John Lennon

John Lennon esteve em extrema sintonia com o seu tempo, e muitas vezes à sua frente. Ele se achava um gênio; provavelmente era. É muito para se dizer de um artista pop, mas a poucas pessoas no mundo do showbiz esse epíteto se aplica tão bem. Lennon foi parte do que se pode chamar de o primeiro grande fenômeno de massas produzido pelo marketing moderno, e o único que, ainda em termos de mídia, sobrepujou o rótulo que veio daí.

Mais do que produto de marketing ou gênio, entretanto, ele foi um produto de sua época. Uma época conturbada, rica em mudanças e em estremecimentos sociais, da qual o beatle foi, ao mesmo tempo, causa e efeito.

Para Lennon, tudo ocorreu no momento exato. Foi ingênuo quando a juventude, que surgiu como mercado consumidor e como grupo social com características próprias durante os late fifties, se consolidava como segmento social e como mercado consumidor; psicodélico quando essa mesma juventude começava a acreditar no que diziam que ela era e tentava moldar o mundo àsua imagem e semelhança; iconoclasta quando esse psicodelismo dava os sinais mais prementes de exaustão e o mesmo mundo que tomou um porre de juventude entrava em ressaca — e descobria que ressaca não mata; radical de esquerda quando os reflexos de 68 tomavam corpo e preparavam Watergate. Finalmente, saiu de cena para cuidar do seu filho, quando a geração à qual fornecera a trilha sonora crescia e começava a perceber que o mundo, afinal de contas, não havia mudado tanto assim, e que, ora bolas, ninguém era muito diferente dos seus pais — o que significava encarar o mundo e ter que ganhar a vida. Ou seja: entrar no establishment, daquele mesmo jeitinho tão criticado. Grand finale: morreu antes de entrar em decadência e ser ultrapassado pelos mais novos rebentos da juventude.

Os eternos fãs de Lennon se lembrarão para sempre de um homem à beira dos 30 anos, com cabelos castanhos compridos e óculos redondos com grau fortíssimo. A grande maioria nunca ouviu falar do quase delinqüente juvenil dos anos 50, em Liverpool, e faz questão de não levar a sério o ídolo pop que em tudo lembrava o Menudo. Os Beatles provavelmente ficarão para sempre na história mundial, mas cada dia menos se falará que eles, em suas turnês, eram obrigados a seguir todo o roteiro da bajulação: davam abraços a torto e a direito em prefeitos, crianças e socialites feias como o pecado, nos mais assombrosos grotões do mundo. Tampouco lembrarão que perto do fim dessas turnês, já não conseguiam lotar os teatros e estádios nos quais apresentavam a mesma fórmula batida. O aspecto comercial dos Beatles será relevado em favor do grande mito que alimenta a indústria, talvez com razão.

Na verdade, música pop não passa muito de indústria. Uma indústria que teve seus alicerces modernos plantados pelos Beatles. Mais que qualquer outro, Lennon tinha consciência disso. Tanta que, ao ser fisgado de verdade pelo sonho hippie, fez o possível para negar o seu passado, e mostrar ao mundo que o sonho havia acabado — o sonho dele, provavelmente porque já havia nascido maculado, a partir do momento que ele podia ver como a indústria alimentou e praticamente criou esse movimento. Nada era tão belo como pensavam. E isso só aconteceu porque, mais do que ninguém, Lennon acreditou no sonho enquanto paradoxalmente tentava destruí-lo.

***

Não fosse o rock and roll, Lennon estaria fadado a ser um operador de guindaste no porto de Liverpool. Era filho de uma mulher que, em qualquer tempo, seria conhecida como meio maluca — já pesou sobre ela a acusação de ter sido prostituta — e que não foi minimamente responsável pela sua criação. John Winston foi criado por uma tia em um bairro de classe média baixa. Aos quinze anos, já tendo a sua bandinha chinfrim de skiffle, conhece um garoto um pouco mais novo que entretanto toca melhor do que ele: Paul McCartney. George Harrison — que toca guitarra melhor do que os dois — entra logo depois. Juntos, conseguem tocar na zona do cais de Hamburgo, Alemanha Ocidental — lugar tradicionalmente reservado a ladrões, prostitutas, malandros e trabalhadores braçais. São oito horas de música por noite, regadas a cerveja e anfetaminas. O conjuntinho de Liverpool foi obrigado a se superar continuamente.

Os Beatles foram para Hamburgo com a nada recomendável fama de serem uma das piores bandas de Liverpool; voltam como a melhor. A barra pesada de Hamburgo, a necessidade de tocar muito alto, muito rápido, muito tempo os ensinou a fazer música. Em Liverpool, constroem aos poucos sua fama e conhecem um sujeito chamado Brian Epstein. A partir desse encontro os Beatles começam a se tornar o maior fenômeno da música mundial.

A primeira providência tomada é mudar as roupas. Casacos e calças de couro são coisa de marginal, e mais que isso, fazem parte do imaginário dos anos 50, algo já ultrapassado. Os Beatles devem se apresentar bonitinhos, mansos. Depois vem a mais difícil: colocar para fora da banda Pete Best. Não era um grande baterista, não se adequava à identidade visual desejada por Brian Epstein, e não era agradável aos outros Beatles, embora fosse muito amigo de Lennon. Em seu lugar entra Ringo Starr, que de várias formas completa aentidade que seriam os Beatles.

Hoje se torna difícil imaginar o que os Beatles representavam em 1964. Eram mais que a combinação de boa música e bom marketing — uma combinação perfeita, embora às vezes o marketing parecesse encobrir o lado musical; mas basta ouvir uma canção como I Want to Hold Your Hand, que não se parece com nada feito antes, para ver que os Beatles tinham algo de realmente diferente. É fácil, hoje, desdenhar da sua música, que parece ingênua: mas aquilo era revolucionário, quase tanto quando os delírios psicodélicos de alguns anos depois.

