doutor. Não é necessário que se compreenda Machado no nível de um Harold Bloom. Basta ler e gostar. Ninguém está pedindo que se discuta aspectos sociológicos ou psicológicos do sujeito da ABL como numa aula de mestrado.

Se alguém consegue entender um livro qualquer daquela coleção — por exemplo, os policiais para retardados de Marcos Rey — consegue entender também “A Mão e a Luva”. Consegue entender, até, “Memorial de Aires”, o livro mais superestimado da literatura brasileira. Mas as crias dos vagalumes que não acendem o rabo, criadas com o vocabulário reduzido e os raciocínios simplórios desses livros, parecem esbarrar nas dificuldades intransponíveis criadas por uma mesóclise. Não conseguem entender que Machado é fácil, é de uma simplicidade enganadora; e que não há nada de ruim em ser enganado dessa forma.

Mas mesmo agora acabo enveredando por aspectos acessórios do texto. O ponto central daquele post era o de que a intenção das escolas, ao adotarem como prato principal a Coleção Vagalume, não tinha sido realizada. Ela não formou leitores. As livrarias não estão mais cheias hoje por causa dela. O resultado é que continuamos analfabetos — mas agora com mais orgulho e auto-condescendência, porque em algum momento da vida conseguimos ler, sei lá, “O Caso dos Meninos Estupefatos na Ilha do Girassol”.

Emanuelle:

Jamais uma criança de 10 anos vai se interessar por um chatíssimo José de Alencar, com sua linguagem incompreensível até para pessoas acima de 20 anos…

Jamais é tempo de menos. Eu tinha 10 anos quando saí da Graça, onde morava, e fui andando até a Ediouro que ficava na esquina da Av. Sete com a Politeama para comprar “O Guarani” (junto com “As Viagens de Tom Sawyer” e “Winnetou”). Tinha lido “Iracema” no ano anterior e gostado. Crianças de 10 anos se interessam por Alencar, sim, até porque heróis épicos como Peri e mocinhas louras e virginais como Ceci falam mais alto para essa idade; mais velhos, o que a gente quer é vida fácil e mulheres mais fáceis ainda.

Difícil é entender que uma pessoa de 20 anos ainda corra atrás do cearense. De qualquer forma, o conceito de linguagem incompreensível só é justificado quando as pessoas, além de não serem expostas a boa literatura, também são alijadas da boa gramática por professores analfabetos certos de que, assim como eles, crianças não conseguem entender nada.

É o exemplo do Diogo Basso:

Li Memórias Póstumas de Brás Cubas aos 21 anos, e a muito custo. Se eu me deparasse com esse livro aos 12 tenho certeza que não passaria nem da primeira página (quem já o leu sabe porque). Aos 12 eu lia a série Vaga-Lume, e até pouco tempo tinha pra mim que o melhor livro que eu já tinha lido era um justamente dessa coleção (Açúcar Amargo).

Se aos 21 você não consegue ler nada melhor que o que lia aos 12, você tem problemas sérios. Está explicada a dificuldade em entender um livro tão absurdamente genial. “Açúcar Amargo” deve realmente ser melhor que os outros três livros que o Diogo leu.

Diogo é um exemplo vivo de um dos problemas mais graves da sub-literatura ensinada nas escolas: ela baixa o nível e acostuma ao que é menor. É como o sujeito que toma Canção a vida inteira e estranha o gosto de um Almaviva. As pessoas parecem criar uma ojeriza instintiva a literatura um pouco mais elaborada. Jamais leriam um Osman Lins, por exemplo, para citar um de que a imensa maioria deles jamais ouviu falar.

Mesmo assim, gente como o Mauro Cesar se irrita:

Rafael, percebe-se que você não entende absolutamente nada sobre formação de leitores e é graças a gente como você que o Brasil patina nos indicadores de leitura. Leia esse artigo aqui e aprenda um pouco:
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1244

Eu pensava que o Brasil patinava nos indicadores de leitura porque, além de questões sociais mais graves e mais decisivas, professores preguiçosos e mal-formados ajudaram a baixar o nível do ensino. Porque o que sobra neste mundo é gente que adota a demagogia burra como modelo de vida, e se irrita com quem acha os seus valores e suas idéias inadequados. Mas o Mauro, com a arrogância da ignorância que é peculiar em quem tem orgulho de cada livro ruim que leu, viu neste pobre blogueiro um ser nocivo à sociedade. Preciso agradecer a ele.

