O Terceiro Mundo é ali

O presidente do Peru, Alejandro Toledo, passou a Semana Santa servindo de guia turístico para uma equipe do Discovery Travel Channel.

Ainda bem que eu moro em um país do Primeiro Mundo. Não queria ter que passar pela vergonha dessa confissão de terceiromundismo. Em vez disso, aqui a gente faz os americanos tocarem piano.

E ainda tem gente que reclama de Lula.

Os xiitas contentes

Acho que escrevi algo no outro blog sobre o Iraque de Saddam ser, pelo menos, uma sociedade secular, e como a retirada dos sunitas do poder poderia afetar essa situação e agravar o problema no fundamentalismo islâmico no Oriente Médio.

Agora que os xiitas estão se rebelando contra os Estados Unidos, tudo indica que a situação no Oriente Médio só tende a piorar. E chegou-se a um ponto em que Kerry, o próximo presidente dos Estados Unidos, vai ficar com uma batata quente nas mãos e sem nenhuma alternativa fácil, sem poder sair e sem poder ficar.

Alguém bem que poderia dizer a Bush: “Viu a merda que você fez?”

(E ué, as pesquisas não diziam que os iraquianos estavam felizes com a invasão libertação trazida pelos americanos?)

Por que escoteiros e políticos não gostam de mim

Nos tempos em que escrevia em jornal, publiquei uma cronicazinha que falava sobre um monitor com tendências, digamos, meio heterodoxas. Era apenas ficção, e das fraquinhas. Por “fraquinhas” entenda-se “ruim demais”.

Mas o coordenador dos escoteiros de Sergipe resolveu escrever uma longa carta me cobrindo de elogios, do tipo que minha mãe não gosta, e exigiu publicação. Não me incomodou muito, porque eu já tinha passado por ofensas piores — a última tinha sido um vereador de Aracaju que subiu à tribuna da Câmara de Vereadores, brandindo o jornal, para dizer que “esse tal Rafael Galvão pode ser filho de um grande jornalista, mas é um moleque”. Era mesmo: eu tinha 19 anos.

(Alguns meses depois o vereador apareceu na minha casa, com uma garrafa de uísque no lugar de cachimbo da paz, me convidando para trabalhar com ele.)

Quanto ao coordenador dos pobres escoteiros — que me ensinou que a frase sobre os imbecis vestidos de menino é de Mussolini –, eu respondi sua carta, aproveitando para debochar do escotismo, e tudo ficou por isso mesmo. Se eu conseguir achar esse artigo publico aqui; a resposta, não a crônica que deu origem à confusão, porque dela eu tenho vergonha.

Um ano depois, acho, fiquei sabendo a razão daquela reação, que na época achei exagerada. Um sujeito tinha denunciado um monitor que gostava excessivamente de meninos. Por acaso na mesma época em que saiu a tal crônica. O diretor dos escoteiros, então, achou que o pequeno “escândalo” tinha vazado. E a sua postura era exatamente a mesma da Igreja Católica em casos semelhantes: abafar o caso e fingir que nada aconteceu.

Mas consciência pesada é uma coisa terrível. Fica gritando sua culpa, e aos seus ouvidos soa tão alto que você passa a achar que todos ouvem também.

A culpa é a mãe da paranóia.

De lobos e cordeiros

E o tempo todo aparecem posts ou artigos falando de como o Iraque está bem, como os iraquianos estão felizes com a nova situação.

Não duvido — pelo menos não com muita convicção. Não duvido porque não sei, e prefiro ficar quieto a fazer como tanta gente que não sabe e diz que ele está melhor ou pior.

O problema é que esses posts e artigos geralmente incluem loas aos Estados Unidos. O último que eu li, e que me deu mais náuseas, foi no Socialism in an Age of Waiting, blog inglês que se diz socialista.

