Depois do "boa noite"

Quando William Wyler conseguiu convencer Laurence Olivier a filmar “O Morro dos Ventos Uivantes”, Olivier tinha certeza absoluta da superioridade do teatro sobre o cinema.

Wyler abusou da crueldade ao dirigir Olivier. Ria da sua impostação de voz, dos seus gestos afetados que eram adorados em Drury Lane. A crueldade chegou ao máximo quando Olivier, cansado da incompreensão daqueles ianques ignaros acerca da grande arte da representação, reclamou: “Nesse meio estreito e anêmico de vocês não há lugar para uma grande interpretação”. Tudo o que recebeu em troca foram as gargalhadas de todo o estúdio.

Olivier parece ter aprendido a lição, e pelos próximos 40 anos teve uma carreira bastante razoável no cinema, inclusive dirigindo algumas das melhores versões cinematográficas de Shakespeare.

Corta.

No ano passado, boa parte da crítica desabou sobre “Olga”, de Jayme Monjardim. Em vez de criticar atuações ou roteiro, ou ainda falhas de direção, a principal acusação era a de que o filme repetia a linguagem televisiva; aquilo era televisão, não cinema.

Corta.

Talvez o que mais incomode nesses dois casos seja a necessidade da intelligentsia de estebelecer uma hierarquia entre produtos culturais. Elas representam a mesma postura: a de que um meio anterior é superior a outro. Há um certo elitismo cultural, também, a idéia de quanto mais voltado para as massas, menos qualidade esse produto deve ter. O pessoal do teatro esnoba a TV; esnoba menos o cinema porque este se afirmou como “arte”, mas ator que se preze canta loas à superioridade do teatro. O pessoal do cinema, por sua vez, despreza a TV como quem despreza um cachorro sarnento, e criticam este diretor por dirigir comerciais, aquele por trabalhar em novelas.

Especificamente no caso da crítica a “Olga”, há um certo preconceito por parte dessa elite cultural. Ela falha em perceber que a televisão pode ser, sim, a origem de uma linguagem estética brasileira. Específica, claro, que não necessariamente é adaptável a todo e qualquer filme. Mas brasileira.

A linguagem das telenovelas brasileiras é bastante diferente da linguagem televisiva americana. A fotografia de Friends, por exemplo, não tem os mesmos elementos de “Renascer”. Nossa predileção por closes diz mais respeito a um modo ibero-brasileiro de se relacionar com o outro do que a eventuais exigências narrativas da televisão.

A própria formação da TV brasileira é diferente. Em que pese o fato de a TV americana ter recebido uma migração intensa dos grandes nomes do rádio da década de 40 em seus primeiros anos, sua estética foi definida a partir da indústria cinematográfica, o maior referencial cultural de um país que, embora com uma educação básica quase universal, sempre primou pela ditadura do gosto médio. A brasileira, por outro lado, deve suas origens ao rádio e ao teatro de revista. Até hoje, como se pode ver em programas como “Zorra Total”, há uma boa predominância do humor radiofônico, centrado em bordões e esquetes rápidos, e sua concepção visual era a dos shows de vedetes do Carlos Machado.

Mas se algo evoluiu tremendamente neste país foi a TV.

Estamos praticamente no meio do ano, e até agora a melhor produção brasileira em dramaturgia foi “Hoje é Dia de Maria” — sob qualquer aspecto, uma peça brilhante, maravilhosamente escrita e dirigida com perfeição. Como narrativa, essa minissérie não é em nada inferior a quaisquer dos filmes brasileiros lançados este ano. Sua concepção estética está à altura da cinematografia do jeito que se pratica no Brasil — e de teatro também, ao misturar elementos enográficos deste último. É diferente, claro, mas não inferior. E se vamos falar de “cultura genuinamente popular”, “Hoje é Dia de Maria” nao podia ser um exemplo melhor.

“Hoje é Dia de Maria” mostra que esse debate sobre estética cinematográfica e televisiva sequer deveria existir. É um debate estéril, burro, porque afinal de contas cada filme pede uma abordagem específica.

Mas o preconceito contra a TV parece não morrer.

Por exemplo, do ponto de vista do autor não há nenhuma diferença entre escrever para o teatro e para a televisão. Os diálogos podem ser bons ou ruins a despeito do meio; as situações criadas também. Basta uma olhada na produção cinematográfica dos anos 70 para notar que qualquer telenovela tem diálogos melhores do que os filmes da época; o mesmo vale para todas as outras áreas. O teatro, aliás, não tem mostrado grandes obras primas nos últimos tempos.

Talvez aí esteja um os grandes erros da intelligentsia nacional. Assim como Olivier não conseguia reconhecer que o novo meio seria o dominante naquele século e demorou a perceber que tinha que se adaptar, aqueles que fazem cinema parecem se recusar a admitir que a cultura nacional é definida em função não da grande tela, que sempre foi incipiente, ou do teatro, que nunca teve penetração de massas.

