A Bahia tem seu cronista. O nome dele é Renato Fechine.
Se você não mora na Bahia pode até não saber quem é. Mas provavelmente já ouviu algo dele: é autor de boa parte das músicas que tomaram o Brasil de assalto em bandas como É O Tchan e outras.
“Conheço” Renatinho desde os anos 80, quando ele ainda não tinha descoberto o filão baiano. Ouvi um de seus primeiros compactos, se não o primeiro. Grande guitarrista, sua música ecoava aquela coisa “pop zen de Arembepe”, lembrava um pouco A Cor do Som.
Mas acho que ele chegou à conclusão, provavelmente, de que axé music dá mais dinheiro. É um dos maiores compositores baianos hoje em dia. Dizem que ficou rico com o axé.
Mas não é pelo axé que Renato Fechine se tornou o cronista baiano. A partir do meio da década de 90, numa espécie de folga de seu trabalho de compositor, Renatinho lançou alguns discos de humor hilários.
Essa é a letra de “Adriano”:
Há coisas na vida da gente que a gente sofre só in ni lembrar. Aonde você estiver, em que estrela você se encontrar, estarei sempre com você, meu filho.
Hoje faria dois ano
O nosso filho que ela abortou
Que ia se chamar Adriano
Ni homenagem ao seu avô
Ela agiu com incoerença
Só pensando em preservar o seu corpo
E vejam a loucura que fez
Tomou Cecitroterm
E fez um aborto
Adriano, aqui quem fala é papai, filhão
Se passaram dois ano, não mudei os meus prano,
Nem te esqueço jamais
Tava nascendo os dedinho
Abrindo os olhinho
Chutando a barriguinha da mãe
Por culpa daquela assassina
Eu não tenho certeza se era menino ou menina
A vida nos reserva surpresa
Quando eu lhe vi eu quase desmalho
Lhe vi, logo lhe reconheci
Numa feira de ciências, num tubo de ensaio
Adriano, aqui quem fala é papai, mô filho
Se passaram dois ano, não me esqueço os meus prano,
Nem te esqueço jamais, filhão
Ói, Didi, painho tá aqui, meu filho… Eu fico só se lembrando… Tudo podia ser diferente… Nós dois, no ensaio do Ara…
Na “Radionovela” Renatinho dramatiza uma briga doméstica, típica da Bahia. É brilhante. Pela forma como capturou o sotaque das classes baixas, pela acuidade em descrever a raiva surda que parece existir em cada baiano, terra onde mulheres batem e apanham com a mesma violência. E em “Bebe Negão” ele toca no ponto da alma baiana que não está nas músicas de Caymmi:
Bebe, Negão
É isso aí, meu bom, acorda pra tomar gagau. Lasca! Hoje num tem cococó nem dança de rato. Ô mulé! Tô comendo água, viu? Hum, tô não… Por quê? Hehe. Ô, meu Deus…
Hoje eu acordei pra beber (bebe, negão)
Hoje eu acordei pra biritar, ô mô Deus… (birita, negão)
Hoje eu acordei pra comer água (come, negão)
Hoje eu acordei pra mamar, ô meu bem. Lasca! (mama, negão)
Eu vou beber pra esquecer meus pobrema (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer minhas dívida (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer minhas angústria (bebe, negão)
Eu vou beber que eu quero alegria, ô meu Deus (bebe, negão)
Elva-doce, Milone, Pitu e Rainha (bebe, negão)
51 e Caninha da Roça (bebe, negão)
Natunobre, Campari, celveja e vodca (bebe, negão)
Que é pra acalmar o meu coração sofredor (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer meus pobrema (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer minhas angústria (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer minhas dívida (bebe, negão)
Esquecer o Serasa e o SPC, meu bem (bebe, negão)
Esse solo vai pro gerente do meu banco. Bote pra lenhar em cima dele, vá. Pule com os dois pé, com os dois pé. Vá, miserável, volta os meu cheque, miséra! Amanhã de manhã acordo cedinho, ói… (só um Sonrisal pra rebater) Mocotozinho com fato… (só um Sonrisal pra rebater) Carinhozinho de umas e outra… (Só um Sonrisal pra rebater) Ô mulé! Vem cuidar do seu marido, miséra! (Bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer meus pobrema (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer minhas dívida (bebe, negão)
Eu vou beber pra esquecer meus comprexo (bebe, negão)
A crise monetária internacional (bebe, negão)
E pra concruir a batida da lage (bebe, negão)
Esquecer os marmanjo que querem azarar minha mulé (eu pico-lhe a zorra, pico não…) (bebe, negão)
Pra que minha vizinha me tenha respeito, mô Deus (ô mulé ruim)
Renatinho faz também a crônica da legendária safadeza baiana, do hedonismo que encontrou sua casa na cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos.
