Saló ou 120 dias de tédio

Tinha uma boa farra para ir na sexta, mas desmarquei tudo quando soube que o Telecine ia exibir “Saló ou 120 Dias de Gomorra”, de Pasolini.

Embora eu não visse um filme seu há mais de 10 anos, sempre gostei de Pasolini. Talvez continuasse gostando porque não pude reavaliá-lo à medida que envelhecia e ia ficando cada vez mais conservador.

“Saló”, por sua vez, era um filme que eu devia a mim mesmo. Quando ele finalmente foi liberado no Brasil, em 1989, perdi a chance de assisti-lo porque ficou muito pouco tempo em cartaz.

Eu sabia o suficiente sobre o filme. De acordo com Pasolini era uma denúncia do domínio nazi-fascista sobre a Itália, livremente inspirada no livro homônimo do Marquês de Sade. Se pretende um filme libertário e intelectualmente instigante.

Então tá.

Logo nos créditos de abertura algo me assusta: Pasolini inclui uma “bibliografia essencial”. Ai, meu Deus. Lá vem. Eu não confio em filmes que pretendem discutir conceitos filosóficos. E confio ainda menos num filme que inclui nesse pretenso debate um livro de Roland Barthes — ele mesmo, o óbvio e obtuso. Para Pasolini o filme é mais que cinema, é um projeto político-intelectual-filosófico-metafísico ambicioso e multifacetado. Mas apesar de toda a sua vontade, um filme continua sendo só um filme. É necessariamente superficial, porque jamais terá a profundidade de um livro. Quem quer defender princípios filosóficos escreva uma tese, e deixe o cinema para quem quer contar uma história.

Durante as próximas horas me vejo em meio a um festival de taras e crueldade, curiosamente exibido com um pudor gráfico inusitado. A única exceção é a longa seqüência sobre coprofagia, o “círculo da merda”, extensa e longa. De resto, o filme não tem personagens, apenas situações sem sentido e ilógicas.

Foi com algum esforço que assisti ao filme até o fim. Que filme chato, chato, chato. Só consigo usar esse adjetivo, porque outros — ultrajante, ofensivo, radical — seriam grandes elogios a um filme que não merece mais que um levantar triste da poltrona e um abano negativo da cabeça.

O filme é inferior até mesmo à obra de Sade que lhe deu origem, porque o livro se restringe ao universo do sado-masoquismo, não se pretende uma parábola política. As parafilias de Sade são mais honestas, mais verdadeiras: sua satisfação é a única coisa que pedem. O filme é também tecnicamente — fotografia, som, cenografia — mal-feito, inferior ao que se fazia na Itália 20 anos antes; como se voltasse a um tempo em que Fellini e Visconti ainda não tinham nascido.

“Saló” deixa em mim uma impressão clara: é Pasolini subindo na mesa do bar e gritando “olhem para mim! Vejam como eu sou chocante! Vejam como eu sou maldito e brilhante!” E no entanto ele é apenas chato e bobo, e as pessoas olham indiferentes para ele e voltam a cuidar de suas vidas. Porque elas, por insignificantes que sejam, são mais interessantes que aquele filme infantil.

Em “Saló”, Pasolini é o Sganzerla e o Reichenbach comendo espaguete à bolonhesa e discutindo quem é mais vanguardista.

Renato Fechine

A Bahia tem seu cronista. O nome dele é Renato Fechine.

Se você não mora na Bahia pode até não saber quem é. Mas provavelmente já ouviu algo dele: é autor de boa parte das músicas que tomaram o Brasil de assalto em bandas como É O Tchan e outras.

“Conheço” Renatinho desde os anos 80, quando ele ainda não tinha descoberto o filão baiano. Ouvi um de seus primeiros compactos, se não o primeiro. Grande guitarrista, sua música ecoava aquela coisa “pop zen de Arembepe”, lembrava um pouco A Cor do Som.

Mas acho que ele chegou à conclusão, provavelmente, de que axé music dá mais dinheiro. É um dos maiores compositores baianos hoje em dia. Dizem que ficou rico com o axé.

