Auto de São Francisco

Talvez alguém possa me explicar a palhaçada que o bispo de Barras, Dom Luiz Cappio, está fazendo ao inventar uma greve de fome contra a transposição do São Francisco.

Segundo as informações disponíveis por aqui sua greve de fome é meio torta. Ele toma sucos (e más línguas dizem que deve encher o rabo de hóstia, caso em que se iguala à dieta básica de milhões de nordestinos famintos que também só comem farinha). Mas ainda assim é uma greve de fome.

Com isso o padre não está apenas fazendo uma palhaçada política, aproveitada por todos os inimigos da transposição e do governo federal. Está cometendo um pecado, e dos graves. Em algum lugar da Bíblia — nessas horas a Congregação Mariana de Astrólogos faz falta — Deus diz que ninguém pode dispor de sua vida. É exatamente isso o que o bispo está fazendo. É bem provável que em algum tempo receba ordens para encerrar a palhaçada, vindas de um superior, e sua greve acabe. Ninguém sabe.

Talvez o pior na atitude do padre seja o fato de denotar, principalmente, teimosia. Mesmo morando em um dos dois Estados diretamente afetados por qualquer coisa que atinja o baixo São Francisco, eu ainda não tenho certeza sobre a transposição. Há tantas opiniões conflitantes, tantas justificativas técnicas de ambos os lados, que tudo isso acaba virando um palco de debates — ou de teatro, no caso do bispo de Barra.

É quase certo que a transposição seja realmente necessária. O problema da obra é que há outras soluções intermediárias possíveis, a maioria mais barata. Como o uso das águas subterrrâneas em alguns lugares, como o Piauí, ou aproveitamento mais racional dos açudes cearenses — muitos deles sub-utilizados. Engenheiros hídricos dão dezenas de soluções, embora nenhuma seja definitiva. De qualquer forma, nenhuma dessas obras custaria mais do que a transposição. Mas nenhuma daria, tampouco, a visibilidade que a transposição dará a qualquer governo que a realize.

Essas soluções menores talvez fossem preferíveis diante de um fato simples: hoje o Velho Chico é um rio quase exaurido. Nenhum outro tem seus recursos tão utilizados em escala tão gigantesca — de hidrelétricas a projetos de irrigação. A região do baixo São Francisco está, já há alguns anos, assustada com a degradação do rio. Se ninguém nega que a transposição seria útil para os Estados do Nordeste que se empenham em sua realização, ninguém nega também que o rio precisa urgentemente de revitalização. Ele está morrendo, e é esse medo que motiva uma parte dos protestos contra a transposição.

(Mas grande parte desses protestos é política, como foram suas motivações. É bem provável que, ao anunciar o projeto, a única motivação de Fernando Henrique Cardoso fosse dividir a bancada do Nordeste, principalmente Antônio Carlos Magalhães, e não tivesse intenções reais de realizar a obra. Lula parece ter embarcado no projeto para atender compromissos com Ciro Gomes — e talvez empolgado diante da perspectiva de fazer uma obra estrutural de grandes proporções.)

É uma questão de ordem, principalmente: a revitalização deveria vir antes da transposição. Tirar água de um rio exaurido é temerário, ainda que o canal vá sair da represa de Sobradinho, o que em teoria oferece mais possibilidades de controle. Por isso já há algum tempo se fala em uma outra transposição: a do Tocantins, que se ligaria ao São Francisco e garantiria a transposição para o Ceará, além de resolver parte dos problemas que o S. Francisco já enfrenta. Essa poderia ser a solução mais importante, em um conjunto necessário. É uma obra cara, talvez mais cara que a transposição do São Francisco. E a água teria que ser subsidiada durante muito tempo.

Enquanto isso, em uma atitude de vigário de interior com delírios napoleônicos de grandeza, Dom Cappio continua seu auto. Mas o mais engraçado em tudo isso é que já tem religioso no Ceará, desde sempre o Estado mais interessado na transposição, ameaçando fazer greve de fome também — mas dessa vez a favor. E há poucas coisas que eu gostaria tanto de ver como um duelo desses.

