Fixing a Hole

Tem outro beatlemaníaco por aí, o Galvão do Valle. Deve ser primo, sei lá, mas na minha família de insanos irremediáveis o único acometido por essa doença específica fui eu, até onde sei.

De qualquer forma, o Galvão 2 é provavelmente um garoto, ainda descobrindo os Beatles; daí essa devoção cega.

Essa é uma sensação absurdamente deliciosa, que perdi há muito tempo; hoje nem mesmo uma canção inédita que eu eventualmente desconheça causa essa empolgação, porque em 5 segundos posso dizer exatamente em que época foi gravada; em alguns minutos talvez até possa dizer quem toca o quê. É o que se ganha depois de milhares de horas ouvindo e tocando as músicas dos Beatles. O mistério, aquela coisa análoga ao casal recém-apaixonado que se delicia em descobrir detalhes do ser amado, já acabou faz um bom tempo.

Mas o amor apaixonado do Galvão 2 não devia ofuscar o seu juízo. O Let it Be… Naked é um anti-clímax para quem vem esperando o lançamento do Get Back.

Em primeiro lugar, é um roubo. Serão dois CDs, com cerca de 60 minutos ao todo. Para que se tenha uma idéia, eles tinham à disposição mais de 100 horas de gravações. E em cada CD cabem 80 minutos de música. Resultado: poderia haver pelo menos mais 1 hora e 40 minutos de música. E naqueles arquivos há uma infinidade de pérolas — Wake Up in the Morning, If Tomorrow Ever Comes, Watching Rainbows, entre dezenas de outras; e estou só citando “originais de Lennon e McCartney” que nunca foram lançados.

Deixa só eu relembrar o que foi o projeto Get Back. No final de 68, com os Beatles se recuperando das gravações do Álbum Branco e com o pau começando a comer de verdade entre eles, McCartney teve a brilhante idéia de fazer a banda voltar a tocar ao vivo. Conversa vai, conversa vem e acabaram decidindo por um documentário para a TV que mostraria o processo de criação e gravação de um disco dos Beatles; originalmente deveria culminar em um show no Roundabout, uma boate de Londres (uma idéia brilhante, de fazer um show em Pompéia, foi abandonada e mais tarde resgatada pelo Pink Floyd).

O programa de TV deveria mostrar os Beatles de volta as raízes, ensaiando à exaustão para gravar tudo em um take só, sem overdubs, sem nada daquele aparato de estúdio que vinham usando desde o Revolver. Daí o nome Get Back: de volta às origens.

O que se viu, no fim das contas, foi o documentário da desintegração da banda, e o agravamento da crise entre eles. George abandonaria a banda nesse período (“See you ’round the clubs“), mas voltaria e eles terminariam as gravações com o show no telhado da Apple, interrompido pela polícia.

O resultado foi tão miserável que eles simplesmente abandonaram o projeto e gravaram o Abbey Road; e em 20 de setembro de 1969 Lennon avisou que estava fora.

Mas mesmo assim eles teriam que lançar o Get Back, e Lennon chamou Phil Spector (um grande, grande produtor) para dar um jeito naquilo. Spector deu, embora McCartney nunca tenha ficado satisfeito. O álbum Get Back recebeu o nome de Let it Be e acabou sendo lançado um mês após o fim oficial da banda. O filme, em vez de ir para as TVs, acabou nos cinemas.

Pois bem.

Nesses 30 anos, o que os fãs sempre quiseram ver foi o Get Back original, “as nature intended“, mixado por Glyn Johns. Mas o que eles estão lançando agora, na verdade, é só uma releitura do Let it Be. Se o projeto original tinha uma unidade conceitual, o que McCartney e Yoko Ono estão lançando agora é só mais um caça-níqueis, uma maneira de faturar uma graninha a mais.

E sabe por quê? Porque eles sabem que os fãs vão comprar de olhos fechados. E ainda achar uma maravilha.

Quer um conselho? Procure por aí (na internet você acha de graça) os bootlegs lançados a partir dessas sessões. O Thirty Days é um dos mais completos. Ao que tudo parece indicar, vale mais a pena.

Guitarras

Tuzi, eu não sou o maior fã de Hendrix no mundo. Mas acho exagero dizer que ele só tinha criatividade.

Até porque a criatividade só se manifesta plenamente, mesmo, quando tem uma base técnica muito forte. E se tem algo que aquele rapaz conhecia era cada detalhe de sua guitarra. Mais que isso, o sujeito tinha raízes muito sólidas no blues. O que eu quero dizer é que tecnicamente ele era excelente, também.

Hendrix mudou a forma como se toca guitarra. Clapton e boa parte dos outros não fizeram isso; aliás, o Clapton de que gosto é aquele que tocava com John Mayall, quando era conhecido como Deus e como Slow Hand. É curioso comparar a gravação de Steppin’ Out dos Bluesbreakers de Mayall com a gravação do Cream; de virtuose Clapton tinha passado a exibicionista. E deixou meio de lado aquelas “seguradas” de notas que pareciam impossíveis.

