Quando o rock realmente fez a diferença

A Barracuda acaba de lançar um livro fascinante: “Rádio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado”, do jornalista inglês Matthew Collin.

O livro conta a história da rádio B92, de Belgrado, Sérvia, que durante a guerra dos Bálcãs representou um oásis de oposição e de sanidade. Ou melhor, conta a história da região em seus piores momentos: a desintegração da Iugoslávia, a guerra civil que destruiu as repúblicas separadas e desonrou o próprio conceito de barbárie, e o crescimento do crime organizado — tudo isso sob a perspectiva da B92.

Rádio que misturava um jornalismo ousado e crítico com música de vanguarda — o que havia de melhor na Europa da época — e com um humor de alta qualidade pela sua ferocidade, falta de limites e inteligência, a B92 era principalmente a obra de um desses raros rebeldes com causa: Veran Matic. A história de “Rádio Guerrilha” é, principalmente, a história de Matic e idealistas como ele, que tiveram a coragem de antepor, a um criminoso genocida como Slobodan Milosevic, a voz da rebeldia e da resistência.

A B92 de Matic só foi possível pelo caráter mais aberto do regime iugoslavo. Porque a crítica política era tolerada, mas principalmente pela abertura cultural singular do país, orgulhoso de sua posição superior aos demais países do Leste Europeu. Porque seus integrantes conseguiam juntar às evidentes conquistas sociais do regime de democracia populares as qualidades do capitalismo europeu.

Por isso, curiosamente, a B92 já nasceu anacrônica. Seus integrantes foram formados na oposição ao regime socialista, uma oposição de caráter principalmente econômico e cultural. Faziam oposição a algo sólido, perfeitamente identificável. Sabiam a que se opunham, e — curiosamente graças às eventuais qualidades desse regime — sabiam como se opor. No entanto, aquele era um momento que já havia passado, embora ninguém tivesse percebido isso. O que se gestava, naquele momento, era a tragédia de uma das guerras mais cruéis dos últimos tempos. Algo que ninguém podia esperar, e que se caracteriza, principalmente, pela confusão de valores e pela irracionalidade.

Paradoxalmente, foi justamente esse anacronismo, essa qualidade ética e clareza de conceitos na forma de fazer oposição, que fez da B92 um instrumento fundamental durante a crise de desintegração da Iugoslávia. Foi o que lhe deu a perspectiva necessária para enfrentar a escalada do nacionalismo e do terror na Sérvia e nas outras repúblicas balcânicas.

O resultado é uma história fantástica de coragem. A B92 representou, durante cerca de dez anos, a voz da razão em uma região caótica. A B92 soube ser séria sem perder, em nenhum momento, o bom humor, e é isso que faz da sua história algo muito interessante de ser contado.

O autor, Matthew Collin, correspondente de publicações como The Face, tem defeitos, claro. Sua prosa, em alguns poucos momentos, é excessivamente pop. Política não é exatamente a sua área de especialização, ao que parece, e às vezes essa deficiência leva a conclusões e análises talvez simplistas. Nada disso, no entanto, tira os muitos méritos do livro. Acima de tudo, “Rádio Guerrilha” é uma reportagem rigorosa e bem escrita sobre um momento fascinante da história recente, sob o ponto de vista da cultura pop. A decadência do socialismo no Leste Europeu, a ascensão do crime organizado para ocupar o vácuo criado por um capitalismo incipiente, as circunstâncias e a bestialidade que levam à guerra civil. Mas, principalmente, o livro relata o horror de viver essa guerra, e sua influência deletéria sobre toda uma geração e a sua relação com a sua própria identidade.

Talvez esteja aí sua grande qualidade: contar uma história complexa de forma simples, tendo por eixo elementos de fácil compreensão como a música pop e o humor. E Collin nunca perde de vista a dimensão humana de uma tragédia de proporções épicas.

