Os companheiros de Rock Hunter

O André Setaro, crítico baiano de cinema, comentou no seu blog uma lista feito pelo Paulo Perdigão (morto na virada do ano) dos 20 melhores filmes, na sua opinião.

A lista é de 40 anos atrás, e o que impressiona é que, se feita hoje, não haveria muitas modificações, como lembra o Setaro. Não há muito o que inventar nessa área.

Por mais que pessoas generosas como o Bia vejam grandes filmes saindo de vez em quando, a verdade é que as obras primas feitas na era de ouro do cinema (que segundo Bogdnavich e Hitchcock foi de 1912 a 1962) resistem impressionantemente ao passar do tempo. Não apenas em gêneros esgotados como o western, mas em virtualmente todos os outros. Eles estabeleceram o padrão; o resto é derivação.

O que quer dizer que, com os 30% ou 35% de diferenças compulsórias, idiossincráticas, a lista é bem semelhante a de todo mundo que goste um pouco de cinema. Shane, por exemplo, costuma estar em todas as listas. The Searchers também. Eu, por exemplo, discordaria apenas da ausência de um cineasta fundamental, Billy Wilder. E apontaria na lista uma certa influência da atmosfera daqueles tempos específicos, os anos 60.

Mas Perdigão incluiu entre os 20 um filme de que pouca gente lembra, até porque pouca gente viu: Will Success Spoil Rock Hunter?

Esse filme também estava na minha lista. Não conheço outras em que ele esteja. Essa coincidência me lembra que, fosse o meu talento maior, eu seria uma criatura semelhante ao Perdigão, autor do que talvez seja o melhor livro dedicado a Shane. É uma boa sensação. Eu também me pergunto se o sucesso vai estragar Rock Hunter.

O filme de Frank Tashlin (diretor terrivelmente subestimado e mais conhecido pelo seu trabalho com Jerry Lewis, de quem burilou o talento e a quem fez muita falta nos anos 60) é uma sátira extremamente sarcástica à mídia, ou melhor, às relações da sociedade com a mídia. É brilhante; talvez um pouco datado, mas ainda assim brilhante. Absolutamente nada sai ileso do filme, que em vários aspectos é até reacionário ao atacar a cultura de comunicação de massa que se solidificava definitivamente nos anos 50, com a televisão, o rádio e a publicidade.

Pouca gente viu o filme porque ele quase não era exibido. Apareceu uma vez na Globo, tarde da noite, quando a Globo ainda passava filmes decentes. Depois, só durante uma época no Telecine. E então o filme voltou aos arquivos, de onde relutam em tirá-lo.

Saber que o Perdigão também admirava um filme que tão pouca gente viu é um consolo.

Idiotas e fascistóides

Há alguns dias, dei neste blog minha opinião sobre a Rolling Stone brasileira.

Eu tinha achado a revista fraca (o Bia diz que o segundo número está melhor). E entre todas as matérias, tinha gostado especialmente pouco de uma assinada por um sujeito chamado Ricardo Soares. Quando uma matéria sobre um assunto aparentemente sério tem quatro páginas, mas apenas uma de texto, há algo errado. É como uma mulher muito feia excessivamente maquiada.

Ontem alguém que diz ser o próprio Ricardo Soares resolveu se manifestar, num comentário que pelo linguajar foi bloqueado (não custaria a ele ler o aviso na caixa de comentários; fosse mais inteligente e esse rapaz poderia dizer as mesmas coisas com outras palavras, e por uma questão ética — eu o citei originalmente — eu seria obrigado a publicar os xingamentos), mas que achei interessante e resolvi publicar:

Cara , esse teu comentário revela uma indigência mental alarmante… como já disse um leitor seu por aqui vc é um idiota completo…irrecuperável, fascistoíde e rancoroso… não entende português básico…o que tem a ver meu raciocínio com classe média e Jornal Nacional… que ignorante que vc é…

Se esse Ricardo, seja ou não o original, não sabe o que tem a ver o raciocínio primário de “ah, nenhum político presta” com classe média e Jornal Nacional, então não sou eu que vou conseguir explicar. Eu sou mentalmente indigente, e ele deve ter esquecido disso momentaneamente.

Sem contar outros adjetivos que o Ricardo não deve ter aprendido na faculdade, ele apela para um argumento fácil, que chega a envergonhar de tão inane: “fascistóide”. Jornalista sem muitos recursos faz isso: sempre acha uma maneira de falar em fascismo, mesmo que não se aplique. Se alguém descobrir por que o comentário feito em um blog qualquer sobre um artigo medíocre numa grande revista de circulação nacional é fascistóide, eu agradeceria. Ele deve ter visto mais do que eu vi. Eu pensava que era só uma opinião rasteira, dada en passant — até porque o artigo, cá entre nós, não valia lá uma grande análise.

Mas no fim das contas, o que o Ricardo Soares quis dizer foi o seguinte: se você não concorda comigo, então você é um idiota.

Logo, pelo raciocínio opulento (opulento é antônimo de indigente; precisei procurar no Houaiss, claro) do Ricardo, pelo menos desse Ricardo que deixou o comentário no meu blog, ele não é um idiota. Pelo raciocínio dele.

Que nem maré

Prestando atenção, pela primeira vez, à letra de “Que Nem Maré”, de Jorge Vercilo (na verdade eu pensei que fosse Djavan; só descobri que era Vercilo quando fui procurar a letra no Google).

A saudade bateu foi que nem maré
Quando vem de repente de tarde

O SNAPLE — Serviço Nacional de Proteção Contra Letras Estúpidas presta agora um serviço de utilidade pública e informa, a todos os interessados, a tábua de marés para hoje, 29 de novembro, em Pernambuco.

Quarta-feira, 29/11/06
Hora: 05:17 Altura (m): 0.7
Hora: 11:30 Altura (m): 1.9
Hora: 17:24 Altura (m): 0.6
Hora: 23:34 Altura (m): 1.9

Marés, meu caro, nunca vêm de repente.

Duas novas revistas

A Piauí e a Rolling Stone nacional lançaram seus primeiros números em outubro. Só leio agora.

