O sonho não acabou

Estão dizendo por aí que há uma fita de uma reunião dos Beatles em 1976 (ou 1974, dependendo da fonte consultada).

A notícia já tem algumas semanas, mas só agora chegou à grande mídia.

As músicas gravadas na fita são: Happy Feeling, Back Home, Rockin’ Once Again, People Of The Third World e Little Girl. Estão anunciando um leilão delas.

Só não anunciam que tudo isso é uma grande farsa.

Não houve reunião dos Beatles em Los Angeles em 1976. Primeiro porque Lennon já tinha se mudado de Los Angeles e estava mais ocupado cuidando do filho. Segundo porque Harrison não falava com Lennon a essa altura (Lennon morreria ainda brigado com o amigo). Se os quatro Beatles tivessem se reunido para gravar na época, pode-se ter certeza de que o mundo inteiro saberia. E se houvessem gravado qualquer coisa realmente nova, pós-1970, teriam lançado algumas dessas músicas nos Anthologies, e nos poupariam de Free as a Bird e Real Love. As gravações de John e Paul juntos em 74, irritantemente ruins, são muito conhecidas. E os títulos das músicas, sinceramente.

Por favor, alguém acorde esses malucos e deixe o sonho acabar.

"Ensina-me a viver"

Cinco da manhã e eis-me em pé, terminando de assistir a “Ensina-me a Viver“.

Eu tinha dúvidas se incluía o filme entre a minha lista de 100 melhores filmes. Revê-lo me fez ter duas certezas: não, ele não está entre os que eu considero os 100 melhores, mas é certamente uns dos 10 que mais gosto.

O filme conta a história de Harold, um garoto mórbido fascinado pela morte — ou melhor, pela idéia de fim –, e seu encontro com Maude, uma velhinha às vésperas de completar 80 anos, que adora a vida. O filme inteiro é sobre como Maude ensina Harold a amar a vida, um amor verdadeiro, gratuito e plenamente consciente de sua transitoriedade. Um aprendizado torto; é curioso que o que atrai Harold em Maude é o fato de que ela também é algo próximo do fim.

“Ensina-me a Viver” é, principalmente, uma celebração da vida, por mais heterodoxa que ela possa ser.

Ideologicamente é um filme típico do início da década de 70, herdeira direta do flower power. Ou seja: apresenta ao mundo, até com certa ingenuidade, uma ética ingênua e idealista, em choque direto com o establishment — que em várias cenas é representado por Nixon, por Freud e pelo papa.

Há algumas cenas antológicas: aquela em que o padre quase vomita imaginando uma relação sexual entre entre Harold e Maude; quando Harold mostra o absurdo da guerra; e as cenas de suicídio de Harold em contraste com a indiferença de sua mãe, já acostumada à “excentricidade” do filho.

O filme não entra na lista de 100 melhores porque algumas seqüências, principalmente no final, são mal resolvidas. Às vezes é difícil crer nos personagens, de tão absurdos que podem parecer. Mas se você desarma o coração, este se torna um filme absurdamente fantástico.

Dickens

Todo mundo cita Shakespeare. É chique. Eu também cito Shakespeare. A diferença é que eu só sei uma citação: Frailty, thy name is woman, de Hamlet, que uso para toda e qualquer ocasião. O gato morreu? Frailty, thy name is woman. O dólar subiu? Frailty, thy name is woman. O avião passou no céu? Frailty, thy name is woman. Às vezes, num arroubo de pernosticismo pretensamente bretão, falo Frailty, thy bloody name is woman.

Entendo a adoração que nutrem por Shakespeare, concordo com toda e qualquer loa que teçam a ele. É maior que todos eles. Mas Shakespeare está longe de ser meu autor inglês favorito.

Esse cargo pertence a Dickens, sempre pertenceu.

Enxergo mais verdade em Dickens do que na maior parte dos outros escritores ingleses. Quantos Uriah Heep conheci na vida? Quanta gente hipócrita, reptiliana, falsamente humilde enquanto é capaz das maiores torpezas para alcançar seu objetivos? Ou então gente como Mr. Micawber, imerso em dívidas mas sem se deixar abater por elas — nem deixar de fazer novas dívidas com a alegria de sempre? Ou como Mr. Pickwick e seus amigos?

O que é fascinante em Dickens é a sensibilidade que ele demonstra ao falar do povo. Não é aquela coisa paternalista, aquele esnobismo de lorde inglês olhando de cima para os nativos: Dickens fala do que conhece, misturando ternura e ironia em doses milimétricas.

Não é preciso ser o melhor para ser o preferido.

