A permanência das coisas

Comício com Luiz Carlos Prestes em Aracaju, durante a campanha eleitoral de 1945.

Prestes faz o seu discurso, e aos poucos as pessoas vão indo embora. (Apesar disso, Iêdo Fiúza foi o candidato mais votado na cidade.)

Para tentar lembrar ao pessoal as vantagens óbvias do socialismo sobre o capitalismo, Prestes faz uma última tentativa:

“E tem mais, camaradas! No socialismo, quem não trabalha não come!”

E então o comício esvaziou de vez.

Só para lembrar que as coisas não parecem ter mudado muito de lá para cá, e as pessoas parecem continuar querendo comer sem trabalhar. Pelo menos quando o empregador é o Estado.

É preciso ser muito bobo para confundir a idéia de socialismo com a noção de que o Estado deve ser uma vaca de tetas infinitas. “De cada um segundo sua capacidade; a cada um segundo sua necessidade”, um velho adágio leninista, não parece reverberar profundamente na cabeça dessas pessoas.

As vozes dos derrotados

Os senhores jornalistas, que se arvoram em defensores da liberdade e da democracia, tentando reescrever a história e inventando até — como a Época dia desses — que o Estadão resistiu à ditadura de 1964, deveriam ter um mínimo de vergonha na cara e se pronunciar contra o depoimento podre do ex-ministro e ex-chefe do DOI-CODI Leônidas Pires Gonçalves no Globonews, ontem à noite.

Eu fui um militante comunista. Sou stalinista, como lembra de sacanagem o Idelber. E tenho muito orgulho do que fui e do que sou. Como tenho muito orgulho da herança que me coube: a crença na capacidade de cada indivíduo de dar o melhor de si não apenas em benefício próprio, mas para melhorar, de alguma forma, o mundo.

É por isso que não admito que um sujeito ao menos indiretamente responsável por tantas mortes venha tentar jogar lama sobre a memória de brasileiros dignos e honestos como os tantos mártires que tiveram a coragem de lutar contra criminosos que subverteram a ordem política e institucional deste país e o arrastaram a um tempo excessivamente longo de miséria e obscurantismo.

Eu aprendi a respeitar brasileiros valorosos como Manoel Fiel Filho, como Maurício Grabois, que morreu ao lado do filho tentando recuperar o país que vocês nos roubaram. A respeitar os tantos homens e mulheres que morreram nas mãos de criminosos e torturadores que se diziam militares. Do meu ponto de vista, general, vocês fizeram o mesmo que assaltantes vagabundos fizeram: mas em vez de facas e revólveres vocês usaram tanques. Não há diferença, na essência: um assaltante qualquer rouba dinheiro; vocês roubaram um país e as vidas de centenas de brasileiros.

Quando você vem a público e tem a desfaçatez de afirmar que Vladimir Herzog se suicidou, você desrespeita a memória de um homem que foi assassinado covardemente pelo regime do qual o senhor fazia parte — um assassinato tão covarde que vocês sequer tiveram a coragem de assumir a porcaria que fizeram. Quando tem a falta de vergonha de chamar os exilados de fugitivos, chamando-os indiretamente de covardes, você desrespeita qualquer noção de civismo neste país. Quando chama as indenizações aos torturados de “bolsa-ditadura”, você mostra o seu desprezo pelas próprias noções de justiça e dignidade.

Em determinado momento, com o descaramento que só velhos ultrapassados que já detiveram muito poder podem demonstrar, você perguntou aos técnicos presentes se seus pais tinham sido presos. E depois acrescentou: se foram presos é porque tinham feito alguma coisa.

Com outras palavras, o general chamou de criminosos, puros e simples, todos aqueles que tiveram a coragem de se levantar contra a opressão.

