Get Back

Tinha jurado para mim mesmo que não ia comentar, mas é mais forte que eu.

Uma garotada de Londrina arranjou uma desculpa para emigrar ilegalmente para a Inglaterra: um festival sobre os Beatles. A PF de lá desconfiou, fez umas perguntinhas e o resultado é que o sonho da velha Albion dançou para esses rapazes.

Demorei muito até conseguir parar de rir. Não por terem sido deportados, já que perder um sonho é uma das coisas mais duras que se pode imaginar, mas por duas razões.

A primeira é por não terem se preparado para o evento. Custava nada ler uma biografia qualquer dos Beatles, daquelas de uma página, só para ter uma idéia geral do que é aquilo.

A segunda é a completa ignorância dos rapazes em termos de cultura geral. Tudo bem não saber que só Paul e Ringo estão vivos. Mas não saber quem é Yoko Ono — aquela velhinha que apareceu há um tempo no Fantástico, ao lado de Paulo Ricardo — é uma das provas mais cabais de falta de informação que eu já vi na vida. Para que ganhar o mundo, se você não sabe nada sobre ele?

E fico aqui, imaginando os fiscais ingleses cantando para o pessoal: Get back, get back to where you once belonged

Ainda os Fab Four

A Julia continua brigando comigo.

Não é questão de gostar ou não. Gosto é como… Como… Gosto é como nariz, cada um tem o seu.

Mas fatos são fatos.

Os Beatles foram o primeiro fenômeno cultural de massas mundial. Xeroxes mal tiradas como Bundudos e assemelhados são apenas tentativas pré-fabricadas de repetir, em laboratório, o fenômeno. Curiosamente, do ponto de vista da legitimidade cultural, “Egüinha Pocotó” é mais “real”‘ do que “Não se reprima”. Não é algo esquematizado por empresários de acordo com uma necessidade de mercado, e sim uma manifestação da cultura popular. Se é bom ou não é outra questão.

“Febre de Juventude”, que por sinal é um filmezinho bem razoável para a Sessão da Tarde, é interessante. E o fato de ilustrar um aspecto da beatlemania não diz absolutamente nada a respeito da questão musical. Não se discute aqui a questão da beatlemania, e sim da qualidade e permanência musical da banda.

Dizer que os Beatles eram “bons” é um eufemismo. Nenhuma outra banda teve o alcance e a influência que eles tiveram. Nao apenas por suas qualidades, mas pelo fato de serem as pessoas ertas no tempo certo.

Quanto ao Zé e ao João, lá do New Kinkos, terem partido para uma carreira exclusivamente cinematográfica, bem… Só mostra que música não era bem o negócio deles, não é? Criação musical, então, nem pensar…

Os Beatles continuariam tão bons?

Antigamente eu fazia parte da corrente que acreditava que os Beatles terminaram na hora certa, quando os anos 60 chegavam ao fim. Achava que teriam se tornado redundantes. Muita gente pega o trabalho solo dos Beatles para apontar uma possível decadência.

Hoje eu discordo disso. Em primeiro lugar, discordo de quem acha que a qualidade de Lennon e McCartney, como compositores, caiu. Para mim, continuou a mesma, até melhorou. A diferença é que, se em cada disco dos Beatles cada um deles contribuía com uma média de 6 músicas, a partir do fim da banda tiveram que encher discos inteiros. Aquelas canções meia-bomba que eram automaticaticamente ejetadas no processo de seleção acabaram sendo gravadas.

Para comprovar isso, basta pegar um disco de McCartney e outro de Lennon, selecionar 6 música de cada (e mais umas 3 de George Harrison) e juntar em um só disco.

Só isso já bastaria, mas ainda tem mais. Em cada uma dessas gravações falta, em primeiro lugar, a colaboração de Lennon ou McCartney, sempre decisiva, mesmo quando pequena, e toda a dinâmica da banda, com insights de cada membro — as batidas de Ringo, os solos de George Harrison, essas coisas.

Ainda assim, continuo acreditando que os Beatles fatalmente se tornariam ultrapassados. E isso se daria em 1977, quando estourasse o punk. Mas isso é outra história.

Por que os Beatles terminaram?

Conheço dezenas de fãs dos Beatles que não se conformam com o fim da banda. E geralmente culpam Yoko Ono, a preferida, McCartney (que anunciou o fim da banda), ou Lennon, que saiu em setembro de 1969 e selou o fim (Ringo e George tinham saído antes, e voltado; de qualquer forma, todos sabiam que a banda poderia continuar sem eles, o que seria impossível sem Lennon ou McCartney).