Mas não é pelo axé que Renato Fechine se tornou o cronista baiano. A partir do meio da década de 90, numa espécie de folga de seu trabalho de compositor, Renatinho lançou alguns discos de humor hilários.

Essa é a letra de “Adriano”:

Há coisas na vida da gente que a gente sofre só in ni lembrar. Aonde você estiver, em que estrela você se encontrar, estarei sempre com você, meu filho.

Hoje faria dois ano
O nosso filho que ela abortou
Que ia se chamar Adriano
Ni homenagem ao seu avô

Ela agiu com incoerença
Só pensando em preservar o seu corpo
E vejam a loucura que fez
Tomou Cecitroterm
E fez um aborto

Adriano, aqui quem fala é papai, filhão
Se passaram dois ano, não mudei os meus prano,
Nem te esqueço jamais

Tava nascendo os dedinho
Abrindo os olhinho
Chutando a barriguinha da mãe
Por culpa daquela assassina
Eu não tenho certeza se era menino ou menina

A vida nos reserva surpresa
Quando eu lhe vi eu quase desmalho
Lhe vi, logo lhe reconheci
Numa feira de ciências, num tubo de ensaio

Adriano, aqui quem fala é papai, mô filho
Se passaram dois ano, não me esqueço os meus prano,
Nem te esqueço jamais, filhão

Ói, Didi, painho tá aqui, meu filho… Eu fico só se lembrando… Tudo podia ser diferente… Nós dois, no ensaio do Ara…

Na “Radionovela” Renatinho dramatiza uma briga doméstica, típica da Bahia. É brilhante. Pela forma como capturou o sotaque das classes baixas, pela acuidade em descrever a raiva surda que parece existir em cada baiano, terra onde mulheres batem e apanham com a mesma violência. E em “Bebe Negão” ele toca no ponto da alma baiana que não está nas músicas de Caymmi:

Bebe, Negão

É isso aí, meu bom, acorda pra tomar gagau. Lasca! Hoje num tem cococó nem dança de rato. Ô mulé! Tô comendo água, viu? Hum, tô não… Por quê? Hehe. Ô, meu Deus…

Hoje eu acordei pra beber (bebe, negão)
Hoje eu acordei pra biritar, ô mô Deus… (birita, negão)
Hoje eu acordei pra comer água (come, negão)
Hoje eu acordei pra mamar, ô meu bem. Lasca! (mama, negão)

Eu vou beber pra esquecer meus pobrema (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer minhas dívida (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer minhas angústria (bebe, negão)
Eu vou beber que eu quero alegria, ô meu Deus (bebe, negão)

Elva-doce, Milone, Pitu e Rainha (bebe, negão)
51 e Caninha da Roça (bebe, negão)
Natunobre, Campari, celveja e vodca (bebe, negão)
Que é pra acalmar o meu coração sofredor (bebe, negão)

Eu vou beber pra esquecer meus pobrema (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer minhas angústria (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer minhas dívida (bebe, negão)
Esquecer o Serasa e o SPC, meu bem (bebe, negão)

Esse solo vai pro gerente do meu banco. Bote pra lenhar em cima dele, vá. Pule com os dois pé, com os dois pé. Vá, miserável, volta os meu cheque, miséra! Amanhã de manhã acordo cedinho, ói… (só um Sonrisal pra rebater) Mocotozinho com fato… (só um Sonrisal pra rebater) Carinhozinho de umas e outra… (Só um Sonrisal pra rebater) Ô mulé! Vem cuidar do seu marido, miséra! (Bebe, negão)

Eu vou beber pra esquecer meus pobrema (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer minhas dívida (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer meus comprexo (bebe, negão)
A crise monetária internacional (bebe, negão)
E pra concruir a batida da lage (bebe, negão)
Esquecer os marmanjo que querem azarar minha mulé (eu pico-lhe a zorra, pico não…) (bebe, negão)
Pra que minha vizinha me tenha respeito, mô Deus (ô mulé ruim)

Renatinho faz também a crônica da legendária safadeza baiana, do hedonismo que encontrou sua casa na cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos.

