Sexta-feira o rabino…

Há uma série de livrinhos policiais de Harry Kemelman que tem como protagonista o rabino David Small. Foram lançados aqui pela Companhia das Letras e ainda estão em catálogo.

São uns livrinhos bem vagabundos. A única razão para existirem, provavelmente, é o fato de se dirigirem a um nicho de mercado específico. O rabino David Small é o padre Brown em versão kosher. E piorada.

Os títulos dos livros seguem um padrão: “Sábado o rabino passou fome”, “Segunda-feira o rabino viajou”.

Agora, tendo em vista os acontecimentos que abalaram a comunidade judaica nacional, e sempre com o espírito de solidariedade que caracteriza este blog, sugerimos um novo título, que poderia ser lançado ainda este ano.

“Sexta-feira o rabino devia ter ficado em casa”.

Linha direta com nosso Senhor

Em São Paulo, boa parte dos orelhões do centro antigo carregam pequenas etiquetas auto-colantes com pequenos anúncios de prostitutas, como “Rose Peluda”, “Carmen Coroa” e outras menos sugestivas.

Salvador, definitivamente, é uma cidade diferente.

E pela primeira vez em uma longa existência de quase quatro décadas, dedicada a sentir com atenção e deslumbramento as belezas e os cheiros que se escondem às vistas das dunas brancas do Abaeté, eu me vejo forçado a conceder que, em pelo menos uma coisa, São Paulo é melhor que Salvador.

Espírito natalino pelos olhos da cara

Eu saindo da loja de brinquedos e a jovem senhora entrando, puxada pelo filho de seus cinco anos. E ela comenta com a amiga:

— Ai, meu Deus, isso vai sair o olho da minha cara…

E eu, vendo renas de narizes vermelhos e barbas brancas por todo lugar, consigo controlar a minha língua, essa língua malcriada, e não falei o que me veio imediatamente à mente, essa mente que é uma pocilga:

— Não reclame, minha senhora. Pior se fosse o olho do seu…

Ah, deixa para lá. Feliz Natal a todos.

Historinhas edificantes como elas deviam ser contadas (I)

E os escribas e fariseus trouxeram a Ele uma mulher apanhada em adultério; e quando a puseram entre a multidão, disseram a Ele, Mestre, esta mulher foi apanhada em pleno adultério. Moisés nos ordenou na Lei que tais mulheres devem ser apedrejadas; mas o que dizes Vós?

Assim falaram eles tentando-o, para que pudessem acusá-lo. Mas Jesus se abaixou, e com o dedo escreveu no chão [como se não os ouvisse].

Então, quando eles continuaram a lhe perguntar, Ele se levantou, e disse a eles, Aquele que entre vós não estiver em pecado, que atire a primeira pedra.

E novamente Ele se abaixou, e escreveu no chão.

E aqueles que ouviram, condenados pela [sua própria] consciência, saíram um por um, começando pelos mais velhos, até o último: e Jesus foi deixado sozinho, com a mulher parada entre a multidão.

Quando Jesus se levantou, e não viu ninguém além da mulher, disse a ela, Mulher, onde estão aqueles que vos acusavam? Ninguém vos condenou?

Ela disse, Ninguém, Senhor. E Jesus disse a ela, Nem eu vos condeno; vai, e não tornai a pecar.

Mas em verdade, em verdade vos digo: e Schlomo, que era ateu e não tinha pecados porque pecado é especificamente um conceito de transgressão do código moral definido por uma religião, voltou até onde Jesus e a vagabunda estavam, e pegou uma pedra deste tamanho, e tacou nos cornos da vagabunda, e a vagabunda estrebuchou no chão, e morreu, e Jesus saiu murmurando “ateu filho da puta…”.

Republicado em 21 de julho de 2010

As alegrias que o Google me dá (XXIX)

como faser o penes crecer?
Meu filho, é mais fácil aprender português. E nem isso você aprendeu ainda.

onde eu posso fazer perguntas para o galvao
Onde quiser. Mas eu não vou responder.

o trabalho realmente dignifica o homem
Você realmente acredita nisso? Não quer perguntar para os universitários? Meu filho, a verdade é que o trabalho só cansa. E cansa muito. Bom, meu caro, é a vadiagem.

porque plutao nao faz mas parte do cistema solar como planeta
Porque ficou puto quando resolveram subverter a ordem natural e greco-romana das coisas e batizaram um eventual décimo planeta com o nome de uma deusa de esquimós, como se esquimós prestassem para alguma coisa. Eu apóio a revolta de Plutão.

hermafrodita sabrina
Sabrina era hermafrodita? Eu não acredito. Não posso acreditar. Quer dizer que todos aqueles suspiros dados eram para uma hermafrodita? Agora só falta a Bianca e a Júlia serem também. E, meu amigo, se você vier me dizer que Momentos Íntimos também era hermafrotdita, aí o pau vai comer.