Pois o meu pai foi preso pelo seu regime, general. E você não ouse chamá-lo de criminoso, porque você não tem moral para isso. Ele tinha apenas 17 anos, e o seu crime foi escrever uma coluna sobre sindicatos no jornal. Foi preso por pessoas como você, sub-humanos que não merecem ser chamados de gente escondidos sob fardas militares, pessoas cujas mentiras só podem ser ouvidas hoje em dia porque a gente acaba tendo que compactuar com uma mídia ruim como essa; é o preço que pagamos pela democracia que vocês tentaram destruir e que, graças ao sacrifício desses que você hoje chama de criminosos, conseguimos recuperar.

O meu consolo, e o consolo de todos aqueles que vêm Leônidas Pires falar as besteiras que quer — talvez com a condescendência de que apenas velhos senis podem usufruir, mas que não é devida a nenhum integrante da ditadura militar –, é que no fim das contas nós ganhamos a guerra. Entendeu, general? Vocês perderam. Resta ao general de pijama Leônidas o peso de saber que foi a sua geração que destruiu o Exército Brasileiro, que o colocou em um patamar imoral e abaixo do papel histórico que ainda poderia cumprir. Foram vocês que transformaram soldados em torturadores e desgraçaram por muito tempo uma instituição nacional importante.

E por isso, senhor general, você é apenas um derrotado com as mãos sujas. Morra com isso na sua consciência.

Lula, o cachalote

Este blog anda calado sobre política.

Não é por desinteresse — até porque quem sabe como ganho o leitinho das crianças sabe também que esse é um assunto que muito me interessa.

Mas eu não falo sobre política ultimamente porque gosto muito da história do Essex.

O Essex era um baleeiro americano afundado por um cachalote em 1820. Apenas oito marinheiros sobreviveram; e para isso tiveram que comer sete de seus companheiros. Ouvi falar dele pela primeira ao ler “Moby Dick”, aí pelo início da adolescência (aquela edição azul da Abril Cultural em dois volumes, alguém lembra dela?). E até hoje a história de seus sobreviventes é, para mim, uma das mais interessantes da história da marinharia.

E nada, nada me tira a sensação de estar assistindo a uma réplica das tribulações dos sobreviventes do naufrágio do Essex quando vejo os percalços do PSDB ao defender sua candidatura à presidência da República, uma candidatura que mesmo antes de ser lançada parece malsinada a compartilhar a sina dos sete marinheiros comidos para garantir a sobrevivência de seus companheiros.

Tudo isso por causa não de um cachalote, mas de uma lula.

Para o mano Caetano

Tem coisas que a gente não espera ver nunca na vida, Caetano.

Não me refiro à sua agressão gratuita ao presidente Lula, porque já cheguei à conclusão de que quando você não tem o que dizer, diz alguma coisa assim mesmo, uma besteira qualquer, para ver se as pessoas não esquecem de você.

Mas eu não esperava que a própria dona Canô viesse lhe dar um esporro público. E não esperava ver a elegância com que o homem que você chamou de grosseiro e cafona reagiu diante disso, e com um gesto simples, um telefonema de nada, colocou as coisas em seu devido lugar e mostrou quem é grosseiro e quem é realmente elegante.

Eu não consigo lembrar de alguma ocasião na política brasileira em que um presidente tão atacado do ponto de vista pessoal — não por você, que cá entre nós suas opiniões políticas não são lá muito dignas de crédito ou atenção, mas por uma imprensa especializada em mentira e em se aproveitar de declarações infelizes de bobos alegres — tenha sido capaz de um gesto de tanta classe, e ao mesmo tempo tão simples.

É isso que você chama de cafonice, Caetano? Um homem que, mesmo agredido, consola a mãe do agressor? É isso que você chama de cafonice e grosseria?

O mais engraçado em tudo isso é que para você o Lula é analfabeto, mas o casca-grossa, o grosseiro e ignorante em toda essa história foi você. Agrediu um homem desnecessariamente, e em vez de conseguir a polêmica que queria apenas deu a ele a oportunidade de ser magnânimo e generoso. Você disse que o Lula não sabe falar; mas me parece que enquanto da boca do presidente saíram palavras de conforto e acima de tudo elegantes, da sua — um intelectual reconhecido por muita gente, um senhor artista e cantor autor de livros publicados e filmes exibidos — saíram apenas bobagens repetidas, ditas com ódio injustificado: grosseiro, cafona, não sabe falar.

