My Sweet Lord

Ouvindo All Things Must Pass com atenção pela primeira vez em muito tempo. É o disco que George Harrison lançou logo depois de sair dos Beatles. Antes achava excessivo, achava que a crítica era exagerada e ele daria um bom álbum duplo, ou um álbum simples brilhante. Eu, como acontece mais vezes do que gosto de admitir, estava errado. O disco é genial. É o melhor álbum triplo de todos os tempos. É uma obra prima.

O que me chama atenção é My Sweet Lord. Até agora, eu cantava a música com despreocupação. Preferia rir do fato de ela ser um plágio de He’s so Fine, das Chiffons, e achava aquele monte de “Aleluia” e “Hare Khrishna” bonitinhos. Era uma bela canção, belos violões de Peter Fampton, boa produção de Phil “Shoot Me” Spector, bons solos de Harrison, e só. Ela estava no domínio do pop, e esse é um domínio que, embora o meu preferido, não ultrapassa tantos limites.

Só agora vejo que a música não está na frase “my sweet Lord“. Está em “but it takes so long“. De repente a música adquire uma intensidade angustiada que eu não reconhecia nela.

Alguma coisa aconteceu ao longo de todos esses anos. E tenho a impressão incômoda de que foi comigo.

Esses breves momentos na vida

Quando comecei a ouvir Beatles era uma maravilha: sempre tinha algo novo, alguma música que eu não conhecia. Durante anos, cada novo disco era uma experiência nova, algo que eu descobria.

Quando isso acabou a pirataria manteve um pouco dessa sensação de descoberta. Mas até isso acabou um dia, porque mesmo que eu não conhecesse determinada gravação já podia dizer com certeza absoluta em que época ela foi gravada, talvez até quem tocava o quê. E eu sempre senti falta daquela sensação.

Dia desses, assistindo de novo ao show dos Beatles no Budokan, Japão, 1966, eu consegui sentir isso de novo.

O show é curioso, porque é um dos poucos em que o barulho dos fãs não torna tudo praticamente inaudível. Os japoneses são educados. O show mostra o cansaço da banda (que pararia de tocar ao vivo ao fim daquela turnê), o que a cara de tédio de Ringo torna inegável, a vocação de McCartney para animador de auditório (Lennon diria depois que ele estava se borrando de medo por causa de umas ameaças de fundamentalistas japoneses, que consideravam um show dos Beatles no templo do sumô uma afronta imperdoável à cultura nipônica), e a atitude de “vamos fazer o básico, pegar o dinheiro e ir embora daqui” de Lennon. Mostra também, não importando o que hagiógrafos passaram a dizer depois de sua morte, que Harrison era um péssimo cantor.

Os Beatles inventaram o que hoje se entende por show de rock. E, naturalmente, eram obrigados a enfrentar inúmeras situações de amadorismo. Mesmo no Japão, terra da organização, não é diferente: os microfones dão choques, não param quietos. Profissionais, os Beatles se limitam a passar o show tentando ajeitar as coisas.

Mas foi graças a esse problema que eu pude ver algo novo. Quando eles cantam Baby’s in Black, McCartney e Lennon dividem o mesmo microfone defeituoso. McCartney tenta colocá-lo na direção correta. Mas ele insiste em se mover, justamente no momento em que eles cantam “oh, dear, what can I do“. E a expressão e a modulação de voz de McCartney nessa hora são impagáveis. Para mim é novidade, porque mesmo tendo visto o show algumas vezes, eu não tinha percebido.

É uma bobagem, eu sei. Insignificante. Mas são essas coisinhas pequenas que fazem a vida valer a pena.

Ainda Lennon e McCartney

Bia, eu não considero Many Years From Now uma biografia autorizada: só consigo ler o livro como sua autobiografia definitiva. O livro é de McCartney; Barry Miles é só o seu ghost writer.

É um bom livro, sem dúvida. Mas é, principalmente, parte do esforço de revisionismo de McCartney em redefinir a história do Beatles.

Não que isso seja em tese ruim; acho que a imagem que ficou dos Beatles é um pouco equivocada. McCartney precisava mesmo de um pouco mais de luz porque, se eu estivesse em seu lugar, ficaria meio irritado ao ver o sujeito que disse que “avant-garde is french for shit” ser aclamado como o vanguardista dos Beatles, enquanto eu, que levava a banda adiante em boa parte de suas melhores experimentações, ficava conhecido como o conservador por excelência.

