Chaos and Creation in the Backyard

Deve ser muito difícil produzir um disco de Paul McCartney. Por três razões. A primeira é o fato de o sujeito ser uma lenda viva, uma das últimas. A segunda, o fato de ele ter produzido, sozinho, alguns dos maiores sucessos dos anos 70 — seus Wings, ao lado do Led Zeppelin, foram talvez a banda de maior sucesso comercial da década. Terceira: se alguém esqueceu, foi ele o sujeito que inventou o estúdio como local de criação em vez de apenas gravação.

Nigel Godrich tem um bom currículo. Produziu o OK Computer, do Radiohead, e foi indicado a McCartney por ninguém menos que George Martin. Teve a coragem de desde o início deixar claro que não iria se abster de fazer suas próprias críticas, que só iria trabalhar nas canções de que gostasse. Nas entrevistas coletivas que vêm dando agora, ele e McCartney falam dos choques que tiveram e de como isso resultou em tensão criativa — mas as fofocas da época davam conta de desentendimentos piores.

Talvez o que Godrich tenha feito de melhor foi se recusar a trilhar os dois caminhos mais óbvios em se tratando de um músico com o porte e a história de McCartney. Podia simplesmente ser um engenheiro de som de luxo, deixando que o ex-beatle fizesse o que quisesse e como quisesse; ou poderia tentar transformar McCartney em algo que ele não é — um jovem com excesso de adrenalina e vontade de revolucionar a música pop.

O que ele fez foi simples: primeiro, não deixou que McCartney alcançasse o nível de auto-complacência que costuma demonstrar quando em uma banda fixa. Obrigou o sujeito a gravar sozinho, tocando todos os instrumentos, e executou um controle de qualidade estrito quanto às canções apresentadas. Parece ter compreendido o que Lennon sempre disse: quando forçado, Paul McCartney é capaz de fazer coisas realmente grandiosas. Em segundo lugar, deu uma roupagem moderna a sua música, como era necessário, mas ao mesmo tempo reforçou todas as melhores características que fizeram dele o artista mais bem sucedido da história da música pop.

Mas há uma pequena diferença entre o McCartney com o baixo Rickenbacker e o de 2005. Driving Rain, seu último disco de estúdio, de 2001, trazia um traço um pouco inusitado na obra de McCartney, sempre o autor de letras leves, bobas e otimistas: pela primeira vez, de maneira consistente, entrevia-se letras pessoais, que sempre foram o traço distintivo de Lennon. Aquele era o primeiro disco de estúdio e com músicas compostas após a morte de Linda McCartney. E o que ele cantava ali era medo, dor, perda, saudade.

Nesse aspecto, o novo disco segue no mesmo caminho. É um disco sombrio em várias de suas letras, e como raras vezes antes consegue-se entrever os sentimentos pessoais de um sujeito que nunca se incomodou em empurrar as letras mais bobas se a melodia fosse boa. Mas Driving Rain tinha também o defeito de, de repente, ter tirado de McCartney sua personalidade. Apesar de algumas grandes gravações, naquele disco ele era como um vehinho de quase 60 anos numa festa de adolescentes. Foi justamente esse erro que Godrich evitou. O resultado é o melhor disco de McCartney em muito tempo. É um disco verdadeiramente novo, dentro dos limites de um sujeito que roda os palcos há quase 50 anos.

Chaos and Creation in the Backyard será lançado amanhã. Está sendo anunciado como o vigésimo disco de estúdio de McCartney. Nas minhas contas é o vigésimo primeiro, mas e daí? Definitivamente, é um grande disco.

Eis uma opinião sobre o disco, faixa por faixa:

Fine Line
O carro-chefe. Uma canção que, em muitos momentos, lembra os Wings, provavelmente o ápice da carreira solo de McCartney. E desde os primeiros acordes já mostra que o instrumento dominante neste disco será o piano. Mostra também que, como aconteceu no álbum anterior, McCartney voltou a abordar o seu contrabaixo como se deve: com a postura esperada do baixista mais influente da música pop.

How Kind of You
É uma canção complexa que poderia estar no Driving Rain, pela pior razão: apresenta um padrão de composição de McCartney que demonstra uma certa perda do brilho melódico que sempre foi sua marca registrada. Isso não faz com que seja uma música ruim, longe disso. É uma canção pungente, verdadeira, e também um dos arranjos mais complexos do disco.

Jenny Wren
Descrita pelo autor como “irmã mais nova de Blackbird“, poderia ser descrita melhor como a sua irmã feia. Apesar do arranjo, da mesma mensagem otimista, há algo que não decola na música, como se fosse uma tentativa de gravar uma versão levemente diferente da mesma música. Lembra muito mais Distractions, do Flowers in the Dirt (1989). Mas esse é o comentário de alguém que tem Blackbird na cabeça. Talvez, se vista de maneira isolada, ela seja mesmo tudo o que se diz dela.