A Rolling Stone chega com toda a pretensão que quase 40 anos de estrada podem dar. Seu editorial diz que ela é “referência — senão máxima, muito próxima disso — do jornalismo cultural e político, questionador e transgressor”.

Não podia estar mais enganado. Referência máxima em jornalismo cultural ainda é a New Yorker; e de transgressora a Rolling Stone não tem absolutamente nada, há muito tempo. Velhos não costumam transgredir. E a Rolling Stone, definitivamente, é velha. Tão velha quanto os anos 60. Não é à toa que os dois principais entrevistados de sua edição de estréia sejam o auto-denominado dono dos anos 60, Bob Dylan, e Jack Nicholson, um símbolo daquele estilo de vida.

Naqueles tempos, a Rolling Stone era inovadora porque refletia, acuradamente, a sua época. Mas o tempo passou. Nos anos 80 ela protagonizou uma campanha publicitária brilhante, em que mostrava a distância que havia sido percorrida: dizia aos anunciantes que havia uma diferença entre a percepção de uma revista dos anos 60 e a realidade de uma Rolling Stone cujo público era cada vez mais afluente. A campanha não podia ser mais verdadeira. E o papel de porta-voz do seu tempo já foi usurpado pela Wired há 13 anos.

Se alguém prestar atenção ao projeto gráfico da Rolling Stone vai ver os tipos serifados, elegantes que ela usa. São lindos. Clássicos. E são o melhor símbolo do que ela é hoje: uma revista perfeitamente adequada ao sistema — talvez mais que qualquer outra, por se inserir em uma indústria, a musical, tão establishment que está desesperada ao se ver ameaçada pelo novo, a troca de arquivos pela internet.

No fim das contas, a RS nacional é uma revista, no máximo, mediana. Melhora um pouco se for comparada à antiga Bizz, uma das revistas mais medíocres e provincianas da história do país, onde músicos frustrados escreviam sob pseudônimos resenhas sobre suas próprias bandas, que só eles ouviam, e se deliciavam em anunciar bandas de um buraco qualquer da Inglaterra, que ninguém jamais ouviria.

A RS se propõe a fazer uma mistura de matérias escritas aqui e traduções da revista-mãe americana. Grosso modo, as matérias americanas são melhores que as brasileiras. São mais bem escritas, mas isso vale para toda a imprensa nacional. O texto da Time sempre foi melhor que o da Veja, o do New York Times sempre foi melhor que o da Folha de S. Paulo, e por aí vai. Mas mesmo isso não quer dizer absolutamente nada. Por exemplo, há duas entrevistas americanas que se destacam, pela qualidade do texto e sensibilidade do repórter. Todas extremamente laudatórias, o que não parece ter nada a ver com os adjetivos “questionador” e “transgressor”.

Uma das entrevistas é com Bob Dylan, a julgar pela qual o velho Zimmerman é tão importante para o cenário musical atual como foi nos anos 70. E outra com Jack Nicholson, a julgar pela qual o velho ator, aos 69 anos, ainda come tantas mulheres quanto aos 30. Prova material A de que a RS já chegou aqui caducando.

As matérias nacionais são bobas, com exceção de uma sobre o PCC — que mesmo assim se ressente da falta de conhecimento político mais profundo. A pior delas é uma matéria (quatro páginas, mas apenas uma de texto) assinada por Ricardo Soares sobre política. Beira a imbecilidade, refletindo apenas o pensamento geral de uma classe média que não consegue deglutir o que ouve no Jornal Nacional e regurgita o mesmo discurso fácil.

Mas mesmo no que tem de melhor, a tal tradução das matérias da original americana, a revista comete erros bisonhos. Um trecho da matéria sobre Dylan:

(…) o blues antigo e seus músicos era mais estranhos do que qualquer purista fosse capaz de declararm, restringindo-se a 12 faixas de lamentações de bar, mas retratandos declamações narrativas (…)

Não li a matéria no original. Mas sou capaz de apostar a bunda do Bia que “12 faixas de lamentações de bar” é uma tradução analfabeta de “12-bar blues tracks” — ou seja, faixas de blues de 12 compassos. Se eu estiver certo, esse é o tipo de erro inaceitável em uma revista musical. A tradução parece ter sido feita pelo Google.

O fato é que a Rolling Stone já chega como uma revista velha e ultrapassada. Por exemplo, tem a tradicional sessão com notinhas curtas que fazem as vezes de resenhas de discos. Isso quer dizer que ela não entende que os áureos tempos da mídia impressa acabaram. Notinha curta sobre um novo álbum, do tipo que se fazia a três por quatro em 1986, não quer dizer mais nada, porque antes que a revista chegue às rotativas toda a internet já espalhou conceitos sobre o disco e definiu o sucesso de uma nova banda ou artista. A RS não parece entender que hoje mais vale, para uma revista impressa, fazer boas matérias com um bom julgamento e bastante informação sobre alguns discos que realmente achem relevantes, em vez de entupir os leitores com informação insuficiente e redundante.

A outra revista é a Piauí.

Embora não seja melhor que a Rolling Stone, pode vir a ser. Tem um time excelente de colaboradores, gente que respeita lubricamente a velha vagaba do Lácio. Traz algumas boas matérias — dessas as melhores são uma do Ivan Lessa, pela qualidade extrema do texto, e uma da Danuza Leão, pela escolha acertadíssima do seu objeto, o costureiro Guilherme Guimarães, e por demonstrar uma visão extremamente acurada. Traz também um bom conto do Rubem Fonseca, provavelmente parte do livro que está lançando por estes dias — mas bom apenas por estar em uma revista com cara de jornal. E algumas boas matérias humorísticas — uma das quais, a que fala sobre a República da Molvânia, lembra muito os bons tempos do jornal Planeta Diário, nos anos 80.

O pior, mesmo, é o projeto gráfico. Ao que tudo indica, queriam buscar a simplicidade máxima — essa deve ter sido a justificativa — mas conseguiram apenas uma das revistas graficamente mais medíocres da atualidade. Falta identidade a ela.