Aparecida

Ói, deixe de confusão que eu não quero meu nome ni Abaeté. Aparecida, meu amor, eu não entendo por que tanta revolta. Você não sabe que eu sou seu e você é de painho? Meu amor… Miseravona…Cê sabe que na hora do vamo ver nóis se entende…

Aparecida
Tu sois melhor de que Neide
Edileuza e Corrinha
Tu sois melhor de que Creide

Neide é menor de idade
E ainda depende dos pais
Sou doido pra azarar ela
Mas vai me criar pobrema demais
Seu sonho é ser eriomoça
Ou trabalhar in ni televisão
Ela quer ser atriz de novela
E além de amarela
Ela não curte negão

Aí eu tô sem chance, Aparecida. Ói, deixa de negócio de chibiatagem… Agarre na minha cintura e deixe o resto comigo. Tô comendo água, bora! Qualé mané Edileuza, rapaz?

Edileuza engraçou-se com um gringo
Que conheceu lá no Candeal
E ni dezembro ela vai pras Oropa
Mas volta perto do carnaval
Sonhava em ser manequinha
Ni ser modela profissional
E hoje é triste a sua labuta
Virou prostituta
Externacional

Cê tá vendo, Aparecida meu amor, que num tem vantagem pra você, meu amor? Venha cá… Deita aqui no colo de painho… Relaxa e tira os brinco…

Aparecida
Tu sois melhor de que Neide
Edileuza e Corrinha
Tu sois melhor do que Creide

Corrinha só fede a cigarro
E é alviciada em mausconha
Não pode ver um macho num carro
Eita muié sem vergonha
Só veve embrenhada nos morro
Eu acho até que é traficante
Já foi uma gata retada
Hoje tá derrubada
E não tem quem levante

Aparecida
Tu sois melhor de que Neide
Edileuza e Corrinha
Tu sois melhor de que Creide

Creide dançava pagode
A vida dela era quebrar
Depois que estourou uma varize
Ela teve que se aposentar
Deixou muito marmanjo barbado
Com aqueles seus olhinho azui
Ela fazia a alegria da gente
Mas hoje ela é crente
E só serve a Jesus

Ói, Aparecida, deixe de chibiatagem, mulé! Fique na sua, que assim que sair meu emprego na Petrobras a gente casa. Casa não… Morar com sua mãe: eu, você e ela. Alô, dona Creonice!

Renatinho conseguiu capturar o espírito da Bahia. Não o folclórico que, hoje em dia, existe apenas como uma parte dos livros de Jorge Amado e nas músicas de Dorival Caymmi. Mas o verdadeiro e atual, aquele espírito das ruas, dos desempregados que se amontoam no Cabula, nos malandros que circulam pela Saúde, de todos os que não conseguiram enfrentar a vida dura da cidade. Com deboche, com ironia, às vezes quase como uma caricatura, Renato Fechine conseguiu capturar o espírito da Bahia moderna, a Bahia de ACM. Uma cidade que sempre foi dura, difícil, mas que seus habitantes, mistura de inimigos e amantes, enfrentam com resignação e alegria festeira.

Quer um conselho? Abra o seu iMesh, Kazaa ou seja lá o programa que você usa, e procure pelas músicas de Renato Fechine. Você não vai encontrar o CD dele fora da Bahia. Mesmo que não goste da Bahia, ou do espírito baiano, você vai rir até dizer chega.

Comentário para Mariza Correa Mendes

E nos comentários a um post de agosto, apareceu este gentil pedido:

eu quero um comentario completo do romance negro de rubem fonseca.
MAIZA CORREA MENDES | Email | 10.03.04 – 8:55 pm | #

Assim mesmo, sequinho, sem sequer um “por favor”. Maiza deve ter confundido este blog com um desses sites que fornecem trabalhos escolares prontos. Pior, achou que eles fazem isso de graça.

Mas isso deve ser ingenuidade de adolescente. Por isso resolvi atender ao pedido — ou ordem — da menina, e colocar aqui o meu comentário sobre “Romance Negro”.

Romance Negro e a crítica da Abolição

Lançado em 1978, “Romance Negro” foi um divisor de águas na carreira de Rubem Fonseca.