At The Mercy
Chata, só isso. Para que gastar tempo escrevendo sobre uma música chata?

Friends To Go
Bela canção, com traços de country — dominada pelo violão em um disco que parece ter sido todo composto no piano — e estrutura melódica que lembra os Beatles, aqueles de 1965, entre o Help! e o Rubber Soul, mas principalmente os primeiros anos de sua carreira solo. Uma letra interessante, bem construída, aparentemente despretensiosa mas cheia de pequenas surpresas, e com belas imagens. McCartney disse que esta canção foi feita rapidamente porque não era ele escrevendo: ele sentia que George Harrison estava escrevendo essa música para ele. Então tá. Pode-se mesmo sentir ecos do estilo de Harrison na canção. Mas seja lá de que mundo venha, psicografada ou não, Friends To Go é McCartney em sua melhor forma: pop de altíssima qualidade e um talento melódico excepcional. Ele diz que é uma de suas músicas preferidas no disco; é uma das minhas, também.

English Tea
A linha descendente de acordes no piano lembra, muito vagamente, For No One. Mas isso é tudo. De qualquer forma, pela letra curiosa e pela harmonia e arranjos, extremamente econômicos ao mesmo tempo que evocativos dos anos 60, é uma canção que poderia muito bem estar no Revolver. Elegante e clássica.

Too Much Rain
É talvez a minha faixa preferida no disco, ao lado de Friends to Go. Quando se ouve McCartney cantar “It’s not right, in one life, too much rain” é impossível não pensar nos quatro anos em que viu Linda McCartney perder a batalha contra o câncer, e nos três anos seguintes, quando foi a vez de George Harrison.

Certain Softness
Parece ser a maneira como McCartney entende a música latina. É um grande bolerão, ainda que tenha o seu toque pessoal. É também uma das canções do álbum que revelam a extrema versatilidade e inventividade melódica de McCartney. De certo modo, é como Nat King Cole cantando “Cachito, Cachito, Cachito mio

Riding to Vanity Fair
Uma canção sobre amizade e traição, quase amarga. A pergunta que se faz é a quem é dirigida. Minha aposta: Geoff Baker, o relações públicas que McCartney demitiu recentemente depois de anos juntos, e com quem andou trocando algumas farpas. Outra canção que poderia muito bem ter saído de Driving Rain.

Follow Me
Sem dúvida vai ser umas das canções na turnê de McCartney que começa dia 16; e sem dúvida é uma das mais fracas de todo o disco. Uma balada típica, com bela melodia, é verdade, mas nada que ele não tenha feito antes. É apenas mediana dentro do contexto em que se apresenta. Em um ábum mais fraco talvez não fosse.

Promise To You Girl
Um dos poucos rocks deste disco, uma canção alegre e divertida que chega quase a quebrar o tom melancólico e sombrio do disco. É impossível não bater o pé enquanto se ouve a música. Bela canção.

This Never Happened Before
Boa balada de McCartney, mas em um disco tão bom, e com vários momentos brilhantes, parece ser apenas mais uma balada, com algo de anos 70, quase algo de Barry Manilow. Talvez seja injustiça.

Anyway
Outra balada ao piano típica. Nada demais, e também nada que comprometa o álbum.

***

O disco pode ser comprado, a partir sei lá de quando, no Submarino. Compre por aqui e a comissão vai para uma vítima do Katrina e seu cachorro pederasta, para ver se ele finalmente pára de fazer posts sobre o bicho.

Jealous Guy

Jealous Guy é uma das músicas mais bonitas que algum filho da mãe já escreveu até hoje. É quase perfeita: na melodia, na letra, no arranjo extremamente simples.

No entanto, ela foi rejeitada durante dois anos pelos Beatles. Seu título original era Child of Nature, e a letra era essa:

On the road to Rishikesh
I was dreaming more or less
And the dream I had was true
Yes, the dream I had was true

I’m just a child of nature
I don’t need much to set me free
I’m just a child of nature
I’m one of nature’s children

Sunlight shining in your eyes
As I face the desert skies
And my thoughts return to home
Yes, my thoughts return to home

Underneath the mountain ranges
Where the wind that never changes
Touch the windows of my soul
Touch the windows of my soul

Child of Nature foi escrita na Índia e deveria entrar, originalmente, no “Álbum Banco”. Era mais ou menos Mother Nature’s Son (de McCartney e que foi incluída no disco) com um tom mais telúrico, aquele jeito meio Gaia de ser. É uma letra fraca, boba; lhe falta verdade. E basta compará-la com a definitiva para ver que os outros três beatles tinham razão.