E mesmo assim, embroa seja decepcionante, de modo geral a Piauí promete mais que a Rolling Stone.

Mas padece de um problema: não parece ter encontrado ainda sua própria personalidade. O resultado, por enquanto, é apenas um amontoado de textos — todos bem escritos, mas que não chegam a fazer uma revista.

As duas novas revistas da grande imprensa brasileira, lançadas com espalhafato, não cumprem suas promessas. E me deixam com a impressão de que a última grande revista a aparecer foi a Raygun, há mais de 10 anos — enquanto tinha o projeto gráfico revolucionário do David Carson. E talvez ela fosse brilhante porque era, simplesmente, ilegível.

(Depois de escrever este post comprei o segundo número da Piauí. Ainda não li, apenas passei os olhos. E embora pareça ter textos mais densos, ainda parece o mesmo samba do crioulo doido.)

Cine Tamoio

Semana passada este blog recebeu um comentário de um estudante da Unibahia, fazendo uma pergunta sobre o cine Tamoio. Curiosamente, eu soube que o Tamoio tinha fechado (para se transformar — adivinha? — em uma igreja evangélica) por outro comentário, deixado aqui em fevereiro ou março.

Olá Rafael!
Apesar de você discorrer sobre o filme “Em algum lugar do passado”, não é este o motivo que me traz aqui. Sou estudante de jornalismo da Unibahia e estou fazendo um trabalho sobre o fechamento do cine Tamoio, como você cita sua visita a este cenema gostaria de contar com sua ajuda para desenvolver o trabalho. Você se importa em me relatar suas experiência no cine Tamoio e como você se sente por ele ter virado uma igreja evangélica?
Caso seja possível envie um e-mail para xxx@xxx
Obrigada pela atenção,
Cássia Carneiro.

Cássia,

Faz muito tempo desde a última vez que entrei no Tamoio. Foi em 1993, acho, para assistir a “Corpo de Evidência”, filme ruim com a Madonna e o Willem Dafoe. Na verdade, a época em que mais fui àquele cinema foi no começo dos anos 80.

Em primeiro lugar, o Tamoio é só mais um. Todos os cinemas do centro de Salvador fecharam as portas ou, com “sorte”, se transformaram em exibidores de filmes pornográficos, adiando um pouco o primeiro fim, que é inevitável. Um ou outro, esses foram os destinos do Excelsior, do Jandaia, do Pax, do Bristol, Liceu, Astor, Tupi, do Popular. Duvido que a maioria dos soteropolitanos na casa dos 20 anos sequer lembre de todos esses cinemas.

O problema é que não há saída para os cinemas de centro. Seu fechamento progressivo é o resultado de um processo de modernização das cidades, de migração da classe média consumidora para os shopping centers. Não dá para evitar. É até uma prova do valor desses cinemas, como elemento cultural urbano, que tenham sobrevivido tanto tempo mesmo décadas depois de todas as lojas chiques terem ido embora da rua Chile. O Tamoio sobreviveu à Sloper por muito tempo.

Para que esses cinemas sobrevivam é preciso fazer o que o Unibanco fez com o Glauber Rocha aí em Salvador. Mas mesmo esse não é exatamente um “cinema de centro”; está mais para um “míni-shopping cultural” no centro da cidade, com várias salas de exibição. Um exemplo melhor seria o que a Petrobras fez com o Odeon, no Rio. Em qualquer desses casos, é um investimento que tem pouco a ver com o mercado.

Há um outro lado, também. Eu acho meio irônico que, sempre que um cinema feche as portas (e quando é para virar igreja evangélica a grita parece ser maior, talvez porque a classe média católica se assuste com o crescimento das igrejas pentecostais entre os pobres), as pessoas reclamem, chorem suas saudades dos velhos tempos. Elas só não se fazem uma pergunta simples: há quanto tempo elas não iam para aqueles cinemas, preferindo o conforto e a maior adequação social dos cinemas de shopping? As pessoas parecem esperar que cinemas funcionem sozinhos, apenas para manter uma paisagem urbana familiar, talvez a sensação de que as coisas continuam como eram. Mas isso é impossível.

De certo modo há uma grande hipocrisia em tudo isso, como é típico da classe média.

De qualquer forma, eu acho melhor que um cinema desativado vire igreja do que estacionamento ou loja. Pelo menos eles continuam, de uma maneira meio torta, fazendo o que sempre fizeram: criando sonhos.

Um abraço, e espero que tenha ajudado,
Rafael

Originalmente publicado em 16 de junho de 2005

Meu ódio será tua herança

Normalmente gosto das traduções brasileiras para títulos de filmes.

A maioria se limita a traduções literais. Pretty Woman vira “Uma Linda Mulher”, Ladri di Bicicletti se torna “Ladrões de Bicicleta” e por aí vai. Esses não interessam.

É quando os tradutores liberam sua veia de escritores obrigados a ganhar a vida de forma pouco glamourosa que a tradução se transforma em arte.

O exemplo clássico é The Wild Bunch, que aqui virou “Meu Ódio Será Tua Herança”. Um título muito, mas muito melhor que o original anêmico. Era a época do western spaghetti e os tradutores estavam com aqueles títulos italianos maravilhosos na cabeça. Aliás, aquele era um celeiro de grandes títulos, escandalosos, escrachados, latinos. Os italianos certamente tinham noção do que era um europeu fazer um western, e pelo visto abordavam a coisa com um tom de paródia exagerada que fez muito bem ao gênero. O western spaghetti é uma drag queen.

(Isso só não explica por que The Good, The Bad and The Ugly virou no Brasil o bobo “Três Homens Em Conflito”.)

Mas o trabalho dos tradutores é mais difícil que isso. Por exemplo, pegue-se Mr. Smith Goes to Washington. É o típico filme de Capra, o sonho americano mostrado através de sua antítese. O título original faz alusão à possibilidade de o homem comum ter voz no centro de poder dos Estados Unidos. E isso todo americano com um nível razoável de educação entende. Mas, como eu não canso de repetir, para um brasileiro mister Smith pode ir para Washington, para o Winsconsin ou para a puta que o pariu, tanto faz. Não dava para traduzir por “Seu Silva Vai Para o Catete”. E então eles saem pela tangente com o título “A Mulher Faz o Homem”, que ilumina um aspecto totalmente diferente do filme, quase transformando-o em um manifesto feminista.

