Cinerama

Em 29 de novembro de 1980 eu fui para o cinema sozinho pela primeira vez. Peguei um ônibus no fim de linha da Graça, onde morava. Desci na praça Castro Alves. O filme era “Nós Jogamos Com os Hipopótamos”, com Terence Hill e Bud Spencer, no Cine Guarani, hoje Glauber Rocha.

Não me perguntem como lembro da data. Mas sei por que resolvi falar disso.

No Coisa de Cinema, recomendado pelo Reginaldo, me bati com um banner avisando que o cinema, que tinha fechado em 1998, foi transformado em uma espécie de Estação Unibanco. Um mutiplex moderno, e uma alternativa excelente à segregação dos cinemas em shopping centers.

Enquanto isso, a alguns poucos quarteirões dali (basta descer a Barroquinha e virar à esquerda na Baixa dos Sapateiros), outro cinema agoniza.

Entrei no Cine Jandaia uma única vez, em 1987. Um primo aficcionado por artes marciais foi assistir a um filme de Bruce Lee e me chamou. Eu fingi um interesse que não tinha porque sabia que havia também um filme de sacanagem. Só tinha dois medos, o de ser barrado — ainda não tinha completado 16 anos — e o de o filme de Bruce Lee passar primeiro e meu primo querer ir embora. Medos bobos, como se viu. Ninguém quis saber minha idade e meu primo não foi embora depois dos gritinhos do porradeiro. Ou o filme de Lee passou por último, sei lá.

Quando entrei ali fiquei deslumbrado com os ecos de um passado que tinha sido glorioso. Como todo cinema de centro — principalmente de uma área decadente como a Baixa dos Sapateiros –, o Jandaia há muito tempo é só uma sombra do que já foi. Mas ali estavam as provas, embora esmaecidas.

O Cine Jandaia, como é hoje, foi construído no início da década de 30. Tinha um luxo que só era possível naquela época, em que a Bahia nadava no dinheiro do cacau. Não sei se ele ainda funciona; se funciona, há pelo menos 25 anos exibe diariamente as tradicionais sessões duplas dos cinema poeira — um filme de pancadaria e um filme pornô, para platéias cada vez menores.

Ali perto, e já fechado, está o Pax.

Dia desses um amigo contou como eram as coisas nos últimos dias daquele cinema.

No banheiro homens se postavam em duas filas com seus pênis para fora, como em um corredor polonês, esperando que algum homossexual os escolhesse. Nos cantos, garotos de programa faziam valer o dinheiro que estavam ganhando duramente.

***

Mais do que simples salas de exibição, alguns desses cinemas são patrimônio de uma cidade.

Todas as capitais do Brasil, hoje, discutem projetos de revitalização dos seus centros. Nenhum desses projetos, no entanto, pode estar completo sem uma iniciativa em favor dos cinemas de centro.

Não é difícil. A maioria deles é gigantesca, com mil ou mais lugares, e pode sofrer reformulações completas, a partir da diminuição de poltronas e o acréscimo de bares ou pequenos centros culturais.

Foi o que a Petrobras fez com o Odeon, na Cinelândia do Rio, e ninguém pode negar que deu extremamente certo.

Nenhum desses cinemas de centro tem alguma chance de sobrevida se não for por iniciativas estatais ou subsidiadas pelo Estado. A lei do mercado é cruel com todos eles.

Karolina com K

Karolina foi o maior estrupício que eu encontrei na minha vida.

Ah, mulher bagunceira da mulesta… Mulher cangaceira… Conheci Karolina num forró que eu tava tocando. Quando avistei aquela mulherzona diferente no meio do salão, sem dançar com ninguém, só mangando dos matutos, eu pensei comigo: “Aquilo deve ser um pedaço de mau caminho… Mulher bonita, morena trigueira… Cabelo comprido, boa linha de lombo…”

Aí eu comecei a caprichar no fole véio pra ver se ela dava fé de mim. Mas ela nem fé deu. E eu pensei comigo: “Deixe estar, danada. Se aparecer aqui um colega pra me dar uma ajuda eu vou aí pra tu ver o que é bom pra tosse.”