Então só um lembrete: quem define a cultura deste país é a TV, é a telenovela depois do “boa noite” de William Bonner e Fátima Bernardes. Não custa nada reconhecer isso.

Fim de papo

Do Henrique, pondo um ponto final nessa conversa sobre o Homem-Aranha:

ok, foi boa a sacada da aranha transgênica. Mas sempre que eu lembro desse ponto não consigo deixar de lembrar que a glandula “teiosa” desses aracnídeos fica no final do abdome – e se essa mudança foi em nome de uma maior verossimilhança, então talvez devêssemos ver Tobey Maguire em um filme x-rated, interpretando um spiderman que atira teia pelo cu…

OK. Acabou a discussão, pois não?

Homem-Aranha, Homem-Aranha, nunca bate, só apanha

André, não acho que seja difícil fazer boas histórias com a fórmula clássica do Aranha. Ele não é o Surfista Prateado.

Por suas próprias características, Peter Parker é um personagem maleável ao extremo. A existência de mudanças é quase uma necessidade, porque ele foi o primeiro super-herói em que a metade “civil” era tão ou mais importante que seu alter-ego uniformizado.

Além disso, a idéia de que mudanças drásticas no personagem são necessárias não se comprova na prática. Algumas podem ser boas, a maioria é ruim. A questão é a forma como fazem essas mudanças.

Se fosse para estabelecer uma regra, ela seria a de que não se mexe na estrutura básica de um super-herói. Mata-se personagens secundários, dentro de limites. Eventuais mudanças de rota devem ser feitas de modo a não colocar o personagem em um beco sem saída, sempre com a consciência de que qualquer nova situação se esgotará mais cedo ou mais tarde.

Mas para mim o problema central não está em alterar o personagem. Está em mudar o passado. Esse é o erro que deve ser evitado a todo custo.

Por exemplo, o pessoal da DC matou Jason Todd, o segundo Robin, no fim dos anos 80. Era um personagem secundário, porque àquela altura o “verdadeiro” Robin ainda era Dick Grayson, na percepção do leitor. Matou e pronto, agora vamos em frente. Foi uma mudança drástica, mas compreensível, até lógica. E eles não ficaram fazendo auê em cima disso, ressuscitando o coitado a cada 10 edições. Pelo contrário: “Morte em Família” é até hoje uma das histórias mais lembradas do Batman porque continua imaculada, ninguém tentou desdizê-la. Agora, alguém conhece um admirador da “Saga dos Clones” do Aranha? Eu não.

Quanto ao DeMatteis, eu gostava das histórias dele; mas isso era uma opinião pessoal e concordo com a crítica que se fez a ele: o Aranha é intrinsecamente um personagem leve, apesar dos problemas, e a profundidade psicológica depressiva que o DeMatteis dava era algo arriscado. (Talvez tenha sido a época em que a Bezinha tenha lido o personagem, por exemplo.)

Mas o mais importante, mesmo, é que há algo de muito errado quando se pega uma tradição de 40 anos e altera tudo em função do sucesso de um filme.

Basta olhar o que fizeram com o Batman e com o Superman. Os filmes de ambos foram sucessos monumentais. Mas os editores do Batman não transformaram o Coringa em assassino dos pais do Bruce Wayne, nem o pessoal que escrevia o Superman matou Jonathan Kent só porque ele morria no filme. Evitando um cenário ainda mais assustador, não transformaram o Batman em ícone gay depois depois do seriado dos anos 60. Pelo contrário: foi justamente depois disso que Denny O’Neill e Neal Adams empreenderam a primeira “volta às raízes” do Batman, inclusive diminuindo a importância do Robin em suas histórias talvez para evitar, digamos, mal entendidos que levassem Bruce Wayne a ser preso por formação de uma rede de pedofilia.

Roger, acho que a melhor idéia do filme não foi a teia orgânica, mas a transformação da aranha radioativa em geneticamente modificada. Faz até mais mais sentido, agora que o mundo inteiro sabe que se você é mordido por uma aranha irradiada no máximo desenvolve um baita câncer, não super-poderes. Mas não acho que isso seja motivo suficiente para alterar o elemento constitutivo do Aranha. O Henrique lembrou uma coisa importante: uma das coisas interessantes sobre Peter Parker é que ele era um quase gênio. Foi por isso que conseguiu bolsa para a universidade. A teia orgânica, além de desnecessária, torna isso quase irrelevante.

De modo geral, o filme empobreceu o Homem-Aranha, comprimiu sua história e retirou personagens importantes para sua evolução como Betty Brant e Gwen Stacy. Funciona como filme, claro, mas é uma mídia diferente, e os editores do Aranha deveriam lembrar disso. Por serem públicos diferentes, balizar os quadrinhos em função deles é um erro descomunal.