Ao que tudo indica, Lennon ouviu os conselhos dos companheiros — ou, mais provavelmente, de Yoko Ono. Refez a letra, fez dela um recado claro para Yoko — e ao mesmo tempo deu um toque de genialidade que a tornou universal. É mais fácil encontrar sujeitos ciumentos que filhos da natureza em comunidades hippies. E então o que poderia ser só mais uma canção boba se transformou em um clássico maravilhoso:

I was dreaming of the past
And my heart was beating fast
I began to lose control
I began to lose control

I didn’t mean to hurt you
I’m sorry that I made you cry
I didn’t want to hurt yo
I’m just a jealous guy

I was feeling insecure
You might not love me anymore
I was shivering inside,
I was shivering inside,

I was trying to catch your eyes
Thought that you were trying to hide
I was swallowing my pain
I was swallowing my pain

Jealous Guy diz muito sobre a maneira como os Beatles trabalhavam.

As saias da Darlene

O que é moda no Rio vira moda no resto do Brasil. As saias de puta suburbana da Darlene, em “Celebridade”, viraram coqueluche no país inteiro. A amplificação que a TV dá a “novas tendências” faz com que as pessoas percam seu senso crítico, porque moda não tem a ver com vestir-se bem, e sim com a tendência demasiado humana de seguir ao lado do rebanho.

Mas este país tem uma riqueza absurda.

No final de julho estava no aeroporto de Salvador, numa das minhas passagens-relâmpago pela cidade que forçam amigos a rodar quilômetros para uma ou duas horas de conversa fiada e implicância. Tomava um café com a Cipy quando ela me apontou uma moça que passava. Usava um vestido laranja com motivos africanos, e Cipy deu o nome da estilista: Goya Lopes.

Se você não é baiano é provável que não faça idéia de quem seja ela. Mas na Bahia ela é famosa, seus vestidos vendem, e ajudam a criar uma estética regional própria, que independe da força de marketing de veículos de massa nacionais como a Rede Globo.

Durante muito tempo, mesmo depois de ter sido expulso do eixo político-econômico do país, o Rio ainda foi a caixa de ressonância da cultura brasileira. Para acontecer no país, era preciso acontecer no Rio de Janeiro. Para que o Brasil conhecesse Dorival Caymmi ou Ednardo, eles tinham que ir para o Rio. Continuassem na Bahia ou no Ceará e ninguém saberia que é doce morrer no mar, ou ninguém perderia Maria Helena para o dentista enquanto engomava a calça.

As coisas, no entanto, estão mudando.

Há alguns anos, passando por aquela favela logo depois daquela entradinha que liga a Av. Brasil à Linha Vermelha, eu vi um cartaz ou outdoor anunciando um show da banda Calcinha Preta.

Se você não é nordestino ou não mora mal, dificilmente ouviu falar da Calcinha Preta. É uma banda sergipana de forró, esse forró brega que começou com o Mastruz com Leite no Ceará e está destruindo a tradição musical nordestina, talvez a mais rica do país. Como ela existem dezenas de outras. E elas cresceram sem precisar da Globo ou da Veja, se firmaram em suas cidades, em seus Estados, e se espalham. Encantados com suas modinhas passageiras de verão, o centro do país não vê o que acontece.

Não se discute aqui a qualidade musical dessas bandas. Elas são ruins. Pior: são deletérias e nocivas. Mas sào também um sintoma de que este é um país maduro o suficiente para permitir a descentralização cultural.

Em tudo isso há uma coisa boa. Talvez um dia o país deixe de se tornar refém de modas artificiais. E a gente nunca mais vai ter que ver as pessoas usando as saias da Darlene.

Caos e criação no quintal

Em setembro Paul McCartney lança seu novo disco, Chaos and Creation in the Back Yard (seis dias depois do lançamento do novo dos Stones, que o Brigatti, fingindo que coisas medonhas como Undercover, Dirty Work, Steel Wheels, Voodoo Lounge e Bridges to Babylon não existiram, ainda espera com ansiedade. Vida de fã é triste. Sei bem como é).

Para um sujeito que durante muito tempo chegou a lançar dois discos por ano, além de vários compactos, já há algum tempo a produção de McCartney é bem mais esparsa. Nas últimas duas décadas McCartney lançou apenas 5 álbuns (sem contar uma infinidade de discos ao vivo, umas coletâneas, uns discos de experiências sonoras, duas incursões medíocres pela música clássica e dois bons discos de covers de clássicos do rock and roll).