Aí apareceu o Anselmo.

“Ô Anselmo, pega essa sanfona aqui.”

Anselmo pegou a sanfoninha, fui na banca de Sá Marica. “Sá Marica tem cerveja? Bote um cálice. Cervejinha é essa, Sá Marica? Só tem escuma!”

“Oxente? Cerveja quente é assim mesmo!”

“Apois. Bote duas encangadas aí no fundo do pote, que eu volto mais tarde.”

Aí me botei pro salão com mais de mil. Cheguei perto dela e disse:

“Que mal pergunte, é vosmecê que é a Karolina?”

Ela escorou na perna esquerda, descansou a direita, botou a mão nos quartos, balançou e disse:

“Pergunta é bem. Karolina com K”.

Ha.

“Quer dançar mais eu?”

“Só se for agora.”

Abufelei. E saí com essa mulher.

Joguei ela pra direita, ela veio; joguei ela pra esquerda, ela tava aí — a mulher era adivinhona… Chamei a mulher no vôo do carcará — sabe como é o carcará, né? Ele voa na vertical, pára no ar e fica peneirando… Aí eu vim descendo com ela bem devargazinho nos meus braços. Quando ela triscou os pés no chão, deu uma gaitada:

“Hahai, é hoje!”

“É hoje mesmo!”

Aí saímos fazendo aqueles fuxicos todos. A mulher pegou o cabelão, enrolou na mão — assim como vaqueiro quando vai derrubar boi –, pendeu a cabeça por um lado e saiu rodando… E eu rodando mais ela, e dando cheiro no cangote dela. A essa altura nós já tava fazendo era teatro. Era o maior burburinho do mundo. Aí eu disse pra ela:

“Karolina, vamo acolá?”

Ela respondeu:

“Bora…”

Chegamos na banca de sá Marica. “Sá Marica, cervejinha!” Ela botou uma, nós bebemos. “Bote mais uma!” Ela botou a outra, nós bebemos. “Sá Marica, bote mais duas encangadas aí no fundo que nós vamos voltar mais tarde.”

Voltamos pro salão. Nós não tava fazendo aquelas misérias todas mais não. Aí nós já tava sereno. Nós já tava daquele jeito… Maior felicidade.

Aí Zé de Bahia chegou, bateu a mão no meu ombro e disse:

“Gonzaga, acabou a festa.”

“Oxente? Acabou a festa?”

“Acabou pra você. Você agora vai tocar. Você que é o tocador? Você tá aqui fazendo arte, tá fazendo até teatro, vá tocar.”

“Pois tá certo!”

Cheguei perto do Anselmo e disse:

“Anselmo, passa a sanfona pra cá e vai dançar com Karolina. Mas não vão pra longe não, hein? Fiquem dançando aqui em volta de mim.”

Anselmo achou foi bom. Aí eu caprichei.

De vez em quando Anselmo passava por perto de mim, Karolina dava uma rabanada de vestido pra riba d’eu, cobria a sanfona… E eu sentia só aquele cheirinho de flor de amor… Maior felicidade.

Aí Zé de Bahia gritou de lá: “É cinco mil-réis! Tá na hora da cota! É cinco mil-réis! Quem não pagar não dança! É cinco mil-r — nãããão… Tá conversando, hôme? Oxente? Não quero cocoré nem choro baixo. É cinco mil-réis! Cinco mil-réis! Cinco mil-réis! Cinco mil-réis!

Também foi ligeiro. Fez a cota, chegou perto d’eu e disse: “O teu tá aqui…”

Eu disse: “Anselmo, passa a sanfona aí pra Pedro Minha Garrafa.” Sanfona na mão de Pedro Minha Garrafa, Zé de Bahia me deu os quarenta, eu saí com Karolina e Anselmo.