Phillip Larkin

Annus Mirabilis

Sexual intercourse began
In nineteen sixty-three
(which was rather late for me) –
Between the end of the
Chatterley ban
And the Beatles’ first LP.

Up to then there’d only been
A sort of bargaining,
A wrangle for the ring,
A shame that started at sixteen
And spread to everything.

Then all at once the quarrel sank:
Everyone felt the same,
And every life became
A brilliant breaking of the bank,
A quite unlosable game.

So life was never better than
In nineteen sixty-three
(Though just too late for me) –
Between the end of the
Chatterley ban
And the Beatles’ first LP.

This Be The Verse

They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another’s throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don’t have any kids yourself.

High Windows

When I see a couple of kids
And guess he’s fucking her and she’s
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives–
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought,
That’ll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.

E pensar que desperdicei 34 anos da minha vida sem saber quem era Phillip Larkin. E que continuaria mais uns tantos, não fosse o Ina.

Philip Larkin

Por que vou votar a favor da comercialização de armas

O problema com o referendo sobre a comercialização de armas é a demagogia da iniciativa do governo e a desonestidade das justificativas a favor da proibição.

Os argumentos a favor da proibição são, em sua maioria, falsos e parciais. Disseram que vai diminuir a violência doméstica, por exemplo. Bobagem. Se um casal quer se matar, faz isso com facas ou, se necessário, com as mãos. Na verdade, a maioria dos casos de violência doméstica é de agressões físicas. É um clichê antigo, mas armas de fogo não matam ninguém; quem mata é quem atira. E se alguém quer matar outra pessoa, mata como pode. As pessoas já se matavam antes da invenção da pólvora e vão continuar se matando quando as armas forem extintas.

Quanto à violência urbana, aí só pode ser piada. É preciso lembrar que o verdadeiro problema do assaltante que carrega uma pistola não é o fato de ele ter uma arma — é ele estar com ela na rua. E não sei de nenhum bandido ou traficante (com exceção dos policiais) que tenha porte de arma ou, pelo menos, armas compradas legalmente. Dizer que boa parte das armas legais são desviadas para o crime é verdade, mas a conclusão a que ela leva é falsa. Imaginar que se não houver mais comércio legal no país os bandidos vão ficar menos armados é uma grande imbecilidade. É como achar que, porque a maconha é ilegal, as pessoas vão deixar de fumar.

É muito mais fácil comprar uma arma ilegalmente. Não apenas as permitidas, mas também armas que sempre foram de uso exclusivo militar. Quer comprar uma granada? Não é difícil. Uma pistola 9mm com o número de série limado? É mais barato que uma arma igual que você compre legalmente — ah, desculpe: você não pode comprar uma pistola 9mm legalmente.

É esse desconhecimento das leis de mercado que faz com que a alegação de que a proibição do comércio legal vai diminuir a criminalidade seja, na prática, uma bobagem.

O referendo também busca proteger de si mesmas pessoas comuns que, em um momento de desatino, matam outra — uma briga de trânsito, por exemplo. Tudo bem. Só não custa lembrar que provavelmente essa pessoa não tem porte de arma. Mas carrega uma mesmo assim. Para ela, em um comportamento razoavelmente semelhante aos dos bandidos, o fato de estar na ilegalidade não é um empecilho real. Se ela está disposta a carregar uma arma, vai carregar, pura e simplesmente. O mais provável é que aconteça o mesmo com a posse de armas em casa.

As pessoas andam armadas porque acham que assim estão mais protegidas. Muitas vezes estão erradas, e os argumentos em favor da proibição batem insistentemente nessa tecla.

Mas às vezes estão certas.

Para algumas pessoas, ter armas em casa é uma necessidade real. O discurso do “sim” é bonitinho para a classe média urbana empilhada em apartamentos, que não precisa e não deve ter armas; mas o Brasil é muito mais que isso. Quem mora em uma fazenda ou um sítio, por exemplo, não vai deixar de ter, independente das leis em vigor. Por uma questão cultural, por uma questão de segurança ainda que putativa; não importa e não adianta. Eu não deixaria, se tivesse uma.

