Karate Kid

Assisti na TV, há algum tempo, a Karate Kid II, um filme extremamente bobo e de que não gosto nem um pouco.

Mas como até nas piores ostras pode-se encontrar uma pérola, perto do final há uma cena interessante. A mocinha do filme, apaixonada pelo Karate Kid e sabendo que ele vai embora, resolve fazer a cerimônia do chá. No filme essa cerimônia é descrita como uma coisa que se faz quando um casal se apaixona, o que é uma deturpação deslavada. Mas tudo bem, isso não importa.

A cerimônia do chá é um belíssimo ritual, como é quase tudo que diz respeito às relações pessoais de qualquer tipo no Japão, pontuado pela rigidez de procedimentos e respeito às tradições e convenções.

O filme é da era Reagan. Se você acha que o governo Bush é retrógrado é porque não pegou esse tempo; o de Bush é só mais burro e mais inescrupuloso. Os anos 80, nos EUA, viram uma espécie de reação puritana à revolução sexual de 20 anos antes. Por exemplo, eles tinham a mania de distribuir evangelhos em motéis (sempre imaginei a grande utilidade desses livrinhos para um sujeito como o Marlon Brando de “O Último Tango em Paris”, mas não conte isso a eles). Havia uma campanha pela castidade a qualquer preço, “don’t get aroused“, essas coisas.

E então comecei a pensar que, afinal de contas, Karate Kid podia não ser um filme tão ruim assim. Que lindo, que típico de sua época: a substituição do velho, sujo e vil sexo extra-marital por um ritual puro, rígido e sublime que tem maior significado espiritual do que a mera troca de fluidos corporais e eventuais palavras obscenas, essa coisa do Diabo. Karate Kid usava uma metáfora interessante para definir a moral de sua época.

De repente o filme tinha mais profundidade do que a carinha de bebê de Ralph Macchio fazia supor.

Mas aí, encerrada a cerimônia do chá, vem o gesto simbólico e clichê: ela solta os cabelos, num sorriso convidativo e purificado pelo compromisso assumido pelos gestos sincronizados dos dois.

Ah, não. É sacanagem. Não dá para ser feliz desse jeito.

Menos ainda porque exatamente quando o Ralph Macchio, que consegue a proeza de ser mais bobo do que eu, entende o recado e se anima a provar que apesar de todas as aparências ele ainda tem um tiquinho de testosterona naquele corpo raquítico, cai uma tempestade e eles têm que ir embora.

De promessa de metáfora até inteligente de sua época o filme volta ao seu amontoado de clichês, e eu volto à sensação de que fui feito de bobo.

Eu juro: nunca mais penso quando estiver vendo um filme.

Originalmente publicado em 31 de agosto de 2003.

Casablanca

Eu gosto de cinema. Gosto muito.

Mas acho que gosto mais ainda de “Casablanca”.

“Casablanca” nunca liderou aquela lista inglesa de 10 melhores filmes da história (essa lista foi encabeçada por “Encouraçado Potemkim” até 1961, e depois disso por “Cidadão Kane”). Ele é, acima de tudo, um exemplo da maestria no artesanato própria de Hollywood nos anos 30 e 40.

A produção foi complicada. Ronald Reagan tentou conseguir o papel de Rick Blaine. O filme foi sendo escrito e reescrito à medida que ia sendo gravado. Os diálogos foram refeitos inúmeras vezes.

O resultado, por mais caótica que tenha sido sua produção, é um dos filmes mais idolatrados da história. Provavelmente porque, acima de tudo, “Casablanca” é um filme de roteiristas. Tudo bem que o diretor Michael Curtiz é ótimo, que os atores (Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains, Peter Lorre e até mesmo Paul Henreid) são ótimos — mas o que conta mesmo neste filme são os diálogos e o enredo. Com exceção de Shakespeare e da Bíblia, nada é tão citado no cinema quanto “Casablanca”. “We’ll always have Paris“, “Round up the usual suspects“, “Here’s looking at you, kid“, “Play it, Sam“, e tantas outras, são frases que fazem parte do imaginário cinematográfico. As cenas finais ficariam implausíveis em qualquer outro filme, mas em “Casablanca” são críveis e as únicas possíveis. De que interessam os problemas de três pessoas em um mundo louco sob sua maior crise mundial? Aquele diálogo é clássico, e é brilhante.