“Vamos contar o dinheiro, Anselmo. É vinte pra tu e vinte pra eu. Eu vou contar, pronto. Um pra eu, um pra tu, um pra eu. Um pra eu, um pra tu, um pra eu.

Anselmo, besta, com as butuca em cima de Karolina, nem prestava atenção à minha contagem.

E eu tô lá: “Um pra eu, um pra tu, um pra eu. Um pra eu, um pra tu, um pra eu. Pronto, Anselmo. Aqui tá o teu e aqui tá o meu. Agora tu vai voltar a tocar até de manhã, e guarda minha sanfona que eu amanhã eu vou buscar. E eu já vou com Karolina.”

Chegamos na banca de Sá Marica. “Sá Marica, cervejinha, cervejinha!” Sá Marica passou a cervejinha pra eu, nós bebemos, “Outra cervejinha!”, bebemos a outra. Aí já tava mesmo perto dali, do pé de sombrinhão onde minha egüinha tava amarrada. Chegamos perto da egüinha, acoxei a cilha, passei a perna, joguei Karolina na garupa, saímos escondidos pelos fundos, fomos embora.

Aí Karolina disse pra mim:

“Olha, Gonzaga! Puxa mesmo que a cabrueira vem aí atrás, parece que eles tão querendo botar gosto ruim no nosso amor!”

“Não diga isso, Carolina!”

Salpiquei a espora no sovaco, no vazio dessa égua. A egüinha se abaixou… Saiu danada, chega saiu baixinho…

Piririco, piririco, piririco, piririco, piririco, piririco, epa! Escoramos na beira do rio. O riacho tava cheio, rapaz. Aí a égua refugou água. “E agora, Karolina?”

“Vamos nos esconder dentro das moitas, aí por dentro do mato! ”

Nós entramos no mato, a negrada vinha atrás, riscou também na beira do rio. Nós escutamos o converseiro deles:

“É, sumiram… Se encantaram… Se escafederam. Vamos caçar eles?”

“Hôme, vamos voltar pro samba, que ainda tem umas duas horas de forró…”

“É mesmo, vamos voltar.”

A cabrueira voltou, e nós três ali dentro das moitas: eu, Karolina e minha égua.

E ali nós três, escutando a cantiga das águas.

Tirei a sela e lavei a égua.

***

Luiz Gonzaga foi um dos maiores escritores nordestinos que eu encontrei na minha vida.

Os 10 melhores discos da música popular brasileira

Antes tarde do que nunca, aqui vão os meus votos para os melhores discos da MPB na eleição promovida por O Biscoito Fino e a Massa, em ordem descrescente. A lista mudou até o último minuto. E se fosse publicada amanhã, seria bastante diferente:

Caymmi e o Mar
Dorival Caymmi
Toda a música brasileira moderna deriva de Dorival Caymmi e de Noel Rosa. Isso basta.

Chega de Saudade
João Gilberto
Lá fora, música brasileira é bossa nova. Bossa nova é o violão de João Gilberto. João Gilberto apareceu neste disco.

Luiz Gonzaga Canta Seus Sucessos com Zé Dantas
Luiz Gonzaga
Esse é o disco que contém a maior parte dos clássicos de Lui Gonzaga. Isso basta.

Canção do Amor Demais
Elizeth Cardoso
A bossa nova apareceu aqui. Elizeth, Tom e Vinícius.

A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado
Os Mutantes
Até os Mutantes, o rock brasileiro era bobo, na melhor das hipóteses; a banda de Arnaldo Baptista deu ao mesmo tempo consistência musical, leveza anárquica e brasilidade à música. Este disco é tão bom quando o primeiro da banda, mas tem “Chão de Estrelas”, uma interpretação que antecedeu em vários anos Sid Vicious cantando My Way.

Transa
Caetano Veloso
Páreo duro com “Cinema Transcendental”; mas acaba valendo o gosto pessoal.