Algo estranho e engraçado acontece quando McCartney lança um novo álbum. A recepção é normalmente boa. Elogiam o disco e dizem que o disco anterior era uma droga. No lançamento seguinte tudo se repete: este é um grande álbum e o último foi um lixo. É sempre assim. Nesse vaivém, nem sempre a crítica está certa — nos elogios imediatos ou no desprezo posterior. Por alguma razão que não sei explicar, McCartney acabou sendo um artista ao mesmo tempo paparicado e perseguido, o que prejudica um julgamento imparcial da sua obra. Um exemplo disso é todo mundo lembra daquela parceria infame com Michael Jackson. Mas todos esqueceram que Mick Jagger também gravou com o Comunista de Neverland.

Na verdade, os resultados dessas últimas duas décadas têm sido irregulares. Press To Play (1986) é considerado um dos seus piores discos, inclusive pelo autor; Flowers in the Dirt (1989), aclamado por sua parceria com Elvis Costello, é considerado o seu retorno. Off the Ground, 1993, é elogiado por muita gente, mas é um disco absolutamente medíocre. Aí vem Flaming Pie, de 1997, para mim seu melhor disco nesses últimos 20 anos, e finalmente Driving Rain, de 2001 — que para alguns é excelente, mas que para mim soa estranho e pouco inspirado; vale apenas por umas três ou quatro faixas. Driving Rain traz a pior música que McCartney gravou em toda a sua carreira, Freedom, hino guerreiro deprimente composto logo após o 11 de setembro. Quem quiser entender por que Lennon, um músico inferior, é mais respeitado que McCartney, só precisa comparar essa canção com Give Peace a Chance.

Talvez por isso eu não estivesse muito ansioso pelo novo disco. Nem mesmo com o anúncio de que ele tinha dispensado sua banda e tocado a maioria dos instrumentos (hábito antigo, típico de um sujeito que tem que passar a vida provando a si mesmo que era melhor que Lennon). Nem o de que seria co-produzido por Nigel Godrich, produtor do Radiohead e de Beck.

Mas aí ouvi a nova canção do sujeito. Está disponível em seu site. Desde 1997 McCartney vem lançando seus singles na internet, antes do lançamento do disco. Young Boy em 1997, Driving Rain em 2001. Ouvi as duas e lembro de achar Young Boy um pop sem consistência e de achar Driving Rain francamente ruim.

Fine Line, a música de trabalho desse disco, é diferente. É uma canção típica de McCartney, com ecos dos tempos dos Wings; há muito tempo ele não faz isso. Não é brilhante, não é inovadora. Mas é consistente, e esse é um adjetivo que já não se dava a McCartney há algum tempo.

Paul McCartney já deixou de ser um artista fundamental há muitos anos, e o novo disco não vai reverter isso. Seus dias passaram, e hoje o tempo é dos Wilcos da vida, ou seja lá qual a sensação da última semana aclamada como os novos Beatles. Mas ainda é o sujeito que transformou a música ocidental, ainda é uma lenda viva, ainda é um dos mais completos e inventivos instrumentistas da história do rock e do pop, ainda é uma grande músico. O novo single é um bom presságio. Pelo menos para fãs.

Sexo Anal

Uma tarde de sexta-feira de julho e eu estava saindo de casa para a doceria aqui perto. Na portaria, um pacote para mim.

Vinha embrulhado em papel pardo, como imagino que venham os vibradores e bonecas infláveis comprados por reembolso postal. O envelope não podia ser diferente, nem mais adequado.

Ali estavam eles. Dois exemplares de “Sexo Anal”, o livro do Bia, finalmente.

Eu já estava me sentindo humilhado. Todo mundo tinha o seu, menos eu. Tudo bem, eu pensava. Vou retirar tudo o que eu disse do livro. Genial um cacete. Brilhante uma ova. O despeito e a inveja sempre fazem a gente diminuir as uvas que não pode pegar.

Mas ali estavam os livros, finalmente.

A demora compensou. Além da edição normal, eu recebi também o número zero, onde o Bia fez ainda algumas correções. Agora é esperar que o Bia se torne famoso para eu vender minha cópia única do seu primeiro romance. Quer dizer, talvez. Porque a dedicatória me envergonharia um pouco. Imagine-se o leiloeiro da Sotheby’s dizendo, naquele inglês pedante-quase-gay: “And now for your appreciation: the very first copy of “Sexo Anal”, Anal Sex, the book that made Mr. Bea Jones famous. It includes a few words to his friend Rafael Galvão: ‘Toma, guei! O número zero!'”.

É uma forma meio complicada de passar à posteridade.

Mas é isso. São essas as idéias que vêm à sua cabeça enquanto você lê “Sexo Anal” numa doceria.

