Sob o Domínio do Mal

Quarenta anos deveriam bastar para que se fizesse um filme melhor que sua primeira versão. Infelizmente, isso raramente acontece.

“Sob o Domínio do Mal”, a nova versão do filme maldito de 1962, tinha alguns elementos que poderiam fazer dele algo melhor que o original. Tem Denzel Washington no papel de Frank Sinatra, por exemplo. Denzel é um grande ator, enquanto Sinatra era apenas “a Voz”. Meryl Streep pega o papel de Angela Lansbury, mantendo as coisas em alto nível, e Liev Shreiber ocupa o lugar de Lawrence Harvey; talvez tenha sido escolhido por sua semelhança.

Infelizmente, Jonathan Demme também pega as funções de John Frankenheimer, e é aí que as coisas realmente complicam. Demme não é, nunca foi um diretor à altura de Frankenheimer.

O filme original era produto da Guerra Fria. Nele, o inimigo interno era marionete do comunismo internacional, personificado pelos chineses maoístas durante a Guerra da Coréia. Agora, com a China crescendo assustadoramente e se posicionando como a próxima superpotência econômica e deliciosamente capitalista — pelo menos para aqueles que moram nas zonas especiais –, o inimigo é o capital internacional, dentro de uma conjuntura em que a América se vê assustada pelo terrorismo internacional. Trecos internacionais demais em um filme só, mas deixo essa. Assim como os maoístas de azul, os capitalistas não têm escrúpulos; assim como os bolcheviques, eles acreditam que todo o poder emana do presidente.

“Sob o Domínio do Mal”, versão 2004, tem técnica cinematográfica muito mais apurada do que o filme original. Mas isso sequer deveria ser uma questão. Resta a forma como o filme é conduzido, e é aí que Demme se perde.

Durante quase todo o filme, Demme faz um bom trabalho. Talvez a idéia do tal capital como grande vilão já esteja um pouco batida, mas sempre pode render alguma coisa; certamente rende mais que petrovilões de turbante. Além disso, há a conjuntura de uma América que quase perdeu seus princípios por causa do medo, e isso é bem explorado no filme. Nnada, no entanto, que faça esquecer o primeiro.

A melhor idéia em “Sob o Domínio do Mal 2004” vem no final, quando os personagens têm seu papel invertido. Mas é justamente essa boa idéia que leva ao final medíocre e equivocado do filme, um final tão feliz que mesmo a mais deslavada comédia romântica teria vergonha de mostrar, com o mal punido exemplarmente e os bons tendo uma nova chance.

Reacionário ou não, alarmista ou não, o primeiro filme era brilhante e não fazia concessões. É o contrário da versão de Demme, que abdica de um filme razoável em busca de um final “aceitável”.

A versão de 1962 se revelou tragicamente profética um ano depois, quando Kennedy foi assassinado; foi o que causou a desgraça do filme. Talvez Demme tenha querido fugir dessa sina, ou talvez simplesmente tenha decidido fazer uma profissão de fé na capacidade do povo americano de superar os tempos difíceis que atravessa e defender a democracia.

Provavelmente teria se dado melhor se tivesse tentado fazer apenas um bom remake.

Don Rosa II

Eu já tinha ouvido falar do Don Rosa antes, mas foi o Inagaki quem me chamou a atenção para ele.

Li sua primeira história há algumas semanas e achei muito, muito boa. Não mais que isso. Um grande roteirista, um desenhista razoável, e tudo estava de bom tamanho.

Li a segunda e a terceira e minha opinião mudou radicalmente. O sujeito é um gênio.

A primeira história, na Tio Patinhas 472, é “Uma Carta de Casa”. Quanto ao traço, uma olhada com um pouquinho mais de atenção me deu a impressão de que Rosa, embora parta de princípios “barkianos”, tem uma influência insuspeita: Robert Crumb. Há algo de sujo em seu traço que me lembrou Fritz the Cat; obviamente seria algo como Crumb para o estilo Disney, mas ainda assim é um estilo muito mais “udigrudi” que o normal.

Mas há outros elementos, muito mais importantes. Não é a arte que faz de Rosa é um gênio: são os seus roteiros.

