Há alguns anos encontrei a então ministra Marina Silva no aeroporto de Salvador. Estávamos diante das vitrines de uma loja que vendia artigos de couro belíssimos e com preços condizentes com a sua beleza. A ministra carregava uma bengala, e minha sobrinha, despachada, perguntou o que ela tinha. Marina Silva sorriu para ela, falou alguma coisa e, acompanhada de um assessor, entrou na loja. Eu, que não podia sequer ousar sonhar em comparar aqueles artigos caríssimos, fui embora.
Saí do “encontro” impressionado com a ministra. Marina Silva tem ao redor de si uma aura de pureza e tranqüilidade que raramente se vê por aí — e que eu nunca vi em nenhum político.
Deve ser essa simpatia, essa aura de superioridade humana que qualquer pessoa honesta precisa reconhecer na pessoa de Marina Silva que justifica parte da empolgação de setores da esquerda com a sua eventual candidatura à presidência do Brasil.
Frei Leonardo Boff escreveu um artigo no Onda Latina defendendo a candidatura da ex-ministra. Consiste basicamente na citação de uma carta do sociólogo mineiro Pedro Ribeiro de Oliveira, autor de um livro recente chamado “A Consciência Planetária e a Religião”. Ambos defendem a candidatura de Marina Silva, partindo da presunção de que estamos em uma encruzilhada histórica e que chegou o momento de trocar a idéia do “progresso sem fim pelo caminho da harmonia planetária”.
Esse discurso telúrico parece surgir a partir de uma leitura equivocada da realidade, temperada com uma boa dose de messianismo político. Talvez o fato de os sujeitos desse texto — o sociólogo, o frei e a candidata — terem fortes vínculos religiosos ajude nisso.
É provável que um dos maiores erros da esquerda brasileira em toda a sua história tenha sido não perceber e não entender a emergência da questão ambiental como um dos temas fundamentais do final do século XX. Preocupada com uma visão que já fora correta, mas tinha se defasado com a evolução do capitalismo, de modo geral a esquerda repudiou o movimento verde como “coisa de burguês”. A questão ambiental, como qualquer outra questão — racial, de gênero, todas as outras — seria resolvida quando se resolvesse o problema da luta de classes.
O resultado não foi bom. No vácuo gerado pela incompreensão da esquerda e pelo óbvio desinteresse da direita, a bandeira ecológica foi empunhada pelo PV, basicamente oriundo de uma parcela de guerrilheiros de classe média que, exilada na Europa nos anos 70, presenciou o fortalecimento político do movimento verde, na esteira do vácuo ideológico pós-1968. Gabeira e outros perceberam que o ambientalismo, como o chamam agora, apontava o futuro. Era algo que, de tão importante, transcendia a luta de classes.
O problema é que essa última frase é uma pequena armadilha. Ainda que permita uma atuação autônoma, ecologia não transcende a luta de classes. E não pode ser analisada fora do panorama macro-estrutural. É nesse nem tão pequeno detalhe que mora a raiz do equívoco em que se transformou o PV e também do erro que é esse artigo de Frei Leonardo Boff.
Sem estofo, sem conteúdo real, o resultado dessa visão foi um partido que, apesar de armado com excelentes intenções e uma grande intuição sobre o que seria o futuro, foi incapaz de entender o presente e construir a base teórica necessária para sua consolidação. Ideologicamente pobre, o PV — uma grande idéia que, fosse a vida diferente, hoje poderia representar o que o PT representou 30 anos atrás e o que o Partido Comunista do Brasil representou há 90 — não conseguiu construir um ideário consistente e degenerou em um partidinho de aluguel barato para a direita, na prática não muito diferente dos PRONAs da vida. Apenas um pouco mais chique.
É provavelmente isso que está na base da incompreensão de frei Leonardo Boff e Pedro Ribeiro de Oliveira. Ao declarar que “o paradigma do progresso sem fim desnuda sua fragilidade teórica e seu dogma antes inquestionável ameaça ruir”, especialmente dentro do contexto de uma candidatura presidencial, fica subentendido que, para eles, o governo Lula e o modelo de governo que ele representa já completaram o processo de superação de um momento histórico, e que Marina Silva seria o passo lógico à frente.
Se olhassem em volta e tentassem ver o Brasil real, o frei e o sociólogo não diriam que o “paradigma do progresso” se esgotou. Porque não é preciso procurar muito para ver um bocado de exemplos vivos para os quais o progresso sequer chegou. Não foi apenas para o pessoal que mora nos cafundós Amazônia ou no Raso da Catarina, mas também milhões de favelados em qualquer centro urbano. Há ainda um longo caminho a ser trilhado nesse sentido, e ele passa, sim, pela concretização do vilificado discurso desenvolvimentista que Marina Silva quer combater. Longe de ter realizado seu papel histórico, esse grupo que inclui Lula e Dilma Rousseff não completará esse ciclo. Isso ainda vai demorar.
É óbvio que a questão ambiental é hoje um tema fundamental. Mas em hipótese alguma esse discurso empalmado por Marina teria condições de ser o eixo da ação. Por exemplo, o PV tem torcido o nariz para as possibilidades abertas pela exploração de petróleo no pré-sal alegando preocupações ambientais. É o discurso do atraso disfarçado de moderno. E é a diferença entre o moderno e o atraso travestido que frei Leonardo Boff não consegue entender.
A solução, no entanto, não está em lutar para eleger uma presidente politicamente fraca que será incapaz de realizar as mudanças prometidas. Está em discutir e implementar mudanças na forma como se realiza o tal “paradigma do progresso”, torná-lo mais moderno, respeitar uma conjuntura nova e transformá-la em, bem, progresso.
Esse artigo não passa muito de uma justificativa teórica mambembe que Boff e Oliveira tentam apresentar para a candidatura de Marina Silva. Talvez para tentar afastar a impressão de que a candidatura da ex-ministra, neste momento, é oportunista. A justificativa teórica não consegue se sustentar, mas provavelmente é a única maneira de tentar legitimar essa candidatura: quando tentam sair da utopia e do discurso pretensamente ideológico, o resultado pode ser desastroso:
É evidente que o PV é um partido que pode até ter sido fundado com boas intenções mas hoje converteu-se numa legenda de aluguel. Ninguém imagina que a Marina — na hipótese de ganhar a eleição — vá governar com base no PV. Se eventualmente ela vencer, terá que seguir o caminho de outros presidentes sul-americanos eleitos sem base partidária e recorrer aos plebiscitos e referendos populares para quebrar as amarras de um sistema que “primeiro tomou a terra dos índios e depois escreveu o código civil”.
Frei Leonardo Boff e Pedro Ribeiro de Oliveira falam isso com alegria — olha a revolução chegando aí, gente! É impressionante que eles achem que o Brasil esteja no mesmo nível de uma Venezuela ou Bolívia — no plano institucional ou econômico. Se é essa a proposta de país que eles querem, as coisas estão complicadas. É difícil acreditar que realmente defendam um discurso bolivariano que, se talvez justificável na Venezuela e certamente aplicável à Bolívia, no Brasil não passa de insanidade. E do jeito que falam até parece que Marina Silva teria condições de polarizar um país como Júlio César Chavez. A única coisa louvável nesse trecho é o reconhecimento da condição de michê da política ocupada pelo PV hoje. E isso, definitivamente, não é um bom sinal.