Seu último livro de contos, “Feliz Ano Novo”, tinha sido censurado e retirado das livrarias pela ditadura militar. Talvez por isso, em “Romance Negro” Fonseca saiu de sua temática costumeira, eminentemente urbana, e escreveu um romance histórico que se passava durante o período imperial, focado especificamente na luta pela abolição.

Fonseca, escritor marxista e ativo militante comunista — por isso seu último livro tinha sido censurado — abordou o tema a partir de um personagem central: um velho negro chamado Tomás, escravo na fazenda do Barão de Araruna.

O enredo do livro é simples: em 1859, Tomás recebe um embrulho em sua casa. É uma menina branca, abandonada por seu pai. A carta que acompanha o embrulho diz que ela é filha de uma escrava. O Pai Tomás cria a menina, que ao chegar à adolescência é assediada por um dono de engenho pernambucano chamado Leôncio. Enquanto isso Helena, a filha do Barão de Araruna, grande dono de escravos na região do Vale do Paraíba, começa suas atividades abolicionistas clandestinas, financiando um grupo que invade fazendas e auxilia escravos a fugir. Com a abolição tudo muda. A filha do barão, arruinada, acaba vendendo quitutes nas ruas do Rio de Janeiro, depois de seduzida e abandonada por um membro da aristocracia paulista, enquanto a menina criada pelo Pai Tomás, Malvina, enriquece fornecendo mulatas a homens brancos. O final do livro traz grandes revelações, sendo as principais delas a descoberta de que Malvina é filha do Barão, e a de que o aristocrata que seduziu Helena é na verdade seu irmão bastardo.

Há uma série de personagens secundários, porém importantes. Há o carroceiro e dublê de filósofo Rubião, mulato livre que se torna o grande amigo de Malvina, e Cecília, índia cujos presságios antecipam a sina dos protagonistas.

“Romance Negro” trata principalmente do relacionamento entre brancos e negros às vésperas da Abolição. Estabelece um confronto entre a postura adotada pelo Pai Tomás, de convivência pacífica e servil com o senhor branco, embora cheia de subterfúgios, e a atitude libertária da sinhazinha Helena. É uma abordagem que se desvia do comum, que associa a resistência aos negros e a opressão aos brancos.

Fiel à sua concepção de mundo, fortemente influenciada pela concepção antropológica de Darcy Ribeiro, Fonseca mistura essas posições, como uma alegoria de uma sociedade brasileira fluida. Atribuindo a resistência negra aos brancos e retratando negros como pobres resignados aos status quo, Rubem Fonseca pretende provocar um debate na sociedade brasileira acerca de suas origens, posições e perspectivas.

Há um elemento de metalinguagem em tudo isso, com referências claras a “A Escrava Isaura”, cuja adaptação acabava de fazer grande sucesso na TV. Há referências também a um grande sucesso do vaudeville brasileiro da época, o show de mulatas de Sargentelli. Com isso, e apropriando-se da linguagem da Tropicália, Fonseca criou uma das últimas obras-primas da literatura brasileira do século XX.

Ainda não me decidi se mando por e-mail ou deixo aqui até a Maiza vir buscar. Bondade tem limites.

Everwood

Uma vez o Bia me disse que, em matéria de filmes, eu gosto de umas coisas “leves”.

É verdade (e essa é a maior prova de que eu sou uma pessoa doce e sensível; não acreditem no que dizem por aí).

Deve ser por isso que gosto do seriado Everwood, exibido pelo Warner Channel. É a história de um médico famoso que pira o cabeção depois que a mulher morre, e resolve dar uma de bom samaritano num cu-de-judas gelado. O seriado trata dos problemas da comunidade, de modo geral.

Provavelmente, a principal razão para eu gostar do seriado seja o fato de ele ser um produto extremamente bem concebido do ponto de vista de marketing. É um seriado que, apesar de ter vários pontos de atração para vários segmentos — pais e filhos, dramas médicos, conflitos adolescentes –, não perde a unidade. Não vira um samba do crioulo doido.