O fenômeno chegou a tal ponto que nos shows os próprios Beatles não conseguiam ouvir o que estavam cantando ou tocando. Lennon, irritado, dava vazão à sua frustração por ir de aeroporto em aeroporto sem saber muitas vezes onde estava, por viver em função de algo diferente do que eles haviam sonhado como a vida de um superstar, xingando os fãs fora do microfone.

Isso levaria ao fim das excursões, e parecia ser o fim dos Beatles. Não foi, pelo menos não imediatamente: ao darem uma guinada artística, priorizando a música ao marketing, os Beatles se tornaram não só a maior, como também a melhor e mais influente banda de música popular do mundo.

Mas antes disso Lennon disse que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo. Uma frase que era um misto de verdade e de bravata, mas que causou uma série de reclamações, que os Beatles, intimamente, ridicularizavam. Não era para menos: os protestos, em sua maioria, consistiam em bandos de crianças ao lado de disc jockeys de meia idade, pisando em capas vazias dos discos deles. Em apenas um show a ameaça se tornou séria, com alguém dizendo que iria atirar em Lennon. Profissionais exemplares, eles fizeram o show, esperando um tiro que não veio.

O fim dos shows, que seria um dos ingredientes que levariam ao fim dos Beatles três anos mais tarde, deixou a banda livre para ingressar na vanguarda da música popular. Eles deram um novo rumo à sua música e à música pop de todo o mundo, ao se adaptarem a uma percepção de mundo que eles mesmos ajudaram a criar. A juventude atinge sua maturidade e o mundo dos caretas com mais de 30 anos passa a ver neles uma excelente fonte de renda. Os hippies e a contracultura viraram uma das melhores armas da indústria; e embora ninguém percebesse, o sonho na verdade era natimorto.

E então os Beatles acabam, dando os primeiros indícios de que uma era chegava ao fim; depois foram as mortes de Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, três das mais importantes figuras da pop scene. Os anos 60, que haviam começado por volta de 63 — com o movimento encabeçado pelos Beatles, claro — chegavam ao início do fim em 1970.

Em tudo isso, Lennon era uma das figuras de frente. Era oficialmente o líder dos Beatles, por ser o responsável por algumas das mais cáusticas declarações dos Beatles e por ter sido ele quem, afinal de contas, havia começado tudo, embora nos bastidores a coisa não fosse bem assim. Paul McCartney, que nos anos 90 compôs duas peças (medíocres, é verdade) de música erudita, se afirmava como um dos maiores melodistas e baixistas do rock, além de ser o mais interessado nas técnicas de estúdio. Ele foi ainda responsável pelo projeto mais ambicioso dos Beatles, o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, considerado ainda hoje, quase 40 anos depois, o mais importante disco de rock, e pela concepção do disco tecnicamente mais perfeito dos Beatles, o Abbey Road. Paul McCartney, ao que parece, era o líder musical dos Beatles — embora até hoje não se saiba, e provavelmente jamais se saberá, o que realmente acontecia dentro do conjunto. É mais sensato achar que os Beatles funcionavam como uma máquina bem lubrificada em que uma parte era indissociável da outra.

Mas era Lennon quem conseguia estar completamente antenado com o que o mundo queria. Sabia que o mundo não queria apenas música. Sabia intuitivamente o que falar e quando falar. E realmente se identificava com tudo o que interessava. Era o ícone de uma geração anestesiada e profundamente ingênua, que fazia de roupas espalhafatosas e de cigarros de maconha símbolos de rebeldia. Um dos principais artífices do que se convencionou chamar “anos 60”, Lennon, também ele, acreditou no faz-de-conta. E com o esgotamento do ideário hippie, Lennon ficou perdido.

Nisso ele não era diferente do restante de sua geração. A maioria ignorou o movimento hippie, como os jovens de dez anos depois ignorariam o movimento punk, como a maioria da juventude ignora a maioria dos movimentos, recebendo apenas os reflexos esmaecidos que são absorvidos pela sociedade. Uma boa parte atravessou essa era como quem atravessa uma crise de adolescência. E alguns entraram de cabeça e saíram por aí para ver se encontravam o tal mundo melhor. Desses, a maior parte desistiu quando viu que o caminho era longo e que nem mesmo sabiam direito qual era. Uma parte pequena afundou nas drogas, e não foram poucos os que não voltaram à tona. No fim das contas, a maioria aprendeu a se conhecer melhor e a se definir no mundo, por sua vez aparentemente modificado pela sua ação.

Para conseguir acompanhar o ritmo de sua geração, Lennon tomou LSD e heroína, fez terapia, tentou de tudo. No fundo, a única coisa que ele sabia fazer era expressar o que havia de melhor e de pior em si através da música. Além disso, como beatle ele havia provado o gosto do sangue. Não adiantava querer negar: John Lennon era um pop star, talvez o mais anatemático deles. E o seu maior trunfo, uma marca absolutamente pessoal que o distinguiu do resto do cenário pop de todos os tempos, era a extrema capacidade de se mostrar ao seu público e de se tornar o modelo máximo de identificação de sua geração.

O seu primeiro disco solo, o LP Two Virgins, gravado e lançado ainda durante o tempo dos Beatles, leva essa característica ao extremo. A capa, única em toda a história da música pop, mostra Lennon e Yoko nus, o máximo de exposição a que alguém pode almejar. Era assim que eles eram, era assim que todos deviam ser. Não interessava se o conteúdo do disco era insuportável; na época dizia-se que era vanguarda. Como não vingou, pode-se dizer que era apenas delírio.

O segundo disco continua essa tendência: a capa mostra Lennon deitado ao lado de Yoko em um hospital, e o disco mostra as batidas do coração do filho (morto durante essa sessão no hospital) e um desabafo do beatle John sobre o seu cotidiano e sobre a falta de camas nos hospitais ingleses. A letra em si não tem nenhuma qualidade literária; é só John Lennon mostrando o que sente para o seu público. O resto é a barulheira habitual. O terceiro, o Wedding Album, é mais um episódio do “Diário Público de John Ono Lennon”.

