Está na hora de prestar um serviço à oposição. De chamar-lhe à realidade. E isso pode ser feito com uma pergunta simples: por que votar em Serra?
É mais que hora da oposição tirar os olhos de Dilma, de sua saúde, do jeito como Lula se comporta. Chega de tentar criar factóides, como a CPI da Petrobras, que apenas tentam mascarar a sua inépcia — poucas coisas são mais impressionantes do que ver o PSDB, que sempre teve a Petrobras na mira da privatização e que a sucateou de todas as formas entre 1995 e 2002, hoje tentar aparecer como seu defensor, tentando jogar para baixo do tapete as melhoras significativas que a empresa alcançou durante a era Lula.
A oposição precisa de um banho de realidade. Não somente porque seria mais ético, mas porque, diante dos índices de popularidade de Lula, agir da forma que ela tem agido durante todos esses anos é o tipo de estratégia que não dá certo.
Alternância de poder é uma coisa maravilhosa. Permite que um projeto melhor, mais adequado, seja submetido ao país. Foi o que aconteceu em 2002. Ao projeto esgotado personificado por Fernando Henrique Cardoso, Lula apresentou uma concepção de país que, ao mesmo tempo em que mantinha o avanço e o respeito aos fundamentos econômicos registrados nos anos anteriores, levava o governo a uma nova atitude no que diz respeito à area social. Com o Bolsa Família, criou o maior programa de distribuição de renda do ocidente.
Aperfeiçoou a estrutura econômica brasileira e, se com Fernando Henrique o país quebrou três vezes, agora resistiu de maneira absoluta ao que chegaram a chamar de maior crise econômica da história. Levou o país a um novo patamar de respeito internacional. Mudou a atitude brasileira em relação ao comércio exterior, que antes, preocupada da tradicional maneira submissa com Naftas e quetais, deixava de lado mercados emergentes nos quais a nova diplomacia brasileira resolveu investir com resultados mais que satisfatórios.
Por tudo isso, não é com a saúde de Dilma que a oposição tem que se preocupar. É com esses fatos.
Em 2010, assim como em 2006, não vão adiantar factóides. Será preciso, ainda que isso a aterrorize, que a oposição apresente um programa de governo real e palpável. É algo que a sociedade vai cobrar dela. Ao contrário do que os saudosos do Plano Real possam imaginar, as eleições de 2010 não serão iguais às de 1994. O PSDB não vai estar na situação; e o povo não vai estar desesperado correndo de uma inflação de três dígitos. O país que a oposição vai enfrentar no ano que vem estará mais estruturado e mais bem encaminhado.
Resumindo: a oposição vai ter a inglória tarefa de apresentar conserto para um país que dá certo.
Há alguns anos, neste blog, eu lembrava a quem quisesse ler que era mais fácil para o governo achar um candidato à sucessão de Lula do que a oposição finalmente definir um programa. Dois anos se passaram e os fatos não parecem ter me desmentido. Aqueles que criticam o Bolsa Família, usando inclusive argumentos falsos e canalhas, até agora se mostraram incapazes de apresentar uma alternativa concreta ao programa. Estão correndo atrás do prejuízo.
Mas a essa altura, a oposição precisa ser objetiva. Precisa dizer claramente quais as razões pelas quais é melhor que José Serra — ou Aécio, ou qualquer um — seja eleito presidente do Brasil.
Não é, admito, uma tarefa fácil. Está claro que a missão de Dilma vai ser dar continuidade ao projeto de governo de Lula. O palanque de Dilma é sólido e de uma simplicidade espantosa: é continuar fazendo o que Lula fez. Ela não pretende reinventar a roda nem inventar a pólvora. Seu projeto é claro, definido, e de conhecimento público.
Qual é o projeto de Serra?
É preciso que a oposição faça a si mesma algumas perguntas. A primeira delas é: o que José Serra vai fazer de melhor como presidente? Sem cair na estupidez de dizer que este é um país que não funciona — porque, pela primeira vez em décadas, as pessoas finalmente sentem que ele melhora a cada dia –, o que Serra tem a apresentar que seja melhor do que Lula vem fazendo?
Quais as suas propostas para melhorar a distribuição de renda no país? Como ele fará com que o Brasil seja mais respeitado no exterior? O que ele pretende fazer para, sem passar por cima do jogo democrático e da separação de poderes, aumentar o nível de governabilidade do país?
Algumas armadilhas vão aparecer no seu caminho. Como justificar que, depois de oito anos dizendo que o Bolsa Família não presta, eles vão à TV e ao rádio dizer que não pretendem acabar com o programa? (Na verdade, eles já estão correndo atrás do prejuízo. Há cerca de duas semanas, o DEM e o PSDB de Sergipe realizaram um mini-seminário de um dia, com a presença do deputado federal carioca Rodrigo Maia, sobre Bolsa-Família. No que é um passo acertado, e uma correção de rumo há muito devida, a oposição resolveu deixar de lado a sua resistência irracional e aprender como é que se faz.)