A diferença no relacionamento tradicional entre o Donald e o Tio Patinhas me chamou a atenção imediatamente. Donald era só o sobrinho atrapalhado, irritável, meio burro e submisso do tio quaquilionário. Rosa realçou outros elementos para criar um elo a mais entre eles, como um gosto comum por aventura. Mas o principal, mesmo, é que ele tornou Donald finalmente um adulto. O sarcasmo aberto, até amargo, com que Donald fala da avareza do tio não era algo comum no universo Disney. De repente, Donald se torna um igual de Patinhas: é um adulto como ele. E entre os dois há um abismo ético que não se via antes, não dessa forma.

É ainda nesse aspecto, a psicologia dos personagens, que Rosa acrescenta outros avanços. Ele tenta dar mais profundidade ao Tio Patinhas, tirando um pouco o foco de sua avareza e ganância e ressaltando o gosto pela aventura. Tenta humanizar o personagem e adaptá-lo ao início do século XXI. Rosa conseguiu o que ninguém antes dele havia conseguido: atualizar os personagens míticos de Walt Disney para uma era diferente sem conspurcar sua essência. A Marvel deveria ter olhado para ele antes de emporcalhar o Homem-Aranha com aquela palhaçada do Ultimate Sei-Lá-O-Quê.
Don Rosa é, como disse o Inagaki, um bom motivo para comprar a Tio Patinhas todo mês. Mesmo que isso signifique ter que ler aquelas histórias horrorosas e histéricas produzidas na Itália.

(Para quem não conhece o macete, velhíssimo, é só olhar para a primeira letra dos códigos que estão no primeiro quadro da história. Por exemplo, B99265 significa que a história foi produzida no Brasil, I é Itália, etc.; a Abril divulgou esses números com estardalhaço na época em que o estúdio brasileiro produzia grandes histórias).

A Revolução dos Bichos

A lista dos melhores livros do século do Liberal Libertário Libertino já deu uma surpresa. “A Revolução dos Bichos”, de Orwell, foi incluído entre os 30 mais.

Nada demais nisso, se o livro não fosse uma droga.

Li aos 11 anos. Reli alguns anos depois. Mais uma vez, agora em inglês para ver se a tradução não tinha deixado nada passar.

E em qualquer língua, em qualquer tempo, o livro continua uma droga.

É só uma alegoria óbvia e boba. Como literatura, é lixo. É o tipo de coisa que qualquer idiota pode escrever, daria um bom esquete de TV, uma sacada legal de um roteirista competente — “que tal transformar Lênin e Stálin em porcos?” — mas nunca um livro, nem mesmo um bem curto como aquele.

No entanto, em época de guerra fria, entende-se que as pessoas pegassem um comunista arrependido como Orwell e alçassem seu livro à categoria de obra-prima. Que me perdoem todos os fãs da obra, mas aquilo é só propaganda. Só isso, não tem grandes méritos além desse.

Sua virtude é ser anti-comunista, só isso. E ser curto. Se alguém quer uma boa crítica de esquerda — ou seja, trotskista — ao stalinismo, que leiam “Memórias de um Revolucionário”, belíssima crônica da Revolução Russa travestida de autobiografia de Victor Serge. De direita? É só pegar um livro qualquer do Soljenitsin. Mas todos esses dão trabalho, são longos; melhor, no caso, ficar com a maior parte da crítica feita à Revolução Russa, boba e rasteira, mas perfeitamente aceitável em um mundo que comemora incessantemente a vitória do capitalismo, às vezes de maneira impensada e irracional.

O que eu não entendo é que, 15 depois da queda do Muro de Berlim, quando as pessoas deveriam ter mais o que fazer além de repetir os clichês com as quais cresceram, elas continuem repetindo que aquele livro é uma obra-prima.

The Beasties

No dia 25 de fevereiro de 2004, grande parte da internet se vestiu de cinza, fazendo parte da Grey Tuesday.

Era um protesto contra a imbecilidade da Apple ou EMI, não lembro direito, mandando o DJ Danger Mouse tirar do ar o seu Grey Album, um disco com remixes de músicas do “Album Branco”, dos Beatles.

Acima de tudo, aquilo era uma imbecilidade. Contra a liberdade de criação, mas principalmente contra eles mesmos: a ordem virou contra eles e de repente todo mundo fez daquilo, com justiça, um ato de desobediência civil, um cavalo de batalha em defesa

A confusão ajudou a esconder o fato simples: o disco era ruim de doer. Muito antes da ordem judicial eu já havia baixado duas canções e desistido. Em uma palavra, medíocre. Ou lixo, se preferirem. É chato ter que

Agora é a vez do DJ BC apresentar The Beasties. E este é tudo o que o outro deveria ser. É muito, muito bom: uma boa mistura de Beatles e Beastie Boys, especialmente as faixas 8, 2, 7 e 9.