Esses discos são bastante emblemáticos. Ninguém ouviu, hoje ninguém vê. Mas ajudaram a fazer Lennon erguer-se acima da música, criando sua própria aura mítica.

Depois do fim dos Beatles, o primeiro (e melhor) disco de Lennon continua nessa direção. Ele fala da dor nunca superada na relação com sua mãe, fala das dificuldades que enfrenta ao lado de Yoko, continua sendo o referencial maior de sua geração. E é nesse disco, também, que ele se refere ao fim do sonho hippie.

Deixar de acreditar em um mito não é fácil, e para Lennon, que havia sido o próprio mito, era mais difícil ainda. Mas novamente a Providência foi generosa com ele, e a política conturbada dos Estados Unidos do começo da década de 70 (um reflexo do movimento hippie que só foi devidamente assimilado com quase dez anos de atraso) forneceu a ele um meio de defender aquilo em que acreditava, talvez o único meio que um pop star tem de ficar remotamente ligado ao seu passado comum.

Ao sair de cena, logo depois de gravar um álbum em que voltava às origens, cantando músicas que ouvia quando era adolescente, Lennon seguia o que o mundo lhe ditava, e mais uma vez estava na linha de frente de sua geração. Durante anos, de certa forma ele tentaria manter vivo o sonho que ele mesmo havia declarado morto, invertendo os papéis com sua mulher e ficando em casa criando o seu filho, enquanto Yoko Ono ia para a rua e trazer dinheiro para casa (ou melhor, gerir o dinheiro que ele conseguira). Finalmente, quando percebeu que não podia viver afastado da cena pop e voltou ao trabalho, um homem chamado Mark David Chapman deu-lhe cinco tiros, transformando-o em mais que um ídolo.

A partir daí, todos os atos de auto-exibição, os discos que ninguém ouviu, as palavras que Lennon disse fizeram sua parte. A partir do dia 8 de dezembro de 1980, John Lennon se tornava o primeiro santo da era da comunicação. Centenas de milhares de pessoas choraram sua morte.

A aura que existe hoje em torno do beatle é paradoxal. Seu espírito é baseado no Lennon contestador, o que ia para as ruas protestar e participar de passeatas, um ativista político de esquerda; mas o objeto de adoração em si é o Lennon romântico, sonhador, que se contentava em imaginar um mundo melhor. E essa imagem nem sempre corresponde à realidade. Ele sentou praça no imaginário popular como o gênio e o roqueiro; sua carreira solo, entretanto, nem sempre corresponde a isso.

Os álbuns solo que se seguiram a John Lennon/Plastic Ono Band e Imagine (Some Time in New York City, Mind Games e Walls and Bridges) não são somente melosos; são fracos também. Além de haver pouquíssimo rock and roll, no sentido clássico da palavra, a essa altura Lennon havia ido longe demais na idéia de expôr-se ao seu público; e Some Time… vale principalmente como uma crônica aguada do movimento de esquerda nos Estados Unidos em 1972.

Os casos de Mind Games e Walls and Bridges são mais graves. Esses dois álbuns não apenas constituem pouco mais que um apelo dirigido a Yoko, mas têm músicas e letras muito fracas. Era como se Lennon tivesse perdido o talento demonstrado nos seus dois primeiros álbuns.

Fazendo uma comparação: quando Mick Jagger cantava ao mundo que não conseguia satisfação, ele não somente era sincero (um pré-requisito básico da cena rock) como o seu problema era o mesmo de milhões de jovens em todo o mundo. Ao pedir desculpas para Yoko em Aisumasen, Lennon podia estar sendo sincero — mas o que é que o resto do mundo tinha a ver com isso?

A sua volta em 1980 o redimiu de todos esses pecadilhos. Conseguia transformar seu amor por Yoko em algo universal, com o qual milhões de pessoas podiam se identificar e assumir como suas, e novamente com letras de qualidade.

***

Não haveria mais lugar para o ícone John Lennon no mundo de hoje. Não numa época em que, por mais que se alardeiem mudanças, tudo continua do jeito como sempre esteve. Os tempos são mais propícios aos Paul McCartney — pessoas talentosas cujas posições políticas mais corajosas jamais ultrapassam a barreira do plenamente aceitável.

A julgar pelo seu último trabalho, talvez o próprio Lennon, se estivesse vivo, fosse mais parecido com o retrato que se faz dele, hoje. Em Double Fantasy, que ele mesmo definia como crônica de sua vida na época e conseqüentemente de uma geração Lennon falava de amor, de seu filho e da gratidão e paixão incomensuráveis que sentia por Yoko Ono. O conteúdo de suas letras não era nem sombra das explosivas canções do álbum Some Time in New York City, por exemplo. Lennon não havia atravessado a década do eu impune, e estava antecipando a era Reagan. Em um mundo apático e desiludido, que assiste a guerras de verdade como se fossem partidas de video-game, cansado de tudo e com uma eterna sensação de dejà-vu, não se pode imaginar aquele sujeito de cabelos compridos e óculos redondos que acreditava que podia convencer o mundo a dar uma chance à paz, sendo o espelho fiel de seu tempo, algo muito necessário quando nada parecia estar no lugar.

O que parece mais engraçado, ao se prestar atenção à história de Lennon, é que apesar de tudo o que disse, e de tudo em que acreditava, ele não conseguiu mudar muita coisa. George W. Bush pertence à geração que cresceu ouvindo Lennon. A grande mudança que se pode apontar, na realidade, é que o protesto não vende mais tantos discos. Está tudo banalizado e minimizado, foram todos absorvidos pelo temível establishment. Sintonizado com o seu tempo como era, é provável que hoje Lennon estivesse vindo se apresentar no Brasil, trazendo na bagagem a mulher e o filho, para encantar um público que viveu os anos 60 à distância cantando Imagine pela milésima vez, ou revivendo os Beatles para cantar I Want to Hold Your Hand no mesmo microfone que Paul McCartney.