Eis o trecho que me fez ter vontade de correr para o banheiro:

After all, Americans fought and died in Europe during the 20th century to save France from Germany (twice), and save Germany from Fascism and Communism, but hatred of America is a reflex action in both countries. Still, the French and the Germans who rant and rave are able to do so in freedom. Just as the Iraqis can now do. Hitler didn’t triumph, Stalin didn’t succeed, Saddam lost. One year after, this is a better world.

Alguém precisa lembrar ao idiota que escreveu isso que a vida é muito mais complexa do que lambedores de bota acreditam. Os Estados Unidos não lutaram para salvar a França; lutaram para evitar que Hitler chegasse aos seus calcanhares (aliás, se é para ser chato, não custa lembrar que eles não declararam guerra à Alemanha; declararam ao Japão depois de Pearl Harbor e a Alemanha, em solidariedade ao Japão por força do acordo que formou o Eixo, declarou guerra a eles). Não lutaram para salvar a Alemanha do comunismo: Stálin fez isso em 1927. Finalmente, ao contrário do que o retardado dá a entender, Stálin teve sucesso, sim — morreu em um país socialista e mais forte do que nunca, que tinha recuperado tudo o que havia perdido no início dos anos 20 e ainda mais. E se o socialismo fracassou lá não foi por causa dos esforços dos Estados Unidos, mas por não conseguir resolver suas próprias contradições. Basicamente, acreditar que países lutem por outra razão que não seus próprios interesses é merecer ser chamado, por um sujeito de um país do terceiro mundo, de completo imbecil.

(O debilóide ainda reclama que a França devia ser grata aos Estados Unidos. Pois gratos deviam ser os americanos, sempre profundamente ignorantes em história, porque sem a França seu país sequer existiria.)

E este é realmente um mundo melhor, um ano depois? Onde? Países onde o terror islâmico nunca tinham atacado são vítimas de assassinatos em massa. Os Estados Unidos conseguiram destruir a melhor organização diplomática que os mundo conseguiu construir em séculos de esforço: hoje a ONU é uma sombra do que foi. Nos próprios Estados Unidos, que sempre admirei por serem um modelo de liberdade individual, os direitos civis estão escoando pelo ralo. A África continua agonizando de fome e Aids. Este é um mundo melhor porque Bush mentiu ao seu país e invadiu outro?

O Socialism in an Age of Waiting está sendo escorraçado do meu OPML. Eu gosto de ler o que dizem os lobos e gosto de ler o que dizem os carneiros, mas tenho uma antipatia incontrolável a lobos disfarçados de carneiros.

Quando os mortos são os outros

Nada, absolutamente nada justifica atentados como os de Madri. Não há discussão possível. Terroristas são assassinos e são a escória da humanidade.

Mas o que será que justifica as atitudes ambíguas que tomamos diante de atos tão parecidos, só porque aconteceram em locais diferentes e com pessoas diferentes?

A reação mundial ao atentado de Madri é compreensiva e justa, e merece ainda mais que a dimensão que vem tomando. Mas por que não reagimos da mesma maneira massivamente indignada em relação a todos os outros atentados perpetrados em todos esses anos, quando eles aconteceram no Oriente?

Como o atentado em Istambul, por exemplo.

Assim como na explosão do trem espanhol, ali morreu muita gente. Assim como a explosão do trem espanhol, foi um crime covarde cometido por inimigos do gênero humano. Mas além dos protestos de praxe, da indignação de praxe, não houve tantos clamores por justiça quando se tratou de turcos que explodiam pelos ares — e este blog se inclui nessa lista. Tentar explicar a reação mais tímida e menos chocada pelo menor número de mortos é hipocrisia e cinismo: uma pessoa que seja que morra dessa forma vil e inútil é gente demais.