Para não ler o Pato Donald

Nos anos 70 e 80 um livro fez muito sucesso entre o pessoal de esquerda: “Para Ler o Pato Donald”, dos chilenos Ariel Dorfman e Armand Mattelart.

O livro dava uma explicação racional e, claro, marxista sobre o fenômeno das histórias em quadrinhos. Mostrava como cada quadro era imbuído de uma densa propaganda ideológica, e como os arquétipos ali presentes eram aqueles do capitalismo americano.

Claro que o livro estava corretíssimo, e não é isso que se discute aqui.

O que se discute é que, correto ou não, é preciso ser uma pessoa muito, muito chata para ler quadrinhos Disney preocupada com os detalhes ideológicos das histórias. O universo Disney era brilhante, era engraçado — mas sobretudo era interessante e divertido. Pode ser alienação, mas e daí? (se mesmo assim alguém insiste em ser intelectual combativo ao ler o Pato Donald, aqui está uma explicação quase “filosófico-burguesa” para os quadrinhos.)

Eu tinha uma teoria — furada, como todas as minhas teorias — de que “Para Ler O Pato Donald” só podia ser o resultado de uma trauma muito grande na vida de seus autores. Eu imaginava que eles cresceram juntos, com um terceiro amigo. Esse amigo não desgrudava de suas revistinhas do Pato Donald. Em 1972, teria participado do golpe que derrubou Allende, coroando um longo processo de afastamento de seus amigos. Essa era a única explicação que eu conseguia dar para tamanha ranhetice.

Eu não gostaria de sentar em uma mesa de bar com esses dois seres inescrupulosos.

Post scriptum acerca do Let it Be… Naked

É, eu menti. Aquele não era o último post sobre o Let it Be… Naked. Mas a culpa é do Tuzi.

Desde o início dava para saber que o LIBN era um fraude; não era o Get Back, cru, nem uma versão re-produzida e aperfeiçoada; ele ficou no meio do caminho, falso em seus overdubs e desonesto ao tentar nos convencer do contrário.

Já vi uma série de críticas equivocadas sobre o Let it Be. Como esta, da Salon, por exemplo:

After the baroque studio wizardry of “Sgt. Pepper’s” and “The White Album,” we get to hear the band playing together again, live and with no overdubs.

Na verdade, o “Álbum Branco” não tem absolutamente nada a ver com o Sgt. Pepper’s; já era, em 1968, uma volta ao rock and roll básico, e uma espécie de parabólica musical. Essa idéia se vê já a partir da capa, totalmente branca, indo na contramão do psicodelismo rampante da época.

Na verdade, a diferença no projeto Get Back era a respeito da banda, não do som. Eles queriam ver se conseguiam tocar “ao vivo” novamente, sem overdubs (e nisso a resenha da Salon está correta). E por isso o que fizeram agora é uma fraude, porque não é nada, no fim das contas.

Mas há uma fraude ainda maior no Fly On The Wall, o disco-bônus que acompanha o Let it Be… Naked. Pequenos trechos de música misturados com trechos de diálogo.

Somente com as MP3 que tenho em um só CD eu poderia fazer um disco bem melhor. Por exemplo, a música Two Of Us tem pelo menos 3 grandes versões, totalmente diferentes: a versão rock, uma em que eles cantam com sotaque cockney, e uma — a minha preferida — elétrica, mas lenta. Tem Watching Rainbows; tem Tomorrow Never Comes, tem Hi Ho Silver, tem Suzy Parlor, tem Not Fade Away (cantada pelo que parece ser um Lennon entupido de heroína), tem Get Back cantada em alemão, tem No Pakistanis e Commonwealth, tem Lennon cantando a primeira música música escrita por McCartney, I Lost My Little Girl, tem McCartney tocando Let it Be pela primeira vez para os outros e ensinando os acordes… Os arquivos da Apple estão cheios de pequenas preciosidades, pelo menos para os fãs. Sem contar os pequenos trechos absolutamente canalhas, como What’s the Use of Getting Sober, ou Negro in Reserve, ou When You’re Drunk You Think of Me.

É só pensar em tudo isso e ouvir o as migalhas oferecidas em Fly on the Wall para ver que aquilo é lixo, pelo menos para um fã.

Por outro lado, Lennon sempre disse que Phil Spector tinha salvo o Let it Be. Eu, pelo menos, duvidava disso. Mas agora dá para ver que Lennon tinha razão. A nova versão impressiona pela qualidade do som, mas musicalmente é algo indigesto, e muitas vezes inferior ao original.

Ouvindo o LIBN dá para ter uma idéia mais clara do trabalho colossal que deram a Spector. Ele certamente escolheu os melhores takes, e muito da orquestração que colocou serve também para encobrir erros. A versão de Get Back, pro exemplo, é triste. Two of Us também. A única versão que realmente ficou melhor é a de Let it Be.