Mesmo quem mora em casas na cidade acredita ter suas razões para manter uma arma, e age em função disso. Um amigo, dono de uma pistola registrada, já se conformou em deixar o seu registro caducar, porque não está disposto a pagar as taxas que passarão a ser cobradas (mais ou menos 300 reais por ano, 30% do que hoje se paga para ter porte, o que dá uma pistola nova a cada cinco anos) nem seguir as outras exigências que o projeto de lei faz, extremamente restritivas a quem pretende continuar com sua arma em casa. Também se conformou com a perspectiva de precisar recorrer ao mercado negro para comprar munição. O sujeito, que sempre andou dentro da lei, sabe que vai alimentar a criminalidade. Mas acredita que a sua segurança e de sua família é mais importante que isso.

Esse incentivo à ilegalidade é preocupante, e eu duvido que seja o único problema com essa proposta. O divórcio da realidade concreta não costuma levar leis a nenhum bom lugar, e talvez seja esse o principal problema prático do projeto. O comércio ilegal, aquele que faz parte do círculo vicioso do crime organizado e que já é relativamente forte, vai florescer ainda mais. Com o perdão do trocadilho absolutamente infame, parece ser um tiro que vai sair pela culatra.

Mas o que mais me incomoda nesse referendo é a demagogia embutida nele. Se a proibição passar, provavelmente vai contar como uma das iniciativas do governo em segurança. É piada. Prioridade, sempre, deveria ser desarmar os bandidos. Não há discussão sobre isso. E a maneira como os governos vêm lidando com o aumento crescente da violência é preocupante.

O volume de recursos e de esforços mobilizados nesse referendo seria mais bem utilizado em convênios com os governos estaduais. Deveria ser utilizado em policiamento preventivo. Em iniciativas de requalificação das polícias, e em ações efetivas de combate ao crime. É simples assim.

Há alguns anos um amigo meu, radialista, foi assassinado a mando de um prefeito. Ele nunca andou armado, o que talvez — talvez não — tenha facilitado a ação do pistoleiro que o matou. Por ironia aquele prefeito está hoje na cadeia, mas não por esse crime. Esse é um dos fatos que me dão a impressão de que estão colocando os carros adiante dos bois, e o que o desarmamento deveria começar pelo outro lado. Há aí uma inversão de prioridades, uma penalização desnecessária.

É por isso que eu vou votar pelo não à proibição do comércio de armas de fogo no Brasil.

As alegrias que o Google me dá (XXV)

o que significa o sinal de stop colocado no chão?
Significa que você deve seguir em frente. Por favor, faça isso.

o que inspirou agatha christie a escrever morte na mesopotamia
Eu não leio essa mulher nem com Vito Corleone me fazendo uma proposta irrecusável. Mas deve ter a ver com o marido dela ser arqueólogo, algo muito útil para a velha dama indigna à medida que os anos passavam.

desejo ver fotos de homens nus como vieram ao mundo
Seu pedido é uma ordem:

como eliminar fatores bons e ruins numa organização
É isso que ensinam nos cursos de administração hoje em dia. Olha, amigo: se você quer acabar tanto os fatores bons quanto os ruins faça o seguinte: acabe com a organização. Isso eu tenho certeza de que você sabe fazer.

conclusao de uma pessoa sobre o livro de capitaes de areia
Assim você mata a Cipy do coração. É “Capitães da Areia”.

madame inglesa puta e devassa vestida a rigor – fotos gratis
Se ela vai estar vestida a rigor na foto que você quer, muquirana, me diz uma coisa: como você vai saber que ela é puta e devassa? Há maneiras de identificar tão belas qualidades, é o que me dizem, mas confessa: você não entende tanto assim de mulher, não é? Por isso, no seu lugar eu me restringiria aos videozinhos pornôs, que ainda sairia ganhando.

fotos de putaria que aconteceu no mundo
Olha, amiguinho, vamos ter uma conversa séria. Esta série de posts depende menos de mim do que de você. É, é isso mesmo. Se você continuar me fazendo perguntas bobas como essa, como acha que vou poder fazer meu trabalho? Você acha que é fácil? Por favor, colabore um pouco.