Por esse, sim, valeria a pena armar um fuzuê.

Os 100 piores filmes

O Julius, que eu não conheço, me mandou um e-mail com uma sugestão: fazer uma lista dos 100 piores filmes, mais ou menos como fiz uma daqueles que acho os melhores.

A idéia é boa. O problema é que não sei como começar. Porque quando um filme é ruim, ele é geralmente muito parecido com tantos outros; é como se depois que decidíssemos que aquele filme é ruim, não percamos mais tempo julgando esse ou aquele detalhe.

Consegui pensar em alguns. Tem o óbvio, como Plan 9 From Outer Space — que não consegui assistir, de tão ruim que é. “Falcão, o Campeão dos Campeões”. Tecnicamente, uma olhada nas filmografias de gente como Steven Seagal dá um bom número de filmes para a lista. Os últimos do Godard, também.

Sei, pelo menos, qual eu elegeria o pior filme de todos os tempos, pelo menos para mim: “O Último Americano Virgem”. Nunca, em tempo algum, um filme me irritou tanto quanto aquele. E há outro do mesmo Boaz Davidson, diretor que denigre de forma irreparável o cinema feito em Tel Aviv, Lemon Popsicle.

O resultado é que, por incrível que pareça, definir os 100 melhores filmes é relativamente fácil. Mas escolher os piores é dificílimo. Eles abundam. Com trocadilho e tudo.

A filha do rei

Lisa Marie Presley, filha de você-sabe-quem, está vendendo 85% dos bens do seu pai.

Entre eles estão os direitos de nome e imagem do pai. É uma estupidez; não tenho dúvidas de que McCartney se arrepende até hoje de não ter comprado os direitos das músicas dos Beatles por cerca de 50 milhões de dólares, em 1985. Hoje elas valem pelo menos 20 vezes mais.

Pensando bem, a menina nunca primou por ter juízo. Ela foi casada com Michael Jackson, diabo.

Lazio's last flower

Post n’O Biscoito Fino e a Massa, comentário no Liberal Libertário Libertino, e o assunto — que eu pensava que tinha sido esquecido e engavetado na seção “Leis que não pegaram” — volta à baila: o projeto de lei do hoje ministro Aldo Rebelo em defesa do idioma português.

Eu já ri muito do projeto, aqui, ali, e acolá. Mas o tempo passou e eu descobri alguns pontos curiosos.

Até terça-feira eu não tinha lido o projeto. Li seguindo um link no blog do Idelber.

Como está escrito é um primor de idiotice. É burro, mal escrito, faz ameaças que não pode cumprir, é contraditório. Algumas pérolas se destacam. O projeto reitera itens que já estão na constituição, entre outras bobagens e perda de tempo. Nem mesmo prevê punições.

Mas segundo um assessor do ministro, o verdadeiro objetivo do projeto era obrigar o Estado a controlar o uso do idioma português pelo seu próprio aparato. Ele deu um exemplo muito bom. O site do Banco do Brasil era repleto de expressões estrangeiras, como é comum no jargão bancário. Logo depois que a lei passou, o site apareceu escrito em português cristalino.

A questão: se havia palavras em português, por que um órgão do Estado tem que usar palavras inglesas? Não faz sentido.

Eu uso as palavras que quiser, e é esse problema da lei, querer controlar o que não pode. Mas até prova em contrário, a língua oficial deste país é o português. Espera-se que o governo redija seus documentos oficiais nessa língua. Foi isso o que me explicaram (estavam errados e condescendentes demais com uma lei estúpida), e é esse espírito que defendo.

Dizer que o Estado não deve se imiscuir nesses assuntos é só parcialmente verdade, como é também dizer que os EUA não estão preocupados com isso. Não estão agora, depois de terem obrigado seus índios a falarem o inglês, e de estabelecer com ministérios da educação de todo o mundo programas de divulgação da sua própria língua, e sentados confortavelmente sobre seu domínio econômico.

Há uns 15 anos, todos os lançamentos imobiliários em Salvador tinham nomes em inglês. Por exemplo, se o edifício ficava na 8 de Dezembro, uma ladeira na Graça, o prédio se chamaria Grace Hills (eu sei porque quem deu esse nome fui eu, um em uma lista imensa fornecida à construtora).