(Foi apenas depois de conhecer Yoko que Lennon aderiu à tal “vanguarda” — e um de seus grandes momentos é Self-Portrait, um filme de 18 minutos que mostra o pênis de Lennon tendo uma ereção em câmera lenta. Em retribuição, Yoko lhe tirou todo o humor.)

Mas na sua autobiografia McCartney omite, convenientemente, uma série de pequenos episódios. Como, por exemplo, que comprou ações da Northern Songs (a editora dos Beatles, que hoje pertence ao comunista Michael Jackson, aquele que come criancinhas) sem contar aos companheiros, desequilibrando as relações entre os parceiros comerciais. Que foi capaz de escrever bilhetes anônimos e racistas para Yoko Ono. Que era capaz de pequenas maldades e mesquinharias no dia a dia. Que era capaz de pisar sem dó em George Harrison. Que tentou impor seu sogro como empresário da banda (foi o que salvou a fortuna deles, mas se eu fosse um dos outros Beatles certamente não ia me sentir confortável com a perspectiva de ser empresariado pelo sogrão do sujeito). E que sempre tem uma declaração conveniente a fazer, normalmente às expensas dos ex-companheiros de banda, quando está em vésperas de sair em turnê.

A fama de McCartney como autoritário no estúdio é legendária. À medida que ele ia crescendo como compositor e produtor, isso se tornou mais óbvio, o que batia de frente com a cultura democrática da banda. O sujeito é tudo, menos bonzinho.

Que havia uma grande sinergia entre Lennon e McCartney, não resta dúvidas. Mesmo na pior fase dos Beatles, eles ainda conseguiam fazer grande música juntos (o show no terraço da Apple, em Let it Be, é a única parte empolgante de um filme mortalmente chato). Eu não sei até que ponto eram “irmãos”, como McCartney gosta de dizer agora, depois de chamá-lo de “porco manipulador”, mas certamente eram muito amigos.

Há um componente edipiano na atitude de McCartney de constante auto-afirmação em relação a um Lennon que morreu há quase um quarto de século. E isso esbarra na impressão que ele tenta passar de que era mais despojado (embora, como precise de um pouquinho mais de edge para lhe distanciar da fama de mela-calcinhas, ele sempre lembre que John também era bonzinho e ele podia ser duro).

Se eu fosse escolher apenas um para classificar como ególatra, esse seria Paul McCartney. Mas seria falso, porque ambos tinham egos descomunais. A diferença, talvez, seja o fato de que Lennon era mais preguiçoso e mais espontâneo, e certamente mais sincero.

O revisionismo de McCartney, no entanto, se torna aborrecido porque as pessoas não precisam mais ser lembradas de que ele era um músico mais completo, que ele foi o líder dos Beatles em sua melhor fase, que era mais inventivo que Lennon e que ele foi quem alcançou maior sucesso individual, que tem a carreira solo mais consistente, apesar dos altos e baixos. Cada vez mais parece um velho chato que precisa ficar lembrando que foi herói de uma guerra travada muito tempo atrás.

Lennon e McCartney

Se alguém quer saber por que John Lennon virou ícone do rock and roll e Paul McCartney entrou para a história como o grande baladeiro comercial é só prestar atenção às últimas declarações de Macca.

É uma imagem que não tem muito a ver com a realidade. A noção de Lennon como o roqueiro irredutível, agarrado a suas raízes, não sobrevive a uma olhada mais atenta a sua obra. Não é à toa que sua música mais conhecida é justamente uma balada, Imagine. Alguns discos, inclusive, têm faixas românticas até demais, como o chato Mind Games. Finalmente, quando voltou à cena musical em 1980, depois de um hiato de 5 anos, Lennon já dava indícios de ser um músico dos anos 60, que ainda não tinha se situado direito em um mundo transformado pelo punk.

Mesmo nos Beatles, a percentagem de rocks e baladas de cada um é parecida. E Lennon, um letrista indiscutivelmente superior, tem sua cota de bobagens, assim como McCartney tem sua cota de grandes letras. Enquanto isso, cada disco de McCartney tem a mesma divisão básica entre baladas e números mais rápidos que os discos de Lennon. Na fixação do arquétipo de cada um, as pessoas esqueceram que Helter Skelter — o rock mais pesado que os Beatles gravaram — foi composta por McCartney, e que Julia é uma balada de Lennon. É mais fácil caracterizar cada um de acordo com um estereótipo estanque. E nesse reducionismo McCartney, musicalmente mais ousado que Lennon, sai perdendo. Esquecem até que durante a melhor e mais experimental fase dos Beatles, a liderança da banda era claramente exercida por McCartney.