É preciso lembrar também que o público de cinema não necessariamente se transforma em leitor de quadrinhos; não consta que as revistas do Aranha tenham conquistado 10 milhões de leitores. Eu não passei a ler o Superman só porque saí fingindo que voava do cinema, quando fui ver o primeiro filme (eu tinha 7 anos, ora). Além disso, a relação do menino que assiste ao Aranha no cinema pela primeira vez é diferente do leitor que o acompanha há anos, muito mais frágil.

Comparando ainda com o Batman, acho que uma das razões pelas quais suas revistas passaram incólumes pelo sucesso do filme está no fato de que ele atravessava uma de suas fases mais consistentes. Tinha saído de uma série de histórias fundamentais: “O Cavaleiro das Trevas”, “Ano I”, “Morte em Família”, “A Piada Mortal”. Enquanto isso o Aranha já se arrasta há algum tempo, e roteiristas desesperados parecem estar tentando achar uma fórmula mágica para retomar o sucesso.

Um exemplo dese deserto criativo pode ser notado num belo e-mail que o Pedro me mandou, esclarecendo que a Marvel Millenium Homem-Aranha é um universo alternativo, mesmo. Aí se torna mais aceitável recontar a história de Peter Parker, pretensamente de acordo com os novos tempos.

Mas eu faria diferente. Em vez de criar um universo novo, eu me restringiria a recontar a história nos moldes estabelecidos por Stan Lee. Aproveitaria lacunas, daria mais profundidade a aspectos que não podiam ser melhor explorados na época.

Por exemplo, a primeira namorada de Peter Parker foi Betty Brant. Imagine o que não se poderia fazer com isso. Um adolescente, ainda no high school, namorando uma mulher mais velha e financeiramente independente. As possibilidades dramáticas que isso permite: conflitos emocionais, descobertas sexuais — Deus do céu, eu fico babando quando imagino o que esse pessoal tem nas mãos e não aproveita.

E o caso Betty Brant é apenas uma delas. Deixemos claro: Stan Lee era um gênio. Os novos responsáveis pelo Aranha não são.

Enquanto matam o Homem-Aranha

Alguém um dia vai me contar direitinho o que fizeram com o Homem-Aranha.

Faz tempo que não leio suas histórias, mas passei na banca e folheei uma tal de Marvel Millenium, que aparentemente tenta recontar a história do amigão da vizinhança. Meu queixo caiu e fui dar uma olhada nos fóruns de leitores para saber o que estava acontecendo. Foi pior.

O Aranha é um dos super-heróis mais importantes da história, talvez o mais importante depois do Superman. Quando apareceu representou uma mudança fundamental no mundo dos quadrinhos, e apesar de não ter iniciado uma revolução — honra que cabe ao Quarteto Fantástico –, foi seu protagonista mais importante.

Em primeiro lugar, ele era um sujeito comum, apesar dos super-poderes. Tinha os problemas que seus leitores tinham. Foi também um personagem que, em vez de viver aventuras isoladas no tempo e no espaço, evoluía constantemente, saindo do segundo grau para a universidade, trocando de namoradas, arranjando novos problemas. Ao contrário dos personagens tradicionais, Peter Parker envelhecia.

O Aranha de Stan Lee e Steve Ditko era um adolescente magrelo sem sorte e cheio de problemas, um personagem com quem os leitores poderiam se identificar facilmente. A entrada de John Romita possibilitou o primeiro redesenho do Aranha, que se tornou mais musculoso, mais de acordo com o padrão dos quadrinhos. Por outro lado, os roteiros de Stan Lee eram brilhantes. O personagem tinha uma sintonia com a realidade até então inédita, e estabeleceu o padrão pelo qual super-heróis deveriam ser julgados a partir dali. A primeira abordagem das drogas em quadrinhos, por exemplo, aconteceu na revista do Aranha.

E então mataram Gwen Stacy.

A morte de Gwen deveria ser incluída em qualquer lista de 10 melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos. Nunca antes uma namorada de super-herói tinha sido assassinada. Ninguém poderia imaginar Lois Lane empacotando. Hoje isso virou lugar-comum, neguinho morre a três por quatro, mas na época foi uma revolução. Foi a primeira vez. E do ponto de vista da cronologia do personagem, foi um dos eventos mais importantes de sua história. Até hoje, sempre que os roteiristas ficam sem idéias, aparece alguma referência a Gwen Stacy.

Aquele foi o ápice do Aranha, mas foi também o fim da sua fase de ouro. Pelos próximos anos ele andaria às tontas de um lado para o outro, mal desenhado pelo Ross Andru e mal roteirizado por uma série de joões-ninguém. Nos anos 80 resolveram fazer uma grande mudança, e trocaram seu uniforme por um mais moderno, todo preto. O uniforme era até bonito, mas era como desenhar Jesus Cristo sem barba e tatuado. Não demorou muito para o uniforme voltar ao que era antes.