quero carro da pejo . e com fotos de sexo . para fazer meu trabalho de escola
Em que escola você estuda? A impressão que dá é que vocês aprendem sacanagem demais e estudam de menos lá.

homens famosos batendo punheta
Quem são esses idiotas? Por que fazem isso? Se são famosos, por que perdem tempo caindo na mão quando há, para eles, uma inifinidade de mulheres à disposição, seduzidas pelo maior afrodisíaco que existe, a fama e o sucesso? Eu jamais colocaria uma foto dessas aqui. É um desrespeito à fama.

onde fica cingapura
No cu do mundo (é, hoje eu acordei de mau humor).

o que os evangelicos falam sobre os filmes da disney?
Besteiras. Mas isso é só porque a Disney não paga o dízimo para eles.

como fazer gato
Primeiro: arranje uma gata. Mas gata daquelas de fechar quarteirão, de peitão, bundão, boca que inspira pecados. Aí vai depender de você. Se você for bonito, as probabilidades são de que consiga fazer um gato, ou uma gata. Se for feio, recomendo que no momento em que estiver fazendo o gato, reze. Reze muito. E não estou falando de aimeudeusaiminhanossasenhora. Falo de uma oração de verdade, pedindo que o resultado daquilo que você está fazendo saia com a cara da mãe.

danos psicologicos da inanição
São gravíssimos. O principal deles é que todas as reações psicológicas que um ser humano pode ter, depois de algum tempo de inanição prolongada, cessam. Dão a isso o nome estranho de “morte”.

para que serve uma resenha
Para que alunos preguiçosos e burros como você saiam catando algumas prontas em tudo quanto é site e blog da internet.

a pena de morte deve ser julgada
Talvez. Mas já imaginou se ela é condenada à morte?

como ganhar uma mulher
Ué, se inscreva numa rifa.

axilas femininas
Ah, as delícias do fetichismo. O Alex gosta de pés. Esse aí gosta de sovacos. Ele só esqueceu de falar de odores. Com ou sem desodorante? Suados ou limpinhos? Para passar a língua ou colocar outras coisas? Um fetiche, meu amigo, uma tara deve ser bem explicada. Taras são coisas sérias. Devem ser tratadas com respeito.

foto daquilo que cresce na vagina
Por favor, procure por “fotos de pênis”.

estupros em homens até crianças estão sujeita a isso quais a s consequêcias disso para a saude fisica e emocional e para sociedade
Nenhum homem, nem mesmo uma criança, está sujeito a estupros, se o senhor permite a mediocridade jurídica da minha afirmação. Homens não têm vagina. Homens no máximo sofrem atentado violento ao pudor, que é o nome bonito que dão a uma enrabada. E homem que é homem tem mais o que fazer além de fazer essas perguntas idiotas ao Google.

resumo do livro infantil mamãe você me ama
“E ela disse: não. Agora sai do meu pé que eu gosto mesmo é do seu irmão mais velho.”

pudibundo
Palavra linda, né? Pudibundo. A uma mente doentia como a minha, isso lembra duas palavras lindas, puta e bunda. Só não é mais bonita que pudica, que lembra uma puta baixinha, assim, quase uma puta anã. E com licença, que o meu psicólogo acabou de me ligar dizendo que tenho sérios problemas mentais.

fazendo sexo com guei
Isso você tem perguntar ao Biajoni.

meter aumenta o penis
Olha, aumentar, não aumenta, não. Mas que é bom, é.

simpatias para separar pai e mae
Eu juro. Faz uns três anos que eu dou uma olhada nas estatísticas para ver o que o Google me trouxe. E quando eu penso que já vi de tudo nessa vida, que nada mais vai me surpreender, aparece algo que consegue diminuir mais um pouco a minha fé na humanidade. E por isso eu vou resisitir à tentação de dizer que que não me resta mais nada para ver, agora que eu vi o primeiro macumbeiro edipiano de que tive notícia.

para que servem as banheiras dos moteis
Para você olhar, se for normal. E para você entrar, se não tem nojo ao imaginar o que milhares de pessoas fizeram ali antes de você, e os resíduos dos fluidos corporais que ainda circulam por ali.

deu o cu
E gostou?

o sente uma mulher dando a bunda
Como eu vou saber? Alguém poderia responder isso?

foto de mulheres transando com bichos sem pagar
É uma das coisas mais nojentas, mais asquerosas que eu já vi. Pessoas que fazem isso não merecem ser chamadas de humanas. Não têm mais decência. Não têm mais dignidade. Porra, sair sem pagar é sacanagem. E os bichinhos, como é que ficam?

rafael galvao
Eles continuam atrás de mim. E não dizem quem são. Eu tenho medo de becos escuros por causa deles.

a historia da boneca hellokitty o paquito com o diabo
Por que você, desconhecido, lembrou de história tão triste?