Mesmo atores que fazem papéis pequenos, como Peter Lorre e seu Ugarte, têm participações definitivas no filme. A cena em que Lorre pergunta a Bogart se ele o despreza (“Se eu pensasse em você, provavelmente desprezaria” é a resposta) é uma das melhores da história do cinema. E provavelmente a minha preferida.

O que faz de “Casablanca” um clássico é o brilho como a trama é conduzida. Todas as cartas estão na mesa, todos sabem qual o próximo movimento, mas ninguém pode fazer nada para impedir o curso da história, num determinismo quase marxista. Não há mistério nas situações. Há suspense apenas nos rumos que os corações dos principais personagens seguirão.

São todos personagens em conflito. Rick é um homem amargurado pela perda de seu grande amor, e que voltou as costas aos seus ideais. Ilsa é uma mulher dividida entre o seu dever — e a admiração platônica por um grande homem — e a grande paixão de sua vida. Renault é um hedonista corrupto que tenta tirar o maior proveito possível de uma guerra que lhe importa pouco, embora se possa suspeitar que embaixo de todo aquele cinismo bata ainda um velho e orgulhoso coração gaulês.

São esses personagens que encontram sua redenção em Casablanca. Antes que o filme acabe, Rick tem de volta seus ideais e a lembrança de uma atitude altruísta e nobre. Ilsa descobre o seu lugar no mundo, e sabe que sempre terá Paris para se lembrar, quando olhar para o lado e vir aquele chato do Laszlo roncando. Laszlo, provavelmente, será mais tarde um burocrata tcheco e um dos responsáveis pela repressão à Primavera de Praga. Renault, na que eu considero a decisão mais difícil de todo o filme, abdica da boa vida em Casablanca para honrar seu orgulho francês e entrar na Resistência. E Ugarte… Bem, Ugarte continua morto.

“Casablanca” é um filme de amor, claro, e é assim que ele é visto em primeiro lugar. Mas, para mim, é principalmente um filme sobre redenção, sobre um acerto de contas com o passado e a definição de novas perspectivas para o futuro.

É isso que faz de “Casablanca” um grande filme, algo mágico. Ao contrário de clássicos como “Outubro”, de Eisenstein, em que é muito fácil explicar as razões pelas quais os admiramos, “Casablanca” requer um pouco mais que isso. Mas quem disse que é fácil explicar por que você se apaixonou por determinada pessoa?

Originalmente publicado em 17 de julho de 2003.

A Era do Rádio

Eu não ouço rádio. Para falar a verdade, não ouvia sequer quando trabalhava em uma.

Isso não impede que eu ache que não existe outra mídia mágica como ele. Com exceção dos livros, nenhuma faz com que você exercite a imaginação como o rádio. Ainda hoje é possível ouvir, por exemplo, dramatizações de casos policiais.

Depois de acossado pela TV o rádio decaiu asssutadoramente e foi forçado a se reinventar. E ao contrário do qeu diziam muitas das previsões pessimistas, ele conseguiu sobreviver.

Mas muito mais interessantes foram os tempos de ouro. Era simples: era o meio para o qual convergiam todos os talentos. O rádio basileiro, por exemplo, tinha de tudo; e foi a base do que mais tarde viria a ser a TV brasileira.

O Radio Lovers oferece para download uma série de antigos programas de rádio americanos. Faltam alguns dos mais populares, como o Lone Ranger e outros. Mas ainda assim, é um belo acervo. E serve para que se possa ter uma idéia da qualidade da programação da era em que o rádio era rei.

Um novo original de Lennon & McCartney

Uma coisa me incomoda quando as pessoas falam sobre Beatles: aqueles que dizem que Lennon e McCartney pioraram como compositores partir do fim da banda.

É uma mentira soez, diria Lennon. Qualquer pessoa pode perceber isso fazendo um experimento simples.

