Rimas ricas e rimas pobres

No livro “Roberto Carlos em Detalhes”, que agora pode ser lido livremente por aí, Erasmo Carlos comenta que Jesus é palavra complicada para colocar numa música, porque é difícil achar uma rima e fica-se restrito às mesmas: luz, cruz, conduz.

Bobagem.

Jesus rima com cuscuz, brucutus, urutus (dava uma boa letra na época da ditadura) e urubus.

Rima também com cus. Assim, no plural.

Os trabalhos evangélicos de Lucia e Tony

Uma moça chamada Lucia Atagiba deixou um comentário num post antigo sobre o Cine Tamoio, um dos últimos cinemas de rua de Salvador a fechar. O comentário foi bloqueado, porque não entendi o que ele tinha a ver com o tema; mas faz um apelo que merece ser ouvido, e é tão bom que merece ser publicado com algum destaque:

Estou alugando uma chacara na cidade de Alagoinhas Bahia para fazer trabalhos evangelicos.
Caso aja interesse procurar Tony neste telefone(71)32594531

E aí está o telefone de Lucia e de Tony. Por favor, ligue. Se você precisa de um intermediário para a indefectível conversa que tantos acabam tendo com Deus, ligue. Conheça a chácara de Lucia e Tony, onde trabalhos evangélicos são feitos para aproximar o Senhor de pobres mortais que, não sabendo ou não podendo laborar por conta própria, incumbem Lucia e Tony desses trabalhos. Não sei quanto custa, e nunca coloquei os pés em Alagoinhas; mas se morasse ali, ou pelo menos perto, eu não deixaria de ir.

Lírico que quase sou, quase vou às lágrimas ao imaginar Tony e Lucia fazendo um trabalho evangélico. Mugunzá para Nosso Senhor dos Passos. “Tá amarrado!”, diz Tony, e Lucia ergue os braços para o céu e diz “Aleluia!, mizifio!”

É com um sorriso grande no rosto que imagino a Lucia numa encruzilhada à meia-noite. Não faz pedidos malévolos para Exu, claro, que até o sincretismo absoluto tem seus limites éticos, mas quem sabe uma pipoquinha para Gabriel? Mesmo arcanjos gostam de um agrado, de um sinal de respeito e de carinho. Arcanjos são seres solitários em sua faina divina.

São trabalhos limpos, os trabalhos evangélicos de Lucia e Tony. Chega de galinhas se esvaindo em sangue, chega de cachaça. Uma hóstia no lugar de um bode, agora; e antes de começar a realizar o trabalho evangélico que você encomendou, Tony vai derramar um pouco de vinho canônico para Exu.

São belos, também. Na chácara de Lucia e Tony os trabalhos evangélicos são feitos ao som ritmado dos atabaques, em vez de histéricos com as mãos para o alto. Você não verá uma mulher convulsa possuída pelo demônio enquanto Tony, com a mão em sua cabeça, ordena que o demônio que está dentro dela abandone esse corpo que não lhe pertence. Em vez disso, mulheres dançam enquanto mexem suavemente os ombros, caindo para lá, caindo para cá. Suas mãos fazem desenhos no ar, suaves, quase sensuais, desenhos que parecem carícias na cabeça de Deus.

Procure o Tony. O telefone está ali, é 3259-4531, o código de área é 71. Ele vai te receber com um galho de arruda numa mão e um incensório na outra. E vai curar seus males de amor, vai lhe contar que aquela sua grande amiga tem inveja de você, vai trazer de volta a pessoa amada, e vai abrir os seus caminhos com a graça de Deus e de Iemanjá.

It runs in the family

A todos aqueles que, ao longo dos quase quatro anos em que este blog esteve no ar, chamaram este pobre escriba de ateu, zoófobo, troglodita, direitista, ignorante, guru, macho alfa, quase-lindo, comedor de mulheres casadas, tio sukita, paraíba, viado, medíocre, putanheiro, mineiro, comunista, palhaço, escorregadio, maria-vai-com-as-outras, burro, americanófilo, guei, gênio, gordo, baiano, voyeur, polígamo, glossolálico, menino, impostor, pornógrafo, demônio, chapa-branca, broxa, petista, doce, chato, corno, teimoso, bocó, cruel, amassadinho, sergipano, fedelho, velho, cachorro, punheteiro, ditador, feio, donzelão, “pretencioso”, xenófobo, misógino, culto, carioca, grosso, esquerdista, indecente, imbecível, cumpre comunicar que a verdade acaba de ser estabelecida.