“Rádio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado” mostra que a música popular, quando aliada a uma ação política séria, pode realmente fazer diferença. Longe da rebeldia de butique, a B92 foi a prova de que conceitos que pareciam anacrônicos ao rock and roll, como rebeldia e contestação, podem assumir uma dimensão heróica e, finalmente, verdadeira.

Mais informações sobre o livro podem ser encontradas aqui.

O Superman voltou

Quem ainda não assistiu a Superman Returns, vá assistir. Corra. Pegue a próxima sessão.

Desde a primeira cena, Superman Returns deixa claro que o seu principal referencial não são os quadrinhos. Ele não tem compromisso com aquela lógica, e sim com o universo criado pelos dois primeiros filmes com Christopher Reeve, dirigidos por Richard Donner. Essa genealogia está presente em toda a estrutura de Superman Returns, mas principalmente nas constantes referências ao seu antecessor. Jonathan Kent, por exemplo, continua morto. Tudo ali indica que ele é uma continuação, que faz parte do mundo próprio criado pelos filmes anteriores, com seus defeitos e qualidades. Frases inteiras são retiradas do filme inicial. Aqui e ali aparecem referências a momentos vividos mais de um quarto de século atrás.

Talvez essa seja a decisão mais acertada do filme: não renegar seu passado cinematográfico, e se inserir no universo criado por Richard Donner. Há referências aos quadrinhos, claro — o pulso eletromagnético remete a “O Cavaleiro das Trevas”, uma foto é homenagem à capa da Action Comics onde o Superman fez a sua estréia —, mas as principais são aos filmes de 1978 e 1980.

O início de Superman Returns é brilhante ao conseguir criar a atmosfera necessária para o filme. Pela música, uma das melhores que John Williams já escreveu e que, aos seus primeiros acordes, é capaz de trazer arrepios. Pela participação póstuma de Marlon Brando, cuja voz inconfundível dá humanidade a um filme que fala de um semideus. E pelo ritmo, perfeito, mais propriamente uma conquista da tecnologia do que do talento do diretor: já se vão longe os tempos em que o personagem era filmado contra um filme em exibição, e em que os cortes eram feitos em moviola.

A primeira aparição do Superman no filme é apoteótica. Como no primeiro filme, o Homem de Aço entra em ação para salvar Lois Lane de um acidente aéreo. Mas 30 anos de desenvolvimento em efeitos especiais fazem uma grande diferença, extremamente bem-vinda em um filme de super-herói. Além disso, já nessa cena Superman Returns traz um elemento essencial ao personagem, por mais que as pessoas esqueçam disso: humor. O mesmo humor que sempre fez parte da relação entre Lois e Clark e que foi bem aproveitado nos filmes anteriores. É o humor que alivia as dimensões sobre-humanas do personagem e que lhe garante alguma sobrevida.

Uma das decisões mais acertadas diz respeito à escolha de Brandon Routh. Ele não esconde que imita descaradamente Christopher Reeve (a quem o filme é dedicado), inclusive nos trejeitos. E o resultado é, para os mais velhos, uma transição indolor; para os mais novos, um Superman bastante adequado aos novos tempos. Falta a Routh, claro, o talento de Reeve; mas da maneira como o filme é construído essa é uma falha menor, e quase imperceptível.

Algumas participações especiais abrilhantam o filme. Como Frank Langella — um ator excepcional — no papel de Perry White, e a Peta Wilson num papel pequeno. Basta ouvir a voz da Peta (que fazia a Nikita no seriado de TV) para que uma pessoa normal pense besteira imediatamente.

O filme tem defeitos, claro. Brandon Routh e Kate Bosworth parecem jovens demais para seus papéis, mas isso se explica pela necessidade de permanência da série. O novo arranjo da música de John Williams a enfraqueceu — é no que dá quando se tenta reinventar a roda.