Sentado diante de uma torta de morango, um exemplar na minha mão e o outro na mesa, à minha frente. É quando sai uma velhinha da doceria. Ela olha para o livro na mesa, e vê a Marilyn fazendo biquinho para a vela túrgida e palpitante, e lê o título grande em letras brancas, “Sexo Anal”, e tem um sobressalto, e olha de novo para se certificar de que aquilo é verdade, de que aquilo não é uma peça pregada por sua mente, de que desejos há muito sublimados não forçam sua passagem pelas barreiras do superego. Ela vira a cabeça, como aquilo de que agora lembra virou tantas vezes antes, não pára de andar. Deve sair pensando que somos “uns indecentes. No meu tempo a gente fazia, mas não falava”.

Cheguei em casa e coloquei um disco do Howlin’ Wolf. A voz do negão combina com “Sexo Anal” como poucas outras. Combina também com minha nova idéia.

Eu agora tenho um novo divertimento. Demente como todos os divertimentos genuínos são. Agora vou para as casas de chá com o meu exemplar de “Sexo Anal”. Quero virar a cabeça das velhinhas. Fazê-las lembrar de tempos d’antanho, e olhar para mim com aquela cara de “se esse putinho fosse meu filho eu o enchia de porrada.”

A adorável Mrs. Miller

Confesso que torço o nariz diante de covers de canções dos Beatles.

Eles não eram apenas bons compositores. Eram também uma grande pequena banda, como Lennon costumava dizer. Eram grandes intérpretes, e essa é uma das razões para sua permanência.

Há muito poucas de que gosto. Ray Charles cantando Eleanor Rigby, os Skatalites tocando I Should Have Known Better, pouca coisa. Por exemplo, nao há nada mais tétrico do Elvis cantando Hey Jude. Talvez as versões em português sejam piores, é verdade.

Mas de vez em quando aparece algo fantástico, algo que me impressiona a ponto de praticamente me fazer esquecer as versões originais.

Como esta versão de Mrs. Miller cantando A Hard Day’s Night.

Wonka

Mês passado fui assistir a “Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolates”.

Os primeiros 15 minutos do filme são excelentes. A cenografia, típica dos filmes de Burton, é muito boa, e chega a lembrar “Edward Mãos de Tesoura” (a cena de Wonka com a tesoura certamente é uma referência). A casa inclinada da família Bucket também é uma grande sacada — provavelmente a segunda melhor do filme. Finalmente, a idéia de usar o mesmo ator como todos os Oompa Loompas é absolutamente genial.

Mas — e tudo o que a gente diz antes de um “mas” não importa — aqui acabam os méritos desse filme.

Seus valores de produção são, claro, muito superiores aos do filme original, feitos há quase 35 anos. A direção de arte é perfeita. Mas isso não é suficiente para compensar uma série de deficiências do filme, algumas visíveis por si sós, outras claras em comparação ao original.

Talvez a maior ironia do filme tenha sido o tratamento dado a Charlie Bucket. O filme original se chamava Willy Wonka and the Chocolate Factory; o novo se chama troca o nome de Wonka pelo de Charlie — mas neste filme o personagem perde importância, sua passagem pela fábrica é insignificante. O processo que leva Charlie à fábrica é contado mais rapidamente, e com isso perdemos muito da compreensão do personagem. Essa é a tônica durante todo o filme: Charlie é apenas um transeunte em um filme que não é mais o seu.

E então aparece Willy Wonka.

Há mais de um ano eu me perguntava o que iam fazer com um filme que, afinal, foi adorado por crianças durante mais de três décadas. Meu medo era o de que fizessem de Willy Wonka um louco óbvio. Porque por melhor ator que seja Johnny Depp, não há ninguém capaz de interpretar com a sutileza necessária as mais variadas nuances de loucura como Gene Wilder. Se alguém tem dúvida, assista a “Tudo o Que Você Queria Saber Sobre Sexo Mas Não Tinha a Quem Perguntar”, de Woody Allen.

Mas eu não precisava ter medo. Burton e Depp não fizeram de Wonka um louco óbvio. Fizeram dele um imbecil.

O novo Willy Wonka é um sujeito com a cara do Steven Tyler sob muita maquiagem e a psique do Michael Jackson em Neverland Ranch. É de se perguntar como um idiota daqueles conseguiu construir um império. Porque aquele sujeito perturbado, incapaz de pronunciar a palavra “pai”, no mundo real só poderia almejar a uma cela acolchoada. Willy Wonka é, talvez, a maior decepção do filme, embora não pelos motivos que eu esperava.

Decepcionante também é a trilha sonora. Danny Elfman está se tornando uma espécie de John Williams: todas as suas trilhas são basicamente variações de uma só. E assim como eu costumo confundir os temas de Superman, Indiana Jones e Star Wars, para mim todas as trilhas de Elfman são a mesma coisa.