Pegue um ano, qualquer ano. 1970, por exemplo. Escolha 5 músicas do disco de McCartney daquele ano, 5 do disco de Lennon, 2 de George Harrison e dê qualquer coisa para Ringo cantar. Em termos de composição, o disco vai estar à altura de qualquer disco dos Beatles.

A minha seleção seria esta:

  1. God
  2. Mother
  3. Working Class Hero
  4. Well Well Well
  5. Love
  6. Every Night
  7. Maybe I’m Amazed
  8. That Would Be Something
  9. Junk
  10. Momma Miss America
  11. My Sweet Lord
  12. All Things Must Pass
  13. Fool to Cry

(Ainda sobrava um compacto com Instant Karma e What is Life.)

1971 seria ainda melhor:

  1. Imagine
  2. Gimme Some Truth
  3. Oh My Love
  4. Jealous Guy
  5. It’s so Hard
  6. Uncle Albert/Admiral Halsey
  7. The Back Seat of My Car
  8. Smile Away
  9. Three Legs
  10. Eat at Home
  11. Apple Scruffs
  12. Beware of Darkness
  13. Wine, Women, and Loud Happy Songs

(E, de novo, outro grande compacto com Another Day e How?.)

A lista pode seguir indefinidamente; em alguns anos pode-se colocar mais canções de McCartney, em outros mais de Lennon. 1973, por exemplo, seria um ano dominado por McCartney, porque o seu Band on the Run é infinitamente superior ao Mind Games de Lennon. O que acontece, e a minha impressão é a de que isso é o que confunde o pessoal, é que mesmo assim o disco vai soar diferente, mesmo inferior, aos discos dos Beatles.

Em primeiro lugar, depois do fim da banda eles passaram a ter a responsabilidade de encher álbuns inteiros. É lógico que canções que anteriormente seriam vetadas pelos outros membros ou que simplesmente não suportariam a concorrência entravam em seus discos solo, baixando o nível geral. Em um disco dos Beatles Lennon e McCartney tinham que brigar para colocar, digamos, 6 músicas em um disco. Nos anos solo, precisavam se virar para completar um álbum. E mesmo assim é impressionante que tenham conseguido fazer álbuns antológicos como o John Lennon/Plastic Ono Band e Venus and Mars. Sem contar o All Things Must Pass, o álbum triplo de George Harrison.

Ou seja: o que fazia a força dos Beatles é que o material mais fraco, com raras exceções, não passava pelo funil porque tinha mais gente querendo espaço e oferecendo canções de alto nível.

Nos discos solo faltava também a colaboração de cada um. Por exemplo, uma dica aqui, outra ali, uma palavra que se troca ou um acorde que se acrescenta, e tudo muda. Boa parte das composições de Lennon e McCartney são assim, composições de um deles com contribuições às vezes decisivas do outro, mesmo quando menores.

Vai faltar ainda o insight dos músicos. Deve ser fácil demais, para um Lennon ou um McCartney, dizer a um músico de estúdio: “eu quero assim.” Uma canção de Lennon no disco de Lennon é uma canção de Lennon, e isso é óbvio. Mas uma canção de Lennon num disco dos Beatles é uma canção de Lennon, McCartney, Harrison e Starr. Todos eles davam seu toque pessoal às músicas, e é isso, principalmente, que falta nos discos solo dos sujeitos. Numa banda, cada um pode dar a contribuição do jeito que quiser. Foi um dos motivos do fim dos Beatles, a necessidade de cada membro de fazer música do jeito que queria, não do jeito da banda.

O único problema é que, por acaso, aquela banda era muito boa.

O dia em que a música morreu

Se você não conhece a gravação original de Don McLean, conhece certamente a versão de Madonna para American Pie. Fez um certo sucesso ali pelo começo dos anos 2000. É uma canção do início dos anos 70, que celebra de maneira nostálgica e meio obscura os anos 50, aquela época em que os Estados Unidos se achavam perfeitos, a adolescência tinha acabado de ser inventada e o rock and roll dava os primeiros passos, e que para mim são, também, a época em que negros andavam na parte de trás dos ônibus. A versão de Madonna pega apenas uns pedaços da letras e inclui uns teclados sampleados de Hot as Sun, de Paul McCartney. A música faz referência ao dia 3 de fevereiro de 1959, quando um avião carregando três roqueiros se espatifou em Iowa.