Histórias como essa deveriam ser relegadas ao passado de que não queremos lembrar. E quando as velhinhas botarem suas cadeiras na porta de casa em uma noite quente de verão, e alguma delas, a mais desavisada, lembrar da história, ela vai ser recebida com olhares alarmados e desconfiados de umas para as outras, e imediatamente alguém vai mudar de assunto.

O menino morava em Nova Iguaçu. Morava muito bem, não, mas o seu verdadeiro problema mesmo era ser alucinado pela Xuxa. Alucinado. Estudava à tarde para poder ver o Xou da Xuxa pelas manhãs. Fez a coitada da mãe levá-lo ao Projac umas três vezes — três, quatro horas de ônibus em cada vez. Comprava o que podia da Xuxa. Se não fosse o pai, apontador de jogo do bicho, teria deixado o cabelo crescer para usar aquelas maria-chiquinhas que chamava de “xuxinhas”. Usava sandálias Sabri e se despedia de todos dizendo “Beijinho, beijinho, tchau, tchau” — isso quando não dava a louca e, entre trejeitos amplos, teatrais, cantava: “Foi bom estar com você, brincar com você…”

O pai desconfiava, mas não falava nada. A mãe achava o seu filho um menino doce e sensível. E um dia, um belo dia de sol — que em Nova Iguaçu significa um dia quente como o inferno –, ele apareceu com aquela conversa de ser paquito.

Nesse dia a casa quase caiu. A mãe recolheu-se a um canto para chorar e acendeu uma vela para Santo Expedito, prometendo imprimir mil santinhos se sua graça fosse alcançada. O pai, quando chegou em casa e recebeu a alvíssara em meio aos muitos soluços da mãe, encheu-lhe os cornos de pancada, gritando que “Eu não vou criar filho viado!”; e deixando o coitado esticado no chão, arfante, saiu batendo a porta para tomar cachaça num bar da esquina. Teve que enxotar os vizinhos que se amontoavam do lado de fora da casa, esticando os pescoços para ouvir a gritaria.

A partir desse dia o menino — que se chamava Vanderglêison, nome de que seu pai tinha muito orgulho e que não queria ver conspurcado — se transformou. De alegre ficou triste, e não era licença poética copiada do Vinícius. Ficou triste, mesmo; sorumbático pelos cantos, macambúzio, sempre abraçado a uma boneca da Xuxa.

Deu para sumir de vez em quando, o menino. Saía de manhã e só voltava à noite. A mãe se preocupava, e não desistia de seu Santo Expedito; apenas passou a rezar também para Nossa Senhora Desatadora dos Nós, mas ainda não tinha tido que imprimir os seus santinhos, porque a graça nunca vinha. O pai não queria saber, fingia que o menino não existia. E embora não falasse nada, nunca conseguiu deixar de sentir uma pontada no coração quando alguém ia jogar no 24.

Um dia a notícia correu no bairro: o Vanderglêison estava na Xuxa. Foi um alvoroço. Todo mundo correu para a frente das televisões, achando que era mentira; mas todos eles o viram ali, entre a Sorvetão e a Pastel. E quando, nos créditos finais, apareceu o nome de Vandy — Marlene Mattos tinha achado Vanderglêison muito suburbano para o seu gosto — toda a Nova Iguaçu explodiu em um grande grito de orgulho e felicidade.

De viadinho humilhado por todos, da noite para o dia Vanderglêison se transformou, qual borboleta saindo de sua crisálida, na grande celebridade de Nova Iguaçu. Dia sim, dia também, o jornal de Nova Iguaçu publicava a sua foto na coluna social, Vanderglêison sexy em seu uniforme preto e dourado; e o colunista, que ia ao Rio de Janeiro três ou quatro vezes por ano, falava de sua grande amizade de 20 anos (embora Vanderglêison tivesse apenas 16) e insinuava intimidade com os mais escabrosos segredos e escândalos globais.

Vanderglêison, de viadinho da rua era o orgulho da cidade. Aqueles que antes olhavam debochados para eles lembravam que o tinham visto crescer. Todos queriam ser seu amigos, o melhor amigo, amigo de infância. E o Sidney lembrava que já tinha passado a mão na bunda dele.