Por outro lado, um bocado de críticas foram feitas ao plano mirabolante de Lex Luthor. No entanto, é essa provavelmente a maior concessão aos quadrinhos feita pelo filme — e mesmo assim por seguir à risca a linha do filme de 1978. O plano de Luthor é uma versão atualizada do que a sua versão de 1978 empreendeu. E é isso que faz dele algo adequado. Esse Lex Luthor pertence a outros tempos, é um tipo de vilão que, em vez de preocupado em destruir o mundo, quer mesmo é ganhar muito dinheiro de forma muito rápida. Talvez um “super” seja suficiente em um filme só, não é necessário outro. Nesse caso, a humanidade e a mesquinhez de Lex Luthor são adequadas. E Kevin Spacey faz um bom trabalho, à altura do original de Gene Hackman — inclusive nas perucas.

O principal problema do filme, na verdade, é a absoluta unidimensionalidade do Superman. Ele não existe como pessoa, e isso empobrece a obra. Mesmo diante de dramas claros — sua volta e a impossibilidade momentânea de retomada do relacionamento com Lois Lane, além de outra mais importante perto do final —, seu personagem não tem absolutamente nenhuma profundidade emocional. É o que, à primeira, faz Brandon Routh parecer melhor Clark Kent que Superman; o Superman é etéreo, irreal. Ao mesmo tempo, o próprio Clark Kent é mal aproveitado, o que faz alguém se perguntar para que, afinal, o Superman precisa dele.

Mas mesmo com defeitos, Superman Returns é um belo filme de super-herói.

Superman Returns

Fui ver “Superman — O Filme” numa tarde de sábado de março de 1979, no cine Guarani, depois Glauber Rocha, ali na praça Castro Alves. Não tinha nenhuma paixão pelo Super-Homem, e se não fosse a reprise do Oscar naquela tarde, dificilmente teria lembrado de ver o filme.

Voltei fascinado. Lembrava de cada detalhe, de Clark Kent jogando um cristal verde para criar a Fortaleza da Solidão, do jeito como disfarçou para proteger Lois Lane de um tiro. Até deixei de chamar Míriam Lane por esse nome, e passei a falar Lois, como no filme. O Super-Homem virou Superman.

A coisa piorou dois anos depois. Fui ver “Superman II”, dessa vez no Liceu, nos fundos da Praça da Sé. Tempos idos em que ainda havia cinemas no centro da cidade e as praças eram do povo, novembro de 1980. E dessa vez saí do cinema “voando” da calçada para a rua de pé de moleque. Até hoje, “Superman II” é o meu filme preferido da série, embora eu saiba que o primeiro é melhor e mais importante. Mas eu preferia o II porque ali estava um homem capaz de jogar fora todos os seus super-poderes pelo amor de uma mulher. Talvez por já me adivinhar incapaz disso, tudo aquilo parecia absurdamente maravilhoso para mim.

Nos créditos finais de “Superman II” aparecia um aviso: “Breve, Superman III”. Aparecia aviso semelhante no créditos do primeiro filme, mas eu não tinha visto. O resultado foram três longos anos de espera pelo terceiro filme da série. Foi uma tortura. E quando finalmente chegou, foi uma grande decepção. Eu não me importei em ver o quarto e último filme.

Quase 30 anos depois, “Superman — O Filme” continua sendo um dos grandes filmes de super-herói.

Hoje, com a estréia de Superman Returns, essas memórias voltam, e fica uma certa saudade de uma infância que já se foi há muito tempo. Ainda não vi o filme, e quando assistir certamente não vou sair do cinema querendo ser Christopher Reeve para pegar a Lois Lane. Não vou sair com os braços estendidos e fingindo que vôo. Quase três décadas se passaram, afinal. Aprendi a me comportar.