Outra boa tradução é a de Midnight Cowboy. Bom título, certo — mas “Perdidos na Noite” é ainda melhor e traduz perfeitamente o espírito do filme. E High Noon? Enquanto o título original carrega no suspense que permeia o filme, o brasileiro — “Matar ou Morrer” — define o dilema existencial de Gary Cooper. É diferente, mas igualmente brilhante.

A maioria dos títulos traduzidos tenta se adaptar à cultura local de sua época, dando a cor que os tradutores acham que o público espera. Rebel Without a Cause virou “Juventude Transviada” por isso, porque esses termos eram mais comuns no Brasil da época; a palavra “transviada”, hoje, só conseguiria gerar risos. Na mesma linha há “Os Brutos Também Amam”, versão sem nenhuma relação com o original Shane. Cá para nós, o filme sequer tem tanto amor assim; e a pessoa que mais ama é o garotinho, que nem de longe é bruto. Mas é preciso admitir que é um título muito melhor que o original.

Talvez o melhor exemplo de tradução que acrescenta ao filme seja “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder. O título original, Sunset Boulevard, se refere à decadência do star system de Hollywood através da decadência de uma de suas ruas mais simbólicas. “Crepúsculo dos Deuses” absorveu essa idéia de degradação e de fim e foi além, dando uma idéia mais grandiosa do que aquele processo de decadência (que se repetiria mais tarde, naquela mesma década) significava.

Em comparação, a versão em espanhol se chamou El Ocaso de una Estrella. Tão pobre. Tão mais pobre que mesmo o original.

Mas os maus exemplos não se limitam à península. Unforgiven, aqui, virou “Os Imperdoáveis”. Com o perdão do trocadilho, imperdoável é isso. A tradução errada tira todo o significado do filme. Eastwood, Freeman e Hackman não são imperdoáveis, são “imperdoados”. Há uma diferença muito grande entre as duas palavras; e o título brasileiro retira do filme toda a possibilidade de redenção a que eles almejam. Um se refere ao passado, e o outro a uma situação imutável. Do mesmo modo, All About Eve ter virado “A Malvada” tira muito da idéia de biópsia do personagem de Anne Baxter. E A Streetcar Named Desire traduzido como “Uma Rua Chamada Pecado” é um crime contra Tennessee Williams. Até hoje me recuso a pronunciar esse nome.

Originalmente publicado em 01 de março de 2005

John Lennon

John Lennon esteve em extrema sintonia com o seu tempo, e muitas vezes à sua frente. Ele se achava um gênio; provavelmente era. É muito para se dizer de um artista pop, mas a poucas pessoas no mundo do showbiz esse epíteto se aplica tão bem. Lennon foi parte do que se pode chamar de o primeiro grande fenômeno de massas produzido pelo marketing moderno, e o único que, ainda em termos de mídia, sobrepujou o rótulo que veio daí.

Mais do que produto de marketing ou gênio, entretanto, ele foi um produto de sua época. Uma época conturbada, rica em mudanças e em estremecimentos sociais, da qual o beatle foi, ao mesmo tempo, causa e efeito.

Para Lennon, tudo ocorreu no momento exato. Foi ingênuo quando a juventude, que surgiu como mercado consumidor e como grupo social com características próprias durante os anos 50, se consolidava como segmento social e como mercado consumidor; psicodélico quando essa mesma juventude começava a acreditar no que diziam que ela era e tentava moldar o mundo à sua imagem e semelhança; iconoclasta quando esse psicodelismo dava os sinais mais prementes de exaustão e o mesmo mundo que tomou um porre de juventude entrava em ressaca — e descobria que ressaca não mata; radical de esquerda quando os reflexos de 68 tomavam corpo e preparavam Watergate. Finalmente, saiu de cena para cuidar do seu filho, quando a geração à qual fornecera a trilha sonora crescia e começava a perceber que o mundo, afinal de contas, não havia mudado tanto assim, e que, ora bolas, ninguém era muito diferente dos seus pais — o que significava encarar o mundo e ter que ganhar a vida. Ou seja: entrar no establishment, daquele mesmo jeitinho tão criticado. Grand finale: morreu tragicamente antes de entrar em decadência e ser ultrapassado pelos mais novos rebentos da juventude.

Os eternos fãs de Lennon se lembrarão para sempre de um homem à beira dos 30 anos, com cabelos castanhos compridos e óculos redondos com grau fortíssimo. A grande maioria nunca ouviu falar do quase delinqüente juvenil dos anos 50, em Liverpool, e faz questão de não levar a sério o ídolo pop que, embora apenas aparentemente, lembrava o Menudo. Os Beatles provavelmente ficarão para sempre na história mundial, mas cada dia menos se falará que eles, em suas turnês, eram obrigados a seguir todo o roteiro da bajulação: davam abraços a torto e a direito em prefeitos, crianças e socialites feias como o pecado, nos mais assombrosos grotões do mundo. Tampouco lembrarão que perto do fim dessas turnês, já não conseguiam lotar os teatros e estádios nos quais apresentavam a mesma fórmula batida. O aspecto comercial dos Beatles será relevado em favor do grande mito que alimenta a indústria, talvez com razão.

Na verdade, música pop não passa muito de indústria. Uma indústria que teve seus alicerces modernos plantados pelos Beatles. Mais que qualquer outro, Lennon tinha consciência disso. Tanta que, ao ser fisgado de verdade pelo sonho hippie, fez o possível para negar o seu passado, e mostrar ao mundo que o sonho havia acabado — o sonho dele, provavelmente porque já havia nascido maculado, a partir do momento que ele podia ver como a indústria alimentou e praticamente criou esse movimento. Nada era tão belo como pensavam. E isso só aconteceu porque, mais do que ninguém, Lennon acreditou no sonho enquanto paradoxalmente tentava destruí-lo.