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A grande maioria dos investimentos do Estado no cinema é feita através da renúncia fiscal, como lembrou o Roger (que ainda deve um post para o Balada do Louco). Financiamentos diretos são uma fração relativamente pequena diante das verbas aplicadas por empresas, privadas ou estatais.

Embora eu não discorde fundamentalmente do Roger quando ele diz que a participação do Estado deveria ser menos ativa, acho também que esse processo é longo e gradual. Não temos exatamente um exemplo de burguesia (desculpem o termo velho, mas eu comecei a ouvir falar dessa coisa de classes antes das “elites” colloridas) comprometida com a identidade nacional. Ela não tem o costume de olhar a longo prazo nem de se comprometer com o deeenvolvimento brasileiro.

Dentro desse panorama, é claro que as leis do audio-visual não são perfeitas e devem ser melhoradas. Por exemplo, é um tanto incômodo que a Globo obtenha recursos federais, quando sua operação em TV é absurdamente rentável e poderia financiar seu filmes: esse é o seu negócio. Mas, por enquanto, e mesmo com as falhas, é o melhor modelo que se tem. O cinema brasileiro da década de 90 em diante saiu em desvantagem, depois de anos sendo sistematicamente destruído por uma elitezinha incompetente e acostumada às tetas seletivamente fartas da Embrafilme — este sim, um exemplo de financiamento estatal centralizador e nocivo. Esperar que em menos de duas décadas, dentro de um mercado onde a participação americana está solidificada e conta com vantagens imensas, o cinema nacional adquira condições de caminhar sozinho é se ater a uma ilusão.

Por exemplo, quem em sã consciência vai investir em cinema com os juros que se cobra no país? Não é um bom negócio, mesmo que, olhando para os números do mercado cinematográfico, se veja que se se tem condições de produção, ele enfrenta a produção americana em pé de igualdade, chegando mesmo a bater a produção de outros países. E bate por uma razão: porque é brasileiro, só isso, porque em nenhum outro filme você vai ver alguém bebendo café em copo de geléia de mocotó.

E a TV é diferente do cinema, sim, Reginaldo. TV tem custos de produção muito mais baixos, chega de graça ao consumidor, e conta de saída com a necessidade do mercado de anunciar seus produtos. É por isso que em todos os países do mundo as emissoras de TV não precisam de incentivos estatais. (TV por assinatura, como bem a sabe a Globopar, é um pouco diferente. Mas mesmo ela ainda parte do modelo básico: veiculação de anúncios.)

Curiosamente, o único exemplo de TV com forte presença estatal de que lembro agora é a BBC inglesa. Uma parte de sua receita vem do imposto de TV cobrado pelo governo britânico. Não por acaso, historicamente — em que pesem deslizes como o caso David Kelly; mas seria cinismo condenar o modelo da BBC por isso, quando podemos citar o comportamento da Globo no Brasil, e das redes americanas — a BBC tem se notabilizado por uma programação de alto nível, justamente por poder se manter relativamente independente ds necessidades de faturamento e de acionistas ansiosos pelo retorno de seu investimento. As pessoas que se deliciam com o Monty Python deviam lembrar que eles só foram possíveis graças a essa olítica estatal. Do contrário, os ingleses porvavelmente estariam assistindo a exames de DNA e “vamos quebrar tudo” no Little Rat Show.

E cultura é parte do processo educativo. Um cinema forte e plural pode ser um elemento fundamental na formação de um povo mais educado. Alguém consegue negar o papel do cinema na formação da identidade americana, para o bem ou para o mal?

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Foi apenas há 10 anos, quando assisti a “A Grande Cidade”, filme de 1966 com Cacá Diegues, que consegui racionalizar definitivamente uma coisa fundamental: nenhum outro meio de expressão cultural consegue manter viva a memória visual do país.

Em “A Grande Cidade”, um bom filme do Cinema Novo — o que quer dizer que é cheio de defeitos, mas se consegue perceber um bom conceito por trás dele — aparecia um Rio de Janeiro que já não existe mais. Podia-se ver a Barra da Tijuca ainda deserta, sem o complexo de Miami que hoje lhe consome. Um Santa Tereza que o tráfico quase destruiu.

Já tinha intuído isso antes. “Todas as Mulheres do Mundo” (para mim, por razões bem particulares, um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos), eternizou em celulóide e no rosto doce de Leila Diniz uma imagem do Rio que os freqüentadores da praia do Leme, enquanto se abaixam com medo de tiroteios no morro que fica ao lado, insistem em lembrar: “A chapa tá quente, mas o Rio é lindo.” Mas isso é assunto para outro post.

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O macrocéfalo postou aqui um comentário muito bonitinho, chamando a todos que não concordam com as bobagens do Mainardi de patéticos.

Típico desse pessoal que fala das coisas sem saber do que está falando, lá vai ele falando em usurpação pelo Furtado. Eu só acho que o pessoal deveria ler o tal edital antes de sair fazendo suas invectivas.

Já que custa tanto dar uma procurada, aqui estão algumas palavrinhas a respeito desse fato:

EDITAL DE CONCURSO Nº 7, DE 7 DE JULHO DE 2004.
O Ministério da Cultura – MinC, por meio da Secretaria do Audiovisual SAv, torna público o Concurso Público de Apoio ao DESENVOLVIMENTO DE ROTEIROS CINEMATOGRÁFICOS, INÉDITOS, DE LONGA METRAGEM, DO GÊNERO FICÇÃO, instituído pela Portaria nº 155, de 30 de junho de 2004, publicada no Diário Oficial da União de 5 de julho de 2004, destinado às pessoas físicas, na categoria de roteirista, nas condições e exigências estabelecidas neste Edital e seus anexos I, II, II e IV, subsidiando-se pela Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993.

1. DO OBJETO
1.1 Apoiar o desenvolvimento de roteiros cinematográficos inéditos de longa metragem, do gênero ficção, a serem selecionados na forma deste Edital, visando:
a) Incentivar a formação de novos profissionais de roteiro, bem como possibilitar o aprimoramento de técnicas e métodos para o seu desenvolvimento profissional; e
b) Atender as demandas de produção cinematográfica nacional.