Chico Buarque (1984)
Chico Buarque
Em plenos anos 80, época da explosão do rock brasileiro, este disco conseguiu a façanha de ter quase todas as suas músicas tocadas no rádio. Mais que isso: forneceu a trilha sonora para um dos momentos mais importantes da história brasileira. Com o perdão do trocadilho, este disco não passou.

Elis Regina
Ninguém tem dúvida de que Elis foi a maior intérprete brasileira. Ela tem que estar em qualquer lista.

Cavalo de Pau
Alveu Valença
Um grande disco de Alceu Valença. Ele demoraria uns 10 anos até fazer outro disco quase tão bom, “7 Desejos”.

O Blésq Blom
Titãs
É a maturidade do rock brasileiro.

Meu ódio será tua herança

Normalmente gosto das traduções brasileiras para títulos de filmes.

A maioria se limita a traduções literais. Pretty Woman vira “Uma Linda Mulher”, Ladri di Bicicletti se torna “Ladrões de Bicicleta” e por aí vai. Esses não interessam.

É quando os tradutores liberam sua veia de escritores obrigados a ganhar a vida de forma pouco glamourosa que a tradução se transforma em arte.

O exemplo clássico é The Wild Bunch, que aqui virou “Meu Ódio Será Tua Herança”. Um título muito, mas muito melhor que o original anêmico. Era a época do western spaghetti e os tradutores estavam com aqueles títulos italianos maravilhosos na cabeça. Aliás, aquele era um celeiro de grandes títulos, escandalosos, escrachados, latinos. Os italianos certamente tinham noção do que era um europeu fazer um western, e pelo visto abordavam a coisa com um tom de paródia que fez muito bem ao gênero. O western spaghetti é uma drag queen.

(Isso só não explica por que The Good, The Bad and The Ugly virou o bobo “Três Homens Em Conflito”.)

Mas o trabalho dos tradutores é mais difícil que isso. Por exemplo, pegue-se Mr. Smith Goes To Washington. É o típico filme de Capra, o sonho americano mostrado através de sua antítese. O título original faz alusão à possibilidade de o homem comum ter voz no centro de poder dos Estados Unidos. E isso todo americano com um nível razoável de educação entende. Mas, como eu não canso de repetir, para um brasileiro mister Smith pode ir para Washington, para o Winsconsin ou para a puta que o pariu, tanto faz. Não dava para traduzir por “Seu Silva Vai Para o Catete”. E então se tem um título como “A Mulher Faz o Homem”, que ilumina um aspecto totalmente diferente do filme, quase transformando-o em um manifesto feminista.

Outra boa tradução é a de Midnight Cowboy. Bom título, certo — mas “Perdidos na Noite” é ainda melhor e traduz perfeitamente o espírito do filme. E High Noon? Enquanto o título original carrega no suspense que permeia o filme, o brasileiro — “Matar ou Correr” — define o dilema existencial de Gary Cooper. É difernete, mas igualmente brilhante.

A maioria dos títulos traduzidos tenta se adaptar à cultura local de sua época, dando a cor que os tradutores acham que o público espera. Rebel Without a Cause virou “Juventude Transviada” por isso, porque esses termos eram mais comuns no Brasil da época. Na mesma linha há “Os Brutos Também Amam”, versão sem nenhuma relação de Shane. Cá para nós, o filme sequer tem tanto amor assim; e a pessoa que mais ama é o garotinho, que nem de longe é bruto. Mas é preciso admitir que é um título muito melhor que o original.

Talvez o melhor exemplo de tradução que acrescenta ao filme seja “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder. O título original, Sunset Boulevard, se refere à decadência do star system de Hollywood através da decadência de uma de suas ruas mais simbólicas. “Crepúsculo dos Deuses” absorveu essa idéia de degradação e de fim e foi além, dando uma idéia mais grandiosa do que aquele processo de decadência (que se repetiria mais tarde, naquela mesma década) significava.

Em comparação, a versão em espanhol se chamou El Ocaso de una Estrella. Tão pobre.

