Nossa História

Usando o slogan do Tiro e Queda, tem biscoitos finos para as massas nas bancas.

A Biblioteca Nacional lançou a “Nossa História”, uma revista sobre história brasileira. Muito boa, didática e com uma escolha apropriadíssima de temas. Melhor ainda: como é provavelmente subvencionada pela Viúva, custa apenas R$ 6,80.

Por exemplo, a matéria de capa do primeiro número é “Brasil de todos os pecadas — Sexo e transgressão nos tempos coloniais”.

Só para dar um gostinho, eis um destaque da matéria: “Alguns diziam que tinham mesmo que fornicar, pois o Diabo haveria de fornicá-los no Além, sendo necessário compensar de antemão”.

Tão formosa justificativa para a putaria jamais se viu.

Beatles again

De acordo com a Rolling Stone, estes são os 10 maiores discos da história do rock and roll.

1. The Beatles, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
2. The Beach Boys, Pet Sounds
3. The Beatles, Revolver
4. Bob Dylan, Highway 61 Revisited
5. The Beatles, Rubber Soul
6. Marvin Gaye, What’s Going On
7. The Rolling Stones, Exile on Main Street
8. The Clash, London Calling
9. Bob Dylan, Blonde on Blonde
10. The Beatles, The Beatles (The White Album)

O engraçado é que é extremamente semelhante a todas as outras listas feitas regularmente ao longo dos anos. Eu naturalmente discordo dela: colocaria o Abbey Road no lugar do Rubber Soul. E certamente os Stones têm discos melhores que o Exile, chato apesar do que dizem. Eu prefiro o Let it Bleed.

E o que o Clash tá fazendo aí?

Rio 40 Graus

O calor que sufoca esta cidade torna o meu pescoço pegajoso de suor e leva meu humor a níveis perigosamente baixos.

Hoje não tem post, porque só consigo pensar que morar no Alaska talvez não seja tão ruim assim. Em vez disso, tem uma crônica de Rubem Braga, velha de maus bofes e esclerosada às vésperas de completar 70 anos, que traduz melhor do que o que eu poderia o que estou sentindo neste momento.

Ao respeitável público

Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!

Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que vem aí no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor…

Portanto, meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano de 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida!

Aproveitem este meu momento de sinceridade e não se iludam com o que eu disser amanhã ou depois, com a minha habitual falta de vergonha. Saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos simplesmente às favas, sem delicadeza nenhuma.

Por que ousam gostar ou aborrecer o que escrevo? O que têm comigo? Acaso me conhecem, sabem alguma coisa de meus problemas, de minha vida? Então, pelo amor de Deus, desapareçam desta coluna. Este jornal tem dezenas de milhares de leitoras; por que é que, no meio de tanta gente, vocês, e só vocês, resolveram ler o que escrevo? O jornal é grande, senhorita, é imenso cavalheiro, tem crimes, tem esporte, tem política, tem cinema, tem uma infinidade de coisas. Aqui nesta coluna, eu nunca lhes direi nada, mas nada de nada, que sirva para o que quer que seja. E não direi porque não interessa; porque vocês não me agradam; porque eu os detesto.

Portanto, se a senhorita é bastante teimosa, se o cavalheiro é bastante cabeçudo para me ter lido até aqui, pensem um pouco, sejam bem-educados e dêem o fora. Eu faço votos para que todos vocês amanheçam amanhã atacados de febre amarela ou de tifo exantemático. Se houvesse micróbios que eu pudesse lhes transmitir assim, através do Jornal, pelos olhos, fiquem sabendo que hoje eu lhes mandaria as piores doenças: tracoma, por exemplo.

Mas ainda insistem? Ah, se eu pudesse escrever aqui alguns insultos e adjetivos que tenho no bico da pena! Eu lhes garanto que não são palavras nada amáveis: são dessas que ofendem toda a família. Mas não posso e não devo. Eu tenho de suportar vocês diariamente, sem descanso e sem remédio. Vocês podem virar a página, podem fugir de mim quando entenderem. Eu tenho de estar aqui todo dia, exposto à curiosidade estúpida ou à indiferença humilhante de dezenas de milhares de pessoas.

Fiquem sabendo que eu hoje tinha assunto e os recusei todos. Eu poderia, se quisesse, neste momento, escrever duzentas crônicas engraçadinhas ou tristes, boas ou imbecis, úteis ou inúteis, interessantes ou cacetes. Assunto, não falta, porque eu me acostumei a aproveitar qualquer assunto. Mas eu quero hoje precisamente falar claro a vocês todos. Eu quero, pelo menos hoje, dizer o que sinto todo dia: dizer que se eu os aborreço, vocês me aborrecem terrivelmente mais.