Onde você é grosseria e agressividade, o Lula foi elegância e delicadeza; e considerando que você perdeu uma grande oportunidade de ficar calado, ou de apenas declinar sua intenção de voto em Marina Silva, eu chego à conclusão de que você não é proveito, é pura fama. Sinto lhe informar algo que você já deve saber: nessa, Lula comeu o seu coração. Trincou, mordeu, mastigou, engoliu, mascou, moeu, triurou, deglutiu, comeu seu coraçãozinho de galinha num xinxim.

Eu não estou dizendo que seja muito fácil para você estar na posição em que está. Um de seus amigos, Gilberto Gil, foi ministro do presidente que você chama de analfabeto, e realizou um grande trabalho à frente da cultura brasileira. Sua mãe, uma tradição baiana de 102 anos, diz que gosta do presidente Lula e se sentiu incomodada com as suas palavras; e como coração de mãe é infinito tentou desculpar você chegando à essência da verdade: “Caetano é só um cantor”. Você ganha muito dinheiro apelando para leis de incentivo fiscal, as mesmas que enriqueceram a produtora de cinema de sua mulher. Poucos, como você, conseguiram aproveitar tão bem a onda de crescimento do país e o impulso que o governo Lula deu à cultura nacional. Por isso sou o primeiro a admitir que, sim, para você deve ser difícil adotar uma posição extremamente preconceituosa e elitista enquanto a realidade que lhe cerca lhe desmente a cada dia.

Você, eu sei, é fã de Fernando Henrique Cardoso. Quando o excelentíssimo senhor acadêmico era presidente, ele respondia às críticas de Chico Buarque ao modelo de país que implantava dizendo preferir você; e talvez seja esse incômodo diante da democracia e da convivência com um ponto de vista diferente que acabam aproximando vocês dois. Como duas comadres de maus bofes e mal amadas, vocês parecem fofocar entre si, conversinhas miúdas que não levam a nada

Fernando Henrique é aquele político brasileiro que faz filhos nas empregadas de casa e não os assume. O homem que o senhor venera e considera modelo para o país é o sujeito que esperava dona Ruth dormir para se esgueirar até o quarto da empregada, velho sátiro babão que se aproveitava de sua condição social; já o cafona grosseiro é aquele que ligou para sua mãe e disse umas duas palavrinhas de conforto, sabendo que ela ficou incomodada com as suas declarações bobas — bobas até para o padrão baixo que você tem seguido nos últimos anos; esse papo seu tá qualquer coisa, você já tá pra lá de Marrakesh.

Falei em dona Ruth e me lembrei que ela era uma muher admirável; talvez seja coincidência, mas as últimas notícias que vêm do excelentíssimo senhor sociólogo me dão a impressão de que com a morte de dona Ruth aquele senhor idoso perdeu o seu referencial moral; e não me refiro apenas às notícias de escapadelas senhoriais (que apenas me sugerem que ele sempre foi assim, escondido debaixo da capa da hipocrisia), mas ao teor de suas declarações, à sua disposição de se expor ao ridículo.

Caetano, acho que o seu problema é muito simples: você não consegue entender o novo. De certa maneira é triste ver que um sujeito a quem a cultura brasileira deve tanto, a quem a música pode olhar e dizer “eu sou filha ou neta dele”, tenha escolhido passar sua velhice dando sinais prematuros de caduquice. O tempo passou na janela e só Caetano não viu. Alguma coisa está fora da ordem, Caetano. E essa coisa é você.

Modinha para FHC…

… ou “É nisso que dá ter um pé na cozinha“.

Tava jogando sinuca,
Uma nega maluca lhe apareceu,
Vinha com um filho no colo,
E dizia pro povo que o filho era seu.

Não senhor,
Toma que o filho é seu,
Não senhor,
Guarde o que Deus lhe deu.