Aquele era o primeiro sinal de que não sabiam mais até que ponto ir, de que a busca por novas idéias tinha se transformado um mecanismo completamente desregulado.

Então a Marvel teve uma daquelas idéias geniais das quais depois se arrependem amargamente. Resolveram casar o Homem-Aranha. Nenhum outro super-herói do primeiro time tinha sido casado antes, mas o Aranha estava sempre no meio de uma revolução, eles devem ter pensado. Não tinham matado Gwen Stacy? O casamento parecia uma boa idéia.

O único problema, que os gênios da Marvel não conseguiram perceber, é que estavam fazendo exatamente o contrário do que Gerry Conway tinha feito ao jogar Gwen Station da ponte. A morte de Gwen libertou o Homem-Aranha para novas aventuras emocionais; sua nova idéia genial o prendeu para sempre. O casamento de Peter Parker e Mary Jane Watson (que foi transformada em supermodelo e passou a ter uma semelhança enorme com Cindy Crawford) tirou uma série de possibilidades para o super-herói.

Mesmo assim aquela foi uma das melhores fases do Aranha, até hoje, porque ali estavam explorando todas as possibilidades que a nova situação oferecia. Uma de suas melhores histórias, “A Última Caçada de Kraven”, é dessa época. E a entrada de Todd McFarlane possibilitou o primeiro redesenho do personagem em 25 anos (McFarlane aumentou os olhos da máscara do Aranha, tornou seu perfil mais esbelto e mais próximo do original e recriou a textura da teia). As pessoas hoje detonam McFarlane, mas ele foi um dos desenhistas mais importantes na história do personagem mais importante da Marvel.

McFarlane saiu e aí pelo começo dos anos 90 fizeram o Aranha embarcar na febre do momento: “mataram” o personagem. A tendência inaugurada pelo Superman se espalhou por praticamente todos os personagens do primeiro time; no caso do Aranha, eles reviveram um antigo clone, Ben Riley, que ocupou o lugar do super-herói sem sorte durante algum tempo.

(Eu li as histórias originais com o tal clone quando foram republicadas no início dos anos 90. E posso afirmar que era impossível que ele fosse o verdadeiro Peter Parker. A premissa dessa volta era falsa e o resultado só poderia ser a tragédia que foi.)

De lá para cá, com Peter Parker de volta, o Aranha vem se arrastando como naquela fase negra entre os anos 70 e 80. Preso a um esquema que lhe permite poucas mudanças críveis e realmente conseqüentes, é um zumbi que não vai a lugar nenhum. Pelo visto, anda faltando coragem para fazerem o que devem fazer: divorciar o Aranha e continuar com a tradição de evolução do personagem. Liz Allen, por exemplo, é um personagem que poderia ser muito bem aproveitado.

Diante da falta de coragem, resolvem partir para o deboche. Nessa tal Marvel Millenium, eles resolveram perverter toda a tradição o homem Aranha. Estão recontando a origem do personagem de uma forma absolutamente incompreensível. Fazem o coitado namorar a Mary Jane antes de todas as outras, tirando Betty Brant da história. Gwen Stacy passa a ser uma rebelde sem causa, e tudo isso ocorre no segundo grau (originalmente Parker só conhece Gwen Stacy e Mary Jane na universidade).

Mas a Marvel Millenium pode ser vista como uma espécie de “universo alternativo”. Eles conseguem fazer coisa pior nos títulos regulares. Atualmente estão copiando o filme e fazendo que a teia seja orgânica, o que não me parece uma boa idéia. Não é recomendável mudar uma tradição de quase 50 anos apenas por causa do sucesso de um filme. Por exemplo, os editores de Superman não mataram o pai de Clark Kent só porque ele morria no filme.

Mas a última loucura — essa sim, inexplicável — que fizeram foi alterar uma parte fundamental do passado do Aranha, e agora Gwen Stacy teve dois filhos com o arqui-inimigo do Aranha, Norman Osborn. A coisa chegou a um nível de retardamento difícil de acreditar.

Eles não aprendem com seus erros. Não sabem que é no mínimo temerário alterar o passado, e que destruir personagens fundamentais é sempre um erro. Deviam se mirar no exemplo do Batman. Quando Frank Miller recontou sua origem em Ano I, não mexeu nos fatos principais — que afinal de contas estavam aí havia quase 50 anos. Em vez disso, ressaltou alguns elementos importantes para a redefenição do personagem. O resultado é um clássico.

A diferença é que Frank Miller era um gênio e o pessoal que mexe com o Aranha não passa de um bando de idiotas com idéias pretensamente geniais. E que estão matando a sua galinha dos ovos de ouro.