O Alexandre Franco mostra outra conseqüência:

Infelismente , nao concordo com vc , se hoje eu me interesso, pela leitura ,é porque tive uma introduçao gostosa, sem pressao

O Alexandre tem razão. Eu, concordo, que, pressão, nessas, horas, torna, tudo, mais, traumático. Carinho e paciência, em momento tão importante, são fundamentais. Ouvi falar de mulheres que se tornaram frígidas por isso, pela pressão na hora da introdução. Tem uns escritores por aí que são uns cavalos. Mas acho que agora entendi. Alguns preferem a Coleção Vagalume para evitar esses traumas: porque são pequenos e fininhos.

No fim das contas, eu fico é com o comentário do Elton:

Acho que entendi o seu ponto de vista: nada contra a molecada ir na biblioteca e ler os livros da coleção vaga-lumes por diversão, mas o uso destes livros pelos professores como a base de cursos de literatura, ou melhor, de leitura, não é adequado. Não duvido que tenha gente por ai usando Paulo Coelho com o mesmo intuito. Nada contra os que voluntariamente se prestam a ler este tipo de porcaria, mas existem coisas mais adequadas de se colocar em uma sala da aula. E vamos parar com essa estória de que ler qualquer coisa aumenta o nível intelectual, como se passar os olhos sobre letras pretas em fundo branco tivesse alguma propriedade mágica. Muitas vezes o efeito de certas leituras é exatamente o contrário, como não me deixa mentir a imprensa nacional.

Eu não escreveria com mais concisão e simplicidade. E por isso continuo afirmando que, se é para ser analfabeto, que se seja analfabeto em algo realmente bom. Pelo menos é uma ignorância mais nobre, se é que há alguma nobreza nisso.

Republicado em 06 de agosto de 2010

É mister John Daniel’s para você

Ah, Adriano

A primeira reação que tive ao ver seu comentário foi pensar: como alguém pode não gostar de Jack Daniel’s? Eu reconheço em todos o direito a seus gostos. Mas não admito que alguém ouse não venerar a Lady Day, e não reconheço que se não goste de Jack.

Mas é John Daniel’s para você, Adriano. Cuidado aí com a intimidade. Jack só se deixa chamar por esse nome por quem realmente gosta dele. Por quem o conheceu aos poucos, em noites longas em que risos se misturaram a lágrimas; mas principalmente por quem ele conhece de verdade, por aqueles de quem ele conhece a alma. Não vá afetando uma intimidade que você não tem nem quer ter. Mister John Daniel’s.

Há umas poucas coisas na vida que precisam de ritual. Um ritual simples, porque rituais complicados tiram a alegria do viver, e os prazeres se perdem na necessidade de seguir os passos dos outros. Jack sabe disso. Ele não lhe diz o que fazer. Sequer coloca a mão no seu ombro, porque sabe que a sua dor não passará com isso; em vez disso, apenas fica do seu lado, calado, olhando para você. É só disso que você precisa.

Aquele que lhe apresento como John Daniel’s só pode ser entendido por quem sabe que se fechar os olhos pode ter pesadelos. Sonhos ruins, perversos, que lhe farão acordar com medo, procurando um ar que lhe pareceu faltar. Por quem, como um Ebenezer Scrooge atormentado pelo passado, está sempre sujeito a fantasmas que chicoteiam com lembranças que você queria enterradas.

Existem poucas coisas que se deve fazer sozinho nesta vida. Uma delas é deitar em um sofá no escuro, só você e os milhões de demônios que atormentam a sua consciência, que lhe fazem ter calafrios pela canalhice que você cometeu um pouco antes, pela mulher que você machucou, pelo amigo que você ofendeu. É só ali, naquele sofá, que você pode entender por que sabe que vai magoar uma mulher, sabe que é errado, ao mesmo tempo em que admite resignado que não conseguirá evitar.