Há tanta gente no mundo,
Mas seu azar é profundo,
Veja você, meu irmão,
A bomba estourou na sua mão,
Tudo acontece com ele,
Ele que nem é do amor…
Até parece castigo,
Ou então influência da cor.

A ex-ministra, o frei e o sociólogo

Há alguns anos encontrei a então ministra Marina Silva no aeroporto de Salvador. Estávamos diante das vitrines de uma loja que vendia artigos de couro belíssimos e com preços condizentes com a sua beleza. A ministra carregava uma bengala, e minha sobrinha, despachada, perguntou o que ela tinha. Marina Silva sorriu para ela, falou alguma coisa e, acompanhada de um assessor, entrou na loja. Eu, que não podia sequer ousar sonhar em comparar aqueles artigos caríssimos, fui embora.

Saí do “encontro” impressionado com a ministra. Marina Silva tem ao redor de si uma aura de pureza e tranqüilidade que raramente se vê por aí — e que eu nunca vi em nenhum político.

Deve ser essa simpatia, essa aura de superioridade humana que qualquer pessoa honesta precisa reconhecer na pessoa de Marina Silva que justifica parte da empolgação de setores da esquerda com a sua eventual candidatura à presidência do Brasil.

Frei Leonardo Boff escreveu um artigo no Onda Latina defendendo a candidatura da ex-ministra. Consiste basicamente na citação de uma carta do sociólogo mineiro Pedro Ribeiro de Oliveira, autor de um livro recente chamado “A Consciência Planetária e a Religião”. Ambos defendem a candidatura de Marina Silva, partindo da presunção de que estamos em uma encruzilhada histórica e que chegou o momento de trocar a idéia do “progresso sem fim pelo caminho da harmonia planetária”.

Esse discurso telúrico parece surgir a partir de uma leitura equivocada da realidade, temperada com uma boa dose de messianismo político. Talvez o fato de os sujeitos desse texto — o sociólogo, o frei e a candidata — terem fortes vínculos religiosos ajude nisso.

É provável que um dos maiores erros da esquerda brasileira em toda a sua história tenha sido não perceber e não entender a emergência da questão ambiental como um dos temas fundamentais do final do século XX. Preocupada com uma visão que já fora correta, mas tinha se defasado com a evolução do capitalismo, de modo geral a esquerda repudiou o movimento verde como “coisa de burguês”. A questão ambiental, como qualquer outra questão — racial, de gênero, todas as outras — seria resolvida quando se resolvesse o problema da luta de classes.

O resultado não foi bom. No vácuo gerado pela incompreensão da esquerda e pelo óbvio desinteresse da direita, a bandeira ecológica foi empunhada pelo PV, basicamente oriundo de uma parcela de guerrilheiros de classe média que, exilada na Europa nos anos 70, presenciou o fortalecimento político do movimento verde, na esteira do vácuo ideológico pós-1968. Gabeira e outros perceberam que o ambientalismo, como o chamam agora, apontava o futuro. Era algo que, de tão importante, transcendia a luta de classes.

O problema é que essa última frase é uma pequena armadilha. Ainda que permita uma atuação autônoma, ecologia não transcende a luta de classes. E não pode ser analisada fora do panorama macro-estrutural. É nesse nem tão pequeno detalhe que mora a raiz do equívoco em que se transformou o PV e também do erro que é esse artigo de Frei Leonardo Boff.

Sem estofo, sem conteúdo real, o resultado dessa visão foi um partido que, apesar de armado com excelentes intenções e uma grande intuição sobre o que seria o futuro, foi incapaz de entender o presente e construir a base teórica necessária para sua consolidação. Ideologicamente pobre, o PV — uma grande idéia que, fosse a vida diferente, hoje poderia representar o que o PT representou 30 anos atrás e o que o Partido Comunista do Brasil representou há 90 — não conseguiu construir um ideário consistente e degenerou em um partidinho de aluguel barato para a direita, na prática não muito diferente dos PRONAs da vida. Apenas um pouco mais chique.