Talvez eu seja apenas um velho leitor de quadrinhos, de outros tempos. Mas algo me diz que não. Porque eu já era um velho leitor de quadrinhos quando as obras-primas dos anos 80 apareceram. E a impressão que eu tinha era a de que estava diante de maravilhas, como na história de Alex Ross; hoje, me sinto como quem olha aqueles bailes, durante a Depressão americana, onde as pessoas dançavam até a exaustão para ganhar alguns trocados. A impressão é a de estar diante de um bando de desesperados que não sabem mais o que fazer.

O fã, esse desconhecido

Fã, decididamente, é uma raça esquisita.

Nos últimos tempos apareceram dois comentários aqui de fãs diferentes. Uma dos Beatles, outro do Nirvana.

São provavelmente duas das bandas mais importantes da história — embora o Nirvana costume ser superestimado demais. Ninguém contesta isso. O engraçado é que, por causa da admiração excessiva, eles andaram dizendo umas coisas esquisitas aqui.

A fã dos Beatles se recusava a ver a realidade — ela discordava do fato de John Lennon ter sido um pai abaixo do execrável para seu primeiro filho, Julian Lennon, ou de McCartney ser um egomaníaco, essas coisas. Em e-mail (porque eu também sou fã dos Beatles) citei algumas frases nada abonadoras de Julian sobre seu pai. Mas mesmo assim ela se recusava a ver as coisas. Ela sabia mais sobre Lennon como pai do que o seu filho. Eu desisti. Era como se, para admitir que eles foram grandes músicos, eles tivessem que ser também santos. É um comportamento comum entre beatlemaníacos.

O outro caso, mais recente, foi de um fã do Nirvana. O comentário referia-se ao show que o Nirvana deu no Brasil e onde Cobain, para lá de Bagdá, cuspiu na câmera e mostrou o pinto:

Bom caro “colega”, realmente eu não concordo com sua opinião. Kurt era muito mais do que colocava no palco, ou do que a mídia fazia transparecer. Ele era um ser humano, e como todo indivíduo, era diferente dos outros, tão diferente que não concordava com o rumo que sua carreira tomou, com sua individualidade sendo vendida em bancas de jornais ou na podridão da MTV. Realmente creio que vc viu o que Kurt quis que pessoas como vc visse.

Sempre que vejo essa história de “pobre rock star vítima do sucesso” tenho vontade de vomitar, porque é a coisa mais adolescente e monomaníaca que conheço. Dizer que um sujeito rico, famoso e etcetera enfiou uma bala na cabeça porque sua carreira estava tomando rumos estranhos é de fazer rir, apenas, mas “individualidade sendo vendida” traz de volta aquele revirar do estômago. As pessoas idealizam umas coisas muito malucas.

Eu devo ter visto aquilo que o Cobain quis, mesmo. E continuo dizendo que tudo o que eu vi foi um sujeito caindo pelas tabelas de tanta heroína, mostrando um pinto pequenininho como se isso fosse o máximo da rebeldia.

O meme dos livros

Seguindo a deixa do Smart:

1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Sinceramente? Esqueça aquelas grandes obras literárias. Eu queria mesmo era ser um livro de Sidney Sheldon ou Harold Robbins: rico, canalha e depravado.

2- Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Talvez o melhor personagem de ficção, o mais complexo e mais rico, seja Lucien de Rubempré, née Chardon.

3- O último livro que compraste?
The Press and America, Emery e Smith.

4- Os últimos livros que leste?
A Cavalaria Vermelha, Isaac Babel, e A Mulher do Próximo, Gay Talese.

5- Que livros estás a ler?
Os Escombros e o Mito: A Cultura e o Fim da União Soviética, de Boris Schnaiderman, Soldier’s Pay, William Faulkner, e Crime, Sociologia e Políticas Públicas, do Guto.

6- Que livros que levarias para uma ilha deserta?
Faço uma troca: prefiro levar 5 mulheres. Essa coisa de livros é superestimada.

Mas a pergunta não é sobre saliência e eu tenho que responder. Portanto, desde que satisfeita essa condição, deixa eu ver:

A Comédia Humana, Balzac: são, ao todo, 89 títulos, entre romances, contos, novelas e uma “fisiologia”. Mas, para mim, é uma obra só. Na verdade não precisaria levar mais nenhum.

Memórias de um Revolucionário, Victor Serge: já que, em tese, eu e meu harém estaríamos começando uma nova civilização, o livro do Serge serve para dar uma certa direção ética ao novo mundo.

As Flores do Mal, Baudelaire: um dos poucos livros de poesia de que eu gosto.

A Ilíada, Homero: longe de ser o meu livro preferido, mas é a base da literatura mundial. Fazer o quê.

As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain: li quando era criança, continua sendo o meu herói favorito.

E a obra completa de Dostoiévski, Mann, e tudo aquilo que eu ainda não li.

7 – Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Rapaz, sobrou alguém? Então lá vai: o Alex, o Ina, a Tata e o Marcus.

"Meu herói"

Que me perdoem os fãs de Dylan. Que me perdoem os fãs de Lou Reed.