A segunda — e aí vem a verdadeira razão — deve ser porque eu sou um sentimentalóide que gosta de ver histórias de recomeços, de pais e filhos e de adolescentes problemáticos e metidos a engraçadinhos que se dão bem.

(Em terceiro viriam duas das mais bonitas atrizes jovens atualmente na TV; mas isso é bobagem, porque afinal de contas eu sou uma pessoa doce e sensível.)

A literatura moderna

O Bia acha que as regras do Elmore Leonard para literatura são válidas para a literatura moderna.

Aí é que tá, Bia. Acho que a graça — e a ruína — da literatura moderna é o fato de ela praticamente não ter regras que desçam a esse ponto de minúcia. É curioso imaginar que Joyce, Mann, Proust e Hemingway (embora eu ache este último uma fraude) fazem “literatura moderna”, e não há nada em comum entre eles.

Mas a lista de Leonard é praticamente um manual de estilo. O que ele preconiza é típico da cultura americana com seus “cursos de criação literária”, em que há um modelo razoavelmente rígido para que se escreva a great american novel. Diz respeito a um tipo de técnica narrativa específica, aquela americana derivada de Hemingway, às vezes com raízes remotas na Bíblia do Rei James via Faulkner, e hoje em dia menor na minha não tão humilde opinião. Faz muito tempo que não vejo nada de realmente brilhante na literatura americana — o que inclui derivados do noir como Leonard, e também, citando aleatoriamente, William Kennedy, Malamud e todos os outros.

Acho que a literatura americana, no conjunto, é a mais importante do século passado: muito bons escritores em um curto período de tempo e em um espaço bem delimitado. Mas isso se deve a um período específico, entre os anos 20 — com Fitzgerald e Hemingway, por exemplo — e os 50, com a última grande explosão criativa, a literatura beat. Era uma literatura forte, pulsante, o melhor retrato de um país que explodia em força econômica e criativa, com a absorção de levas gigantescas de imigrantes.

Mas ela definhou faz tempo, e hoje vive da repetição de clichês e de pequenos não-eventos de marketing. Pode ser ignorância minha, mas não conheço nenhum grande romance americano que tenha sido lançado nos últimos 20 anos. Muitos bons livros, claro, mas nada que você coloque na estante com a sensação de que acabou de ler um dos pares de Proust ou Joyce.

A lista de Leonard, no final das contas, estabelece as regras da mediocridade (entendida como mediana, ou comum). Se Joyce seguisse as regras de sua época não escreveria “Ulysses”. Proust não teria escrito “No Caminho de Swann”. Porque todo mundo estaria escrevendo igual a algum modelo que, àquele momento, tentava sacudir o mofo de cima de suas regras recém-criadas.

Mais uma brilhante teoria rafaeliana

Como você já deve ter notado, eu tenho um passatempo desajuizado. Consiste em contradizer teorias elaboradas por gente mais preparada que eu, gente que dedicou horas infindáveis a estudos e pesquisas sobre o assunto, usando pouco mais — ou pouco menos — que o senso comum.

Senso comum é uma coisa perigosa. Foi ele que fez com que acreditássemos por milênios que a Terra era o centro do universo, quando não era sequer o centro de um sistema solar de quinta ou sexta grandeza. Ao mesmo tempo, são coisas que subsistiram à prova do tempo. E isso não é pouca coisa.

Essas contra-teorias que elaboro surgem do nada, talvez pelo que muita gente identifica como uma forte tendência minha de “ser do contra”.

Por exemplo, li há algum tempo, em algum lugar, que uma pesquisadora chegou à conclusão de que o português falado hoje no Brasil era mais parecido com o falado em Portugal em 1500 do que o que se fala por lá agora.

Segundo ela, o Rio só sujaria os ss porque, depois de séculos isolada, ainda falando como se falava em Portugal 3 séculos antes, foi invadida pelo “novo português” em 1808.

Eu discordo.

O Brasil sofreu mais influências linguísticas do que Portugal. Houve os índios, em primeiro lugar. E os grandes responsáveis pelo estabelecimento do português como língua nacional foram os escravos africanos, que divididos em uma série de nações e idiomas foram obrigados a utilizar a língua do opressor. Sem contar os muitos imigrantes de nacionalidades diversas, que variavam de acordo com a região — italianos em São Paulo, alemães no sul, espanhóis na Bahia.

