Os dois e-mails de Bill Clinton

Pouco antes de Clinton sair da presidência de Eviland, assisti a uma entrevista em que ele discorria sobre futuro e tecnologia.

Poucas vezes vi alguém tão preparado, tão consistente e tão seguro do que estava falando. Parecia que Clinton tinha feito isso a vida inteira, que passava suas tardes conversando com gurus das melhores universidades do mundo.

Como eu sempre soube que Clinton era mais inclinado a descobrir usos inovadores e gostosos para charutos a especular sobre o futuro da tecnologia, fiquei pensando que aquilo, sim, era uma assessoria competente. O que nem de longe é um demérito para ele. Clinton era a prova de que um sujeito que escolhe assessores mais inteligentes que ele é mais inteligente que seus assessores. E o seu carisma era algo de outro mundo.

Mas jamais poderia imaginar que o seu uso da tecnologia fosse tão ínfimo: em 8 anos na Casa do Mal Branca, Bill Clinton mandou exatos 2 e-mails pessoais.

Cada dia mais admiro Bill Clinton. É um artista.

Palavras, palavras, palavras

Conversando com um amigo, começamos a lembrar as tiradas de um político que ambos conhecemos.

A minha história era curta. Numa campanha, esse político começou escrevendo seus próprios discursos — o que para mim era uma maravilha, já que eu tinha outras partes do programa de TV e outros candidatos para cuidar. Um dia ele me chamou para dar uma olhada em seu texto.

“Senador, está bom. Mas essa referência ao “regime discricionário” é esquisita, ninguém vai entender. Coloque ditadura.”

“Você tá louco, Rafael? Eu fiz parte daquela bosta!”

A partir desse dia passei a escrever seus discursos na TV.

Só para lembrar

Criminoso, genocida, ladrão — todos esses adjetivos se aplicam a Saddam Hussein.

Mas é bom não esquecer que nos últimos 40 anos o Iraque teve, pelo menos, uma sociedade secular. Mulheres tinham direitos que em outros países islâmicos seriam motivo para apedrejamento. Havia um certo tipo de liberdade de costumes que não é comum no Oriente Médio.

Os xiitas são maioria no Iraque, e agora, com Saddam e o Ba’ath fora do caminho, é mais que provável que cheguem ao poder.

Sei não, mas tenho a impressão de que as coisas vão ficar cada vez mais complicadas.

Retratos da vida

O que é a vida.

Eu aqui preocupado com as eleições americanas, perdendo tempo em apregoar o que julgo ser o início de uma nova era, o DNAS perdendo tempo discordando, e os americanos mais preocupados com outras coisas:

46% dos americanos acham que Al Sharpton tem um troço maior;

43% acham que ele é o candidato que teve mais parceiras sexuais — o mesmo número de gente que acha que ele já se meteu em surubas;

25% acham que Bush é melhor de cama;

30% acreditam que Bush já teve experiências homossexuais.

Notícia completa aqui.

Yankees go home

Eu escrevi um post sobre o “cadastramento” dos americanos nos aeroportos brasileiros e apaguei. Depois, quando vi o branquelo Colin Powell reclamando do Brasil ousar se considerar igual aos EUA, pensei em escrever novamente, mas achei que já tinha tanta gente falando do assunto que não valia a pena.

Um artigo do Elio Gaspari que eu botei na cabeça que vi no blog da Mônica Japiassú, mas que foi no da Suraya, deixa as coisas bem claras. Assumir uma postura de igualdade é o mínimo que um país que se respeite pode fazer. A postura do Brasil é um exemplo simples de vergonha na cara.

Há só duas questões a serem levantadas nesse imbroglio todo.

O primeiro é reconhecer que não há muitos casos de americanos tentando imigrar legalmente para o Brasil. E essa é a verdadeira razão para o fichamento lá. O procedimento brasileiro é justo, mas é retaliação.

O segundo é a sensação de invenção da roda que de repente acometeu os governistas. É como se só a partir de agora o Brasil começasse a assumir uma postura soberana no cenário internacional.

A postura do governo Lula é praticamente irrepreensível. Em discurso e em atitudes, tem mostrado que o Brasil é um país que se acha digno desse nome.