Mas Lennon tinha uma coisa que McCartney nunca teve: atitude. Lennon dizia que era roqueiro e todo mundo acreditava. McCartney se limitava a fazer grandes canções que, por serem brilhantemente simples, eram imediatamente subestimadas, e virou o Engelbert Humperdick que Lennon gostaria que ele fosse.

Essa diferença entre as atitudes de Lennon e McCartney ficou mais do que clara de 2001 para cá. Em reação à destruição do WTC, McCartney compôs uma música chamada Freedom, cujo refrão diz que “we will fight for the right to live in freedom“. É um dos momentos mais baixos de sua carreira. Enquanto Lennon provavelmente seria o primeiro a fazer oposição à invasão do Iraque, só agora, depois das fotos de Abu Ghraib, é que McCartney considera a possibilidade de aquilo ter sido uma péssima idéia. E mesmo assim hesitante, com medo de tomar uma atitude dura demais.

McCartney deu a sorte e o azar de ter sobrevivido em algumas décadas a Lennon; provavelmente não vai morrer assassinado por um fã enlouquecido, e sua aura não vai ser imediatamente mitificada. Mas ainda que sofresse todo aquele processo que faz de meros cantores ícones culturais absolutos, sem aquela verve que caracterizava seu parceiro ele continuaria eternizado como o sujeito que estava à sombra de Lennon.

Allen Klein e Yoko Ono

Deus sabe que há coisas melhores e mais importantes para se pensar, mas me peguei pensando em Yoko Ono.

Nos últimos 30 anos, as pessoas vêm discutindo se ela foi ou não responsável pelo fim dos Beatles — no que isso possa interessar a alguém; por melhores que fossem, eram só uma banda pop, e há um limite para o que uma banda pode representar.

Para alguns, a presença de Yoko sempre ao lado de Lennon foi um dos principais motivos para o fim da banda. Para outros, isso não importava tanto: o que importava eram as tensões crescentes por outras razões, principalmente financeiras.

Eu estava entre os que não davam tanta importância a Yoko. Achava que a banda tinha terminado porque as pessoas crescem e sua hora havia chegado. Mas agora, pensando nisso, vejo que no fim das contas ela foi fundamental no processo.

Se é que se pode definir uma causa externa para a separação, ela seria Allen Klein, o empresário que John e Yoko arranjaram para substituir Brian Epstein depois que viram que sua utopia empresarial, a Apple, era um fracasso completo.

Klein era um ladrão de marca maior — os Stones até hoje se arrependem de tê-lo tido como empresário. Foi para a cadeia por roubar dinheiro de George Harrison. E se conseguiu entrar em território fechado como os Beatles, uma banda notória pela sua unidade e impermeabilidade, é porque conseguiu o apoio de Yoko e, conseqüentemente, de Lennon. Ele seduziu Yoko lhe oferecendo a glória artística (e caiu em desgraça junto a Lennon, poucos anos depois, quando passou a dar a Yoko a importância devida — ou seja, pouca). E com isso fez com que Lennon batesse pé em sua defesa; como McCartney queria seu sogro, os dois racharam a banda, sendo que Lennon teve George e Ringo ao seu lado.

Para evitar ser abocanhado por Klein, McCartney se viu obrigado a pedir judicialmente o fim da banda. Curiosamente, foi esse processo e sua recusa em ser empresariado por Klein que salvou a fortuna e a independência dos Beatles. Até hoje McCartney demonstra certa mágoa por nunca ter recebido o agradecimento que acha que merece.

É, acho que preciso pensar em coisas mais relevantes.

O 18 brumário dos irmãos Gallagher

O filho de Ringo Starr (que estava tocando com o Who até pouco tempo atrás) vai tocar com o Oasis num festival inglês.

O Oasis acaba de atingir o ápice de sua carreira: chegaram o mais perto dos Beatles que poderiam chegar.

Paul is dead, man, miss him, miss him

Qualquer fé que eu tenha no gênero humano se vê abalada quando vejo a repercussão que alucinados como o José Vicente Dias conseguem na mídia que dizem combater.