Amanhã minha família passa a ter outro santo.

***

Comentário do Cláudio a este post:

Desculpe-me, mas ô santinho mais chinfrim…! Não foi capaz nem de obter um feriado no dia da canonização…e no próximo ano o dia cai no fim de semana. Só fazendo como um antigo personagem do Chico Anísio, o Bento Carneiro: puá! santinho brasileiro…! cuspe…

Que injustiça, meu Pai. Cláudio, você vai arder no inferno por isso. São Galvão II já fez o seu primeiro milagre em terras brasileiras.

Impediu que um bando de canalhas (os mesmos que aproveitam que o povo é idiota, e fica babando só porque o velho sibarita está aqui, para aumentar seus salários — o que apenas reforça a minha teoria de que o papa é um ser nocivo, até involuntariamente) cometessem um atentado contra a produtividade nacional declarando o 11 de maio feriado nacional.

A gente somos bom, rapaz.

As alegrias que o Google me dá (XXIX)

fotos de bebes saindo da vagina
Moleza. Agora quero ver você achando fotos de bebês saindo do cu.

meninas do recife atrás de sexo sem dinheiro
Como elas vão conseguir, as coitadas? Sem dinheiro para pagar um homem, como elas vão conseguir aliviar o desejo que queima sua carne?

a vaca que plantava maconha
AS vacas finalmente entenderam que havia um nicho a ser explorado. Antigamente os malucos fumavam bosta de vaca achando que era maconha. mas não era só isso. Agora, junto com os flatos que espalham metano em nossa atmosfera, eu tenho certeza de que essa plantações são parte de um plano para as vacas de dominarem o mundo, tornando a Terra um lugar absolutamente fedorento.

vida do maycon jackson
Você chama aquilo de vida? O sujeito nasce nos cafundós do Cariri e é batizado por um pai que é fã de Michael Jackson. O tabelião ainda tenta convencer o pai a colocar um nome mais bonito, algo como Givanílson, mas o velho Gerardo está definido: vai ser Maycon, ponto final. Na escola todo mundo debocha dele. Na adolescência, nenhuma menina quer dar para ele. Adulto, todo mundo olha para ele como se olhasse para um pedófilo. Tudo isso morando nos cafundós do Cariri. Ah, bicho, vai sacanear outra pessoa, tá?

simpatias para homem ser só seu
Arranje um homem feio, burro e pobre. Você deve ser do tipo que prefere comer um prato de bofe sozinha a dividir uma porção de caviar.

pensamentos pequenos
É.

você precisava ver como ela tremia
Pois é. É nisso que dá comer velhinhas com Mal de Parkinson.

omenagem amae
O melhor presente que você pode dar a sua mãe neste Dia das Mães é tão simples, meu filho: um diploma do Mobral. Ela vai chorar de emoção, você vai ver.

se vc pensa que é um derrotado você será um derrotado se não pensar quer a qualquer custo não conseguirá nada mesmo que você queira vencer mas pensa que não vai conseguir a vitoria não sorrirá para você
Ou “Pérolas do Curso Sylvester Stallone de Auto-Ajuda”.

pesquisar sobre a igreja católica em especial sobre coroinhas e suas vestes
O moço aí quer ser coroinha, é? Então deixa isso aí de lado. O importante, mesmo, é saber agradar o padre. Fazer um chazinho de boldo pra ele, massagem nas costas, carinhos e beijinhos sem ter fim…. A Igreja Católica tem avançado muito e os padres estão ficando mais exigentes em relação aos coroinhas que os servem. Chega de sexo pelo sexo. Eles agora querem carinho, também.

basicamente o que é o racismo brasileiro
Basicamente é o seguinte: branco sacaneando preto. E se você não percebe nem isso, você está basicamente com um sério problema.

como ser gigolo
Primeiro você tem que especificar o tipo. Gigolô michê ou gigolô cafetão? Para ser gigolô cafetão você só precisa arranjar umas meninas que estejam dispostas a alugar o que é delas e, por alguma razão, lhe dar uma parte. Agora, para ser gigolô michê você precisa de talento. Não parece ser o caso.