Curiosamente, é nas canções que ele deixa o bastão cair de verdade, contrariando a expectativa do sempre generoso Bia Jones, que lembrou o histórico pop do sujeito. Quem viu o original certamente lembra da Oompa Loompa Song. Mas as novas canções, embora mais bem elaboradas, perderam todo o apelo. Ninguém se lembra delas assim que sai do cinema.

Segundo suas próprias declarações, John August, roteirista da nova versão, nunca tinha assistido ao filme original. Depois de terminar o roteiro assistiu — e ficou surpreso ao ver o quanto o filme original era mais “sombrio” em relação ao seu. Mesmo com acréscimos desnecessários, como a infância de Wonka, o original continuava assustando mais.

Mas eu não diria que ele é mais sombrio. Eu diria que o filme original é mais denso, apenas, e melhor construído. É um filme, não um passeio vazio por uma fábrica surreal. A versão de Burton perdeu densidade psicológica, e mesmo o roteiro acrescentou falhas sem tirar as do filme original. O pai de Charlie Buckett, por exemplo — afinal, o que ele faz no filme, além de tirar parte da justificativa para a miséria em que a família vive? E o avô de Charlie — na hora que vê o ingresso salta da cama e começa a dançar uma espécie de hornpipe; quer dizer que o entrevado estava só fingindo, dividindo uma cama com mais 3 macróbios e se contentando com sopa de repolho? Seu personagem não tem um décimo do carisma do original, e com isso o filme perde muito.

Em hipótese alguma o acréscimo do pai de Charlie à história poderia compensar a retirada do sr. Slugworth. No filme original, a proposta escusa de Slugworth é o que faz, em última análise, Charlie herdar a fábrica: é a honestidade de Charlie apesar de todas as adversidades que o faz superar todos os outros, não sua mera sobrevivência ao passeio.

Nesta versão, no entanto, tudo o que aquele pobre coitado (interpretado galhardamente por Freddie Highmore) tem que fazer é ficar quieto e não ser uma menina rica mimada, um glutão com sérios problemas de obesidade infantil para compensar sua vida germânica vazia, um vidiota que não consegue canalizar sua agressividade para algo útil ou uma menina hiper-competitiva que só pode almejar na vida uns 3 campeonatos e 10 anos de análise xingando sua mãe a 100 dólares por sessão. Basta não fazer nada, e não ser eliminado naquele “No Limite Para Hipoglicêmicos”. Só isso. Não há lição a ser aprendida aí, a não ser o contrário do que se pretendia no original: seja atrozmente medíocre e vossa será a Fantástica Fábrica de Chocolates.

A lista incompleta de Schindler

Há alguns anos fiz uma lista dos 100 melhores filmes, na minha opinião. A lista, no entanto, tinha 101: eu fiz questão de incluir “A Lista de Schindler” como o 101o.

Só fiz isso por revolta. “A Lista de Schindler” é, para mim, a maior quase-obra prima da década de 1990.

A partir da abertura, eu fiquei maravilhado com o filme. Assim como Romário é o gênio da pequena área, Spielberg é o mestre dos primeiros 15 minutos de um filme — e se superaria depois com a incomparável seqüência inicial de “O Resgate do Soldado Ryan”.

Ao contrário do que aconteceria alguns anos mais tarde em Ryan, Spielberg não se perde ao conduzir Schindler. Nas próximas quase 3 horas, o que se vê nas telas é um filme quase absolutamente irreparável. Não há críticas a se fazer a ele, a nenhum aspecto — a não ser ao óbvio vestido vermelho da menininha, truque usado com mais pertinência e relevância em Rumble Fish por Coppola, 10 anos antes.

É então que Spielberg tem que lembrar que é o autor de “ET”.

Nos últimos 20 ou 30 minutos de filme, Oskar Schindler se transforma. Aquilo que começou como uma oportunidade única de ganhar um bom dinheiro passa a ser a razão de sua vida. Até então, a preservação dos judeus tinha sido apenas o cuidado que o senhor de escravos tem com sua senzala; ele apenas entendia que deveria cuidar do seu capital. Mas no final Schindler se torna um humanitário com uma missão.

Curioso é que, segundo todos os relatos dos sobreviventes daquela lista, Spielberg apenas retratou a verdade: Schindler foi mesmo tocado pela desumanidade de tudo aquilo que acontecia, e se tornou um defensor sincero de seus judeus e um pacifista, sabotando ou, o que é mais provável, ligando pouco para a sua produção bélica.