O mais provável, pela lógica, é que o Brasil tenha sofrido mais influências desses falares diversos do que Portugal.

Uma das evidências de que o português brasileiro foi o mais modificado está no fato de que as únicas cidades litorâneas (não se deve esquecer que o Brasil, até há pouco tempo, só existia de verdade no litoral) que sujam os ss — como os portugueses — são o Rio, Salvador e Recife; duas delas falam “dje”. São justamente essas que mantiveram maior contato com Portugal ao longo da história colonial. O Rio sujaria mais porque foi invadido por Dom João e seus sicofantas, sofrendo uma espécie de volta às raízes.

Assinado: Rafael Houaiss, seu criado.

O Evangelho segundo Elmore Leonard

Elmore Leonard tem uma lista de 10 erros que se pode cometer ao escrever literatura.

Veja só:

1. Never open a book with weather.
If it’s only to create atmosphere, and not a character’s reaction to the weather, you don’t want to go on too long. The reader is apt to leaf ahead looking for people. There are exceptions. If you happen to be Barry Lopez, who has more ways to describe ice and snow than an Eskimo, you can do all the weather reporting you want.

Conheço pelo menos um escritor que invarialmente abre seus livros assim, gente que o mundo vem lendo há séculos. Mas Leonard, claro, é melhor que ele.

2. Avoid prologues.
They can be annoying, especially a prologue following an introduction that comes after a foreword. But these are ordinarily found in nonfiction. A prologue in a novel is backstory, and you can drop it in anywhere you want.
There is a prologue in John Steinbeck’s ”Sweet Thursday,” but it’s O.K. because a character in the book makes the point of what my rules are all about. He says: ”I like a lot of talk in a book and I don’t like to have nobody tell me what the guy that’s talking looks like. I want to figure out what he looks like from the way he talks. . . . figure out what the guy’s thinking from what he says. I like some description but not too much of that. . . . Sometimes I want a book to break loose with a bunch of hooptedoodle. . . . Spin up some pretty words maybe or sing a little song with language. That’s nice. But I wish it was set aside so I don’t have to read it. I don’t want hooptedoodle to get mixed up with the story.”

Por que Leonard não contou isso para Balzac? Assim o pobre Honoré evitaria começar seus livros com prólogos que duram até várias páginas. E seria um escritor tão bom quanto Leonard.

3. Never use a verb other than ”said” to carry dialogue.
The line of dialogue belongs to the character; the verb is the writer sticking his nose in. But said is far less intrusive than grumbled, gasped, cautioned, lied. I once noticed Mary McCarthy ending a line of dialogue with ”she asseverated,” and had to stop reading to get the dictionary.
4. Never use an adverb to modify the verb ”said”…
…he admonished gravely. To use an adverb this way (or almost any way) is a mortal sin. The writer is now exposing himself in earnest, using a word that distracts and can interrupt the rhythm of the exchange. I have a character in one of my books tell how she used to write historical romances ”full of rape and adverbs.”

Meu Deus, e todos aqueles escritores que achavam estar fazendo um grande trabalho ao escrever os tais outros verbos? Dickens, seu merda!

5. Keep your exclamation points under control.
You are allowed no more than two or three per 100,000 words of prose. If you have the knack of playing with exclaimers the way Tom Wolfe does, you can throw them in by the handful.

Bem, nisso ele tem razão, na minha opinião. O ponto de exclamação é o crachá da incompetência.

6. Never use the words ”suddenly” or ”all hell broke loose.”
This rule doesn’t require an explanation. I have noticed that writers who use ”suddenly” tend to exercise less control in the application of exclamation points.

De repente, não mais que de repente, Vinícius de Morais é um incompetente.

7. Use regional dialect, patois, sparingly.
Once you start spelling words in dialogue phonetically and loading the page with apostrophes, you won’t be able to stop. Notice the way Annie Proulx captures the flavor of Wyoming voices in her book of short stories ”Close Range.”