Provavelmente não choramos pelos mortos de Istambul porque aquele é o mundo de lá. E os mortos de lá não nos tocam tanto, porque nos são estranhos, e talvez no fundo nos sintamos aliviados por serem eles que estão se matando. Aquele povo esquisito é diferente, se veste diferente, fala diferente e parece que pensa diferente. Mas os mortos da Espanha são como nós, são filhos da mesma civilização. Os espanhóis somos nós. Os turcos, sauditas, os iemenitas não são. Eles são os outros. A dor deles não dói tanto em nós.

Triste, mesmo, é perceber que é mais ou menos esse o sentimento que move os assassinos da Al Qaeda, do ETA e de toda e qualquer organização terrorista. Os mortos são os outros. Mas a criança iraquiana que chora hoje após um atentado, por alguma razão que divisões entre os povos não conseguem apagar, chora no mesmo timbre da criança espanhola.

Talvez a nossa reação seja uma variedade do estupor que tomou conta dos americanos após o 11 de setembro: a sensação de que a certeza de que tínhamos de viver em um mundo à parte e mais civilizado foi abatida pelas bombas dos étrangers. Talvez tão importante quando a indignação humana seja o sentimento de que eles são outros, são diferentes, e que portanto estão acostumados à matança, e que não têm nenhum direito de trazê-las para nós.

De certa forma, os assassinos da Al Qaeda estão conseguindo o que queriam: provar ao mundo a mentira de que esta é uma guerra entre Ocidente e Oriente, entre modos de vida antagônicos e inconciliáveis. E que, enquanto os mortos forem os outros, tudo é admissível.

The times they are a-changin'

No meio do ano passado, me disseram que Bush era imbatível. Eu discordei.

A razão não era só a minha vontade de que aquele bastard (não é mais bonito chamar de bastard que de filho da puta?) sumisse da face da terra. Eu vinha começando a perceber, através de revistas e principalmente blogs, que havia uma corrente anti-Bush se fortalecendo nos subterrâneos.

Basicamente, os americanos se perguntavam o que ganharam desde que Bush assumira a presidência. A resposta era nada.

O fenômeno, em si, não é nada novo. É o que acontece quando um governo radicaliza ao ponto que Bush radicalizou. Isso aconteceu em 1972, com Nixon e McGovern; em muito menor grau, aconteceu com Carter e Reagan.

Mas a internet tem a ver com isso. Não criou nenhum sentimento, nenhuma ideologia, mas serviu como câmara de eco e agente de ligação dessa revolta surda. É mais fácil externar opiniões e encontrar quem as compartilhe. As coisas crescem mais rápido, assim.

Uns seis meses depois, esse “movimento” anti-Bush não pára de crescer. E a não ser que nos próximos 6 meses Bush multiplique empregos como Jesus multiplicou pães e peixes, é bem provável que ele perca as eleições.

A cada dia, as eleições em Roma ficam mais interessantes.

Comentários sobre o Oscar

Não vi a cerimônia do Oscar, mas a primeira coisa que fiz ao acordar na segunda foi catar os resultados. Interessantes.

O mais interessante em tudo isso é a vitória de Sean Penn. Se já esqueceram, não custa lembrar que ele teve uma atuação importante no movimento pacifista do ano passado, se manifestando contra a guerra quando todo o país dele parecia ser a favor, e abriu a boca para reclamar que estava sendo boicotado por suas posições.

Como as eleições no Oscar são sempre políticas, o Oscar pode significar que o grosso dessa elite cinematográfica está de saco cheio de Bush. São formadores de opinião importantes, e sempre refletem um movimento que deixou de ser subterrâneo.

Ou seja, cada vez mais acredito que Bush vai perder o emprego.

Pensando na tal revolução

Howard Dean retirou sua candidatura ontem. É o fim da corrida para ele, o que indica que o candidato democrata quase certamente será John Kerry. Segundo todos os indícios, Kerry é uma espécie de Bush recauchutado. Mas é impossível que consiga ser pior que Bush. O que preocupa, agora, é que segundo algumas análises é mais fácil para Bush derrotar Kerry do que um outsider como Dean.