motivos para a revoluçao russa
Homens passando fome? Mulheres revoltadas porque só a família real recebia o portento do Rasputin? Ah, quem vai saber uma coisa boba dessas?

quero saber amelhor posse de sexo que o homem gosta
A pose que, no Kama Sutra, está sob o título “dando para ele”.

flagras de civis sem calcinha e fazendo sexo
Tempo demais na caserna dá nisso. O sujeito abandona a sentinela e vai descascar uma nos computadores do Exército. Depois ele deflagra a III Guerra Mundial e ninguém vai saber por que foi.

menina que fazem sexo por mixaria
Aí, não. Sexo é coisa séria. Ou você faz de graça, ou então cobra caro. Não há meio termo. Fazer por mixaria é um desrepeito às colegas e desvalorização da saliência.

tem homem bonito em goiania?
Tem, mas quando não é viado, é michê.

posição sexual melhor para mulher gorda
No escuro.

como a igreja católica pensa sobre o uso de preservativos?
Ela pensa que camisinha é coisa do diabo e que, por ter uma no bolso, você vai imediatamente se tornar uma máquina de fazer sexo, e as mulheres vão cair aos seus pés, e você vai passar o resto da vida em uma orgia infindável. Compra duas dúzias ali para mim, por favor.

tecnicas japonesa para aumentar o penis
Me diz uma coisa, você está mesmo falando sério? Técnicas japonesas para aumentar o pinto? Ô, amiguinho… Daqui a pouco você vai estar pedindo aula de português a analfabeto.

quando um homem faz punheta para onde ele esporra?
Em qualquer lugar, menos onde ele queria.

como fazer para sair fogo no escapamento
Coma muita pimenta.

teste para saber se sou ninfomaniaca
Olha, eu atendo a partir das 15 horas, tá?

este blog foi criado para quem gosta de misterios
Nào. Este blog foi criado para eu rir de você.

homens dando o cú e supando penis
Ah, deve ser lindo. Imagine o pessoal ali, fazendo um belo dum ménage, e o gaguinho que está recebendo o tal boquete dizendo: “Supa, caçorro!”.

significados do nome jarlene
Significa que o seu pai é um escroto que merecia uma porrada por fazer uma sacanagem dessas com a própria filha.

sexo seboso
É por esses momentos que eu vivo. Pelo momento em que vou achar uma frase nas estatísticas, e pensar em algo para dizer, e não vir com nada decente, e ficar rindo da frase maravilhosa que algum demente, mais doente que eu, foi capaz de pensar.

como se tornar uma mulher bonita apos os 30 anos
Exemplos clássicos como esse de que a esperança é a última que morre me emocionam. Então eu respondo: gastando muito dinheiro para que o cirugião plástico conserte a sacanagem que a natureza fez com você.

na giria dos torturadores dos anos 70 o que significava omelete
Não sei, mas pelo nome acabou de me dar uma dor esquisita no baixo ventre.

otos de homens acima de 50 anos com outros da mesma idade transando
Essas fotos devem ser extremamente raras.

tudo sobre abelardo e heloisa
As cartas de Heloísa para Abelardo estão entre as mais belas páginas da literatura mundial. São mais bonitas até do que os sonetos de Elizabeth Barrett Browning. O que pouca gente sabe é que, diante das respostas um tanto frias de Abelardo, que àquela altura tinha um pequeno problema de produção de testosterona, Heloísa escreveu uma última carta, em forma de poema, que os antologistas preferem deixar de fora. Este blog publica, pela primeira vez em língua portuguesa, essa carta perdida:

Abelardo, meu grande amor
Que tragédia aconteceu!
Meu tio castrou você
Bebé, você se fodeu.

Ele acabou com nosso amor
Que eu não quero homem capado:
Esse negócio de dedo e língua
Pra mim é papo furado.

Quando lembro nossas noites
Não sabes a saudade que sinto
Mas isso fica na lembrança
Porque você perdeu o pinto

Me lastimo dia e noite, Bebé,
Como é triste, esta minha sina
Mas admito que pior é a sua
Com esse vazio sob a batina

E assim seguimos nossas vidas
Tu aí com tua filosofia
E eu, rezando no convento
Fico pensando em putaria

Você não faz idéia, ó meu Bebé
De como têm sido meus serões
Aturando freiras chatas
Quase todas sapatões

Mas me consolo lembrando
Que pior foi o seu destino
Virou brinquedo dos padres
E está falando fino.