Mas essa atitude, digamos, orgulhosa, não começou agora. Estão esquecendo que no governo passado houve pelo menos três momentos em que o Brasil se recusou a baixar a cabeça: o caso da disputa Embraer x Bombardier, o caso da carne com o Canadá e a batalha do Ministério da Saúde em torno das patentes dos remédios contra a Aids.

O Governo Lula tem pontos positivos em número suficiente para não precisar subestimar as conquistas do governo FHC. Até porque, em tantos aspectos, é bem parecido com ele.

Poder para as massas

10 anos depois de a internet ter se transformado em uma mídia popular, até há pouco tempo eu continuava relativamente cético quanto às transformações políticas que os sábios prometiam vir do uso da rede. A visão era simples: a internet colocaria mais poder nas mãos da pessoa comum, tornaria o mundo mais complexo e mais democrático.

Eu achava tudo isso exagero, provavelmente por ter sido criado em uma era em que o grande meio de comunicação era a TV. Tinha plena certeza de que as coisas estavam mudando, e me maravilhava com isso — mas não sabia que seria tão rápido, nem tão radical.

Nas últimas semanas um concurso de comerciais anti-Bush talvez tenha representado a ruptura final. Uma série de comerciais foi produzida por gente comum, e conseguiram tanta publicidade que o vencedor talvez consiga ser apresentado no Superbowl — o equivalente nos EUA a uma final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina. A maneira como as pessoas interagem com a política sofre, agora, uma mudança importante. A partir de agora as coisas jamais voltarão a ser as mesmas.

Essa é uma mudança real, a primeira realmente significativa desde o início da mídia de massas. O que parecia remoto e visionário já é uma realidade. Esse é o momento realmente importante, o marco zero de uma nova era; o que vem de agora em diante é apenas a evolução. A Bastilha já começou a cair.

Aurora

Lembrando muito de Bob Dylan:

Because something’s happening
but you don’t know what it is.
Do you, Mr. Jones?

A candidatura de Howard Dean pode estar inaugurando um novo tempo em campanhas políticas: o tempo da internet como mídia significativa e influente, como nota Pedro Dória.

E a Wired tem uma matéria em que escancara essa percepção de uma vez: “Como a Internet inventou Dean“.

Assim como Roosevelt teria inaugurado a era política do rádio e Kennedy a da televisão (na verdade, por incrível que pareça Nixon a usou politicamente antes, para variar tentando consertar uma bobagem; daquela vez ele conseguiu), Dean estaria inaugurando a era da internet. Está aproveitando o nível crescente de sofisticação da rede, a partir da equação e-mail + blog = comunidade.

Ainda é cedo para dizer quem vai ganhar esta eleição, e a analogia de que todos os que iniciaram o uso de uma nova mídia se elegeram e foram presidentes importantes é pouco mais que um exercício de vontade. Também é cedo para dizer se a campanha brasileira vai absorver já em 2004 essa nova mídia; de 1996 (o ano em que primeiro se usou internet nas campanhas eleitorais no Brasil) para cá pouca coisa mudou. O que fica é aquela impressão gostosa de que estes são tempos de maravilhas em eterna mudança.

Elogios a Doris

Lula ontem elogiou publicamente o ministro Doris Ricardo Berzoini.

Elogios são feitos para pessoas que fazem coisas boas. Logo, isso quer dizer que o presidente achou bonito o espetáculo do crescimento das filas de velhinhos que o Berzoini — que odeia filas — causou.

A propósito, determinar um prazo exíguo para o recadastramento dos macróbios, fazê-los pegar filas excruciantes e depois dizer que o prazo é de cinco anos pode ser definido por alguma outra palavra que não “palhaçada”?

Talvez. “Canalhice” é uma boa alternativa.

Dos delitos e das penas

Jim Thompson termina The Getaway (livro que foi filmado duas vezes, a primeira com Steve McQueen e Ali McGraw, a segunda com Kim Basinger e Alec Baldwin) com uma alegoria. Os ladrões estão ricos, mas para garantir sua segurança vivem num mundo à parte que na verdade é uma prisão surreal, e em que tudo o que compram custa muito, muito caro.

Saddam foi preso com com 750 mil dólares. Se o que diziam da fortuna que tinha consigo era correto, se esconder durante quase um ano lhe custou muitos milhões.

O crime não compensa.