Mas a curiosidade é enorme. Lendo as críticas do New York Times e da Veja, tem-se a impressão de que estão tentando falar bem de um filme de que não gostaram. A crítica da Veja, aliás, parece excessivamente inspirada pela do New York Times (algo comum: quando os Beatles anunciaram o projeto Anthology, em 1995, a crítica da Veja, assinada pelo Celso Masson, foi praticamente decalcada de uma matéria de capa da Newsweek de algumas semanas antes). Isabela Boscov — que não levo a sério desde que elogiou profusamente “A Vida é Bela” — chega ao ponto de detonar o primeiro filme, “dirigido sem muita personalidade por Richard Donner”. Mas “Superman” é brilhante (quanto à questão da personalidade, basta compará-lo com Ladyhawke para ver que as coisas não são bem assim), e Superman Returns, a julgar pelo pouquíssimo que já vi, parece ser bom.

Enquanto desde os primeiros teasers já dava para adivinhar que Batman Begins seria o filme medíocre que foi, Superman Returns faz boas promessas. Batman Begins se beneficiou do fato de suceder quatro filmes decepcionantes; talvez por isso pareça melhor que o blockbuster falho que é. Superman Returns, ao contrário, precisa competir com um filme brilhante. “Superman” foi um marco. Todos os filmes de super-herói seguem a trilha aberta por ele. Mesmo em comparação com os excelentes “Homem Aranha” I e II, “Superman” leva uma vantagem: a cena do passeio do protagonista e Lois Lane pelos céus de Nova York. Esse lirismo nunca mais foi igualado em filmes do tipo, mais preocupados com as cenas de ação. “Superman” era tão bom que até nos fez acreditar a todos que a Margot Kidder era linda.

Competir com um filme decisivo para o seu nicho parece ser um problema, à primeira vista. Mas talvez não seja tão grande.

Superman Returns parece ter conseguido dar um novo sentido a um super-herói problemático. Resgataram de certo modo o significado nietszcheano original do nome, distanciando-o um pouco do papel de leão de chácara do american way of life. Tem defeitos mais que óbvios, claro. Ao que parece, cometeram um erro bobo ao dar um filho a Lois Lane; no universo dos quadrinhos, famílias e filhos costumam ser um problema estrutural que atrapalha as possibilidades dramáticas a longo prazo. A duração — duas horas e meia é Berlin Alexanderplatz para um filme de ação — parece excessiva.

Mas o maior problema, mesmo, é de origem: o Superman é um personagem difícil. Por sua própria natureza, oferece menos possibilidades que a loucura do Batman ou os problemas-de-gente-comum do Homem Aranha. Mesmo assim, dentro do possível, os produtores de Superman Returns parecem ter feito um bom trabalho.

Brandon Routh vai ter que concorrer com Christopher Reeve. Mas esse aspecto, tão propalado, deve ser menos importante do que parece. Primeiro porque as novas gerações não tiveram com Reeve a relação de paixão que se teve em 1978, não têm esse referencial. Segundo porque Reeve, para os fãs — e entre eles me incluo — está um nível acima de qualquer coisa.

Posso vir a desdizer tudo isso amanhã, mas Superman Returns promete ser um bom filme.

Glauber e sua pena

Brando é o ator narcisista, egoísta, romântico, boçal, pretensioso, petulante como todo ignorante, e, como tal, patético, sublime, mas invariavelmente reacionário.
Glauber Rocha, em “Apocoppolakalipse — Um Discurso Alienado e Alienante Sobre a Guerra do Vietnã”.

É o mesmo sujeito que escreveu:

Easy Rider é a síntese dialética de John Ford, Jonas Mekas e as motocicletas de Kenneth Anger.

Easy Rider, que me perdoe Glauber e os tantos outros fãs, é apenas uma bobajada criada numa bad trip.

Glauber é também o sujeito que achava “Uma Vida em Pecado” o maior filme americano. E que, num artigo escrito quando seu amigo Visconti morreu, disse que:

O tema de Visconti é a decadência do capitalismo diante do processo revolucionário.