o meu rabo ardendo
Já sei. Você seguiu o meu conselho para evitar uma gravidez indesejada. Boa garota.

quantidade de pessoa permitidas dentro de um onibus em salvador
Dez contra um que você não é baiano. Se for, é daqueles que vivem da Barra para lá. Vilas, talvez. Porque se fosse baiano, mesmo, daqueles que palmilham as pedras irregulares do Jogo do Lourenço ou da Roça do Galo, você saberia que esse limite não existe. Eu, por exemplo, já vi gente subindo pela janela de um ônibus no Terminal da Lapa, no carnaval de 1989. Uma velha gorda batia na cabeça de um rapaz que guardava um lugar no banco para a namorada. Se você tirasse o pé do chão, não acharia espaço novamente. Meu cunhado, aliás, não vai me perdoar nunca por isso. Um ingrato, o rapaz: eu dei a ele algumas das lembranças mais intensas que ele tem de qualquer carnaval, como aquele momento inesquecível em que, depois de horas caminhando debaixo de um sol miserável sem conseguir achar onde comprar água, implorávamos o pouco de ar frio que saía de um caixa eletrônico no Largo da Barra. E ele é incapaz de me agradecer por essas memórias indeléveis.

poemas quando você termina uma relação e ama ainda a pessoa
A cada hora que penso em ti
E minh’alma pouco a pouco se corrói
Só consigo lembrar que sofri
E que aquele pé na bunda inda dói

eu quero nome de games de barbie para mim jogar
Você devia, em vez de perder tempo com a anoréxica do cabeção, estudar um pouquinho mais.

demonio fodendo mulheres
O membro da Congregação Mariana de Astrólogos saiu da missa enlevado, tendo sentido a mão do Espírito Santo em sua vida. Mas um calor lhe subia pela virilha, um calor tão grande que abafou as santas palavras do padre, e diante do computador — com um belo wallpaper mostrando o Sagrado Coração de Jesus — ele digitou as palavras que materializavam a sua mais recôndita perversão. Veio parar aqui, coitado, onde ninguém come ninguém, e esse deve ter sido um castigo divino e me faz ter o orgulho de dizer que eu posso até ser herege, mas sou mais decente que esse aí.

o que fazer com a lingua durante o beijo
Tire e guarde no bolso, para não perder.

fotos putas da ponte grande
Acho que você digitou errado. Não é “puta do peito grande”, não?

frases para colocar atras de um carro socado com turbo
“Eu sou babaca e você não me pega.”

como eu posso explicar sobre aborto com minha filha de 9 anos?
“Minha filha, sabe os tantos mil reais que eu gasto com as mensalidades do seu colégio? O dinheiro do plano de saúde? Sabe as horas de sono que eu e sua mãe perdemos quando você era pequena? Sabe aqueles vestidinhos da Joana João caríssimos que você perde em seis meses porque não pára de crescer? Sabe a manha que você sempre faz no shopping center? Sabe a encheção de saco que é fazer você comer verdura? Pois é, minha filha, se a sua mãe tivesse feito a porra do aborto que eu pedi, eu não tinha passado por nada disso.”

casos de sexo anal entre os astecas
Questão pertinente e muito justa, meu amigo. Pelo que se sabe da cultura asteca, eles deram origem ao que hoje chamam mexicanos. Por isso fui pesquisar nos alfarrábios do grande historiador asteca Txlmaltec. E confirmei plenamente as minhas suspeitas: os astecas caíam no sexo anal para não ter que ver as carantonhas de seus parceiros. Sabe como é. Mexicanos.

doutor quero fotos de penis de garotos pois o do meu filho parece ser diferente
O doutor Rafael Galvão responde: “Minha senhora, depois de ver as fotos do seu filho, tudo o que posso dizer é que ele é um hermafrodita”. Espero que isso ajude e lhe tranqüilize.