É provavelmente isso que está na base da incompreensão de frei Leonardo Boff e Pedro Ribeiro de Oliveira. Ao declarar que “o paradigma do progresso sem fim desnuda sua fragilidade teórica e seu dogma antes inquestionável ameaça ruir”, especialmente dentro do contexto de uma candidatura presidencial, fica subentendido que, para eles, o governo Lula e o modelo de governo que ele representa já completaram o processo de superação de um momento histórico, e que Marina Silva seria o passo lógico à frente.

Se olhassem em volta e tentassem ver o Brasil real, o frei e o sociólogo não diriam que o “paradigma do progresso” se esgotou. Porque não é preciso procurar muito para ver um bocado de exemplos vivos para os quais o progresso sequer chegou. Não foi apenas para o pessoal que mora nos cafundós Amazônia ou no Raso da Catarina, mas também milhões de favelados em qualquer centro urbano. Há ainda um longo caminho a ser trilhado nesse sentido, e ele passa, sim, pela concretização do vilificado discurso desenvolvimentista que Marina Silva quer combater. Longe de ter realizado seu papel histórico, esse grupo que inclui Lula e Dilma Rousseff não completará esse ciclo. Isso ainda vai demorar.

É óbvio que a questão ambiental é hoje um tema fundamental. Mas em hipótese alguma esse discurso empalmado por Marina teria condições de ser o eixo da ação. Por exemplo, o PV tem torcido o nariz para as possibilidades abertas pela exploração de petróleo no pré-sal alegando preocupações ambientais. É o discurso do atraso disfarçado de moderno. E é a diferença entre o moderno e o atraso travestido que frei Leonardo Boff não consegue entender.

A solução, no entanto, não está em lutar para eleger uma presidente politicamente fraca que será incapaz de realizar as mudanças prometidas. Está em discutir e implementar mudanças na forma como se realiza o tal “paradigma do progresso”, torná-lo mais moderno, respeitar uma conjuntura nova e transformá-la em, bem, progresso.

Esse artigo não passa muito de uma justificativa teórica mambembe que Boff e Oliveira tentam apresentar para a candidatura de Marina Silva. Talvez para tentar afastar a impressão de que a candidatura da ex-ministra, neste momento, é oportunista. A justificativa teórica não consegue se sustentar, mas provavelmente é a única maneira de tentar legitimar essa candidatura: quando tentam sair da utopia e do discurso pretensamente ideológico, o resultado pode ser desastroso:

É evidente que o PV é um partido que pode até ter sido fundado com boas intenções mas hoje converteu-se numa legenda de aluguel. Ninguém imagina que a Marina — na hipótese de ganhar a eleição — vá governar com base no PV. Se eventualmente ela vencer, terá que seguir o caminho de outros presidentes sul-americanos eleitos sem base partidária e recorrer aos plebiscitos e referendos populares para quebrar as amarras de um sistema que “primeiro tomou a terra dos índios e depois escreveu o código civil”.

Frei Leonardo Boff e Pedro Ribeiro de Oliveira falam isso com alegria — olha a revolução chegando aí, gente! É impressionante que eles achem que o Brasil esteja no mesmo nível de uma Venezuela ou Bolívia — no plano institucional ou econômico. Se é essa a proposta de país que eles querem, as coisas estão complicadas. É difícil acreditar que realmente defendam um discurso bolivariano que, se talvez justificável na Venezuela e certamente aplicável à Bolívia, no Brasil não passa de insanidade. E do jeito que falam até parece que Marina Silva teria condições de polarizar um país como Júlio César Chavez. A única coisa louvável nesse trecho é o reconhecimento da condição de michê da política ocupada pelo PV hoje. E isso, definitivamente, não é um bom sinal.

Por que Marina Silva não será candidata

A idéia por trás de cada uma das tentativas da mídia e da oposição de inflar a candidatura de Marina Silva para presidente da república — e virão mais por aí, ao longo dos próximos meses; o nome de Ciro Gomes é um dos mais prováveis — é declaradamente impedir que as eleições de 2010 assumam um caráter plebiscitário, em que o eleitor utilize o seu voto para, mais que eleger um novo presidente, aprovar ou não o governo Lula. A parcela da sociedade que se empolga com a candidatura de Marina faz isso porque acha que ela poderia evitar esse cenário em potencial, aterrador diante dos índices de popularidade do presidente.