E nem o gosto de ter dado o nome ao novo paquito da Xuxa o seu pai pôde ter. Agora o seu filho era Vandy, nome que ele não tinha dado, não era mais Vanderglêison. Talvez por isso se explique o seu descaso pelo sucesso do filho, só assim se explica o fato de ele se referir ao seu único herdeiro como “aquela xuxete”, com um desdém que buscava mascarar sua dor — não o de não falar mais com o filho, mas de ver o sangue do seu sangue com aqueles uniformes.

Foram dois anos assim, na loucura da fama instantânea. Se alguém falasse que Nova Iguaçu era o cu do mundo, sempre aparecia um morador para dizer que “e daí, foi aqui que o Vandy nasceu”. Depois dos primeiros meses o alvoroço acalmou um pouco, Vandy — agora ele seria para sempre Vandy, nunca mais Vanderglêison — já podia sair na rua sem precisar dar milhares de autógrafos; mas ainda assim continuou sendo o grande sucesso de Nova Iguaçu.

Até o dia em que a Hello Kitty entrou em sua vida.

Foi numa gincana da Xuxa, ao que parece. A função de Vandy era segurar e beliscar aquele bando de meninos chatos que, como ele há apenas uns poucos anos, queria ver de perto a rainha dos baixinhos. O prêmio ao vencedor era uma Hello Kitty e quando Vandy bateu os olhos nela, esqueceu de tudo.

Naquele exato momento, a Xuxa tinha perdido o amor de Vanderglêison Fonseca, Vandy para os fãs de Nova Iguaçu.

Foi um menino que ganhou o prêmio. Um pivete de seus oito anos, talvez nove, magrinho e com cara de fome como Vanderglêison tinha sido um dia. Vandy não se conformou. Aquela gatinha sem boca tinha que ser sua. Enquanto esperava o programa acabar, não tirava os olhos ameaçadores do garoto, que fazia cara de enfado para o prêmio. Então se aproximou do menino desolado com o brinquedo de viado que tinha ganho e perguntou se ele não queria trocar por dois pirulitos. O menino mandou Vandy fazer algo feio. Vandyu não se alterou: deu-lhe um tapão no pé do ouvido e tomou a Hello Kitty, sussurrando em seu ouvido: “Se contar pra alguém eu quebro a sua cara e te boto para dormir com a Marlene”.

Flutuando, Vandy levou a Hello Kitty para casa. Não dormiu aquela noite, acariciando a sua Hello Kitty. Anos depois, o psicanalista Moisés Bronstein diria que a paixão de Vandy pela Hello Kitty se devia ao fato de ela não ter boca e, conseqüentemente, não poder lhe chamar de “viadinho do seu Raimundo”; palavras que os outros não mais lhe diziam, agora que era o grande Vandy de Nova Iguaçu, mas das quais ele jamais esqueceria.

No dia seguinte Vandy não foi trabalhar. Ficou deitado languidamente na cama, conversando baixinho e rindo para a sua Hello Kitty. Não iria trabalhar também no outro dia, mas a Globo mandou uma van buscá-lo. Ele foi de má vontade, ainda agarrado à sua Hello Kitty.

Ao chegar no estúdio, Vandy colocou a Hello Kitty na cadeira que era reservada à Xuxa e foi gravar a sua participação. Por alguma razão, ele estava mudado. Não beliscava mais as meninas. Não dava murros nas costas dos meninos, não empurrava ninguém. Até deixou de passar a mão nas partes pudendas dos garotos mais crescidos — que, assim como o Vandeglêison de outros tempos, também tinham um jeitinho meio estranho e sonhavam em ser paquitos.

Mas então houve uma pausa, e a Xuxa precisou se sentar.

Foi até sua cadeira e viu a Hello Kitty sentada ali, muda — porque a Hello Kitty não tem boca. Pegou, olhou e jogou descuidadamente no chão, enquanto a Marlene Mattos vinha, solícita, com um copo d’água na mão.

Foi quando se ouviu um rugido vindo de onde estavam as crianças. Vandy estava transtornado. Correu para cima da Xuxa, atropelando dois câmeras, um contra-regra e pisoteando três crianças de cerca de 4 anos. Suas mãos crispadas iriam em direção ao pescoço da Xuxa atônita e imóvel. E ali a Xuxa morreria, se a Marlene Mattos não atravessasse o caminho e desse uma porrada nos cornos do Vandy.

Vandy foi parar do outro lado do estúdio. Revoltado, olhos injetados, babando, ele teve uma idéia tesloucada. Mordeu um dos fios dos refletores e incendiou o estúdio. Matou 17 crianças e o Dengue. E enquanto o fogo se alastrava rapidamente o Vandy se erguia em meio as labaredas, gargalhando uma gargalhada de Vincent Price em música de Michael Jackson.