E aí eu quase concordo, ex-comunista que sou, sempre sujeito à assombração do Velho Diabo dizendo que a minha paixão não-correspondida pelo dinheiro não é decente. Mas aí penso em “Morte em Veneza“, e ao tentar imaginar o Von Aschenbach como o capital e Tadzio como o proletariado, continuo achando que o foder a que Visconti se referia era outro.

Bussunda

Agora que se passaram sete dias, dá para falar melhor do Bussunda. O Ina fez um belo post, como sempre; o Hermenauta evocou lembranças pessoais. Eu não tenho tanta coisa boa para falar.

Não da pessoa ou do mesmo do humorista, cujo talento é óbvio. Mas os obituários que correram nos últimos dias fizeram parecer que havia morrido o maior humorista brasileiro de todos os tempos, e isso não é bem verdade.

A Casseta Popular nunca foi grande coisa. Genial, mesmo, foi o Planeta Diário, da mesma época, com um humor mais inteligente e sofisticado. A Casseta Popular fez sucesso porque era escrachada, assumidamente boba, sem nenhuma vergonha do mau gosto. Por si só, jamais teria a capacidade de mudar a cara do humor brasileiro. Mesmo assim, ao lado do pessoal do Planeta Diário, aquela equipe desempenhou um papel fundamental na renovação do humor na TV, com parte do TV Pirata. Isso ninguém tira deles.

Mas essa renovação não durou muito tempo. Já em 1992, a Casseta (não lembro se já era Casseta e Planeta) fez duas piadas em sua revista que, em vista do que viria depois, me impressionaram. A primeira foi uma paródia da campanha da Rider — “Dê um descanso aos seus pés” — ilustrada por Nelson Piquet (que tinha acabado de destroçar o pé em Indianápolis) e Roberto Carlos, que nunca gostou de alusões ao fato de ter perdido um pé em um acidente de trem. Alguns meses depois, trouxe uma capa com o esqueleto de Ulysses Guimarães, recém-desaparecido em um acidente de helicóptero. Piadas de mau gosto? Talvez. Mas o humor não deve, jamais, obedecer a padrões de gosto. Humor é humor. Ponto.

O problema é que logo depois morreu Daniela Perez, e o Casseta e Planeta simplesmente não tocou no assunto.

Aquele era um prato cheio. Artistas. Galeria Alaska. Leopardos. Tesoura. Tatuagens penianas. O caso Daniela Perez poderia alimentar uma publicação humorística por meses. Pelos padrões que vinha mostrando até então, seria de esperar que o pessoal do Casseta e Planeta fizesse um carnaval sobre isso.

Mas Daniela Perez e Guilherme de Pádua eram contratados da Globo, como era a turma do Casseta e Planeta. Tudo bem que não tocassem no assunto em seu programa de TV, mas na revista eles teriam, teoricamente, liberdade para soltar o verbo. Mesmo assim jamais tocaram no assunto. A Globo tinha domado aquele pessoal, e eles tinham assumido compromissos demais.

A partir daquele momento eles perderam todo o interesse para mim. É fácil bater em cachorro morto. A palavra “irreverência” já não se aplicava a eles.

O mais grave na retrospectiva que fazem do Bussunda, no entanto, é que o Casseta e Planeta, hoje, estão superados. O novo humor televisivo é feito no Pânico, com seus roberts e mulheres samambaia. O antigo lema do Casseta e Planeta, “Jornalismo mentira e humor verdade” foi posto de cabeça para baixo pelo Silvio e pelo Vesgo. O Casseta e Planeta, com toda a importância que tenham tido nos anos 80, principalmente ao colaborar com um programa fundamental como o TV Pirata, hoje está na mesma situação que Chico Anysio naquela época: vendo que o seu tempo passou, que o futuro é de gente mais ousada e mais debochada.