como descobrir nome de motel na conta de cartão de crédito
Olha, eu não devia fazer isso. Mas se seu cônjuge é tão burro a ponto de pagar conta de motel com cartão de crédito, ele merece se ferrar. Eu sei que você, meu senhor ou minha senhora, não é uma pessoa ciumenta, está fazendo isso apenas por precaução. Sei também que a bela pessoa que mora ao seu lado e agüenta seus maus humores seria incapaz disso. Por isso, e só por isso, eu vou dar uma dica: é só procurar o nome. Normalmente é algo que não tem nada a ver com motel. Procure pelo nome mais insólito possível. Por exemplo, se você mora no Rio e vem no extrato algo como “Parque da Mônica”, desça o sarrafo que ele ou ela andou pulando a cerca.

papai noel anda de trenó ou de helicóptero
Que dúvida tão bonitinha. Eu quase tenho vergonha de dizer que você devia criar juízo e deixar de acreditar nessas besteiras.

putas goiânia
garotos programa goiania

Viu só? Depois dizem que é implicância minha, que eu tenho cisma com Goiânia. É nada. Eles que me perseguem.

redação se a vida lhe der um limao faça dele uma limonada
Se lhe der dois, faça uma caipirinha e beba para esquecer, porque ela anda lhe tratando muito mal.

titulo original jejum de amor
“Matando Cachorro a Psiu”, BRA, 1947, Tizuka Yamazaki. Com Zezé Macedo, Russo e Wilson Grey.

professoras que fodem com alunos
Virtualmente todas as minhas professoras tentaram fazer isso comigo. Você precisava ver as provas que me passavam, as vezes que me expulsaram de sala de aula, os desaforos que fui obrigado a ouvir. De onde você acha que vem o meu rancor contra as balzacas mal amadas?

juntos chegaremos lá fé no brasil
Eu tenho fé no Brasil. Eu não tenho é fé nos brasileiros. E vai afastando aí que eu não quero ser visto com você.

fica tranqüilo posso imaginar o quanto você deve estar cansado
Não, você não imagina. Você não sabe o que é correr mil frases em busca de algo que preste, você não sabe o que é se deparar com um bocado de gente pedindo sempre a mesma receita milagrosa pra aumentar a mixaria que mal balança entre suas pernas, não sabe o que é se bater com pedófilos e punheteiros e tarados que fariam Sade se assustar, você não sabe. Saia daqui. Agora.

historinhas com moral espirita
Zíbia e André Luiz se amavam. Amor puro, casto, amor desses que parecem ter sido conjurados pelos anjos, se anjos existem. Mas como toda história de amor tem que mostrar os percalços que os amantes enfrentam, como bem sabem Sabrina, Júlia e Bianca, necessário se faz dizer que André Luiz morreu. Desencarnou. Passou para um plano espiritual superior.

O sofrimento de Zíbia foi imenso e genuíno, como são os sofrimentos de quem ama. Zíbia de alegre ficou triste, seu viço esmaeceu, sua tez perdeu o brilho.

Foi quando vieram as vozes na sua cabeça. A princípio confusas, mas logo se fizeram mais nítidas, e de repente algo tomava conta de Zíbia e a fazia escrever coisas que ela sabia não serem suas, quando sua consciência voltava e ela lia o que havia escrito. Mas apenas quando André Luiz passou a lhe mandar notícias do além — essas coisas que todo amante diz, independente de onde esteja — Zíbia retomou sua alegria.

Com a alegria de volta a vida continuou para Zíbia, como sempre continua para os vivos.

Então Zíbia conheceu Chico, rapaz doce com problema de vista mas também com tão bons princípios quanto os que André tivera. Ela se apaixonou por Chico, e nisso não viu quebra de promessas e juras. Mas não pôde evitar a angústia diante das mensagens que continuava a receber de André, e tomou uma atitude drástica: decidiu ignorar as mensagens que psicografava. Entregaria tudo no centro espírita sem ler, porque não podia fazer mais nada, não queria sofrer por um amor que não mais podia retribuir, e o espírito de André Luiz precisava evoluir e superar o apego às coisas terrenas.

Naquela noite, quando chegava ao Bezerra de Menezes, um rabecão cujo motorista carregava coroas de flores para uma funerária com que o necrotério tinha um acordo atropelou Zíbia. Ela voou 5 metros, rolou mais 12 no chão: ao parar na sarjeta havia desencarnado.