E eu não conheço o Jason Becker, não. Culpa minha: ouço cada vez menos música moderna.

Robertinho do Recife

O mais engraçado é que, numa eleição mambembe d’O Globo para elegerem os melhores guitarristas brasileiros, aconteceram os mesmos erros.

Tudo bem; Pepeu Gomes conseguiu um digno empate em primeiro lugar com mais 4 guitarristas. Mas o total esquecimento de Robertinho do Recife é uma injustiça imperdoável. Só porque o rapaz é maluquinho de pedra.

E Armandinho. Como alguém pode esquecer Armandinho é um mistério para mim.

Let it Be… Dumb

Essa é a capa do Let it Be.. Naked, que vai ser lançado no dia 17 de novembro.

É, provavelmente, a pior capa de um disco dos Beatles. A idéia é simples, uma releitura da capa do Let it Be original, e isso é fácil de perceber. Mas ao mesmo tempo é tão óbvia que dá um certo desgosto de ver que uma banda que mesmo depois de morta conseguiu nos dar grandes capas (a idéia por trás da série Anthology é brilhante) caiu no óbvio e no obtuso.

Não bastava ser flamenguista, ainda resolvi ser beatlemaníaco. Mereço isso não.

Beatle covers

Uma das razões para eu esperar com certa ansiedade o novo disco dos Beatles, que deveria ser o Get Back original finalmente lançado, é que ele finalmente daria forma a uma teoria maluca que eu tinha.

Eu acreditava que as capas dos discos dos Beatles, mais que qualquer outro grupo, contavam visualmente a sua história, refletindo as transformações ao longo de sua carreira.

O primeiro disco, Please Please Me, mostra os garotos que finalmente conseguiram gravar um disco. Ainda frescos, estão orgulhosos de estar na escadaria da grande gravadora que os colocou sob contrato.

O segundo, With The Beatles, mostra as estrelas da música pop finalmente estabelecidas, já com certo glamour, com um estilo próprio perfeitamente definido.

A Hard Day’s Night mostra a consolidação definitiva, em que eles seguem os passos de Elvis e adentram a outra grande mídia da indústria cultural, o cinema, no ápice do primeiro grande fenômeno mundial da cultura de massas mundial, a beatlemania.

Em Beatles For Sale o que se vê são aqueles mesmos aqueles garotos, mas já cansados do furacão, uma sensação de que deram o que tinham que dar e que não querem mais isso. E no disco seguint,e Help!, eles finalmente pedem socorro, ainda que disfarçamente.

Rubber Soul mostra o início do rompimento com a imagem dos fab four. É um disco de transição e seus rostos distorcidos mostram que sua própria percepção da realidade mudou.

Em Revolver vem o rompimento definitivo com a beatlemania, mas em vez de ceder ao mainstream, o que se vê é uma psicodelia contida, típica da banda.

Em Sgt. Pepper’s a psicodelia explode de uma vez, e os Beatles se assumem como porta-vozes de uma geração que achava estar transformando o mundo.

O Magical Mystery Tour é uma brincadeira a que os grandes ídolos, blasés, se sentindo onipotentes, se permitem. É leve, descompromissado, e um reflexo da psicodelia da época.

O White Album mostra não apenas um retorno à simplicidade, na contramão da época, mas assim como o branco é a soma de todas as cores, reflete a variedade de estilos presentes no disco.

(Deixa eu pular o Yellow Submarine, que poderia ser descrito como a incursão definitiva ao imaginário da pop art mundial, mas que na realidade tem pouco a ver com os Beatles.)

Era aqui que viria o Get Back. A capa, uma cópia do Please Please Me 7 anos depois, mostrava que os Beatles estavam fechando o círculo, e que são e não são os mesmos de 1962.

Finalmente, o Abbey Road mostraria os Beatles indo embora do estúdio, dando por finalizada a sua tarefa. E Paul estava morto.

Mas aí a Apple resolve lançar o Let it Be… Naked. E estraga toda a minha teoria.

Macacas de auditório e outros bichos

Ontem um evento desagradável com a Mônica sobre Cauby Peixoto.

A Mônica é autora de um dos meus blogs preferidos, é inteligente como poucas pessoas. Escrevendo, ela vai a lugares onde nunca ponho os pés.

Ela só tem um problema: por alguma dessas loucuras em que as pessoas às vezes condescendem, prefere Chico Buarque cantando “Bastidores” a Cauby Peixoto. Diz a mulher que Cauby estraga a canção com seu exagero.