Os roqueiros eram Big Bopper, Richie Valens e Buddy Holly, como sabe todo mundo que assistiu ao filme “La Bamba”.

Mas esqueçam tudo aquilo que viram ali: a importância de Richie Valens é, principalmente, histórica. É um nota digna na história da ascensão dos latinos na cultura de massas americana, mas não muito mais que isso. Musicalmente ele era algo próximo de nada, mais um roqueiro medíocre entre tantos outros, e com exceção da idéia genial de gravar La Bamba, dono de uma discogafia absolutamente medíocre que talvez possa ser desculpada por sua pouca idade — 17 anos –, mas que provavelmente não iria a lugar nenhum. Era o que os americanos chamam de “one hit wonder“, com a vantagem de ter acertado na mosca um nicho de mercado importante.

Big Bopper, por sua vez, era uma piada. Chantilly Lace, seu grande sucesso, é engraçadinha, e só. Não tivesse morrido com a cara na neve num buraco qualquer de Iowa (um amigo que morou lá fala das semanas seguidas sem tomar banho, porque a água tem o hábito singular de congelar nos canos a 40 graus negativos), é bem provável que dali a uns dois anos ele tivesse se tornado vendedor de automóveis. Algo assim. Seguros, talvez. Essas coisas pareciam combinar com ele.

Na época, a morte realmente importante foi a de Buddy Holly.

Sua importância para o rock and roll é enorme. Foi quem popularizou o formato que seria o padrão para as bandas de rock: duas guitarras, um baixo e uma bateria. A diferença que duas guitarras fazem é impressionante. Keith Richards já disse que é impossível fazer um cover dos Rolling Stones com apenas uma, e se alguém quer saber a importância da guitarra de Lennon para os Beatles, basta ouvir Clarabella, do Live at BBC, e vai-se perceber a falta que ela faz. En passant, Lennon era um grande guitarrista rítmico. Além disso, como se ninguém soubesse, os Beatles criaram seu nome a partir do nome da banda de Holly, The Crickets.

Holly ocupou um espaço bem definido. Era mais “aceitável” que Elvis — o rapaz usava óculos; ninguém usava óculos no showbiz antes dele –, mas acima de tudo era um grande compositor. Ele partiu de suas origens texanas e recriou o country, de uma maneira mais ou menos paralela à de Chuck Berry recriando o blues para uma platéia dançante. Nada pode subestimar sua importância no desenvolvimento da música que viria a ser a base de toda a música popular mundial.

Mas as pessoas se esquecem que quando morreu a carreira de Holly estava indo pelo mesmo caminho de tantos outros: o mainstream pop. Pelo amor de Deus, ele estava gravando Paul Anka, e bobagens românticas como True Love Ways. Não importa se a música era boa: o que importa é que rock and roll é basicamente atitude que nos faz esquecer que tudo aquilo deriva do que há de mais manjado na música mundial, o blues de 12 compassos. Não seria absurdo imaginar que, ao longo dos anos 60, Holly tivesse se tornado uma espécie de Paul Anka menos canastrão.

Depois desse ano, a música pop passou por tempos sombrios. Elvis resolveu dar um golpe de marketing e foi servir o exército na Alemanha; voltou cantando coisas como Bossa Nova Baby e, quase como uma premonição, Viva Las Vegas. Fats Domino atingiu o esgotamento criativo. Jerry Lee Lewis via sua carreira se esvair só porque ele tinha dado uns amassos sua prima de 13 anos (mas ele tinha casado, pelo menos). Chuck Berry se envolveu num caso de prostituição com uma menor de idade. Little Richard, na primeira de suas crises existenciais periódicas, já tinha sumido da cena havia alguns anos (é sua uma das frases mais engraçadas do folclore do rock: “O rock and roll é mau, porque lhe faz tomar drogas, e as drogas transformam você em homossexual”). Eddie Cochran morreu em um acidente de carro em Londres. Gene Vincent, o mais subestimado de todos os “pais do rock”, decaía física e musicalmente. Não tinha sobrado ninguém.