E entre os papéis que voaram de suas mãos ensangüentadas estava um bilhete que dizia: “Zíbia, puta ingrata, nós vamos nos encontrar novamente, ainda hoje. André.”

Moral espírita da história:

Psicografou, não leu, o pau comeu.

Salve a Hello Kitty!

A Associação Blogoseira de Proteção à Hello Kitty, indignada com os maus-tratos a que ela foi submetida pelo senhor Bia Jones, está lançando uma campanha em defesa da pobre gatinha que não tem boca, mas fala e faz outras coisas com o coração.

Não podemos nos calar diante de uma barbaridade tão grande. Não podemos deixar que esses monstros ludófilos continuem à solta.

Participe. Você é importante nessa luta.

A sobrevivência da Hello Kitty depende de você.

E se você não tem medo do Biajoni… Você não sabe nada.

Canções de amor e ódio

Rafael diz:
Que nada.

Rafael diz:
Se eu morresse hoje, muita gente ia dizer “O filho da puta morreu!”

Carol diz:
“Até que enfim!”

Rafael diz:
É.

Carol diz:
Mas antes

Carol diz:
Assina um papel deixando os seus livros pra mim.

Carol diz:
Senão eu vou te xingar.

Rafael diz:
Ué, pode xingar.

Rafael diz:
Você acha mesmo que eu vou ouvir debaixo de sete palmos?

Carol diz:
Eu não vou deixar a tua alma em paz

Carol diz:
Você acha que vela e galinha preta servem pra quê?

Rafael diz:
Minha alma vai estar muito ocupada xingando o filho da puta do médico que me deixou morrer.

(…)

Carol diz:
Nós temos mesmo umas conversas super produtivas…

Rafael diz:
É.

Rafael diz:
Se os sem-terra me descobrem, me desapropriam.

***

Já me elogiaram e já me xingaram. Já falaram que sou quase-lindo e que sou muito feio. Já se apaixonaram pela minha boca e já me odiaram pelos meus olhos.

Mas nunca, em todas essas décadas de vidinha mais ou menos, alguém tinha se apaixonado pelas minhas gônadas a ponto de fazer poeminhas para elas.

Um dia na vida

Foi assim, ó:

Primeiro entra a banda, desencontrada no primeiro compasso, mas a bateria de Osie Johnson faz com que ela se encontre rápido; eles sabem como, quando e o que tocar. São todos grandes músicos: Roy Eldridge, Doc Cheatham, Vic Dickenson, Mal Waldron, Danny Barker e Milt Hinton. Principalmente, ali estão Lester Young, Ben Webster, Gerry Mulligan e Coleman Hawkins.

Da apoteose inicial em que estabelecem a cadência da música eles se acalmam, em expectativa mal disfarçada. Eles sabem que agora é a hora dela entrar, e que mesmo heróis mitológicos, cujas lendas são contadas de pai para filho por gerações, sabem quando se calar diante de deuses.

My man don’t love me, he treats me oh so mean
My man he don’t love me, he treats me awfully mean
He’s the lowest man that I’ve ever seen

E é uma deusa tão incomum, com seu rabo de cavalo, a voz que já tinha sido de menina agora rascante e profunda.

Ela se cala e espera que seus devotos façam suas orações. O primeiro é Ben Webster. Suave. Tranqüilo. Ele tenta fazer o seu saxofone soar no mesmo timbre de abandono da voz da deusa diante dele, e consegue. As notas que produz vão do melancólico ao angustiado, e pode-se sentir a agonia que o possui. Se você não sente olhe à direita de Webster, ali está Gerry Mulligan balançando-se de olhos fechados, em transe, e você vai saber, embora deva se lamentar por não sentir.

Agora é a vez de Lester Young. O presidente está doente, não come mais, apenas bebe; ele não agüenta ficar em pé muito tempo, mas ainda não sabe que morrerá em pouco mais de um ano. Até aqui ele assistiu a tudo sentado, talvez uma concessão que a deusa lhe fez. Mas é sua hora, e ele se levanta e encara a câmera que filma tudo aquilo. O presidente tem olhos tristes e cínicos, mas o jeito como trata o seu sax é outro, é o som de quem conhece cada curva daquilo quem tem em suas mãos e em sua boca, sabe onde deve tocar. Por isso o som é macio, suave, doce, como uma mão descendo desapercebida das costas para a cintura, e então aperta as suas ancas. Diante do presidente a deusa balança a cabeça, primeiro em um sim, depois em um não que quer dizer sim, mas o que ela pensa pode ser visto no seu sorriso satisfeito.