Shit

Sábado à noite, um restaurante.

Vamos para uma mesa meio afastada, mas o sujeito chega e se senta à mesa ao lado. Na verdade sentar ali não foi indelicadeza dele, foi erro nosso: a mesa já estava ocupada, mas quando chegamos ele estava perto do bar, tomando alguma coisa enquanto esperava, e sua mesa parecia vazia como as outras. Indelicadeza é ele continuar ali, sozinho, depois de ver que um casal que não quer muita conversa com o mundo sentou numa mesa afastada. Há prioridades na vida, e ele deveria respeitá-las. É como ceder o lugar a um velhinho na fila do banco; são coisas que você simplesmente sabe que deve fazer.

O fato de estar próximo já cria, automaticamente, uma certa antipatia. Disfarçadamente olhamos para o sujeito: é meio gordo, tem pouco mais de 30 anos. Usa óculos e barba por fazer, fala com sotaque paulista, embora equilibrado. E se senta sozinho à mesa do restaurante.

Sozinho. Então cai a ficha: naquele exato momento em que destrói as chances de duas pessoas de jantarem com alguma privacidade, ele está levando um cano.

Ele parece estar esperando alguém. Olha todo o tempo para o celular. Um pequeno sentimento de vingança pela sua proximidade aparece: você levou um cano, compadre, porque sentou perto de nós. É bem feito. Você mereceu. A isso chamamos justiça divina.

Pelo menos isso: ele levou um cano. Durante o resto da noite vamos ter que falar ainda mais baixo do que pede o restaurante, mas ele também teve o dele. A gente ainda comenta o assunto quando, de repente, ele olha para o celular e diz em voz alta: “Shit!

A antipatia que a sua simples existência criava aumenta e se cristaliza. Esse sujeito jamais será meu amigo. Eu tolero gente que fala todos os palavrões, mais até do que eu, e eu falo muitos. Gosto de gente que fala “pobrema” e “mulé”. Mas há um tipo de gente que me irrita. Shit em vez de merda. Oh-oh em vez de ih!, de xi!, em vez de êpa! Oops, em vez de opa — até mesmo em vez de “puta que pariu!”.

Não dá para respeitar ninguém que em sã consciência fale shit. Pior: que fale shit em voz alta, sozinho enquanto experimenta o processo doloroso de um belo de um perdido.

A entrada dele chega, um creme de aspargos. Ele toma a sopa com educação, segue bem as regras de etiqueta. É um rapaz fino. Está levando um cano inesquecível, mas não perde a classe. Depois do creme, um risoto. Ele acaba de comer — olhando para cá de vez em quando, porque talvez tenha adivinhado que falamos dele — e pega novamente o telefone. Celulares parecem ter sido inventados para dar o que fazer a quem leva um cano inesquecível, mas dessa vez ele disca e espera atenderem.

O cardápio está à minha frente, eu tenho que escolher o meu prato, mas não leio mais. Tento prestar atenção ao que ele diz ao telefone. Imagino que vá reclamar com a mulher que o deixou ali plantado, ou que vá reclamar que isso não se faz; que pelo diga que ela deveria tê-lo avisado. Mas não consigo ouvir todas as frases. Ele fala com Sabrina. Sabrininha, é como ele a chama. Ela lhe deixa plantado no restaurante e você a chama de “inha”? Ah, você merece. Encare a verdade, amigo: foi essa a mulher que arranjou algo melhor para fazer numa noite de sábado do que ir jantar com um sujeito que fala shit em voz alta, sozinho. Ele merece, merece ainda mais, e eu me solidarizo com ela.

Ele é informado de que ela está ou esteve no salão de beleza.

“Você pode fazer as unhas, o cabelo, as pernas, o braço, faça o que quiser. Tudo bem. Eu estou aqui, no meu momento de orgia gastronômica.”