Aquela foi a época do twist, de Chubby Checker, e de sobreviventes mela-calcinhas como os Drifters.

Seria preciso que, com Kennedy morto e os americanos precisando desesperadamente de alguém para amar, uns garotos meio mal educados de Liverpool aparecessem por lá cantando I Want to Hold Your Hand. Juntando-se ao que acontecia, naquele momento, na costa oeste americana, eles transformariam a música pop de uma maneira que a tornaria irreconhecível.

A música morreu, mas ressuscitou 5 anos depois.

Cine Tamoio

Semana passada este blog recebeu um comentário de um estudante da Unibahia, fazendo uma pergunta sobre o cine Tamoio. Curiosamente, eu soube que o Tamoio tinha fechado (para se transformar — adivinha? — em uma igreja evangélica) por outro comentário, deixado aqui em fevereiro ou março.

Olá Rafael!
Apesar de você discorrer sobre o filme “Em algum lugar do passado”, não é este o motivo que me traz aqui. Sou estudante de jornalismo da Unibahia e estou fazendo um trabalho sobre o fechamento do cine Tamoio, como você cita sua visita a este cenema gostaria de contar com sua ajuda para desenvolver o trabalho. Você se importa em me relatar suas experiência no cine Tamoio e como você se sente por ele ter virado uma igreja evangélica?
Caso seja possível envie um e-mail para xxx@xxx
Obrigada pela atenção,
Cássia Carneiro.

Cássia,

Faz muito tempo desde a última vez que entrei no Tamoio. Foi em 1993, acho, para assistir a “Corpo de Evidência”, filme ruim com a Madonna e o Willem Dafoe. Na verdade, a época em que mais fui àquele cinema foi no começo dos anos 80.

Em primeiro lugar, o Tamoio é só mais um. Todos os cinemas do centro de Salvador fecharam as portas ou, com “sorte”, se transformaram em exibidores de filmes pornográficos, adiando um pouco o primeiro fim, que é inevitável. Um ou outro, esses foram os destinos do Excelsior, do Jandaia, do Pax, do Bristol, Liceu, Astor, Tupi, do Popular. Duvido que a maioria dos soteropolitanos na casa dos 20 anos sequer lembre de todos esses cinemas.

O problema é que não há saída para os cinemas de centro. Seu fechamento progressivo é o resultado de um processo de modernização das cidades, de migração da classe média consumidora para os shopping centers. Não dá para evitar. É até uma prova do valor desses cinemas, como elemento cultural urbano, que tenham sobrevivido tanto tempo mesmo décadas depois de todas as lojas chiques terem ido embora da rua Chile. O Tamoio sobreviveu à Sloper por muito tempo.

Para que esses cinemas sobrevivam é preciso fazer o que o Unibanco fez com o Glauber Rocha aí em Salvador. Mas mesmo esse não é exatamente um “cinema de centro”; está mais para um “míni-shopping cultural” no centro da cidade, com várias salas de exibição. Um exemplo melhor seria o que a Petrobras fez com o Odeon, no Rio. Em qualquer desses casos, é um investimento que tem pouco a ver com o mercado.

Há um outro lado, também. Eu acho meio irônico que, sempre que um cinema feche as portas (e quando é para virar igreja evangélica a grita parece ser maior, talvez porque a classe média católica se assuste com o crescimento das igrejas pentecostais entre os pobres), as pessoas reclamem, chorem suas saudades dos velhos tempos. Elas só não se fazem uma pergunta simples: há quanto tempo elas não iam para aqueles cinemas, preferindo o conforto e a maior adequação social dos cinemas de shopping? As pessoas parecem esperar que cinemas funcionem sozinhos, apenas para manter uma paisagem urbana familiar, talvez a sensação de que as coisas continuam como eram. Mas isso é impossível.

De certo modo há uma grande hipocrisia em tudo isso, como é típico da classe média.