Ela volta. Ela tem que voltar. E se aquela primeira estrofe parecia algo do outro mundo, ah, nós ainda não sabíamos de nada, porque algo acontece quando ela canta o segundo really yellow, e estende a palavra até além dos limites do possível.

He wears high trimmed pans, stripes are really yellow
He wears high trimmed pans, stripes are really yellow
But when he starts into love me, he is so fine and mellow

Vic Dickenson apresenta o seu trombone. Não, ele não é Satchmo, nem Dizzy Gillespie, nem Miles Davis. Mas assim como Ben Webster ele sabe transformar em ausência de palavras tudo o que a deusa cantou antes dele, e mais não se pode pedir de ninguém.

Gerry Mulligan passa à frente, cabelo louro cortado à escovinha, terno xadrez. Ele sabe que seu sax barítono é gordo, é pesado, é grave, mas que se não pode subir às alturas de um trumpete pode descer às fundações daquilo que estão construindo sem planta, apenas sob os olhares de uma mestre de obras, sabe que pode dar a solidez de que todos os outros precisam.

Agora é a vez dela, novamente, e ela sabe o que vai cantar. Vai lembrar a sua história: puta, bêbada, viciada em heroína, uma cirrose lhe corroendo o fígado naquele exato instante — e uma vida inteira de amores complicados. E enquanto ela canta Doc Cheatham vai cantar também, mas a voz do seu trumpete é outra, é generosa e apenas ilumina o lamento da deusa.

Love will make you drink and gamble, make you stay out all night long
Love will make you drink and gamble, make you stay out all night long
Love will make you do things that you know is wrong

Coleman Hawkins, agora. À sua esquerda se vê novamente Gerry Mulligan, generoso, balançando ao ritmo sincopado da música, tendo tanto prazer em tocar quanto de simplesmente ouvir um dos grandes, como ele. Hawkins também sabe que não precisa dizer mais nada, que não precisa inventar palavras. Diz o que já foi dito, mas do seu jeito, sob os olhos dela e sob o seu sorriso.

Por isso agora, na vez de Roy Eldridge, não há mais palavras. Mas Eldridge nunca precisou delas, não vai ser agora que vai precisar. Então o seu trumpete grita, esquece de tudo, apenas grita. E depois que solta o grito que está dentro de cada grande trumpetista, ele volta às orações que todos estão dizendo.

A deusa está de volta, e finalizará o seu sermão com uma prece para que seus devotos continuem adorando-a, e ameaçando eventual abandono porque ela sabe o que é o amor, a fé e a devoção.

Treat me right baby, and I’ll stay home everyday
Just treat me right baby, and I’ll stay home night and day
But you’re mean to me, baby, I know you’re gonna drive me away

Love is just like a faucet, it turns off and on
Love is like a faucet, it turns off and on
Sometimes when you think it’s on, baby, it has turned off and gone

E agora não há mais nada a dizer, resta à banda fazer seus cumprimentos finais e se despedir, apenas colocar o ponto final em um lembrete de que, de vez em quando, deuses cantam e se juntam aos seus fiéis. E que essa obra divina é tão superior aos pássaros.

***

Era a noite de 8 de dezembro de 1957. Foram apenas 8 minutos no programa The Sound of Jazz, transmitido ao vivo pela CBS. E nos últimos 16 anos eu não consigo pensar em outro instante em que o jazz tenha alcançado esse nível absolutamente divino, em que Deus cantou para mortais com um olhar inocente que jamais conseguiria trair todo o sofrimento que continha, ainda sem saber que era mulher, que era negra, que morreria em menos de dois anos e que se chamava Billie Holiday.

Billie Holiday cantando Fine and Mellow em The Sound of Jazz.