O que se seguiu depois foi rápido. Vandy foi demitido, e só não foi preso porque ameaçou contar que tinha sido molestado sexualmente pelo diretor do programa. A notícia vazou para os jornais, apesar dos esforços da Globo em abafar o escândalo. Mas em Nova Iguaçu todos ficaram sabendo do que tinham acontecido, no mínimos detalhes, ainda que algumas vezes exagerados. Ninguém falou de outra coisa nas semanas que se seguiram. E todos diziam a mesma coisa: Vandy estava com o diabo no corpo. Tinha feito um pacto na encruzilhada em troca do sucesso absoluto, o Sidney tinha visto com os seus próprios olhos, ele podia jurar. Agora que Vandy tinha chegado ao topo, que era um paquito, Satanás vinha cobrar sua alma. E assim ele entrou para a triste história de Nova Iguaçu: como o Paquito com o diabo no corpo.

O tempo passou, como nunca deixa de passar. As pessoas esqueceram de Vandy. Trancado em casa, ignorando as rezas da mãe — que agora rezava também para Santa Edwiges, sabe-se lá por quê — Vandy não falava. Até que um belo dia ele desapareceu.

Seu pai fingiu que não sentiu sua falta, embora lembrasse dele toda vez que alguém apostava 10 reais no veado. E sua mãe passou a rezar também para São Longuinho.

Isso foi há quinze anos. Ninguém mais toca no nome de Vandy. As novas gerações não sabem quem foi o paquito do diabo. E talvez por isso a cada dia aumente a freqüência de uma certa cartomante que atende na rua Dom Walmor. Ela chegou lá há uns 5 anos. Veste rosa em vez de vermelho, tem uma boneca da Hello Kitty no lugar da pombagira. E atende pelo nome de Mãe Vanda de Omolu.

achei esse texto lindo
Jura? Fui eu que fiz.

A morte e a morte do velho Noel

Rafael diz:
Não. Eu sou o fantasma dos natais passados. Aquele que só parece bonzinho porque os que vêm depois são uns filhos da puta.

Karine diz:
credo…

Karine diz:
então faz favor de me dar a bicicleta q pedi aos 10 anos e que até hj eu espero seu papai noel fdp

Rafael diz:
Olha o respeito.

Rafael diz:
Fantasma, não Papai Noel.

Karine diz:
E o Papai Noel não pode te dar a bicicleta que você pediu porque morreu, atropelado pelo Rudolph, a rena do nariz vermelho.

Karine diz:
menino mas q miseria vc me enrolou e me tirou a explicação do pq a bicicleta nao veio… ate hj eu espero

Rafael diz:
Não te enrolei.

Rafael diz:
Eu falei a verdade.

Rafael diz:
Papai Noel morreu. Ia ser devorado pelo Lobo Mau, fugiu pela chaminé dos 3 porquinhos e foi escaldado.

Karine diz:
cada hora ele morreu de um jeito

Karine diz:
decida-se

Rafael diz:
Não falo de jeitos diferentes. Falo a verdade. O Papai Noel se estabocou no chão quando caiu da torre da Rapunzel.

Karine diz:
merdaaaaaaaaaaaaa

Karine diz:
nao acredito

Rafael diz:
Não.

Rafael diz:
Falo que ele morreu linchado pelos seus duendes, que queriam aumento de salário.

Karine diz:
rafa eu vou te matar

Rafael diz:
Me matar só porque o o Papai Noel morreu de sífilis que pegou da Cinderela?

Rafael diz:
Injustiça. O velho devasso come qualquer coisa e eu, que não como ninguém, pago o pato.

Karine diz:
seu peste

Karine diz:
pirracento

Rafael diz:
Pirracento por quê?

Rafael diz:
Porque o Papai Noel morreu sufocado ao engolir sem querer o Pequeno Polegar?

Karine diz:
pq eh mto mau

Karine diz:
ja me contou umas 5 mortes de papai noel…buaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Karine diz:
seu putooooooooooo

Karine diz:
ele nao morreu ta

Karine diz:
ele ta vivo

Karine diz:
e mora na terra do papai noel onde gente como vc nao entra

Rafael diz:
Não foram 5 mortes.

Rafael diz:
Foi só uma.

Rafael diz:
O Papai Noel comeu uma maçã envenenada dada pela Madrasta Má da Branca de Neve.

Karine diz:
to quase mandando vc tomar no toba…

Rafael diz:
Quem tomou no toba foi o Papai Noel, que morreu depois de ser estuprado repetidas vezes pelo gigante de João e o Pé de Feijão.

Karine diz:
rafael tomara q as fadas e os duendes venham à noite, quando vc tiver dormindo, e enfiem o saco gicante do papai noel no seu rabo e nessa sua boca porca que desilude criancinhas

Rafael diz:
Eu só falei a verdade: que o Papai Noel morreu em uma crise de asma contraída do Gato de Botas.