Sem essa possibilidade, sua candidatura aderna e naufraga. É o que deve acontecer.

O desespero é mau conselheiro, e é apenas ele que explica o fato de algumas pessoas terem visto na senadora e ex-ministra uma possível anti-Dilma, uma mulher que embolaria o meio de campo de uma eleição que começa a ser definida cedo demais e a favor do governo; que garantiria um segundo turno e, com uma boa dose de sonho, poderia até tirar a candidata de Lula da disputa, abrindo caminho para uma candidatura mais sólida do PSDB — Serra, por exemplo, embora o Luís Nassif já tenha demonstrado com precisão por quê a sua candidatura não vai funcionar.

Mas eu insisto que Marina Silva não vai ser candidata — ou, se for, vai ser candidata nanica, sem apoio político, sem horário na TV, sem repercussão, sem nada, infelizmente candidata com menos expressão do que Heloísa Helena nas eleições passadas.

Marina não vai ser candidata porque não agrega nada à oposição. Se em um primeiro momento as pessoas se empolgaram porque ela poderia ser uma espécie de “Lula da oposição”, por causa do seu sexo e por causa de sua história, basta uma olhadinha simples para ver que ela, além de não oferecer uma solução real para o dilema da oposição, pode representar também um problema.

O que a direita não entendeu, e eu faço aqui o favor de explicar de maneira bem didática e simples, é que não foi só o país que mudou nesses oito anos: a história de Lula também. Não é mais a história do pau-de-arara nordestino que enfrentou a ditadura e chegou à presidência da República. É a história de um homem que, presidente, transformou o país. Além disso, falta à oposição entender que em 2002 não foi apenas a história de Lula que o elegeu: foi o conjunto de propostas, tudo o que a sua figura representava ao longo de pouco mais de 20 anos de trajetória política. Se as pessoas finalmente votaram em Lula foi porque queriam por à prova o seu discurso e as suas propostas.

Marina não representa uma substituta à altura em termos eleitorais, em primeiro lugar, porque não oferece uma proposta real de governo. Tem apenas um discurso fácil que mistura exemplo pessoal, posicionamento de defesa aparentemente intransigente do meio-ambiente e talvez uma fatia indefinível de eleitores evangélicos. O problema é que candidatos de uma plataforma só não vão a lugar nenhum, e Cristovam Buarque está aí para provar.

Mas o grande entrave diante da candidatura de Marina Silva, e é isso que provavelmente impedirá que ela seja candidata, é que ela canibaliza a verdadeira candidatura da oposição — um Serra, digamos –, sem agregar força suficiente para se tornar a opção preferencial.

Apesar do que a maioria dos analistas acha, Marina não deve tirar uma parcela realmente significativa dos votos que Lula deve transferir para Dilma, porque o seu discurso diz pouco ou nada a essa parcela da população. O nicho de Marina seria justamente boa parte de uma classe média que já tem uma inclinação clara pelo voto contra o candidato de Lula — gente preocupada com temas como aquecimento global e razoavelmente seguras de sua própria estabilidade econômica. O mais provável é que Marina tire os votos que já são do PSDB, os votos da oposição. No Rio de Janeiro, como apontou o Maurício Dias na revista Carta Capital, ela destrói a base eleitoral do PSDB, que em tese seria a base de Gabeira. No Nordeste, a região que mais cresceu nesses oito anos, reduzindo bastante o nível de pobreza, e historicamente infenso a esse discurso, a situação é ainda mais crítica.