De qualquer forma, eu acho melhor que um cinema desativado vire igreja do que estacionamento ou loja. Pelo menos eles continuam, de uma maneira meio torta, fazendo o que sempre fizeram: criando sonhos.

Um abraço, e espero que tenha ajudado,
Rafael

Seara Vermelha

O Grilo vê “Seara Vermelha” de uma forma exatamente contrária à minha. Acha que o problema é o realismo socialista em si (“O problema maior é que JA escreve de modo a tentar convencer o leitor que a solução é o comunismo”).

Em termos literários, o realismo socialista nunca foi um problema. Não há nada de errado — a não ser que você jogue em cima de uma obra literária todos os seus conceitos ideológicos — em escrever um final de livro dentro desses parâmetros, como não havia no naturalismo. É só uma escola a mais, não é melhor ou pior que o realismo fantástico, ou que Chaplin e Paulette Godard terminando “Tempos Modernos” seguindo estrada afora. O realismo socialista só se transformaria em problema com o zhdanovismo.

Se esse fosse o problema de Jorge Amado, então praticamente toda a sua primeira fase seria ruim. Ele tentou convencer a todos que o comunismo era a redenção em vários outros livros, com bons resultados artísticos. Pedro Bala, líder dos Capitães da Areia, se torna líder sindicalista (mas Jorge Amado não deixa que o futuro do proletariado atrapalhe uma das mortes mais belas da literatura mundial, a de Sem Pernas). Linda, personagem de “Suor”, vira militante de distribuir panfleto na rua e levar porrada da polícia. Os exemplos são muitos.

Em todos esses casos, são transformações — ou evoluções — lógicas, conseqüentes, aceitáveis dentro de um ambiente urbano, e onde saiu praticamente todo o movimento comunista brasileiro.

Mas os problemas do sertão nordestino nunca tiveram muito a ver com o comunismo, e o próprio fato de o Ismael notar que há algum problema naquele final é um indício de que há, sim, quebra narrativa ali. Ainda que historicamente não seja exatamente um absurdo (não foram poucos os sertanejos que se tornaram militantes comunistas ao migrar para as cidades, e o personagem é uma fotografia de José Praxedes, líder da Revolução de 1935 em Natal), o resultado é mais ou menos como contar a história de uma favela a partir de um ganhador da loteria. Para utilizar uma linguagem marxista, as contradições sociais da região se manifestavam de várias formas — mas a militância comunista certamente era a menor delas. Mesmo um velho comunista como eu não consegue sentir verdade nessa situação.

Um dos defeitos desse final vem do fato de enxertar um ambiente urbano em um livro que se passou inteiro no interior do país. Até aquele momento, cada segmento se relaciona harmoniosamente com o outro, estão todos dentro de um mesmo mecanismo social; o panorama revolucionário traçado em Natal não tem absolutamente nada a ver com o resto do livro.

O outro problema é o final revolucionário, quase um corpo estranho dentro do que seria um dos mais completos painéis da realidade sertaneja. É aquele painel, e não a saga da família retirante ou a de cada irmão, que faz de “Seara Vermelha” um grande livro, ao mostrar um sertão dividido entre as principais forças existentes na época: a natureza pouco dócil, o messianismo religioso, o cangaço, um Estado ineficiente e repressor. E Jorge Amado avança pelo livro sem cair naquela armadilha que fez com tanta gente considerasse um exemplo acabado do atraso como Canudos um marco imaculado de resistência, e bandidos como Lampião heróis populares.

Se terminasse o livro ali, “Seara Vermelha” seria a “Ilusões Perdidas” da literatura brasileira.

Mas com a história do último filho o livro se apequena, recua diante da grandeza do painel que traçava e o transforma em mero pretexto para sua profissão de fé. É isso que possibilita a leitura reducionista que o Grilo faz; e é isso que faz de “Seara Vermelha” uma promessa não cumprida.

O surfista e o fantasma

Durante algum tempo julguei ter uma idéia genial.

O Fantasma era um personagem com o qual se podia fazer grandes coisas. Graças à sua estrutura podia-se matar o personagem de 20 em 20 anos, ele podia dar respostas mais adequadas a cada geração, seu interesse podia ser sempre renovado. Ele podia ter todo tipo de problemas, podia ser alterado sem que se recorresse a fórmulas arriscadas.