E mais antipatia ainda, porque ninguém faz orgia gastronômica com um risoto e um creme de aspargos. Uma orgia é algo mais. É feita de coisas diferentes, e variadas, e os sabores contrastam e se complementam. Uma orgia gastronômica é um exagero, sempre, é para ser cometida em meio a gargalhadas altas e ao barulho de talheres batendo incessantemente nos pratos. Orgia gastronômica implora por vinho, não pela Coca Light que ele perpetra. A palavra que combina com orgia é “pantagruélico”; e não “risoto”, muito menos “creme de aspargos”. Um risoto é só um risoto, não é sequer um ménage a trois. Um risoto é uma rapidinha na pia da cozinha.

E um homem que fala “no meu momento” precisa de orientação profissional. Parece uma moça que acabou de levar um pé na bunda se justificando perante as amigas: “Eu estou no meu momento, entende? Ficar comigo mesma, me curtir, sabe?”, enquanto o que curte é uma fossa descomunal.

Mas não é só isso, porque quando um homem começa errado ele tende a permanecer errado, errado até chegar ao precipício. Há um quase pecado quando alguém leva um cano como o que ele levou — se não pelo homem, que a mulher fosse pelo restaurante, valeria a pena — e diz que tudo bem, que está numa “orgia gastronômica” com um risoto e um creme de aspargos.

Dá vontade de levantar, pedir licença, sentar no lugar que ainda aguarda a Sabrina e contar algumas coisas ao sujeito. Contar que diante de um cano desses ele deveria se descabelar ao telefone, dizer que está sofrendo, que está triste. Dizer que não comeu nada — mesmo que nunca tenha comido tanto em sua vida, e que tenha arrotado sem nenhuma vergonha — porque a ausência dela tirou o seu apetite. Dizer que jamais superará a mágoa de ter passado um vexame tão grande. Nesta vida cachorra e injusta não há muitos momentos em que um homem pode se fazer de vítima: um cano em um restaurante numa noite de sábado é um dos poucos.

Mas em vez disso, em vez mostrar que é capaz de chorar por uma mulher que lhe destruiu o coração, ele prefere negociar:

“Não. Hoje quem vai usar o brinco é ela. Hoje é a vez de Priscila, a prioridade”.

Então tem uma Priscila também. O cano que ele levou é duplo, é uma tubulação inteira. Sabrina e Priscila.

Aí a outra ficha cai.

Sabrina é um nome bonito. Priscila é um nome bonito. Mas quando uma Sabrina anda com uma Priscila é porque as duas são putas, porque coincidências, se é que existem, são raras e passíveis de extrema desconfiança. Talvez Sabrina e Priscila morem em um apartamento na zona sul com Julia, Bianca e Momentos Íntimos, moças prendadas e de talentos vários e custosos. E juntas, rindo enquanto decidiam o que fazer naquele sábado à noite, elas decidiram que o sujeito que fala shit não vale sequer um bom jantar. A humilhação então chega ao limite máximo tolerável.

E então esse é o sujeito que sentou à mesa ao lado: um homem que, talvez por falar shit ao telefone, levou um cano de uma puta chamada Sabrina, ou de Priscila, mas como é generoso e magnânimo vai deixar uma delas usar o brinco hoje. É um homem que vai levar muitos e muitos canos na vida estranha que tem pela frente. Shit.

Republicado em 18 de agosto de 2010

A história de Oliver

Caro Alex,

Como você sabe, eu não sou exatamente um cinófilo. O mais próximo que chego disso é uma preferência doce e indelével por cachorras que miam. Mas do canis lupus familiaris, o original, eu não gosto, nunca gostei, não pretendo gostar.

De qualquer forma, quando vi esse post no Gizmodo não pude deixar de pensar no seu Oliver.

Você já fez a crueldade de dar um nome canalha para o seu cachorro. Oliver. Tantos nomes por aí — Rex, Duque, Rambo –, e você escolhe um nome desses para o coitado. Não bastava ele ser um poodle: você tinha que agravar a injúria. Por isso ele ficou assim. Foi vergonha. Eu tenho certeza de que esse jeitinho meio esquisito do Oliver se deve ao nome que você deu ao pobre desgraçado. O Oliver ama você e resolveu fazer o que achou que seu amado esperava dele. Sabe como é. Tudo por amor. E assim, com um suspiro, o Oliver definiu a sua personalidade meio estranha.