Amanhã eu posso voltar bonzinho, manso, jeitoso, posso falar bem de todo mundo, até do governo, até da polícia. Saibam, desde já, que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que com todas as forças da alma eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica.

Até amanhã. Passem mal.

Perguntar não ofende

No portal do Globo uma manchete engraçada:

Ana Carolina surpreende: “eu gosto de mulher”

Iludidos. Surpresa mesmo vão ter quando contarem a eles que Papai Noel não existe.

A pergunta: fora Marisa Monte, há alguma cantora brasileira do primeiro time (o que exclui axé music, pagode e outros sub-gêneros da MPB) que seja heterossexual?

Foreplay in the everness

Para Borges, aquele ceguinho escroto, a palavra mais bonita em língua inglesa é everness. Não há uma tradução exata para o português, porque não tem o mesmo sentido de “eternidade”. Uma tradução aproximada seria “sempridão”, sem um décimo da beleza concisa e estonteante do original.

Eu não tenho o lirismo de Borges, muito menos a sua veia poética. Mas também tenho minha palavra inglesa favorita.

Foreplay.

“O que vem antes da brincadeira”.

Alguém pode achar melhor definição para o que os brasileiros chamam, mediocremente, de preliminares? Ou mais leve, mais doce e mais diáfana?

McCartney

Há algo de especial no jeito como Paul McCartney toca contrabaixo.

Para muita gente John Entwistle, do Who, é melhor baixista. Dizem isso porque Entwistle parece mais rápido e aparece mais; além disso, é autor de grande riffs. Mas eu, pelo menos, não considero que Entwistle tenha revolucionado o baixo, coisa que McCartney conseguiu.

McCartney toca seu baixo no limite. E para descobrir isso, basta tentar tocar suas linhas melódicas em tantas músicas dos Beatles. É fácil, então, perder o controle e cair no over, no excessivo. É esse, provavelmente, o maior gênio de McCartney: a contenção e a dedicação total ao que a canção exige.

Mesmo dominando seu instrumento, McCartney evita aqueles exibicionismos que fazem a ruína de tantos baixistas. Quando se solta e levanta vôo é simplesmente porque a música pede isso; um grande exemplo é Don’t Let Me Down, em que a estrutura harmônica fraca exigia maior proeminência do baixo. (E um dos poucos passos em falso é Something, que teria se beneficiado bastante com um pouco de contenção de Macca.)

Lennon dizia que o papel de McCartney na história do baixo sempre foi subestimado, e ele tinha razão. O baixista fica enterrado atrás da personalidade beatle e da genialidade como compositor pop. Mas não é menor que nenhuma delas.

Sweet November, uma era depois

Doce Novembro” é o remake de 2001 de um pequeno grande filme de 1968, “Sweet November“. Fã da primeira versão, evitei ao máximo assistir à refilmagem. Mas a curiosidade falou mais alto.

Sweet November falava de uma mulher, Sara Deever, que a cada mês se dedicava de corpo e alma a um homem que ela julgasse ter problemas. Ela conhece Charlie Blake, um pequeno industrial workaholic, e pasam o mês de novembro juntos. Obviamente Charlie Blake se apaixona por Sara, e fica sabendo que ela age assim porque tem uma doença incurável e essa foi a forma que encontrou de fazer o máximo do tempo que lhe sobrou, de sobreviver na memória daqueles que a conheceram. Mesmo apaixonada por Charlie, Sara continua em seu projeto de (resto de) vida. O filme termina com Charlie indo embora enquanto Sara recebe o seu dezembro. Ele é forçado a respeitar a vontade de Sara. E finalmente compreende o que tudo aquilo significou, para ele e para ela.

A versão atual teve seu título traduzido literalmente, enquanto o original ficou conhecido por aqui como “Por Toda a Minha Vida”. E, pelo menos no começo, tem até alguns pontos melhor resolvidos que o original, e durante essa parte as atualizações da trama são aceitáveis. Mas o filme não demora a cair no excessivamente piegas, no velho cinemão de Hollywood.

Eu não queria ver o remake porque achava inacreditável que, em 2001, um filme sobre amor livre fizesse algum sentido. Se “Por Toda a Minha Vida” era um dramalhão, como querem alguns, ao menos estava perfeitamente inserido no contexto de sua época, em que se questionava a moral sexual vigente. Querendo ou não, “Por Toda a Minha Vida” defendia um ponto: o de que sexo podia ser bom e saudável, mas não era, decididamente, a coisa mais importante do mundo. Para um mundo que saía da moral hipocritamente rígida dos anos 50, era algo que fazia todo o sentido.

33 anos depois houve uma inversão em tudo isso, e para pior. Desde o início, a questão sexual é tratada com cuidado excessivo. Por exemplo, Sara não pega um homem diferente a cada mês. É uma forma de preservá-la, de torná-la menos promíscua — o que, por si só, mostra que o enfoque é totalmente diferente do original.