Aí podem alegar: poxa, deixe que a sociedade resolve. Mas isso não existe, é papo de liberal ingênuo. Porque a função do Estado é mediar conflitos, e sem ele manda quem pode: a construtora botava o nome que queria, mexendo de maneira definitiva no ordenamento urbano porque seus executivos, imersos no típico mundo colonizado das classes médias brasileiras, achavam esses nomes chiques; e o povo tinha que engolir — até porque está pouco se lixando: nego procura é o melhor apartamento que puder pagar, se chame ele Pumpkin ou Jerimum. Em vários casos, o discurso que busca uma analogia com as leis de mercado apenas mascara a imposição de uma classe imbecil que prefere dizer 50% off em vez de 50% de desconto, porque o off lhes faz sentir que estão em Caipirópolis — perdão, Miami.

A Câmara dos Vereadores acabou aprovando uma lei (e não, não foi iniciativa de um stalinista qualquer, foi de um bom e velho capitalista, mesmo) proibindo isso, por causa dos excessos a que chegaram. E o mais interessante é que em Aracaju, onde não houve lei semelhante mas se comporta como quintal de Salvador, os edifícios hoje são batizados de maneira bem mais sensata.

Moral: é a sociedade quem resolve o que fazer. Mas de vez em quando uma intervenção do Estado pode ser providencial.

No fim das contas, essa é uma discussão legal para a classe média, e só para ela. Porque o povo não está nem aí, ele que nem português sabe, quanto mais inglês. Enquanto a classe média, orgulhosa por freqüentar as casas de muamba de Miami, se irrita além do necessário (quantas pessoas, como eu, xingaram o projeto sem o ter lido?), a patuléia está que nem aquele português da piada, que não aprendeu o novo idioma e esqueceu o antigo.

Dois exemplos: montei uma agência, há muito tempo, e batizei como Zoo. Sem acento por questões de aparência gráfica; obviamente, todo mundo chamava a agência de Zu. Outra: minha filha chega para mim e diz: papai, sabe como se escreve Coragem [para quem não lembra, o Cão Covarde]? C-o-u-r-a-g-e.

O nível de leitura da minha filha é basicamente o mesmo de milhões de adultos brasileiros. E é por isso que, pelo menos em seus aparelhos, o Estado tem a obrigação de defender sua língua.

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Há alguns meses, fui a uma recepção em que estava o Aldo Rebelo. Ele obviamente não tinha lido este blog, mas em conversas com seus correligionários eu não fazia questão de esconder que achava o projeto uma palhaçada. Na verdade, meu passatempo com o pessoal do PCdoB é dizer que estou esperando eles se tornarem sociais-democratas como eu, que sou a vanguarda do marxismo internacional e um dia eles vão perceber isso e erigir uma estátua para mim. Eu já tinha enchido tanto o saco do pessoal que era bem capaz que eles me dedurassem. Dei um jeito de me esconder do Aldo (claro, não estava preocupado comigo, nem sabia que eu existia, mas por que arriscar?), porque minha coragem não vai a tanto. E os salgadinhos, rapaz, estavam muito bons.

“Os Incríveis” em tópicos

“Os Incríveis” é o melhor desenho infantil para adultos já feito.

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Todo o hype sobre o último filme da Disney/Pixar é merecido. “Os Incríveis” é brilhante, em animação, arte e roteiro.

Mas não é exatamente um filme infantil. É um filme para adultos. Sua crônica das frustrações da classe média é excelente, mas passa longe do universo infantil.

E no entanto o filme agrada enormemente às crianças.

É uma característica que tem aparecido em vários outros desenhos animados nos últimos tempos. “Shrek 2”, por exemplo, é uma delícia — mas é mais para quem consegue entender aquele montão de piadas internas e referências.

Clássicos como “Branca de Neve e os Sete Anões”, e até mesmo “Rei Leão”, apelavam aos adultos pelo que tinham de infantil. Era no reconhecimento dessa beleza infantil que estava seu atrativo. Mas as coisas mudaram.

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Outra curiosidade: em determinados momentos não dá para diferenciar aquele filme, oficialmente um desenho animado, da maioria dos filmes de ação recentes. A razão: o uso cada vez mais intensivo de CGI nos filmes “comuns”.

Daqui a pouco atores não vão fazer falta, cinegrafistas trabalharão diante de um computador, e o Actor’s Guild of America vai produzir um documentário chamado Final Nightmare.