O problema é que, por mais detestáveis que sejam os cães, nenhum deles merece uma maldade dessas. É uma questão de humanidade. O Oliver merecia um descanso, um adeus digno a essa vida humilhante de cachorro que você o fez levar. Então faça a caridade de tentar consertar isso e resgatar a masculinidade perdida do seu cão.

Sua chance chegou agora.

Bonecas infláveis para cachorros.

Essa é uma idéia brilhante que vai dar um descanso às pernas de tantos seres humanos, mas que especificamente pode salvar a dignidade do seu cachorro. Aquele pobre cão que tem cor de Nescau, mas que você insiste em dizer que é champanhe, vai ter a chance de mostrar que sabe fazer mais do que sobreviver a um furacão.

Vamos apenas esperar que o Oliver não resolva ficar por baixo da cachorra inflável. Infelizmente, sou obrigado a confessar que não tenho muitas esperanças. O vício é uma coisa terrível, você sabe.

Mas você tem a obrigação moral de tentar. Faça isso pelo Oliver. Compre a cachorra inflável e reze para que o seu cão recupere a masculinidade perdida.

Só há um porém: como tudo nesta vida cachorra, as coisas não são tão simples assim. Há um pequeno problema que você vai ser obrigado a resolver: você vai ter que lavar o brinquedinho do Oliver depois que ele o usar. Mas o amor é isso, é sacrifício e abandono. Não é nada para quem ama cachorros.

Gizmodo: the sex doll for dogs

Catecismo

A Raquel não quer ir para o céu porque o céu é chato e cheio de anjinhos assexuados e eles tocam harpa e tudo é branco imaculado.

Ela quer ir para o inferno. Destino que a Renata também espera merecer, alegando não conhecer ninguém que vá para o céu. A Renata não quer passar a eternidade sozinha, diz. Erro da Renata. Ela conhece alguém que vai para o céu.

Eu.

Eu não quero e não vou para o inferno. Eu quero ir para o céu.

Uma namorada dizia que eu era o demônio. Ela estava enganada: eu tenho cara de anjo e tenho nome de anjo. Melhor: nome de arcanjo, que se é pra ser anjo que seja um de categoria, respeitável, daqueles que dão carteirada em São Pedro. Ela sabe disso, sabe do anjo que sou — infelizmente sem asas e, confesso, sem muita vergonha. É por essa razão que, mais que qualquer outra pessoa, eu mereço o céu. Mereço por um direito concedido pelo nome que me foi dado, e pela simples justiça das coisas.

A Raquel me explicou que quer ir para o inferno porque lá as coisas não são chatas. Que só queima naqueles círculos quem fez por merecer, e pecou, e não passou em brancas nuvens por este vale de lágrimas.

A Raquel não entende.

Eu quero ir para o céu porque não tem graça ir para o inferno. Não há nenhum desafio. Ir para o inferno é encontrar a comida pronta e a mesa posta. Não há beleza nisso.

Eu quero ir para o céu e perverter as santas de vida casta.

Republicado em 16 de agosto de 2010

Aquele que aponta o caminho

Eu ainda morava em Aracaju quando ele começou a pregar nas ruas do centro da cidade, de preferência em frente ao Palácio do Governo, na mesma praça onde Fausto Cardoso foi morto em 1906.

Ele vestia ternos baratos e velhos, e trazia sempre uma Bíblia evangélica nas mãos. Gritava, fazia gestos largos e dramáticos, batia na Bíblia como a prova irrefutável de tudo o que dizia; a saliva se acumulava branca no canto de sua boca, aquela que não era expelida enquanto ele nos advertia contra o fogo do inferno mas nos oferecia a salvação eterna. Fui embora e voltei, e ele continua ali.