Dias é presidente da ONG “Mensagem Subliminar”, e parece dedicar seus dias a descobrir mensagens ocultas na mídia.

Mensagem subliminar apontada por Dias: “A boneca Barbie, por exemplo, não diz ‘não coma’, mas passa uma mensagem subliminar de que ‘ser magra é ser bela'”. Não vejo o que há de subliminar nisso, mas o Dias parece acreditar que está descobrindo, ao mesmo tempo, o fogo, a roda e a pólvora. E dá uma importância conspiracionista a algo que é escancarado.

As acusações de Dias vão do óbvio reduntante ao francamente fantasioso. Por exemplo, está alardeando que Gilberto Gil faz apologia da maconha no clipe de Three Little Birds, em que Bob Marley solta longas baforadas de fumaça. Seriam uma mensagem escondida de que aquilo é maconha.

Se ele não me contasse eu jamais acreditaria. E o que é mesmo aquela planta na capa de Kaya, disco de Bob Marley? Embora seja pouco óbvio, desconfio que seja maconha. Mas ninguém ia acreditar se eu dissesse. Bob Marley, afinal, era conhecido pela ojeriza à cannabis.

No campo do fantasioso há a teoria novíssima de que Paul McCartney morreu.

Notícia velha de 69, essa. Nasceu em uma rádio universitária do Texas. Disseram que McCartney tinha morrido num acidente de carro, e como os Beatles não podiam parar arranjaram um sósia, Wlliam Campbell (ou Shears, dependendo da versão que você ouça). Para evitar que a fraude fosse descoberta, pararam de fazer shows ao vivo.

Mas os Beatles, por alguma razão que só a maconha na cabeça dos estudantes pode explicar, passaram a incluir pistas do ocorrido em suas músicas e nas capas dos seus discos, culminando quando, na capa do Abbey Road, representam um enterro (Lennon o padre, Ringo o papa-defunto, George o coveiro e Paul seria o morto porque em alguma cultura desconhecida os mortos são enterrados descalços) e colocam um fusca cuja placa é 28 IF — ou seja, Paul teria 28 anos se estivesse vivo. São muitas teorias — e quiser, você pode inventar a sua. Se não quer perder tempo, aqui há uma boa lista das pistas.

A única coisa verdadeira em tudo isso é que McCartney realmente sofreu um acidente em 1966. Não de carro, mas de moped, uma espécie de motoneta. Perdeu um dente e ganhou uma cicatriz na boca, que o fez deixar crescer o bigode e que pode ser vista na foto que acompanha o Álbum Branco.

Por idiota que sempre tenha sido, essa teoria podia ser compreendida nos anos 60, quando a bruma de LSD, maconha e rebelião social em que se vivia dava aos Beatles uma importância que eles nunca tiveram. Mas insistir nessa bobagem 35 anos depois é deboche, só pode ser deboche.

O livro do Zé Dias está pronto e espera apenas uma editora. Que, se aparecer, vai destruir para sempre a minha fé na inteligência editorial deste país.

(A propósito, os Beatles evoluíram estupidamente em 1966, depois de uma fase de transição em 1965. Se McCartney realmente morreu, a música saiu ganhando. William Campbell, ou Shears, é muito, muito melhor que McCartney.)

(Também a propósito, eu tenho uma teoria que vai chocar o mundo: Lennon está morto. E Harrison também.)

Tell me why

Quando o assunto é Beatles, eu normalmente sou um esnobe pernóstico. (Não que não seja nos outros, mas nesse seguramente sou mais.)

Não gosto de perder tempo com análises dos outros, normalmente falhas e incompletas. Prefiro me ater às fontes originais e tirar minhas próprias conclusões — que modéstia à parte são muito boas. Portanto, quando me deparo com uma dessas peças, eu me afasto torcendo o nariz.

Mas esta análise de Charles Paul Freund é uma das melhores que vi nos últimos tempos, situando acertadamente os Beatles em seu tempo e ajudando a acabar com alguns mitos, a maioria favoráveis aos Fab Four; acima de tudo, coloca os Beatles como uma banda pop, muito mais que uma banda de rock.

E se é que se pode tirar alguma conclusão do que Freund diz, é que se John Lennon foi fundamental para a aura que os Beatles sempre tiveram, as qualidades e defeitos de McCartney é que dão à música dos Beatles o cerne de uma permanência que, até agora, parece eterna.