E nessas horas, nesse sofá no escuro, só duas companhias lhe são permitidas. Uma delas é Billie Holiday ou Chet Baker; você pode escolher qualquer um dos dois porque eles, como ninguém mais, sabem cantar o que se passa em sua alma. Quando Chet com voz tão pequena canta I Fall in Love Too Easily, ou Billie que não tem mais esperanças destroça o seu coração com Solitude, então você entende, e não são necessárias outras palavras. Só eles sabem quem você é, só eles olham para você sem raiva, sem pena ou sem censura. Certo, eles dizem “mas que merda você fez, hein?” Mas dizem também “tudo bem, eu também fiz.” E então, por alguns instantes, você sente que não está sozinho no mundo; que alguém consegue entender tudo aquilo que passa tão rápido por sua cabeça, tão rápido que nem você consegue compreender. Só eles podem traduzir, em palavras que dizem mais do que parecem dizer, aquilo que você jamais teria coragem de falar. E mesmo assim apenas naquele momento, num sofá no escuro, apenas você, a música, a fumaça azulada do cigarro e o perfume que vem de um copo.

Esse copo de Jack Daniel’s é a sua outra companhia, Adriano, e só ela. Cada dose tem que ser dupla; se você vai colocar gelo que seja apenas o suficiente apenas para esfriar. Só isso. Mais nada. Ninguém para falar que essa merda foi envelhecida em barris de carvalho no cu da Escócia. Ninguém para vir com viadagem sobre a qualidade da água das highlands. Ninguém para encher seu saco. Só você, a música e seu copo.

E os seus demônios.

Jack é diferente, Adriano. É diferente, por exemplo, de um Johnny Walker com roupinha de nojentinho dizendo em falsete keep walking, keep walking. Johnny é um filhinho de mamãe inglês que anda por diletantismo, porque cansou do Bentley com motorista, um maricas que nunca precisou pegar um ônibus na vida; Jack é alguém que sofreu e fez sofrer, que desaba na mesa do boteco depois de chorar por ela, e que se conseguir voltar para casa vai voltar a pé, mas não porque tem que “keep walking”: vai voltar a pé porque é assim que as coisas são. Johnny se acha grande, se acha o dono do mundo. Jack, e todos nós, sabemos que porra nenhuma interessa, que é tudo uma grande brincadeira, e que a gente às vezes chora enquanto ela não acaba. Sabemos que não somos nada, mas que nossas pequenas tragédias são enormes.

Só Jack entende o que há de inexorável nesta vida; as suas tantas promessas não cumpridas, os compromissos a que você não compareceu, só ele entende que você mente sendo sincero. Jack sabe; Johnny não fala nossa língua.

Jack Daniel’s é para quem se arrepende. Não acredite em quem diz não se arrepender de nada nesta vida, porque esse é um idiota, não merece sequer sentir o cheiro do milho. Ou então, pior, não viveu, tem o orgulho néscio de nunca ter errado porque só tomou as decisões certas na vida e não sabe de nada, de nada. De nada. É só outro idiota. E de idiotas o mundo está cheio, é contra eles que Jack nos protege.

Só não gosta de Jack Daniel’s quem nunca fez nada errado; quem nunca se arrependeu de nada. Quem nunca viu uma mulher chorar na sua frente, por sua causa, e só sentiu enfado; quem nunca jurou um amor que não sentia por causa de um rabo maravilhoso e peitos que precisavam ser engolidos por sua boca; só não gosta de Jack Daniel’s quem nunca puxou os cabelos dela sabendo que ela ia gostar, quem nunca deixou o seu colo marcado de vermelho como quem diz você é minha. Só não gosta de Jack Daniel’s quem nunca ouviu “desse jeito você acaba comigo”.

O resto não vale a pena. O resto é Logan, nome que não merece sequer um sobrenome, bastardo que é.

Por isso não, Adriano. Jack Daniel’s, não. É mister John Daniel’s para você. Marque hora com antecedência. E então pode falar mal o quanto quiser, porque ele não vai se importar.

Republicado em 04 de agosto de 2010

 

A triste sina dos caralhetes de triste figura

Em parte, foi o pinto pequeno que tirou a graça das Alegrias do Google.

A dor de adolescentes inconformados com a própria mesquinhez representa a maior parte das buscas neste blog. Isso me dá a certeza de que pinto pequeno é uma endemia que está se espalhando de maneira inexorável pelo país e por Portugal, contaminando mais e mais adolescentes, tornando suas vidas um misto de desânimo e de falsas esperanças.

Esperanças que, por causa de minha má índole, são enterradas de maneira um tanto sádica quando chegam a este blog.