No fim das contas a candidatura de Marina, se se confirmar, será um desserviço a ela mesma e à sua história. Este blog elogiou Gabeira quando saiu do PT, naquele momento um movimento coerente e digno — elogios que hoje, ao ver a sua transformação em vestal udenista hipócrita, não mantém. Mas olha decepcionado para Marina — pela sua ingenuidade ao se prestar ao papel de boi de piranha da oposição em nome da construção do seu próprio projeto político, pelo oportunismo demonstrado no momento escolhido para saída do PT e pelo namoro com um partido que, já há pelo menos uns bons quinze anos, tem se mostrado pouco mais que acessório de luxo do que a política brasileira tem de mais conservador. É decepcionante que uma mulher de valor inegável, uma pessoa que um país inteiro aprendeu a respeitar pelo seu exemplo, acabe voltando as costas para a sua história e tente se transformar na musa do verão 2009/2010 da república Morumbi-Leblon.

O futuro é em outra direção

Depois dizem que é exagero meu.

Alguns políticos do DEM, aqueles com mais chances na disputa eleitoral do ano que vem, acabam de voltar da Espanha, onde participaram de um curso de oratória e marketing político patrocinado pelo diretório municipal. Entre eles estavam José Roberto Arruda, do Distrito Federal, Paulo Souto, da Bahia, e João Alves Filho, de Sergipe.

É uma atitude louvável do DEM, que em vez de fazer o já tradicional biquinho udenista tenta correr atrás do prejuízo, oferecendo aos seus militantes cursos de Bolsa Família e, agora, cursos de marketing político.

É também coisa de gente chique, que faz cursos na Espanha, porque certamente são mais agradáveis aquelas bandas madrilenhas.

E coisa de gente que não consegue entender o mundo, porque o curso foi dado pela equipe de marketing de John McCain, candidato (derrotado) à presidência dos Estados Unidos (e não do Brasil).

A triste sina do PSDB, que não consegue mais olhar para a frente

Acredito que em 2002 os tucanos, diante de sua derrota eleitoral, se consolaram um pouco achando que em 2006 voltariam nos braços do povo para salvar o país da tragédia que teria sido o governo lula.

Admito até que em 2006, quando a derrota vergonhosa — eu nunca tinha visto um candidato ter menos votos no segundo turno do que no primeiro — foi bem mais significativa do que a de 2002, alguns menos dotados de inteligência, sem conseguir compreender como Lula tinha sobrevivido à crise do mensalão, acreditaram que em 2010 o país estaria pronto para eles; que mesmo que o governo não fizesse nenhuma grande besteira, seu desgaste seria tamanho que pavimentaria uma vitória relativamente fácil de Serra ou Aécio.

Enquanto o tempo passava, as táticas de ataque utilizadas variaram pouco. No começo, diziam que Lula tinha voltado as costas para o social e estava aparelhando o Estado — quando, na verdade, preparava o maior programa de distribuição de renda do Ocidente e “desaparelhava” a máquina estatal da revoada de tucanos encastelados em cargos no governo. Mais tarde se tornaram arautos de uma “ética” que eles mesmos jamais praticaram, nem mesmo fora do poder, como testemunham os amigos generosos do deputado Arthur Virgílio. Na falta de mais argumentos, reivindicaram a paternidade da política econômica de Lula, ainda que, ao lado de uma profunda pretensão que os faz se julgarem donos de fundamentos econômicos, esse argumento venha se esgarçando continuamente ao longo dos anos em que o governo tomou decisões que o distanciavam do monetarismo desgastado dos tucanos.

Mesmo há tão pouco tempo como 2008, apostaram que a crise mundial iria derrubar finalmente o governo, e riram antecipadamente quando o presidente falou que aqui ela seria apenas uma “marolinha”. Na sua cabeça estava ainda o Brasil de FHC, aquele que caía de cama quando os Estados Unidos espirravam. A reação do Brasil à crise, e principalmente as medidas tomadas pelo governo, deveriam enterrar de vez os pedidos tucanos de paternidade da política econômica de Lula, porque mostra acima de tudo a diferença na maneira e no conteúdo das decisões tomada; mas não é difícil reconhecer que, dado o seu histórico, isso talvez não seja suficiente.