Os anos 90 vêm aí

Terça-feira e eu vou para o cinema com uma missão apenas aparentemente simples: escolher o filme mais bobo em cartaz, apenas para clarear a cabeça — acompanhado de uma senhora que tinha acabado de me mostrar que, com dois pauzinhos na mão e algum sushi diante dos olhos, se transforma na Madame Mãos-de-Tesoura e deixa o Johnny Depp se achando um mero alicate de unhas.

O filme escolhido, de acordo com esses critérios claros mas de difícil realização, foi “Apenas Amigos”, comédia romântica com uma moça que lembra muito a Michelle Pfeiffer quando ela ainda era novinha.

O filme é uma porcaria e, apesar das risadas eventuais, não merece um comentário. Portanto, foi ideal para aquilo a que eu me propunha: sair do cinema dizendo “oba, não pensei por hora e meia”.

Mas uma coisa me impressionou nele, e enquanto escrevo isto um calafrio percorre minha espinha, porque adivinho uma tragédia que já vi antes se desenrolar novamente diante dos meus olhos.

O filme tem início em 1995.

E então está começando. Eu, que ainda não consegui superar o revival dos anos 80 que me fazia ter pesadelos ao som do Menudo em que era perseguido por pares de calças jeans verdes e espancado por tênis quadriculados com cadarços rosa-choque enquanto o Ritchie gargalhava de maneira inequivocamente maníaca, agora me vejo às voltas com os princípios de um nova ressurreição. A dos anos 90, década que não parecia sequer ter acabado. Os anos 90 foram ontem. Mas eles morreram, foram enterrados por Osama bin Laden, e aqueles que cresceram nele se preparam para, como todas as outras gerações antes dela, contar as mentiras de sempre sobre aqueles anos tão dourados.

Foi um começo tímido e incompetente, como costumam ser os começos daquelas grandes ondas — quem levou a sério Ike Turner quando ele gravou Rocket 88? –, mas para alguém que ainda hoje pula assustado e tem convulsões aos primeiros acordes de Jump, do Van Halen, enquanto imagina Dave Lee Roth babando no microfone, os sinais são inequívocos. E aterrorizantes.

Os anos 90 vêm aí.

Vêm com festas ao som do Green Day, com “Almanaques dos Anos 90” contando que Kurt Cobain esbagaçou a própria cabeça e que no dia, sei lá, 12 de março de 1997 o mundo dançava ao som do Hanson e o Brasil batizava suas filhas com o nome da minhoca contorcionista, a Thalia. As pessoas vão lembrar como eram boas aquelas novelas mexicanas, Maria Mercedez, Maria do Bairro, Maria da Casa do Caralho. Os anos 90 vêm com adolescentes vestindo preto e tentando ser tristes no verão brasileiro. Como todas as retomadas, essa virá com o aproveitamento do que a década teve de pior.

Eu gostei tanto dos anos 90. Foram tão bons. A música melhorou, um mundo novo apareceu com o computador e as redes. O futuro era brilhante, e alguém mais otimista poderia dizer que depois do que havia começado ali nunca mais teríamos que voltar os olhos para trás, em busca de uma visão rósea do que teria sido o nosso passado. Recém-adultos mentirão para si próprios e tentarão se convencer de que a sua adolescência não foi tão ruim; pior, tentarão se convencer de que têm uma longa história para contar.

Os anos 80 voltaram ao cinema com Grosse Pointe Black. Era um filme melhor que “Apenas Amigos”. E se a qualidade de suas inaugurações significa alguma coisa, os próximos dez anos de revival dos fabulosos anos 90 serão absolutamente, completamente, desgraçadamente deprimentes.

Uma pequena bibliografia dos Beatles

Só Deus sabe quantos livros a respeito dos Beatles existem por aí.

Essa é uma listinha sucinta dos mais importantes deles.