Karine diz:
vadiooooooooooooooooooo

Karine diz:
soh pq vc eh um à toa descrente, não significa que o resto da humanidade seja igual a vc

Karine diz:
seu desalmado

Karine diz:
seu sem-compaixão

Rafael diz:
Desalmado porque contei que o Papai Noel morreu depois de comer a Pequena Sereia, que estava contaminada por mercúrio?

Karine diz:
eu acredito em papai noel

Karine diz:
tanto q ate hj espero a porra da bicicleta

Karine diz:
bicicleta… pq simplesmente eu nao esqueci dela?

Karine diz:
simples… pq minha carta ta vagando por ai

Karine diz:
enquanto a carta nao chega la e ele nao vem, a gente fica assim meio no limbo dos presentes q nao desceram

Rafael diz:
Karine… O Papai Noel, na verdade, usou a sua carta pra limpar a bunda.

Karine diz:
filho da puta

Karine diz:
isso nao se diz a uma criança…

Karine diz:
eu agora tenho pra o resto da vida essa imagem do bom velhinho com a bunda gorda, branca e varizenta, se limpando com a minha carta… e tudo culpa sua

Rafael diz:
Eu sei que a verdade dói.

Rafael diz:
Mas alguém precisa fazer esse trabalho sujo.

Karine diz:
vc acabou com meus sonhos infantis

Rafael diz:
Acabei?

Rafael diz:
Pronto.

Rafael diz:
Agora vamos falar putaria.

Republicado em 17 de julho de 2010

Cangaço

Há algum tempo o Erik contestou este post nos seguintes termos:

Ainda hoje, nos sítios mais isolados do Nordeste, é comum encontrar pessoas que já se debateram com o lobisomem. Até já vi pessoas com cicatrizes das marcas das unhas do bicho. Nem por isso você vai acreditar nessas histórias. O imaginário popular é assim. Ainda hoje, no Amazonas, existem mulheres que dizem terem sido engravidas pelo boto.

Faltou um pouco mais de pesquisa ou, pelos menos, seriedade para falar de um problema tão complexo como foi o cangaço, muito mais complexo que a violência nos morros do Rio, hoje em dia.

Já em 1955, Ariano Suassuna, ao escrever o Auto da Compadecida, classificava o cangaceiro como “mero instrumento da cólera divina”, provando que a “romanização” do cangaço já vinha desde muito antes da invenção do Comando Vermelho. E não só Suassuna, como também os autores Jorge Amado, José Lins do Rêgo e outros já tinham a mesma idéia.

O temperamento extremante violento de alguns cangaceiros tem sim muito a ver com a estrutura social da época baseada no latifúndio. Desprezar isso é, no mínimo, desconhecer o alto grau de exclusão social gerado pelo feudalismo nacional.

O cangaço durou cerca de 200 anos, nele participaram milhares de pessoas e só acabou definitivamente com a anistia em 1495. Tratar todo esse complexo movimento histórico baseado apenas na figura, mais mítica do que real, de Lampião é um simplismo que beira a ignorância, você não acha?

O Erik começa mal. Dizer que o problema do cangaço era mais complexo que o moderno crime organizado do Rio de Janeiro é uma sandice. Enquanto o cangaço era composto basicamente de nômades, nunca passando de bandos errantes que sobreviviam fugindo da polícia, e nunca chegando a ameaçar a estrutura social da região, e que acabou não exatamente graças à “anistia de 1945”, mas ao fortalecimento do Estado republicano, o problema dos morros do Rio, com Estados paralelos virtuais é quase insolúvel. Não há comparação. O cangaço nunca mobilizou tanta gente como o tráfico, nem criou redes sociais tão complexas. Essa afirmação talvez seja reflexo de uma paixão excessiva pelo tema, sei lá.

Na minha opinião, esse é apenas um outro lado desse processo de mitificação do cangaço.

Ao contrário do que diz o Erik, não se desprezou, aqui, a estrutura fundiária como fator de alimentação do cangaço. Pelo contrário. Basta ler o post novamente. Mas justificar o que ele chama de “movimento” (traficantes também chamam sua atividade de “movimento”, a propósito) apenas pelo latifúndio é bobagem. Outras regiões com problemas fundiários mais graves que o sertão, como toda a área abrangida pela cana de açúcar — com a desvantagem do escravismo e da monocultura, que não existiam ou eram irrelevantes no sertão — não viveram um processo semelhante.

O cangaço sequer é tão original ou brasileiro. É muito parecido, por exemplo, com “movimentos sociais” ocorridos em toda a América Latina. Em países extremamente semelhantes ao Brasil, como o México, o banditismo corria solto na mesma época. Eventualmente esses movimentos, essencialmente criminosos, poderiam ter algum significado social — como aconteceu com Pancho Villa, para citar um. Normalmente eram apenas bandidos usando da força para garantir vantagens pessoais indevidas, como qualquer bandido comum.