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“Os Incríveis” tem uma coisa maravilhosa, que pouca gente notou: finalmente deixaram de lado aquela mania de usar estrelas de TV como dubladores e deixaram o assunto com os profissionais. Não dá para explicar o que é ouvir a voz maravilhosa do Marcio Seixas — amigo de muitas e muitas “Disneylândias” distantes — como o Beto.

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Outro sinal dos tempos: o curta que antecede “Os Incríveis” é extremamente reminiscente da fase áurea da Disney, aí pela década de 50. No entanto, é decepcionante. Decididamente, a Pixar não é a Disney. Na verdade, nem a Disney é mais a Disney.

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Os prognósticos, no entanto, são esquisitos. O que talvez seja o último filme da parceria Disney/Pixar, Cars, cujo primeiro teaser aparece antes do início de “Os Incríveis”, é uma tragédia em termos de animação. Dura, mal feita. Muito abaixo do nível da Pixar e da Disney. Inferior até mesmo a Wheelie and the Chopper Bunch, desenho animado da Hanna-Barbera dos anos 70.

Fazendo a feira

É sempre igual: eu chego a Fortaleza e antes mesmo de ir ao hotel vou à Livro Técnico da Floriano Peixoto, que sempre tem livros em promoção. Foi o que fiz dia 3.

Cheguei lá e a loja estava fechada, com o aviso pregado na porta: “Abriremos às 10 horas. Motivo: falecimento da genitora do proprietário”. Três palavras que detesto: falecimento é morte, genitora é mãe, proprietário é dono. Já passaram das 10 horas, e vejo que vai demorar. Lá vou rodar o centro da cidade enquanto espero abrir.

A espera foi recompensada com uma boa colheita. Muitos livros novos em promoção, o paraíso para mim.

Desta vez trouxe nove, fora alguns infantis:

  • A Luta, Norman Mailer;
  • Eu, o Júri, Mickey Spillane;
  • Púbis Angelical, Manuel Puig;
  • Trevas de Luz, Richard Zimler;
  • Ripley Debaixo D’Água, Patricia Highsmith
  • América, T. Coraghessan Boyle;
  • Grana, Martin Amis;
  • A Declaração, Brian Moore;
  • Os Jornalistas, Balzac

O livro da Highsmith comprei porque gosto da série de Ripley, do Brian Moore porque o acho um bom escritor menor, do Spillane para tirar uma dúvida, o Balzac porque compro qualquer Balzac de olhos fechados, e o resto porque nunca li nada deles e estava na hora de conhecer. Com exceção de Puig e de Mailer, comprei porque estavam ali. Tem gente que escala o Everest porque ele está lá, como disse a Lucia Malla. Eu compro livros sem certezade que são bons porque estão lá e são baratos; prefiro comprar 20 livros desses a dar 100 reais em “Sobrados e Mucambos”, porque é desaforo. Cada louco com sua mania. Teria trazido mais, mas daqui a dois meses vou estar lá novamente e quero ter algo para comprar. Sou um homem de hábitos e profundamente consumista, como se pode perceber.

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Brian Moore, como já disse, é um bom escritor menor. Já tinha lido dois livros dele, dois thrillers também comprados nesse esquema de saldão. Este é o melhor. Conta a história de um velho, criminoso de guerra na França de Vichy, e sua fuga de gente que precisa da sua morte.

O mais interessante no livro é que é um dos poucos que conheço que falam da ambigüidade inerente ao colaboracionismo francês durante a II Guerra. Não se prende a estereótipos do tipo “Resistência boa, colaboracionistas maus”, mas não se perde no relativismo ético de achar que colaboracionistas eram excelentes pessoas. Apenas mostra que tudo sempre foi mais complexo do que parece, que aquilo tinha raízes profundas na sociedade. Moore escreve um bom thriller, que vale a pena ler.

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O livro de Highsmith é bonzinho, como qualquer Ripley, mas é mais fraco do que o outro da série que li. Só isso. Bom entretenimento, e só.

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O livro de Mailer é maravilhoso. É uma belíssima reportagem sobre a luta de Muhammad Ali e George Foreman no Congo, então Zaire, em 1974. É brilhante em sua forma, honesta ao assumir que torce por Muhammad Ali (e quem não torcia?). E foi um livro que me deu algumas idéias.