Quem quiser pode baixar aqui o edital completo.

No fim das contas, o principal argumento do pessoal peca na base, porque a conversa de que o concurso se destinava exclusivamente ao desenvolvimento de novos talentos é uma torção dos fatos. Já li muitos editais de governos de vários Estados para entender que dentro de seus termos o incentivo é desejável, sim, mas dentro do que chamam de macro-conjuntura. Os itens A e B são complementares, o que quer dizer que entre um bom roteiro de alguém com experiência e um mau roteiro de um noviço o primeiro seria aprovado.

Para todos os que defendem o libérrimo mercado, esse critério não deveria sequer ser discutido.

Parece que aquele pessoal defensor de teorias fisiognomônicas está errado. Mas, mesmo que eu não tenha visto onde foi que o Marcus deu essa “superioridade moral” ao Furtado, gostei do apelido que o macrocéfalo lhe deu.

Com vocês, Marquito Persona, defensor dos cineastas oprimidos.

Segunda Leitura

Muito prazer, meu nome é Gilvaneide.

Como toda mulher de malandro, eu acabo voltando para quem me enche de porrada. Foi por isso que comprei a Primeira Leitura deste mês, depois de uma última experiência constrangedora.

A revista sempre foi muito próxima ao PSDB, e isso não é, necessariamente, um problema. Mas em sua penúltima edição essa proximidade ultrapassou o limite do bom jornalismo, e o resultado foi algo próximo demais de um boletim da campanha da Serra. A revista chegou ao ponto de torcer resultados para fazer crer que o PT tinha sido derrotado nas eleições e o PSDB era o grande vencedor. Até mesmo fez uma comparação de almas governadas pelo PT e pelo PSDB para mostrar que o PT só cresceu nos grotões — mesmo sabendo que foi o inverso, que o que dá a maioria de contribuintes sob governo tucano é o fato de o PSDB ter conquistado São Paulo; fora isso, o PT cresceu em cidades maiores. (Essa análise, brilhante, foi feita em um dos blogs que leio diariamente. Infelizmente, não consegui lembrar qual.)

Com tudo isso, eu tinha me desiludido da revista, que acompanhava desde os tempos em que se chamava República e tinha uma layout agradável de The Economist.

Mas eu me chamo Gilvaneide.

O novo número, no entanto, resgata a revista do abismo em que tinha caído. Agora pode-se creditar aqueles arroubos ao calor da eleição.

A revista traz uma bela matéria de capa, que deveria ser lida por todos aqueles que ainda fazem algum tipo de defesa do governo Bush. Um sujeito que assistiu quieto ao dólar cair 36% em relação ao euro em seu mandato — um movimento prejudicial para todos os países do mundo — enquanto mandava seus meninos para comer areia na Mesopotâmia não pode ser qualificado de bom em absolutamente nenhuma área. Que Bush é uma tragédia para o mundo, todo mundo já sabia. Mas é, principalmente, uma tragédia econômica para o seu país.

(Informação curiosa: o déficit americano é de 2 trilhões de dólares. 400 bilhões são de investimentos militares.)

A revista no entanto tem lá seus defeitos. Por exemplo, uma matéria fala dos “anárquicos blogs” e sua importância crescente nos Estados Unidos para ilustrar a decadência dos telejornais das grandes redes americanas. Se por um viés estritamente jornalístico faz muito sentido, já que a maioria do mundo não sabe que chongas é um blog e a matéria, assinada pelo Caio Blinder pode representar uma novidade, por outro mostra as razões pelas quais nossos confrades americanos estão minando a mídia tradicional: quem lê blogs já vem percebendo isso há muito tempo. A matéria é um claro exemplo de como comer mosca arrotando caviar. Mesmo quando notam o fenômeno, eles não percebem direito o que está acontecendo. Estão se afogando enquanto escrevem a crônica do dilúvio. Mas isso é tema para outro post.

A matéria tem equívocos sérios. Por exemplo, diz que “um marco histórico [da decadência das grandes redes tradicionais] foi na cobertura da última eleição americana. Na noite de 2 de novembro, a Fox teve mais audiência que a NBC”. Tomar isso como marco histórico de qualquer coisa é de uma temeridade absurda. É muito provável que a Fox tenha batido seus recordes por uma questão circunstancial: é uma rede de TV direitista, por acaso em uma eleição extremamente polarizada.

A revista traz ainda uma matéria sobre o nascimento do anti-semitismo moderno. A tese, presente em Les Origenes de l’Anti-sémitisme Moderne, de um sujeito chamado Arthur Herzberg, vice-presidente do Congresso Judaico Americano, “autor do célebre The Jews in America”, cronista do New York Times e professor da New York University, reza que o Iluminismo é o principal responsável pelo anti-semitismo moderno, muito mais que as necessidades teológicas cristãs. Segundo a revista, Herzberg “procura conferir credibilidade a uma certa intuição sionista de que o anti-semitismo moderno correspondia a um fenômeno contemporâneo e laico, e não ao ressurgimento de um ódio cristão e medieval”.

Herzberg é um idiota. Quanto ao “ressurgimento”, Daniel Goldhagen já mostrou, nas poucas páginas da introdução de “Os Carrascos Voluntários de Hitler”, que o anti-semistimo nunca sumiu, apenas experimentou ondas de crescimento e retração, culminando no nazismo. Mas o erro principal é desconsiderar a evolução histórica da Europa. A Revolução Francesa foi a primeira a conferir igualdade jurídica ao judeus, e as convulsões revolucionárias burguesas do século XIX levaram essas conquistas para outros países da Europa.

Isso era de se esperar. Normalmente, esse pessoal cheio de credenciais de classe envereda pela fantasia sectária. Esperar deles uma análise realmente inteligente é mais ou menos como esperar do João Pedro Stédile uma análise racional do problema fundiário brasileiro. Muito mais interessante é outro livro sobre o mesmo assunto lançado na França, Le France et les Juifs — de 1789 à Nous Jours, de Michel Winock. Sem tantas credenciais, mas com algo que Herzberg não tem: juízo e inteligência.