(Era uma idéia equivocada, como admiti em um dos primeiros posts deste blog. É um bom post.)

Mesmo tendo sido criado em 1936 por um americano, o Fantasma é um personagem vitoriano. É um produto da visão colonial inglesa. Se hoje é possível olhar para trás e ver que a data corresponde mais ou menos ao início da decadência do colonialismo britânico na África, na época a percepção era diferente. A consolidação do cinema como principal opção de lazer de massas mostrou para o grande público as imagens da grande África Negra. E se podemos dizer, como Peter Gay, que a era vitoriana acabou em 1914, no imaginário popular (principalmente no americano) as coisas se processam de maneira diversa e mais lenta. Naquela época, mais do que nunca, a mitologia do continente misterioso estava mais viva do que nunca.

Mas o fato é que o progresso matou o Fantasma, ao destruir a aura de mistério que cercou a África no século XIX e que se renovou em imagens durante as primeiras décadas do século seguinte.

E então eu lembro do Surfista Prateado.

Desculpe meu esnobismo, mas tenho pena de quem gosta de quadrinhos e não acompanhou a fase áurea do personagem no final dos anos 60, por Stan Lee e John Buscema. O Surfista Prateado é um personagem preso à Terra por se recusar a servir seu mestre, um devorador de planetas, e impedir que ele destruísse o mundo. É a personificação da bondade e do altruísmo, e não é à toa que seu maior inimigo é justamente um demônio, Mefisto.

Eu tinha 10 anos quando li “O Nulificador Total”, uma das melhores histórias do Surfista. E eu, que nunca choro, terminei a história com os olhos marejados.

Mas o principal aspecto do Surfista, aquilo que o coloca em um panteão dos grandes personagens dos quadrinhos, não é essa bondade. É o fato de ele ser um espírito livre, que viajava por todo o universo, de repente preso a um planeta imperfeito e complexo demais em seus sentimentos. O drama do Surfista Prateado é sartreano, mais do que qualquer outro personagem dos quadrinhos. Quando Jim McBride refilmou o “Acossado” de Godard, em Breathless, percebeu esse elemento, e o personagem que tinha sido de Jean Paul Belmondo foi interpretado por um Richard Gere aficcionado por Jerry Lee Lewis e, claro, pelo Surfista Prateado.

O Surfista pertencia a uma era específica, o fim dos anos 60 com suas indagações e questionamentos sociais e existenciais. O Surfista Prateado era um personagem que derivava imediatamente da cultura beat, e que só tinha sentido dentro de um contexto histórico bastante definido. Com o fim do sonho hippie, ele perdeu sua razão de ser, perdeu o respaldo social que necessariamente sustenta um grande personagem. Os anos 70 não foram feitos para ele.

Assim como aconteceu com o Fantasma, a vida também matou o Surfista Prateado.

Bolero

A campainha tocou.

Ante surpresa tão rude, nem sei como pude chegar ao portão. E lá estava ela.

Ah, como esse amor demorou a chegar. Ela disse-me assim: “Tenha pena de mim”.

Sem saber o que fazer, as palavras saíram da minha boca: “Entre, meu bem, por favor, não deixe o mundo mau lhe levar outra vez. Entra, podes entrar: a casa é tua, já que cansaste de viver na rua e teus sonhos chegaram ao fim.”

Ela entrou, cabeça baixa, e ficou ali parada, no meio da sala, à luz difusa do abajur lilás.

Eu interrompi o silêncio: “Que queres tu de mim? Que fazes junto a mim?”

Olhando nos meus olhos, o mesmo olhar, ela perguntou: “Como vai você? Eu preciso saber da sua vida, razão da minha paz tão esquecida.”

Balancei a cabeça, e então lembrei de tudo: “Só louco amou como eu te amei. Só louco quis o bem que eu te quis.”