Ah, Mônica… Mas é justamente isso que faz da interpretação de Cauby algo primoroso e único…

Preste atenção à letra. Ela é desbragadamente viada, escancarada, é música que só poderia ser interpretada por Cauby. É para ser over, mesmo. Over como o bolerão de puteiro que é. De que outro jeito se pode transmitir a idéia de que “tomei um calmante, um excitante, um bocado de gim”, porque está tão atordoado e magoado que procura soluções disparatadas e imediatas que nunca aparecerão? Fale a verdade: você consegue imaginar Chico Buarque se despedaçando porque uma mulher o abandonou? Ah, não. Nunca. Ele simplesmente beberia outra dose — de uísque, não de gim.

“Bastidores” mostra um cantor se dilacerando no palco, rasgando sua alma porque foi abandonado; é alguém que jamais terá vergonha de mostrar suas emoções, mas que as sublima cantando.

Ninguém mais poderia cantar essa música, Mônica. Ninguém além de Cauby, kitsch, brega, desavergonhado. Porque só Cauby consegue encontrar consolo nos bêbados febris se rasgando por ele.

A sensibilidade da Mônica é muito refinada para que ela perceba a verdade que há na breguice desvairada de Cauby.

Vai, vai, vai terminar a brincadeira

Uma das coisas que o progresso vai deixando para trás, infelizmente, é o circo.

Acho que a maior parte dessa meninada que hoje chega aos 8 anos nunca foi a um circo. Não sentiu o cheiro da lona, da serragem. Não olhou vidrada para o picadeiro, não riu com o palhaço nem ficou de boca aberta com os trapezistas.

Não acho que o cinema ou a TV tenham sido os responsáveis por sua morte anunciada. A experiência de ver um leão ao vivo não pode ser substituída por nenhum documentário do Discovery ou do National Geographic. Se fosse, os zoológicos andariam às moscas. O mais provável é que a própria dinâmica das grandes cidades esteja matando o circo.

Se não me engano, o único grande circo brasileiro de classe mundial que ainda resiste é o Bartholo, que anda aí pelo estrangeiro há muito tempo. Alguns menores tentam levar a bandeira, como o Vostok, mas todos eles parecem condenados à extinção. O Tihanny, o melhor a que eu fui, ainda nos anos 70, desistiu e se dedicou ao music hall, outro gênero que desapareceu há muito tempo.

É uma pena, porque a experiência do circo não pode ser substituída por nenhuma outra. Não dá para interagir com o palhaço, não dá para torcer para que o trapezista não se esbagace no chão, não dá para temer pela segurança do domador, nem tentar ver uma nesguinha de bunda das artistas sem ser debaixo da lona.

Hoje o circo parece condenado ao esquecimento. É uma pena. E, para completar o panorama degradante, de dono de circo o Marcos Frota é rebaixado a palhaço.

Astaire

Vendo Silk Stockings noite dessas, a versão musical de Ninotchka, para admirar, extasiado, o velho e bom Fred Astaire.

Já disseram que a dança de Gene Kelly era proletária, enquanto a de Astaire era aristocrática. Mas é bem mais que isso. Se em Gene Kelly o talento parece muitas vezes o resultado de muito treino, em Astaire parece algo natural, que flui sem que ele mesmo saiba. Não se concebe o rapaz fazendo outra coisa.

Em The Story of Vernon and Irene Castle, Astaire dança maxixe. E olha, ele dança com mais leveza e mais brilho que qualquer passista de escola de samba.

Censura coisa nenhuma

Eu não pretendia falar sobre o caso Gugu, mas quando até Zuenir Ventura, em sua coluna de hoje em O Globo, cai nessa conversa de condenar (ainda que envergonhadamente) a “censura” que teria sido imposta a ele, a coisa complica.

É interessante que sempre que alguém reclama do baixo nível da programação da TV, ou pede mais responsabilidade social dela, as vozes daqueles que a fazem se levantam e gritam que é censura. Essa atitude, em grande parte, é herança das ditaduras que o Brasil viveu no século XX, principalmente a última. É até compreensível. Ninguém gosta. Principalmente porque a censura foi utilizada para coibir manifestações artísticas legítimas, que cometiam o pecado de não serem os adotados pela ordem oficial.

Mesmo nos casos acima, é um tema complexo. De vez em quando tem-se a impressão de que o “pessoal da TV” se acha acima de quaisquer forças de controle da sociedade, como se os seus critérios fossem invariavelmente melhores que os dela.

Mas agora é diferente. O que Gugu fez é crime e tem, lógico, nome: falsidade ideológica. E nunca é demais lembrar que uma TV opera sobre uma concessão do governo, e que portanto pertence ao povo. Pega mal liberar propriedade pública para que pessoas cometam crimes — sem contar aqueles contra o bom gosto, mais antigos. Crime não é questão de gosto, é questão de justiça. E uma medida judicial não é censura, não no sentido utilizado pela TV.

Agora, o pior é que tudo isso não vai contribuir em nada para melhorar o nível das tardes nas TVs brasileiras. O mau gosto vai continuar a imperar, porque a batalha por uma audiência cada vez menor e menos qualificada, do ponto de vista publicitário, pede lances cada vez mais baixos — e às vezes mais desesperados, como bem sabe Gugu Liberato.