As coisas são bem mais complexas do que isso. Mas se é para apontar uma única causa, o mais correto seria dizer que “porque eles cresceram”. É só isso. Todo o resto — os problemas financeiros, os conflitos de ego, o desinteresse de Lennon catalisado por Yoko Ono — é mera conseqüência.

Quem era o líder dos Beatles?

É engraçado que quase todo mundo que fala dos Beatles se refira a Lennon como o líder, ou a McCartney, como querem os revisionistas.

Eu acho que a questão não é tão simples.

A banda foi iniciada por Lennon, e ele foi, certamente, a figura de frente da banda por muito tempo. Durante a “segunda fase” dos Beatles, McCartney era claramente o motor da banda; era quem coordenava, quem praticamente produzia ao lado de George Martin. Eram suas as iniciativas. Foi ele quem manteve o grupo unido, e sua ascensão como compositor levou os Beatles à sua fase mais criativa. Foi dele, por exemplo, a idéia do Sgt. Pepper’s, o disco mais influente de todos os tempos (e de gafes monumentais como o filme Magical Mystery Tour).

Mas isso não quer dizer que um deles fosse necessariamente o líder.

Eu costumo comparar os Beatles à monarquia inglesa. Havia um rei, Lennon, que não governava mas era, decididamente, a liderança moral da banda. Havia o primeiro ministro, McCartney, o sujeito que efetivamente tomava conta da administração. A Câmara dos Lordes, personificada por George Harrison. E a Câmara dos Comuns, o velho e bom Ringo.

Mesmo essa classificação, no entanto, é falha, esquemática. A verdade é que os Beatles eram uma democracia. Só isso.

Por que os Beatles fizeram tanto sucesso?

Esta é uma das poucas questões filosóficas que tomam meu tempo. As outras seguem acima.

A minha teoria é bastante simples.

Em primeiro lugar, eles tinham uma dupla de compositores absolutamente fenomenal. Lennon e McCartney eram únicos. Compondo sozinhos (como Yesterday no caso de McCartney ou Strawberry Fields Forever, de Lennon) ou em dupla, eles enchiam cada disco de canções pop com o mais alto nível possível. A competitividade entre os dois faziam com que tentassem se superar constantemente.

A democracia dos Beatles foi um outro fator. Era simples: se qualquer um deles não gostasse de uma música, ela não via a luz do dia.

Eles nunca pararam de tentar inovar, nunca tentaram se ater ao “estilo beatle”. estavam sempre em busca de novas idéias, de novas formas de fazer sua música.

A banda era composta de grandes instrumentistas. McCartney é, certamente, o baixista mais influente da história da música pop, e certamente o mais revolucionário. Os guitarristas, se nao eram fenomenais, funcionavam bem dentro do conjunto da banda. E Ringo era também um dos melhores bateristas do rock and roll. Era uma banda perfeitamente entrosada, em que cada membro conhecia perfeitamente os outros.

E, principalmente, há a devoção absoluta à canção. Não há espaço para exibicionismo; eles fazem estritamente o que a música precisa. Por exemplo, McCartney é o mais melódico baixista de todos os tempos; mas se a música pedisse que ele ficasse fazendo tum-tum-tum no baixo, ele fazia. Quem toca baixo, e tenta tocar uma linha de algumas músicas dos Beatles em que o baixo tem proeminência, sabe o quanto é fácil cair no exagero, no over. A bateria de Ringo não tem os delírios de um John Bonham ou Keith Moon; mas hoje boa parte das músicas do Led Zeppelin ou do The Who soam datadas, enquanto a maioria dos Beatles permanece atual. O mesmo vale para Lennon e Harrison, bons instrumentistas mas que se encaixavam perfeitamente dentro da estrutura da banda.

Yeah, yeah, yeah

Ouço Beatles há tanto tempo, li tanto sobre eles que é quase como se fizessem parte da minha vida. Hoje, velhinho, a coisa está mais tranqüila; mas durante anos fui beatlemaníaco de carteirinha, do tipo que comprava revista só porque aparecia uma nota sobre McCartney. Um amigo dizia que eu sabia a cor da cueca que McCartney estava usando ao gravar Let it Be, e ele não estava muito longe da verdade.

Depois de tanto tempo ficam poucas questões a serem resolvidas. Como o meu exemplar de “O Ser e o Nada” está ali na estante, intocado, essas são as únicas questões metafísicas que tomam o meu tempo:

1 – Por que os Beatles fizeram tanto sucesso?
2 – Quem era o líder dos Beatles?
3 – Por que os Beatles terminaram?

Tá, são perguntas que não vão mudar o mundo, mas e daí? Tem gente que prefere saber o que vai acontecer no capítulo de amanhã da novela das 8.