Acho que foi Hemingway quem disse que toda a literatura americana descende de “Huckleberry Finn”. Dat’s right. E o livro é praticamente todo escrito em dialeto escravo. Mas como se sabe, Leonard vai deixar uma impressão muito mais duradoura na literatura americana que Mark Twain.

8. Avoid detailed descriptions of characters.
Which Steinbeck covered. In Ernest Hemingway’s ”Hills Like White Elephants” what do the ”American and the girl with him” look like? ”She had taken off her hat and put it on the table.” That’s the only reference to a physical description in the story, and yet we see the couple and know them by their tones of voice, with not one adverb in sight.

Não é que esteja errado. Tampouco está certo. A questão é que esse item finalmente demontra a razão de ser dessa lista: Leonard quer que todos os escritores do mundo escrevam como ele. Direito dele.

9. Don’t go into great detail describing places and things.
Unless you’re Margaret Atwood and can paint scenes with language or write landscapes in the style of Jim Harrison. But even if you’re good at it, you don’t want descriptions that bring the action, the flow of the story, to a standstill.

Leonard deveria ter lido “O Pai Goriot” com mais atenção. E veria que a descrição da pensão de Mamãe Vauquer, ou a descrição do quarto do pai Goriot em comparação aos de suas filhas, são fundamentais para a compreensão do espírito da história. Mas talvez ele tenha razão, já que é um escritor muito, muito melhor que Balzac.

10. Try to leave out the part that readers tend to skip.
A rule that came to mind in 1983. Think of what you skip reading a novel: thick paragraphs of prose you can see have too many words in them. What the writer is doing, he’s writing, perpetrating hooptedoodle, perhaps taking another shot at the weather, or has gone into the character’s head, and the reader either knows what the guy’s thinking or doesn’t care. I’ll bet you don’t skip dialogue.

Tem razão. A questão é saber que partes são essas. E se o sujeito sabe, certamente não está preocupado com a lista de Leonard.

Poema muito do enjoadinho

Falando sério
eu não gosto
de poesia moderna
As pessoas parecem pensar
que basta dividir frases
ao meio
e esquecer a pontuação
para automaticamente
criar um poema.

Poesia é outra coisa.

Poesia não é divã
de analista
não é competição
de domínio do vernáculo
poesia não é
nada disso.

E certamente, meu amigo
poesia não é isto aqui
Isto é apenas prosa
formatada para tentar
mostrar o engodo
que é a maior parte
da poesia moderna.

Ah, que saudades da universidade

De Giovanna Bartucci (psicanalista e ensaísta, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae; é assim que ela assina), analisando o cinema de Almodóvar em um ensaio publicado na D.O. Leitura chamado “Almodóvar ou o desejo como universo”:

O “fato fílmico” nasce, então, do filme feito, definido como um discurso significante localizável. Em outras palavras, o fato fílmico abrange a construção das imagens, a condução expressiva do relato, o desempenho dos atores, ou seja, tudo aquilo que confere ao texto que daí resulta o estatuto de discurso.

Acho que ela quis dizer o seguinte: um filme é um filme.

Mas o melhor mesmo são algumas das outras partes do ensaio:

Talvez devamos, de fato, levar em consideração que ainda que a fixação da pulsão parcial no circuito primário de satisfação esteja presente tanto na neurose, quanto na perversão, as pulsões parciais (libidinais) designam uma geografia dos prazeres erógenos do corpo.

Tudo isso para falar de “Ata-me”. E se você não entendeu nada, por favor, sente-se aqui ao meu lado.

Por essas e outras, estou à beira de um ataque de nervos e prestes a me tornar um ludita vernacular.

Ficção científica

Dia desses fui parar no site de um escritor de ficção científica chamado Terry Bisson. E acabei lendo um de seus contos, They’re made out of meat.

O conto é uma delícia. Tão engraçado, e tão interessante, que achei que mais gente gostaria de conhecê-lo. Pedi autorização ao autor para fazer a tradução e postar aqui, e ele foi gentil o bastante para permitir.

Há muitos outros contos no site de Bisson, e valem a pena por uma olhada.

Com vocês, Terry Bisson.