Aparecida
Ói, deixe de confusão que eu não quero meu nome ni Abaeté. Aparecida, meu amor, eu não entendo por que tanta revolta. Você não sabe que eu sou seu e você é de painho? Meu amor… Miseravona…Cê sabe que na hora do vamo ver nóis se entende…
Aparecida
Tu sois melhor de que Neide
Edileuza e Corrinha
Tu sois melhor de que Creide
Neide é menor de idade
E ainda depende dos pais
Sou doido pra azarar ela
Mas vai me criar pobrema demais
Seu sonho é ser eriomoça
Ou trabalhar in ni televisão
Ela quer ser atriz de novela
E além de amarela
Ela não curte negão
Aí eu tô sem chance, Aparecida. Ói, deixa de negócio de chibiatagem… Agarre na minha cintura e deixe o resto comigo. Tô comendo água, bora! Qualé mané Edileuza, rapaz?
Edileuza engraçou-se com um gringo
Que conheceu lá no Candeal
E ni dezembro ela vai pras Oropa
Mas volta perto do carnaval
Sonhava em ser manequinha
Ni ser modela profissional
E hoje é triste a sua labuta
Virou prostituta
Externacional
Cê tá vendo, Aparecida meu amor, que num tem vantagem pra você, meu amor? Venha cá… Deita aqui no colo de painho… Relaxa e tira os brinco…
Aparecida
Tu sois melhor de que Neide
Edileuza e Corrinha
Tu sois melhor do que Creide
Corrinha só fede a cigarro
E é alviciada em mausconha
Não pode ver um macho num carro
Eita muié sem vergonha
Só veve embrenhada nos morro
Eu acho até que é traficante
Já foi uma gata retada
Hoje tá derrubada
E não tem quem levante
Aparecida
Tu sois melhor de que Neide
Edileuza e Corrinha
Tu sois melhor de que Creide
Creide dançava pagode
A vida dela era quebrar
Depois que estourou uma varize
Ela teve que se aposentar
Deixou muito marmanjo barbado
Com aqueles seus olhinho azui
Ela fazia a alegria da gente
Mas hoje ela é crente
E só serve a Jesus
Ói, Aparecida, deixe de chibiatagem, mulé! Fique na sua, que assim que sair meu emprego na Petrobras a gente casa. Casa não… Morar com sua mãe: eu, você e ela. Alô, dona Creonice!
Renatinho conseguiu capturar o espírito da Bahia. Não o folclórico que, hoje em dia, existe apenas como uma parte dos livros de Jorge Amado e nas músicas de Dorival Caymmi. Mas o verdadeiro e atual, aquele espírito das ruas, dos desempregados que se amontoam no Cabula, nos malandros que circulam pela Saúde, de todos os que não conseguiram enfrentar a vida dura da cidade. Com deboche, com ironia, às vezes quase como uma caricatura, Renato Fechine conseguiu capturar o espírito da Bahia moderna, a Bahia de ACM. Uma cidade que sempre foi dura, difícil, mas que seus habitantes, mistura de inimigos e amantes, enfrentam com resignação e alegria festeira.
Quer um conselho? Abra o seu iMesh, Kazaa ou seja lá o programa que você usa, e procure pelas músicas de Renato Fechine. Você não vai encontrar o CD dele fora da Bahia. Mesmo que não goste da Bahia, ou do espírito baiano, você vai rir até dizer chega.