O ranço pseudo-esquerdista e “sociologuês” está principalmente na justificação do cangaço por algumas das condições objetivas que o geraram. Na prática, é só um reflexo dessa atitude romântica e pseudo-esquerdista de uma parte da academia brasileira. Uma romantização de um processo histórico que era, sim, reduzido a criminosos.

E é estranho que o Erik defenda uma complexidade excessiva do cangaço e tente minimizar Lampião como “folclórico”, justamente o cangaceiro que conseguiu maior complexidade em suas relações com o Estado e com a sociedade — vide o Padre Cícero. O que deveria ser uma tentativa de desconstrução do post acaba desconstruindo seus próprios argumentos.

Minimizar, na minha opinião, é isso: “O temperamento extremante violento de alguns cangaceiros tem sim muito a ver com a estrutura social da época baseada no latifúndio .” Isso é óbvio, mas é redutor: todo o cangaço tem relação com o sistema. Ao usar o latifúndio para justificar o temperamento violento de “apenas alguns”, o Erik está reduzindo todo o sistema social a uma questão de temperamento individual, ao mesmo tempo em que diminui a própria ação deletéria do cangaço. E reduz a violência a “alguns”. Isso é desonesto. Ele parte do princípio da romantização, e é esse o problema da sua argumentação. No fim das contas, a questão continua: cangaceiros eram ou não bandidos?

Outra coisa: tratos complexos de movimentos sociais eu deixo para sociólogos, mesmo que eles criem mitos como o do Lampião herói nacional. O que se afirmou aqui é outra coisa: é que apesar de todas essas justificativas — e aí pode-se falar do sistema social como quiser, pode-se buscar as origens e etc. — o fato é que eram bandidos. Como traficantes encastelados no Borel não deixam de ser bandidos porque o capitalismo os oprime, nem meninos de 14 anos deixam de ser bandidos porque o mesmo sistema que os bombardeia com imagens de tênis da Nike os impede de tê-los. É simples assim.

Mantenho a afirmação: Lampião era um coronel sem terras, e cangaceiros não passavam de bandidos. Não há nada de revolucionário ou de transformador social neles. Eram apenas ladrões e assassinos. Em nenhum momento o cangaço propôs uma alteração da ordem das coisas — e nisso está atrás até de movimentos retrógrados e alucinados como o de Canudos. No fim das contas, Lampião e outros jamais poderiam ser comparados a um Zapata, no México. Na verdade, Lampião não chega sequer a ser um Pancho Villa. No máximo, poderia ser um Calvera, o bandido em “Sete Homens e Um Destino”. E olhe lá.

Bolero

A campainha tocou.

Ante surpresa tão rude, nem sei como pude chegar ao portão. E lá estava ela.

Ah, como esse amor demorou a chegar. Ela disse-me assim: “Tenha pena de mim”.

Sem saber o que fazer, as palavras saíram da minha boca: “Entre, meu bem, por favor, não deixe o mundo mau lhe levar outra vez. Entra, podes entrar: a casa é tua, já que cansaste de viver na rua e teus sonhos chegaram ao fim.”

Ela entrou, cabeça baixa, e ficou ali parada, no meio da sala, à luz difusa do abajur lilás.

Eu interrompi o silêncio: “Que queres tu de mim? Que fazes junto a mim?”

Olhando nos meus olhos, o mesmo olhar, ela perguntou: “Como vai você? Eu preciso saber da sua vida, razão da minha paz tão esquecida.”

Balancei a cabeça, e então lembrei de tudo: “Só louco amou como eu te amei. Só louco quis o bem que eu te quis.”

Ela deu um sorriso triste: “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei.” Devagar, se aproximou de mim, o mesmo perfume, o mesmo andar: “Negue o seu amor, o seu carinho. Diga que você já me esqueceu. Diga que já não me quer, negue que me pertenceu que eu mostro a boca molhada, ainda marcada pelo beijo seu”.

Explodi: “Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram que lhe encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar.”

Ela levantou a cabeça, e tentou mostrar a velha altivez de antes:

“Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do céu, que palpite infeliz! Se meu passado foi lama hoje quem me difama viveu na lama também.”

Aquelas palavras me deixaram descontrolado. Gritei: “Agora você vai ouvir aquilo que merece. As coisas ficam muito boas quando a gente esquece; mas acontece que eu não esqueci a sua covardia, a sua ingratidão, a judiaria que você um dia fez pro coitadinho do meu coração!”