Ainda assim, não acredito que agora algum deles tenha realmente alguma esperança de, a continuarem as coisas como estão, conseguirem tomar de volta o país.

Qualquer tucano sabe que, ao escolher Dilma Rousseff como sua candidata à presidência, Lula fez uma escolha magistral. Dilma é uma mulher com qualidades “masculinas”, provavelmente o melhor meio-termo possível em política: pode representar uma mistura de renovação com segurança. Uma mulher forte, de história invejável e competência administrativa reconhecida. Uma mulher identificada, acima de tudo, com o governo Lula, muito mais do que outras personalidades petistas, que sempre tiveram carreiras paralelas à do presidente — e aqui se pode citar um Aloísio Mercadante ou uma Marta Suplicy. Dilma atravessou incólume a crise do mensalão, e está à frente de um dos mais importantes projetos de infra-estrutura do país, o PAC. Assustados, tucanos apontam pesquisas que indicam Serra na frente — mas mesmo eles sabem que isso, a esta altura, não significa nada, significa apenas que ela está crescendo, o que é um cenário ainda pior do que o que eles gostariam.

O PSDB sabe que quando Lula aparecer na TV e no rádio, colocar a mão no ombro de Dilma e disser “Dilma sou eu na presidência, mas ainda melhor”, milhões de brasileiros decidirão imediatamente os seus votos.

O que eles ainda não conseguiram entender com clareza é a razão disso.

Infelizmente para o discurso tucano, isso não vai acontecer apenas por causa do Bolsa Família, apesar de sua importância (tardiamente reconhecida pelo PSDB, que agora oferece bisonhos “cursos de Bolsa Família” aos seus militantes). Ou porque Obama diz que Lula é seu chapa. Parece que ao PSDB é impossível admitir, se não publicamente, ao menos intimamente, que o governo Lula ainda é o que há de mais moderno, e apresenta uma alternativa de país superior à que eles estão preparados para oferecer.

E aqui está um pequeno conjunto incompleto da obra de Lula: avanços sociais que só tiveram paralelo na era Vargas, uma mudança significativa na forma como o país se comporta perante o mundo, a consolidação da variedade de parceiros comerciais, a solidificação das instituições democráticas apesar de todos os pesares (e, sim, apesar de muitos erros políticos).

Seria de se esperar que esse projeto, depois de oito anos, já se tivesse esgotado. No entanto, a nada disso o PSDB se mostra capaz de oferecer uma alternativa superior. É lamentável que nesses quase 8 anos os tucanos não tenham conseguido avançar em sua concepção de mundo. Pode-se até imaginar que o seu papel histórico tinha fôlego reduzido, realizar as reformas que Fernando Henrique Cardoso realizou em seu primeiro mandato e ser superado por conceitos mais modernos. E esse é o seu verdadeiro drama. O problema do PSDB não pode ser resolvido em uma discussão sobre ética ou sobre nomes.

Se se pode alegar que há 20 anos a esquerda era atrasada — e eu poderia discutir isso, admitindo sem muita vergonha que em muitas coisas estava, sim –, o fato é que é essa direita que um dia se pretendeu moderna hoje se vê superada até mesmo em seu próprio campo. O mundo que eles enxergam é o mundo de 1989, quando Mário Covas apontava uma concepção de Estado bastante pertinente e melhor que a que defendíamos. Mas o tempo passou e agora o PSDB não consegue apresentar um projeto superior ao da esquerda, aquele que será defendido no ano que vem por Lula e Dilma. Mostraram que não conseguiram se reciclar, e assistem às suas concepções serem superadas pela história — ao contrário do lado de cá, que entendeu que muitas de suas concepções filosóficas eram equivocadas e muitas vezes soube fazer correções de rota necessárias.

É como se para os tucanos esses 20 anos não tivessem passado. Talvez por necessidade política de uma oposição acuada e constantemente minada, talvez por mera incapacidade, mesmo, o PSDB que já foi uma força progressista importante preferiu regredir e se transformar em uma espécie de nova UDN lacerdista, olhando para o passado em vez de se voltar para o futuro.