***

Não fosse o rock and roll, Lennon estaria fadado a ser um operador de guindaste no porto de Liverpool, ou funcionário público de Sua Majestade. Era filho de uma mulher que, em qualquer tempo, seria conhecida como meio maluca — já pesou sobre ela a acusação injusta de ter sido prostituta — e que não foi minimamente responsável pela sua criação. John Winston foi criado por uma tia em um bairro de classe média baixa. Aos quinze anos, já tendo a sua bandinha chinfrim de skiffle, conheceu um garoto um pouco mais novo que entretanto tocava melhor do que ele: Paul McCartney. George Harrison — que tocava guitarra melhor do que os dois — entrou logo depois. Juntos, conseguiram tocar na zona do cais de Hamburgo, Alemanha Ocidental — lugar tradicionalmente reservado a ladrões, prostitutas, malandros e marinheiros. Eram oito horas de música por noite, regadas a cerveja e anfetaminas. O conjuntinho de Liverpool foi obrigado a se superar continuamente.

Os Beatles foram para Hamburgo com a nada recomendável fama de serem uma das piores bandas de Liverpool; voltaram como a melhor. A barra pesada de Hamburgo, a necessidade de tocar muito alto, muito rápido, muito tempo os ensinou a fazer música. Em Liverpool, construíram rapidamente sua fama e conheceram um sujeito chamado Brian Epstein. A partir desse encontro os Beatles começaram a se tornar o maior fenômeno da música mundial.

A primeira providência tomada foi mudar as roupas. Casacos e calças de couro eram coisa de marginal, e mais que isso, faziam parte do imaginário dos anos 50, algo já ultrapassado. Os Beatles deviam se apresentar bonitinhos, mansos. Depois veio a mais difícil: colocar para fora da banda Pete Best. Não era um grande baterista, não se adequava à identidade visual desejada por Brian Epstein, e não era agradável aos outros Beatles, embora fosse muito amigo de Lennon. Em seu lugar entrou Ringo Starr, que de várias formas completou a entidade que seriam os Beatles.

Hoje se torna difícil imaginar o que os Beatles representavam em 1964. Eram mais que a combinação de boa música e bom marketing — uma combinação perfeita, embora às vezes o marketing parecesse encobrir o lado musical; mas basta ouvir uma canção como I Want to Hold Your Hand, que não se parece com nada feito antes, para ver que os Beatles tinham algo de realmente diferente. É fácil, hoje, desdenhar da sua música, que parece ingênua: mas aquilo era revolucionário, quase tanto quando os delírios psicodélicos de alguns anos depois. Mais que qualquer outro, foram os Beatles que inventaram os anos 60.

O fenômeno chegou a tal ponto que nos shows os próprios Beatles não conseguiam ouvir o que estavam cantando ou tocando. Lennon, irritado, dava vazão à sua frustração por ir de aeroporto em aeroporto sem saber muitas vezes onde estava, por viver em função de algo diferente do que eles haviam sonhado como a vida de um superstar, xingando os fãs fora do microfone.

Isso levaria ao fim das excursões, e parecia ser o fim dos Beatles. Não foi, pelo menos não imediatamente: ao darem uma guinada artística, priorizando a música ao marketing, os Beatles se tornaram não só a maior, como também a melhor e mais influente banda de música popular do mundo.

Mas antes disso Lennon disse que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo. Uma frase que era um misto de verdade e de bravata, mas que causou uma série de reclamações, que a banda, intimamente, ridicularizava. Não era para menos: os protestos, em sua maioria, consistiam em bandos de crianças ao lado de disc jockeys de meia idade, pisando em capas vazias dos discos deles. Em apenas um show a ameaça se tornou séria, com alguém dizendo que iria atirar em Lennon. Profissionais exemplares, eles fizeram o show, esperando um tiro que não veio.

O fim dos shows, que seria um dos ingredientes que levariam ao fim dos Beatles três anos mais tarde, deixou a banda livre para ingressar na vanguarda da música popular. Eles deram um novo rumo à sua música e à música pop de todo o mundo, ao se adaptarem a uma percepção de realidade que eles mesmos ajudaram a criar. A juventude atingiu sua maturidade coimo mercado e o mundo dos “caretas” com mais de 30 anos passou a ver nela uma excelente fonte de renda. Os hippies e a contracultura viraram uma das melhores armas da indústria; e embora ninguém percebesse, o sonho na verdade era natimorto.

E então os Beatles acabam, dando os primeiros indícios de que uma era chegava ao fim; depois foram as mortes de Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, três das mais importantes figuras da cena pop. Os anos 60, que haviam começado por volta de 63, chegavam ao início do fim em 1970.

Em tudo isso, Lennon era uma das figuras de frente. Era oficialmente o líder dos Beatles, por ser o responsável por algumas das mais cáusticas declarações dos Beatles e por ter sido ele quem, afinal de contas, havia começado tudo, embora nos bastidores a coisa não fosse bem assim. Paul McCartney, que nos anos 90 compôs duas peças (medíocres, é verdade) de música erudita, se afirmava como um dos maiores melodistas e baixistas do rock, além de ser o mais interessado nas técnicas de estúdio. Ele foi ainda o principal responsável pelo projeto mais ambicioso dos Beatles, o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, considerado ainda hoje, quase 40 anos depois, o mais importante disco de rock, e pela concepção do disco tecnicamente mais perfeito dos Beatles, o Abbey Road. Paul McCartney, ao que parece, era o líder musical dos Beatles — embora até hoje não se saiba, e provavelmente jamais se saberá, o que realmente acontecia dentro do conjunto. É mais sensato achar que os Beatles funcionavam como uma máquina bem lubrificada em que uma parte era indissociável da outra.

Mas era Lennon quem conseguia estar completamente antenado com o que o mundo queria. Sabia que o mundo não queria apenas música. Sabia intuitivamente o que falar e quando falar. E realmente se identificava com tudo o que interessava. Era o ícone de uma geração anestesiada e profundamente ingênua, que fazia de roupas espalhafatosas e de cigarros de maconha símbolos de rebeldia. Um dos principais artífices do que se convencionou chamar “anos 60”, Lennon, também ele, acreditou no faz-de-conta. E com o esgotamento do ideário hippie, Lennon ficou perdido.