A Primeira Leitura voltou a ser, pelo menos neste número, o que era antes. Uma bela revista, inteligente, crítica, e necessária.

Meu nome é Gilvaneide, mas estou pensando seriamente em mudá-lo para Rafael Galvão.

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O Leandro tem razão em parte. Grande parte dos livros de Jorge Amado é repetitiva em seu tema, e mesmo em seus personagens.

O problema é que não sei se isso o faz menor. Não conheço um só escritor com obras muito extensa que escape dessa sina. É por essa razão que boa parte dos livros de Balzac é repetitiva, também. O que importa é que, em seus melhores momentos, Jorge Amado alcançou um nível de brilhantismo e verdade que poucos brasileiros, a meu ver, alcançaram.

Mas, ao mesmo tempo em que não se pode negar essa característica, é bom lembrar que há duas fases bem diferentes dele. A primeira, extremamente política, evoluiu até o esgotamento do realismo socialista, na minha opinião um crime soviético mais grave que os expurgos de Stálin. Foi durante essa fase que Jorge Amado adquiriu fama mundial, porque na época a moda na imprensa brasileira era ser marxista, como hoje é ser neo-liberal. Só isso já diminui bastante essa repetição, embora em todas elas a Bahia seja o grande tema.

A fase “folclórica”, que se seguiu ao rompimento com o PCB, foi apontada por essa mesma crítica “cripto-comunista” como o início da decadência de Jorge. Mesmo nos anos 80 — quando ele declarou que “O Sumiço da Santa” tinha atropelado “Bóris, o Vermelho”, livro que nunca escreveria — ainda aparecia alguém para acusar sua virada de casaca.

O Marcus (era dessa edição que eu falava) e o Idelber falaram dessa fase. Para mim é a melhor, em termos literários. Já falei sobre ela e sobre o problema de “Seara Vermelha” em um outro post, mas não custa lembrar que é justamente aí que ele aprimora sua maior qualidade, a imortalização em letra de forma de um espírito baiano que está acabando.

Assim como cariocas tendem a achar que Rubem Fonseca é o maior escritor brasileiro do século XX, mesmo que desde o fim dos anos 80 ele não publique nada que preste, sulistas me dão a impressão de não gostar de Jorge justamente por essa característica baiana, como falou a Dani.

E o Bia não gosta de Jorge Amado porque é um paulista miserável. Ele precisa ir para a Bahia, arranjar uma neguinha da Saúde, do peitinho empinadinho e da bundinha redonda, descer com ela pela Ladeira do Alvo e seguir a Baixa dos Sapateiros até a Barroquinha, subir até a Castro Alves e olhar o pôr do sol atrás de Itaparica, com um olho nas putas da Ladeira da Montanha, e então ele vai entender a poesia baiana de Jorge Amado.

Jorge Amado da Bahia

Só tenho um livro de Jorge Amado: “Bahia de Todos os Santos”. É provavelmente o único autor de quem já li quase tudo, sem que tenha comprado seus livros. Comecei a ler em 1982, “Capitães de Areia”. Ainda faltam alguns.

É curioso que eu não tenha comprado os livros de Jorge Amado. Uma tia tem uma daquelas coleções que a Record lançou ao longo do tempo (de cabeça consigo lembrar de pelo menos 4 séries diferentes, todas em capa dura, uma das quais belíssima e pouco encontrada em sebos).

Para mim, mesmo sabendo que praticamente toda a crítica discorda, ele foi um dos maiores escritores brasileiros do século XX. Acho que nenhum escritor brasileiro conseguiu descrever tão bem o seu povo, nem transportar tão perfeitamente para a língua escrita o falar cadenciado que ouvia nas ruas. Mais que isso, “Seara Vermelha”, se você esquecer aquela última parte em que o pobre Jorge se obriga a fazer sua incursão no realismo socialista e louva a Revolução de 35, é o testamento definitivo do Nordeste. É claro que é um julgamento muito, muito pessoal; mas se tentar ser realmente objetivo corro o risco de ficar em Machado de Assis — um escritor do século XIX que por acaso publicou alguma coisa nos 1900.

Gostando tanto assim de um autor, o mais óbvio seria comprar seus livros. Mas há uma boa explicação.

Em primeiro lugar, essas coleções em capa dura terminam em algum momento dos anos 70, começo dos 80 — pelo menos as que vi até hoje. Não chegam a “Tocaia Grande”, de 1984, seu último bom romance. Recentemente eles começaram a fixar o texto definitivo: em tempos de editoração eletrônica não há mais espaço para erros tipográficos, para Balzacs reescrevendo livros inteiros enquanto corrigem as provas, ou para Joyces gastando seus últimos fiapos de olho para corrigir os erros de “Ulysses”. (Pensando bem, não há mais tipografias.) No entanto, o projeto gráfico desses livros é fraco, além da apresentação em brochura com uma sobrecapa vagabunda.

Tenho a esperança de que, mais cedo ou mais tarde, alguém tenha piedade de Jorge, o Amado, e relance seus livros com tipologia decente, paginação sem frescuras e uma boa capa dura, como fizeram entre os anos 60 e 80. Abrangendo tudo, de “O País do Carnaval” a “A Descoberta da América Pelos Turcos”.

Eu espero. Eu tenho tempo. Enquanto isso, uma sugestão: “Seara Vermelha” deve ser encurtado. Façam um favor à memória de Jorge de Oxóssi, cortem a parte em que ele conta o destino do último irmão, o comunista revolucionário. Terminem com o belíssimo combate entre beatos e cangaceiros. E então ninguém mais terá coragem de dizer que “Terras do Sem Fim” é o melhor livro de Jorge Amado.

Os dragões da maldade contra o kinemanacional

O Marcus já deu um dos principais argumentos a favor do kinemanacional feito com dinheiro público: os únicos países cuja produção cinematográfica independe de financiamento estatal são os EUA e a Índia.