Mas não estou acusando Spielberg de mentiroso, e sim de ter prejudicado o seu filme. Ao retratar um Schindler que se tornou um herói da humanidade por motivos puramente egoístas, ele poderia ter criado um dos melhores personagens da história do cinema, alguém que se tornou grande a despeito de si próprio. Não importa que ele estivesse mistificando a realidade. O cinema faz isso todo o tempo, com todo mundo; às vezes chamam a isso de “compressão histórica”, às vezes de “licença poética”. Não estamos falando de história, mas de cinema. O Schindler que víamos até ali, um homem oportunista, eticamente flexível, podia se tornar um dos grandes anti-heróis do cinema: mas a partir do momento em que se “converte”, passa a ser só mais um herói, que diminuía sua própria importância humana ao se tornar extremamente maniqueísta.

E além disso nada justifica a cena em que Schindler, prestes a fugir, chora pelos judeus que não salvou: “Este casaco poderia pagar a vida de mais um judeu! Este anel!”. Primeiro porque ele não precisava de mais do que já tinha feito para se tornar um homem a quem a humanidade deve muito; segundo porque é uma cena absolutamente implausível dentro do contexto do filme e também diante do verdadeiro Schindler.

Spielberg até então tinha feito um filme cruel, cínico e cru: destruiu tudo para imprimir a sua marca de autor de melodramas. Se até então havia uma ambigüidade fascinante em Schindler, Spielberg finalmente consegue torná-lo óbvio e chato.

Ele ainda conseguiu piorar as coisas. Tinha feito um filme brilhante em preto e branco, a despeito de várias pressões. Mas resolveu fazer sua profissão e fé e incluiu uma espécie de coda em cores, com os sobreviventes indo colocar pedras no túmulo de Schindler. É absolutamente desnecessário. Torna o filme panfletário, o que ele não precisava ser.

“Schindler” ainda é um dos melhores filmes da década de 90. Mas poderia ser um dos melhores da história, e não é. E por isso a minha revolta.

Originalmente publicado em 16 de março de 2004

Saló ou 120 Dias de Tédio

Tinha uma boa farra para ir na sexta, mas desmarquei tudo quando soube que o Telecine ia exibir “Saló ou 120 Dias de Gomorra”, de Pasolini.

Embora eu não visse um filme seu há mais de 10 anos, sempre gostei de Pasolini. Talvez continuasse gostando porque não pude reavaliá-lo à medida que envelhecia e ia ficando cada vez mais conservador.

“Saló”, por sua vez, era um filme que eu devia a mim mesmo. Quando ele finalmente foi liberado no Brasil, em 1989, perdi a chance de assisti-lo porque ficou muito pouco tempo em cartaz.

Eu sabia o suficiente sobre o filme. De acordo com Pasolini era uma denúncia do domínio nazi-fascista sobre a Itália, livremente inspirada no livro homônimo do Marquês de Sade. Se pretende um filme libertário e intelectualmente instigante.

Então tá.

Logo nos créditos de abertura algo me assusta: Pasolini inclui uma “bibliografia essencial”. Ai, meu Deus. Lá vem. Eu não confio em filmes que pretendem discutir conceitos filosóficos. E confio ainda menos num filme que inclui nesse pretenso debate um livro de Roland Barthes — ele mesmo, o óbvio e obtuso. Para Pasolini o filme é mais que cinema, é um projeto político-intelectual-filosófico-metafísico ambicioso e multifacetado. Mas apesar de toda a sua vontade, um filme continua sendo só um filme. É necessariamente superficial, porque jamais terá a profundidade de um livro. Quem quer defender princípios filosóficos escreva uma tese, e deixe o cinema para quem quer contar uma história.

Durante as próximas horas me vejo em meio a um festival de taras e crueldade, curiosamente exibido com um pudor gráfico inusitado. A única exceção é a longa seqüência sobre coprofagia, o “círculo da merda”, extensa e longa. De resto, o filme não tem personagens, apenas situações sem sentido e ilógicas.

Foi com algum esforço que assisti ao filme até o fim. Que filme chato, chato, chato. Só consigo usar esse adjetivo, porque outros — ultrajante, ofensivo, radical — seriam grandes elogios a um filme que não merece mais que um levantar triste da poltrona e um abano negativo da cabeça.

O filme é inferior até mesmo à obra de Sade que lhe deu origem, porque o livro se restringe ao universo do sado-masoquismo, não se pretende uma parábola política. As parafilias de Sade são mais honestas, mais verdadeiras: sua satisfação é a única coisa que pedem. O filme é também tecnicamente — fotografia, som, cenografia — mal-feito, inferior ao que se fazia na Itália 20 anos antes; como se voltasse a um tempo em que Fellini e Visconti ainda não tinham nascido.