O maior letrista do rock and roll se chama Chuck Berry e, en passant, foi também o sujeito que chegou para todos aqueles meninos brancos tocando guitarra e disse: “Olha, moleque, é assim que se faz.”

Há uns 15 anos, como lembrou o Marcus em um comentário aqui há alguns meses, Little Richard fez um longo discurso — daquele jeito escandaloso que só o velho Penniman tem — dizendo que era o arquiteto do rock and roll e que mesmo assim os ingratos não lhe davam um Grammy. É quase verdade: a importância de Richard é descomunal. Mas o rock só se tornou o que foi por causa de Chuck Berry.

Quem disse que o rock and roll dos anos 50 era apenas sobre garotas e carros certamente nunca ouviu Berry. Suas letras são, em uma palavra, fantásticas. Mas sua importância é desprezada em favor da sua contribuição ao papel da guitarra.

No entanto, se o papel de Berry como instrumentista foi fundamental, sob certos aspectos foi pouco original. Ele basicamente transferiu velhos riffs do blues para o novo ritmo. Foi pioneiro, certo, e pode reivindicar com justiça o título de inventor da guitarra no rock. Mas tecnicamente ele não criou aquele estilo. Recriou, no máximo.

Agora, as suas letras são outra conversa. Elas são única e exclusivamente suas. E são brilhantes.

A letra de Memphis é de uma beleza doce e singular; é provavelmente a minha preferida, desde que, há uns 10, 15 anos, eu passei a prestar atenção à poesia de Chuck Berry:

Long distance information, give me Memphis Tennessee
Help me find the party trying to get in touch with me
She could not leave her number, but I know who placed the call
‘Cause my uncle took the message and he wrote it on the wall

Help me, information, get in touch with my Marie
She’s the only one who’d phone me here from Memphis Tennessee
Her home is on the south side, high up on a ridge
Just a half a mile from the Mississippi Bridge

Help me, information, more than that I cannot add
Only that I miss her and all the fun we had
But we were pulled apart because her mom did not agree
And tore apart our happy home in Memphis Tennessee

Last time I saw Marie she’s waving me good-bye
With hurry home drops on her cheek that trickled from her eye
Marie is only six years old, information please
Try to put me through to her in Memphis Tennessee

Blowin’ in the Wind é linda, mesmo quando trucidada pelo Eduardo Suplicy; mas não tem um décimo da verdade e do sentimento que se percebe nessas linhas de Chuck Berry. E verdade e sentimento não podem obscurecer o fato de que a canção é admiravelmente bem construída do ponto de vista estrutural.

Em vários momentos ele atinge a beleza triste que normalmente associamos aos cantores de blues. Em Back to Memphis, por exemplo, um belo retrato de um fenômeno social dado sob uma ótica bem individual:

I’ve been struggling up here, child, trying to make a living
Everybody wants to take, nobody like giving
I wish I was in Memphis back home there with my Mama
The only clothes I got left that ain’t rags is my pajamas
No brotherly love, no help, no danger
Just a great big town full of cold hearted strangers

I went hungry in New York and Chicago was no better
But today, my dear mother wrote and told me in her letter
Son, come back to Memphis and live here with your Mama
You can walk down Beale Street, honey, wearing your pajamas
You know home folks here, we let do just what you want to
And I born you and raised you right here on the corner

I’m going to leave here in the morning and walk down to the station
I’ve got just enough money to pay my transportation
I’m going back to Memphis, back home with my Mama
If I have to ride that bus barefooted in pajamas
Back home in Memphis, no moaning and groaning
I know everything will be all right in the morning

O que Berry canta aqui é a migração de negros do sul agrícola para o norte industrializado, movimento típico de quase todo o século XX. É algo muito próximo do blues, mas com uma sofisticação poética dificilmente encontrada ali.

Por outro lado Havana Moon, à parte a delicadeza de sua melodia, traz uma história de desencontro e destruição de um sonho; mas conta também uma história de diferença social que talvez Berry só possa cantar por ser negro e conseguir, mesmo de forma sutil, dar de maneira clara e convincente o ponto de vista das classes inferiores:

Havana moon, havana moon
Me all alone with jug of rum
Me stand and wait for boat to come
It’s long the night, it’s quiet the dock
The boat she late since 12 o’clock
Me watch the tide easin’ in
Is low the moon, but high the wind

Havana moon, havana moon
Me all alone, me open the rum
It’s long the wait for boat to come
American girl come back to me
We’ll sail away across the sea
We’ll dock in new york, the buildings high
We’ll find a home up in the sky

Havana moon, havana moon
Me still alone, me sip on the rum
Me wonder where the boat she come
To bring me love, ow! sweet little thing
She rock and roll, she dance and sing
She hold me tight, she touch me lips
Me eyes they close, me heart she flip

Havana moon, havana moon
But still alone, me drinkin’ the rum
Begin to think the boat no come
American girl, she tell a lie
She say till then, she mean goodbye