Mesmo assim eles vinham, e vinham, e vinham, e por causa da maldade que Deus fez com eles de repente se tornou impossível ver outras frases no Awstats. São justamente essas frases, que só aparecem aqui uma vez, as mais interessantes — e paradoxalmente os pintos pequenos se tornaram grandes demais para este blog, e sua sombra cobriu as Alegrias do Google. Ou seja: neguinho foi sacaneado pela Providência e quem paga o pato é este pobre blog.

Agora é a hora da vingança. Fiz um apanhado dessas ocorrências nas Alegrias do Google já publicadas. Não há nada de novo, claro. Não consigo mais fazer piadas de pinto pequeno. Mas será algo realmente útil. A partir de hoje, quando os pobres adolescentes chegarem aqui em busca de um alento, encontrarão todas as respostas em um lugar. Ou melhor, a resposta, porque todas elas são variações de uma só: “meu filho, você se fodeu.”

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Não tem. Pinto pequeno é o castigo para um pão duro como você.

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171.

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O doutor Rafael Galvão responde: “Minha senhora, depois de ver as fotos do seu filho, tudo o que posso dizer é que ele é um hermafrodita”. Espero que isso ajude e lhe tranqüilize. E se a senhora não gostou da resposta, pense: em vez de dar uma resposta tão séria, tão circunspecta, eu podia ficar debochando da miséria minúscula que o seu filho apresenta e que vai lhe trazer infelicidade pelo resto da vida.

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Diz aí: se aumentasse você hoje seria um sujeito feliz e enooooorme, não é?

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Olha, amigo, seu momento de dor — “Por que, Deus, por quê?” — é compreensível. Mas não rasgue sua túnica ainda. Não cubra a cabeça com cinzas. Você sempre pode namorar a Marta Suplicy, aquela que disse que o importante não é o tamanho da varinha etc.

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Método bife: coloque o miudinho numa tábua de carne. Com um martelo, bata até o toquinho ficar grande. Esse método, no entanto, tem um grave efeito colateral: fica grande, mas também fica mole.

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“Sacanagem, ela pegou meu pênis e mostrou rindo para as amigas.”

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Meu filho, é mais fácil aprender português. E nem isso você aprendeu ainda.

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Normal. Por exemplo, você é deficiente mental e também tem um, não tem?

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Tente um pepino. No seu caso, um pepino japonês já representa um grande avanço.

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De cabeça baixa, envergonhado?

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Este blog tem realizado reiteradas tentativas de ajudar, sabe? A gente dá conselhos, oferece o ombro, diz palavras de encorajamento. Mas nem sempre adianta. Não tem psicanalista freudiano lacaniano junguiano que dê jeito.

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Método piada de negão: amarre uma pedra bem pesada ao pobrezinho. Ande com ela para cima e para baixo. Se ao fim de duas semanas não tiver aumentado, console-se: pelo menos na cor está igual ao Long Dong Silver.

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Por quê? Não é o seu, nunca vai ser o seu, você não pode querer que seja o seu. À parte isso, tens em ti um pequerrucho menor que o de todo mundo. Agora, mudando um pouco de assunto: viu como se pode fazer poesia a partir da miséria humana?

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Método bungee jump: amarre uma corda elástica à glande do seu pequeno amigo. Pule da Rio-Niterói. Se não der certo, volte aqui para reclamar.

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Método ioga: sente em um tatame, em posição de lótus. Esvazie a sua mente. Murmure “ommmmm” até cansar. Então repita o mantra: “Jai punjab Rajiv” — que significa, em dialeto da Cachemira, “Quero que esta porra inútil cresça”. Se você se concentrar bastante, mas bastante mesmo, sentirá o seu terceiro olho abrir e o miudinho aí crescer. Se não der certo é porque você não conseguiu se concentrar. E se você não consegue nem se concentrar, infeliz, como é que pode querer ter um pinto maior?

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Normalmente o palavreado dos que estão insatisfeitos com sua anatomia é um pouco menos educado. Fico pensando no sujeito que escreveu isso. Um homem tranqüilo, dono de bom vocabulário, que vive imerso em livros e de repente, ao tomar banho, percebe que talvez o tamanho daquilo ali no meio de suas pernas talvez seja insuficiente. E então, fleumático e racional, senta-se ao computador e pergunta ao Google como é que se resolve isso.

rasputin era bem dotado
Mas morreu. De que adiantou todo aquele portento? Por isso, caro internauta que aderna até aqui em busca de soluções para suas limitações, lembre-se da moral da história: mais valem 10 centímetros na mão do que 30 no caixão.