Nisso ele não era diferente do restante de sua geração. A maioria ignorou o movimento hippie, como os jovens de dez anos depois ignorariam o movimento punk, como a maioria da juventude ignora a maioria dos movimentos, recebendo apenas os reflexos esmaecidos que são absorvidos pela sociedade. Uma boa parte atravessou essa era como quem atravessa uma crise de adolescência. E alguns entraram de cabeça e saíram por aí para ver se encontravam o tal mundo melhor. Desses, a maior parte desistiu quando viu que o caminho era longo e que nem mesmo sabiam direito qual era. Uma parte pequena afundou nas drogas, e não foram poucos os que não voltaram à tona. No fim das contas, a maioria aprendeu a se conhecer melhor e a se definir no mundo, por sua vez aparentemente modificado pela sua ação.

Para conseguir acompanhar o ritmo de sua geração, Lennon tomou LSD e heroína, fez terapia, tentou de tudo. No fundo, a única coisa que ele sabia fazer era expressar o que havia de melhor e de pior em si através da música. Além disso, como beatle ele havia provado o gosto do sangue. Não adiantava querer negar: John Lennon era um pop star, talvez o mais anatemático deles. E o seu maior trunfo, uma marca absolutamente pessoal que o distinguiu do resto do cenário pop de todos os tempos, era a extrema capacidade de se mostrar ao seu público e de se tornar o modelo máximo de identificação de sua geração.

O seu primeiro disco solo, o LP Two Virgins, gravado e lançado ainda durante o tempo dos Beatles, leva essa característica ao extremo. A capa, única em toda a história da música pop, mostra Lennon e Yoko nus, o máximo de exposição a que alguém pode almejar. Era assim que eles eram, era assim que todos deviam ser. Não interessava se o conteúdo do disco era insuportável; na época dizia-se que era vanguarda. Como não vingou, pode-se dizer que era apenas delírio.

O segundo disco continua essa tendência: a capa mostra Lennon deitado ao lado de Yoko em um hospital, e o disco mostra as batidas do coração do filho (morto durante essa sessão no hospital) e um desabafo do beatle John sobre o seu cotidiano e sobre a falta de camas nos hospitais ingleses. A letra em si não tem nenhuma qualidade literária; é só John Lennon mostrando o que sente para o seu público. O resto é a barulheira habitual. O terceiro, o Wedding Album, é mais um episódio do “Diário Público de John Ono Lennon”.

Esses discos são bastante emblemáticos. Ninguém ouviu, hoje ninguém vê. Mas ajudaram a fazer Lennon erguer-se acima da música, criando sua própria aura mítica.

Depois do fim dos Beatles, o primeiro (e melhor) disco de Lennon continua nessa direção. Ele fala da dor nunca superada na relação com sua mãe, fala das dificuldades que enfrenta ao lado de Yoko, continua sendo o referencial maior de sua geração. E é nesse disco, também, que ele se refere ao fim do sonho hippie.

Deixar de acreditar em um mito não é fácil, e para Lennon, que havia sido o próprio mito, era mais difícil ainda. Mas novamente a Providência foi generosa com ele, e a política conturbada dos Estados Unidos do começo da década de 70 (um reflexo do movimento hippie que só foi devidamente assimilado com quase dez anos de atraso) forneceu a ele um meio de defender aquilo em que acreditava, talvez o único meio que um pop star tem de ficar remotamente ligado ao seu passado comum.

Ao sair de cena, logo depois de gravar um álbum em que voltava às origens, cantando músicas que ouvia quando era adolescente, Lennon seguia o que o mundo lhe ditava, e mais uma vez estava na linha de frente de sua geração. Durante anos, de certa forma ele tentaria manter vivo o sonho que ele mesmo havia declarado morto, invertendo os papéis com sua mulher e ficando em casa criando o seu filho, enquanto Yoko Ono ia para a rua e trazer dinheiro para casa (ou melhor, gerir o dinheiro que ele conseguira). Finalmente, quando percebeu que não podia viver afastado da cena pop e voltou ao trabalho, um homem chamado Mark David Chapman deu-lhe cinco tiros, transformando-o em mais que um ídolo.

A partir daí, todos os atos de auto-exibição, os discos que ninguém ouviu, as palavras que Lennon disse fizeram sua parte. A partir do dia 8 de dezembro de 1980, John Lennon se tornava o primeiro santo da era da comunicação. Centenas de milhares de pessoas choraram sua morte.

A aura que existe hoje em torno do beatle é paradoxal. Seu espírito é baseado no Lennon contestador, o que ia para as ruas protestar e participar de passeatas, um ativista político de esquerda; mas o objeto de adoração em si é o Lennon romântico, sonhador, que se contentava em imaginar um mundo melhor. E essa imagem nem sempre corresponde à realidade. Ele sentou praça no imaginário popular como o gênio e o roqueiro; sua carreira solo, entretanto, nem sempre corresponde a isso.

Os álbuns solo que se seguiram a John Lennon/Plastic Ono Band e Imagine (Some Time in New York City, Mind Games e Walls and Bridges) não são somente melosos; são fracos também. Além de haver pouquíssimo rock and roll, no sentido clássico da palavra, a essa altura Lennon havia ido longe demais na idéia de expôr-se ao seu público; e Some Time… vale principalmente como uma crônica aguada do movimento de esquerda nos Estados Unidos em 1972.

Os casos de Mind Games e Walls and Bridges são mais graves. Esses dois álbuns não apenas constituem pouco mais que um apelo dirigido a Yoko, mas têm músicas e letras muito fracas. Era como se Lennon tivesse perdido o talento demonstrado nos seus dois primeiros álbuns.

Fazendo uma comparação: quando Mick Jagger cantava ao mundo que não conseguia satisfação, ele não somente era sincero (um pré-requisito básico da cena rock) como o seu problema era o mesmo de milhões de jovens em todo o mundo. Ao pedir desculpas para Yoko em Aisumasen, Lennon podia estar sendo sincero — mas o que é que o resto do mundo tinha a ver com isso?