Mas os maus exemplos não se limitam à península. Unforgiven, aqui, virou “Os Imperdoáveis”. Com o perdão do trocadilho, imperdoável é isso. A tradução errada tira todo o significado do filme. Eastwood, Freeman e Hackman não são imperdoáveis, são imperdoados. Há uma diferença muito grande entre as duas palavras; o título brasileiro retira do filme toda a possibilidade de redenção a que eles almejam. Um se refere ao passado e o outro a uma situação imutável. Do mesmo modo, All About Eve ter virado “A Malvada” tira muito da idéia de biópsia de Anne Baxter. E A Streetcar Named Desire traduzido como “Uma Rua Chamada Pecado” é um crime contra Tennessee Williams. Até hoje me recuso a pronunciar esse nome.

Mais drops de anis e comentários sobre o Oscar

Assim como o Inagaki, eu adoro Frank Capra. Divergimos apenas em termos de filmes preferidos: o Ina prefere Mr. Smith Goes to Washington, eu prefiro You Can’t Take it With You.

Sobre o título em português de Mr. Smith, eu falo amanhã.

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Peter Bogdanovich (além do fato de ter sido casado com a minha musa de adolescência, Cybill Shepherd) daria um excelente professor de cinema. Em qualquer universidade do mundo.

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Concordo que Bronson está bem em “Era Uma vez no Oeste”. Mas eu não consigo deixar de achar que aquele papel pertencia, desde o início dos tempos, a Clint Eastwood. O interessante é que, segundo a lenda, Leone pensou em colocar Eastwood entre os pistoleiros que morrem logo no início do filme. Seria uma idéia genial.

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Mas discordo do Bia quanto a essa história de filme adiante do seu tempo. Não acho que “2001” estivesse à frente; pelo contrário. Estava mais que inserido em seu momento histórico, as vésperas da descida do homem na lua. É isso que faz um grande filme, captar o subconsciente coletivo de sua época. E cá para nós, em vários aspectos é um filme extremamete reacionário.

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“Matrix” foi uma inovaçao visual, sim. Mas, comparativamente, “O Exterminador do Futuro II” foi uma inovaçao maior ainda. Estava vendo Paycheck ou outro desses filmes, e percebi uma coisa: em pouco tempo mal se vai conseguir distinguir um filme de um desenho animado, pela onipresença de CGI em todos os filmes.

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Não, De Palma não inova.

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Não li “Laranja Mecânica”. De Burgess só li “Enderby por Dentro”, um livro que começa maravilhosamente e termina de maneira tediosa.

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“A Última Sessão de Cinema” não é sentimental. Pelo contrário. É um filme triste, amargo, cínico.

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Star Wars é um dos roteiros mais bobos que conheço. Com exceção de Alec Guiness, é um bando de atores de segunda brincando com sabres fálicos de luz. mas é um dos filmes mais importantes da história. Foi um dos que redefiniram a indústria cinematográfica.

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“A.I.” é um filme esquisito, não é? Eu não consigo ter certeza sobre ele. Tenho a sensação de que, se não fosse o final idiota e se fosse um pouco mais curto, ele poderia ser um belo filme.

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Não assisti a Hotel Rwanda ou Kinsey, mas teria votado em Portman para atriz coadjuvante.

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Se eu fosse mulher eu dava para o Pierce Brosnan.

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Teria votado em Million Dollar Baby para roteiro adaptado. O trabalho foi maior, e o resultado muito melhor.

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Um dia ainda entendo por que sou tão absolutamente fascinado por Al Pacino.

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Nossinhora, como morreu gente ano passado.

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Hillary Swank tem dois Oscars de melhor atriz. Quem diria. Eu apostava que ela ia ganhar um Oscar e sumir.

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Downfall, pela cena que apareceu, parece ser muito interessante.

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Dois negros ganhando o Oscar de ator e ator coadjuvante. Isso é bom. Mas Morgan Freeman continua sendo sacaneado.

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A melhor coisa do Oscar ainda são as expressões dos perdedores.

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Parir fez muito bem a Julia Roberts.