Mas não é só isso.

As pessoas reclamam de Bush e seu evangelismo alucinado, mas esquecem que ele é apenas a face mais radical de uma postura que os Estados Unidos sempre adotaram. Eles sempre foram agressivos na defesa de seus interesses e na sua expansão. É conseqüência indissociável do tal “destino manifesto” deles.

Dentro dessa realidade, uma outra ótica é o já velho discurso liberal contra o financiamento estatal, fingindo que o mercado regula tudo. Não regula. Os Estados Unidos, em suas negociações comerciais, costumam bater pé em relação à distribuição de seus filmes. Em sua face mais branda, financiam grandes campanhas contra a pirataria; na mais dura, emperram acordos comerciais como fizeram, por exemplo, na Europa em 1992 para garantir a livre circulação de sua produção em detrimento da produção local.

Fazem isso porque cultura — ou melhor, filmes e música, e agora TV — é uma de suas principais indústrias internas e um dos principais artigos de exportação. É um dos motivos pelos quais o laissez faire cultural de uma parte da dita intelligentzia brasileira é simplesmente idiota. Outro é o esquecimento da montanha de dinheiro que os Estados Unidos investiram em sua indústria cinematográfica ao longo dos tempos, em investimentos diretos e subsídios.

Lembrando disso, não dá para deixar de imaginar que todos parecem esquecer como funciona o mercado cultural. Os EUA têm mais dinheiro, produzem mais filmes, e conseqüentemente produzem mais filmes bons. Mas para subverter as tais leis de mercado que os outros devem obedecer, fazem questão de empurrar o seu lixo. Para uma TV brasileira comprar os direitos de um filme de sucesso, por exemplo, é obrigada a levar de contrapeso um bocado de filmes abaixo do aceitável. Sempre foi assim, sempre será.

É por isso que, queiram nossos queridos direitistas ou não, os projetos de incentivo ao kinemanacional que vêm desde o governo Sarney foram a melhor coisa que aconteceram à cultura nacional, em sua tentativa de equalizar um pouco essa disputa.

Isso não quer dizer que a atual política de audio-visual não precise de ajustes. Precisa, claro. E certamente precisa estabelecer um cronograma de substituição de investimentos estatais, à medida que o mercado vai se fortalecendo. Infelizmente, não vejo nenhuma proposta do tipo em nenhuma das arengas contra a política cultural. Só a repetição ad nauseam da ladainha “o mercado tudo pode… O mercado tudo pode… O mercado tudo pode…”

Essa crítica vazia, baseada em uma concepção ideológica sem nenhum compromisso com a realidade, é apenas cansativa. É herdeira direta daquela que impôs ao kinemanacional nos anos 50 o nome derrogatório de “chanchada”; críticos embasbacados pelos filmes B americanos, às vezes até financiados por eles, desdenhavam a produção nacional em sua melhor fase, não reconheciam gênios como Oscarito e Grande Otelo; muitos até hoje se recusam a ver a beleza única de “O Pagador de Promessas”. E quando juntam a essa xenomania o paulistismo descem a lenha em filmes belíssimos como “Central do Brasil”.

Se alguém viu Man on Fire, de Tony Scott — o “irmão menos talentoso de Ridley Scott”, como disse o excelente crítico de cinema Ivan Valença — deve ter visto a influência estética que o filme sofreu de “Cidade de Deus” (não tão grande quanto de Traffic, claro), a ponto de contar com dois excelentes atores brasileiros, Charles Paraventi e o magnífico cearense Gero Camilo. Isso só foi possível porque “Cidade de Deus” recebeu verbas estatais. Fosse esperar a famosa iniciativa privada e o filme ainda estaria em uma gaveta do Fernando Meirelles. E mesmo assim Man on Fire, um filme americano típico e mediano, fez mais dinheiro que “Cidade de Deus, garantindo que Tony Scott continue a fazer seus filmes — talvez Top Gun II, quem sabe. É a isso que o mercado leva.

O pessoal que reclama contra os subsídios estatais deveria lembrar para que servem impostos. Eu só não entendo por que reclamam de dinheiro público financiando cinema, e não reclamam de estradas sendo privatizadas, por exemplo.

Entre os defensores da aplicação cega das leis do libérrimo mercado à cultura estão muitos bons escritores inéditos, que usam blogs para veicular sua produção. Eles sabem, mais do que ninguém, que escritores brasileiros iniciantes são as primeiras vítimas do mercado. Eles não são publicados porque as editoras preferem apostar no certo, em direitos de best sellers americanos, ingleses, ou em livros chatos que a crítica européia incensa. Foi assim, por exemplo, que caímos no golpe do nouveau roman francês.

Eu, se fosse editor, publicaria todos esses bloguistas. A razão é simples: prejuízo eles não dariam. Quem duvida que o Alex daria retorno à sua editora? Se ele consegue dinheiro com aqueles anúncios do Submarino, imagine quantas cópias ele não venderia de “Mulher de um Homem Só”. Todos esses bloguistas: se vendessem direto apenas em seus blogs já recuperariam o investimento.

Mas cinema não é literatura e os custos são outros. Em mercados como os EUA é relativamente fácil conseguir investidores. Porque nenhum filme dá prejuízo. Ainda que o filme fracasse miseravelmente nas salas de exibição, há ainda o mercado de DVD e as emissoras de TV de países sub-desenvolvidos, cujos gênios da raça engolem a lenga-lenga do livre mercado e compram esses filmes ruins para serem exibidos nos Supercines da vida.