Havana moon, havana moon
Me lay down alone, was good the rum
Me fall asleep, the boat she come
The girl she look till come the dawn
She weep and cry, return for home
The whistle blow, me open me eyes
Was bright the sun, was blue the sky
Me grab me shoes, me jump and run
Me see the boat head for horizon
Havana moon, is gone the rum
The boat she sail, me love she gone
Havana moon, havana moon

Eu cometi um erro durante alguns anos. Ouvi Berry pela sua guitarra, pela sua voz — ela tem uma ironia e uma sensualidade que todas as versões de suas músicas feitas por gente como os Beatles e os Rolling Stones não conseguem reproduzir –, pela sua música. Era pouco. Eu deveria ter entendido imediatamente a razão pela qual John Lennon, um artista para quem letra e música sempre foram indissociáveis, apresentou Berry em um programa de TV em 1974 chamando-o de “meu herói”. As pessoas devem ouvir Chuck Berry também por suas letras. E reconhecer, de uma vez por todas, que o pai da guitarra do rock foi também o seu primeiro poeta.

Who, the Who?

Um Cara, dizer que McCartney é um chato em um blog de beatlemaníaco é não ter amor à vida… Mas eu mesmo já passei o atestado de óbito de McCartney algumas vezes aqui.

Isso não quer dizer, em primeiro lugar, que o sujeito não seja um gênio absoluto. Ele é. Isso é indiscutível. Em segundo, tampouco implica que ele não seja um baixista formidável. Ele é. Mais que isso, é provavelmente o baixista mais influente da história, e essa é a razão pela qual o coloco como o melhor (deixando de lado gênios como Entwistle e James Jamerson, só para citar alguns). Com boa vontade, poderia colocá-lo também como guitarrista (ele é ótimo), como baterista (ele é bom) ou como tecladista (ele é razoável). O sujeito é um gênio. Ponto final.

Flavio, escolas falam, sim. É para isso que elas existem. E a frase é creditada, quase universalmente, ao Van der Rohen.

Telêmaco, eu nunca consegui gostar muito do John Paul Jones. Acho o baixista mais superestimado do rock. E o Bonzo não entraria na minha banda pela mesma razão do Hendrix: geniais, mas uma banda é um conjunto em que cada peça deve funcionar em função da outra. Eu prefiro um baterista sólido mas discreto como Ringo. A mesma razão pela qual coloco McCartney no baixo: independente de ser genial, ele sabe se controlar. Só consigo lembrar de um exemplo em que McCartney exagerou no baixo: Something, de Harrison.

Se me permite uma opinião, acho que há um equívoco nas guitarras. Harrison e Clapton juntos são redundantes. Ambos são solistas. Enquanto isso, o aspecto provavelmente mais subestimado de Lennon é que ele era um grande guitarrista rítmico. Se alguém quer um exemplo, ouça Clarabella, com os Beatles. em que ele toca apenas harmônica. Falta alguma coisa. A música não tem a coesão sonora típica dos Beatles. E o que falta é justamente a guitarra de Lennon.

Além disso, me perdoe, mas Harrison não é um guitarrista genial, não. É excelente, claro. Melódico e provavelmente o rei do slide. Mas eu consigo pensar em uma dezena de guitarristas infinitamente melhores que ele.

Umberto, eu nunca vi o Rock and Roll Circus. Mas ouvi Yer Blues com Lennon. É Keith Richards no baixo, não é? Aquele baixo é fantástico.

Reginaldo, o meu é com certeza um caso de velhice. Mas há um problema. Eu não vivi os anos 60. Mas durante muito tempo ouvi com atenção boa parte do que foi feito, e é difícil ouvir muita coisa nova sem catar as referências. Que me perdoem os roqueiros, mas a coisa mais vibrante e significativa hoje em dia é um gênero do qual sequer gosto muito: o rap. Quanto ao Roberto de Carvalho… Ele matou a Rita Lee! Você quer matar minha banda também?

O Bia ouviu o Velvet Underground na adolescência e nunca mais foi o mesmo. O Bia só se apaixona uma vez, e é um amor infinito e imortal. Não importa que ele ame uma baranga.

André, bela notícia: o Intelligentsia está de volta. Fora isso, a frase do Lennon tem que ser entendida dentro do contexto: era só um ataque a McCartney (dos mais leves, considerando a letra de How Do ou Sleep?. Quis dizer que o egomaníaco do Paul estava tão alucinado que se achava melhor que Ringo.

No fim das contas, a superbanda de cada um reflete suas preferências. Essa é a graça da coisa.

The Who

Reza a lenda que quando o Who foi gravar My Generation Roger Daltrey, ainda sem saber direito a letra da música, gaguejou involutariamente em “Why don’t you all f-f-f-fade away“. Isso fez a música.