É só pedir a alguém que não conheça os dois discos e pedir para ele ouvir os dois. Vai ver que, descontada a história e essas coisas, o Let it Be original é muito melhor.

A Hard Day's Night

Acabando de assistir pela enésima vez a “Os Reis do Ié Ié Ié”, agora baixado gratuitamente da Internet em DivX, e lembrei dos absurdos que já disseram sobre esse filme.

O maior deles é que é o “primeiro videoclipe” da história. O que, cá para nós, é uma mentira absurda.

Todo mundo diz que os Beatles inventaram os videoclipes, o que é verdade. Mas não foi com esse filme: isso aconteceria 2 anos depois, quando para evitar o desgaste de correr as TVs para fazer divulgar suas novas músicas resolveram simplesmente gravar “promos” de Paperback Writer e Rain e mandá-los em seu lugar. Não pretendiam estar inventando nada, queriam apenas evitar mais cansaço numa rotina absurdamente exaustiva.

O que “Os Reis do Ié Ié Ié” tinham era uma linguagem rápida, inovadora até certo ponto, que mais tarde seria absorvida naturalmente pelos videoclipes.

Anos 80 e música

Por algum acaso, o Bia concordou que aquela lista da Rolling Stone é boa; discorda apenas em relação ao London Calling. E em achar que 4 discos dos Beatles é um excesso dispensável.

Bem, a observação sobre o London Calling me lembrou uma coisa: eu detesto os anos 80. De coração. Acho que, musicalmente, foi a década mais fraca da história, em que pesem o U2 e os Smiths. Mas ela começou sob o signo da New Wave, que nos brindou com sintetizadores enjoados e baterias amplificadas acima do limite do bom gosto; não podia ser diferente.

Não pode ser por acaso que a maior parte dos anos 80 foi dedicada a recondicionamentos da música feita nos anos 50 e 60; era uma pobreza absurda. Tudo bem, os anos 70 tiveram a disco music, mas em compensação tiveram o punk e o funk (curioso que ritmos tão diferentes tenham nomes tão parecidos), além da maturidade da soul music. E tinha o Led Zeppelin, ué.

Nos anos 80 a gente teve Michael Jackson e Madonna. E olha que, comparados à maior parte do que se via na época (Pet Shop Boys! Duran Duran!), eles eram geniais.

Nos anos 80 eu simplesmente não ouvia rádio. Pensava que era bobagem minha, que era sectarismo de um sujeito que se dedicava a ouvir tudo o que pudesse do rock and roll, de Little Richard a Sex Pistols. Mas não era. O fato de eu conseguir ouvir música hoje em dia é a prova, para mim, de que não era eu que estava errado; era o resto do mundo.

Não que isso seja incomum, claro.

Batman

Gosto de quadrinhos. Gosto de super-heróis. E de todos, o meu preferido é o Batman.

O Batman é um dos super-heróis mais críveis. Aquela história de o sol amarelo dar a força do Super-Homem é balela; além disso o sujeito pode tudo, é um chato. O Homem Aranha é legal, mas vamos admitir: se você fosse picado por uma aranha radioativa não ia desenvolver super-poderes, você ia era pegar um câncer.

O elemento básico em tudo isso é que ser um super-herói como o Super-Homem ou o Homem-Aranha era impossível para crianças e adolescentes como eu.

Mas o Batman, não. Eu não poderia ser Namor ou o Capitão Marvel — mas poderia ser o Batman. Em tese é possível: basta ver seus pais serem assassinados na sua frente, ser milionário e poder dedicar sua vida a combater o crime. Ele não tem nenhum super-poder; apenas treinou bastante para ser o que é.

Mas a verdadeira razão pela qual gosto do Batman é mais obscura: o sujeito é louco. Se há algum super-herói sempre na corda bamba, sempre a um passo de fazer uma grande cagada, é ele. Bruce Wayne é um monomaníaco paranóico, um sujeito bem parecido com os vilões que combate. E é isso que é fascinante nele.

Erros de translação

Eu gosto de ver erros de tradução nos filmes dublados ou legendados em português. São aqueles erros tão crassos que é impossível não perceber, porque geralmente são traduções literais ou simplesmente adivinhadas (“é, eu acho que essa palavra quer dizer isso…”).

Alguns são clássicos. Traduzem she wouldn’t say por “ela não diria”, many happy returns por “muitas voltas felizes”, congratulations por “congratulações”.

Mas anteontem vi um novo: deception por “decepção”.

Não faço idéia das condições de trabalho dos tradutores. Mas quaisquer que sejam, duvido que consigam justificar tanta bobagem.