Furtado e Mainardi

Jorge Furtado é o Amaral Neto do petismo. Faturou 700.000 reais para dirigir um comercial do Banco do Brasil sobre o tema da fraternidade. O comercial faz parte da campanha ufanista “O melhor do Brasil é o brasileiro”. Na ditadura militar, Amaral Neto exaltava o orgulho nacional mostrando a construção de hidrelétricas. Jorge Furtado, o maior propagandista do lulismo no meio cinematográfico, mostrou a construção de uma quadra de futebol na periferia de Porto Alegre. A quadra custou 120.000. Foi financiada pelo próprio Furtado, com o dinheiro pago pelo Banco do Brasil. Furtado elegeu a si mesmo como exemplo de fraternidade, portanto. E usou o dinheiro do Banco do Brasil com a desenvoltura de um deputado maranhense, que constrói quadras de futebol em seu curral eleitoral, com a verba do Fundef. Não todo o dinheiro, claro: se a quadra de futebol custou 120.000, e outros 130.000 foram gastos em impostos, sobraram 350.000 para Furtado. É assim que funciona a fraternal contabilidade petista.

Furtado já declarou que, em parte por motivos ideológicos, não aceita fazer publicidade em sua produtora de cinema. Exceto publicidade do PT. Ele é o mais requisitado marqueteiro petista do Rio Grande do Sul. Dirigiu as duas campanhas de Tarso Genro à prefeitura de Porto Alegre e as duas campanhas de Olívio Dutra ao governo do estado. Valeu a pena. O governo gaúcho, na administração Olívio Dutra, premiou seu filme O Homem que Copiava com 1,3 milhão de reais. E deu mais 1,1 milhão para seu sócio. Furtado está entre os maiores captadores de recursos públicos para o cinema do país. Leva dinheiro de todos os lados. Só nos últimos tempos, recebeu 250.000 da Petrobras, 380.000 da Ancine, 400.000 do BNDES, 370.000 do Ministério da Cultura, uma ajudinha camarada dos Correios, outra ajudinha camarada da velha prefeitura petista de Porto Alegre.

Não é só com o apoio de estatais que Furtado financia seus filmes. Meu Tio Matou um Cara, atualmente em cartaz, contou também com o patrocínio da Brahma. Furtado diz que não faz publicidade, mas o filme está repleto de merchandising de cerveja. Seus sólidos princípios ideológicos valem tanto quanto os de Lula. Como todo petista, Furtado protestou violentamente contra a privatização das empresas de telefonia. Agora, com a maior naturalidade, passa o pires na Brasil Telecom e na TIM. Quando o PT estava na oposição, Furtado acusava Fernando Henrique Cardoso de representar “décadas de concentração de renda e exclusão social, patrocinadas pela mesma elite que continua no poder: ACM, Sarney, Maluf, Delfim”. Os quatro antigos vilões foram alegremente absorvidos pelo fisiologismo petista, e Furtado deixou de se escandalizar com isso. Afinal, além de patrocinar a concentração de renda e a exclusão social, a tal elite também patrocina seus filmes.

A esquerda, durante a ditadura militar, deu a Amaral Neto o apelido de “Amoral Nato”. Furtado tem uma vantagem: se alguém quiser aplicar-lhe um apelido depreciativo, nem precisa estropiar seu sobrenome.

Diogo Mainardi

Quando li o texto acima no Intelligentsia, fiquei impressionado com a babaquice do Mainardi e a puerilidade dos seus argumentos. Se o tal curta-metragem for o que eu estou pensando — um longo comercial exibido aí pelo Natal –, é a melhor peça publicitária veiculada nos últimos tempos. Um comercial de fazer babar.

Aí eu vi uma peça ainda maior de babaquice, a cartinha do Jorge Furtado no Smart Shade of Blue.

Não mexam no meu lixo

O André Marmota republicou um post do André Kenji descendo a lenha nos desenhos animados dos anos 70 e 80. Quanto aos 80 eu poderia até concordar, mas seria uma visão subjetiva porque foi quando deixei de assistir a desenhos animados e porque eu, como faço questão de lembrar, detesto os anos 80.

O ponto de vista do Kenji vale como um ponto de vista de insider, o ponto de vista de quem olha para desenhos animados como mais que entretenimento. Um artista pode reclamar das limitações que uma época lhe traz. Quanto ao telespectador, eu não tenho tanta certeza.

Por exemplo, os anos 70 foram o inferno astral dos Estúdios Disney, e o auge da linha de montagem da Hanna-Barbera. Mas há uma coisa curiosa em tudo isso. O Kenji esqueceu que a maior parte dos desenhos a que assistíamos nos anos 70 tinham sido produzidos nos anos 60, alguns até mesmo nos anos 50 (Jambo e Ruivão, por exemplo, é de 1957; Dom Pixote do ano seguinte, e por aí vai. O Wingnut tem uma lista desses desenhos com os respectivos anos de produção); para falar a verdade, assistimos a muitos produzidos nos anos 40, como Tom e Jerry e Popeye. Assistíamos à Pantera Cor de Rosa, entre muitos outros. E eu, pessoalmente, conheço poucos desenhos tão brilhantes quanto Gerald McBoing Boing.

Por isso, quando resolvemos criticar os anos 70, é bom lembrar que uma coisa é a crítica americana e outra, totalmente diferente, a brasileira, que assistia a produtos mais antigos (por exemplo, a batmania é de 1966, mas eu assistia ao seriado do Batman 10, 11 anos depois). Ainda não era época de TV a cabo nem de internet, as coisas demoravam até chegar aqui. Claro que, em meio à parte boa, havia a banda podre, e a ela a crítica do André é pertinente. Havia muito lixo, sim. Mas quando vejo os desenhos da Cartoon Network não encontro muita diferença entre eles e o que eu via de relance nos anos 80. Talvez a arte esteja mais estilizada do que naquela época — e ainda assim não chega aos pés dos desvarios do fim dos anos 60, muitas vezes sendo pouco mais que um reparoveitamento daquela estética –, e certamente há tanta agressividade quando nos desenhos mais sádicos do Pica-Pau, mas no fundo é quase a mesma coisa. Sem falar nos desenhos simplesmente ruins.

Outra coisa: a nossa apreciação, por exemplo, das novas versões do Batman são condicionadas, em grande parte, pelo que assistimos quando crianças. E desenhos como Os Simpsons e O Crítico só foram possíveis porque essa geração que agora circunda os 30 anos cresceu vendo todo aquele “lixo” nos anos 70 e 80.