Essas não são as únicas questões que vão aparecer diante da oposição. Eles vão precisar responder outras perguntas mais simples e que dão direito a menos tergiversações. Por exemplo: o que, no mandato de José Serra como governador de São Paulo, dá àqueles que o apóiam a convicção de que ele será melhor presidente do que Dilma? Com exceção de obras superfaturadas, crateras de metrô e livros didáticos heterodoxos, o que o governador de São Paulo vai poder apresentar como credenciais para que o povo brasileiro volte as costas ao projeto de Lula e vote nele?
Até agora, a neo-UDN tem apenas gritado e reclamado. Nesses oito anos, sua maneira de fazer oposição tem se mostrado aética e, definitivamente, nem um pouco republicana. Isso pode ser creditado ao seu desconforto nessa posição, em última análise. Mas isso são águas passadas. Do que se vai falar agora é de futuro. É de concepção de país. Pode ser uma perspectiva assustadora; mas é inevitável.
Está na hora de a oposição tirar a cabeça do buraco de onde grita “Está tudo errado!” e tentar mostrar às pessoas, afinal de contas, por que votar em Serra.

Durante toda a última semana, os tablóides de Londres — especialmente aqueles dados de graça no metrô, como o London Paper e o London Lite — se esforçaram ao máximo para criar um clima de caos na cidade, referente aos protestos anunciados durante a reunião de cúpula do G20, hoje.
Nos pasquins, o encontro dividia as atenções com a cobertura da morte de uma tal de Jade, que participou de um Big Brother, saiu depois de ter dito uma frase racista (como me informou a Carol) e então descobriu que tinha câncer, tornando-se uma espécie de namoradinha da Inglaterra e transformando os ingleses em uma nação de necrófilos; com Madonna querendo adotar uma criança em Malawi; e com Jaqui Smith, ministra que pagou umas contas de filmes pornô na TV por assinatura com dinheiro público. Enquanto isso, Gordon Brown tentava passar uma imagem de força dizendo que seria capaz de convencer os outros países a regularem melhor o sistema financeiro internacional, como se países como o Brasil precisassem disso e como se o Partido Trabalhista não estivesse no poder há 13 anos, sempre apoiando tudo o que Bush fazia.
Goste-se ou não, esses pasquins têm uma grande influência sobre a formação de opinião na cidade. Em resposta ao clima que tentaram criar, o prefeito de Londres, em entrevista à BBC anteontem, se viu forçado a reafirmar que a polícia de Londres não iria tolerar violência, mesmo deixando claro que esperava que as manifestações fossem pacíficas. Bancos e lojas no centro da cidade colocaram tapumes em suas portas e janelas — e a área em torno do Banco da Inglaterra, de repente, ficou parecendo Salvador no carnaval.
Na verdade eu tinha chegado atrasado: os manifestantes já tinham ido para a região em volta do Banco da Inglaterra — provavelmente a região mais feia da cidade, a que mais lembra São Paulo. Quando cheguei lá, três fotógrafos editando suas fotos editavam suas fotos em computadores, numa das tantas Starbucks das proximidades. A manifestação já lhes tinha dado um bom material, mesmo apenas no seu início. Eram fotos de gente alegre, tipos que caberiam bem numa festa a fantasia.
No entanto a multidão parecia alheia a tudo isso. O que se via era um grande desfile de pessoas que estavam ali para se divertir e, se pudesse, marcar uma posição que não pareciam saber bem qual era. Mais que manifestação política, aquilo era no máximo um desabafo bem-humorado.
E em meio a tudo isso, as pessoas tiravam fotografias. Talvez seja essa a mais forte impressão que fica da manifestação: esse foi um acontecimento absolutamente midiático. Praticamente todos estavam tirando fotos, com celulares, máquinas point and shoot como a minha e até mesmo máquinas SLR semi-profissionais. Tudo isso sem contar jornalistas. Todos queriam registrar a festa e a sua presença ali. A manifestação era, na verdade, um grande desfile.
Perguntei a uma policial se a manifestação estava sendo pacífica. Ela disse que sim. E imaginei que os policiais iriam sair dali decepcionados, sem ter batido em ninguém. Afinal, eu sou brasileiro e estou acostumado a isso.
Se não é uma impressão errada da manifestação, essa abordagem é, no mínimo, um superdimensionamento de seus aspectos negativos. Para a maior parte dos manifestantes, esses acontecimentos não podiam sequer se vistos. Faltou também dizer que a cidade continuou seu ritmo como se nada estivesse acontecendo. Que duas ou três ruas depois do Bank of England, era impossível perceber que havia uma manifestação nas proximidades. Que tudo aquilo foi pequeno, e que a maior parte das pessoas estava ali se divertindo.
Não se costuma ver na mídia perguntas sobre os cabelos tingidos de José Sarney, ou mesmo a retirada das bolsas sob os olhos de José Serra e de Fernando Henrique Cardoso — a não ser quando servem para justificar ataques como esse. O passado de Dilma Rousseff como guerrilheira e opositora da ditadura militar, ainda que remoto e pouco relevante hoje, é uma informação importante para o cidadão brasileiro. Se ela levantou ou não uma pálpebra, é no máximo assunto de tablóides de fofocas de novela. É a esse nível que a Época se rebaixa quando explora esse assunto.