Recapitulando: Howard Dean é o pré-candidato a presidente democrata que utilizou de forma intensiva a internet como uma de suas principais ferramentas de campanha. Se tornou, em pouco tempo, “o candidato dos blogs”. Mas seu desempenho nas primárias foi pífio, e o resultado é o anúncio de hoje.

Esse “fracasso” de Dean fez algumas pessoas apontarem “o estouro de uma nova bolha da internet”; e chegou-se à conclusão de que o uso de blogs em campanhas eleitorais é um fracasso.

Enterrar a importância de ferramentas da internet, como weblogs, em campanhas eleitorais por causa do fracasso de Dean é apressado demais. Pelo que pude entender, a internet teve muito a ver com seu crescimento e pouco com sua queda. Os erros de Dean foram políticos; talvez o mais importante deles tenha sido perder o timing, não ter percebido a hora de passar da crítica destrutiva a Bush para a formulação de propostas consistentes. E não se pode esquecer que, por ser a mais visível e a mais radical, foi a candidatura que mais apanhou da TV e dos jornais. Em relação à internet talvez tenha havido o mesmo erro que já vi outras pessoas cometerem em mídias tradicionais: o insularismo, a tendência a acreditar no próprio otimismo. Finalmente, outro erro típico: Dean se expôs demais, cedo demais.

O fato é que algo novo começou, e Dean foi um dos principais catalisadores da novidade. Se vai adiante, ou não, talvez ainda seja cedo para dizer. Mas Lênin podia ter certeza absoluta do que aconteceria assim que ele pisasse na Estação Finlândia? Fidel tampouco sabia se ia descer a Sierra Maestra nos braços do povo ou em um caixão.

Pela primeira vez desde o surgimento da televisão, uma revolução em comunicações está acontecendo. A internet é um meio novo e de comportamento ainda imprevisível, mas já não dá para negar sua importância. Ela pode ser mensurada, quando menos, pelas dezenas de milhões de dólares que a candidatura de Dean amealhou de pequenos doadores, boa parte através da Internet. Dean mobilizou as bases democratas como nenhum outro candidato conseguiu nas últimas décadas. Isso só aconteceu graças à internet, à sua capacidade de criar e manter comunidades ativas.

E, embora seja cedo demais, já se pode avaliar algumas dessas transformações.

A primeira delas é que o uso de internet em campanhas implica uma mudança do que os universitários chamam de paradigma. Pode-se contruir não apenas uma campanha tradicional, mas um verdadeiro movimento. No caso dos Estados Unidos, pode dar a partidos tradicionais bases ativas que só se encontram nos partidos de esquerda, como o PT e o PCdoB brasileiros.

Isso cria um novo problema, no entanto. A internet força uma descentralização em campanhas jamais vista. Ainda não dá para entender totalmente esse novo panorama, mas as mudanças serão definitivas. Uma campanha eleitoral, por definição, precisa ser centralizada e ter uma estratégia definida. É o que evita que um idiota descontente cause algum dano ao externar suas opiniões, como Dave Winer fez com Dean logo após a primária de Iowa. Essa descentralização forçada, ainda que relativa e passível de ser minimamente controlada, modifica totalmente o modo de comando, e exige que se adote uma nova atitude relativa à forma como ela caminha. É um problema grande para quem tem que administrar uma campanha.

Mas Marx dizia que um problema só surge quando já existe a solução.

Para esse tipo de campanha funcionar, é preciso que se esteja preparado para um fluxo de informações que não se pode controlar totalmente. E isso é um grande avanço; no que diz respeito ao marketing político, é uma revolução. Ao mesmo tempo, o poder multiplicador da internet entre formadores de opinião é algo que não se consegue com simples programas e comerciais de TV. Será mais fácil transformar eleitores em agentes, envolvê-los na campanha — em suma, construir um movimento horizontal, e não vertical.

Esse é um bom começo.