Até hoje, quando vejo algum católico falar do fanatismo dos evangélicos, eu lembro dele. Por sua vez, ele me lembra que os católicos de antigamente eram exatamente assim: a mesma loucura, o mesmo proselitismo descontrolado, a mesma vontade de mostrar aos outros a Luz que o salvou. É homem de uma única certeza: a de que sua fé o faz melhor, e que é seu dever retribuir à altura guiando este rebanho de cordeiros insensatos no caminho do Senhor. Quando o vêem gritando sobre o Senhor e se afastam quase inconscientemente, como virariam os olhos a um menino com hidrocefalia, as pessoas esquecem que o termo evangélico se aplica também aos católicos, e que o que fez a força dessa religião foi justamente essa mesma loucura evangelizadora, a mesma vontade de impor ao mundo a sua verdade. Aqueles que o acham ridículo deveriam saber que ao entrar em suas igrejas para a missa do domingo carregam a mesma herança de grotesco, de loucura, que aquilo que lhes justifica vem da mesma matriz torta que gerou o pregador das ruas do centro de Aracaju.

Eu gostava de imaginar o seu passado; se se converteu depois de uma vida de pecados semelhante à minha ou se foi criado por pais evangélicos e pios. Prefiro achar que sua vida foi aventurosa e difícil; que ele foi mau e fez mal, que foi apontado na rua como péssimo exemplo e criatura perigosa, mas que de repente descobriu Deus. Só uma mudança tão radical justificaria o seu furor evangélico, a disposição de pregar para ouvidos moucos por tantas centenas de tardes.

Ele se joga ao sacrifício da humilhação pública como cristãos igualmente enlouquecidos se jogavam aos leões e às fogueiras romanas. Para que alguém se torne capaz de tanto abandono de si mesmo é preciso que saiba, no fundo do peito, o que significa a certeza da salvação, e esse conhecimento só tem quem conhece a verdadeira danação, aquela que se paga aqui e não no inferno. Eu, que apenas me converto todo dia a mim mesmo, seria incapaz disso. Ao contrário de mim, que acumulo pecados capitais que pretendo continuar acumulando enquanto o bom Deus me der saúde, ele modelou sua vida nas dos apóstolos, e quer que sejamos salvos também, como ele foi. Ele é um bom homem.

Perto do Natal do ano passado consegui tirar uma foto sua. Era uma vontade antiga, mas raramente ando com uma câmera pelo centro, nossos horários não se batiam. Um dia eu o achei. Ele estava no cruzamento de dois calçadões, perto da igreja católica mais antiga da cidade e diante de uma casinha de Papai Noel, daquelas onde desempregados vestem uma roupa vermelha no calor de dezembro e colocam uma barba postiça para tirar fotos com meninos enjoados.

(Eu sempre imaginei que Papai Noel fosse a profissão dos sonhos de um pedófilo, sempre imaginei seus olhos brilhando enquanto um menininho de quatro anos senta em seu colo e ele pergunta, trêmulo, “o que você quer ganhar, meu filho? Seja um bom menino…”)

Me escondi para tirar as fotos. Eu tinha certeza de que ele não gostaria que um sujeito que não conhece o fotografasse — e ficaria ainda mais revoltado se soubesse quem eu sou, se soubesse dos meus esforços para tirar tantas ovelhas do bom caminho do Senhor, esforços ditos baixinho em pescoços perfumados. Foram fotos ruins, as pessoas passavam na frente, o foco nunca estava correto.

Aí ele me viu.

O meu pregador então se transformou em um artista. Ou, se artista ele já é, em um artista ainda melhor, iluminado por sua musa divina. Olhou para mim e tudo nele indicava aprovação, quase gratidão. E ele foi mais veemente em sua peroração, seus gestos se tornaram ainda mais largos, sua voz se tornou mais confiante. De repente ele não estava mais diante da multidão de passantes que o ignoravam: o calçadão havia se transformado num púlpito de verdade, agora ele tinha alguém que prestava atenção em suas palavras. E coroou a sessão apontando teatralmente para o céu — como Agnes indicando que Dora havia morrido, ou Moisés enganando alguns milhares de hebreus e os metendo na grande fria de suas vidas. Minha lente, ele talvez tenha achado, lhe daria a chance de apontar o caminho para mais pecadores. Baixei a câmera e ele me fez sinal de positivo. E voltou o olhar e a fala para a multidão triste de materialistas que não tinham Deus em seus corações.

Foi quando entendi. Eu só teria vergonha de ser fotografado porque fé, mesmo, eu tenho apenas em mim mesmo. A minha fé tem o meu tamanho, e Deus é muito menor que eu. Mas ele, não: ele acredita em algo muito maior que ele, e essa é a sua desculpa e a sua razão.

Republicado em 14 de agosto de 2010