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O livro de Spillane apenas confirma que ele é inegavelmente ruim, e assim minha dúvida é dirimida. É curioso, porque estruturalmente ele é um bom escritor noir. Está tudo ali, tudo nos lugares certos. Tem a qualidade de fazer seu herói — um detetive particular, o que mais? — ser amigo da polícia, o que parece mais plausível que os eternos detetives marginais de praticamente todos os outros livros. Suas femme fatales são muito boas; a deste livro quase se compara a Brigid O’Shaughnessy.

Mas isso é tudo. O resto é um sadismo e uma quase onipotência de Mike Hammer que, já na segunda página, o tornam pouco crível. Qualquer pessoa que se comportasse de maneira tão canalha com todo mundo seria morta em 2 dias, mas Spillane parece não perceber isso. Mike Hammer não passa de uma caricatura grotesca em um gênero necessariamente esquemático. É melhor do que a maioria do noir que se faz hoje em dia. Mas muito pior do que o que se fazia em sua época.

O livro é de 1947. Hammett já tinha escrito o Antigo Testamento do noir, Chandler estava escrevendo o Evangelho, MacDonald começava o seu Apocalipse. Spillane conseguiu escrever a “Cartilha do Dízimo”.

De arquitetos e de estantes

Sempre reclamei de uma coisa simples: arquitetos, pelo que se vê nas revistas de decoração, não sabem desenhar estantes.

É impressionante. Fazem coisas desproporcionais, pouco práticas, feitas para quem não tem o costume de ler mas quer mostrar seus livros. Por isso a melhor estante que vi até hoje nessas revistas de decoração não foi desenhada por um arquiteto, e sim por um jornalista. Prateleiras grossas para agüentar o peso dos livros, portas corrediças de vidro fosco (para diminuir a incidência de luz e a poeira, inimigos eternos), e armários embaixo porque quem lê um pouco costuma guardar papéis — não me perguntem por quê. As outras, desenhadas por arquitetos, costumam ser basicamente mostruários de uns poucos livros de mesa e objetos de decoração.

Mas dia desses, lendo uma revista, cheguei à conclusão de que não é culpa exclusiva deles.

O apartamento mostrado é o de uma assessora de imprensa. Nas estantes alguns livros, talvez não cheguem a 100. Uma olhada com atenção mostra que a moça, afinal, pode viver de escrever, mas não lê absolutamente nada.

Entre os livros, a maioria são didáticos, inclusive uma coleção de literatura que praticamente todos os estudantes usaram no segundo grau no final dos anos 80, e livros típicos da faculdade. Alguns livros de referência, como um antigo dicionário do MEC de inglês — o número de manuais e dicionários de inglês mostram que ela fez curso, e levou muito a sério; talvez trabalhe em uma empresa onde inglês seja realmente necessário. Fascículos encardenados, desses que acompanham revistas ou jornais. Um tiquinho de auto-ajuda, nada que comprometa a dignidade de ninguém. Uma constituição, daquelas de bolso distribuídas a rodo em 1988 (sempre que as vejo lembro que a minha é mais chique: é encadernada com uma inscrição com o meu nome, “Acadêmico Rafael Galvão”, e dedicatória de um dos constituintes). Uma edição de “Hans Staden”, o indefectível “Brasil: Nunca Mais”, as (excelentes) biografias de Assis Chateaubriand e do Barão de Mauá, uma edição antiga de “Olga”, um livro de Nelson Rodrigues.

Os livros da mulher, embora delatem sua idade — tem lá seus 35, 40 anos –, são o que se poderia chamar de corretos. E é justamente aí que está o seu problema.

Eles não passam disso. São os livros que todo mundo leu, que fizeram parte das conversas de bar. Livros que se lê como quem lê jornal, para se manter atualizado. Mas nem esses são garantidos. Às vezes fica a impressão de que a mulher não lê absolutamente nada.

A pista está em uma coleção que O Globo e a Folha de S. Paulo lançaram ano passado. É provavelmente a melhor dessas coleções que acompanham periódicos, e que a indústria conhece genericamente como fascículos. Capa dura, belo projeto visual nas sobrecapas, excelentes traduções, e uma seleção que mais acerta do que erra (“Cem Anos de Solidão”, “Lolita”, etc.).

É uma bela coleção. Tão bela que ela sequer tirou o plástico que os envolve.

A culpa pelas estantes pouco funcionais, definitivamente, não é apenas dos arquitetos.