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Aos 23 anos, dizem os médicos, seu pintin… ops, seu pênis já está do tamanho definitivo. Mais que isso ele não cresce. Portanto, vá direto ao último item destas “Alegrias” e veja as sugestões que eu tenho para dar no seu caso.

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É o erotismo contido naquelas coisas miudinhas, aqueles pequenos detalhes que tanto excitam uma mulher.

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Eu não queria dizer. Porque iria correr o risco de você entrar em depressão, tentar até se matar. E eu não quero isso na minha consciência. Minhas contas com Deus já estão no vermelho há muito tempo. Mas tenho o dever de responder; portanto se sente, antes de tudo. Isso. Agora peça para lhe trazerem um copo d’água com açúcar. Bebe. Bebe tudo. Agora respire fundo. Respirou? Então lá vai: graaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaande.

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E eu quero um Lear Jet. Senta aqui do meu lado e vamos esperar.

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Não, meu amigo, é broxa, mesmo.

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É uma medida extremamente válida de proteção feminina contra a canalhice masculina. É usada como último recurso. Se você a tratar bem, ela vai relevar essas miudezas. Mas não apronte com ela. Porque você dificilmente sobreviverá à crueldade de uma mulher magoada.

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É maior que o seu. Ou seja: nem isso você vai ter como consolo. Conforme-se.

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Fica assim não, meu filho. Olha só, não vale a pena se preocupar com detalhes tão pequenos. Uma mulher vai amar você independentemente de ser bem dotado ou não. Vai dizer que tamanho não é documento. Ela vai estar mentindo, mas o que a gente não faz por amor?

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Olha, ser mal dotado assim não é nada. Ruim mesmo, no seu caso, é ser pobre. Deus foi mesmo mau com você.

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Miudinho, vou te dar um conselho tão bom que deveria ser vendido, a preço exorbitante: deixe essa palhaçada de lado e arranje uma mulher pequena.

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Não, Minduim. Se ela te amar de verdade, não vai ligar para pequenos — pequenos, mesmo — detalhes anatômicos seus.

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Sinto informar, ô pequerrucho: é maior que isso aí que não balança entre suas pernas.

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Pelo menos você tem dois, né? E aqueles que só têm um miudinho? Deixe de chorar de barriga cheia, rapaz. Isso é feio e Deus castiga.

massagem para aumentar o tamanho do pinto
Chame uma moça bonita e que tenha mãos macias. Peça para ela friccionar o dito cujo por alguns minutos. O resultado é garantido. Só não é duradouro, mas acho que a essa altura você não vai se importar.

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O velho coloca aquela coisa inútil para fora da calça. Mexe, mostra uma foto da Brigitte Bardot nua — nada. Apenas nervos e veias e pele enrugada, tudo isso sem utilidade hoje, não cresce mais — a única coisa que continuou a crescer, para baixo, foi o seu saco. Lembrando dos bons tempos em que seu companheiro, hoje inerte em sua mão, lhe deu grandes emoções, ele passa a contar as cicatrizes. “Essa foi a Maria. Essa foi a Cotinha — ai, como ela era boa… Essa foi a Deusdeth.” E as lembranças tornam mais toleráveis sua decadência e a morte que se aproxima.

o que fazer com penis pequeno?
01 – Pedir esmola, exibindo a chaga aos que passam e esperando que se condoam de sua triste situação.
02 – Se fantasiar de anjinho de igreja no carnaval.
03 – Andar nu. Ninguém vai notar nada.
04 – Dizer que isso não é um pênis, é só o seu umbigo com hérnia.
05 – Entrar para o circo e estrelar um número ao lado da mulher barbada.
06 – Descolar um trocado trabalhando como modelo vivo para estudantes de arte que estudem o período clássico grego.
07 – Se tornar famoso ao iniciar um grande movimento para obrigar a Johnson & Johnson a fabricar camisinhas mais apropriadas.
08 – Transformar em vantagem a adversidade. É mais fácil convencer as mulheres a, err… variar um pouco. Elas vão acreditar quando você disser que não vai doer.
09 – Fingir que é criança e tentar se dar bem com pedófilas.
10 – Conformar-se.