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Eu teria dado o Oscar de melhor diretor a Martin Scorsese.

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A elegância de Morgan Freeman é uma coisa absurda.

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O José Wilker acha que Million Dollar Baby é um amontoado de clichês bem dirigido. Nao acho que seja só isso. Acho que é um determinado grupo de clichês até certo ponto, e depois muda para outro amontoado. É a junção dos dois que faz o filme excelente.

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Chris Rock é um bosta.

Drops de anis

O Ina perguntou qual o meu problema com “Aconteceu Naquela Noite”. Acho que todos. Dos filmes de Capra -– e eu sou um bobão fã do carcamano –- é o que eu menos gosto. Posso até estar sendo injusto, ele pode ser o protótipo de todos os road movies que vieram depois; mas é uma questão de gosto, mesmo.

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Eu não gosto muito de “O Grande Ditador”. Alguém já disse e eu concordo: um filme falado de Chaplin é como uma criança colocando versos na Quinta de Beethoven. É bem verdade que piorou depois; “Luzes da Ribalta” é ruim, “Um Rei em Nova York” é muito pior. Para mim, seu único grande filme falado é “Monsieur Verdoux”, provavelmente seu filme mais cruel. “O Grande Ditador” tem qualidades, sim — entre as quais não incluo o discurso final, em parte porque não agüento mais o pôster em que o transformaram –, mas não suficientes para fazer dele um filme como os melhores de Chaplin.

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Eu sou fã de “Anatomia de um Crime”. Mas ainda acho que “Ben-Hur” deveria ser o vencedor naquele. Provavelmente pelas mesmas razões pelas quais, mesmo preferindo “Menina de Ouro”, acho justo que “O Aviador” ganhe o Oscar esse ano — e tenho quase certeza de que vai ganhar. É mais “cinema”, e mais Hollywood.

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Não acho que “Cidadão Kane” não tenha vencido por estar adiante de seu tempo. Acho que não ganhou por duas razões: por não ser o estilo de filme que a Academia gosta, mas principalmente pela polêmica que gerou desde muito antes do seu lançamento. Irritar Hearst não valia a pena naqueles tempos. Quanto a Pulp Fiction, alguém ainda acha que haja filme à frente de nossa época?

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“Era Uma Vez no Oeste” foi o melhor filme de 1969. Cada vez que assisto a ele fico mais e mais impressionado com a genialidade de Sergio Leone. Só consigo ver um defeito no filme: Charles Bronson no lugar que pertence, por direito divino, a Clint Eastwood.

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Eu acho “Assim Caminha a Humanidade” interessante — principalmente por James Dean, que rouba todas as cenas em que aparece –, mas daí a ser o melhor filme do ano vai uma grande distância. Em certos momentos é episódico demais (o que era necessário: alguém já viu o tamanho do livro da Edna Ferber?), o final é muito abrupto, além de outros defeitos.

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“Moulin Rouge”: não que seja um mau filme. Eu gostei, achei legal, uma boa sacada. Ewan McGregor até canta Silly Love Songs, um dos melhores riffs de baixo de que me lembro. Mas não vi essa maravilha toda que muita gente, como não vejo essas coca-colas todas no Boaz Davidson.

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É, eu realmente prefiro “A Bela e a Fera” a “Silêncio dos Inocentes”. Nunca consegui sentir esse suspense todo no filme; não vi sequer essa maravilha de atuação da Jodie Foster. E “A Bela e a Fera”, por sua vez, é o melhor desenho que a Disney fez em décadas. Ela faria melhor depois, mas cá entre nós: um desenho animado concorrer a melhor filme é uma maravilha e a chance deveria ser aproveitada.

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Eu gosto muito de “Assassinos por Natureza”. Mas jamais o indicaria a um Oscar.

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Deer Hunter foi desprezivelmente traduzido em português por “O Franco-Atirador”.