The Complete Beatles Recordings
Mark Lewisohn
Foi lançado em 1988, comissionado pela EMI como parte das comemorações pelo seu centenário. Acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação — e foi ali, no estúdio, que os Beatles se tornaram o que são até hoje. É um diário de todas as sessões da banda, provavelmente o livro mais acurado que já se escreveu sobre ela. Infelizmente fora de catálogo há muitos anos, se tornou a bíblia dos beatlemaníacos, o livro a que se recorre para dirimir dúvidas. Ainda espero a chance de colocar novamente minhas mãos sobre um exemplar, é o único fundamental que falta na minha estante. Os anos passaram e veio a internet, um repositório muito maior de informações. O livro mostrou ter lacunas, e mesmo alguns erros. Mas continua sendo o livro mais importante já escrito sobre o dia a dia dos Beatles, e necessário para que se entenda a dinâmica que fez da banda a maior de todos os tempos. Nunca foi lançado no Brasil.

The Complete Beatles Chronicle
Mark Lewisohn
Lançado depois do Complete Beatles Recordings, inclui as gravações, descritas de maneira mais resumida, assim como um relato das apresentações ao vivo e gravações de filmes, apresentações em TV, etc. Tem também uns bons resumos históricos e críticos sobre cada ano da banda. Se eu tivesse que comprar apenas um livro sobre a banda, seria esse. Nunca foi lançado no Brasil e passou um bom tempo fora de catálogo, mas vale a pena comprar via Amazon.

The Beatles
Hunter Davies
É a biografia oficial dos Beatles, e durante muito tempo foi o livro mais importante sobre a banda. O tempo passou e ele se tornou meio redundante, e com várias informações falsas, mas ainda assim é um documento importante. Foi a Hunter Davies que McCartney ligou, de saco cheio do que considerava ataques de Yoko Ono, para dizer que ninguém lembrava das vezes que Lennon o magoou e que ele sabia ser “um porco manipulador”. É o tipo de livro que se compra porque se fala dele há quase 40 anos, e basicamente só por isso.

The Beatles Anthology
The Beatles
Parte do projeto Anthology — que incluiu também o documentário hoje disponível em DVD e os três CDs duplos (ou álbuns triplos em vinil, lançados apenas na Inglaterra e que fazem parte dos meus xodós), é a história dos Beatles contada por eles mesmos. É bem aceitável, apesar de eles, claramente, saberem bem os limites da verdade a que podem chegar. Independente disso, é um livro fantástico como objeto. (Alguns anos depois os Stones lançaram a sua versão de autobiografia, como não podia deixar de ser. Mas nela a diagramação deslumbrante do Anthology foi substituída por um layout burocrático e sem graça. Típico.)

The Love You Make
Peter Brown
Brown era funcionário da Apple (citado por Lennon em The Ballad of John and Yoko). Portanto este é um relato de insider — cheio de todas as fofocas imagináveis. Foi o primeiro livro a revelar, de forma razoavelmente confiável, o lado negro da banda que dizia que tudo o que você precisa é amor. É ideal para quem gosta de baixaria. E quando se trata de Beatles, eu gosto.

Many Years From Now
Paul McCartney
Oficialmente a autoria é de Barry Miles. Mas isso não ilude ninguém. O livro é, na verdade, a autobiografia de Paul McCartney; o ghost writer apenas levou um crédito maior, provavelmente para que Macca se sentisse mais livre para falar as bobagens que quisesse e soltar as farpas que bem entendesse. De qualquer forma, é um daqueles livros fundamentais para a compreensão da história dos Beatles. A versão brasileira é melhor que a minha, porque tem alguns acréscimos feitos depois da morte de Linda McCartney.

The Beatles: The Biography
Bob Spitz
É o livro mais recente sobre a banda, e pelo que dizem um dos mais completos. A crítica se divide sobre ele, e como ainda não li, não posso falar muita coisa além de repetir o que dizem: é abrangente mas contém erros. Se alguém quiser me dar de presente, sinta-se à vontade.