A sua volta em 1980 o redimiu de todos esses pecadilhos. Conseguia transformar seu amor por Yoko em algo universal, com o qual milhões de pessoas podiam se identificar e assumir como suas, e novamente com letras de qualidade.

***

Não haveria mais lugar para o ícone John Lennon no mundo de hoje. Não numa época em que, por mais que se alardeiem mudanças, tudo continua do jeito como sempre esteve. Os tempos são mais propícios aos Paul McCartney — pessoas talentosas cujas posições políticas mais corajosas jamais ultrapassam a barreira do plenamente aceitável.

A julgar pelo seu último trabalho, talvez o próprio Lennon, se estivesse vivo, fosse mais parecido com o retrato que se faz dele, hoje. Em Double Fantasy, que ele mesmo definia como crônica de sua vida na época e conseqüentemente de uma geração Lennon falava de amor, de seu filho e da gratidão e paixão incomensuráveis que sentia por Yoko Ono. O conteúdo de suas letras não era nem sombra das canções panfletárias do álbum Some Time in New York City, por exemplo. Lennon não havia atravessado a “década do eu” impune, e estava antecipando a era Reagan. Em um mundo apático e desiludido, que assiste a guerras de verdade como se fossem partidas de video-game, cansado de tudo e com uma eterna sensação de dejà vu, não se pode imaginar aquele sujeito de cabelos compridos e óculos redondos que acreditava que podia convencer o mundo a dar uma chance à paz, sendo o espelho fiel de seu tempo, algo muito necessário quando nada parecia estar no lugar.

O que parece mais engraçado, ao se prestar atenção à história de Lennon, é que apesar de tudo o que disse, e de tudo em que acreditava, ele não conseguiu mudar muita coisa. George W. Bush pertence à geração que cresceu ouvindo Lennon. A grande mudança que se pode apontar, na realidade, é que o protesto não vende mais tantos discos. Está tudo banalizado e minimizado, foram todos absorvidos pelo temível establishment. Sintonizado com o seu tempo como era, é provável que hoje Lennon estivesse vindo se apresentar no Brasil, trazendo na bagagem a mulher e o filho, para encantar um público que viveu os anos 60 à distância cantando Imagine pela milésima vez, ou revivendo os Beatles para cantar I Want to Hold Your Hand no mesmo microfone que Paul McCartney.

Originalmente publicado em 30 de janeiro de 2005

Filosofia à francesa

Nunca fiz segredo de que corro de filosofia como gato escaldado corre de água fria.

Agora posso explicar por quê.

Uma matéria da Primeira Leitura deste mês cita um tal de Roger-Pol Droit:

Pierre Hadot, grande erudito, mostrou que a filosofia da Antigüidade estava destinada a mudar a existência, e não a construir sistemas de filosofia. Ele influenciou Foucault e também uma nova geração, como a de Michel Onfray, com essa idéia de que a filosofia existe para ser vivida, não somente para ser pensada ou se limitar ao acaso.

É isso. O problema dessa francesada toda é só um: ignorância. Ou má-fé. Enquanto eles citam esse montão de sei-lá-quem o otário do Marx se revolve em sua tumba.

Droit continua:

Há uma grande demanda, hoje, na França, por essas obras filosóficas direcionadas à vida cotidiana, à reflexão individual, algo entre a sabedoria e a análise filosófica.

No Brasil também. Só que aqui a gente chama isso de auto-ajuda.

Originalmente publicado em 1 de dezembro de 2004

O desprezo de Casablanca

Vieram parar aqui atrás dessa frase:

casablanca desprezaria

Se estão se referindo ao meu filme preferido, eu tenho uma idéia do que Casablanca desprezaria.

Casablanca desprezaria homens que levam vidas mesquinhas e vis. Mas desprezaria ainda mais homens vis mas incapazes de uma ação de coragem às portas da morte.

Casablanca desprezaria aqueles que não amam os prazeres da vida, e que não são capazes de pequenas torpezas no dia-a-dia para consegui-las. Mas desprezaria ainda mais aqueles que não sabem reconhecer a hora, entre tantas outras horas, de atirar no seu Strasser, e não no seu Rick.

Casablanca desprezaria aqueles que abandonam um ideal, mas desprezaria ainda mais aqueles que nunca tiveram um ideal para abandonar e reencontrar.

Casablanca desprezaria mulheres que não fossem capazes de ceder a um hedonista corrupto por amor ao seu marido, mas desprezaria ainda mais um homem que, sabendo disso e podendo evitar, não contrariasse todos os seus princípios e a preservasse porque ainda acredita no amor.

Casablanca desprezaria homens que não sabem a hora em que devem se separar da mulher que amam, mas desprezaria ainda mais aqueles que não se deixam amar uma mulher por medo da separação.

Casablanca desprezaria mulheres que não entendem o dilema entre o dever e a paixão, e desprezaria ainda mais aquelas que não escolhem a paixão. Piores, apenas, só os homens que não as fazem seguir o dever.

Casablanca desprezaria aqueles que não conseguem ouvir uma velha canção porque cada acorde os destrói por dentro; mas desprezaria ainda mais aqueles que, quando ela entra em seu bar, entre todos os outros bares do mundo, não exigem que Sam a toque, porque tocou para ela.

Mas, acima de tudo, Casablanca desprezaria aqueles que não têm Paris. Porque esses nunca tiveram nada, e provavelmente jamais terão.

Originalmente publicado em 27 de agosto de 2004

Sobre a liberdade de escolha

O Bia e o Idelber estão discutindo as qualidades ou defeitos do novo panorama musical e tecnológico. O Bia se queixa do excesso de informação. O Idelber gosta disso.

A razão, na opinião deste blog, está com o Idelber; o Bia ainda não se convenceu de que é um velhote saudosista e conservador, incomodado com o fato de que os objetos a que se apegou ao longo de três décadas estão desaparecendo porque surgiu uma nova forma de distribuição de conteúdo, muito mais eficiente.