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E eu gosto mais de “A Última Sessão de Cinema” do que “Laranja Mecânica”. Mas pode ser injustiça. Vi o filme do Kubrick há quase 20 anos, quando lançaram em vídeo, havia toda aquela polêmica em torno de seu censura no Brasil, e achei superestimado. É bem provável que eu não tenha entendido o filme na época, mas é essa impressão que carrego até hoje.

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Não acho que “Amnésia” tenha absolutamente nada a ver com Pulp Fiction. Este é alinear, enquanto “Amnésia” é totalmente linear. Seu ovo de Colombo é o fato de contado de trás para a frente. E sua garantia de excelência é o fato de funcionar brilhantemente se visto em ordem cronológica.

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Me passei quando disse que “O Sexto Sentido” ocupa mais espaço no imaginário popular. O Ismael tem toda a razão, é “Matrix”. E assim como ele, eu também acho uma grande bobagem aquele amontoado de filosofia em bar de nerd.

Oscars

A sessão de masturbação coletiva de toda uma indústria conhecida como Oscar vem aí. Faz tempo que não assisto, desde o vexame da Miramax em 2000, mas obviamente já tenho o meu favorito para melhor filme: “Menina de Ouro”.

Aí me veio a sensação de que minhas preferências raramente são as mesmas da Academia.

Resolvi então dar uma olhada nas listas dos indicados ao longo desses quase 80 anos, e fazer uma lista comparando vencedores e meus preferidos.

Eu estava certo: nossas opiniões raramente combinam. A culpa, claro, é deles. Um pessoal que escolhe “Como Era Verde o Meu Vale” em vez de “Cidadão Kane” não pode ter juízo. E quando elege “O Bom Pastor” em vez de “Pacto de Sangue” é porque fugiu do sanatório.

Utilizei alguns critérios para tornar a coisa mais simples. Só poderia escolher entre os indicados. O que quer dizer que não poderia votar, por exemplo, em “Tempos Modernos”, porque um dos dez melhores filmes da história simplesmente não foi indicado.

A lista segue abaixo, escondida porque é grande demais; e não é todo mundo que tem saco para ver uma bobagem dessas.

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Três filmes

Há três filmes que sempre penso em colocar na minha lista de 100 melhores.

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O Show de Truman” é um daqueles filmes cuja idéia central é absolutamente visionária, e não são muitos os que podem ostentar esse título. Pode ser visto como uma crítica ao poder da mídia, um elogio ao livre arbítrio, uma crônica do relacionamento do homem e seus deuses. Pode ser uma antevisão dos reality shows que têm infestado o mundo nos últimos cinco anos. Há subtextos suficientes para fazer dele uma obra suficientemente profunda, e sua realização é brilhantemente comedida. “O Show de Truman” poderia, sim, ser um dos melhores filmes da história.

Mas ele tem Jim Carrey.

Não que ele seja um mau ator — assisti de novo dia desses a “Cine Majestic” e, com exceção do seu discurso ufanista e piegas diante da comissão mccarthista, sua interpretação é decente. Mas se hoje ele ainda carrega aquele estigma de humorista careteiro, isso era ainda mais verdadeiro em 1998.

O resultado é que eu não consigo levar Truman a sério. Estou sempre esperando uma piada, uma careta — e em alguns momentos ele chega muito perto disso.

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No Oscar 2000, eu torci por “Beleza Americana”. Eu estava errado.

Alguém consegue lembrar de uma frase sequer de “Beleza Americana”? Duvido. Eu, pelo menos, só consigo lembrar dos peitinhos da Mena Suvari — e dos peitões da Thora Birch. Mas “Sexto Sentido” nos deu uma das maiores frases da história do cinema, e você sabe qual é, e lembra exatamente da cena em que ela é dita, e lembra da expressão de quem a diz.

Nenhum filme nos últimos 10 anos conseguiu um lugar tão grande e sólido no imaginário popular.

Por outro lado, “Beleza Americana” não vai muito além de uma narrativa pretensiosamente glorificadora da vida nos suburbs americanos. Uma espécie de “Seinfeld” sem humor: um filme sobre o nada, que provavelmente seduziu a crítica americana por colocar um verniz europeu em toda aquela banalidade.