O elo perdido

Uma das questões que sempre me intrigaram em relação aos Beatles era como eles conseguiam aquela sonoridade em seus discos. Mesmo trabalhando em um estúdio inferior, o resultado é maravilhoso, e uma das razões para eles se manterem atuais.

Há várias explicações, mas nenhuma realmente completa. Vários outros estúdios tinham grandes produtores, na mesma época. Esta de Geoff Emerick, engenheiro de som da maioria de seus discos, talvez seja o elo que faltava:

Stereo was late being introduced in England; we were quite behind the times. Up until Abbey Road, everything was monitored in mono through one loudspeaker. Which was hard, but it also helped. Because it’s easy to get distinctive sounds between guitars if you’ve got them left and right. But if they’re coming from one sound speaker, they merge together, and it’s a fight to find a place and a tone and an echo for each guitar. And then, of course, when you got it and you switched to stereo, it was wonderful. It’s still a good way of putting sounds together.

O outro lado da guerra do copyright

Resumo da história: um DJ faz uma mixagem de um disco de Jay Z com as músicas do “Álbum Branco” dos Beatles, criando o Grey Album. A EMI ameaça o sujeito com processos por violação de copyright, e a comunidade internet, em protesto, lança a “Terça-feira Cinza” em 25/02, disponibilizando as músicas para quem quiser baixar. Fim da história. Thoreau ficaria orgulhoso.

Um pouco antes da confusão se espalhar baixei algumas das músicas do Grey Album. Achei apenas chatas. É por isso que acho a atitude da EMI extremamente burra: em primeiro lugar, essas remixagens são boa uma forma de levar a música de sua galinha dos ovos de ouro a um novo público; e a perseguição apenas realçou a fama (na minha opinião imerecida) do Grey Album — algo que por sua vez seria bom para a EMI se ela não aparecesse como a vilã da história.

O jornalista musical Devon Powers lança a questão: “algo deve ser feito em relação aos Beatles”. Ele acha que se deve tirar os direitos autorais dos Beatles e de outros artistas, porque a vigência desses direitos por tempo demais causam dano à sociedade e tiram da música a sua força social.

Cada vez mais questões de copyright se complicam. Mas parece claro que um artista tenha direito à maneira como tratam a sua obra. Não se fala aqui de divulgação, mas de manutenção da integridade da obra. Por exemplo, While My Guitar Gently Weeps é uma bela canção. A gravação é magistral (com um baixo maravilhoso de McCartney e solos divinos de Eric Clapton). Mas o que ouvi no Grey Album foi uma diluição sem graça e significado.

“Música como força social” é um conceito difuso demais; se há alguma nas canções de Britney Spears, por favor me mostrem. Por outro lado o rap é, sim, uma “força social”: mas para isso não precisa cortar e colar trechos de discos antigos. Sua força não está nisso, está nas letras e na relevância da música como reflexo da vida e como parte de um movimento social. Tenho cá minhas dúvidas sobre a validade artística de simplesmente misturar obras de duas pessoas diferentes — mais ou menos como se eu colasse uma figura de Dalí num quadro de Ticiano e dissesse que aquela obra era minha –, mas ainda que se admita que isso é arte, parece óbvio que os donos da obra original têm alguns direitos. Se optam por exercê-lo ou não é outra coisa.

Até agora não há uma resposta única e simples à questão da atualização dos direitos autorais. Como dizia H. L. Mencken, “Para cada problema complexo, há uma solução simples, cristalina, e errada”.

(En passant: esse blog está licenciado sob uma licença de some rights reserved da Creative Commons. Ou seja, você pode copiar e divulgar o que quiser daqui, desde que diga quem foi o otário que escreveu, não altere nada e não use para fins comerciais. Cá para nós, é uma bobagem que eu coloquei só para apoiar essa nova forma de gerenciamento de direitos autorais, porque a verdade é que você pode fazer o que quiser com o que encontra aqui que eu não vou poder fazer nada, por insuficiência de meios de fiscalização e coerção e porque, no fim das contas, isso importa pouco. E se alguém conseguir ganhar dinheiro com o que encontrar aqui, por favor me avise, para que eu possa lhe idolatrar como a um novo deus e tentar tirar uma lasquinha também.)