Ela deu um sorriso triste: “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei.” Devagar, se aproximou de mim, o mesmo perfume, o mesmo andar: “Negue o seu amor, o seu carinho. Diga que você já me esqueceu. Diga que já não me quer, negue que me pertenceu que eu mostro a boca molhada, ainda marcada pelo beijo seu”.

Explodi: “Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram que lhe encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar.”

Ela levantou a cabeça, e tentou mostrar a velha altivez de antes:

“Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do céu, que palpite infeliz! Se meu passado foi lama hoje quem me difama viveu na lama também.”

Aquelas palavras me deixaram descontrolado. Gritei: “Agora você vai ouvir aquilo que merece. As coisas ficam muito boas quando a gente esquece; mas acontece que eu não esqueci a sua covardia, a sua ingratidão, a judiaria que você um dia fez pro coitadinho do meu coração!”

Seu Orestes e dona Dolores, meus vizinhos, ouviram os gritos e foram até a janela perguntar o que estava se passando. E eu disse a ele: “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? Ter loucura por uma mulher? E depois encontrar esse amor, meu senhor, ao lado de um tipo qualquer?” Seu Orestes abanou a cabeça e levou um cutucão de dona Dolores. Nesse instante uma voz ecoou: “Magoou-se, pobre filho meu?” Era dona Dolores, preocupada. Respondi que não, que eu resolveria aquilo, e eles se foram.

Olhei para ela: “Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem. A nossa casa, querida, já estava acostumada, guardando você; as flores na janela sorriam, cantavam por causa de você. E tu pisavas nos astros distraída…”

Aos prantos ela se ajoelhou aos meus pés: “Nunca mais vou ouvir o que o meu coração pedir! Nunca mais vou fazer o que o meu coração mandar! Eu fiz mal em sair, eu fiz mal em deixar o que eu tinha em você! Hoje eu volto vencida, a pedir pra ficar aqui, faz de conta que eu não saí!”

A estrofe derradeira merencórea revelava toda a história de um amor que não morreu.

Mas isso não bastava. Não para mim: “Quando eu queria o teu amor não davas atenção ao meu. Pra mim tu não tens mais valor, agora quem não quer sou eu. Nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar, nem mesmo assim as pazes contigo eu farei.”

Ela continuou: “Se eu soubesse naquele dia o que eu sei agora, eu não seria este ser que chora, eu não teria perdido você”.

Quem sou eu pra ter direitos exclusivos sobre ela?, pensei. Menti: “Se acaso você chegasse no meu chatô e encontrasse aquela mulher? Eu falo porque essa dona já mora no meu barraco, à beira de um regato.

“Quem é ela?”

“De quem eu gosto nem às paredes confesso. Provei do amor todo amargor que ele tem. Então jurei nunca mais amar ninguém. Porém, eu agora encontrei alguém que me compreende e que me quer bem.”

Ela ficou em silêncio.

Apontei para fora. “Eu estou lhe mostrando a porta da rua pra que você saia sem eu lhe bater.”

Ela ficou parada, estática. Limpou as lágrimas, alisou o vestido e, dirigindo um último olhar para mim, falou: “Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor. E às pessoas que eu detesto diga sempre que eu não presto, que o meu lar é o botequim; que eu arruinei sua vida, que eu não mereço a comida que você pagou pra mim.”

E ela se foi.

Hoje eu quero a paz de criança dormindo e o abandono de flores se abrindo para enfeitar a noite de meu bem. Mas quando eu morrer, na minha campa nenhuma inscrição: quando eu morrer não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela.

Eça, o defunto

O Bia acaba de me dizer que no livro “Contra o Consenso” o Reinaldo Azevedo, editor da Primeira Leitura, destrói Eça de Queiroz.

Um dos seus argumentos é o de que Eça, para mim um dos escritores mais fantásticos em língua portuguesa, só é considerado no Brasil. Em Portugal, sequer falariam dele.

É verdade?

Update: o Bia corrige a informação dada, e diz que não é bem que Eça não seja considerado, e sim que ele não é unanimidade em terras d’além Tejo.

Coisas do Bia.

(Anotação pessoal: lembrar sempre de checar o que o Bia diz. Ele é gonzo, afinal.)