Mais: “Sexto Sentido” tem um dos mais bem escritos roteiros da história. É um filme redondo, um dos mais redondos que eu conheço. Nenhuma cena é dispensável. Sei de gente que diz ter percebido que o personagem de Bruce Willis estava morto; eu não. E depois do filme passei horas relembrando todas as pistas que Shyamalan vinha nos dando ao longo do filme, maravilhado com a grande peça que ele tinha me pregado. Revi o filme apenas procurando falhas, e com exceção de um reflexo de Bruce Willis numa maçaneta, não consegui achar nenhuma. É extremamente cuidadoso (certo, tem alguns erros de continuidade, mas esses não contam).

Talvez “Beleza Americana” fosse mais ambicioso que “Sexto Sentido”, mas certamente não chegou tão longe.

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O terceiro filme é “Amnésia“. É um filme revolucionário, uma história contada de trás para a frente com um brilhantismo absurdo. Há algo de genial quando você consegue contar uma história que faz tanto sentido, e é igualmente eficiente, de trás para frente e de frente para trás. “Amnésia” é um filme pioneiro e brilhante.

Mas eu não vi “Irreversível”.

Zé Carioca

A Abril está republicando as histórias do Zé Carioca. Ao que tudo indica, resolveram diminuir os prejuízos que as histórias em quadrinhos lhe trazem já há alguns anos.

Eles têm material suficiente: são quase 50 anos de revistas publicadas quinzenalmente. O Zé Carioca é um personagem que só existe por causa do Brasil, que sempre produziu a quase totalidade de suas histórias. Foi graças ao Zé Carioca que o estúdio brasileiro da Disney conseguiu chegar a um nível altíssimo de qualidade nos anos 80, produzindo excelentes histórias em uma época em que praticamente todos os estúdios Disney no mundo chafurdavam na mesmice.

A republicação das histórias serve para lembrar dos bons tempos em que o amigo do Nestor usava terno e gravata.

No começo dos anos 90 os brasileiros resolveram atualizar o Zé Carioca. Saíram o terno e o guarda-chuva e entraram boné com a pala virada para trás, tênis, bermudas e camisetas “eu- sou – o – rei – do – funk”. Na verdade a mudança começou antes, com o Zé de calça jeans e camiseta branca, mas foi aí, nos anos 90, que o contraste com o Zé Carioca inicial se tornou tão grande que não podia mais deixar de ser notado. Parecia uma boa recauchutagem do personagem, que aparentemente ficava com um visual mais próximo da realidade atual do morro.

Só parecia, no entanto.

O que eles estavam fazendo era outra coisa: assassinar o espírito do Zé Carioca. Esse espírito está bem definido em uma das suas primeiras histórias (republicada em 1981, em um especial de aniversário), em que ele personifica o mais perfeito malandro brasileiro, um sujeito cheio de lábia que se mete com um milionário chamado Rocha Vaz e conhece a Rosinha.

Acontece que o Zé Carioca nunca se vestiria como outro sujeito do morro. Simples assim. Seu paletó não era apenas uma roupa, era um instrumento de ascensão social. Ele era um favelado, sempre foi, e uma das melhores encarnações do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda. O terno representava a sua malandragem, a necessidade de parecer o que não era para aplicar seus golpes. Ele usava terno para ser o impostor, o arrivista, o neguinho compositor que conseguiu namorar a filha do Rocha Vaz. Quando lhe tiraram esse símbolo e o enfiaram no uniforme de 11 em cada de 10 membros da “comunidade”, mataram o seu ethos.

Será que eles nunca se perguntaram por que o Zé Carioca andava sempre com um guarda-chuva e chapéu côco no Rio de Janeiro? Será que era tão difícil de perceber que fazia isso para ficar mais parecido com um lorde inglês e, portanto, mais confiável? Parece que não.

A republicação de suas histórias, pelo menos, consegue recuperar um pouco desse espírito.