Esse — as vantagens e desvantagens de novos canais de distribuição — parece ser o principal ponto discutido por eles.

A resistência ao novo que se encontra no Bia é relativamente comum, e se manifesta às vezes como pura implicância. Em pleno início do século XXI pessoas ainda reclamavam que a qualidade dos graves em CD era inferior à dos LPs (o que podia não ser mentira nos primeiros tempos do CD nos anos 1980, mas dificilmente verdadeiro hoje). Agora elas reclamam da dispersão de atenção causada pelo MP3, do fato de tudo ser superficial. Muita música disponível.

Isso é bobagem. Não é porque posso achar facilmente a discografia completa de Richard Clayderman que vou passar a ouvi-lo tocar Pour Elise; mas o mesmo mecanismo que o torna disponível faz com que se possa achar, por exemplo, gravações importantes da deusa. Eu, por exemplo, não tenho e não pretendo ter um iPod. Não ouço música na rua. Não consigo escrever ouvindo música. Para gente como eu, o fato de haver tanta oferta não aumenta, necessariamente, a minha demanda. Mas aumenta a chance de achar o que eu quero ouvir.

O Bia esquece outra coisa: que a verdadeira comparação a ser feita, nesse caso, não é com os antigos LPs ou mesmo com os CDs. É com o rádio. Ali, também, se ouvia muito, de muita coisa. Nem por isso as pessoas deixavam de prestar atenção ao que realmente gostavam — roqueiros narigudos como o Bia ouvindo Lou Reed, ou mineiros trotsquistas barbudinhos como o Idelber ouvindo sei lá quem (talvez entrevistas do Telê Santana em cassete, sei lá…).

A questão da possibilidade de escolha é importante, claro. Nos anos 80, era virtualmente impossível achar muito do que se queria ouvir. Ficava-se restrito ao que as gravadoras queriam ou podiam oferecer. Hoje, com alguns cliques e palavras-chave pode-se encontrar o que quiser. Para beatlemaníacos como eu, que se sentiam iluminados por terem o único Decca Tapes da cidade e orgulhosos pelo fato de ele correr de mão em mão para ser gravado em fita cassete, a possibilidade de ouvir o que quiserem é algo fantástico. É revolucionário.

O LP foi inventado em 1948, como lembra o Idelber, mas foi só a partir dos anos 60 que passou a ter relevância. Foi inventado para suprir as deficiências que os formatos anteriores tinham: discos de longa duração poderiam acondicionar peças maiores, principalmente eruditas.

No que diz respeito à música pop, no entanto, o LP era pouco mais que um suporte ao que realmente importava: os compactos. Até o rock se afirmar como música “madura” (se é que isso não é uma contradição em termos), LPs eram normalmente coletâneas de compactos. Era para eles que se dirigia a capacidade criativa do artista e os maiores esforços de relações públicas das gravadoras. Por isso a música pop se organizou em torno de canções com no máximo três minutos.

O produto não podia ser mais simples: sete polegadas, 45 rpm, uma canção, às vezes duas. Sem capa ilustrada. Sem nada além da música. As pessoas não compravam o compacto porque a capa era bonita ou porque achavam estar conseguindo uma melhor relação custo/benefício. Compravam porque aquela música era boa.

Foi a geração dos anos 60 que deu ao LP uma dimensão, digamos, mais respeitável. Artistas como os Beatles, que ao gastar uma soma espantosa na capa do Sgt. Pepper’s (que custou mais que toda a gravação do seu primeiro álbum) deram um valor intelectual até então inexistente ao LP (valor que, a propósito, nunca seguiram ao pé da letra. Com exceção do lado B do Abbey Road, os Beatles nunca fizeram nada realmente conceitual. Aliás, nem mesmo o Sgt. Pepper’s. Aliás aliás, eles só compunham para álbuns sob pressão, quando precisavam completar um disco por imposição da gravadora. Sua luta verdadeira era sempre para compor o próximo compacto, e a maioria das canções que completavam o LP eram consideradas, por eles, apenas fillers).

A coisa piorou, e muito, a partir dos anos 80. O casamento entre música e vídeo promovido pela MTV praticamente destruiu o valor intrínseco da música. Lixo, muito lixo musical foi empurrado goela da sociedade abaixo por ter, como trunfos, um bom diretor e um bom relações públicas. Para usar como exemplo o rei dos videoclipes, o comunista Michael Jackson, é sintomático que as pessoas lembrem mais de Thriller, uma canção medíocre, do que de Billie Jean, bastante superior. Apenas porque o seu videoclipe era melhor — ou mais impactante.

Mas as novas facilidades de distribuição não são a questão verdadeiramente fundamental, na minha opinião, no que diz respeito ao produto cultural.

A ascensão do MP3 e das redes peer to peer, finalmente, libertam a música de tudo o que é acessório. Dos artistas gráficos, dos diretores de vídeo, do poder de marketing das gravadoras. A canção pop passa a ser importante por si mesma. As pessoas deixam de comprar um disco influenciados por sua capa ou porque, de doze canções, há três de que gostam e que os forçam a levar, de contrapeso, nove canções ruins. Em vez disso, ouvem a música pelo seu valor real, livre de boa parte de outras condicionantes. Não foi à toa que o pessoal do Metallica, em sua diatribe ludita contra o a troca de arquivos, disse que lojas como a iTunes “matam o formato do LP”. Como se formatos fossem mais importantes que a música (no caso deles, talvez tenham razão. Mas mesmo eles acabam de se render à realidade).

O MP3 e o P2P trouxeram liberdade de escolha às pessoas. Mais do que nunca, elas podem ouvir apenas o que é bom. Agora podem voltar a realmente ouvir música, e a escolher o que lhes parece bom, sem que o mercado lhe imponho de maneira tão ostensiva gostos e padrões. Essa liberdade é insubstituível, e não tem preço. E se para conquistá-la é preciso jogar fora os velhos vinis e CDs sem personalidade, que se jogue. Que façam como os bobões que queimaram discos dos Beatles quando Lennon disse que eram mais famosos que Jesus Cristo. Os verdadeiros fãs de música agradecem.