O filme mostra também o início do fim de Sara, deixando claro Nelson Moss será o último homem em sua vida. Se nos anos 50 era importante ser o primeiro, nos anos 2000 importante mesmo parece ser o último — o porto seguro, o fim da jornada. A morte de Sara Deever santificará o seu amor.

Essa é apenas uma inversão da moral sexual dos anos 50, e não uma transformação real, como pretendida durante a revolução sexual. De certa forma, a visão do século XXI é tão conservadora quanto a da era Eisenhower. Talvez mais. É isso o que torna “Doce Novembro” um filme ruim. É uma enorme traição ao filme original, e a destruição de tudo o que fazia daquele filme algo curioso e interessante.

(O filme, o original, é um dos meus preferidos. Mas Roger Ebert não pensa assim. O New York Times também não. A Rolling Stone também não. Pensou em mais alguém? Pois é, ele também não gostou.)

Crônica de uma noite fria

Que ninguém me pergunte como, mas semana passada fui parar no estúdio onde o Nasi, do Ira!, está gravando seu disco solo.

A música gravada naquele momento era “É Preciso Dar Um jeito, Meu Irmão”, um lado B do Erasmo dos anos 70. A música é uma beleza, a gravação está perfeita, e embora ela só tivesse a voz guia, o que já estava finalizado mostrava que vai ficar muito, muito boa. Sem desrespeitar as origens “setentistas” da música, o Nasi imprimiu uma levada levemente blueseira que tornou a música muito mais interessante. Vai valer a pena comprar o CD.

Eu não conhecia o Nasi. Não era sequer grande fã do Ira!; nos anos 80 eu ouvia basicamente música dos anos 50 e 60. Mas o sujeito que conheci, e com quem fui tomar umas cervejas ao lado de uma amiga e de Tânia Soares (ex-deputada e atual presidente da Fundação Cultural de Aracaju, cuja lei sobre numeração de CDs foi devidamente desancada por mim alguns posts atrás, para não perder o costume de esculhambar meus amigos), é uma figura inteligente mas, mais que isso, gente boa. Foi uma boa surpresa.

Acontece que ultimamente tenho uma agenda política, baseada na certeza de que é necessário que se compreenda e lide com o MP3. E, com toda a cara de pau que mamãe me deu, além daquela propriedade absoluta da verdade que grilei sozinho, saí tentando convencer o Nasi de que o futuro é o MP3, que não há como controlar o compartilhamento livre de arquivos e que o que os artistas têm que fazer é simplesmente abraçar o danado e tirar o melhor dele.

Minha sugestão foi simples: por mim, o Nasi adotaria uma forte presença online. E liberaria as músicas. Vão copiar, mesmo, então que se saia na frente e ofereça graciosamente. As pessoas costumam simpatizar mais com esse tipo de atitude. E acho que assim mais gente vai conhecer o trabalho do sujeito.

Acontece que estou convencido de que, para idéias, fama é fortuna. Quanto mais gente conhecer suas músicas, mais gente comprará os seus discos — ou, no mínimo, mais gente irá aos seus shows. Dependendo o ângulo sob o qual você olha, o MP3 pode ser a melhor forma de subverter a ditadura das gravadoras. E de se adequar a um mundo que está mudando muito rápido.

Obviamente, não radicalizei a ponto de sugerir que liberasse as músicas em qualidade máxima, embora ache que é o que deve ser feito; e na hora não pensei em simplesmente gravar um show e liberar as músicas, deixando o CD de lado. Há milhões de possibilidades, e todas elas passam pela necessidade de se construir uma ligação com a comunidade que simpatiza com esse tipo de música. É uma questão de marketing, só isso.

O Nasi ouviu — ouvir é uma grande qualidade, não é? — e parecia concordar. Vamos ver se eu consigo ter alguma influência no rumo que a música brasileira vai tomar.

O túmulo do samba

Foi Vinícius quem disse que São Paulo era o túmulo do samba.

Se eu tinha alguma dúvida, sexta-feira passada ela foi dirimida completamente.

Eu vi o velório do samba. O defunto estava numa mesa, mal tocado e pior cantado. Pessoas em pé rodeavam a mesa, caladas, sérias, dando compenetradas um último adeus a esse gênero, velando aquele que tantas alegrias deu ao mundo, pelo menos no Rio de Janeiro.

(Traduzindo: uma roda de samba ruim como poucas, num lugar cujo nome leva Tabajara e que dizem ter sido idealizado por Mário de Andrade. Uma das sextas-feiras mais chatas que já se viu. Os únicos que se divertiam eram os que tocavam, provavelmente por terem perdido a vergonha.)

Saudades da Lapa.