O homem que morreu de amor, depois de roubar minhas palavras

Poetas houve, nos tempos dos românticos, tempos idos em que a miséria era bela e o sofrimento desejável, que se diziam morrer de amor — e se diziam languidamente, “ai, que morro!”, com um levar das mãos à testa e um suspiro dolorido e afetado.

Suspirava-se muito naqueles tempos.

No entanto era tudo mentira, tudo fingimento; não era de amor que se morria, era de tuberculose.

Mas houve um homem que morreu de amor. E não foi naqueles tempos de tavernas azevedianas ou luzes mortiças de lampiões; mas ainda agora, há quase um instante, nos tempos da prensa, da televisão, da fissão do átomo, quando o amor parecia tão vulgarizado que para alguns era pouco mais que a desculpa por uma mão que passeia semi-percebida pela pele arrepiada de uma moça bonita.

Antônio Maria morreu de amor, mas antes deixou como prova desse amor, de todos os amores, algumas das crônicas mais belas vistas por este país, manjedoura de cronistas como Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta e Rubem Braga. O que há nelas de verdade, de universalidade, não pode ser compreendido por quem jamais viveu algo parecido com o que ele, diante de uma máquina de escrever em uma redação de jornal, soube descrever como ninguém.

Canção modal do homem que chama sua amada

Vem, se quiseres. Bebo álcool e fumo cigarros fortes. Gosto de música sem palavras, no piano de Peffer e no instrumento grave de Mulligan. Gosto das palavras sem música, como se sabia dizer Alberto Camus. De dia para dia, mais aquiesço à aridez dos sons.

Vem, se quiseres. Sou irascível, quando trabalho. Digo nomes feios, se me interrompem. Volto bêbedo para casa e não trago mais que a inocência, o cansaço e o hábito dos bêbedos. Tenho todos os defeitos que, nos outros, detesto.

Só uma disposição, em mim, é generosa — a do amor. Se um dia fores minha, ao ter-te, amar-te-ei demais, e mais ainda depois de ter-te. Vestirei o teu corpo com as minhas mãos e algumas vezes fecharei os olhos, para ver-te ainda mais bela. Haverá horas lentas de ciúmes, e um silêncio angustiado sufocará as palavras que nos faria negociar o perdão. Ah, o martírio dos amantes, que não se acreditam, que não se confiam, que não têm senão um cárcere de medos, onde afogam o sentimento espiritualíssimo da carne.

O corpo é espiritual. O espírito nem sempre.

Vem, se quiseres. Se crês numa alma oculta em minha rudez. Se não professas a abominável esperança esperança do amor eterno. Se acreditas, lucidamente, no “amor até quando” (?)… Se não te amas e se me amas, vem, e aqui te esperam séculos de sede e de dor, sem um momento de paz verdadeira, a não ser aquele, de lassidão, quando, depois de ter-te, amar-te-ei mais ainda…

Serge Gainsbourg em Houston

Há alguns meses, eu escrevi um post sobre Serge Gainsbourg, que se tornou ídolo instantâneo depois que li sua biografia.

Um pouco depois, o Freddy mandou um link para um vídeo com uma das passagens mais canalhasde Gainsbourg: o seu diálogo absolutamente cafajeste e bêbado com Whitney Houston, quando ela ainda era uma mulher bonita. Ele também publicou o link no Marola.

Infelizmente o vídeo foi retirado por problemas com direitos autorais. Uma pena.

Mas o que é bom sempre volta.

Por que o positivismo é uma grande bobagem

O dixieland, meio cansativo, levou a Louis Armstrong e depois a Miles Davis.

A polca, essa coisa chata, levou ao que é melódica e harmonicamente o mais sofisticado ritmo brasileiro, o chorinho.

O rock and roll de três acordes em doze compassos evoluiu até a complexidade dos Beatles.

O forró deu Luiz Gonzaga, um gênio absoluto. Que maravilha pode vir depois dele?, eu ficava pensando.

Tolinho.