E estragou, também. Toda a música é gaguejada. Enche o saco. Não sabiam que, como dizia o Bauhaus, menos é mais.

Falo isso porque voltei a ouvir bastante o Who depois de muito tempo.

Eu torço o nariz para Keith Moon. Acho exagerado. Nisso estou na excelente companhia de Pete Townshend, que depois reclamaria que nunca pôde escrever uma grande balada para o Who porque Moon só sabia descer a porrada. Quando o usam como ponto de comparação para descer a lenha em Ringo Starr, eu sempre lembro que os ex-beatles, mesmo quando emaranhados em uma rede de processos e contra-processos, xingando-se publicamente uns aos outros, sempre foram unânimes em dizer que Ringo era o melhor baterista do mundo; e sempre que monto minha superbanda pop imaginária coloco Ringo na bateria.

(A saber: Robert Plant no vocal, John Lennon na guitarra base, Eric Clapton na guitarra solo, McCartney no baixo, Elton John calado nos teclados, Ringo Starr na bateria, Jimmy Page e Brian Wilson produzindo canções individualmente e George Martin supervisionando tudo; e antes que reclamem da falta de Hendrix, e mesmo de Bonzo Bonham, lembrem que eu estou montando uma banda, não uma constelação. A coisa tem que funcionar, e funcionar bem).

Roger Daltrey é um vocalista no nível de George Harrison. No baixo nível. Para mim, o Who é uma belíssima combinação de três grandes talentos e um vocalista bonitinho que balançava o microfone de uma forma meio gay mas muito eficiente.

Mas o Who tinha dois gênios.

Não conheço grandes solos de Pete Townshend. Alguém conhece? Mas o sujeito tem uma importância que, com um pouco de boa vontade, quase chega perto da de Chuck Berry e Jimi Hendrix na definição do papel da guitarra no rock.

E John Entwistle. Não é segredo que considero McCartney o maior baixista pop do mundo. Mas quase aceito quando colocam Entwistle nesse posto. Se alguém quer saber como o Who conseguia aquele som tendo um só guitarrista, basta prestar atenção ao baixo.

E no entanto, mesmo sendo brilhante, mesmo sendo uma das bandas mais influentes da história, o Who soa limitado, com características definidas que não mudam de disco para disco. Foi isso que sempre me fez desconsiderar muito de sua contribuição para a música.

Mas eu vivo em uma época em que bandas que fazem a mesma coisa, disco após disco, são aclamadas como a salvação do rock a cada semana. Minha opinião tem mudado assustadoramente.

A rosa púrpura da digitalização

A essa altura todo mundo já sabe que os projetores de cinema de 35 mm estão condenados. Em no máximo uma década devem ser substituídos por projetores digitais, que exibirão não rolos de filmes, mas um arquivo digital.

A digitalização, à primeira vista, parece trazer apenas vantagens. As cópias não se deteriorarão com o uso. O custo de distribuição vai baixar, porque copiar um arquivo digital não custa nada, ao contrário das cópias em celulóide. Na hora em que um filme estiver disponível no Brasil todos os Estados poderão exibi-lo ao mesmo tempo, não precisarão mais esperar a disponibilidade de cópias. Filmes de baixo orçamento não precisarão mais ter lançamentos restritos por outras razões que não as de mercado.

Mas essa mudança deve trazer, logo, outra discussão.

Até há uns 20 anos, os filmes exibidos pela TV eram telecinados, exibidos diretamente de um projetor para a TV através de uma máquina especial (o telecine, óbvio). Traziam riscos, sujeira — fios de cabelo, por exemplo. Aí eles começaram a transferir os filmes para vídeo. O primeiro filme que assisti assim foi “Nunca Fui Santa”, com Marilyn Monroe e Rock Hudson, em 1986.

Parecia uma coisa maravilhosa, porque aquela limpeza era uma grande novidade. Mas havia um detalhe: se celulóide e videoteipe eram praticamente antagônicos (o celulóide oferecia mais profundidade e maior espectro de cores, entre outras vantagens, mas o mais importante, do ponto de vista do espectador, sempre foi a textura superior do filme), essa diferença havia baixado. Agora o filme tinha um quê de vídeo.

Filmes são exibidos a uma razão de 24 quadros por segundo. É um pouco menos que o vídeo, de 30 — mas bem menos que a maioria dos videogames, que passam bastante disso.

A digitalização torna definitivamente possível uma outra mudança, dessa vez importantíssima: o aumento no frame rate, fazendo com que filmes sejam captados a uma razão de, sei lá, 150 quadros por segundo, tornando-o cada vez mais semelhante ao olho humano.

É isso que me incomoda. Porque eu não quero um cinema cada vez mais parecido com a vida real. Eu quero cinema parecido com cinema. Não quero me imaginar como o personagem de Mia Farrow em “A Rosa Púrpura do Cairo”, misturando uma coisa e outra, até a mais completa loucura.