Seu Orestes e dona Dolores, meus vizinhos, ouviram os gritos e foram até a janela perguntar o que estava se passando. E eu disse a ele: “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? Ter loucura por uma mulher? E depois encontrar esse amor, meu senhor, ao lado de um tipo qualquer?” Seu Orestes abanou a cabeça e levou um cutucão de dona Dolores. Nesse instante uma voz ecoou: “Magoou-se, pobre filho meu?” Era dona Dolores, preocupada. Respondi que não, que eu resolveria aquilo, e eles se foram.

Olhei para ela: “Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem. A nossa casa, querida, já estava acostumada, guardando você; as flores na janela sorriam, cantavam por causa de você. E tu pisavas nos astros distraída…”

Aos prantos ela se ajoelhou aos meus pés: “Nunca mais vou ouvir o que o meu coração pedir! Nunca mais vou fazer o que o meu coração mandar! Eu fiz mal em sair, eu fiz mal em deixar o que eu tinha em você! Hoje eu volto vencida, a pedir pra ficar aqui, faz de conta que eu não saí!”

A estrofe derradeira merencórea revelava toda a história de um amor que não morreu.

Mas isso não bastava. Não para mim: “Quando eu queria o teu amor não davas atenção ao meu. Pra mim tu não tens mais valor, agora quem não quer sou eu. Nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar, nem mesmo assim as pazes contigo eu farei.”

Ela continuou: “Se eu soubesse naquele dia o que eu sei agora, eu não seria este ser que chora, eu não teria perdido você”.

Quem sou eu pra ter direitos exclusivos sobre ela?, pensei. Menti: “Se acaso você chegasse no meu chatô e encontrasse aquela mulher? Eu falo porque essa dona já mora no meu barraco, à beira de um regato.

“Quem é ela?”

“De quem eu gosto nem às paredes confesso. Provei do amor todo amargor que ele tem. Então jurei nunca mais amar ninguém. Porém, eu agora encontrei alguém que me compreende e que me quer bem.”

Ela ficou em silêncio.

Apontei para fora. “Eu estou lhe mostrando a porta da rua pra que você saia sem eu lhe bater.”

Ela ficou parada, estática. Limpou as lágrimas, alisou o vestido e, dirigindo um último olhar para mim, falou: “Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor. E às pessoas que eu detesto diga sempre que eu não presto, que o meu lar é o botequim; que eu arruinei sua vida, que eu não mereço a comida que você pagou pra mim.”

E ela se foi.

Hoje eu quero a paz de criança dormindo e o abandono de flores se abrindo para enfeitar a noite de meu bem. Mas quando eu morrer, na minha campa nenhuma inscrição: quando eu morrer não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela.

Originalmente publicado em 01 de junho de 2005

Arrufos

O casal de namorados chega à piscina, ela na frente, ele atrás. Calados, cabeças baixas, olhos duros. Ela se senta na borda, ele mergulha e vai para o outro lado, para a parte funda, e fica de costas para ela, queixo e braços apoiados na borda, dez metros de água azul entre eles.

Sentada, balançando os pés na água, ela olha para o namorado que lhe dá as costas ostensivamente. Ela funga algumas vezes, controlando o choro.

Imóvel, ele continua do outro lado da piscina, de costas para ela.

Fecho o livro e tiro o olho da minha filha e da minha sobrinha que brincam perto dela. Olho para os dois, ele imóvel, ela de cabeça baixa olhando para ele.

O que está em jogo agora é quem vai ceder primeiro, quem dará o passo para a reconciliação. Ele está apenas negociando sua rendição, vendendo mais caro a reconciliação em troca da mágoa que ela talvez lhe tenha causado. Mas continua imóvel, fingindo uma dor maior que a que sente.

Ela não agüenta muito tempo. Entra na piscina e vai até ele. Fica do seu lado, faz um carinho em sua cabeça, fala alguma coisa, beija seu ombro. Passa a mão em suas costas, sorri entre triste e acanhada, beija novamente seu ombro.

E então ele se rende, sabendo-se vencedor da pequena guerra sem importância, agora homem e feliz por seu blefe ter funcionado. Beija a namorada com carinho, com um olhar apaixonado e grato. Talvez, durante aqueles poucos minutos em que uma piscina representou a maior distância que pode separar um casal de namorados adolescentes, eles tenham julgado que tudo tinha acabado, e cada um desempenhou o seu papel com a maestria instintiva dos apaixonados.

Minha câmera está na minha mão, mas não tenho coragem de fotografar o casal. A beleza em tudo isso é justamente o fato de que, sem uma foto, essa pequena briga nunca existiu, e por isso se repete, dia após dia, casal após casal, e sempre tão igual.

Originalmente publicado em 10 de dezembro de 2004