“Saló” deixa em mim uma impressão clara: é Pasolini subindo na mesa do bar e gritando “olhem para mim! Vejam como eu sou chocante! Vejam como eu sou maldito e brilhante!” E no entanto ele é apenas chato e bobo, e as pessoas olham indiferentes para ele e voltam a cuidar de suas vidas. Porque elas, por insignificantes que sejam, são mais interessantes que aquele filme infantil.

***

Lulu, não acho que vanguarda seja algo ruim em si, apesar de gostar muito da frase do Lennon pré-Yoko Ono em que ele a define com uma crueldade enorme: “Avant-garde é ‘merda’ em francês”.

Acontece que nem tudo que se pretende vanguarda é bom. Aliás, nem tudo que se diz vanguarda o é.

Pelo menos no meu conceito semântico da palavra, vanguarda é algo que vai à frente. Desbrava caminhos, abre picadas que mais tarde se tornam grandes estradas. Mas às vezes muitas coisas que se definem vanguarda na verdade estão pegando um caminho marginal e paralelo que não vai dar em lugar algum. Às vezes até isso pode ser bom; geralmente é só um exercício de vaidade fútil, de criatividade vazia.

Dentro desse conceito, “Cidadão Kane” era vanguarda. “O Anel dos Nibelungos” era vanguarda. “Ulysses” era vanguarda. “Saló”, definitivamente, não é. Se alguém me apontar uma obra sequer que tenha se inspirado no filme eu ficarei grato, porque embora faça força não consigo pensar em nenhuma.

E mesmo sob qualquer outro ponto de vista, daqueles mais amplos e generosos, tampouco sei se dá para chamar “Saló” de vanguarda. Por exemplo, Pasolini gostava de trabalhar com não-atores. Visconti também. Mas Visconti fazia isso na década de 50, e desistiu para fazer obras-primas como “Morte em Veneza”: a maravilhosa cena final jamais poderia ser interpretada por um não-ator, era preciso um Dirk Bogarde para isso. Aquele cinema engajado e pretensamente revolucionário já tinha tido seu tempo (e, cá para nós, tenho sérias dúvidas de que tenha funcionado de verdade algum dia). Ao utilizar a mesma técnica em 1975, Pasolini na verdade é a retaguarda.

Esse engajamento político em busca da transformação da arte cinematográfica através da utilização de não-atores me parece uma grande bobagem. É algo típico da década de 70, em que se vivia dos restos da revolução cultural dos anos 60. Há uma necessidade de quebrar parâmetros que nem sempre se concretiza — que geralmente não se concretiza.

Particularmente não vejo muita graça em Sade; de modo geral, acho literatura pornográfica chata, pouco mais que adolescentes desenhando genitais na porta do banheiro da escola. Abro uma exceção relativa para o marquês, ele é bem mais que isso; mas ainda assim o acho chato. De qualquer forma entendo seu livro, ao passo que não consigo entender direito a mistura mal feita de perversões e política que Pasolini tenta fazer, sem sucesso. Ele conseguiu tirar o sentido das duas áreas, sexo e política, fazendo um filme que é menor que os dois temas separados. Por exemplo, há um pudor curioso nas cenas de sexo que soa fora de contexto. E o aspecto político do filme só é óbvio quando você sabe de antemão. “Ah, aquilo é a burguesia fascista italiana fodendo o povo, né? Entendi…”

Eu não consigo sequer achar o filme ultrajante ou asqueroso. Acho só bobo, é esse o problema. Durante a seqüência do círculo da merda, em vez me enojar com aquilo, ficava apenas pensando que tudo aquilo era falso, porque a reação lógica de alguém obrigado a engolir fezes é vomitar, e não comer tudo e se lamentar da mala sorte. Se conseguisse me revoltar com ele provavelmente Pasolini teria alcançado pelo menos um de seus objetivos, e para mim o filme seria maior do que é. Mas eu o acho apenas frágil, um sujeito que acabou de fumar um baseado e desanda a falar besteiras achando que está sendo genial.

Para mim, “Saló” é apenas uma curiosidade histórica.

Voltando a Lennon, quando ele disse aquela frase nem fazia idéia de que, uma década depois, um italiano pretensioso iria aplicá-la de maneira literal. E com péssimos resultados.

Originalmente publicado em 10 e 11 de março de 2004

Poema muito do enjoadinho

Falando sério
eu não gosto
de poesia moderna
As pessoas parecem pensar
que basta dividir frases
ao meio
e esquecer a pontuação
para automaticamente
criar um poema.

Poesia é outra coisa.

Poesia não é divã
de analista
não é competição
de domínio do vernáculo
poesia não é
nada disso.

E certamente, meu amigo
poesia não é isto aqui
Isto é apenas prosa
fatiada para tentar
mostrar o engodo
que é a maior parte
da poesia moderna.

Originalmente publicado em 20 de fevereiro de 2004.